promette a eternidade, é porque quer o consorcio. Ha para mim na terra
uma mulher, é a senhora. Penso na senhora como n'uma oração. A minha
fé está em Deos, na senhora a minha esperança. As azas que tenho é a
senhora quem as traz. A senhora é a minha vida, e já o meu céo.
--Senhor, disse Deruchette, não ha na casa ninguem para responder-lhe.
A voz soou de novo:
--Tive este lindo sonho. Deos não prohibe os sonhos. A senhora faz-me
o effeito de uma gloria. Amo-a apaixonadamente. A santa innocencia é
a senhora. Sei que esta é a hora em que todos estão dormindo, mas eu
não tinha outra occasião á minha escolha. Lembra-se daquelle passo da
Biblia que nos leram? Genesis, capitulo vinte e cinco. Muitas vezes
pensei nelle. Reli-o muitas vezes. O reverendo Herodes dizia-me:--É-lhe
preciso uma mulher rica. Eu respondi:--Não, preciso de uma mulher
pobre. Fallo-lhe de longe, e recuarei mesmo se a senhora não quizer que
a minha sombra toque em seus pés. É a senhora a soberana; virá a mim se
quizer. Assim o espero. A senhora é a forma viva da benção.
--Senhor, balbuciou Deruchette, eu não sabia que reparavam em mim aos
domingos e quintas-feiras.
A voz continuou:
--Nada se pode contra as cousas angelicas. Toda a lei é amor. O
casamento é Chanaam. A senhora é a belleza promettida. Ave, cheia de
graça!
Deruchette respondeu:
Eu pensava que não fazia mal indo como as outras pessoas á igreja.
--A voz continuou:
--Deos pôz as suas intenções nas flôres, na aurora, na primavera, e
elle quer que se ame. A senhora é bella nesta sacra obscuridade da
noite. Este jardim foi cultivado pela senhora, e no perfume ha alguma
cousa de seu halito. Os encontros das almas não dependem dellas. Não é
culpa nossa. A senhora ia á igreja, nada de mais; eu estava lá, nada de
mais. Nada fiz senão sentir que a amava. Algumas vezes os meus olhos
levantaram-se para a senhora. Fiz mal, mas como não? Foi contemplando-a
que eu fiquei assim. Não podia impedil-o. Ha vontades mysteriosas acima
de nós. O primeiro templo é o coração. Ter a sua alma em minha casa,
tal é o paraiso terrestre a que eu aspiro. Aceita? Emquanto fui pobre
nada disse. Eu sei a sua idade. Tem vinte annos, eu tenho vinte e seis.
Parto amanhã, se me recusa não voltarei. Quer ser minha noiva? Os meus
olhos já lhe fizeram esta pergunta mais de uma vez e a meu pesar.
Amo-a, responda-me. Fallarei a seu tio quando elle puder receber-me,
mas em primeiro lugar á senhora. É a Rebecca que se pede Rebecca. Só se
me não ama.
Deruchette inclinou a fronte e murmurou.
--Oh! eu o adoro!
Isto foi dito em voz tão baixa que só Gilliatt ouvio. Ella abaixou a
fronte, como se o rosto na sombra puzesse na sombra o pensamento.
Houve uma pausa. As folhas das arvores não se mechiam. Era esse momento
severo e aprazixel em que o somno das cousas a junta-se ao somno das
creaturas e em que a noite parece escutar as palpitações da natureza.
Neste recolhimento eleva-se, como uma harmonia que completa um
silencio, o ruido immenso do mar.
A voz continuou:
--Senhora.
Deruchette estremeceu.
A voz continuou:
--Estou esperando.
--O que espera?
--A sua resposta.
Deos a ouviu--disse Deruchette.
Então a voz tornou-se sonora e ao mesmo tempo mais doce que nunca.
Estas palavras sahiram da moita como de uma sarça ardente.
--Tu és minha noiva. Levante-te e vem. Que o teto azul, onde estão os
astros, assista a esta aceitação da minha alma pela tua alma, e que o
nosso primeiro beijo se misture ao firmamento!
