a que, no primeiro momento, dera pouca attenção, havia uma commoção.
Lethierry reconheceu a letra, reconheceu a assignatura. Quanto ao
facto, nada comprehendeu ao principio.
A commoção foi tal que lhe poz, por assim dizer, o espirito em pé.
O phenomeno dos setenta e cinco mil francos que Rantaine confiára a
Clubin, era um enigma, e era por isso o lado util do abalo, visto
que obrigava Lethierry a reflectir. Fazer uma conjectura, é para o
pensamento uma occupação sã. Accorda, o raciocinio, convoca-se a logica.
Desde algum tempo, a opinião publica de Guernesey occupava-se em julgar
Clubin, o honrado homem que por tantos annos foi unanimemente admittido
na circulação da estima. Interrogavam-se uns aos outros, duvidava-se,
apostava-se pró e contra. Appareceram singulares esclarecimentos.
Clubin começava a apparecer em toda a luz, isto é, tornava-se negro.
Houve em Saint-Malo uma devassa judiciaria para saber onde parava
o guarda-costa 619. A perspicacia legal enganara-se, o que lhe
acontece muitas vezes. Partia da supposição de que o guarda-costa
fôra attrahido por Zuella e embarcado no _Tamaulipas_ para o Chile.
Esta hypothese engenhosa trouxe comsigo muitas aberrações. A myopia
da justiça não chegou a vêr Rantaine. Mas no decurso da pesquiza os
magistrados descobriram outros rastos; complicara-se o negocio que já
era obscuro. Clubin entrava no enigma. Havia uma coincidencia, alguma
relação talvez, entre a partida do _Tamaulipas_ e a perda da Durande.
Na taverna da porta Dinan, onde Clubin acreditava não ser conhecido,
foi conhecido; o taverneiro fallou; Clubin tinha comprado uma garrafa
de aguardente. Para quem? O armeiro da rua Saint-Vicent tambem fallou;
Clubin comprára um revolver. Contra quem? O dono da hospedaria João
tambem fallou; Clubin costumava a ter ausencias inexplicaveis. O
capitão Gestrais Gaboreau tambem fallou; Clubin quiz partir, apezar de
avisado e sabendo que devia haver nevoeiro. A tripolação da Durande
tambem fallou. O carregamento era falho e mal arranjado, negligencia
facil de comprehender, se o capitão quer perder o navio. Tambem fallou
o passageiro guernesiano; Clubin cuidou ter naufragado nos Hanois.
Tambem fallou a gente do Torteval; Clubin foi alli alguns dias antes
do naufragio e dirigio-se para Plainmont, vizinho dos Hanois. Levava
uma mala, e não voltou com ella. Igualmente fallaram os furta-ninhos;
a historia delles parecia prender-se ao desapparecimento de Clubin,
comtanto que em vez de almas de outro mundo, fossem contrabandistas.
Finalmente a propria casa mal assombrada de Plaimont fallou; algumas
pessoas, resolvidas a se esclarecerem, tinham-na escalado, e o que
acharam dentro? Exactamente a mala de Clubin.
Os magistrados de Torteval apprehenderam a mala e abriram-na. Continha
provisões de bocca, um oculo, um chronometro, roupas de homem, e roupa
branca marcada com as iniciaes de Clubin. Tudo isso, nas conversas de
Saint-Malo e Guernesey, ia-se accumulando, e já roçava pela fraude.
Comparavara-se symptomas confusos; averiguava-se o desdem singular
pelos conselhos, a affronta do nevoeiro, a negligencia na arrumação
das cargas, a garrafa d'aguardente, o timoneiro ébrio, a substituição
do capitão ao timoneiro, o movimento do leme, ao menos desastrado.
