descriptiva e narrativa. Este derradeiro traço é origem de grandes
difficuldades na indagação e sobretudo na exposição das verdades
historicas. Mesmo nas sciencias inferiores essas difficuldades são
grandes. Por exemplo, em Astronomia é relativamente facil indicar as
forças que determinam a harmonia do nosso systema solar; mas mostrar a
evolução, pela qual elle se veiu transformando até se constituir como
existe actualmente, é uma tarefa d'outra ordem que não comporta o mesmo
grau de precisão; a hypothese da nebulosa está privada da certeza de que
se acha investida a theoria da gravitação, e a hypothese das
agglomerações meteoricas inventada por Julio-Roberto Meyer, prova a
necessidade de tornar a doutrina de Laplace mais adequada á realidade
completando-a com principios subsidiarios. Semelhantemente nas sciencias
inorganicas, o methodo experimental permitte demonstrar com efficacia
uma lei de barologia ou thermologia; mas a applicação d'essas leis para
a explicação da historia passada e constituição actual do globo, não tem
a mesma segurança; a Geologia está longe de attingir o estado de
adeantamento da Physica e da Chimica, sciencias em que ella se baseia; a
doutrina das geleiras não se acha constituida com a mesma perfeição
que a theoria da irradiação do calor. Em Biologia verifica-se o mesmo.
Em quanto se tratam de indagar as leis abstractas da morphologia e da
physiologia vegetal e animal, as difficuldades são grandes mas
superaveis graças ao emprego da observação, da experimentação e da
comparação; mas quando se trata de explicar a existencia das plantas e
animaes taes como realmente são, as difficuldades crescem de ponto e
inversamente diminue a precisão e certeza das doutrinas enunciadas; a
hypothese de Darwin sobre a evolução dos organismos não póde aspirar á
mesma convicta adhesão que o principio de Milne Edwards sobre a divisão
do trabalho physiologico. Semelhantemente as difficuldades de
investigação inherentes á natureza e complicação dos phenomenos sociaes,
com serem enormes, são pequenas, comparadas com as que apresenta o
estudo da Historia propriamente dicta. E abaixo dos philosophos nenhuma
classe de espiritos arca com tamanhas difficuldades, incorre em tão
graves responsabilidades, nem se reveste de uma tão alta dignidade
scientifica como os historiadores.
Para vencer tão grandes difficuldades, o historiador deve fecundar por
uma vasta preparação geral e technica um espirito extremamente complexo
e profundo. Qual seja essa preparação geral deriva da indicação acima
feita dos estudos subsidiarios que condicionam o conhecimento da
Sciencia social. A preparação technica resulta semelhantemente da
propria natureza da Sciencia social. Elle suppõe o conhecimento exacto
dos factos adduzidos e a sua classificação methodica em grupos naturaes.
Quanto aos dotes de espirito o historiador deve conter um sabio e um
artista. A capacidade de observação exacta dos factos particulares deve
estar ligada á faculdade das idéias geraes; e além d'isso a imaginação
pittoresca que permitte a representação nitida e colorida das paysagens
que constituem o palco da Historia, ha de ser completada pela imaginação
psychologica que faz a alma dos individuos e povos que são os
protogonistas da Historia. Finalmente o grande historiador deve ser um
grande escriptor e empregar um estylo que reuna á precisão propria do
trabalho scientifico, o colorido proprio das descripções, e o movimento
proprio das narrações.
Comparemos este modelo do historiador ideal com o retrato já traçado do
Sr. Oliveira Martins e veremos o que elle tem e o que lhe falta.
O seu saber é vasto inda que incompleto. Os volumes publicados da sua
_Bibliotheca das Sciencias sociaes_ e os annunciados no programma,
revelam que o Sr. Oliveira Martins tem consciencia da importancia e
largueza de estudos com que se deve preparar para o trabalho historico.
Comtudo seria para desejar que o auctor conservasse ineditos os livros
em que a sua originalidade e competencia são contestaveis, e
estudando convenientemente os assumptos sobre que elles versam, se
abstivesse de tratar publicamente sciencias de que só se podem occupar
com auctoridade os especialistas.
No que toca á exactidão dos factos enunciados nos seus tratados de
historia nacional, constituidos pela _Historia da Civilisação Iberica_,
a _Historia de Portugal_, e o _Portugal Contemporaneo_, o Sr. Oliveira
Martins não tem o habito de enumerar os documentos compulsados e
discutir as fontes exploradas. As notas, que nas grandes historias
classicas acompanham e comprovam as affirmações feitas no texto, não
apparecem na sua obra. É verdade que historiadores como Mommsen e
Curtius supprimiram nos seus livros monumentaes a bagagem das
demonstrações; mas esses historiadores já tinham assignalado a sua
actividade de investigadores em numerosas dissertações especiaes, e
accumulado materiaes que serviam de base ao auctor e de garantia ao
leitor. Considere-se ainda que escreviam sobre assumptos largamente
explorados. O Sr. Oliveira Martins occupando-se da historia de Portugal,
deveria redobrar de precauções no que toca ás provas. Mas acceitando-a
tal como está escripta, e lastimando que ella não seja mais extensa,
observaremos que a conhecida assiduidade ao trabalho e a sinceridade
certa do Sr. Oliveira Martins, são consideraveis garantias da veracidade
das suas asserções.
