e mais longe que a sciencia. Não os disseca, medita-os. Onde o
scalpello trabalhou, immerge a hypothese. Procura a causa final.
Profundo tormento de pensador. Essas creaturas o inquietam quasi
sobre o creador. São as sorprezas hediondas. São os perturbadores do
contemplativo. Elle as verifica desvairado. São as formas intencionaes
do mal. Que fazer diante dessas blasphemias da creação contra si
propria? A quem deve elle queixar-se?
O possivel é uma matriz formidavel. O mysterio concreta-se em monstros.
Lanhos de sombra sahem deste penedo,--a imminencia,--rasgam-se,
destacam-se, rolam, fluctuam, condensam-se, enchem-se do negrume
ambiente, recebem as polarisações desconhecidas, tomam vida, compõem
uma forma com a obscuridade e uma alma com o miasma, e vão-se, larvas,
atravez da vitalidade. É alguma cousa semelhante ás trevas feitas
animaes. Porque? para que? Volta a questão eterna.
Esses animaes são fantasmas e monstros, a um tempo. São provados e
improvaveis. Ser, é o facto, não ser, é o direito. São os amphibios
da morte. A sua inverosimilhança complica a sua existencia. Tocam
a fronteira humana e povoam o limite chimerico. Negaes o vampiro,
apparece a pieuvre. É uma certeza que desconcerta a nossa segurança.
O optimismo, que é a verdade, perde-se quasi diante delles. São a
extremidade visivel dos circulos negros. Marcam a transição da nossa
realidade a outra. Parecem pertencer a esse começo de entes terriveis
que o sonhador entrevê confusamente na noite.
Esses prolongamentos de monstros, no invisivel, no principio, no
possivel depois, foram suspeitados, vistos talvez, pelo extasis severo,
e pelo olhar fixo dos magos e dos philosophos. Dahi a conjectura de um
inferno. O demonio é o tigre do invisivel. A besta feroz das almas foi
denunciada ao genero humano por dous visionarios, um que se chama João,
outro que se chama Dante.
Se com offeito os circulos da sombra continuam indefinidamente, se
depois de um annel ha outro, se isto vai em progressão illimitada, se
existe a cadêa, de que estamos resolvidos a duvidar, é certo que a
pieuvre numa extremidade prova Satanaz na outra.
É certo que o mal n'um limite prova a maldade no outro.
Todo o animal feroz, como toda intelligencia perversa, é sphynge.
Sphynge terrivel, propondo o enigma terrivel. O enigma do mal.
Essa perfeição do mal é que faz inclinar ás vezes os grandes espiritos
para a crença do Deos duplo, para o tremendo bifronte dos manicheos.
Uma rede chineza, roubada na ultima guerra, no palacio do imperio
da China, representa o tubarão comendo o crocodilo, o qual come a
serpente, a qual come a aguia, a qual come a andorinha, a qual come a
lagarta.
Toda a natureza devora ou é devorada. As prezas mastigam-se umas ás
outras.
Entretanto os sabios que tambem são philosophos, e por consequencia
benevolos para a creação acham ou acreditam achar a explicação disto. O
fim destas cousas apparece, entre outros, a Bonnet de Genebra, aquelle
mysterioso espirito exacto, que foi opposto a Buffon, como mais tarde
Geoffroy Saint-Hilaire o foi a Cuvier. A explicação dizem ser esta: a
morte exige a inhumação. Esses vorazes são coveiros.
Todas as creaturas entram umas nas outras. Podridão é alimentação.
Assustadora limpeza do globo. O homem, carnivoro, também é coveiro. A
nossa vida é feita de morte. Tal é a lei terrifica. Somos sepulchros.
No nosso mundo crepuscular, esta fatalidade da ordem produz monstros.
Perguntais: Porque? É por isto.
Será isto a explicação? Será esta a resposta? Mas então porque não será
outra a ordem? Reapparece a questão.
Vivamos, seja.
Mas façamos com que a morte nos seja progresso. Aspiremos aos mundos
menos tenebrosos.
Sigamos a consciencia que nos leva para lá.
Porquanto, não o esqueçamos nunca, o preferivel só é achado pelo melhor.
III
OUTRA FORMA DE COMBATE NO ABYSMO
Tal era o animal a quem, desde alguns instantes, Gilliatt pertencia.
Aquelle monstro era o habitante daquella grota. Era o medonho genio do
lugar. Especie de sombrio demonio da agua.
Todas essas magnificencias tinham por centro o horror.
