Podia achar alguns restos no rochedo, quando muito. A _pança_ já

estava bastante alliviada, e elle podia ausentar-se um quarto de

hora; mas como procurar sem luz? Completa era a escuridão. Já não

havia lua; apenas o sombrio céo estrellado. Gilliatt não tinha fios

seccos para fazer uma mecha, nem sebo para fazer uma vela, nem fogo

para accendêl-a, nem lanterna para abrigal-a. Tudo estava confuso e

indistincto na barca e no escolho. Ouvia a agua romurejar á roda do

casco ferido, e nem se quer podia vêr o buraco; foi com as mãos que

Gilliatt pôde averiguar a tensão crescente do panno. Era impossivel

fazer naquella obscuridade uma pesquiza util de pedaços de lona e

maçame esparsos nos cachopos. Como colher esses andrajos, sem luz?

Gilliatt contemplava tristemente a noite. Todas as estrellas e nem uma

vela.

A massa liquida diminuira na barca, a pressão externa augmentára.

Crescia o inchamento do panno. Entumescia-se cada vez mais. Era um

abcesso prestes a abrir. A situação, um momento melhorada, tornava-se

ameaçadora.

Era imperiosamente necessario um batoque.

Gilliatt apenas tinha as suas roupas.

Tinha-as posto a seccar nas saliencias do rochedo da pequena Douvre.

Foi buscal-as, e depositou-as na borda da _pança._

Pegou no capote alcatroado e ajoelhando-se na agua, metteu-o no buraco,

empurrando o tumor do panno para fóra, e portanto esvasiando-o. Depois

metteu a pelle de carneiro, depois a camisa de lã, depois a japona.

Tudo.

Tinha apenas uma roupa, tirou-a, e com a calça engrossou e apertou o

batoque. Estava prompto e não parecia insufficiente.

O batoque sahia pelo buraco tendo o panno por envolucro. A agua,

querendo entrar, apertava o obstaculo, alargava-o utilmente na

fractura, e consolidava-o. Era uma especie de compressa exterior.

No interior, tendo sido empurrado apenas o centro da lona, ficava á

roda do buraco e do batoque um rolete circular do pau no tanto inais

adherente quanto que as desigualdades da fractura o retinham. A via

d'agua estava tapada.

Mas nada mais precario do que aquillo. Os relevos agudos da fractura

que fixavam o panno, podiam fura-lo e por esses buracos entraria

a agua. Gilliatt na obscuridade, não descobria isso. Era pouco

provavel que o batoque durasse até de manhã. A anxiedade de Gilliatt

mudou de forma, mas elle sentia a crescer ao mesmo tempo que sentia

quebrarem-se-lhe as forças.

Continuou a esvasiar o porão, mas os seus braços, no extremo esforço,

apenas podiam levantar a pá d'agua. Estava nú e tremia.

Gilliatt sentia a approximação sinistrada extremidade. Talvez

houvesse uma vela ao largo, um pescador que por acaso passase nas

aguas de Douvres podia ajudal-o. Era chegado o momento em que se

tornava necessario um collaborador. Um homem e uma lanterna, e tudo

estaria salvo. Sendo dous, esvasiava-se facilmente a barca; uma vez

estancada, sem aquella sobrecarga liquida, voltaria ao nivel de

fluctuação, o buraco sahiria d'agua, o reparo seria exequivel, podia-se

immediatamente substituir o batoque por uma peça de madeira, e o

aparelho provisorio por um concerto difinitivo. Senão, era preciso

esperar até de manhã, esperar a noite toda! Funesta demora que podia

ser a perdição. Gilliatt tinha a febre da urgencia. Se por acaso algum

pharol de navio estava a vista, Gilliatt poderia fazer signaes, do alto

da grande Douvre. O tempo estava calmo, não havia vento, não havia mar,

um homem agitando-se no fundo estrellado do céo tinha a possibilidade

de ser visto. Um capitão de navio, e mesmo um patrão de lancha, não

anda de noite nas aguas das Douvres sem pôr o oculo no escolho; é a

precaução.

