Tinha no rosto signaes de lagrimas estanques. Havia ainda talvez uma

lagrima no canto do sorriso. As lagrimas estanques, vagamente visiveis,

são um sombrio e doce ornato da felicidade.

O decano, de pé perto da mesa, poz um dedo na Biblia aberta e perguntou

em voz alta:

--Ha opposição?

Ninguem respondeu.

--Amen, disse o decano.

Ebeneser e Deruchette deram um passo para o Rev. Jaquemin Herodes.

O decano disse:

--Joë Ebeneser Caudray, queres esta mulher por tua esposa?

Ebeneser respondeu:

--Quero.

O decano contiunou:

--Durande Deruchette Lethierry, queres este homem por teu marido?

Deruchette na agonia da alma demasiado feliz, como a da lampada

demasiado cheia de oleo, murmurou em vez de pronunciar:

--Quero.

Então, segundo o bello rito do casamento anglicano, o decano olhou em

roda de si, e fez na sombra da igreja esta solemne pergunta:

--Quem dá esta mulher a este homem?

--Eu, disse Gilliatt.

Houve um momento de silencio. Ebeneser e Deruchette sentiram uma vaga

oppressão atravez da sua felicidade.

O decano poz a mão direita de Deruchette na mão direita de Ebeneser, e

Ebeneser disse a Deruchette:

--Deruchette, tomo-me por minha mulher, quer sejas melhor ou peior,

mais rica ou mais pobre, doente ou com saude, para amar-te ate á morte,

e dou-te a minha fé.

O decano pôz a mão direita de Ebeneser na mão direita de Deruchette, e

Deruchette disse a Ebeneser:

--Ebeneser, tomo-te por meu marido, quer sejas melhor ou peior, mais

rico ou mais pobre, doente ou com saude, para amar-te e obedecer-te até

á morte, e dou-te a minha fé.

O decano continuou:

--Onde está o annel?

Isto era o imprevisto. Ebeneser não tinha annel.

Gilliatt tirou o annel de ouro que tinha no dedo minimo e apresentou

ao decano. Era provavelmente o annel de casamento comprado de manhã ao

ourives de Commercial--Arcade.

O decano pôz o annel no livro, depois entregou-o a Ebeneser.

Ebeneser pegou na mãosinha esquerda, tremula, de Deruchette, metteu o

annel no quarto dedo, e disse:

--Desposo-te com este annel.

--Em nome do Padre, do Filho e do Espirito-Santo, disse o decano.

--Assim seja, disse o evangelista.

O decano alçou a voz:

--Estaes casados.

--Assim seja, disse o evangelista.

O decano continuou:

--Oremos.

Ebeneser e Deruchette voltaram-se para a mesa e ajoelharam-se.

Gilliatt que estava de pé inclinou a cabeça.

Elles ajoelhavam-se diante de Deos, Gilliatt curvava-se ao destino.

IV

«PARA TUA MULHER QUANDO TE CASARES»

Sahindo da igreja viram o _Cashmere_ que começava a apparelhar.

--Chegam a tempo, disse Gilliatt.

Seguiram pelo caminho da Angrazinha.

Os dous iam adiante, Gilliatt agora caminhava atraz.

Eram dous somnambulos. Mudára apenas o atordoamento. Não sabiam nem

onde estavam nem o que faziam; apressavam-se machinalmente, não se

lembravam da existencia de cousa alguma, sentiam-se um outro, não

podiam ligar duas idéas. Não póde pensar quem está em extasis, como

não póde nadar quem está n'uma torrente. Pareciam ir penetrando n'um

paraiso. Não se fallavam, conversavam com a alma. Deruchette apertava

contra si o braço de Ebeneser.