Um mez antes, no dia em que pela primeira vez Gilliatt penetrou na
caverna, a fórma escura, entrevista por este nas dobras da agua
secreta, era aquella pieuvre.
Estava ella em sua casa.
Quando Gilliatt entrando pela segunda vez na caverna, em busca do
carangueijo, vio o buraco onde pensou que o carangueijo se tivesse
refugiado, a pieuvre estava no seu buraco á espreita.
Póde-se imaginar esta espera?
Nenhum passaro ousaria chocar, nenhum ovo ousaria abrir, nenhuma flôr
ousaria desabrochar, nenhum seio ousaria aleitar, nenhum coração
ousaria amar, nenhum espirito ousaria voar, se se pensasse nas
sinistras emboscadas do abysmo.
Gilliatt mettêra o braço no buraco; a pieuvre agarrou-o.
Gilliatt estava preso.
Era a mosca daquella aranha.
Gilliatt tinha agua até á cintura, os pés agarrados nos seixos
arredondados e resvaladiços, com o braço direito atado pelas corrêas da
pieuvre, e o tronco do corpo desapparecendo quasi debaixo das dobras e
crusamentos daquella atadura horrivel.
Dos oito braços da pieuvre, tres adheriam á rocha, cinco adheriam
a Gilliatt. Deste modo agarrados ao granito por um lado e ao homem
pelo outro, encadeava Gilliatt ao rochedo. Gilliatt tinha em si
duzentos e cincoenta chupadores. Complicação de angustia e de enjôo.
Estava apertado dentro de uma grande mão, cujos dedos elasticos e do
comprimento de um metro, são inteiramente cheios de pustulas vivas que
lhe foçavam na carne.
Já o dissemos, não se pode arrancar a pieuvre. Quem o tenta, fica
mais fortemente amarrado. Ella aperta-se mais. O seu esforço cresce
na razão do esforço do homem. Quanto maior é a sacudidella, maior é a
constricção.
Gilliatt só tinha um recurso, a faca.
Tinha a mão esquerda livre; é sabido que elle usava della
poderosamente. Podia dizer-se que tinha duas mãos direitas.
Nessa mão, tinha elle a faca aberta.
Não se cortam as antennas da pieuvre; é um couro impossivel de cortar,
resvala debaixo da lamina; demais a superposição é tal que um córte
nessas corrêas iria até á carne.
O polvo é formidavel, ha comtudo uma maneira de vencê-lo. Os pescadores
de Serk o sabem; quem os vio executar no mar certos movimentos bruscos,
tambem o sabe. Os ouriços do mar tambem conhecem esse modo; têm uma
maneira de morder a siba que lhe córta a cabeça. Dahi vem que se
encontram muitas sibas e pieuvres sem cabeça no mar alto.
O polvo, na verdade, só é vulneravel na cabeça.
Gilliatt não o ignorava.
Nunca tinha visto uma pieuvre daquelle tamanho. Logo da primeira vez,
achava-se agarrado pela grande especie. Qualquer outro ter-se-hia
perturbado.
Ha um momento para vencer a pieuvre, como o touro; é o instante em que
o touro curva o pescoço, é o instante em que a pieuvre estica a cabeça;
instante rapido. Quem o deixa escapar está perdido.
Tudo o que acabamos de dizer passou-se em alguns minutos. Gilliatt
sentia crescer a sucção das duzentas e cincoenta ventosas.
A pieuvre é traidora. Procura apavorar a presa. Agarra, e espera o mais
que póde.
Gilliatt tinha a faca na mão. As sucções augmentavam.
Elle olhava para a pieuvre, a pieuvre olhava para elle.
De repente o bicho desprendeu do rochedo a sexta antenna e atirando-a
sobre Gilliatt procurou agarra-lhe o braço esquerdo.
Ao mesmo tempo esticou vivamente a cabeça. Mais um segundo, e a sua
boca applicar-se-hia sobre o peito de Gilliatt. Gilliatt sangrado no
corpo e preso pelos braços, estava morto.
Mas Gilliatt vigiava. Espreitado, espreitava.
Evitou a antenna, e no momento em que o bicho ia agarrar-lhe o peito, a
sua mão armada abateu-se sobre o bicho.
Houve duas convulsões em sentido inverso, a da pieuvre e a de Gilliatt.
Foi luta de dous relampagos.
Gilliatt mergulhou a ponta da faca na viscosidade chata e com um
movimento giratorio semelhante á torção de uma chicotada, fazendo um
circulo á roda dos dous olhos arrancou a cabeça como quem arranca um
dente.
