A Partida do _Cashmere_

I

O ANGRAZINHA PROXIMA DA IGREJA

Saint-Sampson não póde estar apinhado de gente sem que Saint-Pierre

Port fique deserto. Uma cousa curiosa n'um ponto dado é uma bomba

aspirante. As noticias correm depressa nas terras pequenas; ir ver o

cano da Durande debaixo da janella de mess Lethierry foi desde o romper

do dia a grande occupação de Guernesey. Qualquer outro acontecimento

desapparecia diante desse. Eclypse da morte do decano de Saint-Asaph;

já ninguem curava do reverendo Ebeneser Caudray, nem da sua repentina

riqueza, nem da sua partida no _Cashmere._ A machina da Durande trazida

das Douvres estava na ordem do dia. Ninguem acreditava. O naufragio

parecera extraordinario, mas o salvamento parecia impossivel. Todos

queriam ver com os seus proprios olhos. Todas as occupações ficaram

suspensas. Longas fileiras de burguezes em familia, desde o _vesin_

até o mess, homens, mulheres, gentlemen, mais com filhos e filhos com

bonecas, dirigiam-se por todas as estradas para _ver a cousa_, em

Bravées, e davam-se as costas a Saint-Pierre Port. Muitas lojas de

Saint-Pierre Port estavam fechadas; no _Commercial Arcade_, estagnação

absoluta de venda e de negocio; toda a attenção estava voltada para a

Durande; nenhum mercador estreou, excepto um ourives que se maravilhava

de ter vendido um anel de ouro para casamento--«a uma especie de homem

que parecia muito appressado e que lhe perguntou onde morava o Sr.

decano.» As lojas que ficaram abertas eram os lugares de conversa

onde se commentava ruidosamente o milagroso salvamento da machina.

Ninguem passeava na Hyvresse, que se chama hoje, não se sabe por

que, Cambridge-Park; ninguem em High-Street, que se chamava então a

Rua Grande, nem era Smith Street, que se chamava a Rua das Forjas;

ninguem em Hauteville; a propria Esplanada estava deserta. Dissera-se

um domingo. Uma alteza real, que alli fosse de visita, e passasse em

revista a milicia de Ancrese não despovoaria melhor a cidade. Todo

aquelle abalo a proposito de uma cousa á tôa como Gilliatt fazia erguer

os hombros aos homens graves e ás pessoas correctas.

A igreja de Saint-Pierre Port, triplice carreta sobreposta com

trancepto e flecha, fica situada á beira da praia no fundo do porto

quasi sobre o desembarque. Dá a saudação aos que chegam e o adeus aos

que sabem. Aquella igreja é a maiuscula de uma longa linha que faz a

fachada da cidade sobre o oceano.

É ao mesmo tempo a parochia de Saint-Pierre Port o chefe de toda a

ilha. Tem por parocho o subrogado do bispo, clergyman com plenos

poderes.

O ancoradouro de Saint-Pierre Port, hoje largo e magnifico porto,

era naquella época, e ainda ha dez annos, menos consideravel que o

ancoradouro de Saint-Sampson. Eram duas grossas paredes cyclopicas

curvas partindo da praia a estibordo e bombordo e ligando-se quasi

na extremidade, onde havia um pharolsinho branco. Debaixo daquelle

pharol uma garganta, que ainda tinha as duas argolas da corrente que a

fechava na idade média, dava passagem aos navios. Imaginem uma unha de

lagosta aberta, era o ancoradouro de Saint-Pierre Port. Aquella tenaz

tomava ao mar um pouco de agua que obrigava a ficar tranquilla. Mas com

vento d'Este, havia marulho na entrada, o porto ficava agitado, e era

acertado não penetrar lá. Foi o que fez nesse dia o _Cashmere_, que

ficou fóra.