Gilliatt esperava que o vissem.

Escalou o casco da Durande, empunhou a corda e subio á grande Douvre.

Nenhuma vella no horisonte. Nenhum pharol.

A agua estava deserta a perder de vista.

Nenhuma assistencia possivel e nenhuma resistencia possivel.

Gilliatt, cousa que até então não sentira, sentio-se desarmado.

A fatalidade obscura assenhoreára-se delle. Elle, com a barca, com a

machina da Durande, com o trabalho, com o bom exito, com a coragem,

tudo isso pertencia ao golphão. Já não tinha recurso de luta;

tornava-se passivo. Como impedir a maré e a noite? O batoque era o

unico ponto de apoio. Gilliatt exhaurira-se em compol-o e completal-o;

fortifical-o é que já não podia; o batoque devia ficar assim e

fatalmenle tinha acabado todo o esforço. O mar tinha á sua discrição

aquelle apparelho prematuro applicado ao buraco. Como resistiria

aquelle obstaculo inerte? Chegára-lhe a vez de combater, depois de

Gilliatt. Entrava o trapo, retirava-se o espirito. O entumecimento

de uma onda bastava para abrir a fractura. Maior ou menor pressão, a

questão era essa.

O desfecho ia nascer por uma luta machinal entre duas quantidades

mechanicas. Gilliatt não podia agora, nem ajudar o auxiliar, nem

impedir o inimigo. Era apenas o espectador da sua vida ou da sua morte.

Aquelle Gilliatt que tinha sido uma providencia foi substituido no

supremo instante por uma resistencia inconsciente.

Nenhuma das provas e dos pavores que Gilliatt atravessára era igual a

esta.

Chegando ao escolho Douvres, vio-se cercado, como que agarrado pela

solidão. A solidão fazia mais que cercal-o, envolvia-o. A um tempo mais

de mil ameaças o desafiavam. O vento estava alli, prestes a soprar;

alli estava ornar; prestes a rugir. Era impossivel amordaçar a guela

ao vento, era impossivel desarmar a bocca do mar. E comtudo tinha elle

combatido; homem, lutara corpo a corpo com o oceano, engalfinhára-se

com a tempestade.

Tinha affrontado outras anciedades e necessidades. Pelejou contra

outros perigos. Foi-lhe preciso trabalhar sem ferramenta, carregar

fardos sem auxilio, resolver problemas sem sciencia, comer e beber sem

provisões, dormir sem leito e sem tecto.

Naquelle rochedo, eculeo tragico, pozeram-lhe a questão as diversas

fatalidades iniquas da natureza, mãe quando quer, algoz quando lhe

apraz.

Venceu o isolamento, venceu a fome, venceu a sêde, venceu o frio,

venceu a febre, venceu o trabalho, venceu o somno. Encontrou no caminho

os obstaculos coalisados. Depois da nudez, o elemento; depois da maré,

a tempestade; depois da tempestade, a pieuvre; depois do monstro, o

espectro.

Lugubre ironia final. Naquelle escolho d'onde Gilliatt contava sahir

triumphante, Clubin morto olhára rindo para elle.

Tinha razão o riso do espectro. Gilliatt via-se perdido. Via-se tão

morto como Clubin.

O inverno, a fome, a fadiga, o desapparelhar do casco, o transporte

da machina, o equinoxio, o vento, o trovão, a pieuvre, tudo isso nada

era ao pé do arrombamento da _pança._ Podia-se ter, e Gilliatt os

teve, contra o frio, o fogo; contra a fome, as conchas; contra a sêde,

a chuva; contra as difficuldades, a industria e a energia; contra a

maré e a tempestade, o quebra-mar; contra a pieuvre, a faca. Contra o

arrombamento, nada.

O furacão deixava-lhe aquelle adeus sinistro. Ultima repetição, perfida

estocada, ataque sorrateiro do vencido ao vencedor. A tempestade

fugitiva lançava-lhe aquella flecha. A derrota olhava para traz e

feria. Era o _coup de jarnac_ do abysmo.

Combate-se a tempestade; mas como combater um esgoto?