Estava acabado.
O bicho cahio.
Parecia uma roupa que se desprende. Destruida a bomba aspirante,
desfez-se o vacuo. As quatrocentas ventosas largaram ao mesmo tempo o
rochedo e o homem. Aquelle andrajo foi ao fundo d'agua.
Gilliatt, offegante da luta, pôde vêr a seus pés em cima das pedras do
fundo dous montes gelatinosos e informes, a cabeça de um lado, o resto
de outro. Dizemos resto, porque não se poderia dizer corpo.
Gilliatt, com tudo, receiando algum ataque convulsivo da agonia
collocou-se fóra do alcance dos tentaculos.
Mas o animal estava bem morto. Gilliatt fechou a faca.
IV
NADA SE ESCONDE, NADA SE PERDE
Era tempo de matar a pieuvre. Gilliatt estava quasi sem folego; tinha
o braço direito e o corpo rôxos; esboçavam-se nelles mais de duzentos
tumores; alguns vertiam sangue. O remedio para essas lesões é a agua
salgada; Gilliatt mergulhou n'agua. Ao mesmo tempo esfregava-se com a
palma da mão e os tumores desappareciam.
Recuando e mergulhando n'agua, achou-se elle proximo da especie de cava
que ficava ao pé do buraco onde a pieuvre o agarrou.
A cava prolongava-se obliquamente, e a secco, debaixo das grandes
paredes da caverna. Os seixos que alli se tinham ajuntado levantavam o
fundo acima das marés ordinarias. Essa anfractuosidade, era um largo
cimbrio abatido, um homem podia entrar curvando-se. A claridade verde
da caverna penetrava ahi e illuminava-a fracamente.
Aconteceu que, esfregando a pelle entumecida, Gilliatt levantou
machinalmente os olhos.
Olhou para dentro da cava.
Estremeceu.
Pareceu-lhe vêr no fundo desse buraco, na sombra, uma especie de cara
rindo.
Gilliatt ignorava a palavra allucinação, mas conhecia a cousa. Os
mysteriosos encontros com o inverosimil que chamamos allucinações,
existem na natureza. Illusões ou realidades, as visões apparecem. Quem
está presente, vê-as passar. Gilliatt, como dissemos, era um pensativo.
Tinha a grandeza de ser ás vezes allucinado como um propheta. Não se é
impunemente sonhador dos lugares solitarios.
Acreditou em uma dessa miragens das quaes, homem nocturno como era,
mais de uma vez teve medo.
A anfractuosidade figurava exactamente um forno de cal. Era um nicho
baixo, em fórma de asa de cesto, cujas curvaturas abruptas iam
extreitando-se até á extremidade da crypta onde os seixos e a abobada
se juntavam e fechavam.
Gilliatt entrou, e inclinando a cabeça, dirigio-se para o que estava no
fundo.
Era com effeito alguma cousa que ria.
Era uma caveira.
Só havia a cabeça, havia o esqueleto.
Um esqueleto humano estava deitado na cava.
O olhar de um homem audaz, em taes occasiões, quer saber das cousas a
fundo.
Gilliatt olhou em roda de si.
Estava cercado de uma porção de carangueijos.
Não se mexiam elles. Era o aspecto de um formigueiro morto. Todos os
carangueijos estavam mortos. Estavam vasios.
Os grupos, semeados, faziam no chão de seixos que enchiam a cava,
constellações disformes.
Gilliatt, com o olhar fito em outra parte, caminhára por cima sem
reparar.
Na extremidade da crypta onde chegára Gilliatt, havia maior espessura.
Era um montão immovel de antennas, de patas, e de mandibulas. Pinças
abertas conservavam-se direitas, e já se não fechavam. As caixas de
ossos não se mechiam debaixo da sua crosta de espinhos; algumas viradas
mostravam o interior livido. Este amontoado parecia uma multidão de
sitiantes e tinha o entravamento de um espinheiro.
Debaixo desse montão estava o esqueleto.
Via-se debaixo dessa porção de tentaculos e escamas, o craneo com as
estrias, as vertebras, os femures, os tibias, os longos dedos nodosos,
com unhas. As costellas estavam cheias de caranguejos. Tinha palpitado
alli algum coração. Os buracos dos olhos estavam atopetados de bolor
marinho. Algumas conchas tinham deixado a sua baba nas fossas nasaes.
Não havia nesse recanto da caverna nem sargaços, nem hervas, nem sopro
de ar. Nenhum movimento. Os dentes riam.
