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OLIVEIRA MARTINS
ESTUDO DE PSYCHOLOGIA
POR
G. MONIZ BARRETO
SEGUNDA EDIÇÃO
PARIS
GUILLARD, AILLAUD & C.ª
47, Rue St. André des Arts, Paris
242, Rua Aurea--1.º, LISBOA
1892
OLIVEIRA MARTINS
OLIVEIRA MARTINS
ESTUDO DE PSYCHOLOGIA
POR
G. MONIZ BARRETO
PARIS
GUILLARD, AILLAUD & C.ª
47, Rue St. André des Arts, 47
I
OS CARACTERES
A peça mestra da intelligencia do Sr. Oliveira Martins é a imaginação
psychologica, isto é, o dom de ver e descrever interiores de alma.--É
esta a faculdade que já apparece claramente nos seus primeiros
trabalhos, atravez das leviandades e temeridades da sua estreia, e que
crescendo, avulta eminente nos seus ultimos livros.--É ella quem faz a
sua força de historiador e o seu encanto de escriptor.--É ella quem
muitas vezes o ampara nas correrias da sua improvisação e suppre as
lacunas visiveis da sua cultura. É ella finalmente quem, habilitando-o a
decifrar os compostos sociaes pelos compostos individuaes o mune da
capacidade pratica, e o arma com a aptidão politica.
Em que consiste essa faculdade? Consiste na representação minuciosa e
exacta dos estados da sensibilidade e da intelligencia alheia, e na
intuição precisa e completa dos phenomenos da propria intelligencia e
sensibilidade. Todos possuem a primeira d'estas aptidões em grau
sufficiente para se adequarem ao meio social em que vivem; e a segunda,
para se perceberem como um todo distincto e individual. Mas em certos
espiritos essa faculdade existe em grau desmedido, e os homens que a
possuem são capazes de notar as mais delicadas e fugitivas impressões da
sua alma e da alma alheia, de observar os sentimentos e os pensamentos
mais incoerciveis, de conservar a sua curiosidade attenta e activa mesmo
sob a acção ardente da dor e do prazer physico, ou sob o surdo encanto
da comprehensão e da invenção. Quando ella attinge o seu maximo, as
intelligencias culminantes em que apparece, Balzac e Shakespeare por
exemplo, podem transformar-se nas suas creações e viver nos seus
personnagens com uma intensidade adequada á realidade; e como essa
imaginação é n'elles tão extensa como exacta, a sua obra será egual á
natureza em quantidade e qualidade: o analysta francez escreverá a
_Comedia humana_ e fará passar na tela do romance em tropel vivo,
cortezãs, forçados, magistrados, sacerdotes, industriaes, poetas, todos
os estados da vontade desde a indecisão até ao crime, todas as
modalidades da intelligencia desde a inepcia até ao genio: o poeta
inglez comporá o seu theatro e dará a theoria completa das paixões e das
imagens tal como a construem laboriosamente a psychologia e a
clinica. Esta especie de imaginação é a mais preciosa entre todas; o
espirito que a possue transforma-se por sympathia nos objectos que
descreve; é ella quem faz do romance uma autopsia e da historia um
confessionario. É o dom dos avataras, e o seu nome é legião.
O Sr. Oliveira Martins possue em grau raro esta faculdade rara entre
nós. Os exemplos abundam na sua obra, e tão numerosos que constituem
prova. Tomal-os-ei d'aquelles livros em que não é visivel uma influencia
extranha, e onde a sua originalidade é incontestavel. Á portada da sua
Historia de Portugal está o parallelo das duas nações peninsulares,
pagina veridica e profunda que abre com esplendor essa galeria magnifica
de retratos.
«Ha no genio portuguez o que quer que é de vago e fugitivo, que
contrasta com a terminante affirmativa do castelhano; ha no heroismo
lusitano uma nobreza que differe da furia dos nossos vizinhos; ha nas
nossas lettras e no nosso pensamento uma nota profunda ou sentimental,
ironica ou meiga, que em vão se buscaria na historia da cultura
hispanhola, violenta sem profundidade, apaixonada mas sem entranhas,
capaz d'invectivas, mas alheia a toda a ironia, amante sem meiguice,
magnanima sem caridade, mais que humana muitas vezes, outras abaixo da
craveira do homem a entestar com as feras. Tragica e ardente sempre,
a historia hispanhola differe da portugueza, mais propriamente
epica; e as differenças da historia traduzem as dissemelhanças do
caracter. Confronte-se Calderon com Camões, Garrett com Espronceda;
ver-se-á a verdade da affirmação e a sagacidade do historiador.»
Tão lucido na psychologia do individuo como na dos povos, leia-se o
retrato do primeiro rei: dissipadas com o clarão da critica as nevoas do
patriotismo, superada com o alcance da vista a grandeza da distancia, o
vulto do fundador da monarchia apparece vivo, alumiado de frente, na
plena resurreição da historia.
«Quem era Affonso Henriques? Já amestrado no officio de reinar, á
maneira porque então se entendia um tal officio, o moço principe reunia
as condições necessarias para consolidar uma independencia até ahi
precaria. Era audaz, temerario até, pessoalmente bravo, qualidade nem
tão commum no tempo, como a muitos acaso pareça. Fraco general, ao que
se vê, porque as batalhas feridas com as tropas leonezas perdeu-as
sempre, era feliz guerrilheiro. Capitaneando um troço de soldados, cahia
d'improviso sobre um logar, e a furia irresistivel do ataque deu-lhe a
maior parte das suas victorias. Nem a grandeza das empresas o assustava,
nem as distancias o impediam de acudir, a um tempo, do extremo norte
quasi ao extremo sul do paiz. A estes dotes militares reunia outros não
menos valiosos, dada a precaria situação em que se apossara do reino.