O passo de Gilliatt atraz delles fazia-lhes ver que elle estava

presente. Iam profundamente commovidos, mas sem dizer palavra; o

excesso da commoção transforma-se em estupefacção. A delles era

deliciosa, mas acabrunhava. Estavam casados. Adiavam o resto, esperavam

voltar, o que Gilliatt fez era bem feito, eis tudo. O fundo desses

dous corações agradecia-lhe ardente e vagamente. Deruchette dizia

comsigo que havia alguma cousa para deslindar, mais tarde. Entretanto,

aceitavam o facto. Sentiam-se á discrição daquelle homem decisivo e

subito, que, por autoridade, fazia a felicidade delles dous. Fazer-lhes

perguntas, conversar com elle, era impossivel. Eram de sobejo as

impressões que se lhes precipitavam em cima ao mesmo tempo. Estavam

engolphados; era perdoavel.

Os factos são ás vezes uma saraiva. Crivam a creatura. Ensurdecem.

A precipitação dos incidentes, cahindo em existencias habitualmente

calmas, tornam logo inintelligiveis os acontecimentos aos que os

soffrem ou delles se aproveitam. Não se póde conhecer a sua propria

ventura. Fica-se esmagado sem adivinhar, venturoso sem comprehender.

Deruchette, em particular, desde algumas horas recebera todas as

commoções; primeiramente a fascinação, Ebeneser no jardim; depois o

pesadelo, aquelle monstro declarado seu marido; depois a desolação,

o anjo abrindo as azas e prestes a partir; agora era a alegria, uma

alegria inaudita, com um fundo indecifravel; o monstro dava-lhe o

anjo; o casamento sahia da agonia; o Gilliatt, catastrophe de hontem,

salvação de hoje. Deruchette não comprehendia nada. Era evidente que

desde manhã Gilliatt não teve outra occupação se não a de casal-os; fez

tudo; respondeu por mess Lethierry, fallou ao decano, pedio licença,

assignou a declaração necessaria; eis-ahi como se realisou o casamento.

Mas Deruchette não comprehendia nada; de mais, mesmo quando ella

comprehendesse o como, não comprehenderia o porque.

Fechar os olhos, agradecer mentalmente, esquecer a terra e a vida,

deixasse levar para o céo por aquelle bom demonio, eis o que lhe

cumprir fazer. Esclarecer seria longo, agradecer não seria bastante.

Deruchette calava-se naquelle doce embrutecimento da ventura.

Restava-lhe ainda algum pensamento, sufficiente para guial-a. Debaixo

d'agua ha pedaços de esponja que ficam brancos. Elles tinham a somma

de lucidez necessaria para distinguir o mar da terra e o _Cashmere_ de

qualquer outro navio.

Dentro de poucos minutos estavam elles na Angrazinha.

Ebeneser foi o primeiro a entrar no bote. No momento em que Deruchette

ia acompanhal-o, sentio a sua manga docemente puxada. Era Gilliatt que

tinha posto um dedo numa dobra do vestido.

--Senhora, disse elle, não esperava partir. Eu cuido que naturalmente

ha de precisar de vestidos e roupa. Achará a bordo do Cashmere um

caixotinho com objectos de mulher. Foi minha mãe quem m'o deu. Era

destinado á mulher com quem eu casasse. Consinta que lh'o offereça.

Deruchette accordou a meio do sonho em que estava. Voltou-se para

Gilliatt. Gilliatt, em voz baixa e que mal se ouvia, continuou:

--Agora, não é para demoral-a, mas, olhe, eu creio que devo

explicar-lhe uma cousa. No dia em que houve aquella desgraça, a

senhora estava assentada na sala baixa, e disse umas palavras. Não se

lembra disso, é natural. Ninguem é obrigado a lembrar-se das palavras

que diz. Mess Lethierry soffria muito. A verdade é que era um bello

navio e prestimoso. O desastre aconteceu; a terra estava alvoroçada e

compungida, são cousas que naturalmente se esquecem. Só havia aquelle

navio perdido na costa. Não se pode pensar sempre em um accidente.

