«Mas vinha o clarão das chammas com a sua luz sinistra; vinha a labareda

fustigar com o lume a pobre gente semi-nua, tiritando sob o açoute de um

nordeste frigido; gelava-se e ardia-se a um tempo; suffocava-se em fumo

e pó! E as labaredas cresciam, e o incendio lavrava, e aos gritos

desvairados dos infelizes ajuntava-se o crepitar das madeiras o estalar

das cantarias, a cascalhada dos espelhos, dos crystaes e dos charões,

que o fogo devorava. A densa nuvem de pó que escurecia tudo,

illuminava-se com os clarões vermelhos que rebentavam por toda a parte,

porque Lisboa inteira derrocada era um brazeiro. As linguas orgulhosas

das chammas subiam emproadas para o ceo, juntando ás preces

lacrimosas dos habitantes como um protesto satanico dos elementos.

Outros protestos, mais positivos e egualmente horriveis, atroavam agora

os ares: os escravos vingavam-se da sua escravidão, os mendigos da sua

pobreza, os maus da sua maldade. O assassinato, o estupro, o roubo, como

n'uma terra posta a saque, rolavam de envolta com as ruinas e o fogo: e

por entre os destroços ainda apagados, viam-se os perfis negros dos

escravos, rindo infernalmente, com os olhos injectados, os dentes

brancos, a atiçar tições ardentes para cima das ruinas, augmentando o

incendio, acclamando a chamma vingadora!... Misericordia! Misericordia!»

Estas paginas tem o encanto da desordem e a majestade da força. O que

seria defeito na descripção de scenas calmas e de objectos regulares é

virtude na pintura de paysagens revoltas e de figuras desmedidas e

informes. A violencia extrema da imaginação é adequada ao caracter

terrivel do quadro. O sentimento vivo da energia que abunda nos

trabalhos do Sr. Oliveira Martins, não podia ter melhor emprego do que

na representação dos estragos produzidos pelo desencadeamento da

energia. Ajunte-se a estas paginas que transcrevo, outras que calo.

Leiam-se as suas descripções de incendios, batalhas, execuções,

matanças, sedições populares, tumultos parlamentares. Observe-se que

a poesia é a arte que tem por instrumento a palavra, e que a

palavra, pela sua origem provavel e pela sua ligação certa com a paixão,

é uma expressão natural dos movimentos da alma, que a obra litteraria

tem antes um alcance moral do que um valor plastico, e ver-se-á que tive

razão quando disse que o Sr. Oliveira Martins procedia na composição das

suas paizagens não como um pintor mas como um poeta.

Como um poeta e como um geographo. Não só as suas paizagens são

sentidas, mas ainda pensadas. Ellas são para elle não só fontes de

emoção, mas resultados de forças, constituidas em systemas naturaes pela

communidade das causas que as determinam, e pela identidade de effeitos

que provocam nos espiritos sobre que actuam. São poemas que se leem,

effeitos que resultam, e meios em que se vive. Assim, depois, de ter

descripto a largos traços a paizagem italiana, resume: «Ao sul da Italia

reinam os vulcões, ao norte imperam os rios; além o constructor da terra

é o fogo, aqui a agua.» Leia-se na _Historia de Portugal_ esta

descripção do littoral alemtejano.

«As aguas estagnam ou escasseiam nos baixos, as populações definham. Ou

torradas pelo arido suão que os areaes ardentes não podem suavisar, e

sem montanhas que obriguem os vapores do mar a condensarem-se, ou

envenenadas pelos miasmas dos paúes que o sol de fogo põe numa

fermentação permanente, as populações amarellidas e magras definham,

curvadas pelo mortifero trabalho das marinhas de sal, ou da cultura do

arroz. São o contraste das baixas do norte do paiz, estas baixas do sul.