Os navios, quando soprava o Este, faziam isso que, no fim das contas,

economisava as despezas do porto. Nesses casos, os bateleiros da

cidade, tribu valente de marinheiros que o novo porto destituira, iam

tomar em seus barcos os viajantes, ou no cáes, ou nas estações da

praia, e os transportavam, a elles e ás bagagens, muitas vezes com

marés agitadas e sempre sem accidente, aos navios que deviam sahir. O

vento d'Este é um vento de flanco muito bom para ir á Inglaterra; o mar

é agitado sem que o navio estremeça.

Quando o navio ficava no porto, todos embarcavam no porto; quando

estava fóra, podia-se escolher uma das costas visinhas do ancoradouro

do navio. Achava-se em todas as angras bateleiros á vontade.

A Angrazinha era dessas. Aquelle cáes ficava proximo á cidade, mas tão

solitario, que parecia longe. Devia a solidão ás duas grandes penedias

do forte de S. Jorge que dominavam aquelle sitio discreto. Chegava-se

á Angrazinha por caminhos diversos. O mais directo ia pela praia;

tinha a vantagem de ir dar á cidade e á igreja em cinco minutos, e o

inconveniente de ser coberto pela maré duas vezes por dia.

Outros caminhos, mais ou menos abruptos, mergulhavam nas

anfractuosidades dos rochedos. A Angrazinha, mesmo em pleno dia,

ficava numa penumbra. Grandes pedras amontoadas pendiam de todos os

lados. Haviam espessuras de espinhos, fazendo uma especie de noite

suave naquella desordem de rochas e vagas; nada mais aprazivel do

que aquella angra em tempo calmo, nada mais tumultuoso nas grossas

aguas. Haviam pontas de galhos perpetuamente molhados pela escuma. Na

primavera ficava cheia de flôres, ninhos, perfumes, aves borboletas e

abelhas. Graças aos trabalhos recentes, essa selvageria já não existe;

foi substituida por bellas linhas rectas; ha obras de pedreiro, cáes,

jardins; tudo foi derrubado; o gosto destruio as extravaganeias da

montanha e a incorrecção dos rochedos.

II

O DESESPERO DIANTE DO DESESPERO

Era pouco menos de dez horas da manhã: o quarto de hora antes, como se

diz em Guernesey.

O povo, segundo todas as apparencias, ia engrossando em Saint-Sampson.

A população febricitante de curiosidade, ia toda para o norte da ilha,

de maneira que a Angrazinha, que fica ao sul, estava mais deserta que

nunca.

Comtudo, via-se ahi um bote e um remador. No bote havia um sacco de

viagem. O bateleiro parecia esperar.

Via-se ao largo o _Cashmere_ ancorado, que devendo partir lá para o

meio dia, não fazia nenhum movimento de apparelho.

O viandante que, do qualquer dos caminhos-escadas tivesse prestado o

ouvido, ouviria um murmurio de palavras na Angrazinha, e inclinando-se

por cima, veria, a alguma distancia do bote, n'um recanto de pedra e

galhos onde não podia penetrar o olhar do bateleiro, duas pessoas, um

homem e uma mulher, Ebeneser e Deruchette.

Esses asylos obscuros das praias, que tentam as banhistas, não são

tão solitarios como se pensa. Ás vezes espreita-se e ouve-se de fóra.

Os que se refugiam podem ser facilmente acompanhados atravez das

espessuras das vegetações, e graças á multiplicidade e entravamento dos

atalhos. Os granitos e arvores que escondem o refugiado, podem esconder

tambem uma testemunha.

Deruchette e Ebeneser estavam de pé diante um do outro, com o olhar

no olhar; tinham as mãos presas. Ebeneser estava calado. Uma lagrima

engrossada e presa entre os seus cilios hesitava em cahir, e não cahia.

A desolação e a paixão estavam impressas na fronte religiosa de

Ebeneser. Havia tambem uma resignação pungente, hostil á fé, embora

derivasse della. Naquelle rosto, simplesmente angelico até então, havia

um começo de expressão fatal. Aquelle que até então só meditara sobre

o dogma, entrava a meditar sobre a sorte, meditação nociva ao padre.