Era secco, astuto, friamente ambicioso, sem chimeras nem illusões. Era
um espirito mediocremente pratico, e isso fazia boa parte da sua força:
mal dos politicos ao mesmo tempo apostolos! Como a tenra haste que verga
á mais leve briza do cannavial, assim Affonso Henriques, sem rebuços
obedecia, logo que a sorte lhe era adversa. Passada a tormenta
erguia-se; e á facilidade astuta com que se humilhara, respondia logo a
teima perfida com que se rebellava. Isto fazia-o indomavel. Ubiquo
militarmente, era nos negocios um Proteu. Os seus inimigos, leonezes,
sarracenos, não achavam por onde prendel-o. Submisso e humilde quando se
achava vencido, subscrevia a todas as condições, acceitava todas as
durezas, para logo mentir a todas as promessas, rasgar todos os
tratados, com uma franqueza ingenua, uma simplicidade natural que
chegaram a espantar a propria Edade-média. Nem brios cavalleirosos, nem
sentimentos de familia, nem odios pessoaes, nem vinganças estupendas:
nenhuma chimera, nenhuma grande ambição, nenhum poetico sentimento
enchiam a sua cabeça estreita e inteiramente occupada pela idéia fixa de
consolidar a sua independencia. O predominio absoluto d'uma idéia
pratica, servida por uma intelligencia lucida, por um caracter sem
grandeza e por uma valentia provada, tornavam-no invencivel, ainda mesmo
quando era batido. A sua teima fazia-o semelhante a uma lamina de aço:
um instante vergada por um esforço momentaneo, logo estendida e livre;
impossivel de manter curvada desde que foi solta. O seu pensamento tinha
a tenacidade da mola, e não a rijeza do bronze nem o peso do chumbo.
Vivia dentro do seu Portugal como um javardo no seu refojo: assaltado,
investia, despedaçando tudo com as suas fortes presas. Perseguido,
fugia. Não tinha a nobreza do leão, nem a ferina astucia do tigre:
possuia só a brava e bronca tenacidade do javali. Um fraco apenas lhe
notam, embora os actos da sua vida não denunciem que esse defeito o
prejudicasse muito: gostava de ser adulado.»
Mais interressante ainda é o retrato do primeiro Pedro. O psychologo
multiplicou aqui os pormenores e os casos da vida privada, porque o
vulto que quiz descrever tem um alcance mais social do que politico.
Para o comprehender abandona os habitos intellectuaes modernos, a
reflexão pautada e a emoção equilibrada; e em presença do velho rei faz
resurgir em si a visão concreta e os sentimentos de terror e amor que
elle devia provocar n'um camponez ou n'um burguez do seculo XIV. Para
ver e fazer ver esse vulto tão pittoresco, não compõe uma
dissertação, pinta um quadro. O historiador faz-se subdito do rei que
historía, e fechando os olhos vê surgir na tela interior a apparição
colorida e nitida, dotada de vida e capaz de viver. Leiam-se essas
paginas singulares, attente-se n'este retrato do rei gago e feio, temido
e amado do seu povo; uma palavra acode á mente: é uma allucinação; uma
allucinação auditiva e visual completada pela resurreição das emoções
correspondentes.
«D. Pedro tinha a paixão da justiça: era n'elle uma mania como em seu
avô o fora a guerra. Não prescindia de julgar todos os delictos. Os
criminosos vinham á côrte, desde os remotos confins do reino. Quando
algum chegava, manietado, e o rei comia, levantava-se pressuroso da
mesa, e trocava a vianda pela tortura. Prazia-se em ajudar e dirigir os
algozes; indicava os expedientes e processos para obter a confissão dos
reos. Nunca abandonnava o açoute enrolado á cinta em viagem, tomava
d'elle, e por suas mãos castigava o facinora que no caminho lhe traziam.
Os adulteros mereciam-lhe um odio especial; jámais lhes perdoava. D.
Pedro tinha um escudeiro, Affonso Madeira, _luitador e travador de
grandes ligeirices_, a quem, embora o amasse _mais que se deve aqui de
dizer_, o rei mandou castrar, porque peccou com Catarina Tosse:--o rapaz
engrossou, e morreu depois _da sua natural door_. Certa mulher era
infiel ao marido, que nem por isso se offendia: offendeu-se o rei, e
mandou-a queimar; ao esposo desolado respondeu que lhe devia alviçaras
pelo ter vingado. Havia um homem casado, com filhos, mas que antes da
boda forçara a mulher. Roussou? Morra. Enforcou-o entre os choros e
supplicas da esposa e dos filhos. O seu odio aos peccados da carne
perseguia com furor as alcouvetas, e as feiticeiras não lhe mereciam
menos cuidados.
«Quando o tomavam os ataques da furia justiceira, a gaguez fazia ainda
mais terrivel a expressão da sua physionomia. A fala não lhe deixava
traduzir bem as coleras, e rubro, grosso, agitando o latego, n'um
delirio, mettia espanto. Os gagos, porém, tem isto de particular: tanto
o defeito accrescenta ao horror da furia, como põe nas horas mansas o
que quer que é de bonhomia quasi ironica. Era assim D. Pedro. Caçador
tenaz, descançava do officio de juiz nas corridas do monte, seguido
pelos moços com os nebris e falcões, e pelas matilhas de cães. Então, o
seu rosto aplacava-se, e era benigno, bemfajezo, liberal, folgazão. _Foi
grande criador de fidalgos._ Glotão, passava horas esquecidas á meza,
onde a vianda era em grande abastança.
«Assim como a sua justiça era destituida de majestade, assim eram as
suas folganças. Dir-se-ia um rustico feito rei; e acaso por isso o povo
o amava tanto. Não tinha distincções, nem delicadezas no sentimento,
nem no trato, sendo em tudo brutal. Se confundia em si o juiz e o algoz,
as suas festas eram kermesses extravagantes e plebéias. Os instinctos
aristocraticos e as fórmas da cortezia nobre, torneios, lanças e outros,
não tinham n'elle um amigo. Era um democrata, um tyranno á antiga, em
cujo espirito toda a brutalidade popular encarnara: por isso mesmo era
adorado! Os seus castigos terriveis, passando de bocca em bocca,
faziam-lhe um pedestal de força; e as suas continuas folganças populares
cimentavam essa força com o amor intimo que nos merece o que tem
comnosco a irmandade de gostos. O povo via-se rei na pessoa de D. Pedro.
«Quando voltava em batéis de Almada para Lisboa, a plebe lisboeta sahia
a recebel-o com danças e trebelhos. Desembarcava, e ia á frente da
turba, dançando ao som das _longas_ (trombetas), como um rei David.