Se o batoque cedesse nada podia impedir que a _pança_ fosse a pique.

Era a ligadura da arteria que se rompe. E apenas fosse ao fundo d'agua,

com a machina dentro, não havia meio de arranca-la. O magnanimo exforço

de dous mezes titanicos acabava por um anniquilamento. Recomeçar era

impossivel. Gilliatt já não tinha nem forja, nem materiaes. Talvez

tivesse elle de ver, ao romper do dia, mergulhar-se lentamente e

irremediavelmente toda a sua obra no golphão.

Cousa assustadora é sentir debaixo de si a força sombria.

O golphão attrahia-o.

Engulida a barca, restava-lhe morrer de fome e de frio como o naufrago

do rochedo Homem.

Durante dous longos mezes, as consciencias e as providencias que

existem no invisivel, tinham assistido a isto: de um lado a extensão,

as vagas, os ventos, os relampagos, os meteoros, do outro lado um

homem; de um lado o mar, do outro uma alma; de um lado o infinito, do

outro um atomo.

E houve batalha.

E abortava talvez aquelle prodigio.

Assim chegou á impotencia o inaudito heroismo, acabava-se pelo

desespero aquelle formidavel combate, aquella luta do Nada contra Tudo,

aquella Illiada de um.

Gilliatt desvairado contemplava o espaço.

Nem mesmo tinha roupa, estava nú diante da immensidade.

Então, no acabrunhamento de toda aquella enormidade desconhecida,

não sabendo já o que queriam delle, confrontando-se com a sombra, em

presença daquella obscuridade irreductivel, no rumor das aguas, das

ondas, dos marulhos, das espumas, das lufadas, debaixo das nuvens,

debaixo dos ventos, debaixo da vasta força esparsa, debaixo daquelle

mysterioso firmamento das azas, dos astros e das tumbas, debaixo

da intenção possivel das cousas desmesuradas, tendo á roda de si

e era baixo de si o oceano, e acima as constellações, debaixo do

insondavel, Gilliatt abateu-se, desistio, deitou-se ao comprido sobre

a rocha, voltado para as estrellas, vencido, e pondo as mãos diante da

profundeza terrivel, bradou ao infinito: piedade!

Abatido pela immensidade, Gilliatt implorou.

Estava só naquella noite, em cima daquelle rochedo, no meio daquelle

mar, cahido de cansaço, semelhante a um fulminado, nú como o gladiador

no circo, tendo em vez do circo o abysmo, em vez das feras as trevas,

era vez dos olhos do povo o olhar do ignoto, em vez das vestaes as

estrellas, em vez de Cezar, Deos.

Pareceu-lhe que se dissolvia no frio, no cansaço, na impotencia, na

oração, na sombra e fecharam-se-lhe os olhos.

VII

HA UM OUVIDO NO IGNOTO

Correram algumas horas.

O sol levantava-se deslumbrante.

O seu primeiro raio illuminou na plataforma da grande Douvre, uma forma

immovel. Era Gilliatt. Continuava estendido em cima do rochedo.

Já não estremecia aquella nudez gelada e endurecida. Estavam lividas as

palpebras fechadas. Era difficil dizer que não era um cadaver.

O sol parecia contempla-lo.

Se aquelle homem nú não estava morto, devia estar tão perto disso que

bastaria o menor vento frio para acaba-lo.

Começou a soprar o vento, tepido e vivificante; era o halito vernal de

Maio.

Entretanto o sol subia no profundo céo azul; o seu raio menos

horisontal ia-se purpureando. A luz fez-se calor. Cingio Gilliatt.

Gilliatt não se mexia. Se respirava, era uma respiração quasi extincta

que mal poderia embaciar um espelho.

O sol continuava a sua ascenção cada vez menos obliqua sobre Gilliatt.

O vento que era tepido ao principio, tornou-se callido.

Aquelle corpo rigido e nú continuava sem movimento; entretanto a pelle

parecia menos livida.