Nessa meditação decompõe-se a fé. Nada perturba tanto o espirito como

curvar-se ao peso do ignoto. O homem é o paciente dos acontecimentos.

A vida é um perpetuo successo, imposto ao homem. O homem não sabe

de que lado virá a brusca descida do acaso. As catastrophes e as

felicidades, entram e sahern como personagens inesperadas. Tem a

sua fé, a sua orbita, a sua gravitação fóra do homem. A virtude não

traz a felicidade, o crime não traz a desgraça; a consciencia tem

uma logica, a sorte tem outra; nenhuma coincidencia. Nada pode ser

previsto. Vivemos de atropello. A consciencia é a linha recta, a vida é

o turbilhão. O turbilhão atira á cabeça do homem cachos negros e céos

azues. A sorte não tem a arte das transições. Ás vezes a vida anda

tão depressa que o homem mal distingue o intervallo de uma peripecia

á outra e o laço de hontem a hoje. Ebenezer era um crente mesclado de

raciocinio e um padre mesclado de paixão. As religiões celibatarias

sabem o que fazem. Nada desfaz tanto o padre como amar uma mulher.

Todas as especies de nuvens ensombravam Ebeneser.

Contemplava demasiado Deruchette.

Aquellas duas creaturas idolatravam-se.

Havia na palpebra de Ebeneser a muda adoração do desespero.

Deruchette dizia:

--Não hade partir. Não tenho força para vêl-o ir-se embora. Eu

acreditava poder despedir-me, e não posso. Ninguem é obrigado a poder.

Porque foi hontem ao jardim? Não devia ir, se queria ir-se embora.

Nunca lhe fallei. Amava-o, mas não o sabia. Somente, quando o Sr.

Herodes leu a historia de Rebecca, e que os seus olhos encontraram os

meus, senti as faces em fogo, e disse comigo: Oh! como Rebecca devia

ter corado! Hontem se me dissessem que eu amaria o cura, ria-me. É

o que ha de terrivel neste amor. Foi uma especie do traição. Não me

acautelei. Ia á igreja, via-o, acreditei que todos eram como eu. Não

lhe faço censura alguma, nada fez para que eu o ame, não se deu a

nenhum trabalho, olhava-me, não é culpa sua se olha para as outras

pessoas, e o resultado é que eu o adoro. Eu nem reparava. Quando as

suas mãos pegavam n'um livro, era uma luz; quando os outros pegavam

nelle, era apenas um livro. Ás vezes levantava os olhos para mim.

Fallava dos archanjos, e era o archanjo. O que dizia, pensava-o eu

logo. Antes de vêl-o não sei se acreditava em Deos. Depois que o

vi, tornei-me uma mulher que faz as suas orações. Eu dizia a Doce:

veste-me depressa, não quero faltar ao officio. E corria á igreja.

Estar apaixonada por um homem, é isto. Eu não o sabia. Dizia comigo:

Como estou devota! Depois de vêl-o é que soube que eu não ia á igreja

por causa de Deos. Ia vêl-o é verdade. É formoso, falla bem, quando

levanta os braços para o céo parece que tem o meu coração entre as suas

duas mãos brancas. Eu estava louca. Ignorava-o. Quer que lhe diga a sua

culpa? foi entrar hontem no jardim e fallar-me. Se nada me dissesse, eu

nada saberia. Partiria, eu ficava triste, mas agora morrerei. Agora que

eu sei que o amor não é possivel que se vá embora. Em que pensa? Parece

que não me ouve.

Ebeneser respondeu:

--A senhora ouvio o que se disse hontem.

--Ai, sim!

--Que posso fazer?

Calaram-se um momento. Ebeneser continuou:

--Só uma cousa devo fazer agora. Partir.