O heroismo em ficar no navio tornava-se velhacaria. Demais, Clubin
enganou-se no escolho. Addmittida a intenção de fraude, comprehendeu-se
a escolha dos Hanois, a facilidade de nadar para a costa, e a
residencia na casa mal assombrada até chegar a occasião de fugir. A
mala acabava a demonstração. Qual o élo que prendia esta aventura á
do guarda-costa, ainda não se tinha descoberto. Adivinhava-se uma
correlação; nada mais. Entrevia-se, quanto a esse homem, o guarda-costa
619, um drama tragico. Clubin talvez não representasse nelle, mas
descobriam-no nos bastidores.
Nem tudo se explicava pela fraude. Havia um revolver sem emprego. O
revolver entrou talvez no caso do guarda.
O faro do povo é fino e acertado. O instincto publico é habil nestas
restaurações da verdade feitas de pedaços soltos. Sómente, nesses
factos, de que resultava uma fraude verosimil, haviam sérias incertezas.
Tudo concordava; mas não havia base.
Não se perde um navio pelo gosto de perdel-o. Não se correm os riscos
do nevoeiro, do escolho, do nadar, do refugio, e da fuga, sem um
interesse. Qual seria o interesse de Clubin?
Via-se o acto, não se via o motivo.
Dahi vinha a duvida a muitos espiritos. Onde não ha motivo, parece que
não ha acto.
A lacuna era grave.
Ora a carta de Rantaine vinha preencher a lacuna.
A carta dava o motivo de Clubin. Queria roubar setenta e cinco mil
francos.
Rantaine era o _Deus ex machina._ Descia das nuvens com uma vela na mão.
A carta era o esclarecimento final.
Explicava tudo essa carta, e demais a mais annunciava uma testemunha,
Ahier-Tostevin.
Cousa decisiva, sabia-se agora o emprego do revolver. Rantaine estava
incontestavelmente informado de tudo. A sua carta fazia tocar tudo com
o dedo.
Nenhuma attenuante possivel na malvadeza de Clubin. Premeditára o
naufragio, e a prova era a mala levada para a casa Plainmont. E
suppondoo innocente, admittindo o naufragio fortuito, não devia elle,
no ultimo momento, decidido ao sacrificio, entregar os setenta e cinco
mil francos aos homens que se salvaram na chalupa? Era evidente. Mas
que era feito de Clubin? Foi provavelmente victima do seu erro. Pereceu
sem duvida no escolho Douvres.
O andaime de conjecturas, todas conformes, na realidade, occupou
durante muitos dias o espirito de mess Lethierry. A carta de Rantaine
teve a utilidade de obrigal-o a pensar. Teve um primeiro abalo
de sorpreza, depois fez esforço de reflectir. Fez outro esforço
mais difficil ainda para informar-se. Acceitou e procurou mesmo as
conversas. No fim de oito dias tornou-se pratico até certo ponto; o
espirito fortaleceu-se e quasi ficou curado. Sahio do estado turvo.
A carta de Rantaine, admittindo que mess Lethierry tivesse algum dia a
esperança do reembolso, fez desapparecer a ultima probabilidade.
Á catastrophe da Durande ajuntava-se o naufragio dos setenta e cinco
mil francos. A carta empossava-o do dinheiro tanto quanto lhe bastava
para sentir a perda. Mostrava-lhe o fundo da ruina.
Dahi veio um soffrimento novo, e agudissimo, que já indicámos. Começou,
cousa que ha dous mezes não fazia, a preoccupar-se com a casa, do que
havia, e que reformas devia fazer. Tédio eriçado de mil pontas, quasi
peior que o desespero. Odiosa cousa é supportar a desgraça por miudo,
disputar passo a passo ao facto realisado o terreno que elle vem tomar.
Acceita-se a massa do infortunio, a poeira não. O conjuncto acabrunha,
o pormenor tortura. Ha pouco a catastrophe fulminava, agora mortifica.
Essa é a humilhação aggravante do infortunio. É uma segunda annullação
que vem ajuntar-se á primeira, e feia. Desce-se um degráo no nada.