O lado assustador do riso, é a imitação que faz delle uma caveira.
Aquelle maravilhoso palacio do abysmo, bordado e incrustado de todas
as pedrarias do mar, revellava por fim o seu segredo. Era um covil, a
pieuvre morava ahi; e era uma tumba, ahi jazia um homem.
A immobilidade espectral do esquelleto, e dos molluscos oscilavam
vagamente, por causa da reverberação das aguas subterraneas que tremia
naquella petrificação. Os carangueijos, mistura medonha, pareciam
ter acabado a sua refeição. Aquellas cascas pareciam comer aquelle
esqueleto. Nada mais estranho do que aquella bicharia morta, sobre
aquelle homem finado Sombrias continuações da morte.
Gilliatt tinha diante de si, o armario da pieuvre.
Visão lugubre, donde surgia o horror profundo das cousas. Os
carangueijos tinham comido o homem, a pieuvre tinha comido os
carangueijos.
Não havia nenhum resto de roupa ao pé do cadaver. O homem devia ter
sido agarrado nú.
Gilliatt attento e examinando, começou a tirar os carangueijos de
cima do homem. Quem era esse homem? O cadaver estava admiravelmente
dissecado. Dissera-se uma preparação de anatomia; toda a carne estava
eliminada; já não restava nenhum musculo. Se Gilliatt fosse do officio
reconheceria isso. Os periostios estavam brancos, polidos e como que
lustrados. Sem alguns filamentos verdes que apareciam aqui e alli,
seria marfim puro. As divisões cartilaginosas, estavam delicadamente
affiladas. A tumba faz essas joalherias sinistras.
O cadaver estava como que enterrado debaixo de carangueijos mortos.
Gilliatt desenterrava-o.
De repente inclinou-se vivamente.
Acabava de vêr á roda da columna vertebral, uma especie de atilho.
Era um cinto de couro, que evidentemente fôra atado ao ventre do homem
antes de morrer.
O couro estava cheio de mofo. A fivella estava enferrujada.
Gilliatt puchou o cinto; as vertebras resistiram, e Gilliatt teve de
quebral-as, para tirar o cinto. O cinto estava intacto. Começava a
formar-se nelle uma crosta de conchas.
Gilliatt apalpou o cinto, e sentio um objecto duro de fórma quadrada no
interior. Não era possivel abrir a fivella. Gilliatt cortou o couro com
a faca.
O cinto continha uma caixinha de ferro, e algumas moedas de ouro.
Gilliatt contou vinte guinéos.
A caixinha era uma velha boceta de marinheiro, abrindo-se por mola.
Estava muito enferrujada. A mola completamente oxidada já não
funccionava.
A faca veio em auxilio de Gilliatt. Com a ponta da lamina, fez elle
pular a tampa da boceta.
A boceta abrio-se.
Só havia papel dentro della.
Um macinho de folhas finas, dobradas em quatro, estava no fundo da
boceta. Estavam humidos, mas não alterados. A boceta hermeticamente
fechada preservou-as. Gilliatt abrio-as.
Eram tres notas do banco de mil libras esterlinas cada uma, formando
uma somma de setenta e cinco mil francos.
Gilliatt dobrou-as, pol-as na caixinha, aproveitou o pouco lugar que
restava para deitar dentro os vinte guinéos, e fechou a caixinha o
melhor que pôde.
Depois examinou o cinto.
O couro, outr'ora envernisado pela parte de fora, não o era no
interior. Ahi estavam traçadas algumas letras com tinta gordurosa.
Gilliatt decifrou as letras e leu: _Sr. Clubin._
V
HA LUGAR PARA ALOJAR-SE A MORTE NO INTERVALLO QUE SEPARA SEIS
POLLEGADAS DE DOUS PÉS
Gilliatt metteu outra vez a caixinha no cinto, e poz o cinto na
algibeira da calça.
Deixou o esqueleto aos carangueijos com a pieuvre morta ao pé.
Emquanto Gilliat esteve com a pieuvre e o esqueleto, a maré enchente
tinha tapado o bocal da entrada. Gilliatt só pôde sahir mergulhando por
baixo do arco. Foi-lhe facil; conhecia a sahida, e era mestre nessas
gymnasticas do mar.
Advinha-se o drama que se passára alli dez semanas antes. Um monstro
agarrára o outro. A pieuvre agarrára Clubin.
Foi isso, na sombra inexoravel, o que se poderia chamar o encontro
das hypocrisias. Houve no fundo do abysmo, um embate dessas duas
existencias feitas de emboscada e de trevas, e uma, que era a besta,
executou a outra, que era a alma. Sinistras justiças.
O carangueijo alimenta-se da carne morta, a pieuvre alimenta-se de
carangueijos. A pieuvre apanha um animal que nada, uma lontra, um
cão, um homem se póde, bebe-lhe o sangue, e deixa no fundo d'agua o
corpo morto. Os carangueijos são os escaravelhos necrophoros do mar.
Attrahe-os a carne putrida; elles approximam-se, comem o cadaver; a
pieuvre os come depois. As cousas mortas desapparecem no carangueijo, o
carangueijo desapparece na pieuvre. Já indicamos esta lei.
Clubin foi o engodo da pieuvre.
A pieuvre reteve-o e affogou-o; os carangueijos o devoraram. Alguma
vaga o levou para aquella cava, no fundo da anfractuosidade onde
Gilliatt o achou.
Gilliatt voltou, procurando nos rochedos outra cousa que não fosse
carangueijos. Parecer-lhe-hia comer carne humana.
Demais, elle tratava de cear o melhor possivel antes de partir. Já
nada o retinha no rochedo. As grandes tempestades são sempre seguidas
de uma calma que dura muitos dias ás vezes. Nenhum perigo havia ainda
quanto ao mar. Gilliatt estava resolvido a partir no dia seguinte de
manhã. Era conveniente conservar durante a noite, por causa da maré, o
tapamento ajustado entre as Douvres; mas Gilliatt contava desfazer de
madrugada essa tapagem, empurrar a _pança_ para fora, e abrir vela para
Saint-Sampson. A brisa de calma que soprava, e que era sudoeste, era
exactamente o vento que lhe era preciso.
Entrava o primeiro quarto de lua de Maio; os dias eram longos.
Quando Gilliatt, terminada a pesquiza dos rochedos e mais ou menos
satisfeito do estomago, voltou para a garganta das Douvres, onde estava
a _pança_, já o sol cahira no poente, e o crepusculo redobrava com
aquelle meio luar que se póde chamar o luar do crescente; a maré, que
tinha enchido completamente, começava a vasar. O cano da machina de pé
acima da _pança_ estava coberto pela espuma da tempestade de uma camada
de sal que a lua embranquecia.
Isto lembrou a Gilliatt que a tempestade deitára dentro da _pança_
muita agua de chuva e do mar, e que, se quizesse partir no dia
seguinte, era preciso esvasiar a barca.
Tinha verificado, ao deixar a _pança_ para ir procurar carangueijos
que havia cerca de seis pollegadas de agua no porão. A pá de esgoto
bastaria para deitar essa agua fóra.
Chegando á _pança_, Gilliatt teve um movimento de terror. Havia na
_pança_ perto de dous pés de agua.
Incidente terrivel, a _pança_ fazia agua.
Enchera-se pouco a pouco durante a ausencia de Gilliatt. Carregada
como estava, vinte polegadas de agua era sobre posse. Mais um pouco e
a _pança_ iria a pique. Se Gilliatt chegasse uma hora mais tarde, só
acharia fóra d'agua o casco e o mastro.
Não podia perder um minuto em deliberação.
Era preciso procurar o buraco, tapa-lo, depois esvasiar a barca, ou ao
menos allivia-la. As bombas da Durande tinham-se perdido no naufragio;
Gilliat estava reduzido á pá de esgoto.
Procurar o buraco, antes de tudo. Era o mais urgente.
Gilliatt poz mãos á obra, sem mesmo dar-se tempo de vestir, e todo
tremulo. Já não sentia fome, nem frio.
A _pança_ continuava a encher. Felizmente não havia vento. O menor
abalo da onda metteria a _pança_ a pique.
A lua desapparecera.
Gilliatt, ás apalpadelas, curvado, mergulhado mais de metade na agua,
levou muito tempo na pesquisa. Afinal encontrou a avaria.
Durante a tempestade, no momento critico em que a _pança_ se arqueára,
robusta barca tinha batido violentamente contra o rochedo. Um dos
relevos da pequena Douvre fizera-lhe uma fractura no casco, a estibordo.
Este buraco estava infelizmente, podia-se quasi dizer perfidamente,
situado perto do ponto do encontro das duas porcas, o que, junto ao
aturdimento da tempestade, impedira Gilliatt, na revista obscura e
rapida que fizera, com o temporal, de descobrir o estrago.