Deruchette levantou-se e ficou um instante immovel e com o olhar fixo
diante de si, fitando, sem duvida, outro olhar. Depois, a passos
lentos, com a cabeça erguida, os braços pendentes e os dedos das mãos
abertos, como quando se caminha para um amparao desconhecido, ela
dirigio-se para a moita e desappareceu.
Um instante depois, em vez de uma sombra na areia, havia, duas,
confundiam-se ambas, e Gilliatt via a seus pés o abraço daquellas duas
sombras.
O tempo corre de nós como de uma ampulheta, e nós não temos o
sentimento dessa fuga, sobretudo em certos instantes supremos. De um
lado aquelle par, que ignorava a testemunha e não a via, do outro
aquella testemunha que não via os dous, mas que sabia que elles alli
estavam, quantos minutos ficaram assim nessa mysteriosa suspensão?
Seria impossivel dizel-o. De subido echoou um ruido longinquo e uma voz
gritou: Soccorro! E o sino do porto começou a soar. É provavel que a
felicidade ebria e celeste não ouvisse o tumulto.
O sino continuou a soar. Quem procurasse Gilliatt no angulo do muro já
o não encontraria.
LIVRO SEGUNDO
Reconhecimento em pleno despotismo
I
ALEGRIA CERCADA DE ANGUSTIAS
Mess Lethierry agitava o sino com soffreguidão. De subito parou. Vio um
homem voltar a esquina do cáes. Era Gilliatt.
Mess Lethierry correu a elle, ou para melhor dizer atirou-se a elle,
tomou-lhe a mão entre as suas, e olhou-o fitamente em silencio; um
desses silencios da explosão, não sabendo por onde irromper.
Depois com violencia, saccudindo, e puxando, e apertando-o nos braços,
fez entrar Gilliatt na sala baixa de Bravées, empurrou a porta com o
tacão, e ficou entre-aberta, assentou-se ou cahio, em uma cadeira ao
lado de uma grande mesa illuminada pela lua, cujo reflexo eubranquecia
vagamente o rosto do Gilliatt, e com uma voz onde haviam gargalhadas e
soluços misturados, gritou:
--Ah! meu filho! homem do bug-pipe! Gilliatt! eu bem sabia que eras
tu! A _pança!_ que diabo! conta-me isso! Pois foste! Ha cem annos
queimavam-te. É feitiçaria. Não falta nada. Já examinei, reconheci,
apalpei. Adevinho que as rodas estão nas duas caixas. Então chegaste!
Fui procurar-te na _pança._ Toquei o sino. Procurava-te. Eu dizia
comigo: onde está elle? Quero devoral-o. É preciso convir que se passam
cousas extraordinarias. Aquelle animal volta do escolho Douvres.
Traz-me a vida. Com os diabos! tu és um anjo. Sim, sim, sim, é a minha
machina. Ninguem acredita. Hão de vêl-a e dizer: Não falta nem uma
serpentina. O tubo d'agua não se deslocou. É incrivel que não houvesse
avaria. Falta só pôr um pouco de azeite. Mas como foi? E a Durande vai
agora navegar! A arvore das rodas está desmontada como se fosse feito
por um ourives. Dá-me a tua palavra de honra que eu não estou doudo.
Levantou-se, respirou e proseguio:
--Jura-me. Que revolução! Dou beliscões em mim mesmo, vejo que não
sonho. Tu és meu filho, és meu rapaz, és Deos. Ah! meu filho. Ir buscar
a minha pobre machina! No mar alto! Naquella emboscada do escolho!
Tenho visto muita cousa espantosa em minha vida. Nunca vi cousa assim.
