fez-se horrivel. A convulsão do mar reproduzio-se no céo. A nuvem até
então fôra soberana, parecia executar a sua vontade, dava o impulso,
derramava ás vagas a loucura, conservando sempre uma lucidez sinistra.
Em baixo havia demencia, em cima colera. O céo era o sopro, o oceano
era apenas a espuma. Dahi vem a autoridade do vento. O furacão é genio.
Entretanto a embriaguez de seu proprio horror tinha-o perturbado. Agora
era o turbilhão. Era a cegueira produzindo a noite. Ha nos temporaes
um momento insensato; é para o céo uma especie de sangue que sobe á
cabeça. O abysmo já não sabe o que faz. Fulmina ás apalpadellas.
Nada mais horrendo. É a hora hedionda. Chegara ao cumulo o tremor do
escolho. A tempestade tem um plano mysterioso; mas nesse instante
perde-o. É a má hora da tempestade. Nesse instante, o _vento_,
dizia Thomas Fuller, _é um doido furioso._ É nesse instante, que as
tempestades fazem essa despeza continua de electricidade que Piddington
chama a _cascata de relampagos._ É nesse instante, que apparece nas
nuvens mais negras, não se sabe porque e como que para espiar o terror
universal aquelle circulo azul que os velhos marinheiros hespanhóes
chamavam o olho da tempestade, _el ojo de la tempestad._ Esse olho
lugubre fitava Gilliatt.
Gilliatt de seu lado contemplava a nuvem. Levantou a cabeça. Dava uma
machadada e levantava-se altivo. Estava, ou parecia estar demasiado
perdido, para que não tivesse orgulho. Desesperava? Não. Ante o
supremo accesso de raiva do oceano, Gilliatt era tão prudente quanto
audaz. Em cima do casco, só pisava o ponto solido. Arriscava-se e
preservava-se. Tambem elle chegára ao paroxismo. Decuplou-se-lhe o
vigor. Estava desvairado de intrepidez. Os golpes de machado soavam
como desafios. Parecia ter ganho o que tinha perdido a tempesdade.
Conflicto pathetico. De um lado o inesgotavel, do outro o infatigavel.
Estavam a ver qual dos dous venceria. As nuvens terriveis modelavam
na immensidade mascaras de gorgonas, produzia-se toda a intimidação
possivel, a chuva surgia das vagas, a espuma tombava das nuvens,
curvavam-se os fantasmas dos ventos, faces de meteóro avermelhavam-se e
eclypsavam-se, e a obscuridade, apoz tantos desmaios, era monstruosa;
havia um só derramamento, vindo por todos os lados ao mesmo tempo;
tudo era ebulição; a sombra em massa transbordava; cumulus carregados
de graniso, esfarelados, côr de cinza, pareciam andar num frenezim
giratorio, havia no ar um rumor de grãos seccos, sacudidos n'uma
peneira, as eletricidades inversas observadas por Volta faziam de
nuvem em nuvem os fulminantes disparos, os prolongamentos do raio
eram terrificos, os relampagos aproximava-se em torno de Gilliatt. O
abysmo parecia espantado. Gilliatt andava na Durande fazendo tremer o
tombadilho debaixo dos pés, batendo, cortando, rachando, machado em
punho, livido diante dos relampagos, esguedelhado, descalço, rôto, com
a face coberta dos escarros do mar, grande naquella sentina de trovões.
Contra o delirio das forças, só a destreza póde luctar. A destreza
era o triumpho de Gilliatt. Elle queria uma queda de todo o
destroço deslocado. Por isso enfraqueceu as fracturas sem rompel-as
completamente, deixando algumas fibras que sustentavam o resto.
Subitamente parou com o machado no ar, a operação estava acabada. Todo
o pedaço destacou-se.