Sómente o que eu queria dizer é que, como se dizia que ninguem era

capaz de lá ir, eu fui. Diziam elles que era impossivel; não era

impossivel aquillo. Agradeço-lhe o prestar-me attenção por alguns

instantes. Comprehende a senhora que se eu lá fui ao escolho, não foi

para offendel-a. Demais, a cousa data de longe. Eu sei que está com

pressa. Se houvesse tempo, fallariamos, recordariamos, mas isso de nada

serve. A cousa data de um dia em que cahio neve. E depois eu passei uma

vez, e cuido tel-a visto sorrir. É assim que tudo se explica. Quanto

ao que se passou hontem, eu não tive tempo de ir á casa, acabava do

trabalho, estava todo rasgado, metti-lhe medo, a senhora desmaiou, fiz

mal, não se entra assim na casa dos outros, peço-lhe que me perdôe. É

isto mais ou menos o que eu queria dizer-lhe. Vai partir. Tem um bello

tempo. Acha justo que eu lhe fallo, não? é o ultimo minuto.

--Penso na caixinha, respondeu Deruchette. Por que não hade guardal-a

para sua mulher, quando se casar?

--Senhora, disse Gilliatt, provavelmente eu não me casarei nunca.

--Pois é pena, porque é uma boa alma. Obrigada.

E Deruchette sorrio. Gilliatt retribuio-lhe com outro sorriso.

Depois ajudou Deruchette a entrar no escaler. Menos de um quarto de

hora depois, o escaler onde iam Ebeneser e Deruchette atracava ao

_Cashmere._

V

A GRANDE TUMBA

Gilliatt seguio pela praia, parou rapidamente em Saint-Pierre Port,

depois caminhou para Saint-Sampson ao longo do mar, fugindo aos

encontros, evitando as estradas cheias de caminhantes, por culpa delle.

Desde muito tempo, como se sabe, Gilliatt tinha um modo de atravessar

a terra em todos os sentidos sem ser visto por ninguem. Conhecia os

atalhos, fez para si itinerarios isolados e em zig-zags: tinha o

habito feroz do ente que não se julga estimado; andava de longe. Ainda

criança, vendo pouco agasalho no rosto dos homens, tomou o costume, que

depois tornou-se-lhe instincto, de andar sempre affastado.

Passou a Esplanada, depois a Saleria. De tempos a tempos, voltava-se

e olhava para o _Cashmere_ na barra, que lhe ficava por traz; e o

_Cashmere_ abria as velas. Havia pouco vento, Gilliatt ia mais depressa

que o _Cashmere._ Gilliatt caminhava nas rochas extremas da praia, com

a cabeça baixa. A maré começava a subir.

Em certo momento parou, e voltando as costas para o mar, contemplou

durante alguns minutos, além dos rochedos que escondiam a estrada do

Valle, uma moita de carvalhos. Eram os carvalhos do lugar chamado

Baisses Maisons. Foi alli, debaixo daquellas arvores, que outrora o

dedo de Deruchette escreveu o nome de Gilliatt na neve. Havia muito

tempo que essa neve estava desfeita.

Proseguio no caminho.

O dia estava mais bello que nenhum outro naquelle anno. A manhã tinha

um quê de nupcial. Era um desses dias vernaes em que Maio ostenta-se

todo inteiro; a creação parecia não ter outro fim que dar uma festa e

fazer a propria felicidade. Sob todos aquelles rumores, da floresta

como da aldêa, da vaga como da athmosphera, sentiam-se uns sons de

arrulho. As primeiras borboletas pousavam nas primeiras rosas. Tudo

era novo na natureza, as hervas, os musgos, as folhas, os perfumes, os

raios. Parecia que o sol nunca tinha sorvido. Os seixos estavam lavados

de fresco. A profunda canção das arvores era cantada por aves nascidas

na vespera. Era provavel que a casquinha do ovo quebrada pelo biquinho

dessas aves, ainda estivesse no ninho. Ensaios de azas romurejavam nas

folhas tremulas. Cantavam o primeiro canto, davam o primeiro vôo. Era

uma doce conversa de todos a um tempo, poupas, melharucos, pintasilgos,

barbiruivos, pardaes. Os lilases, os lyrios, os daphnes, as glycinas,

compunham nas moitas uma deliciosa variedade de côres. Uma linda

lentilha aquatica que ha em Guernesey cobria as lagôas de uma toalha de

esmeralda. Banhavam-se as arveloas nas lagôas, onde costumam fazer tão

graciosos ninhos. Via-se o céo atravez de todas as falhas da vegetação.