Vi os parisienses que são uns satanazes. Boas! não faziam isto. É peior
que a Bastilha. Vi os gaúchos lavrar nas pampas, tendo por charrua um
galho de arvore, do comprimento de um covado, e por grade um feixe de
espinhos puxado por corda de couro; colhem com isto grãos de trigo do
tamanho de avelãs. Não valem dous caracoes ao pé de ti. Fizeste um
milagre, um verdadeiro milagre. Ah! tratante! Salta-me ao pescoço. Como
vai rosnar a gente de Saint-Sampson! Vou tratar já e já de fazer o
navio. E, admiravel não ter quebrado a vara da redouça. Meus senhores,
elle foi ás Douvres. As Douvres! um penedo que não tem rival. Já
sabes, está provado que a cousa foi feita de proposito. Clubin perdeu
a Durande para furtar-me o dinheiro que devia trazer-me. Embriagou
Tangrouille. É longo, depois te contarei a pirataria delle. Eu era um
bruto, tinha confiança em Clubin. Mas o malvado não pôde naturalmente
sahir de lá. Ha um Deos, canalha! Olha, Gilliatt, quanto antes, ferro
na forja, vamos reconstruir a Durande. Dar-lhe-hemos vinte pés mais.
Agora fazem-se os navios mais compridos. Hei de comprar madeira em
Dantzick e Bremen. Agora que tenho a machina hão de emprestar-me
dinheiro. A confiança voltará.
Mess Lcthierry deteve-se, levantou os olhos com aquelle olhar que vê o
céo atravéz do tecto, e disse entre os dentes: Ha um meio.
Depois poz o dedo medio da mão direita entre as sobrancelhas, com a
unha apoiada no alto do nariz, o que indica a passagem de um projecto
no cerebro, e continuou:
--É o mesmo, para começar em grande escala, algum dinheiro basta. Ah!
se eu tivesse as minhas tres notas de banco que o tratante de Rautaine
me restituio e que o tratante de Clubin me roubou!
Gilliatt, em silencio, procurou na algibeira alguma cousa, que collocou
diante de si. Era o cinto de Clubin. Abrio e pôz na mesa o cinto,
no interior do qual a lua deixava ler a palavra: _Clubin_; tirou
da abertura uma caixinha, e da caixinha tres pedaços de papel que
desenrolou e estendeu a mess Lethierry.
Mess Lethierry examinou os tres pedaços de papel. Havia bastante
claridade para que o algarismo 1,000 e a palavra _thousand_ fossem
perfeitamente visiveis. Mess Lethierry pegou nos tres bilhetes, pol-os
na mesa um ao lado do outro, olhou para elles, olhou para Gilliatt,
ficou um momento calado, depois foi como que uma erupção depois de uma
explosão.
--Tambem isto! Tu és prodigioso. As minhas notas do banco! todas tres!
mil cada umal os meus sessenta mil francos! Então foste ao inferno?
É o cinto de Clubin. Por Deos: leio-lhe o nojento nome. Gilliatt
traz a machina, e mais o dinheiro! Isto deve ser contado nos diarios
publicos. Vou comprar madeira de primeira qualidade. Adevinho, achaste
o esqueleto. Clubin apodreceu lá em algum canto. Compraremos pinho
em Dantzick e carvalho em Bremen, faremos um bom casco, carvalho por
dentro, pinho por fora. Em outro tempo fabricavam-se navios menos
perfeitos e elles duravam mais; é que a madeira era mais secca porque
não se construia tanto. Faremos talvez a quilha de olmo. O olmo é bom
para estar sempre na agua: andando ora molhado, ora secco, apodrece: o
olmo alimenta-se de agua. Que bella Durande vamos fazer! Não me hão de
impôr. Já não preciso credito. Tenho dinheiro. Já se vio cousa assim
como Gilliatt? Eu estava prostrado, abatido, morto. Chega elle e pôe-me
de pé. E eu que não pensava nelle! Já nem me lembrava. Agora lembra-me
tudo. Pobre rapaz! Ah! bem, sabes, tu casas com Deruchette.
Gilliatt encostou-se á parede como se vacillasse e baixinho, mas
distintamente, disse.
--Não.
Mess Lethierry teve um sobresalto.
--Como, não?
Gilliatt respondeu.
--Não a amo.
Mess Lethierry foi á janella, abrio-a e fechou-a, pegou nas tres notas
do banco, dobrou-as, pôz a caixa cm cima, coçou a cabeça, pegou no
cinto de Clubin, atirou-o violentamente contra a parede, e disse:
--Ha alguma cousa!