Quanto as aptidões cujo conjuncto constitue o seu espirito, já vimos que
o Sr. Oliveira Martins possue a imaginação dos movimentos, das massas,
das forças e que as suas paysagens representam as expressões moraes dos
aspectos physicos; e que além d'isso possue a capacidade e o habito de
explicar os aspectos physicos como mechanismos naturaes. Se reflectirmos
que estas duas aptidões exgottam a noção do scenario historico,
considerado como um conjuncto de causas efficazes actuando sobre
espiritos, veremos que o Sr. Oliveira Martins está apto pela imaginação
pittoresca e pela razão abstracta a descrever e explicar o _meio_ dos
successos que narra. Semelhantemente e ainda melhor a sua admiravel
imaginação psychologica habilita-o a ver o interior das almas
individuaes e collectivas que põe em scena. Essa imaginação, integral e
intensa, prima na representação das emoções, e como a maioria das acções
é determinada por emoções, resulta d'ahi que o Sr. Oliveira Martins está
apto para representar o _agente_ da _Historia_, como representara o seu
_meio_. E o mesmo poder de abstracção que lhe permittira comprehender as
relações geraes entre os factos physicos, lhe faz ver o nexo logico que
determina as coexistencias e as sequencias dos factos moraes.
Vimos que o seu estylo era destituido de ordem, precisão e clareza, e
que abundava em movimento, força e vida. A ausencia das primeiras
qualidades prejudica a sua Historia considerada como obra de
sciencia, e impede que ella se possa considerar como obra de
vulgarisação. A presença dos outros dotes dá-lhe um valor raro como obra
de arte. O seu vocabulario trivial, technico, fornecido em todos os
recantos da vida, permittir-lhe-á fazer descripções coloridas e supprir
pela abundancia de pormenores concretos a nitidez ausente que lhe daria
a ordem que não possue. A syntaxe rapida e tortuosa permittir-lhe-á
fazer narrações dramaticas e vivas e acompanhar pela marcha offegante e
irregular dos periodos a successão precipitada e sempre nova dos
acontecimentos. Finalmente todos os outros expedientes de composição
revelando o sentimento do real e a paixão intensa convergem no mesmo
sentido; e a mesma solidariedade que prende a sua obra á sua imaginação
e á sua sensibilidade, liga a ella o seu estylo.
VII
O POLITICO
Tendo escripto a Historia de Portugal, o Sr. Oliveira Martins resolveu
continual-a e naturalmente o pensamento conduziu-o á acção.
Não entra no programma d'este estudo occupar-me de assumptos de politica
contemporanea, sobretudo quando trato de um homem cuja carreira publica
apenas começa. Mas fazendo um trabalho de psychologia e não de simples
critica litteraria, não me é licito calar uma das manifestações mais
importantes do espirito que analyso. Porém indicarei apenas o valor dos
seus recursos e a tendencia geral das suas idéias como homem d'Estado.
As faculdades que fazem o homem de acção em cada esphera da actividade
humana, são essas mesmas que fazem o homem de sciencia, mais o tino das
circumstancias particulares. As do estadista são as do historiador; digo
as do historiador e não as do sociologista, porque o conhecimento das
leis abstractas que regem o equilibrio e o movimento das sociedades,
não é sufficiente para dirigir a acção conservadora ou modificadora dos
governantes; é preciso reunir-lhe o vivo sentimento do concreto, a visão
plena dos innumeraveis factos particulares que dão a um povo um caracter
individual e fazem que nenhuma deducção abstracta o possa adivinhar.
Pense-se na immensa complexidade do organismo collectivo, no caracter
profundamente individual que uma sociedade reveste em virtude das
circumstancias de raça, meio e momento, na obrigação de conhecer
plenamente a força e a direcção das vontades, a energia e a profundidade
dos instinctos, a vitalidade e a duração dos preconceitos, as
necessitades materiaes ou moraes, reaes ou ficticias dos seus membros,
reflicta-se na obrigação de conhecer essas forças na sua quantidade
exacta e na sua direcção certa, nas proporções variadas em que ellas se
combinam e nos systemas complicados que d'ellas resultam, medite-se que
cada um dos factos presentes tem profundas raizes no passado e
consequencias inevitaveis no futuro ainda o mais remoto, e ver-se-á que
essa improvisação maravilhosa e certeira que se chama a arte de
governar, consiste na visão adequada e perpetua, retrospectiva e
prophetica das almas sobre que ella se exerce, e que a politica é
psychologia activa e em ponto grande. Note-se emfim que o habito da
representação concreta degenera facilmente no empirismo e que a
habilidade technica descamba no especialismo estreito, para se admirar
ainda mais a plasticidade mental dos que conservam intacto sob a acção
das questões quotidianas o sentimento dos interesses geraes e caminham
atravez dos expedientes com olhos fitos nas idéias.