Estas folias apaixonavam-no quasi tanto como o seu cargo de juiz. Por
ellas chegava a fazer loucuras. Certas noutes, no paço, a insomnia
perseguia-o: levantava-se, chamava os trombeteiros, mandava accender
tochas; e eil-o pelas ruas, dançando e atroando com os berros das
_longas_. As gentes, que dormiam, sahiam com espanto ás janellas, a ver
o que era. Era o rei. Ainda bem! ainda bem! que prazer vel-o assim tão
ledo! Vestiam-se todos á pressa, desciam ainda tontos de somno; e as
ruas, uns momentos antes silenciosas e negras, brilhavam com as luzes e
tinham o clamor da multidão em vivas, o movimento das danças universaes.»
Não só as ruas, mas tambem estas paginas. Como para o seu mestre
Michelet, a historia é para elle uma resurreição, e como no seu mestre
Michelet o poder de evocação é acompanhado n'elle pelo dom da
comprehensão. N'este mesmo retrato que analysei, se os pormenores e
anecdotas que fazem _ver_ os objectos abundam, não escasseiam os juizos
geraes que os fazem _perceber_. Assim depois de ter pintado o velho rei
em corpo e alma, localisa-o na sua epocha e no seu meio, e indica as
causas da sua força, que são os motivos da sua influencia. Poder-se-iam
definir as suas narrações e descripções, como uma serie de allucinações
com integridade da razão.
«D. Pedro é a viva imagem da Edade-média, politica e domestica. Todos os
vicios e todas as virtudes, a fereza e a ingenuidade, os odios terriveis
e as amizades espontaneas, sommadas n'um caracter primitivo, onde acaso
alguma lepra dos vicios civilisados antigos punha nodoas novas, formavam
a pessoa d'esse rei que é verdadeiramente um symbolo: por isso o povo,
vendo-se n'elle re-tratado, o adorou.»
N'este retrato, como em todos os trabalhos do Sr. Oliveira Martins, a
cor e a vida abundam; o que não abunda é a proporção e a ordem. E ainda
assim não transcrevi senão o que convinha. Se o fizesse na integra,
ver-se-ia que o nosso auctor, na furia da inspiração improvisadora,
repisa e baralha. Se ordenasse e concentrasse, o effeito seria
fulminante e a critica batida recuaria até á admiração.
Mesmo assim é nos retratos que elle triumpha; vastos como quadros, ou
concisos como medalhas vêem-se pendurados a todos os cantos da sua obra.
Pinta-os ás dezenas, cunha-os aos centos. Na _Historia da Civilização
Iberica_ é Camões, é Colombo, é Loyola; na _Historia de Portugal_ são
Affonso Henriques, Pedro o Cru, o Condestavel, o Infante D. Henrique,
Albuquerque, D. Francisco de Almeida, D. João de Castro, o Principe
perfeito, D. Sebastião, o Restaurador, o Rei magnanimo, o pobre D. João
VI; no _Portugal Contemporaneo_, Saldanha, Palmella, D. Miguel e o
Telles Jordão, Mousinho, Rodrigo, Cabral, os Passos e tantos. Com dois
traços ou com duzentos, o personnagem apparece sempre vivo, n'um escorço
fugitivo ou n'uma longa analyse, com uma verosimilhança que garante a
veracidade. E não só esta imaginação é psychologica, mas realista: ella
se compraz não só na pintura das opiniões e paixões, mas tambem na
representação dos pormenores corporaes e das circunstancias triviaes.
Como psychologo, elle sabe que as grandes forças presentes em cada
individuo, e que lhe determinam a biographia, se revelam não só no
mechanismo das idéias e no jogo das tendencias, mas ainda nas pregas do
vestuario e nas rugas do sorriso; como escriptor conhece que só o traço
sensivel provoca a visão, e que a arte de pintar com a palavra, é a arte
de evocar com a palavra. Assim elle verá a gaguez de D. Pedro, a surdez
de Mousinho, a cabeça felina de D. João II; o peito constellado de
Saldanha, a face quadrada de Rodrigo, o eterno charuto de Palmella; os
habitos, as doenças, as idiosyncrasias mais furtivas apparecem
daguerreotypadas por uma imaginação e estampadas n'uma prosa que tem a
complexidade e a velocidade das operações vitaes.
Psychologica e realista, esta imaginação é completa? Um romancista como
o Sr. Eça de Queiroz prima na pintura das sensações corporaes e das
paixões animaes: o cio, a gula, o egoismo brutal e a intriga trivial, a
cobiça e a vaidade, a bondade ingenua e a maldade machinal, quasi que
exgottam o seu reportorio; a população dos seus romances é composta de
personnagens medios; se uma vez n'um livro que é uma confidencia elle
pintou uma alma fóra do commum, foi procedendo á maneira dos
lyricos, transcrevendo as suas proprias emoções; Carmen Puebla é o
proprio romancista com o vibrar pungente dos seus nervos, e os fremitos
da sua furiosa e dolorosa sensibilidade; mas o auctor do _Primo Bazilio_
nunca escreveu um romance como _Louis Lambert_; para um vôo tal são
precisas as azas musculosas do genio cosmopolita e androgyno de Balzac.
O Sr. Oliveira Martins conhece perfeitamente as raizes inconscientes e
physicas da vida superior do espirito, e mostra-as sempre que precisa,
bem que sem as minudencias do romance, porque pinta a fresco sobre a
parede da historia; mas vê com lucidez egual a florescencia culminante
da razão e da moralidade. Elle retrata tão bem o fundador do jesuitismo,
como o filho da lavadeira. O genio é-lhe tão familiar como o instincto;
e não vejo melhor maneira de cerrar esta analyse da face mais importante
do seu espirito, senão transcrever as paginas magnificas que elle
escreveu sobre Herculano, e reproduzir, depois da figura do rei que com
o punhal nos fundou a nacionalidade, o vulto do escriptor que com o seu
genio, incompleto mas poderoso, nos iniciou a historia.
«.... A palavra que o retrata é o Caracter, porque n'elle a vida moral e
a intellectual eram uma e unica,--o contrario do sceptico, não raro
santo, o proprio do estoico, não raro obtuso.