Além, copiosas chuvas e uma humidade criadora; aqui, o ar secco (500 a

700 mill. annuaes, 30 a 50 no estio; humidade 30 a 80%), duro e

carregado de emanações mephiticas. Além uma temperatura branda, aqui um

calor excessivo (med. 17°). Além uma população exuberante; aqui as

solidões e os areaes nus, matisados pela traiçoeira cevadilha, e pelo

aloés orgulhoso, levantando com imperio o seu pennacho de carmim. Além

homens laboriosos e familias; aqui esfarrapadas tribus em choupanas,

tiritando com o frio das sezões n'uma atmosphera de fogo, mulheres

esqualidas, crianças verde-negras, homens na indifferença da desolação,

ou na vertigem do crime!» Eil-o que penetra na paizagem fazendo

reflexões de geographia e meteorologia, munido de um udometro e de um

hygrometro. A imaginação não fica abafada sob os dados numericos e

technicos, e o quadro com ser instructivo não deixa de ser artistico.

Dos dois caracteres que notamos nas paizagens do Sr. Oliveira Martins, o

ser uma transcripção de emoções e o ser a explicação de um mechanismo

o ultimo predomina no trecho que acabamos de citar, o primeiro no

que antes citaramos; ambas apparecem n'um justo equilibrio no que

passamos a citar.

«Aquem Tamega o scenario muda. A humidade cria em toda a parte

vegetações abundantes; não ha um palmo de terra d'onde não brote um

enxame de plantas; mas como o solo é breve, como a rocha afflora em toda

a parte, e os campos nascem do terreno vegetal formados nas

anfractuosidades do granito pelas folhas e ramos decompostos e nos

estuarios dos rios pelos sedimentos das cheias, a vegetação é rasteira e

humilde, o pinho maritimo de uma constituição debil, o carvalho um

pygmeu, enleado ainda pelas varas das vides suspensas. A densidade da

população completa a obra da natureza, numa região onde o vinho não

amadurece: o acido picante dá-lhe uma semelhança das bebidas fermentadas

do norte, cidra ou cerveja, e com ella, ao genio do povo caracteres

tambem semelhantes aos dos bretões e flamengos. A vegetação de si

mesquinha, é amesquinhada ainda pela mão dos homens; as necessidades

implacaveis da população abundante, produzem uma cultura que é mais

horticola do que agricola: pequeninos campos circumdados por pequeninos

valles, orlados de carvalhos pygmeus decotados, onde se penduram os

cachos das uvas verdes. No meio d'isto formiga a familia: o pae, a

mãe, os filhos, immundos atraz d'uns boisinhos anões que lavram uma

amostra de campo, ou puxam a miniatura de um carro. Sob um ceu ennevoado

quasi sempre, pisando um chão quasi sempre alagado, encerrado n'um valle

abafado em milhos, dominado em torno por florestas de pinheiros

sombrios, sem ar vivificante, nem abundante luz, nem largos horizontes,

o formigueiro dos minhotos não podendo despegar-se da terra como que se

confunde com ella; e com os seus bois, os seus arados e enxadas forma um

todo, donde se não ergue uma voz de independencia moral, embora a miude

se levante o grito da resistencia utilitaria. A paizagem é rural não é

agricola; a poesia dos campos é naturalista, não é idealmente

pantheista. Quem uma vez subiu a qualquer das montanhas do Minho e

dominou d'ahi as lombadas espessas d'arvoredo, sem contornos definidos,

e os valles quadriculados de muros e renques de carvalhos recortados,

sentiu de certo a ausencia de um largo folgo de ideal, de uma viva

inspiração de luz: apenas aqui e acolá, no meio da monotonia da côr dos

milhos, um canto do alegre verde do linho, vem lembrar que tambem no

coração do minhoto ha um logar para o idyllio infantil do amor.»

Se eu quizesse resumir o que penso das paizagens do Sr. Oliveira

Martins, diria que ellas revelam uma percepção mediocre da linha, e uma

percepção maior da côr, um sentimento vivo dos movimentos, uma visivel

tendencia para traduzir os aspectos physicos em impressões moraes, e uma

aptidão activa para explicar os aspectos physicos como mechanismos

naturaes; traços estes que dão ás suas paizagens o valor de um elemento

da Historia. Ellas são productos da imaginação psychologica e da razão

abstracta do auctor, e depois de termos largamente examinado a primeira

estudando os seus retratos, vamos analysar a segunda, estudando as suas

theorias.

III

AS THEORIAS

Qual é a sua concepção do mundo? qual o seu processo de invenção? qual o

seu methodo de prova? qual a quantidade a qualidade e a ligação das suas

idéias geraes? Eis as perguntas que um critico deve fazer sempre que

queira ter uma percepção clara da razão do escriptor que analysa.