--E eu, morrer. Oh! eu quizera qne não houvesse mar, e só houvesse o

céo! Parece-me que isto arranjaria tudo, e a nossa partida seria a

mesma. Não devia fallar-me. Porque me fallou? Que será agora de mim?

Digo-lhe que hei de morrer. Ha de ter ganho muito quando eu estiver no

cemiterio. Oh! tenho o coração despedaçado. Desventurada que sou! E meu

tio não é máo, comtudo.

Era a primeira vez na sua vida que Deruchette dizia fallando de mess

Lethierry, _meu tio._ Até então sempre dizia _meu pai._

Ebeneser recuou um pouco e fez um signal ao bateleiro. Ouvio-se o ruido

de um croque nas pedras e o passo de um homem no bote.

--Não! não! gritou Deruchette.

Ebeneser approximou-se della.

--É preciso, Deruchette.

--Não, nunca! Por uma machina! Será possivel? Vio hontem aquelle homem

horrivel? Não deve abandonar-ine. Tem intelligencia, ha de achar um

meio. Não é possivel que me dissesse para vir aqui hoje, com a idéa de

partir. Não lhe fiz nada. Não tem motivos de queixa de mim. É naquelle

navio que quer ir? Não quero. Não me deixe. Não se abre o céo para

tornal-o a fechar. Digo-lhe que ha de ficar. Demais ainda não bateu a

hora. Oh! eu te amo!

E unindo-se a elle, cruzou-lhe os dez dedos por traz do pescoço, como

para fazer com os seus braços enlaçados em Ebeneser e com as suas mãos

juntas uma oração a Deos.

Elle deslaçou aquella cadêa delicada, que resistio emquanto pôde.

Deruchette cahio assentada n'uma ponta de rocha coberta de hera,

levantando com um gesto machinal a manga do vestido até o cotovello,

mostrando o seu delicioso braço nú, com uma luz afogada e pallida nos

olhos fixos. O bote approximava-se.

Ebeneser segurou-lhe a cabeça nas mãos; aquella virgem tinha o ar de

uma viuva e aquelle mancebo tinha o ar de um avô. Tocou-lhe os cabellos

com uma especie de precaução religiosa; fitou os olhos nella durante

alguns instantes, depositou-lhe na fronte um desses beijos debaixo dos

quaes parece que deveria abrir uma estrella, e com uma voz que tremia

na suprema angustia e onde se sentia a dilaceração da alma, disse-lhe

esta palavra, a palavra das profundezas: Adeos!

Deruchette rompeu em soluços.

Neste momento ouviram uma voz lenta e grave que dizia:

--Porque motivo não se casam?

Ebeneser voltou a cabeça. Deruchette levantou os olhos.

Gilliatt estava diante delles.

Acabava de entrar por um atalho lateral.

Gilliatt já não era o mesmo homem da vespera. Tinha penteado os

cabellos, fez a barba, calçou os sapatos, vestio camisa branca

de marinheiro com grandes collarinhos cabidos, vestio a roupa de

marinheiro mais nova. Via-se um annel de ouro no dedo minimo. Parecia

profundamente calmo. Estava livido.

Bronze que soffre, tal era aquelle rosto.

Os dous olharam para elle estupefactos. Embora não se podesse

reconhecel-o, Deruchette reconheceu-o. Quanto ás palavras que elle

acabava de pronunciar, estavam tão longe do que elles pensavam nesse

momento, que resvalaram-lhe no espirito.

Gilliatt continuou:

--Que necessidade é essa de se dizerem adeos? Casem-se. Embarquem

depois.

--Deruchette estremeceu da cabeça aos pés.

Gilliatt continuou:

--Miss Deruchette tem vinte e um annos. É senhora de sua vontade. Seu

tio é apenas seu tio. Amam-se...

Deruchette interrompeu docemente.

--Como é que o senhor está aqui?

--Casem-se, continuou Gilliatt.

Deruchette começava a perceber o que lhe dizia aquelle homem. Murmurou:

--O meu pobre tio...