«Dizemos pois Caracter no sentido e valor que a palavra teve na
Antiguidade, e não na vaga accepção moderna. Não é a intemerata vida,
não é o desprezo dos bens mundanos, o odio, a ostentação vã, a desabrida
recusa de titulos, de honras, de logares que em si constituem o
Caracter; embora a repugnancia pelas cousas mesquinhas seja consequencia
indispensavel d'esse modo d'existir que essencialmente consiste na
afinação perfeita das regras da moral e dos principios da intelligencia,
da vida do cidadão e da existencia do philosopho. O typo do caracter á
antiga é o estoico, e este é o nome que propriamente define a
physionomia de Herculano; este é o typo que passo a passo veiu crescendo
até dominar nos ultimos annos,--quando as licções successivas do mundo,
nunca estoico e muito menos do que nunca em nossos dias, e muito menos
do que em parte alguma em Portugal; quando os desenganos do mundo o
degradaram para o exilio,--não como um martyr, mas como um homem, que
protestando sempre, se não converte, nem se corrompe.
«Por isso o estoico é por natureza austero e duro; e na pessoa de
Herculano esse genero aggravava-se com effeito por varios motivos: já
pelo seu temperamento lusitano, já pela deploravel baixeza do nivel
moral da sociedade portugueza, já pelo saber consideravel systematisado
pelo philosopho, e sem duvida alguma desproporcionado para a
illustração media do paiz em que vivia. Olhando as miserias alheias e a
alheia ignorancia, por modesto que fosse--e não o era--via-se muito
acima como homem e como sabedor. Isto, e não a cohorte dos aduladores
ineptos a quem não dava importancia, embora a sua bondade os não
fustigasse, o fazia inconscientemente orgulhoso: porque nenhum orgulho
nem pedantismo tinha para com todos os que via crédores de attenção e
respeito.
«Do accordo da intelligencia e da moral vem ao estoico um pensamento bem
diverso e até opposto ao dos santos, que do antagonismo sentido partem
para as soluções mysticas. Esse pensamento e o individualismo, cujo
traço fundamental consiste na idéia de que o homem é em si um todo
indiviso e completo, e a unica verdadeira realidade da sociedade; a
idéia de que a razão humana é a fonte do conhecimento certo e absoluto,
a consciencia a origem da moral imperativa,--a liberdade, portanto, a
formula da existencia social. D'este modo de ver as cousas nasce aquillo
a que podemos chamar o orgulho transcendente,--que os antigos estoicos
disseram Caracter, quando pela primeira vez essa fórma do pensamento
appareceu systematisada em doutrina.
«No revolver da agitada vida, em que se achara, iam pouco a pouco
reunindo-se, como que crystallizando, os elementos da futura, distincta
e typica individualidade. A nobreza e a ideal rectidão do seu
espirito tinham na sua profundidade o motivo d'uma systematica cegueira
para pesar e medir as cousas reaes com a fria imparcialidade d'um
critico, ou com a caridade do santo. Com o seu metro absoluto e integro,
Herculano, na agitação do mundo, corria atraz da chimera de achar
aquelles homens que o seu estoicismo desenhava, aquelles raros, dos
quaes elle era em Portugal um e unico. O critico, se é politico, manobra
com os homens como um general com um exercito, auscultando as vontades e
caprichos, dirigindo as forças direito a um fim, sem attenção pelos
instrumentos d'elle. Perante os homens, o santo tem na piedade uma
intima força: a coragem que não abranda; tem o enthusiasmo que o move, e
a caridade que explica e lhe faz comprehender, em Deus, as fraquezas e
as miserias da terra. Combate, pois, sem recuar, levando nos labios a
palavra de uncção, e o sorriso d'uma ironia boa, ao mesmo tempo cauterio
e balsamo. O estoico, porém, ferido, pára. O mundo era elle e nada mais
além da sua razão, da sua consciencia, da sua liberdade. E quando as
feridas, as perseguições, os ataques, os ultrajes são profundos e agudos
como os que expulsaram da politica,--e tambem das letras,--Alexandre
Herculano, o estoico repetindo a historica phrase do Africano,
suicida-se. É então que vivamente nasce, pois só então o Caracter
apparece em toda a sua pureza.
«Não o mata o scepticismo, mata-o o excesso de uma incompleta doutrina.
Não descrê, e é por cada vez mais acreditar em si, que foge a um mundo
rebelde a ouvir a verdade. A morte não é pois um acto de desespero, é um
acto de fé. Só a differença dos tempos fez com que no suicidio de
Herculano não entrasse o ferro como entrou nos suicidios estoicos da
Antiguidade. A vida assim coroada, o homem assim transfigurado n'um
typo, e a sua palavra e o seu exemplo n'um protesto, superior ao mundo e
ás suas fraquezas, ficam aureolados com o forte clarão dos heroes, lume
que aos navegantes, errando no mar escuro da vida, guia a derrota e
indica o porto.»
Marcado com firmeza e analysado com perspicacia o facto capital d'este
espirito, o critico passa a estudar-lhe as origens, porque sabe que nos
homens cultos a educação é uma segunda natureza. E no caso presente,
como succede quasi sempre na historia dos homens fóra do commum, a
cultura concorda com o temperamento e exalta o valor das qualidades
innatas. O estoicismo ingenito, exasperado pelo kantismo apprendido,
determinam o corpo das suas opiniões sociaes, politicas, religiosas e
economicas, e depois de fundir as idéias ao pensador, fabricam o estylo
ao escriptor. O Sr. Oliveira Martins considera-o sob todos estes pontos
de vista com uma lucidez de expressão e uma nitidez de comprehensão,
que surprehendem tanto mais que o nosso critico discorda do auctor que
explica, a ponto de combatel-o. Esta sagacidade é ainda mais notavel no
curto juizo sobre as qualidades da prosa de Herculano, quando se pensa
que elle é emittido por um homem que não prima pela posse d'aquillo a
que cabe rigorosamente o nome de dotes litterarios.
«O racionalismo kantista foi o molde onde se vasaram em systema
as tendencias naturaes do espirito de Herculano,--um D. João de
Castro da burguezia e do seculo XIX. O antigo stoicismo portuguez era
catholico e monarchico; o estoico de agora foi romantico e
individualista,--exprimindo a reacção, geral na Europa, contra a
religião dos jesuitas a contra a doutrina da Razão-de-Estado que depois
de ter feito as monarchias absolutas, fizera a Convenção e Napoleão.