Á portada do seu livro _O Hellenismo e a Civilisação christã_ ha uma

theoria digna de attenção, menos pelo seu valor intrinseco de verdade ou

novidade do que pela sua importancia como indicio do espirito que a

formulou. É a theoria do Acaso. Em presença da realidade historica, como

em presença da realidade natural, o Sr. Oliveira Martins é ferido pelo

caracter eminentemente _concreto_ que ella apresenta. A infinita

complexidade propria das cousas e que imprime a cada uma um caracter de

individualidade, não escapa á sua observação. Na sciencia, pensa

elle, o necessario e o fortuito tem uma funcção igualmente inevitavel. É

certo que o Sr. Oliveira Martins não confunde o fortuito com o

milagroso, que justamente regeita como irracional. Mas admittindo ser

impossivel explicar um caso qualquer na sua totalidade, elle introduz um

elemento d'ignorancia mesmo n'aquella porção da Realidade que é

confessadamente do dominio da sciencia positiva. É isto que a sua

notavel theoria do Acaso enuncia com a lucidez propria das operações

abstractas. Os factos apparecem-lhe certamente formando series e ligados

entre si pelo nexo da causalidade. Mas o encontro d'essas series

determina nos pontos de intersecção a apparição de novas formas de

realidade, cuja existencia a sciencia não póde explicar, visto o

encontro das series não ser necessario, e cujos aspectos o investigador

se deve limitar a descrever, abandonando aqui a razão abstracta,

instrumento adequado á descoberta das leis geraes, pela imaginação

poetica, visão sufficiente da existencia concreta.

Sem entrar na discussão desenvolvida d'esta theoria, a meu ver inexacta,

não posso deixar de me demorar um instante com ella. A introducção da

noção de Acaso como elemento constitutivo da Realidade, quer se

considere o Acaso como ausencia de leis, quer seja apenas synonymo de

contingencia no encontro das series naturaes expressas por essas

leis, significa sempre uma abdicação confessada ou tacita da Razão. A

previsão dos casos futuros, aferidora da solidez das verdades

adquiridas, torna-se tão impossivel n'um universo em que a ausencia de

causalidade implica uma constitucional e incuravel anarchia, como n'um

mundo em que os factos apparecem, sim, ligados por um nexo abstracto de

causalidade, mas em que as cousas são aggregados contingentes,

resultantes da intercorrencia de series independentes. A coherencia

parcial representada pela existencia d'essas series é inutilisada pela

ausencia de uma connexão natural que ligue as series n'um systema,

resultando d'ahi uma incoherencia effectiva como a que torna um cahos o

mundo concebido pela philosophia de Stuart Mill. Os resultados de uma

tal doutrina fazem-se sentir logo; e não é difficil dizer porque

occorrem ás vezes á penna do Sr. Oliveira Martins expressões singulares,

que levariam a suspeital-o de scepticismo intellectual, se o corpo das

suas opiniões não desmentisse uma tal hypothese, e se o proprio auctor

não corrigisse o que as suas expressões possam conter de excessivo.

Copiarei do prefacio do _Portugal contemporaneo_ estas linhas para

exemplo: «O profundo e inabalavel reconhecimento das causas que fazem

dos homens os instrumentos do acaso ou do destino!...» N'este trecho

está como que visivel toda a theoria. A affirmação das causas não exclue

a admissão do Acaso e uma extranha reserva coexiste com um

dogmatismo energico.

A theoria acima exposta contém certamente alguma cousa de verdadeiro;

para que fosse absolutamente exacta seria preciso completal-a pela

affirmação de uma solidariedade estructural entre as partes e de uma

unidade systematica no todo universal. Affirmação esta que tem o seu

fundamento quer na doutrina da communidade d'origem e identidade latente

dos elementos da Realidade, quer na philosophia que vê na idéia de

Systema como no conceito de Causa formas condicionaes do pensamento.