O sol, acercando-se do zenith, cahia a prumo sobre a plataforma da

Douvre. Vertia do alto do céo uma prodigalidade de luz; juntava-se a

ella a vasta reverberação do mar tranquillo, o rochedo começava a ficar

tepido e aquecia o homem.

O peito de Gilliatt levantou-se com um suspiro.

Vivia.

O sol continuava as suas caricias, quasi ardentes. O vento, que já era

o vento do meio dia, e o vento de verão, approximava-se de Gilliatt

como uma boca, soprando mollemente.

Gilliatt fez um movimento.

Era inexprimivel a tranquillidade do mar, tinha um murmurio de ama ao

pé do filho. As vagas pareciam embalar o escolho.

As aves marinhas que conheciam Gilliatt, voavam inquietas por sobre

elle. Já não era o medo selvagem do principio. Era um quê de terno e

fraternal. Soltavam pequenos guinchos. Pareciam chamal-o. Uma gaivota

que o amava sem duvida, teve a familiaridade de descer para junto

delle. Começou a fallar-lhe. Elle não parecia ouvil-a.

Ella saltou-lhe sobre o hombro e começou a brincar docemente com o bico

nos seus labios.

Gilliatt abrio os olhos.

Os passaros, alegres e ariscos, voaram.

Gilliatt levantou-se e espreguiçou-se como o leão acordando, correu á

bordo da plataforma e olhou para o intervallo das Douvres.

A _pança_ estava intacta. O batoque resistira; provavelmente o mar

maltratara-o pouco.

Tudo estava salvo.

Gilliatt já não estava cansado. Refizeram-se-lhe as forças. O desmaio

foi um somno.

Esvasiou a _pança_, poz a avaria fora da fluctuação, vestio-se, bebeu,

comeu, tornou-se alegre.

O buraco examinado de dia demandava mais trabalho de que Gilliatt

pensou. Era uma grande avaria. Gilliatt gastou o dia inteiro em

reparal-o.

No dia seguinte, de madrugada, depois de desfazer a tapagem e abrir

a sahida do estreito, vestido com os andrajos que tinham vencido a

avaria, tendo comsigo o cinto de Clubin e os setenta e cinco mil

francos, em pé na _pança_ concertada, ao lado da machina salva, com um

vento de feição e mar admiravel, Gilliatt sahia do escolho Douvres.

Aproou sobre Guernesey.

No momento em que se a affastava do escolho, alguem que lá estivesse

tel-o-hia ouvido entoar a meia voz a canção Bonny Dundee.

FIM DA SEGUNDA PARTE

TERCEIRA PARTE

Deruchette

LIVRO PRIMEIRO

Noite e lua

I

O SINO DO PORTO

O Saint-Sampson de hoje é quasi uma cidade; o Saint-Sampson de ha

quarenta annos era quasi uma aldêa.

Chegando á primavera, e acabadas as vigilias de inverno, deitavam-se

todos cedo. Saint-Sampson era uma antiga parochia de tocar a recolher,

tendo conservado o habito de apagar cedo as luzes. Os habitantes

deitavam-se e levantavam-se com o dia. As velhas aldêas normandas são

voluntariamente gallinheiros.

Digamos além disso que Saint-Sampson, á excepção de algumas ricas

familias burguezas, é uma população de pedreiros e carpinteiros. O

porto é um lugar de concertar navios. Durante o dia extrahem-se pedras

du trabalham-se pranchas; aqui a picareta, além o martello. Perpetuo

meneio de páu e granito. Á tarde tudo cahe de cançasso e dorme como

chumbo. Os rudes trabalhos fazem os duros somnos.