«O kantismo como philosophia, o individualismo como politica, o
livre-cambio como economia,--eis ahi as tres phases da doutrina que, por
ser um philosopho, Herculano media em todo o seu alcance.»
Mas a aptidão superior que o leva a marcar n'um espirito o facto capital
é acompanhada pelo tino da realidade que lhe impede de fazer derivar
tudo d'este unico facto; ao lado d'esta causa primordial o Sr.
Oliveira Martins restabelece os principios subsidiarios que a modificam,
limitando-a, e combinando-se com ella originam uma alma real, capaz de
viver entre cousas reaes e de produzir obras reaes. Por este sentimento
intenso do concreto o Sr. Oliveira Martins nos apparece como um
verdadeiro artista, e não como um simples combinador de abstracções.
«.... Não basta o principio individualista para explicar a physionomia
intellectual de Herculano. Varias causas concorriam para o temperar ou
desviar das suas logicas conclusões. O saber é uma d'essas, mas a
principal é o seu temperamento estoico. Para Herculano, e em geral para
o estoicismo, uma doutrina não é um producto da intelligencia pura, que
póde ser ou não amado e _vivido_. O estoico vive com o que pensa; o seu
pensamento está no seu coração: é a carne da sua carne, o sangue do seu
sangue; é uma fé, não é apenas uma opinião. Eminentemente forte, é por
isso mesmo positivo e pratico. As doutrinas são para elle realidades,
não são abstracções; e nada valem quando nada representam na esphera da
consciencia e da moral, quando nada valham na do direito e da economia.
Por isso as extremas conclusões do individualismo, irrealisaveis,
praticamente absurdas, immoraes até, repugnantes para o proprio
instincto, contradictadas pelo saber mais mesquinho, essas
conclusões, delicia d'espiritos seccos, de philosophos abstrusos, de
ingenuos ignorantes,--não podia Herculano, sabio e estoico, abraçal-as.
Parava, pois, afim de conciliar a sua opinião com o seu sentimento; e se
em resultado sahiam inconsequencias, ellas não fazem senão demonstrar a
verdadeira nobreza da sua alma e a tempera rija da sua intelligencia.
«Lado algum das suas idéias mostra isso mais do que o economico. Tão
livre-cambista como individualista: ou ainda mais, porque o socialismo,
cujo crescer sentia e temia, vendo ahi um positivo e declarado inimigo,
e o vivo problema do futuro, ou ainda mais, dizemos, porque não parava,
nem limitava as conclusões ultimas, Herculano era radical no
_free-trade_, pois firmemente acreditava n'elle como numa panacia.
Estoico sempre, a doutrina da concorrencia apparecia-lhe principalmente
por um lado,--secundario para os economistas. O livre-cambio, proclamado
como a melhor receita para crear a riqueza, era para Herculano sobre
tudo a melhor fórma de a distribuir. Queria que as leis pulverisassem o
solo, no qual não reconhecia outro valor senão o que o trabalho
consolidava n'elle, e esperava que a concorrencia, desembaraçada de
todas as peias, creasse uma sociedade proudhoniana, em que todos fossem
capitalistas e proprietarios. Como estoico, era um socialista; mas o seu
socialismo realisar-se-ia pela liberdade, pela concorrencia. E quando se
lhe contavam os casos repetidos, actuaes, do sem numero de
monopolios de facto, nascidos, não das leis, mas sim da guerra natural
economica,--elle parava, scismava e não respondia.
«Via-se que lá dentro luctavam a doutrina e a lucidez; em se convencer,
sem mudar, apparecia o moralista invectivando os vencedores d'essa lucta
donde elle esperava a justiça e donde apenas sahia o dolo. Ninguem o
excedia então; e ao ouvil-o, dir-se-ia algum fugido de Paris, dos tempos
da Communa,--porque nos referimos agora aos seus ultimos annos, ás
vesperas da sua morte, quando a agiotagem _livre_ de Lisboa e Porto
provocou uma crise bancaria. Quiz então o governo cohibir a liberdade de
emissão, mas não o pôde.»
E transcriptos uns trechos de carta em que o individualista defende a
sua doutrina, mesmo contra argumentos tirados d'um campo, em que as
consequencias d'ella são promptas e fulminantes, o critico prosegue.
«Mas se essa liberdade, expressa na concorrencia economica,--e na franca
emissão de notas, no caso especial tomado para exemplo; mas se essa
liberdade conduz a taes resultados, sendo em si excellente, força é que
haja um vicio no mechanismo das instituições. E ha, sem duvida, diz
Herculano,--é o anonymato.
«Na essencia, a _bank-note_ é a expressão do credito que o individuo
attribue a si. Que se reunam 7, 70 ou 700 individuos para sommarem essas
avaliações; que se chame banco e que exprimam collectivamente o total,
isso não muda a essencia da cousa. Supprimia todas as responsabilidades
_limitadas_. A responsabilidade é de sua natureza _illimitada_ até onde
chegam os recursos e pessoa do responsavel. _Non habet in posse, dicat
in corpore_, é maxima que se não devia desprezar n'esta questão do abuso
do credito. Note-se que eu desejaria supprimidas todas as
responsabilidades limitadas, tacitas ou expressas, manifestas ou
disfarçadas.»
«Nós vimos antes como o espirito do erudito historiador corrigia em
certo ponto a doutrina individualista; vemos aqui o jurista a corrigir o
livre-cambio; vamos ver o canonista a corrigir para a direita o
ultramontanismo, para a esquerda o atheismo. A educação do homem
temperava os principios do philosopho; e essas correcções eram-lhe
indispensaveis para que os seus pensamentos se mantivessem de accordo
com os seus rectos instinctos, com as suas bellas aspirações,--eram-lhe
indispensaveis, porque o estoico não admitte divergencias entre a
intelligencia e a moral, entre o mundo das idéias e o das realidades.
«Com fundado motivo dizia Herculano que perante os principios,--liberal
e socialista, ou individualista e collectivista,--era indifferente a
questão das fórmas do governo: «pouco me incommoda que outrem se sente
n'um throno, n'uma poltrona, ou n'uma tripeça». Mas essa questão da
republica ou da monarchia, é para elle um problema não só historico, mas
tambem religioso.