Essa metade do casco rolou entre as duas Douvres abaixo de Gilliatt,
que ficou em pé n'outra metade inclinado e olhando; mergulhou-se
perpendicularmente, arrombou os rochedos e parou na garganta antes
de chegar ao fundo. Ficou uma parte fora d'agua, tanto quanto era
sufficiente para dominar a onda mais de doze pés; foi mais uma
barricada entre as duas Douvres; bem como a rocha atirada no estreito,
deixava apenas filtrar um pouco de espuma nas suas extremidades, e foi
essa a quinta barricada improvisada por Gilliatt, contra a tempestade,
naquella rua do mar.
O furacão, cégo, trabalhava a ultima.
Foi uma felicidade que o angustiado das paredes internas impedisse de
ir ao fundo aquella tapagem. Dava-lhe mais altura; demais a agua podia
passar por baixo do obstaculo, o que affectava a força das ondas.
Aquillo que passa por baixo não salta por cima. É esse em parte o
segredo de quebra-mar fluctuante.
De ora ávante, houvesse o que houvesse, já não havia que receiar nem
quanto á _pança_, nem quanto á machina. A agua já não podia agitar-se
a roda dellas. Entre a tapagem das Douvres que as cobria a oeste, e o
navio, tapamento que as protegia a leste, nenhuma onda, nenhum vento
poderia attingil-as.
Gilliatt tirára da catastrophe a salvação. Ajudára-o a tempestade.
Feito isto apanhou um punhado de agua da chuva, bebeu e disse á nuvem:
Cantaro!
É uma alegria ironica para a intelligencia combatente attestar a vasta
estupidez das forças furiosas concluindo por prestar serviços, e
Gilliatt sentio essa immemorial necessidade de insultar o inimigo, que
remonta aos heróes de Homero.
Gilliatt desceu á _pança_ e aproveitou os relampagos para examinal-a.
Era tempo que a pobre barquinha fosse soccorrida; tinha sido muito
sacudida e começava a arquear. Gilliatt, com aquelle olhar summario,
não vio nenhuma avaria. Comtudo, era certo que ella devia ter recebido
violentos choques. Acalmada a agua, endireitou o casco; as ancoras
portaram-se bem; quanto á machina, as quatro correntes mantiveram-n'a
admiravelmente.
Quando Gilliatt acabava a revista, uma cousa branca passou por elle e
margulhou na sombra. Era uma gaivota.
Não ha melhor apparição nas tempestades. Quando os passaros chegam, é
que a tempestade vae-se embora.
Outro signal excellente, o trovão redobrava.
As supremas violencias da tempestade desorganisam-n'a. Todos os
marinheiros o sabem, a ultima prova é rude, mas curta. O excesso do
raio annuncia-lhe o fim.
A chuva parou repentinamente. Depois houve apenas um ruido nas nuvens.
O temporal cessou como uma prancha que cahe no chão. Quebrou-se por
assim dizer. Desfez-se a immensa machina das nuvens. Uma fenda de céo
claro disjungio as trevas. Gilliatt ficou espantado; era dia claro.
A tempestade durára quasi vinte horas.
O vento que a trouxera levou-a. Um desabamento de escuridão depressa
encheu o horisonte. As brumas rotas e fugitivas amontoaram-se em
tumulto, houve de uma ponta á outra da linha do horisonte um movimento
de retirada, ouvio-se um longo rumor decrescente, cahiram algumas gotas
ultimas de chuva, e toda aquella sombra cheia de trovões foi-se como
uma turba de carros terriveis.
Bruscamente fez-se azul o céo.
Gilliatt reparou que estava cançado. O somno abate-se sobre a fadiga
como uma ave de rapina. Gilliatt deixou-se cahir na barca sem escolher
lugar e dormio. Ficou assim algumas horas inerte e estendido, pouco
distincto das pranchas e barrotes entre os quaes adormecera.
LIVRO QUARTO
O forro do obstaculo
I
QUEM TEM FOME ACHA MAIS QUEM TENHA
Quando Gilliatt acordou teve fome.
Acalmava-se o mar. Havia porém alguma agitação ao largo, que impedia a
partida immediata. Demais o dia já estava adiantado. Com o carregamento
da _pança_, para chegar a Guernesey antes de meia noite, era preciso
sahir de manhã.