Uma noite dos principios de Maio, depois de ter por alguns instantes

contemplado o crescente da lua nas arvores e ouvido o passo de

Deruchette passeiando sozinha, ao fresco da noite, no jardim de

Bravées, mess Lethierry entrou para seu quarto situado sobre o porto

e deitou-se. Doce e Graça estavam na cama. Excepto Deruchette, tudo

dormia na casa. Portas e postigos estavam fechados. Ninguem andava nas

ruas. Raras luzes semelhantes ao piscar de olhos que vão fechar-se,

brilhavam aqui e alli nas janellas dos sotãos, annuncio do deitar dos

criados. Já nove horas tinham batido na velha torre romana, coberta

de hera, que partilha com a igreja de Saint-Brelade de Jersey, a

singularidade de ter por data quatro uns: 1111; o que significa _mil

cento e onze._

A popularidade de mess Lethierry em Saint-Sampson vinha do bom exito

da Durande. Acabado este, fez-se o vacuo. Parece que o enguiço pega, e

que as pessoas infelizes tem a peste comsigo, tão rapida é a quarentena

em que as mettem. Os lindos filhos-familias evitavam Deruchette. O

isolamento em roda da casa de Lethierry era tal que nem mesmo se

soube ahi o pequeno grande acontecimento local que nesse dia agitou

Saint-Sampson. O cura da parochia, o reverendo Joe Ebeneser Caudray

estava rico. O tio delle, o magnifico decano de Saint-Asaph, morrera

em Londres. A noticia foi trazida pelo sloop de posta _Cashmere_

chegado de Inglaterra nessa manhã, e cujo mastro via-se no porto de

Saint-Sampson. O _Cashmere_ devia voltar para Southampton no dia

seguinte ao meio dia, e dizia-se que devia levar o reverendo cura,

chamado á Inglaterra sem demora para a abertura official do testamento,

sem contar as outras urgencias de uma grande herança para recolher.

Durante o dia Saint-Sampson dialogou coufusamente. O _Cashmere_, o

reverendo Ebeneser, o tio morto, a riqueza, a partida, as promoções

possiveis no futuro, foram o fundo do borborinho. Só uma casa, que nada

sabia, ficara silenciosa, a de Lettierry.

Mess Lethierry atirou-se á maca vestido.

Depois da catastrophe da Durande, atirar-se á maca, era o recurso

delle. Deitar-se no grabato é o recurso do prisioneiro, e mess

Lethierry era prisioneiro da tristeza. Deitava-se; era uma tregoa,

um descanço, uma suspensão de idéas. Dormia? Não. Vellava? Não.

Propriamente fallando, havia dous mezes e meio,--já dous mezes e

meio,--mess Lethierry estava em somnambulismo. Não era ainda senhor

de si. Andava nesse estado mixto e diffuso que costumam ter os que

soffreram grandes abatimentos. As suas reflexões não eram pensamentos,

o seu somno não era repouso. De dia não era um homem acordado, de

noite não era um homem adormecido. Estava em pé, estava deitado, eis

tudo. Quando estava na maca, esquecia-se um pouco; a isso chamava elle

dormir; as chimeras flutuavam nelle e por sobre elle, a nuvem nocturna,

cheia de faces confusas, atravessava-lhe o cerebro; o imperador

Napoleão dictava-lhe as suas memorias, haviam muitas Deruchettes,

extranhos passaros pousavam nas arvores, as ruas de Lons-le-Saulnier

toruavam-se serpentes. O pesadelo era o descanço do desespero. Passava

as noites a sonhar e os dias a scismar.

Ás vezes ficava uma tarde inteira, immovel á janella do quarto que dava

para o porto, com a cabeça baixa, os cotovellos sobro o peitoril de

pedra, as orelhas nas mãos, as costas voltadas para o mundo inteiro, o

olhar fito na velha argola de ferro pregada no muro da casa a alguns

pés da janella, onde outrora amarrava a Durande. Contemplava a ferrugem

que invadia a argola.

Mess Lethierry estava reduzido á funcção machinal de viver.

Os homens mais valentes, privados da sua idéa realisavel, attingem a

isto. É esse o effeito das existencias esvasiadas. A vida é a viagem,

a idéa é o itinerario. Sem itinerario, pára-se. Perdido a alvo, morre

a força. A sorte é um obscuro poder descricionario. Póde bater com as

suas vergastas o nosso ser moral. O desespero é quasi a destituição da

alma. Só os grandes espiritos resistem. E ainda assim...