«Pondo de parte a questão de opportunidade no momento d'uma crise, a
republica não parecia a Herculano adequada «á velha Europa, sobretudo a
estas sociedades meio-germanicas na indole e celto-romanas na raça que
estanceiam ao occidente educadas pelo catholicismo que na pureza da sua
indole é o typo da monarchia representativa.»
«A tradição religiosa--ou antes aquella tradição religiosa d'um
catholicismo liberal inventada pelo romantismo,--servia, pois, ao
philosopho para temperar o seu individualismo, para o conciliar com um
resto de auctoridade social consagrada nas prerogativas do throno
representativo. De tal modo se combinava o racionalismo, e este traço é
o que dá a Herculano, ou antes á sua doutrina um caracter
d'individualidade original, depois do ensino, apenas racionalista de
Mousinho da Silveira.
«Tambem entrava ao lado da educação, o temperamento para acabar de
afeiçoar a physionomia religiosa de Herculano. O mechanismo do frio Deus
kantista não bastava á sua indole peninsular. A imaginação pedia-lhe
a antiga historia tradicional; o sentimento reclamava que quer que é
d'affectuoso e meigo,--a doce caridade catholica; e o bom-senso exigia o
culto e a pompa que impressionam as massas. O protestantismo, alvo das
suas acerbas satyras, não satisfazia a sua alma, nem as suas exigencias
de canonista. Nada propenso ao mysticismo, e até rebelde a
comprehendel-o fóra da caridade pratica, não via na religião mais do que
uma Egreja,--instituição e disciplina....
«A Liberdade, supposto principio que para elle resumia a essencia d'um
espirito racional e absolutamente consciente, era afinal o seu
verdadeiro e intimo deus. É essa a religião do estoico; e o Deus da
_Harpa do Crente_ é um ser eminentemente livre que por um acto de
vontade absoluta creou tudo o que existe: o deus do estoico é a
divinisação do estoicismo. E como todos sabem por quanto esta antiga
philosophia entrou na formação do christianismo, é desnecessario mostrar
desenvolvidamente como e até que ponto Deus era para Herculano o Deus
christão.
«Obras de tres naturezas diversas nos revelam pelo estylo tres
phisionomias. A primeira, official e grave, são os seus trabalhos
historicos, onde o periodo redondo e classico, mas sem affectação
quinhentista, se desenvolve alimentado pelos _caldos de Vieira_ que nos
receitava a nós os moços, para educar a mão; a segunda são os seus
romances e escriptos humoristicos, onde mal ataviado o periodo
jesuitico, ás vezes combinado com fórmas e _tours_ estrangeirados,
transparece sempre o _goût du terroir_, o cunho do portuguezismo duro e
pesado, mais aggressivo do que de comedia. Na terceira, finalmente, em
nossa opinião a mais bella, nos escriptos de polemista a phrase rotunda
é quente, a aggressão é viva, as palavras tem calor, e a dureza do genio
lusitano acha nos sentimentos expressos em orações duras, uma convicção,
uma independencia que a ennobrecem. Ouve-se a voz do estoico, e ha uma
harmonia perfeita entre o pensamento profundo, grave e forte, e o estylo
redondo, sobrio e nobre. A rethorica classica é o molde proprio do
classico pensamento estoico. Mas entre estas obras ha uma, uma unica
(_Carta á Academia das Sciencias_), onde apparece o homem intimo,
sensivel, caridoso e simples, esse homem que nós esboçamos
fugitivamente, porque a vida, a educação, o temperamento, de mãos dadas
concorriam para o subalternisar ao homem estoico; ha uma dizemos, em que
as palavras não falam apenas, choram e vociferam, tem lagrimas e
imprecações e ironias. Ferido no vivo coração da sua existencia, o homem
poz no papel o melhor do seu sangue. O que o genio do artista obtem com
a intuição, consegue-o o poeta com a emoção. A _Carta á Academia_ é tão
bella como as melhores das poesias intimas de Herculano.
«Para elle que, como lusitano, nada tinha de artista (prova, os seus
romances), a litteratura era uma missão e não um dilletantismo. O
universo, a historia, a sociedade, não se lhe apresentavam como assumpto
de estudos subtis e curiosos, de observações finas ou profundas, de
quadros brilhantes, vivos ou commoventes; mas como objecto de
affirmações ou negações inspiradas pela convicção estoica. Nos seus
livros póde seguir-se ao mesmo tempo o desenvolvimento do seu pensamento
e a historia da sua consciencia. São o retrato da alma do auctor, ora
apaixonada, ora melancholica, quasi sempre triste, raras vezes contente,
mas sempre convicta, energica e franca.
«As _Poesias_ e o _Eurico_ revelam-nos o crente na providente liberdade
d'um poderoso e justo Deus; a alma rijamente temperada contra o funesto
acaso; o coração aberto ás emoções da natureza que se lhe manifesta com
o caracter d'uma fatalidade cruel e d'um cego desabrimento. Deus, a
Natureza, o Homem, são, n'essas obras, personnagens d'uma tragedia
biblica, com a tempestade rouca por musicas e por fundos de scena
bulcões de opacas nuvens cobrindo o azul do ceo.
«Vem depois as obras polemicas, vasta e riquissima collecção que
patenteia a omnimoda actividade do pensamento de Herculano, e lhe dá o
caracter d'um philosopho, cujo pensamento em vez de se manifestar em
tratados, se exprime em controversias. Profissionalmente, era
historiador. A _Historia de Portugal_ e os trabalhos que com ella formam
o corpo dos estudos do erudito são a obra mais importante do escriptor e
solido fundamento do seu immorredouro nome na historia litteraria
portugueza. Reunindo a um vasto e forte saber geral a paciencia do
erudito e o escrupulo do critico, esses trabalhos não respiram a pedante
seccura do especialismo, e se não constituem, nem podem constituir uma
historia nacional, fizeram com que os problemas das origens sociaes e
politicas da nação portugueza fossem por uma vez resolvidos. A
historiographia peninsular tem em Herculano o seu mais illustre nome: um
nome que se conservará ao lado do de Guizot, de quem tinha os golpes de
vista comprehensivos, e do de Thierry, a quem acompanhava na faculdade
de representar vivas, nos seus habitos, costumes e leis (senão em sua
alma como um Michelet) as passadas gerações,--avantajando-se a ambos na
coragem com que arcou com o trabalho improbo de colligir, coordenar,
traduzir, interpretar os monumentos historicos d'um povo que não tivera
benidictinos eruditos. Robinson de nova especie, Herculano achou-se como
n'um paiz deserto e teve de descobrir os materiaes antes que pudesse pôr
mãos á obra.