Embora a fome urgisse, Gilliatt começou por despir-se, unico meio de
aquecer-se.
As roupas estavam molhadas da chuva, mas a agua da chuva lavára a agua
do mar, o que fez com que agora podessem sêccar as roupas.
Gilliatt apenas ficou com as calças, que arregaçou até os joelhos.
Estendeu, com pesos em cima, nas saliencias do rochedo, todo o resto da
roupa.
Depois pensou em comer.
Gilliatt recorreu á faca que teve o cuidado de afiar e tel-a em bom
estado, e arrancou do granito alguns mariscos. Comeu-os crús. Mas
depois de tantos trabalhos, fraca era a pitança. Já não tinha biscouto.
Quanto á agua, não lhe faltava. Estava mais que saciado, estava
innundado.
Aproveitou a vasante para perlustrar os rochedos á cata de lagostas. Já
havia muita rocha descoberta; podia apanhar boa caça.
Sómente não reflectia elle que já não podia cozer peixe algum. Se
tivesse de ir ao deposito veria tudo derrubado pela chuva. O pão e o
carvão estavam encharcados, e da provisão de estopa, que lhe servia de
isca, não tinha um fio que não estivesse molhado. Não havia meio de
saccar fogo.
De resto, o folles estava desorganisado; a tempestade saqueou-lhe o
laboratorio. Com o resto da ferramenta, Gilliatt, a rigor, podia ainda
trabalhar de carpinteiro, não de forja. Mas Gilliatt, naquelle momento
não pensava na officina.
Empuxado pelo estomago, sem mais reflexão, entrou a procurar comida.
Errava, não na garganta do escolho, mas fóra, nas dobras dos cachopos.
Foi desse lado que a Durande, dez semanas antes, esbarrára nas pedras.
Para a caça que Gilliatt fazia, o exterior da viella valia mais que o
interior. Os carangueijos, nas aguas baixas, tem costume de tomar ar.
Aquecem-se ao sol. Amam o sol aquelles entes disformes. É uma cousa
estranha a sahida delles em plena luz. Quasi indigna-se a gente com
elles. Quando os vemos, com o seu aspecto obliquo, subir pesadamente,
um por um, os andares inferiores dos rochedos como degráos de uma
escada, acreditamos por força que o oceano tambem tem os seus piolhos.
Desses piolhos vivia Gilliatt ha dous mezes.
Comtudo nesse dia os carangueijos e as lagostas andavam escondidos. A
tempestade empurrára aquelles solitarios para os seus esconderijos, e
ainda não se animavam a sahir. Gilliatt tinha na mão a faca aberta,
e arrancava de quando em quando uma concha debaixo do sargaço. Comia
andando.
Não devia estar longe do lugar onde se perdera o Sr. Clubin.
Quando Gilliatt já se resignara aos ouriços e castanhas do mar, fez-se
um movimento a seus pés. Um grande carangueijo, assustado com a
presença delle tinha pulado na agua. O carangueijo não mergulhou tanto
que Gilliatt não o visse.
Gilliatt começou a correr atraz do carangueijo no esvasamento da rocha.
O carangueijo fugia.
De repente não vio mais nada.
O carangueijo mettera-se por algum buracco debaixo do rochedo.
Gilliatt atracou-se aos relevos da pedra e esticou o pescoço para ver
se via alguma cousa.
Havia com effeito uma anfractuosidade. O carangueijo devia ter-se
refugiado ahi.
Era mais que uma fenda, era um portico.
O mar entrava por baixo desse portico, mas não era profundo. Via-se
o fundo coberto de pedrinhas. Essas pedrinhas eram esverdeadas e
revestidas de filamentos, o que indicava que nunca estavam a secco.
Assemelhavam-se a cabeças de criança com cabellos verdes.