Mess Lethierry meditava contiuamente, se a absorpção pode chamar-se

meditação, no fundo de uma especie de precipicio turvo. Escapavam-lhe

palavras desoladas como estas: só me resta pedir ao céo o meu bilhete

de sahida.

Notemos uma contradição nesta natureza, complexa como o mar, de que

mess Lethierry era, por assim dizer, o producto; mess Lethierry não

resava.

Ser impotente é uma força. Diante das nossas duas grandes cegueiras, o

destino e a natureza, é na sua impotencia que o homem acha o ponto de

apoio, a oração.

O homem soccorre-se do proprio medo; pede auxilio ao pavor; a anciedade

aconselha o ajoelhar.

A oração, enorme força propria da alma, é da mesma especie que o

mysterio. A oração dirige-se á magnanimidade das trevas; a oração

contempla o mysterio com os olhos da sombra, e diante da fixidez

poderosa desse olhar supplice, sente-se um desarmamento possivel no

ignoto.

Essa possibilidade entrevista é já uma consolação.

Mas Lethierry não orava.

No tempo em que era feliz, Deos existia para elle, póde dizer-se que em

carne e osso; Lethierry fallava-lhe, dava-lhe a sua palavra, dava-lhe

quasi, de quando em quando, um aperto de mão. Mas no infortunio de

Lethierry, phenomeno aliás frequente, Deos eclypsava-se. Isto acontece

a quem imagina um Deos bonachão.

Não havia para Lethierry, no estado a que chegára, mais que uma visão

pura, o sorriso de Deruchette. Fora desse sorriso, tudo era negro.

Desde algum tempo, sem duvida por causa da perda da Durande, cujo

choque ella sentia, tornou-se raro o delicioso riso de Deruchette.

Parecia preoccupado. Extinguia-se-lhe a gentileza de passaro e de

criança. Já ninguem a via, ao tiro de peça da manhã, fazer uma cortezia

e dizer ao sol: «_bum!... jour!_... queira entrar.» Tinha ás vezes

um ar sério, cousa triste naquella doce creatura. Entretanto fazia

esforço para rir a mess Lethierry, e para distrahil-o, mas a sua

alegria apagava-se dia a dia, e cobria-se de poeira, como a aza de uma

borboleta que um alfinete atravessou. Accrescentemos que, seja porque

a tristeza do tio a fizesse triste, e ha dôres de reflexo, seja por

outras razões, ella parecia agora inclinar-se muito para a religião. No

tempo do antigo cura, Jaquemin Herodes, ella ia apenas quatro vezes á

igreja. Agora era muito assidua. Não faltava a officio algum, nem aos

domingos, nem ás quintas-feiras. As almas piedosas da parochia viam com

satisfação esta emenda. Porquanto, é uma grande ventura para uma moça,

que corre tantos perigos entre os homens, voltar-se para Deos.

Ao menos isto faz com que os paes fiquem tranquillos a respeito de

namoricos.

De noite, sempre que o tempo permittia, passeava no jardim, uma ou

duas horas. Andava quasi tão pensativa com mess Lethierry, e sempre

só. Deruchette deitava-se por ultimo. Mas isto não impedia que Graça e

Doce não a perdessem de vista, por esse instincto de espionar que anda

ligado á domesticidade; espionar desenfada de servir.

Quanto a mess Lethierry, no estado obscurecido em que se achava o

seu espirito, não percebia essas pequenas alterações nos habitos

de Deruchette. Demais, elle não nascera aio. Nem mesmo notava a

pontualidade de Deruchette aos officios da parochia. Tenaz no seu

preconceito contra as cousas e os homens do clero, teria visto sem

prazer essas frequencias á igreja.

Não é que a sua situação moral não estivesse em caminho de

modificar-se. O pesar é nuvem e muda de forma.

As almas robustas, como dissemos, são ás vezes, em certas desgraças,

distituidas quasi, mas não de todo. Os caracteres viris, taes como

Lethierry, reagem n'um tempo dado. O desespero tem grãos ascendentes.

Do acabrunhamento sobe-se ao abatimento, do abatimento á afflição, da

afllição á melancolia. A melancolia é um crepusculo. Ahi o soffrimento

funde-se em sombria alegria.