Metteu as mãos nos bolsos, e continuou:
--Não amas Deruchette! Era então por minha causa que tocavas bug-pipe?
Gilliatt, sempre encostado á parede empallidecia como um homem que está
prestes a não respirar. Á proporção que se tornava pallido, Lethierry
tornava-se vermelho.
--Vejam este parvo! Não ama Deruchette! Pois trata de ama-la, porque
ella não ha de casar se não contigo. Que historias são essas? Cuidas
que te acredito? Estás doente? pois bem, manda chamar um medico, mas
não digas estravagancias, é impossivel que tivesses tempo de brigar
com ella e ficares arrufado. É verdade que os namorados são uns tolos!
Vamos, tens alguma razão? Se tens, falla; ninguem é tolo sem ter razão.
Demais, eu tenho algodão nos ouvidos, talvez ouvisse mal, repete o que
disseste.
Gilliatt replicou:
--Disse que não.
--Disseste que não. E teima o bruto! Tens alguma cousa, é claro!
Disseste que não! É uma estupidez que passa os limites do mundo
conhecido. Por muito menos dão-se banhos medicinaes a uma creatura. Ah!
tu não amas Deruchette! Então foi por amor do velhote que fizeste tudo
isto! Foi pelos bonitos olhos do papá que foste ás Douvres, que tiveste
frio, que tives calor, que tiveste fome e sede, que comeste bichos
do rochedo, que tiveste por quarto de dormir o nevoeiro, a chuva e o
vento, e que me trouxeste a machina como se traz a uma mulher bonita o
canario que fugio? E a tempestade de ha tres dias! Se tu imaginas que
eu não faço idéa do que passaste! Estiveste em boas! Foi então com o
pensamento em mim que cortaste, rachaste, viraste, arrastaste, limaste,
serraste, inventaste, e fizeste tantos milagres, tu só, mais que todos
os santos do paraiso? Ah! idiota! Pois olha que me aborreceste com a
tua sanphona! Na Bretanha chama-se _biniou._ Sempre a mesma toada,
animal! Ah! tu não amas Deruchette! Não sei o que tens. Lembra-me
agora, eu estava neste canto, Deruchette disse: Casava-me. E hade casar
comtigo. Ah! não a amas! Feitas as reflexões, eu não comprehendo nada.
Ou tu estaes doudo ou eu! E não diz palavra! Não é licito fazer o que
fizeste e dizer no fim: não amo Deruchette. Não se faz um obzequio
á gente para obrigal-a a ficar com raiva. Pois bem, se não te casas
com ella, Deruchette não se casa com pessoa alguma, fica para tia. Em
primeiro lugar, preciso de ti. Serás piloto da Durande. Se cuidas que
vou deixar-te ir assim! Ta, ta, ta, nada, meu amigo, já te não largo.
És meu. Nem te quero ouvir. Onde ha um marinheiro como tu? És o meu
homem. Mas falla, com os diabos!
O sino tinha accordado a gente da casa e da visinhança. Doce e Graça
tinham-se levantado e acabavam de entrar na sala baixa, espantadas, sem
dizer palavra. Graça trazia uma vela. Um grupo de vizinhos, burguezes,
marinheiros e aldeãos, sabidos á pressa, estava fora no cáes,
contemplando com pasmo e susto o cano da Durande na _pança._
Alguns, ouvindo a voz de Lethierry na sala baixa, começavam a entrar
silenciosamente pela porta entre-aberta. Entre duas caras de comadres,
passava a cabeça do Sr. Landoys que por acaso costumava sempre estar
presente nos lugares onde sentiria se não estivesse.
As grandes alegrias querem sempre um publico. Agrada-lhes o ponto de
apoio um pouco esparso que offerece uma multidão; partem dahi. Mess
Lethierry descobrio repentinamente que tinha gente a roda de si.
Aceitou logo o auditorio.
--Ah! vocês estão ahi? Que felicidade. Já sabem a noticia. Este
homem lá foi e de lá trouxe aquillo. Bom dia, Sr. Landoys. Ainda ha
pouco quando accordei vi o cano. Estava debaixo da minha janella.