Gilliatt pôz a faca nos dentes, desceu do alto da rocha e saltou na
agua. Teve agua quasi até os hombros. Metteu-se pelo portico. Achou-se
num corredor gasto, com um esboço de abobada ogiva por cima. As paredes
eram polidas e lizas. Já não via o carangueijo. Tomára pé. Caminhava e
dimimuia-se a luz. Começou a não vêr cousa alguma.
Depois de quinze passos, cessou a abobada. Estava fóra do corredor.
Havia mais espaço, e por consequencia mais luz; as pupillas
tinham-se-lhe dilatado; via bem. Teve uma surpresa.
Acabava de entrar naquella cava estranha visitada por elle um mez antes.
Sómente, desta vez entrou pelo mar.
Aquella arcaria que elle vira afogada, era a mesma por onde agora
passou. Em certas marés baixas era praticavel.
Os olhos iam-se acostumando ao lugar. Via cada vez melhor. Estava
estupefacto. Tornava achar aquelle extraordinario palacio da sombra,
aquella abobada, aquelles pilares, aquelles rubros, aquella vegetação
de pedras, e no fundo aquella crypta, quasi santuario, e aquella pedra,
quasi altar.
Não se lhe despertavam muito os pormenores, mas tinha no espirito a
idéa do todo, e reconheceu.
Via diante delle, em certa altura, na rocha, o buraco por onde penetrou
a primeira vez, e que, do ponto onde estava agora, parecia inaccessivel.
Tornava a ver perto da arcaria ogiva as grotas baixas e obscuras,
especie de cavas na cava, que já observára de longe. A que ficava mais
perto delle estava a secco e era facil de se lhe chegar.
Mais perto ainda que essa descobrio elle, ao alcance da mão, uma fenda
horisontal no granito. Provavelmente estava alli o caranguejo. Metteu
a mão o mais que pôde, e procurou ás apalpadellas naquelle buraco de
trevas.
De repente sentio que lhe agarravam no braço.
O que elle experimentou nesse momento foi o horror indescriptivel.
Uma cousa que era delgada, aspera, chata, gelada, pegajosa e viva
torcia-se na sombra á roda de seu braço nú, e subia-lhe para o peito.
Era a pressão de uma corrêa, e o impulso de uma verruma. Em menos de
um segundo, uma especie de espiral tinha-lhe invadido o punho e o
cotovello e tocava-lhe o hombro. A ponta mettia-se-lhe no sovaco.
Gilliatt atirou-se para traz, e mal pôde fazel-o. Estava como que
pregado. Com a mão esquerda que ficava livre pegou na faca que tinha
entre os dentes, e com essa mão, que segurava a faca, apoiou-se no
rochedo com um esforço desesperado para saccar o braço. Só conseguio
inquietar a ligadura, que se apertou mais. Era flexivel como o couro,
solida como o aço, fria como a noite.
Outra corrêa, estreita e pontuda, sahio do buraco da rocha. Era
uma especie de lingua sahindo de uma goela. Lambeu medonhamente o
corpo nú de Gilliatt, e de repente, esticando-se, desmedida e fina,
applicou-se-lhe na pelle e enrolou-se no corpo. Ao mesmo tempo um
soffrimento inaudito, sem comparação neste mundo, levantava os musculos
de Gilliatt. Sentia que lhe abriam a pelle em muitos pontos, de um
modo horrivel. Parecia-lhe que innumeros labios, pregados á carne,
procuravam beber-lhe o sangue.
Terceira corrêa sahio fóra do rochedo, apalpou Gilliatt, e
chicoteou-lhe os lados como uma corda. Afinal fixou-se como as outras.
A angustia, no paroxysmo, é muda. Gilliatt não soltou um grito. Havia
bastante luz para que elle podesse ver as fórmas repellentes applicadas
ao corpo delle.
Quarta ligadura, esta rapida como uma flecha, saltou-lhe em roda do
ventre e enrolou-se-lhe.
Era impossivel cortar nem arrancar aquellas corrêas viscosas que
adheriam estreitamente ao corpo de Gilliatt e por muitissimos pontos.