«Prodigio de trabalho, de saber, de paciencia, de talento, a _Historia
de Portugal_, é um monumento; entretanto,--devemos dizel-o, se
quizermos ser inteiramente justos.--mais de uma cousa lhe falta, para
poder ser considerada um typo, e o seu auctor um grande historiador como
Ranke. Falta-lhe ar na contextura sobrecarregada de eruditas discussões;
falta-lhe, sobre tudo, aquella alta e serena imparcialidade, aquelle
ponto de vista rigorosamente objectivo, aquella isenção critica,
impassivel perante as escholas, os systemas, os partidos; e sem a qual a
historia deixa de o ser.
«Além d'isto, ha uma falta de nexo na _Historia de Portugal_, resultado
do modo como primeiro foi concebido.... as duas faces do livro se não
ligam,... os factos e os homens nos apparecem como um appendice,
subalterno, indifferente, dando a impressão de que se tivessem sido
outros e diversos, nem por isso a vida anonyma das sociedades poderia
ter seguido rumo differente. E se nem a acção dos elementos
voluntario-individuaes e dos fortuitos, sobre os elementos sociaes, nem
a inversa, nos apparece, tirando assim á historia o seu caracter
eminente de realidade; juxtapondo artificialmente a uma chronica,
veridica, desinçada dos erros e das invenções fradescas, uma dissertação
erudita sobre o desenvolvimento das instituições: tambem a apreciação
dos elementos moraes,--crenças individuaes, phenomenos de psychologica
collectiva,--é feita á luz de doutrinas quasi voltaireanas; e no avaliar
das lendas religiosas, da acção do clero, o historiador prescinde de
profundar os motivos moraes, ou cede a palavra ao sectario que nos
bispos e em Roma não vê outra cousa mais do que sacerdotes da astucia e
uma Babylonia de perversão.».
N'este magnifico retrato se vê em alto relevo todos os recursos do
auctor. No arcar com uma empresa difficil se mede toda a força
disponivel. Tendo de estudar uma natureza complexa e eminente, o
psychologo desenvolveu n'esse trabalho todos os recursos do seu eminente
e complexo espirito. Eminente e differente, o espirito estudado vê-se
que quem o estuda, nem philosopho por officio, nem stoico por
temperamento, é capaz de, pela imaginação psychologica, perceber as
idéias geraes e as paixões moraes. Quiz transcrever quasi na integra,
estas paginas numerosas, mas que se lêem d'um fôlego, porque um bom
exemplo se não é um ramo legitimo de prova, é um instrumento optimo de
exposição, e convem expor com a lucidez maxima, aquella que reputo a
faculdade matriz do espirito que analyso, e que nenhum escriptor
portuguez contemporaneo possue em tão alto grau como o Sr. Oliveira
Martins.
II
AS PAIZAGENS
Com a imaginação psychologica, possue elle a imaginação physica? O exame
das suas paizagens o dirá. Um escriptor como o Sr. Ramalho Ortigão, por
exemplo, em quem o dom da representação visual, apparece completo e
permanece intacto, procederá nas suas descripções pela transcripção
minuciosa, exacta e methodica das impressões taes como foram recebidas,
ou antes taes como foram enviadas dos objectos. Se elle descreve um
trecho qualquer da realidade, supponhamos uma rua de Amsterdam, começará
por calcular-lhe a largura, 3 metros; verá os predios de tres e quatro
andares, em tijolo; notará em seguida a côr do tijolo, preto, e a nuance
particular, preto côr de sombra ou vermelho tostado; falará das varas
pintadas de verde dos enxugadouros, onde pendem riscados brancos, azues
e vermelhos; observará as pranchas com vasos, as taboletas sobre as
portas, vinte objectos miudos ou dispersos, um gallo branco de
crista encarnada, o pão de assucar da tenda, uma chave de broca para o
ar, tres queijos sobrepostos, um branco, um dourado, um preto; uma
lanterna, um barril, um tamanco; nas janellas, os espelhos quadrados de
caixilho de ferro; no chão comprido e varrido da rua, arrumados á parede
uma vassoura, baldes, gigas, celhas, o pincel das lavagens, uma roda
desembuchada do eixo, uma lança de corvo, uma gaiola de frangos, e n'uma
casota, um sapateiro velho, de oculos, sobre a tripeça, curvado a
trabalhar, com o tecto em cima do seu _bonnet_ de lontra. E os objectos
virão descriptos com uma tão vehemente fidelidade, que enumerando-os
parecerá, não que elle redige um rol mas que estampa uma visão. E as
manchas da côr, a direcção das linhas, a obtusidade ou a agudeza dos
angulos, a disposição e o recuo dos planos visuaes, o systema das
apparições corporaes dadas na adaptação dos seus elementos intestinos, e
nas combinações ou contrastes com as apparições adjacentes, o peso, a
forma, a proveniencia e a utilidade das cousas vistas, serão dictas
n'uma prosa de tal sorte adequada pela sua provada firmeza e estructural
precisão ao genero de trabalho a que a submettem, que o leitor se lá
esteve, sem querer, exclama: S. Nicolas Straat! repetindo o nome que leu
e a rua por que passou.
São assim as descripções do Sr. Oliveira Martins? Não são. Na sua
Historia Romana, no livro das guerras punicas, encontram-se descripções
admiraveis que rivalisam em colorido e nitidez com as melhores do Sr.