Depois do sudario, o andrajo.
Nada mais triste do que pensar em decahir.
Parece simples estar arruinado. Golpe violento; brutalidade da sorte;
é a catastrophe uma vez por todas. Seja. Aceita-se. Tudo está acabado.
Fica-se arruinado. Está dito, morreu. Qual! vive-se. É o que no dia
seguinte começa-se a sentir. Porque? Por alfinetadas. Passa um homem
sem tirar o chapéo, chovem as contas das lojas, ri-se um inimigo. Ri-se
talvez do ultimo trocadilho de Arnal, mas é o mesmo, o trocadilho
pareceu-lhe mais engraçado, exactamente por que estás pobre. Lês a tua
decadencia até nos olhares indifferentes; as pessoas que jantavam em
tua casa, acham demasiado os tres pratos da tua mesa; os teus defeitos
saltam aos olhos de todos; as ingratidões, não tendo que esperar mais
nada, tiram a mascara; todos os imbecis predisseram o que te acontece;
os máos dilaceram-te, os peiores lamentam-te. E mais cem pormenores
mesquinhos. A nausea succede ás lagrimas. Bebeis vinho, beberás cidra.
Duas criadas! Uma seria de mais. Devia-se despedir esta, sobrecarregar
aquella. Ha flôres de mais no jardim; planta antes batatas. Davas
flôres aos amigos, vende-as agora no mercado. Quanto aos pobres, já
não deves pensar nelles; também não és pobre? As _toilettes_, questão
pungente. Diminuir uma fita a uma mulher, que supplicio! Recusar o
enfeite, a quem te dá a belleza! Ter ares do avarento! Talvez que ella
te diga:--Pois que! tiraste as flôres do meu jardim, e agora as tiras
do meu chapéo!--Ai triste! condemnal-a aos vestidos velhos! A mesa de
familia é silenciosa. Parece-te que te querem mal. Os rostos amados
parecem preoccupados. Eis o que é a decadencia. Cumpre-te morrer todos
os dias. Cahir, não é nada, é a fornalha. Decahir, é o fogo lento.
A quéda é Waterloo; a decadencia é Santa Helena. A sorte, encarnada
em Wellington, tem ainda alguma dignidade; mas quando se faz Hudson
Lowe, que vilania! O destino torna-se um bigorrilhas. Vê-se o homem de
Campo-Formio querelando por um par de meias de seda. Agorentou-se a
Inglaterra, agorentando Napoleão.
Essas duas phases, Waterloo e Santa Helena, reduzidas ás proporções
burguezas, todos as atravessam.
Na noite de que fallámos e que era uma das primeiras noites de Maio,
Lethierry deixando Deruchette passear ao luar, no jardim, deitou-se
mais triste que nunca.
Rolavam-lhe no espirito todas essas minucias mesquinhas e
desagradaveis, complicações de fortunas ardidas, todas essas
preoccupações de terceira ordem, que começam por ser insipidas e acabam
lugubres. Triste accumulação de miserias. Mess Lethierry sentia a
sua queda irremediavel. Que devia fazer agora? Que seria delle? Que
sacrificios devia impôr a Deruchette. Quem devia despedir, Doce ou
Graça? Venderia a casa? Seria obrigado a abandonar a ilha? Não ser
cousa alguma onde se foi tudo, é uma decadencia insuportavel.
E pensar que estava acabado! Recordar as viagens de França ao
archipelago, a partida ás terças-feiras, a chegada ás sextas, a chusma
no cáes, aquelles grandes carregamentos, aquella industria, aquella
prosperidade, aquella navegação directa e altiva, aquella machina
sugeita á vontade do homem, aquella caldeira omnipotente aquelle fumo,
aquella realidade! O vapor é a bussola completa; a bussola indica o
caminho, o vapor segue por elle. Uma propõe, a outra executa. Onde
estava agora a sua Durande, aquella magnifica e soberana Durande,
aquella senhora do mar, aquella rainha que o fazia rei? Ter sido o
homem idéa, o homem triumpho, o homem revolução! e renunciar! abdicar!