A fractura assustava, porque era larga, e tranquillisava porque, embora
immersa neste momento pela enchente interna da agua, ficava acima do
lume d'agua.
No momento em que rompeu o buraco, a vaga era loucamente sacudida
no estreito, e já não havia nivel de fluctuação, a onda penetrára
pela effracção na _pança_; a _pança_ com mais essa carga mergulhou
algumas polegadas, e, mesmo depois do apaziguamento das vagas, o peso
do liquido filtrado, fazendo levantar a linha de fluctuação, manteve
o buraco debaixo d'agua. Dahi vinha a imminencia do perigo. A cheia
augmentára de seis pollegadas a vinte. Mas conseguindo tapar o buraco,
podia-se esvasiar a _pança_; esvasiada a _pança_, voltaria á fluctuação
normal, a fractura sahiria d'agua, e a secco, a reparação seria facil,
ou ao menos possivel. Gilliatt, como dissemos, tinha ainda a ferramenta
de carpinteria em bom estado.
Mas quantas incertezas antes de chegar a isso! Quantos perigos! Quantas
más probabilidades! Gilliatt ouvia a agua correr inexoravelmente. Um
empuchão e tudo iria a pique. Que desgraça! Talvez já não fosse tempo.
Gilliatt accusou-se amargamente. Deveria ter visto a avaria. As seis
polegadas d'agua no porão deviam têl-o advertido. Foi estupidez
attribuir as seis pollegadas d'agua á chuva e á espuma. Exprobrou-se
o ter dormido e o ter comido; exprobrou-se a fadiga, e quasi também a
tempestade e a noite. Tudo era culpa delle.
Essas cousas duras, que elle dizia a si proprio, iam de envolta com o
vai-vem do trabalho e não o impediam de observar.
Achar o buraco ora o primeiro passo; tapal-o era o segundo. Não se
podia mais agora. Não se faz carpintaria debaixo d'agua.
Havia uma circumstancia favoravel, era que o buraco do casco foi
aberto no espaço comprehendido entre as duas correntes que prendiam
a estibordo o cano da machina. A estopa podia prender-se a essas
correntes.
Entretanto a agua subia. Já passava de dous pés.
Gilliatt tinha agua acima dos joelhos.
VI
_DE PROFUNDIS AD ALTUM_
Gilliatt tinha á sua disposição, na reserva do apparelho da _pança_,
um grande panno alcatroado com as competentes cordas longas nas quatro
pontas.
Pegou nesse panno, amarrou dous cantos pelos cabos ás duas argolas
das correntes do cano do lado do buraco, e atirou o panno por cima da
borda. O panno cahio como uma toalha entre a pequena Douvre e a barca,
e mergulhou. A agua querendo entrar na pança applicou o panno ao casco
sobre o buraco. Quanto mais a agua batia, mas adheria o panno. Foi
collocado pela vaga sobre a fractura. A chaga da barca estava pençada.
A lona alcatroada interpunha-se entre o interior do porão e as vagas de
fóra. Jã não entrava nem gotta d'agua se quer.
O buraco estava tapado, mas não estopado.
Era uma espera.
Gilliatt começou a esvasiar a _pança._ Era tempo de allivia-la. O
trabalho aqueceu-o um pouco, mas extrema era a fadiga. Gilliatt
confessava que não iria ao fim, e não chegaria a estancar o porão.
Gilliatt comera muito pouco, e tinha a humilhação de sentir-se
extenuado.
Media o progresso dos trabalhos pela baixa do nivel da agua nos seus
joelhos. A descida era lenta.
Além disso a entrada da agua estava apenas interrompida. O mal estava
palliado, mas não reparado. O panno, empurrado na fractura pela vaga,
começava a fazer um tumor pelo lado de dentro. Parecia que havia
uma mão fechada debaixo do panno, procurando romper o buraco. A
lona, solida e alcatroada, resistia; mas o inchamento e a tensão iam
augmentando; não era certo que o panno não cedesse, e de um momento
para outro o tumor poderia romper. Recomeçaria então a irrupção da agua.
Em tal caso, as equipagens em perigo o sabem, não ha outro recurso mais
que um batoque. Apanham-se trapos de toda a especie, o que se acha á
mão, tudo quanto a lingua especial chama _forro_, e mete-se o mais que
se póde na fenda do tumor da lona.
Desse _forro_ Gilliatt não tinha nenhum. Todos os pannos e estopas
armazenados foram empregados no trabalho ou dispersos pelo vento.