Cada um desses pontos era um fogo de terrivel e estranha dôr. Era o que
sentiria quem fosse engolido ao mesmo tempo por uma porção de bocas
pequeninas.
Quinta ligadura rompeu do tronco. Sobrepôz-se aos outros e foi
enroscar-se no diaphragma de Gilliatt. A compressão ajuntava-se á
anxiedade. Gilliatt mal podia respirar.
Aquellas ligaduras, pontudas na extremidade, iam alargando como
laminas de espada para o punho. Todas cinco pertenciam evidentemente
ao mesmo centro. Caminhavam e arrastavam-se para Gilliatt. Elle sentia
deslocar-se essas pressões obscuras que lhe pareciam bocas.
Bruscamente uma larga viscosidade redonda e chata sahio de dentro da
rocha. Era o centro; as cinco ligaduras prendiam-se a elle, como raios
a um eixo; ditistinguiam-se do lado opposto daquelle disco immundo o
começo de outros tres tentaculos, presos no fundo do buraco. No meio
dessa viscosidade haviam dous olhos.
Olhavam elles para Gilliatt.
Gilliatt reconheceu que era uma pieuvre.
II
O MONSTRO
Para acreditar na pieuvre é preciso tel-a visto.
Comparadas á pieuvre, as velhas hydras fazem sorrir.
Em certos momentos parece que o elemento fugitivo que fluctua em nossos
sonhos, encontra na realidade imans aos quaes esses lineamentos se
prendem, e dessas obscuras ficções do sonho surgem creaturas. O ignoto
dispõe do prodigio e serve-se delle para compôr o monstro. Orpheu,
Homero e Hesiodo só poderam fazer a chimera; Deos fez a pieuvre.
Quando Deos quer excede no execravel.
A razão desta vontade é o medo do pensador religioso.
Admittidos todos os ideaes, se o terror é um fim, a pieuvre é uma obra
prima.
A baleia é enorme, a pieuvre é pequena; o hypopotamo tem uma couraça,
a pieuvre é núa: a jararaca tem um silvo, a pieuvre é muda; o
rhinoceronte tem um chifre, a pieuvre não tem chifre; o scorpião tem
um dardo, a pieuvre não tem dardo; o macaco tem uma cauda, a pieuvre
não tem cauda; o tubarão tem barbatanas cortantes, a pieuvre não tem
barbatanas; o vespertilio-vampiro tem azas com unhas, a pieuvre não
tem azas; o porco espinho tem espinhos, a pieuvre não tem espinhos; o
espadarte tem um gladio, a pieuvre não tem gladio; o torpedo tem um
raio, pieuvre não tem raio; o sapo tem um virus, a pieuvre não tem
virus; a vibora tem um veneno, a pieuvre não tem veneno; o leão tem
garras, a pieuvre não tem garras; o gypoéte tem um bico, a pieuvre não
tem bico; o crocodilo tem uma guela, a pieuvre não tem dentes.
A pieuvre não tem massa muscular, nem grito ameaçador, nem couraça, nem
chifre, nem dardo, nem cauda, nem barbatanas, nem azas, nem espinhos,
nem espada, nem descarga electrica, nem virus, nem veneno, nem
garras, nem bico, nem dentes. A pieuvre é de todos os animaes o mais
formidavelmente armado.
O que é então a pieuvre? É a ventosa.
Nos escolhos em pleno mar, onde a agua mostra e esconde todos os
seus esplendores, nas cavas de rochedos não visitadas, nas cavas
desconhecidas aonde abundam as vegetações, os crustaceos e as conchas,
debaixo dos profundos porticos do occeano, o nadador que se arrisca,
arrastado pela belleza do lugar, corre o risco de um encontro. Se
tiveres esse encontro não sejas curioso, foge. Entra-se fascinado,
sahe-se apavorado.
Eis o que é esse encontro sempre possivel nas rochas do mar alto.