--Recusaria se o casamento estivesse por fazer, disse Gilliatt, e

consentirá quando o casamento estiver concluido. Demais vão embarcar

ambos. Quando voltarem, elle os perdoará.

Gilliatt accrescentou com um tom amargo:

--E depois, elle já não pensa senão em construir o vapor. Isso o

distrahirá durante a sua ausencia. Tem Durande para consolal-o.

--Eu não quizera, balbuciou Deruchette n'um espanto misturado de

alegria, não quizera deixar pesares indo-me embora...

--Não durarão muito tempo os pesares, disse Gilliatt.

Ebeneser e Deruchette tiveram uma especie de deslumbramento.

Tranquillisaram-se. Na sua decrescente perturbação, iam entendendo

as palavras de Gilliatt. Ainda havia alguma nuvem, mas a obrigação

delles dous não era resistir ao conselho. Quem salva domina sempre.

Fracas são as objecções quando se trata de voltar ao Eden. Havia na

attitude de Deruchette, imperceptivelmente apoiada em Ebeneser, alguma

cousa que fazia causa commum com o que dizia Gilliatt. Quanto ao

enigma da presença daquelle homem e das suas palavras que, no espirito

de Deruchette em particular, produziam muitas especies de assombro,

eram questões á parte. Aquelle homem dizia-lhes: Casem-se. Era claro.

Se houvesse uma responsabilidade era elle quem a tomava sobre si.

Deruchette sentia confusamente que, por diversas razões, elle tinha o

direito de faze-lo. O que elle dizia de mess Lethierry era verdade,

Ebeneser pensativo murmurou:

--Um tio não é um pai.

Ebeneser sentia a corrupção de uma peripecia subita e feliz. Os

escrupulos provaveis do padre fundiam-se e dissolviam-se naquelle pobre

coração apaixonado.

A voz de Gilliatt tomou-se breve e dura; sentia-se nella umas pulsações

de febre:

--Immediatamente. O _Cashmere_ parte daqui a duas horas. Tem tempo, mas

não de sobra; venham ambos.

Ebeneser examinava-o attentamente.

De subito exclamou:

--Conheço-o. Foi o senhor quem me salvou a vida.

Gilliatt respondeu:

--Não creio.

--Lá adiante, na ponta dos Bancos.

--Não conheço esse lugar.

--No mesmo dia em que cheguei.

--Não percamos tempo, disse Gilliatt.

--E não me engano, o senhor é o homem de hontem á noite.

--Talvez.

--Como se chama?

Gilliatt alçou a voz:

--Ó do bote, espere-nos. Já voltamos. Miss, a senhora perguntou-me

porque motivo estava eu aqui, é simples, eu acompanhei-os. A senhora

tem vinte e um annos. Nesta terra quem chega a maioridade e depende

de si casa-se em um quarto de hora. Tomemos o caminho da praia. Está

praticavel, a maré ha de encher lá para o meio dia. Mas vamos já.

Venham comigo.

Deruchette e Ebeneser pareciam consultar-se com o olhar. Estavam de

pé, juntinhos, sem mecher-se; pareciam ébrios. Ha dessas tentações

extranhas á beira desse abysmo que se chama felicidade. Comprehendiam

sem comprehender.

--Elle chama-se Gilliatt, disse Deruchette baixinho a Ebeneser.

Gilliatt continuou com uma especie de autoridade:

--Que esperam? Já lhes disse que me acompanhassem.

--Aonde? perguntou Ebeneser.

--Alli.

E Gilliatt mostrou com o dedo a torre da igreja.

Os dous acompanharam-n'o.

Gilliatt ia adiante. O seu passo era firme. Os dous vacillavam.

Á proporção que se approxiraavam da torre, via-se despontar naquelle

puros e bellos rostos de Ebeneser e Deruchette alguma cousa que seria

dentro de pouco tempo o sorriso. A proximidade da igreja illuminava-os.