Não falta nem um prego. Fizeram-se gravuras de Napoleão; eu prefiro
isto á batalha de Austerlitz. Sabem vocês da cousa. A Durande chegou
emquanto dormiam. Emquanto se mettiam nos lençóes e apagavam as velas,
ha pessoas que são heróes. Uns são covardes, vadios, aquecem os seus
rheumatismos; felizmente isso não impede que hajam espiritos fogosos.
Esses vão onde é preciso ir, fazem o que é preciso fazer. O homem da
casa mal assombrada chegou do rochedo Douvres. Pescou a Durande do
fundo do mar, pescou o dinheiro da algibeira de Clubin, abysmo mais
profundo que o outro. Mas como fizeste isto? Tinhas todos os diabos
contra ti, o vento e a maré, a maré e o vento. É verdade que tu és
feiticeiro. Os que dizem isso já não são tão pascacios. Voltou a
Durande! em vão se enfurecem as tempestades, este estrangula-as. Meus
amigos, annuncio-lhes que já não ha naufragios. Já examinei a machina.
Está como nova, está completa! Movem-se os cylindros tão facilmente
como dantes. Parecia novinha em folha. Sabem que a agua que sahe é
levada para fora do navio por um tubo colocado em outro tubo por onde
passa agua que entra, para utilisar o calor; pois bem, os dous tubos
estão salvos. A machina toda! as rodas tambem! Ah! has de casar com
ella!
--Com quem? com a machina? perguntou o Sr. Landoys.
--Não, a pequena. Sim, a machina. Ambas. Ha de ser duas vezes meu
genro. Good bye, capitão Gilliatt. Vamos ter Durande! Vamos fazer
negocio, vai haver circulação e commercio, e transporte de bois e
carneiros! Não troco Saint-Sampson por Londres. E aqui está o autor.
Digo-lhes que é uma aventura. Ha de ler-se isto sabbado na gazeta de
Mauger. O engenhoso Gilliatt é um finorio. Que dinheiro é este em ouro?
Mess Lethierry acabava de ver, pela fresta da tampa, que havia ouro
na caixinha posta sobre as notas de banco. Pegou nella, abrio-a,
esvasiou-a na palma da mão, e pôz o punhado de guinéos sobre a mesa.
--Para os pobres. Sr. Landoys, dê estes pounds da minha parte ao
condestavel de Saint-Sampson. Sabe da carta de Rantaine? Mostrei-lh'a
outro dia; pois bem; aqui estão as notas do banco. Com isto posso
comprar carvalho e pinho, e fazer a carpintaria. Veja. Lembra-se do
tempo que houve ha tres dias? Que ataque de vento e de chuva! O céo
disparava tiros de canhão. Gilliatt recebeu tudo isso nas Douvres, sem
que lhe obstasse o desaferrar o navio como eu tiro o meu relogio da
parede. Graças a Gilliatt, já sou alguem. A galeota do pai Lethierry
vai continuar o serviço, senhores e senhoras. Uma casca do noz com duas
rodas, e um tubo de cachimbo, foi sempre a minha mania. Disse sempre
comigo: Hei de fazer uma machina destas! Data de longe; foi uma idéa
que tive em Pariz, no café que faz a esquina da rua Christina e da rua
Delphina, lendo um jornal que fallava do invento. Sabem que Gilliatt
era capaz de metter a machina de Marly na algibeira e passear com ella?
Este homem é de ferro batido, é aço de tempera, é diamante, um marujo
de polpa, um ferreiro, um rapazola extraordinario, mais espantoso que
o principe Hohenlohe. A isto chamo eu um homem de engenho. Nós não
valemos nada. Os lobos do mar somos nós; o leão de mar é elle. Hurrah,
Gilliatt! Não sei o que elle fez, mas certamente fez o diabo, e como é
que não lhe hei dar Deruchette!
Desde alguns instantes Deruchette entrara na sala. Não dissera
palavra, não fizera rumor. Entrou como uma sombra. Assentára-se, quasi
desapercebida, em uma cadeira por traz de mess Lethierry de pé, loquaz,
tempestuoso, alegre, abundante de gestos, e fallando em voz alta. Um
pouco atraz della, veio outra apparição muda. Um homem vestido de
preto, de gravata branca, com o chapéo na mão, parára na abertura da
porta. Havia agora muitas velas no grupo lentamente engrossado. As
luzes batiam de lado no homem vestido de preto; o seu perfil, de alvura
joven e deliciosa, desenhava-se no fundo obscuro com urna pureza do
medalha; apoiava o cotovello n'uma almofada da porta, e tinha a fronte
na mão esquerda, attitude que lhe era graciosa, sem ser meditada, e que
fazia valer a grandeza da fronte na pequenez da mão. Havia uma ruga
de angustia no centro de seus labios contrahidos. Examinava e ouvia
com attenção profunda. Os assistentes, tendo reconhecido o reverendo
Ebeneser Caudray, cura da parochia, tinham-se affastado para deixal-o
passar, mas elle ficou na soleira. Havia hesitação na sua postura e
decisão no seu olhar. O olhar de quando em quando encontrava o de
Deruchette. Quanto a Gilliatt, ou por acaso ou de proposito, estava na
sombra, e mal se podia vêl-o.
Mess Lethierry não vio ao principio o Sr. Ebeneser, mas vio Deruchette.
Foi a ella, e beijou-a com toda a soffreguidão que póde ter um beijo na
fronte. Ao mesmo tempo estendia o braço para o canto escuro onde estava
Gilliatt.
--Deruchette, disse elle, estás outra vez rica, e o teu marido é
aquelle.
Deruchette levantou a cabeça desvairada e olhou para a sombra.
Mess Lethierry continuou:
--Ha de se fazer o casamento quanto antes, amanhã se fôr possivel, hão
de haver dispensas, mas as formalidades são simples, o decano faz o
que quer, casa-se a gente antes de gritar: guarda de baixo! não é como
em França, onde se precisam banhos, publicações, dilações, um chuveiro
de formalidades, e tu serás mulher de um homem valente, e não ha que
dizer, é um marinheiro, sempre o pensei desde o dia em que o vi voltar
de Herm com a peça de artilheria. Agora volta das Douvres, com a sua
fortuna, e a minha, e a fortuna da terra; é um homem que hade dar que
fallar; tu disseste: caso-me com elle; pois has de casar; e hão de ter
filhos, e eu serei avô, e terás fortuna de ser a lady de um rapagão
sério, que trabalha, que é util, que é sorprehendente, que vale por
cem, que salva as invenções dos outros, que é uma providencia, e ao
menos não casarás, como todas as raparigas ricas deste lugar, com um
soldado ou um padre, isto é o homem que mata e o homem que mente. Mas
que fazes ahi mettido no canto, Gilliatt? Ninguem te vê. Dôce! graça!
todos! luzes! Illuminem o meu genro a giorno. Caso-os, meus filhos, e
eis teu marido, e eis o meu genro, o Gilliatt da casa mal assombrada,
o grande marinheiro, e eu não terei outro genro, e não terás outro
marido, torno a dar a minha palavra de honra a Deos. Ah! Ah! é Vossa
Reverendissima, senhor cura, ha de casar-me estes pequenos.
O olhar de mess Lethierry acabava de cahir no reverendo Ebeneser.
Doce e graça tinham obedecido. Duas velas postas na mesa illuminavam
Gilliatt da cabeça aos pés.
--Como está bonito! gritou Lethierry.
Gilliatt estava hediondo.
Estava tal qual sahira, naquella manhã, do escolho Douvres, em
frangalhos, os cotovellos rotos, a barba longa, os cabellos eriçados,
os olhos queimados e vermelhos, a face esfolada, as mãos sangrentas;
tinha os pés descalços. Algumas das pustulas da pieuvre estavam
visiveis nos braços cabeludos.
Lethierry contemplava-o.
--É o meu verdadeiro genro. Como se bateu com o mar! está em
frangalhos! Que hombros! que pés! Como és bello!
Graça correu a Deruchette, amparou-lhe a cabeça. Deruchette tinha
desmaiado.