Estas qualidades parecem reunir-se no Sr. Oliveira Martins. Essa visão
poderosa e plena, essa representação veridica e intensa dos caracteres,
esse golpe de vista sagaz e profundo mergulhado no intimo dos corações,
que faz o encanto e a força dos seus livros, podem guial-o nos seus
actos; as mãos acostumadas a fazer a autopsia das almas no amphitheatro
da Historia, não são improprias para jogar os lances da politica. O
habito de ver as cousas de alto, proprio do historiador, arrancão aos
trilhos mesquinhos em que se perde o espirito da rotina e do expediente.
Artista pela visão colorida e palpavel da realidade, é-o tambem pela
intuição magnifica do ideal. A imaginação constructiva anda n'elle
ligada ao sentimento do real e do exequivel. E tendo aquelle exacto
bom-senso e aquella efficaz percepção do possivel, que resulta da
pratica dos homens e da vida, possue comtudo aquella largueza de vistas
e aquelle desejo do melhor, que provém da convivencia das ideias e do
trato dos livros.
Será esse ideal realisavel e esse tino pratico sufficiente? Os successos
dil-o-ão. Não é porém difficil apontar desde já no sentimento da
força propria e no generoso instincto do dever civico as causas que o
fizeram passar do pensamento á acção, e mostrar a clara coherencia que
liga as suas opiniões de hontem aos seus actos de hoje, e os seus vinte
annos de historia aos seus dois annos de politica.
Tal é essa figura interessante e rara. Homem interior, isto é, dotado de
imaginação psychologica, admiravel na representação dos accidentes do
apparelho mental e dos sobresaltos da machina sensivel, toda a sua obra
se resente e vive d'esta aptidão primordial, que constella os seus
livros de retratos veridicos e profundos, de paizagens vivas de
narrações dramaticas. Capaz de operações abstractas, a razão scientifica
completa n'elle a imaginação poetica, e a analyse explicativa anda
ligada ao colorido intenso. Sujeito ás emoções vehementes e frequentes,
sobre tudo ás de ordem moral, isto é, a compaixão, a admiração, a
indignação, e o desprezo, a sua obra, dramatica pela logica e pela vida,
sel-o-á tambem pela paixão; mas a intuição do psychologo e a reflexão do
philosopho hão de envolvel-o n'um nimbo de indulgencia, de ironia e de
tristeza. Empregando um estylo em que parecem reviver e encarnar todas
as qualidades da sua alma, successivamente energico e suave, enthusiasta
e sarcastico, e cujo tecido fluctuante e agil acompanha como uma purpura
amarrotada e resplandecente os movimentos bruscos do seu espirito.
Lançado na politica pela energia do sentimento moral e importando para a
Acção a elevação do philosopho e a perspicacia do homem pratico, e pondo
ao serviço das aspirações do moralista a habilidade do psychologo. Uma
relação intima liga entre si todas as partes do seu talento e faz
derivar d'elle todos os aspectos da sua obra.
Lisboa, Abril de 1887.
INDICE
I. OS CARACTERES--Que a sua imaginação é psychologica--Que ella é
realista--Comparação com a de Eça de Queiroz--O caracter portuguez e o
hespanhol--Retrato de D. Affonso Henriquez--Retrato de D. Pedro
I--Retrato de Herculano--Que essa imaginação é completa.
II. AS PAIZAGENS--A imaginação physica: exemplo, Ramalho
Ortigão--Caracter das paizagens em Oliveira Martins--Que ellas são
transcrições moraes dos aspectos physicos--Que ellas são a explicação de
um mecanismo.--Descripção do littoral alemtejano--Descripção da paizagem
minhota--O terremoto.
III. AS THEORIAS--A theoria do Acaso--Concepção do Universo e da
sciencia--Ausencia de razão oratoria--Falta da amplificação e da
prova--Caracter artistico da sua intelligencia--Comparação com as
intelligencias simplistas: os primeiros escriptos de T. Braga--A
inspiração e a intuição.
IV. OS SENTIMENTOS--Abundancia e energia das suas emoções--Que ellas são
de ordem moral--Sua concepção do Amor--Sua concepção da Vida e da
Ventura--Acção mutua entre o seu caracter e a sua intelligencia.
V. O ESCRIPTOR--Valor do estylo como documento--O estylo oratorio: o
sñr. Latino Coelho--O estylo de Oliveira Martins--O vocabulario, a
syntaxe, as figuras, a composição dos livros, os indices.
VI. O HISTORIADOR--Vastidão complexidade difficuldade dos estudos
historicos--Qualidades e lacunas da sua Historia.
VII. O POLITICO--Retrato ideal do Politico--Oliveira Martins como politico.
Composição do seu espirito e deducção da sua obra.
Paris.--GUILLARD, AILLAUD E Cª.