Nos olhos fundos de Gilliatt haviam trevas.

Dissera-se um espectro levando duas almas ao paraiso.

Ebeneser e Deruchette não comprehendiam muito o que se estava passando.

A intervenção daquelle homem era o ramo a que se agarra o affogado.

Elles acompanhavam Gilliatt com a docilidade que o desespero tem para

com a primeira pessoa que lhe apparece. Quem se sente morrer não é

difficil em aceitar os incidentes. Deruchette, mais ignorante, era mais

confiante. Ebeneser pensava. Deruchette era maior. As formalidades do

casamento inglez são simplissimas, sobretudo nos paizes autochthones

onde os parochos tem quasi um poder discricionario; mas o decano

celebraria o casamento sem saber se o tio consentia? Havia uma questão

nisto. Comtudo, podia-se tentar. Em todo o caso era uma delonga.

Mas quem era aquelle homem? e se era elle quem na vespera, foi

declarado genro de mess Lethierry, como explicar o que estava fazendo?

Elle, que era o obstaculo, tornava-se a providencia. Ebeneser

prestava-se a tudo, mas dava ao que se estava passando o consentimento

tacito e rapido do homem que se sente salvo.

O caminho era desigual, ás vezes molhado e difficil. Ebeneser absorto

não prestava attenção aos charcos de agua e ás pedras. De quando em

quando, Gilliatt, voltava-se e dizia a Ebeneser: Cuidado com essas

pedras, dê-lhe a mão.

III

PREVIDENCIA DA ABNEGAÇÃO

Soavam dez horas e meia quando elles entravam na igreja.

Por causa da hora, e tambem por causa da solidão da cidade naquelle

dia, a igreja estava vasia.

No fundo, porém, perto da mesa que, nas igrejas reformadas, substitue o

altar, haviam tres pessoas; eram o decano, o seu evangelista, e mais o

lançador dos registros. O decano, que era o reverendo Jaquemin Herodes,

estava assentado; o evangelista e o lançador estavam de pé.

O Livro, aberto, estava sobre a mesa.

Ao lado havia outro livro, era o registro da parochia, igualmente

aberto, e no qual um olhar attento poderia notar uma pagina escripta de

fresco. Uma penna e um tinteiro ficavam ao lado do registro.

Vendo entrar o reverendo Ebeneser Caudray, o reverendo Jaquemin Herodes

levantou-se.

--Esperava-o, disse elle. Tudo está prompto.

O decano, com effeito, estava com o habito de officiante.

Ebeneser olhou para Gilliatt.

O reverendo Herodes continuou:

--Estou ás suas ordens, meu collega.

E fez-lhe uma cortezia.

A cortezia não foi nem para a esquerda nem para a direita. Era

evidente, pela direcção do raio visual do decano, que, para elle, só

Ebeneser existia. Ebeneser era clergyman e gentleman. O decano não

comprehendia no seu comprimento nem Deruchette que estava ao lado, nem

Gilliatt que estava atraz. Havia no seu olhar um parenthesis em que só

Ebeneser era admittido. A manutenção destas distincções faz parte da

boa ordem e consolida as sociedades.

O decano continuou com uma amenidade graciosamente altiva:

--Meu collega, faço-lhe o meu duplo comprimento. Morreu-lhe o tio, e

o senhor casa-se; fica rico por um lado e feliz por outro. Demais,

agora, graças a este vapor que vai ser restabelecido, miss Lethierry

tambem é rica, o que eu approvo. Miss Lethierry nasceu nesta parochia,

verifiquei a data do nascimento no livro dos assentos. Miss Lethierry

é maior e dispõe de si. Depois, seu tio, que é toda a sua familia,

consente. Querem casar-se já por causa da viagem, comprehendo, mas

sendo este casamento o do cura da parochia, eu quizera mais alguma

solemnidade. Abrevio para fazer-lhes o gosto. O essencial póde fazer-se

no summario. O acto já está escripto no livro do registro que está

aqui, e falta só pôr os nomes. Nos termos da lei e do costume, o

casamento pode ser celebrado logo depois da inscripção. A declaração

necessaria para a licença já foi feita. Tomo a responsabilidade de

uma pequena irregularidade, porque o pedido de licença devia ser

previamente registrado sete dias antes; mas eu reconheço a necessidade

e a urgencia da partida, Seja. Vou casal-os. O meu evangelista, será a

testemunha do esposo; quanto á da esposa...