Admittindo qualquer d'estas hypotheses, o Sr. Oliveira Martins não se

privava do direito de se conservar n'uma prudente reserva em frente da

esmagadora complexidade das cousas concretas, antes lhe seria facil

motivar a sua abstenção com a impossibilidade em que se acha o espirito

de exgottar por analyses successivas a quantidade infinita de elementos

que entram na formação do mais insignificante phenomeno. De maneira que

esta impossibilidade de explicação completa proviria não de uma falta de

coherencia entre as series causaes, mas de um excesso d'ella. Fundada

nestas duas idéias, o Universo e o Individuo, é possivel proceder á

construcção da sciencia positiva. Para conseguil-o deve-se ainda

recorrer a principios subsidiarios. Não entra no programma d'este estudo

enuncial-os. Diga-se porém que a noção de jerarchia de causas e a

comparação entre grandezas de forças são instrumentos adequados á

resolução do problema.

Seja porém qual for o valor doutrinal d'esta theoria, ella nos interessa

como documento do espirito que analysamos. Vê-se que o Sr. Oliveira

Martins encontra na realidade dois principios, um necessario, outro

fortuito. Quanto ao primeiro o nosso auctor exprime-se categoricamente;

e investe-o de certeza absoluta; e no fim do seu livro a _Anthropologia_

escreve o seguinte: «A logica dipensa os prolegomenos da physiologia; e

todos os progressos passados ou vindouros da anatomia do cerebro não

alteraram, nem alterarão uma linha só do systema das suas leis. Podemos

affirmar com afouteza que o que torna certa para nós uma proposição, a

tornaria egualmente certa para intelligencias tão bem munidas de

conhecimentos como a nossa: embora com a indispensavel capacidade

organica, tivessem uma constituição physiologica differente. Com algumas

circumvoluções mais ou menos no cerebro talvez se não seja capaz de

comprehender a geometria; mas, sendo-se, a geometria não poderá ser

diversa da que nos ensinaram Euclides ou Archimedes.» Esta peremptoria

affirmativa nos revela uma intelligencia que por natureza ou por

systema, se não deixa immergir nas nevoas da duvida. Quanto á admissão

de um elemento fortuito na realidade, é conveniente observar que o

Sr. Oliveira Martins não só o confessa mas ainda o pratica. Com effeito

nas suas narrações e deducções elle foge ás explicações que se contentam

com uma só causa; as suas previsões são cheias de restricções. Pegar

n'um trecho da realidade, despil-o de tudo quanto for accessorio,

decompol-o n'um pequeno numero de elementos constitucionaes, referil-os

a um pequeno numero de causas simples, subordinar todas estas causas a

um só principio explicativo que é razão sufficiente de todo o grupo

estudado, partir do trabalho feito para formular previsões imperiosas

semelhantes a ordens dadas ao futuro, são actos proprios das

intelligencias simplistas e centralistas, de que offerecem um excellente

exemplo entre nós os primeiros escriptos do Sr. Theophilo Braga. O Sr.

Oliveira Martins procede de um modo bem diverso. Elle multiplica os

pontos de vista, não poupa principios novos para explicar novas formas

de existencia, foge de theorias demasiado simples, e quando formula uma

lei só admitte a sua futura realisação sob certas condições, abstendo-se

de uma excessiva confiança na sciencia como explicação do presente ou

previsão do porvir. Sem tomar as interminaveis precauções, nem ter a

delicadeza infinita de um Ernesto Renan, por que lh'o não permitte o

temperamento nimiamente apaixonado da raça, a sua prudencia é grande e

seria efficaz, se a não prejudicasse o seu exaggerado e contumaz

espirito de improvisação. Assim como é, não se torna porém difficil

mostrar a relação que prende os seus habitos d'intelligencia á sua

concepção da realidade.

Nem é menos facil apontar o nexo logico que liga a concepção exposta e

as tendencias indicadas ao seu habitual e confessado processo de

indagação. «Não bastam á historia, diz elle, a observação e o systema

classificador, assim como á sua lingua, não bastam a precisão e a

clareza; é mister sentir e adivinhar e por no estylo a vida e o calor

proprios das cousas moraes». E accrescenta: «O historiador não

reproduzirá a sociedade, se não poder combinar no seu espirito o

raciocinio que descreve, a intuição que vê a alma que sente.» É mister

sentir e adivinhar diz o Sr. Oliveira Martins e é o que elle faz de

preferencia. Alguns verão n'estas palavras um paradoxo ou uma ironia.