Ramalho Ortigão; mas a influencia litteraria é visivel n'ellas, são
reminiscencias intelligentes da _Salammbo_ de Flaubert. Ha porém nos
seus livros paizagens vistas cuja originalidade é incontestavel. N'essas
o processo descriptivo é bem diverso. O Sr. Oliveira Martins não nos diz
o que observou, mas o que sentiu. Os aspectos physicos não lhe apparecem
senão como signaes de forças e fontes de emoções. E a emoção que elle
procura e acha na visão. Se elle observa uma arvore não lhe vê a côr das
folhas nem os contornos dos troncos, e se o faz é com intenção e
esforço; nota-lhe a expressão moral: «Os campos sobem em terraços
viçosos, assombrados pela oliveira _doce e pallida_, dando com a sua
folhagem minuscula, _um tom aereo, um tom grego_ á paizagem.....» Ou
ainda «o aloés orgulhoso levantando _com imperio_ o seu pennacho de
carmim». Falando com precisão elle não reproduz o aspecto das cousas,
mas a sua physionomia. As suas paizagens são retratos. Um pedaço
qualquer da realidade corporea não é para elle mais que um afloramento
de energias latentes e uma causa de sentimentos presentes. O pensamento
de Amiel, que uma paizagem é um estado da alma, inexacto para os
escriptores de imaginação physica, é absolutamente verdadeiro para
os escriptores de imaginação psychologica, como o Sr. Oliveira Martins.
Elle encara a natureza não como um pintor mas como um poeta.
Precisemos ainda mais esta analyse. Uma paizagem é um conjuncto de
elementos materiaes coordenados de um certo modo no espaço e reflectido
de um certo modo no espirito. Dos diversos factos em que ella póde ser
resolvida, uns são propriamente objectivos como a grandeza e a figura,
outros uma pura sensação individual, como a côr, ou uma fonte directa de
emoção como o movimento. D'aqui nascem duas ordens de paizagens, uma a
que chamarei descriptiva, outra a que cabe o nome de expressiva. As do
Sr. Oliveira Martins são expressivas, como convem a um escriptor de
imaginação psychologica. Isto explica tambem porque elle prima na
pintura de certas scenas e claudica na descripção de outras. Descreve
muito melhor uma batalha do que um assedio, e um naufragio do que uma
viagem. As tumultuosas descripções, motins, cavalhadas, procissões,
triumphos, combates e festas abundam nos seus livros e são excellentes.
Não assim as scenas tranquillas que demandam a lucidez de memoria e
segurança de traço e que não provocam senão uma emoção pacifica e
duravel. Uma viva preoccupação da força é visivel nas suas grandes
descripções e em nenhuma ella se manifesta tão energica como nas
magnificas paginas sobre o terremoto.
«Na manhã do 1º de novembro a cidade estremeceu, abalada profundamente e
começou a desabar. Eram nove horas, dia de Todos-os-Santos: nas casas
ardiam as velas nos oratorios, e as egrejas regorgitavam povo a ouvir
missas. Toda a gente, n'uma onda, correu ás praias; mas, rolando em
massa, estacou perante a onda que vinha do rio, galgando a inundar as
ruas, invadindo as casas. Por sobre este encontro ruidoso, uma nuvem de
pó que toldava os ares e escurecia o sol, pairava, formada já pelos
detritos das construcções e das mobilias, que o abalo interno da terra
vasculhava, e os desabamentos enviavam, em estilhas, para o ar. A onda
do povo afflicto, retrocedendo, a fugir do mar, tropeçava nas ruinas; e
as quedas, e a metralha dos muros que tombavam, abriam na floresta viva,
agitada pelo vento da desgraça, clareiras de morte, montões de cadaveres
e poças de sangue dos membros decepados com manchas brancas dos cerebros
derramados contra as esquinas. E as casas erguiam se com as paredes
desabadas, os tectos abertos sobre o esqueleto dos tabiques, mostrando a
nú todos os interiores funestos, n'este dia em que, para muitos, Deus
julgara e condemnara Lisboa, como outr'ora fizera a Sodoma. Por isso o
rouco trovão dos desabamentos se ouvia cortado pelos ais dos moribundos,
e pelos gritos dos homens e das mulheres, abraçadas ás cruzes, aos
santos, ás reliquias, soluçando ladainhas, ungindo moribundos,
parando esgazeados a cada novo abalo da terra que não cessava de tremer,
arrastando-se pelo chão, de joelhos, com as mãos postas a face em
lagrimas, a clamar: Misericordia! Misericordia!
«Casas, palacios, conventos, mosteiros, hospitaes, egrejas, campanarios,
theatros, fortalezas, porticos, tudo, tudo cahia. «Se visses sómente o
palacio real, diz uma testemunha, que singular espectaculo, meu irmão!»
Os varões de ferro torcidos como vimes, as cantarias estaladas como
vidro! A onda do rio sorvia n'um momento o caes do Terreiro-do-Paço, com
os barcos atracados coalhados de gente. Dos andares altos
precipitavam-se sobre as lages das ruas. O medo crescia, vinha a
loucura; viam-se mortos arrastados pelos vivos, viam-se mutilados
coxeando, gente correndo desgrenhada, semi-nua, homens e mulheres,
velhos e crianças, dilacerados, sangrentos, arrastando uma perna
fracturada, esvahindo-se em sangue por algum membro decepado. Gritos,
choros, clamores, imprecações, ais, preces, um borborinho de vozes
desvairadas acompanhava os gemidos comprimidos dos soterrados nos
escombros. No turbilhão das ruas havia quedas e mortos, abraços e
agonias. A mesma loucura dos homens era o desvairamento dos brutos: os
machos, desbocados, arrastavam os cavalleiros e as caleças,
precipitando-se nos despenhadeiros da cidade montuosa; e as massas
de gente viva, moribunda e morta, de envolta com os entulhos,
rolavam nas ruas ladeadas pelos esqueletos das casas como uma imagem
desolada do que seria o cahos. Quando a terra se subvertia, quando o mar
vinha subindo afogar a terra, quando no ar faiscavam as linguas
flammiferas rutilantes, que lembrança podia haver das invenções humanas?
Abraçados, confundidos, na communidade do pranto, fidalgas e freiras,
meretrizes e mães, mendigos e senhores, villões e cavalheiros,
traçavam-se na communidade da fome, do frio, da nudez, do terror. De
rastos a cidade inteira, sacudida pelo abalo formidando, reunia toda a
sua eloquencia numa palavra unica--Misericordia! Misericordia!