Uma fórma cinzenta oscilla n'agua, da grossura de uma braça e de meia
vara de comprido; é um trapo; essa fórma assemelha-se a um guarda-chuva
sem capa; a pouco e pouco o trapo caminha para o homem. De repente
abre-se, oito raios sahem bruscamente da roda de uma face que tem
dous olhos; esses raios vivem; flammejam ondeando; é uma especie de
roda desenrolada, tem quatro ou cinco pés de diametro. Desentolamento
medonho. Atira-se ao infeliz.
A hydra harpôa o homem.
Este animal applica-se á sua presa, cobre-a, envolve-a com os seus
longos braços. Por baixo é amarelada, por cima é terrea; nada póde
imitar esse inexplicavel matiz de poeira; dissera-se um animal feito
de cinza, e morando n'agua. É arachnida pela fórma, e cameleão pelo
colorido. Irritada, torna-se roxa. Cousa horrivel, é flacida.
Os seus nós garroteara; o seu contacto paralysa.
Tem um aspecto de escorbuto e de gangrena. É a molestia feita
monstruosidade.
Não se póde arrancal-a; agarra-se estreitamente á sua presa; como? Pelo
vacuo.
As oito antenas largas na origem, vão estreitando-se e terminam como
agulhas: debaixo de cada uma dellas alongam-se parallelamente duas
filas de pustulas decrescentes, as grossas perto da cabeça, as pequenas
na ponta, e cada fila tem vinte e cinco. Ha cincoenta pustulas em cada
antenna, e todo o animal tem quatrocentas. Essas pustulas são ventosas.
As ventosas são cartilagens cilyndricas e lividas. Na grande especie
vão diminuindo de diametro--desde uma moeda de cinco francos até á
grossura de uma lentilha. Esses pedaços de tubos sahem e entram no
animal. Podem metter-se no corpo de um homem mais de uma pollegada.
Este apparelho de sucção tem a delicadeza de um teclado. Levanta-se,
esconde-se. Obedece á menor intensão do animal. As sensibilidades mais
delicadas não igualam á contractibilidade dessas ventosas, sempre
proporcionadas aos movimentos internos do bicho e aos incidentes
externos. Este dragão é uma sensitiva.
Este monstro é aquelle que os marinheiros chamam polvo, que a sciencia
chama cephalopode, e a que a legenda chama kraken. Os marinheiros
inglezes chamam-no _devil-fish_, o peixe diabo. Chamam-no tambem
_blood-sucker_, chupador de sangue. Nas ilhas da Mancha chamam-na
pieuvre.
É muito rara em Guernesey, muito pequena em Jersey, muito grande e
frequente em Serk.
Uma estampa da edição de Buffon por Sonnini representa um cephalopode
estreitanto uma fragata. Dionizio Monfort pensa que na verdade o polvo
das altas latitudes póde metter um navio a pique. Bory Saint-Vincent
nega-o, mas attesta que nas nossas regiões o polvo attaca o homem. Quem
for a Serk verá perto de Brecq-Hou o buraco do rochedo onde uma pieuvre
ha annos agarrou, reteve e affogou um pescador de lagostas. Peron e
Lamarck, enganam-se quando duvidam que o polvo não tendo barbatanas
possa nadar. Aquelle que escreve estas linhas, vio com seus proprios
olhos em Serk, na cova das Lojas, uma pieuvre perseguir a nado um homem
que tomava banho. Foi morta e medida; tinha quatro pés inglezes de
largura e pôde-se contar quatrocentos chupadores. O bicho agonisante
atirava-os para longe de si convulsamente.
Segundo Dionizio Montfort, um desses observadores, cuja alta intuição
faz descer ou subir até o magismo, o polvo tem quasi as paixões de
homem; o polvo odeia. E no absoluto ser hediondo é odiar.
O disforme debate-se debaixo de uma necessidade de eliminação que o
torna hostil.
A pieuvre nadando conserva-se por assim dizer na bainha. Nada com as
antennas fechadas. Imaginem uma manga cozida com um punho dentro. Esso
punho, que é a cabeça, impelle o liquido e avança com um vago movimento
ondulatorio; os dous olhos, embora grandes, são pouco distinctos por
serem da côr da agua.