Mas as pessoas versadas no assumpto sabem que ha duas maneiras de

inventar: Ou se parte da observação das causas e por um laborioso

processo de raciocinio se sobe aos principios mais geraes que as

explicam, ou por uma immediata e impetuosa improvisação se descobrem

estes mesmos principios sem passar por todas as intermediarias logicas

que são os seus antecedentes naturaes. D'estas duas classes de

intelligencias, uma fadada para a grande descoberta inconsciente, outra

predestinada para a perfeita prova efficaz, e que mutuamente se

completam, porque se uma é a invenção, a outra é a demonstração, o Sr.

Oliveira Martins pertence á primeira, isto é, apparece-nos antes como um

poeta, do que como um orador. Certamente elle estuda os assumptos de que

trata, mas vê-se que as suas theorias derivam menos da erudição que da

intuição. Póde-se dizer que elle adivinha, se entendermos por

adivinhação, não uma milagrosa apprehensão de principios impossiveis de

descobrir por meios naturaes, mas uma veloz e certeira descoberta de

verdades que seria lento e penoso investigar pelo raciocinio ordinario.

O nosso auctor pertence, salvo as differenças de grandeza, a essa classe

d'espiritos, de que são excellentes exemplares Michelet na França,

Carlyle na Inglaterra, e na Allemanha tantos Allemães. É antes um poeta,

do que um orador. Porque os attributos proprios da razão oratoria, o

instincto da ordem, o habito da symetria, o emprego das verdades claras

e equidistantes, a contextura equilibrada e a velocidade uniforme do

discurso, a abundancia de argumentos e a efficacia de provas, não são

visiveis nos seus livros. Pelo contrario, os dons propriamente poeticos,

a veracidade e a intensidade da visão concreta, a energia da imaginação

instantanea e intermittente, o vôo desigual e tortuoso do raciocinio, o

emprego da inspiração, e da paixão como processos de descoberta e

exposição, saltam aos olhos de quem o estuda. Este genero de

espirito é fadado, pela sua estructura, ás verdades importantes e aos

erros frequentes, e nem umas, nem os outros faltam nos trabalhos do Sr.

Oliveira Martins.

D'entre os dotes oratorios acima indicados, e cuja falta notei no Sr.

Oliveira Martins, um dos mais importantes é certamente o talento e o

gosto da prova; qualidade esta cuja importancia sobe de ponto, se

observarmos que a prova é não sómente um instrumento da eloquencia, mas

ainda um elemento da sciencia. Quem o leu, observou de certo, que elle

se contenta com expor as idéias, muitas vezes novas, sempre

interessantes, que lhe occorrem nas suas explorações atravez da

Historia, sem procurar fundamentar as suas theorias, e tornar evidente

aquillo que considera como verdadeiro. E não só esta ausencia de provas

é visivel em questões theoricas, mas ainda em materia de factos.

Certamente as narrações do Sr. Oliveira Martins tem um cunho d'extrema

verosimilhança. Artista pela visão das massas e pelo sentimento dos

conjunctos, elle sabe adequar os pequenos factos que escolhe ao effeito

final que deseja, e nos seus livros a harmonia do todo garante a

veracidade das partes. Mas salvo esta garantia que é commum ao romance

que se imagina, como á historia que se narra, nada merece nas suas obras

o nome de demonstrado. Nem a immensa accumulação dos factos

averiguados, nem a enumeração completa dos documentos compulsados, nem a

discussão e a critica das fontes exploradas, vem dar á sua narração o

cunho da certeza. Entrando num assumpto vai direito ao amago d'elle, e

depois de traduzir a viva impressão recebida, com uma abundancia extrema

de pormenores sensiveis, n'um quadro que se grava na memoria, passa a

atacar outro assumpto e a pintar outro quadro, sem procurar convencer o

leitor da efficacia da analyse e da fidelidade da pintura. No seu desdem

de artista e no seu orgulho de inventor, parece crer que a evidencia é a

atmosphera da intelligencia e repelle a prova como um pleonasmo. Nenhum

dos nossos escriptores merece mais ser lido, nem carece mais de ser lido

com cautela.

IV

OS SENTIMENTOS

Estudada a sua intelligencia passemos a estudar a sua sensibilidade;

esta não é menos interessante do que aquella.