O decano voltou-se para Gilliatt.

Gilliatt fez um signal de cabeça.

--Basta, disse o decano.

Ebeneser ficara immovel. Deruchette era o extasis petrificado.

O decano continuou:

--Ha porém um obstaculo.

Deruchette fez um movimento.

O decano continuou:

--O enviado de mess Lethierry, que aqui está presente, e pedio a

licença e assignou a declaração no registro,--e com o polegar da mão

esquerda o decano indicou Gilliatt, o que o isentava de articular

nenhum nome,--o enviado de mess Lethierry disse-me esta manhã que

mess Lethierry, por muito occupado, não podia vir, e desejava que

o casamento se fizesse incontinenti. Esse desejo, verbalmente

expresso, não é sufficiente. Não posso, por causa das dispensas e

da irregularidade que tomo sobre mim, ir além disto sem imformar-me

de mess Lethierry, a menos que não me mostrem a assignatura delle.

Qualquer que seja a minha boa vontade, não posso contentar-me com uma

palavra que me repetem. Preciso de um escripto.

--Não sirva isso de empecilho, disse Gilliatt.

E apresentou ao decano um papel.

O decano pegou no papel, percorreu com um olhar, pareceu passar algumas

linhas, sem duvida, inuteis, e leu alto:

--«...Vai ter á casa do decano para arranjar as dispensas. Desejo que o

casamento se faça o mais cedo possivel, e já, será melhor.»

Poz o papel em cima da mesa e continuou:

--Assignado Lethierry. A cousa seria mais respeitosa se fosse dirigida

a mim. Mas como se trata de um collega, não exijo mais.

Ebeneser olhou de novo para Gilliatt. Ha almas que se entendem.

Ebeneser sentia naquillo uma fraude; e não teve força, não teve mesmo

idéa, de denuncial-a. Ou fosse obediencia a um heroismo latente que

elle antevia, ou fosse que se lhe aturdisse a consciencia pela ventura

subita, Ebeneser não teve palavras.

O decano tomou a penna e encheu, com auxilio do lançador dos assentos,

os claros da pagina escripta no livro, depois levantou-se, e com o

gesto, convidou Ebeneser e Deruchette, a aproximar-se da mesa.

Começou a ceremonia.

Ebeneser e Deruchette estavam ao pé um do outro diante do ministro.

Quem tiver sonhado que se está casando saberá o que elles sentiam.

Gilliatt estava a alguma distancia na obscuridade dos pillares.

Deruchette ao levantar-se da cama, desesperada, pensando no tumulo e no

sudario, vestira-se de branco. Esta idéa de morte veio a proposito para

as nupcias. O vestido branco fez della uma noiva. Tambem os tumulos são

esponsaes.

Deruchette irradiava. Nunca foi o que era naquelle instante. Deruchette

tinha o defeito de ser demasiado linda e não bastante formosa. A sua

belleza peccava, se é peccar, por excesso de graça. Deruchette em

repouso, isto é, fóra da paixão e da dôr, já o dissemos, era sobretudo

gentil. A transfiguração da moça encantadora é a virgem ideal.

Deruchette, engrandecida pelo amor e pelo soffrimento, tinha tido esse

progresso, deixem passar a palavra. Tinha a mesma candura, com mais

dignidade, a mesma frescura com mais perfume. Era uma especie de bonina

que se torna lyrio.

Os Trabalhadores do Mar · 第 27 / 28 段