Não existir! fazer rir aos outros! ser um sacco onde já houve alguma
cousa! Ser o passado quem foi o futuro! merecer a compaixão altiva dos
idiotas! ver triumphar a rotina, a obstinação, o rammerrão, o egoismo,
a ignorancia! ver começar outra vez as viagens dos cutters gothicos
sacudidos pela vaga! ver a antigualha rejuvenecer! perder a vida!
perder a luz e soffrer o eclypse! Ah! como era bello vêr sobre as vagas
aquelle cano orgulhoso, aquelle prodigioso cylindro, aquelle pilar de
um capitel de fumo, aquella columna maior que a de Vendome, porque
havendo nesta apenas um homem, ostentava-se naquella o progresso! O
oceano está por baixo; era a certeza em pleno mar. Vio-se aquillo,
naquella pequena ilha, naquelle pequeno porto, naquelle pequeno
Saint-Sampson? Sim, vio-se! Pois que! vio-se e não se verá mais!
Toda este obsessão da saudade mortificava Lethierry. Ha soluços no
pensamento. Talvez nunca sentisse mais amargamente a sua perda. Depois
de taes excessos agudos costuma vir um entorpecimento. Debaixo desse
peso de tristeza Lethierry adormeceu.
Ficou cerca de duas horas com as palpebras fechadas, dormindo pouco,
sonhando muito, febril. Esses torpores cobrem um obscuro e fatigante
trabalho do cerebro. Pela meia noite, um pouco antes, ou um pouco
depois, Lethierry sacudio o adormecimento. Acordou, abrio os olhos, a
janella estava em frente á maca, vio uma cousa extraordinaria.
Havia uma forma diante da janella. Forma inaudita. O cano de um vapor.
Mess Lethierry levantou-se de um salto. A maca oscilou, como se fosse
abalada pela tempestade. Lethierry olhou. Havia na janella uma visão. O
porto illuminado pela lua reflectia-se nos vidros, e no meio do luar,
e, proxima á casa, surgia uma soberba forma recta, redonda e negra.
Era um tubo de machina.
Lethierry precipitou-se para fora da maca, correu á janella, levantou a
vidraça, inclinou-se e reconheceu.
O cano da Durande estava diante delle.
Estava no lugar do costume.
As quatro correntes prendiam o cano á borda de um barco dentro do qual
distinguia-se uma massa de fórma complicada.
Lethierry recuou, voltou as costas á janella e cahio assentado na maca.
Voltou-se outra vez e vio a mesma visão.
Um momento depois, apenas o espaço de um relampago, estava elle no cáes
com uma lanterna na mão.
Á velha argola onde se prendia a Durande estava amarrada uma barca
trazendo um pouco á ré um vulto massiço donde sahia o cano que ficava
em frente á janella. A prôa da barca prolongava-se além do canto da
parede da casa e encostada ao cáes.
Não havia ninguem na barca.
A barca tinha uma forma especial, conhecida por todos em Guernesey; era
a _pança._
Lethierry pulou deutro. Correu á massa que ficava alem do mastro. Era a
machina.
Era ella, inteira completa, intacta, sentada sobre o fundo de metal; a
caldeira estava com todas as peças; a arvore das rodas estava arranjada
e amarrada perto da caldeira; a bomba estava no seu lugar; nada faltava.
Lethierry examinou a machina.
A lanterna e a lua ajudaram-lhe o exame.
Passou em revista todo o machinismo.
Vio as duas caixas que estavam ao pé. Olhou para a arvore das rodas.
Foi ao camarote; estava vasio.
Voltou á machina e apalpou-a. Metteu a cabeça na caldeira. Ajoelhou-se
para ver dentro.