Qual é o numero, a força, a especie das suas emoções? Certamente ellas

são numerosas. A emoção é um estado habitual da sua alma. Qualquer que

seja o assumpto de que se occupa, a paixão abunda. Isto é visivel

sobretudo pelo tom do seu estylo. Historia ou critica, jornal ou

theoria, tudo quanto escreve é animado por um sopro quente de commoção

sincera. Nenhuma idéia lhe apparece como um simples objecto de

comprehensão, mas como uma verdadeira fonte de impulsões.

Frequentes e intensas. Basta percorrermos os seus livros, mesmo de

relance, para nos convencermos que a força das suas emoções é tão grande

como a sua constancia é perfeita. Vehementes sempre, violentas

muitas vezes, ellas constituem pela sua multiplicidade e continuidade um

estado habitual de exaltação da sensibilidade. Dotes estes, que ligados

á sua capacidade de visão, concreta e ao seu vivo sentimento dos totaes,

dão a este historiador um alcance de artista e fazem d'este publicista

um verdadeiro poeta.

Ardentes e frequentes. Até aqui não vimos das suas emoções senão a

quantidade, e isso mesmo dentro d'aquelles limites de imperfeita

approximação que não é dado á Psychologia transpor. Vejamos agora a sua

qualidade, isto é a especie dos sentimentos, e ordem dos agrupamentos.

Sem duvida essas emoções são tristes. O bem estar em frente da

realidade, a alegria de viver, não são sentimentos proprios do seu

espirito. A gravidade e a tristeza que elle considera como qualidades da

alma portugueza, são-no tambem da sua mesma alma. Se a dor é um maximum

de sensação, a extrema sensibilidade é um principio de soffrimento.

Capaz de emoções frequentes e vehementes, e propenso a emoções graves e

tristes, vejamos que sentimentos são despertados n'elle ao contacto dos

objectos, como elles se combinam com as ideias, quaes d'entre elles se

transformam em paixões, e são capazes pela sua persistencia e efficacia

de lhe governarem a actividade.

Certamente não é a belleza physica que se impõe á sua admiração.

Escriptor de imaginação psychologica, a harmonia das linhas e o

esplendor das côres deixa-o insensivel. Nós só nos commovemos com

aquillo que percebemos, e a nossa sensibilidade é solidaria com a nossa

intelligencia. Por isso no espirito que analyso, o enthusiasmo franco em

frente da magnificencia da materia, a sympathia ardente pelo livre jogo

das forças naturaes, não são visiveis. Se o Paganismo significa o amor

da vida corporal e o predominio da actividade instinctiva, em

contraposição com o Christianismo, considerado como uma reacção

espiritualista, e uma repressão systematica das paixões organicas, não

se lhe poderia chamar pagão. Mas a solidez da sua razão prática e a

energia das suas tendencias moraes prohibe que o consideremos christão.

Não é christão porque é mais largamente humano.

Em parte nenhuma isto se verifica melhor do que na sua concepção do

amor. A psychologia das paixões mostra que este sentimento é o mais

complexo, e portanto o mais instructivo documento que se póde explorar

para a intelligencia de um coração. Não temos do Sr. Oliveira Martins

uma colleccão de poesias lyricas onde possamos estudar todos os

cambiantes, de que um tal sentimento se reveste ao passar pelo seu

espirito. Mas n'essas admiraveis paginas finaes da Historia romana, em

que o philosopho resumiu as suas idéias sobre a Vida, e o poeta poz

a nú a sua alma, a confissão involuntaria vale por um documento

especial. Ora de todos os elementos que podem entrar na composição

d'esta paixão, elle só vê dois: o instincto animal e a compaixão. A

energia dos seus instinctos moraes regeita o primeiro como inferior, e a

mulher apparece-lhe não como um arrebatamento dos sentidos, uma

satisfação do orgulho, um objecto de posse, um assumpto de analyse, uma

visão divina imposta á admiração do artista, mas como um ente digno de

piedade e necessitado de protecção. Alguma coisa de viril e triste

caracterisa esta concepção. Ella é propria dos homens em que o dom da

analyse perspicaz está ligado a vigorosos instinctos moraes.

Oliveira Martins: Estudo de Psychologia · 第 2 / 4 段