Algumas nuvens lascivas perseguiam-se no ar ondeando como nymphas.

Como que se sentia a passagem de beijos mandados por bocas invisiveis.

Nenhum velho muro deixava de ter, como um noivo, o seu ramalhete de

gyrofleas. Os abrunheiros sylvestres e os codeços estavam em flôr;

viam-se aquelles montinhos brancos luzindo e aquelles montinhos

amarellos fulgurando atravez do cruzamento dos ramos.

A primavera atirava toda a sua prata e ouro no immenso cesto rasgado

dos bosques. Os pimpolhos novos eram verdes de fresco. Ouvia-se no ar

um grito de saudação. Estio hospitaleiro abria a porta aos passaros

longinquos. Era a hora da chegada das andorinhas. Os thyrsos dos juncos

orlavam os caminhos cavados, esperando os thyrsos dos pilriteiros. O

bello e o lindo faziam boa visinhança: o soberbo completava-se pelo

gracioso; o grande não tolhia o pequeno; não se perdia nenhuma nota

do concerto; as magnificencias microscopicas estavam em plano proprio

naquella vasta belleza universal; distinguia-se tudo como n'uma agua

limpida. Por toda a parte uma divina plenitude e um entumecimento

mysterioso faziam advinhar o exforço panico e sagrado da seiva em

acção. O que brilhava, brilhava mais; o que amava, amava melhor. Havia

um hymno na flôr e uma irradiação no ruido. Escutava-se a grande

harmonia diffusa. O que começava a despontar procurava o que começava

a surdir. Uma turvação, que surgia debaixo, e vertia tambem de cima,

agitava vagamente os corações, corruptiveis á influencia espessa e

subterranea dos germens. A flôr promettia obscuramente o fructo, todas

as virgens scismavam, a reproducção dos seres, premeditada pela immensa

alma da sombra, esboçava-se na irradiação das cousas. Era o universal

noivado. A vida, que é a esposa, abraçava o infinito, que é o esposo.

O dia estava claro, formoso, e ardente; atravez das sebes, nas cercas,

viam-se rir as crianças Algumas jogavam a palheta. As macieiras, os

pecegueiros, as cerejeiras, as pereiras, cobriam os vergeis com os

seus grossos tuffos pallidos ou vermelhos. Na relva, as primaveras, as

pervincas, as mil-folhas, as margaridas, os amaryles, os jacinthos,

as violetas e as veronicas. As borragens azues, os iris amarellos,

pululavam, com as bollas estrellinhas côr de rosa que florecem sempre

aos bandos e que por esse motivo chamam-se as companheiras. Animaculos

dourados corriam por entre as pedras. O sayão florescente purpureava

os tectos das cabanas. As operarias das colmeas andavam por fóra. A

abelha trabalhava. A extensão estava cheia do murmurio dos mares e do

zumbido das moscas. A natureza, permeavel na primavera, estava humida

de voluptuosidade.

Quando Gilliatt chegou a Saint-Sampson, ainda a maré não enchera e elle

pôde atravessar a praia a pé secco, desapercebido por traz dos cascos

de navios no estaleiro. Um cordão de pedras chatas, postas de espaço a

espaço, auxiliava a passagem.

Gilliatt não foi observado. O povo estava do outro lado do porto, perto

da sahida, junto á casa de Lethierry. Ahi andava o nome delle, de boca

em boca. Fallava-se tanto delle que o não chegavam a ver. Gilliatt

passou escondido de algum modo pelo proprio rumor que causava.