Collocou na caldeira a lanterna que illuminava todo o mechanismo e
produzia o effeito de uma machina acesa.
Depois deu uma gargalhada, e levantando-se, com o olhar fixo na machina
e os braços estendidos para o cano, gritou: soccorro!
O sino do porto ficava perto. Lethierry correu a elle, segurou a corda,
e começou a sacudir o sino impetuosamente.
II
AINDA O SINO DO PORTO
Gilliatt, com effeito, depois de uma travessia sem incidente, mas
um pouco demorada por causa do peso do carregamento, chegou a
Saint-Sampson de noite, mais perto das 10 horas que das 9.
Gilliatt calculára a hora. A maré começava a encher. Havia luz e agua;
podia-se entrar no porto.
O porto estava adormecido. Haviam alguns navios ancorados, cascos sem
veigas, cestos de gavea recolhidos, e sem faróes. Descobria-se no
fundo alguns navios em concerto postos no estaleiro. Grandes cascos
desmastreados, levantando acima das amuradas furadas as pontas curvas
de seus membros desnudos, semelhantes a escaravelhos mortos deitados de
costas e com as pernas para o ar.
Gilliatt apenas entrou no porto examinou o caes. Não havia luz em
parte alguma, nem na casa de Lethierry, nem nas outras. Não havia
ninguem na rua, excepto talvez um homem que acabava de entrar ou sahir
do presbyterio. E ainda assim poderia ser que não fosse uma pessoa,
porque a noite esfuma tudo quanto desenha e o luar faz tudo indeciso. A
distancia ajudava a obscuridade. O presbyterio de então, era situado do
outro lado do porto, no lugar onde outr'ora havia uma estiva coberta.
Gilliatt encostou-se silenciosamente ao muro e amarrou a _pança_ na
argola da Durande, debaixo da janella de mess Lethierry.
Depois saltou para terra.
Gilliatt, deixando atraz de si a _pança_, rodeou a casa, atravessou uma
viela, depois outra, nem mesmo, olhou para o entroncamento do caminho
que ia ter á casa delle, e no fim de alguns minutos parou no recanto da
parede onde havia um pé de malva sylvestre com flôres côr de rosa em
Junho, azevinho, hera e ortigas. Era dahi que, escondido no espinheiro,
assentado numa pedra, tantas vezes, nos dias de verão e durante longas
horas e mezes inteiros, tinha elle contemplado por cima do muro,
tão baixinho que tentava um pulo, o jardim de Bravées, e atravez
das arvores, duas janellas de um quarto da casa. Achou a pedra, o
espinheiro, o muro baixo, o angulo obscuro, e como um animal que volta
ao buraco, antes escorregando que andando, Gilliatt agachou-se. Depois
de assentado não fez movimento algum. Olhou. Tornou a vêr o jardim, as
alamedas, as grutas, os canteiros, a casa, as duas janellas do quarto.
A lua mostrava-lho aquelle sonho. Era-lhe horrivel ter de respirar.
Gilliatt forcejava por conter a respiração.
Parecia-lhe ver um paraiso fantasma. Tinha medo que lhe voasse tudo
aquillo. Era quasi impossivel que aquellas cousas estivessem diante
delle; e se estavam, era sem duvida prestes a esvair-se como acontece
com as cousas divinas. Bastava um sopro para desapparecer tudo.
Gilliatt tremia por isso.
Perto delle, e em frente, no jardim, á beira de uma alameda, havia um
banco de páo pintado de verde. Os leitores lembram-se desse banco.