A melancolia é a ventura de ser triste.

Essas attenuações elegiacas não eram feitas para Lethierry; nem a

natureza do seu temperamento, nem o genero da sua desgraça, comportavam

essas variações. Sómente, no momento em que o encontramos, a scisma do

seu primeiro desespero tendia a dissipar-se; sem estar menos triste,

Lethierry estava menos inerte; continuava a estar sombrio, mas já não

estava amortecido; voltava-lhe uma certa percepção dos factos e dos

acontecimentos; e começava a sentir alguma cousa desse phenomeno que se

poderia chamar a entrada na realidade.

Assim que, de dia, na sala baixa, não escutava as palavras, mas

ouvia-as. Graça veio uma manhã triumphante dizer a Deruchette que mess

Lethierry rasgára o envolucro do seu jornal.

Esta meia aceitação da realidade é em si um bom symptoma. É a

convalescença. As grandes desgraças aturdem. Sahe-se do aturdimento por

aquelle modo. Mas essa melhora parece ao principio um aggravo. O estado

do sonho anterior embotava a dôr; antes via-se turvo, sentia-se pouco;

agora a vista é clara, não se escapa a cousa alguma, sangra-se por

tudo. Aviva-se a chaga. A dôr accentua-se com todos os pormenores que

se vêem. Revê-se tudo na memoria. Achar tudo, é lamentar tudo. Ha nesta

volta á realidade todas as provas amargas. Fica-se melhor e peior. É o

que Lethierry sentia. Soffria mais distinctamente.

O que trouxera mess Lethierry ao sentimento da realidade, foi um abalo.

Digamos qual foi elle.

Uma tarde, a 15 ou 20 de Abril, ouvio-se na porta da sala baixa as duas

pancadas que annunciavam o correio. Doce abrio a porta. Era uma carta.

Vinha do mar a carta. Era dirigida a mess Lethieny. Trazia o sello de

Lisboa.

Doce levou a carta a mess Lethierry que estava fechado no quarto. Elle

pegou na carta, pôl-a machinalmente na mesa, e nem olhou.

A carta ficou alli uma boa semana sem ser aberta.

Aconteceu, porém, que uma manhã Doce disse a mess Lethierry:

--Devo tirar a poeira de que está cheia a carta?

Lethierry pareceu accordar.

--Sim, disse elle.

E abrio a carta.

Leu isto:

«No mar, 10 de Março.

«Mess Lethierry, de Saint-Sampson.

«Receberá o senhor com prazer noticias minhas.

«Estou no _Tamaulipas_, em viagem para não voltar. Ha na equipagem

um marujo, Ahier-Tostevin, de Guernesey, que ha de voltar ahi, e que

lhe ha de contar alguma cousa. Aproveito o encontro do navio _Hernan

Cortez_, com destino a Lisboa, para mandar-lhe esta carta.

«Espante-se. Sou um homem honesto.

«Tão honesto como o Sr. Clubin.

«Devo crer que já sabe o que aconteceu; comtudo não será máo que lhe

lembre o caso.

«Eil-o:

«Restitui-lhe os seus capitaes.

«Tomei-lhe emprestados, um pouco incorrectamente, cincoenta mil

francos. Antes de deixar Saint-Malo, entreguei, para o senhor, ao seu

homem de confiança, o Sr. Clubin, tres notas do banco de mil libras

cada uma, o que faz setenta e cinco mil francos. Creio que ha de achar

esse reembolso sufficiente.

«O Sr. Clubin tratou dos seus interesses, e recebeu o seu dinheiro com

energia. Parece-me um homem zeloso; é por isso que o advirto.

«O seu homem de confiança,

«Rantaine.»

«_Post-scriptum._--O Sr. Clubin tinha um revolver, e foi por isso que

não tive recibo.»

Tocai um torpedo, tocai uma garrafa de Leyde carregada, e sentireis o

mesmo que sentio mess Lethierry lendo esta carta.

Os Trabalhadores do Mar · 第 24 / 28 段