Vio de longe a pança no lugar onde a amarrára, com o cano da

machina entre as quatro correntes, com um movimento de carpinteiros

trabalhando, lineamentos confusos de pessoas que iam e vinham de um

para outro lado, e ouvio a voz tonante e alegre de mess Lethierry dando

ordens.

Metteu-se pelas ruelas dentro.

Não havia ninguem por traz de Bravées, toda a curiosidade convergia

para a frente. Gilliatt tomou o atalho que costeava o muro baixinho do

jardim. Parou no angulo onde estava a malva sylvestre; tornou a ver a

pedra onde costumava sentar-se; tornou a ver o banco de Deruchette.

Olhava para o chão da alameda onde vio abraçarem-se as duas sombras,

que tinham desaparecido.

Foi caminho. Galgou a collina do castello do Valle, deceu-a, e

dirigiu-se para a casa mal assombrada, onde morava.

O Houmet-Paradis estava solitario.

A casa estava tal qual elle a deixara de manhã depois de vestir-se para

ir a Saint-Pierre Port.

Havia uma janella aberta. Via-se por ella o bug-pipe pendurado em um

prego da parede.

Via-se na mesa a pequena Biblia dada em agradecimento a Gilliatt por um

desconhecido, que era Ebeneser.

A chave estava na porta. Gilliatt approximou-se, poz a mão na chave,

fechou a porta com duas voltas, poz a chave no bolso, e affastou-se.

Affastou-se, não para o lado de terra, mas para o lado do mar.

Atravessou diagonalmente o jardim, pelo lado mais curto, pisando os

canteiros, mas tendo cuidado de poupar os seakales que plantara por

serem do gosto de Deruchette.

Galgou o parapeito e desceu aos arrecifes.

Continuou a andar, indo sempre para a frente, pela longa e estreita

linha de cachopos que ligava a casa delle áquelle grande obelisco de

granito de pé, no meio do mar, que se chamava _Corne de la Bête._ Era

alli que ficava a cadeira Gild-Holm'Ur.

Passava de um recife a outro como um gigante caminha nos cabeços. Andar

em uma crosta de recifes assemelha-se a andar na borda de um telhado.

Uma pescadora de rede que andava com os pés descalços, nos charcos que

ficavam proximos, e voltava para a praia, gritou-lhe:--Cuidado. A maré

está enchendo.

Gilliatt continuou a andar. Chegando ao grande rochedo da ponta, que

formava um pinaculo no mar, parou. Acabava a terra. Era a extremidade

do pequeno promontorio.

Olhou.

Ao largo pescavam alguns barcos, com ancoras fóra. Via-se de quando em

quando naquelles barcos um gotejar de prata: eram as redes que sahiam

d'agua. O _Cashmere_ ainda não estava na altura de Saint-Sampson;

desenrolára a mesena. Estava entre Herm e Jethou.

Gilliatt torneou o rochedo. Chegou á beira da cadeira Gild-Holm'Ur,

ao pé dessa especie de escada tosca, que, menos de tres mezes antes,

Ebeneser descera ajudado por elle.

Gilliatt subio.

A maior parte dos degráos já estavam debaixo da agua. Apenas dous ou

tres estavam a secco. Gilliatt escalou-os.

Os degráos iam ter á cadeira Gild-Holm'Ur. Chegou á cadeira,

contemplou-a por um momento, apoiou a mão nos olhos e fêl-a passar de

uma a outra sobrancelha, gesto com que parece que se apaga o passado,

depois assentou-se na cava da rocha, com o grande declive por traz de

si, e o oceano aos pés.

O _Cashmere_ nesse momento passava pela grande torre arredondada e

immersa, defendida por um sargento e um canhão, e que marca na bahia a

metade do caminho entre Herm e Saint-Pierre Port.

Nas fendas do rochedo tremiam algumas flôres, por sobre a cabeça

de Gilliatt. A agua estava toda azul. O vento era d'Este, havia

pouca ressaca á roda de Serk, da qual em Guernesey só se vê a costa

Occidental. Via-se ao longe a França como uma bruma e a longa facha

amarella de arêas de Casteret. De quando em quando passava uma

borboleta branca. As borboletas gostam de passeiar sobre o mar.

Fraca era a brisa. Todo aquelle azul, em baixo e em cima, estava

immovel. Nenhuma tremura agitava aquellas serpentes de um azul mais

claro ou mais carregado, que marcava na superficie do mar as torções

latentes dos baixios.

O _Cashmere_, pouco impellido pelo vento, içou os cutellos para apanhar

alguma brisa. Cobrio-se todo de pannos. Mas o vento era de travez, o

effeito dos cutellos obrigava-o a costear de perto Guernesey. Já tinha

passado a balisa de Saint-Sampson. Attingia a collina do castello do

Valle. Estava quasi proximo ao promontorio da casa de Gilliatt.

Gilliatt via-o approximar-se.

O ar e o mar estavam como que adormecidos. A maré enchia, não por meio

de ondas, mas por entumecimento. O nivel d'agua ia-se levantando sem

palpitação. O vento do largo mar, extincto, assemelhava-se a um halito

de infante.

Ouvia-se na direcção da porta de Saint-Sampson pequenos golpes surdos,

que eram martelladas. Provavelmente eram os carpinteiros que levantavam

guindastes e pranchas para tirar a machina da _pança._ Esse rumor mal

chegava a Gilliatt, por causa da massa de granito a que elle estava

encostado.

O _Cashmere_ approximava-se com uma lentidão de phantasma.

Gilliatt esperava.

De subito uma agitação d'agua e uma sensação de frio obrigaram-n'o a

olhar para baixo. A agua tocava-lhe os pés.

Gilliatt abaixou os olhos e levantou-os.

O _Cashmere_ estava perto.

O rochedo onde as chuvas tinham cavado a cadeira Gild'-Holm'Ur, era tão

vertical, e havia tanta agua naquelle sitio, que os navios podiam, em

tempo de calma, passar alli a distancia de algumas braças.

O _Cashmere_ chegou. Surgio, alçou-se. Parecia crescer sobre a agua.

Foi como que um crescimento de sombra. Todo o apparelho destacou-se

como massa negra, no céo azul, e no magnifico balanço do mar. As longas

velas, por um instante sobrepostas ao sol, tornavam-se quasi côr de

rosa e tiveram uma transparencia inefavel. As ondas tinham um murmurio

indistincto. Nenhum rumor perturbava o resvalar magestoso daquella

massa. De terra via-se o que se passava á bordo como se lá estivesse.

O _Cashmere_ roçou quasi pela rocha.

O timoneiro estava no leme, um grumette trepava aos ovens, alguns

passageiros, encostados á amurada, contemplavam a serenidade do tempo,

o capitão fumava. Mas não era nada disso o que Gilliatt contemplava.

Havia no tombadilho um lugar cheio de sol. Era para alli que elle

olhava. Alli estavam Ebeneser e Deruchette. Estavam assentados debaixo

daquella luz, elle juntinho della. Contrahiam-se graciosamente ao lado

um do outro, como dous passaros que se aquecem a um raio do meio dia,

n'um desses bancos cobertos de umi assento alcatroado que os navios bem

preparados offerecem aos viajantes, e nos quaes costuma ler-se, quando

o navio é inglez: _For ladies only._ A cabeça de Deruchette cahia

sobre o hombro de Ebeneser, o braço de Ebeneser estava por traz da

cintura de Deruchette, tinham as mãos aggarradas uma á outra e os dedos

entrelaçados nos dedos. As differenças de um anjo a outro mostravam-se

claramente naquelles dous delicados rostos feitos de innocencia. Um

era mais virginal, o outro mais sideral. Era expressivo aquelle casto

abraço, que encerrava o hymenêo e o pudor. Aquelle banco era já uma

alcova e quasi um ninho. Ao mesmo tempo, era uma gloria; a doce gloria

do amor fugindo n'uma nuvem.

O silencio era celeste.

O olhar de Ebeneser agradecia e contemplava; moviam-se os labios de

Deruchette; e nesse silencio delicioso, como o vento vinha do lado

opposto, no instante rapido em que o sloop resvalou a algumas toezas

da cadeira Gild'-Holm'Ur, Gilliatt ouvia a voz terna e delicada de

Deruchette que dizia:

--Olha! Parece que ha um homem no rochedo.

A apparição passou.

O _Cashmere_ deixou a ponta do promontorio atraz de si, e mergulhou-se

no franzido profundo das vagas. Em menos de um quarto de hora, mastros

e velas assemelhavam-se a uma especie de obelisco branco diminuindo no

horisonte. Gilliatt tinha agua até os joelhos.

Via o sloop affastar-se.

A brisa refrescava ao longe. Gilliatt pôde ver o _Cashmere_ içar os

cutellos baixos para aproveitar o augmento do vento. O _Cashmere_ já

estava fora das aguas de Guernesey. Gilliat não tirava os olhos do

navio.

A agua chegava-lhe á cintura.

A maré levantava-se. O tempo corria.

As cotovias e os corvos marinhos esvoaçavam inquietos em roda delle.

Dissera-se que procuravam advertil-o. Talvez houvesse naquelles bandos

alguma gaivota ainda das Douvres que o reconhecia.

Decorreu uma hora.

O vento do largo não soprava no porto, mas a diminuição do _Cashmere_

era rapida. O sloop, segundo as apparencias, ia a toda a força. Já

estava quasi na altura de Casquets.

Não havia espuma á roda do rochedo Gild-Holm'Ur, nenhuma vaga batia no

granito. A agua inchava vagarosamente. Já estava quasi na altura dos

hombros de Gilliatt.

Decorreu outra hora.

O _Cashmere_ estava já alem das aguas de Aurigny. O rochedo Ortach

escondeu-o por um momento. Occultou-se atraz desse rochedo, e sahiu

depois, como de um eclipse. O sloop fugia para o norte. Já entrava no

mar alto. Era apenas um ponto, tendo por causa do sol, a scintillação

de uma luz.

Os passaros soltavam pios a Gilliatt.

Já não se via mais que a cabeça delle.

O mar subia com uma brandura sinistra.

Gilliatt, immovel, olhava para o _Cashmere_ que se desvanecia. A maré

estava quasi cheia. Cahia a tarde. Por traz de Gilliatt, no porto,

alguns barcos de pesca voltavam para terra.

Os olhos de Gilliatt, presos ao longe no sloop, estavam fixos.

Aquelles olhos lixos não se pareciam com cousa alguma que se possa

ver na terra. Havia o inexprimivel naquella palpebra tragica e calma.

O olhar continha toda a somma de tranquillidade que deixa o sonho

abortado; era a aceitação lugubre de outro complemento. Uma fuga de

estrella deve ser aconpanhada por olhares semelhantes. De quando em

quando a obcuridade celeste apparecia naquella palpebra cujo raio

visual estava fixo num ponto do espaço. Ao mesmo tempo em que a agua

infinita subia a roda do rochedo Gild-Holm'Ur, ia subindo a immensa

tranquillidade da sombra nos olhos profundos de Gilliatt.

O _Cashmere_, tornando-se imperceptivel, era já uma mancha misturada á

bruma. Para distingui-lo era preciso saber onde elle estava.

A pouco e pouco, aquella mancha, que já não era uma forma, foi

empallidecendo.

Depois diminuio.

Depois dissipou-se.

No momento em que o navio dissipava-se no horisonte, a cabeça

desapparecia debaixo d'agua. Tudo acabou; só restava o mar.

FIM

Os Trabalhadores do Mar · 第 28 / 28 段