Gilliatt contemplava as duas janellas. Pensava em alguem que estivesse
dormindo naquelle quarto. Quizera não estar onde estava. Preferia
morrer a retirar-se. Pensava numa respiração levantando um seio. Ella,
aquella miragem, aquella alvura dentro de uma nuvem, aquella obsessão
de seu espirito, estava alli! Gilliatt pensava no inaccessivel que
dormia, e tão perto, e ao alcance do seu extase; pensava na mulher
impossivel adormecida e visitada tambem pelas chimeras; na creatura
desejada, remota, esvaecente, fechando os olhos com a fronte na mão;
no mysterio do somno da creatura idéal; nos sonhos que póde ter um
sonho. Não ousava pensar além e pensava; arriscava-se nas faltas de
respeito do devaneio; perturbava-o a quantidade de forma feminina que
póde haver no anjo. A hora nocturna faz com que os olhos timidos lancem
furtivos olhares; censurava-se por ir tão longe, receiava profanar com
a reflexão; a seu pezar, constrangido, tremulo, Gilliatt olhava para
o invisivel. Sentia a commoção e quasi o soffrimento, de imaginar uma
saia numa cadeira, um manto atirado ao tapete, um cinto desenlaçado, um
lenço de pescoço. Imaginava um collete, um atacador arrastando no chão,
meias, ligas. Tinha a alma nas estrellas.
As estrellas são feitas tanto para o coração humano de um pobre, como
para o coração de um millionario. Em certo grão de paixão todos os
homens são sujeitos ás fascinações profundas. Se a natureza é aspera e
primitiva, razão de mais. A condição selvagem augmenta o sonho.
A fascinação é uma plenitude que transborda como todas. Ver as janellas
era quasi de mais para Gilliatt.
De repente vio elle a propria moça.
Dentre os ramos de uma mouta, já espessa pela primavera, sahio com
ineffavel lentidão, phantastica e celeste, uma figura, um vestido, um
rosto divino, quasi um clarão no meio do luar.
Gilliatt sentio-se desfallecer. Era Deruchette.
Deruchette approximou-se. Parou. Deu alguns passos para afastar-se,
parou ainda, depois voltou e assentou-se no banco de páo. A lua batia
nas arvores, algumas nuvens erravam por entre as estrellas pallidas,
o mar fallava ás cousas da sombra, a meia voz, a cidade dormia, do
horisonte subia uma neblina, a melancolia era profunda.
Deruchette inclinava a fronte com aquelle olhar pensativo que contempla
attentamente o vácuo; estava sentada de perfil, com a cabeça quasi
descoberta, tendo um barretinho desatado que lhe deixava ver na nuca
delicada a origem dos cabellos, enrolava machinalmente nos dedos
uma fita do barrete, a penumbra modulava as suas mãos de estatua, o
vestido era de uma dessas côres que de noite se fazem brancas, as
arvores moviam-se como se fossem susceptiveis ao encanto que resumbrava
della, via-se a pontinha de um de seus pés, havia nos seus cilios
fechados aquella vaga contracção que annuncia uma lagrima represa ou
um pensamento repellido, os seus braços tinham a indecisão fascinante
de não achar onde encostar-se, misturava-se-lhe á postura alguma cousa
fluctuante, era antes um clarão que uma luz, antes uma graça que uma
deusa, as dobras da barra da saia eram delicadas, o seu admiravel rosto
meditava virginalmente. Estava tão perto, que era terrivel. Gilliatt
ouvia-a respirar.
Havia ao longe um rouxinol que cantava. A passagem do vento nos
ramos punha em movimento o inefavel silencio nocturno. Deruchette,
gentil e sagrada, apparecia naquelle crepusculo como o resultado
daquelles raios e daquelles perfumes; o encanto immenso e esparso ia
ter mysteriosamente a ella, nella condensava-se era a sua irradiação.
Parecia a alma flôr de toda aquella sombra.
Toda aquella sombra, fluctuante em Deruchette, pesava sobre Gilliatt.
Estava desvairado. O que elle sentia não cabe dize-lo em palavras; a
commoção é sempre nova e as palavras já servirão muito; dahi vem a
impossibilidade de exprimir a commoção. Existe o abatimento do encanto.