II
A MALA DE COURO
Desde madrugada Saint-Sampson estava de pé e Saint-Pierre Port começava
a chegar. A ressurreição de Durande fazia na ilha um rumor comparavel
ao que fez no meio dia da França a Salette. Havia multidão no caes
para contemplar o cano que sabia da _pança._ Tinham vontade de ver e
tocar na machina, mas Lethierry, depois de repetir, e á luz do dia,
a inspecção triumphante da mecanica, tinha posto na _pança_ dous
marinheiros encarregados de impedir que ninguem se approximasse. O
cano, porém, bastava á contemplação. A multidão pasmava. Só se fallava
de Gilliatt. Commentava-se e acceitava-se a alcunha de engenhoso, a
admiração acabava sempre por esta phrase: «Nem sempre é agradavel ter
na ilha gente capaz de fazer cousas destas.»
De fóra via-se mess Lethierry assentado á mesa diante da janella e
escrevendo, com um olho no papel, e outro na machina. Estava de tal
modo absorto que apenas uma vez interrompeu-se para gritar: Doce!
e para pedir noticias de Deruchette. Doce respondeu: «A menina
levantou-se e sahio.» Mess Lethierry disse: «Faz bem em tomar ar.
Esteve incommodada de noite por causa do calor. Havia muita gente na
sala. E depois a sorpreza, a alegria e as janellas fechadas. Vai ter um
marido soberbo!» E tornou a escrever. Já tinha escripto e fechado duas
cartas dirigidas aos mais notaveis constructores de Bremen. Acabava de
fechar a terceira.
O rumor de uma roda no caes fez-lhe levantar a cabeça. Inclinou-se á
janella, e vio desembocar do atalho que ia ter á casa de Gilliatt um
rapaz empurrando um carrinho de mão. O rapaz dirigia-se para o lado de
Saint-Pierre Port. Havia no carrinho uma mala de couro amarella com
pregos de cobre e estanho.
Mess Lethierry fallou ao rapaz.
--Onde vás?
O rapaz parou, e respondeu:
--Ao _Cashmere._
--Para que?
--Levar esta mala.
--Pois bem, levarás tambem estas tres cartas.
Mess Lethierry abrio a gaveta da mesa, e pegou num pedaço de barbante,
enlaçou as tres cartas que acabava de escrever, e atirou o embrulho ao
rapaz que o recebeu no ar entre as duas mãos.
--Dirás ao capitão do _Cashmere_ que sou eu quem escrevo, e que elle
tenha cuidado com ellas. É para a Allemanha. Bremen via London.
--Nào fallarei ao capitão, mess Lethierry.
--Porque?
--O _Cashmere_ não está no cáes.
--Ah!
--Está na barra.
--É justo, por causa do mar.
--Só posso fallar ao patrão do escaler.
--Recommenda-lhe as minhas cartas.
--Sim, mess Lethierry.
--A que horas parte o _Cashmere?_
--Ao meio-dia.
--Ao meio-dia hoje, é a enchente da maré. Tem contra si a maré.
--Mas tem vento de feição.
--Rapaz, disse mess Lethierry pondo o dedo index no cano da machina,
vês isto? isto zomba do vento e da maré.
O rapaz pôz as cartas na algibeira, pegou outra vez no carrinho, e
continuou a viagem para a cidade.
Mess Lethierry chamou:--Doce! Graça! Graça entreabrio a porta.
--Que ha, mess?
--Entra e espera.
Mess Lethierry pegou n'uma folha de papel e começou a escrever; se
Graça, de pé atraz delle, fosse curiosa e esticasse o pescoço, poderia
ler por cima do hombro, isto:
«Escrevo a Bremen para ver madeira. Tenho de fallar durante o dia aos
carpinteiros para a avaliação. Vai ter á casa do decano para arranjar
as dispensas. Desejo que o casamento se faça o mais cedo possivel, e
já, será melhor. Estou tratando de Durande, trata tu de Deruchette.»
Datou e assignou Lethierry.
Não se deu ao trabalho de fechar a carta, dobrou-a simplesmente em
quatro e deu-a a Graça.
--Leva isto a Gilliatt.
LIVRO TERCEIRO