A pieuvre quando espreita caça esquiva-se; diminue-se, condensa-se;
reduz-se á mais simples expressão. Confunde-se com a penumbra. Parece
uma dobra de vaga. Assemelha-se a tudo, excepto a cousa viva.
A pieuvre é o hypocrita. Não se rapara nella; repentinamente abre-se.
Que ha ahi de mais medonho que isso; uma viscosidade com uma vontade! O
viscoso amaçado de odio.
É no mais bello azul d'agua limpida, que surge essa hedionda estrella
voraz do mar. O que é terrivel, é que não se sente de longe. Quando a
gente a vê, já está agarrada.
Comtudo á noite, e particularmente na estação do desejo, a pieuvre
é phosphorica; aquelle pavor tem os seus amores. Aguarda o hymeneu.
Faz-se bella, illumina-se, e do alto de algum rochedo, póde-se vel-a
nas profundas trevas aberta n'uma irradiação, sol espectro.
A pieuvre anda; tambem nada. É um tanto peixe e um tanto reptil.
Arrasta-se no fundo do mar. Utilisa as suas oito pernas. Roja-se como a
lagarta.
Não tem osso, nem sangue e nem carne. É flacida. Não tem nada dentro.
É uma pelle. Póde-se virar-lhe os tentaculos de dentro para fóra, como
dedos de uma luva.
Tem um só orificio no centro dos oito raios.
É fria toda ella.
Repelente bicho, é um do mediterraneo. É um contacto hediondo, essa
gelatina animada que envolve o nadador, onde as mãos mergulham, onde
as unhas trabalham, bicho que se rasga sem matar, e que se pucha sem
tirar, especie de creatura resvaladiça e tenaz, que escorrega entre os
dedos; mas nada iguala a subita apparição da pieuvre, Medusa servida
por oito serpentes.
Não ha aperto igual ao do cephalopode.
É uma machina pneumatica que ataca. Luta-se com o nada ornado de patas.
Nem unhas nem dentes; uma scarificação indisivel. Uma mordedura é
temivel; é menos ainda que uma sucção. A garra não iguala a ventosa.
A garra, é o animal que entra na carne; a ventosa é o homem que entra
no bicho. Incham-se os musculos, torcem-se as fibras, rebenta a pelle,
debaixo de um peso immundo, jorra o sangue, mistura-se horrivelmente á
limpha do mollusco. O bicho sobrepõe-se ao homem por mil bocas infames;
a hydra iucorpora-se ao homem; o homem amalgama-se á hydra. Ficam
sendo um só. Pesa aquelle sonho. O tigre póde apenas devorar; o polvo
(horror!) aspira. Pucha o homem a si e em si, e, atado, enviscado,
impotente, o homem sente-se lentamente esvasiado naquelle terrivel
sacco, que é um monstro.
Além do terrivel, que é ser comido vivo, ha o inexprimivel, que é ser
bebido vivo.
Essas estranhas animações são ao principio regeitadas pela sciencia,
segundo o habito de sua excessiva prudencia; depois estuda-os,
descreve-os, classifica-os, inscreve-os, põe-lhes rotulos, procura
exemplares; expõe-nos em museos; elles entram na nomenclatura; ella
os qualifica molluscos, invertebrados, raiados; verifica-lhes as
fronteiras; um pouco além os calmares, um pouco aquem os depiarios;
para estas hydras da agua salgada acham um analogo na agua doce, o
argyronete; divide-as em grande, media e pequena especie; admitte
mais facilmente a pequena especie que a grande, o que é, em todas
as regiões, a tendencia da sciencia, a qual é mais microscopica que
telescopica; olha a sua construcção e chama-os cephalopodes; contam-se
as suas antennas e chama-os octopedes. Feito isto, deixa-os assim. Onde
a sciencia os larga, a philosophia os retoma.