Ver Deruchette, vêl-a ella propria, ver-lhe o vestido, ver-lhe o
barrete, ver-lhe a fita que ella enrolava nos dedos, póde-se acaso
imaginar semelhante cousa? Estar perto della, era acaso possivel?
Ouvi-la respirar; respirava pois! então os astros respiram. Gilliatt
estremecia. Era o mais miseravel e o mais inebriado dos homens. Não
sabia que fazer. O delirio de ve-la esmagava-o. Pois que! Era ella quem
alli estava, era elle quem estava alli! As suas idéas, deslumbradas
e fixas, paravam naquella creatura como se fora um rubi. Contemplava
aquella nuca e aquelles cabellos. Gilliatt nem mesmo pensava que tudo
aquillo lhe pertencia, que em pouco tempo, talvez amanhã, elle teria
o direito de tirar-lhe aquella coifa e deslaçar aquella fita. Sonhar
até esse ponto era um excesso de audacia que elle não poderia conceber
um momento. Tocar com o pensamento e quasi tocar com a mão. O amor
era para Gilliatt como mel para o urso, o sonho eximio e delicado.
Pensava confusarnente. Não sabia o que tinha. O rouxinol cantava. Elle
sentia-se expirar.
Levantar-se, galgar o muro, approximar-se, dizer sou eu, fallar a
Deruchette, foi idéa que não teve. Se ativesse, fugiria. Se alguma
cousa semelhante a um pensamento chegou a despontar no seu espirito,
era que Deruchette estava alli, que elle não tinha necessidade de mais
cousa alguma, e que a eternidade começava.
Um rumor arrancou a ambos, ella do devaneio, elle do extasis.
Andava alguem no jardim. Não se via quem era por causa das arvores. Era
um passo de homem.
Deruchette levantou os olhos.
Os passos aproximaram-se e cessaram. Quem quer que era parou. Devia
estar perto. O caminho onde estava o banco, perdia-se entre duas
moutas. Era ahi que estava essa pessoa, nesse intervallo, a poucos
passos do banco.
O acaso tinha disposto a espessura dos ramos, de tal modo, que
Deruchette via, a pessoa, sem que Gilliatt a visse.
O luar projectava no chão, fóra das moutas, e ate ao banco, uma sombra.
Gilliatt vio essa sombra.
Olhou para Deruchette.
Ella estava pallida. A boca entre aberta esboçava um grito de
surpreza. Levantou-se um pouco do banco, tornou a sentar-se; havia
na sua attitude, uma mistura de fuga e de fascinação. O seu pasmo
era um encanto cheio de receio. Tinha nos labios quasi a irradiação
do sorriso, e um reflexo de lagrimas nos olhos. Estava como que
transfigurada por aquella presença. Não parecia que a creatura alli
chegada fosse da terra. Havia no olhar de Deruchette a reverberação de
um anjo.
A pessoa, que era apenas um sombra para Gilliatt, fallou em fim. Sahio
das moutas uma voz, mais doce que uma voz de mulher, e voz de homem
comtudo. Gilliatt ouvio estas palavras:
Vejo-a todos os domingos e quintas-feiras; disseram-me que outr'ora a
senhora não ia lá tantas vezes. Fizeram este reparo, peço-lhe perdão.
Nunca lhe fallei, era o meu dever; fallo-lhe hoje, é meu dever. Antes
de tudo devo dirigir-me á senhora. O _Cashmere_ parte amanhã; foi por
isso que eu vim. A senhora passeia todas as noites neste jardim. Eu
fazia mal em conhecer tanto os seus habitos se não tivesse o pensamento
que tenho. A senhora é pobre. Eu sou rico desde esta manhã. Quer-me por
seu marido?
Deruchette ajuntou as duas mãos como uma supplicante, e olhou para
aquelle que fallava, muda, olhar lixo, tremula da cabeça aos pés.
A voz continuou: