Gilliatt sentio subitamente que um vento lhe agitou os cabellos. Tres

ou quatro largas aranhas de chuva despedaçaram-se em roda delle na

rocha. Depois houve um segundo trovão. Começou o vento.

A espera da sombra chegara ao cumulo; o primeiro trovão agitara o mar,

o segundo rachou a muralha de nuvens de alto abaixo, abrio-se uma

fenda, toda a batega suspensa jorrou por esse lado, o buraco tornou-se

uma boca aberta cheia de chuva, e o vomito da tempestade começou.

Tremendo foi o instante.

Aguaceiro, furacão, relampagos, raios, vagas até ás nuvens, espuma,

detonações, torções freneticas, gritos, roncos, assovios, tudo a um

tempo. Desencadear de monstros.

O vento fulminava. A chuva não cahia, desabava.

Para um pobre homem, mettido, como Gilliatt, com um barco carregado,

no intervallo de dous rochedos, em pleno mar, não ha crise mais

ameaçadora. O perigo da maré, de que Gilliatt triumphára, nada era ao

pé do perigo da tempestade. Eis a situação:

Gilliatt, em volta de quem tudo era precipicio, descobrio, no ultimo

momento, e diante do risco supremo, uma estrategia engenhosa, Fez

ponto de apoio no proprio inimigo; associou-se ao escolho; o rochedo

Douvres, outrora seu adversario, era agora o seu padrinho naquelle

immenso duelo. Gilliatt tinha-o debaixo de si. Fez daquelle sepulchro

uma fortaleza. Assestou-se naquelle pardieiro formidavel do mar. Estava

bloqueado, mas entrincheirado. Estava, por assim dizer, aggregado

ao escolho, face a face com o furacão. Pôr barricadas ao estreito,

essa rua das vagas. Era a unica cousa que podia fazer. Parece que o

oceano, que é um despota pode ser tambem vencido pelas barricadas. A

_pança_ podia ser considerada segura por tres lados. Estreitamente

apertada, entre as duas fachadas internas do escolho, triplicemente

ancorada, estava abrigada ao norte pela pequena Douvre, ao sul pela

grande, penedos selvagens, mais affeitos a produzir naufragios que a

impedil-os. A oeste era protegida pelo tapamento de barrotes atados e

pregados aos rochedos, tapamento já provado que vencera o rude flux

do alto mar, verdadeira porta de cidadella tendo por hombreiras as

proprias columnas do escolho, as duas Douvres. Nada havia que receiar

por esse lado. O perigo estava a leste.

A leste havia apenas o quebra-mar. Um quebra-mar é um aparelho de

pulverisação. Precisa ao menos duas lumieiras. Gilliatt teve apenas

tempo de fazer uma. Construia a segunda mesmo com a tempestade.

Felizmente o vento chegava de nordeste. O mar tem descahidas. Aquelle

vento, que era o galerno antigo, tinha pouco effeito nas Douvres.

Assaltava o escolho de travez, e não impeilia a onda nem sobre uma e

nem sobre outra das aberturas da garganta, de modo que em vez de entrar

em uma rua, esbarrava-se n'uma muralha. A tempestade atacava mal.

Mas os attaques do vento são curvos, e devia esperar-se alguma

viravolta subita. Se essa viravolta se fizesse a leste antes que a

segunda claraboia do quebra-mar estivesse construida, o perigo seria

grande. A invasão da viela de rochedos pela tempestade realizava-se e

tudo estava perdido.

Crescia a vertigem da tempestade. A tempestade é golpe sobre golpe.

Essa é a sua força, esse é o seu defeito. Á força de ser uma raiva,

dá lugar á intelligencia, e o homem defende-se; mas debaixo de que

destruição! Nada mais monstruoso que isso. Nenhuma dilação, nenhuma

interrupção, nenhuma trégoa, nenhum descanço para tomar alento. Ha uma

não sei que de covardia nessa prodigalidade do inexgotavel.

Toda a immensidade tumultuosa atirava-se sobre o escolho Douvres.

Ouviam-se vozes sem numero. Quem gritava assim? Estava alli o antigo

terror panico. De quando em quando, parecia que era alguem que fallava,

como se fizesse um commando. Depois clamores, clarins, estranhas

tremuras, e aquelle grande e magestoso urro que os marinheiros dizem

ser a _chamada do oceano._

As espiraes indefinidas e fugazes do vento assoviavam torcendo a onda;

as vagas, tornadas discos debaixo daquelles torneamentos, eram atiradas

contra os parceis como chapas gigantescas por athletas invisiveis.

A enorme escuma eriçava todas as rochas. Torrentes em cima, saliva em

baixo. Depois redobravam os mugidos. Nenhum rumor humano ou bestial

poderia dar idéa dos fracassos misturados áquellas deslocações do mar.

A nuvem canhoneava, a saraiva metralhava, o marulho escalava. Certos

pontos pareciam immoveis, em outros o vento fazia vinte toesas por

segundo. O mar ao longe estava todo branco; dez léguas de agua de sabão

enchiam o horisonte. Abriam-se portas de fogo. Algumas nuvens pareciam

queimadas por outras, e sobre montões de nuvens vermelhas semelhantes

ás brasas, assemelhavam-se essas ao fumo.

Configurações flutuantes esbarravam-se e amalgamavam-se, desfazendo-se

umas por outras. Escorria uma agua incommensuravel, ouviam-se fogos de

pelotão no firmamento. Havia no meio do tecto de sombra uma especie de

vasta alcofa virada, donde cahiam em confusão, a tromba, a chuva, as

nuvens, as côres rubras, os relampagos, a noite, a luz, os raios, tão

formidaveis são essas inclinações do golphão!

Gilliatt parecia não attender a nada. Tinha a cabeça inclinada no

trabalho. A segunda claraboia começava a levantar-se. A cada trovão

respondia elle com uma martellada. Ouvia-se essa cadencia naquelle

cahos. Estava com a cabeça descoberta. Uma lufada levou-lhe o chapéo.

Tinha uma sêde ardente. Provavelmente estava com febre. Lagoinhas de

chuva tinham-se formado á roda delle nas covas do rochedo. De quando em

quando tirava agua com a palma da mão e bebia. Depois, sem examinar em

que ia a tempestade, continuava a obra.

Tudo podia depender de um instante. Sabia o que o esperava se não

terminasse a tempo o quebra-mar. Porque motivo perder um minuto para

ver approvimar-se a face da morte?

A desordem em torno delle era como uma caldeira fervendo. Havia

fracasso e motim. Ás vezes o raio parecia descer uma escada. As

percursões electricas voltavam constantemente aos mesmos pontos do

rochedo. Haviam pedras de chuva da grossura de uma mão fechada.

Gilliatt era obrigado a sacudir as dobras da japona. Até as algibeiras

tinham pedras.

O temporal estava já no oeste, e batia o tapamento das duas Douvres;

mas Gilliatt tinha confiança nesse tapamento, e com rasão. Esse

tapamento, feito do grande pedaço da prôa da Durande, recebia sem

dureza o choque da onda; a elasticidade é uma resistencia; os calculos

de Stevenson estabelecem que, contra a vaga, por si propria elastica,

uma reunião de pãos, com a dimensão desejada, ligada e amarrada de

certo modo, faz melhor obstaculo que um breack-water de madeira.

O tapamento das Douvres preenchia essas condições; era além disso

tão engenhosamente atado que a onda, batendo em cima, fazia como um

martello que mette o prego apoiava-o ao rochedo e consolidava-o; para

demolil-o, era preciso derrubar as Douvres. A lufada apenas conseguio

atirar á _pança_, por cima do obstaculo, alguns jorros de espuma. Por

esse lado, graças ao tapamento a tempestade tornava-se cuspo. Gilliatt

voltava as costas a esse esforço. Sentia tranquillamente atraz de si

essa raiva inutil.

Os frocos de espuma, sahindo de todos os lados, assemelhavam-se a

lã. A agua vasta e irritada afogava os rochedos, trepava por elles,

entrava dentro, penetrava na rede de fendas internas, e sahia das

massas graniticas por fendas estreitas, especies de bocas inexgotaveis

que faziam naquelle diluvio pequenas fontes placidas. Filetes de agua

cahiam graciosamente daquelles buracos no mar.

A claraboia de reforço do tapamento de leste estava quasi concluida.

Mais umas voltas de cordas e correntes, e approximava-se o momento de

tambem lutar esse tapamento.

De subito, fez-se um grande clarão, a chuva e as nuvens separaram-se,

era o vento que mudava, uma especie de janella grande crepuscular

abrio-se no zenith, e apagaram-se os relampagos; pareceu que estava

acabado. Era o começo.

O vento mudou de sudoeste para nordeste.

A tempestade ia recomeçar com uma nova matilha de furacões. Vinha do

norte, violento assalto. Os marinheiros chamam a isso _o vento de

esboroar._ O vento do sul tem mais agua, o vento do norte tem mais

raios.

Vindo do nordeste, a aggressão ia dirigir-se ao ponto fraco.

Desta vez Gilliatt parou o trabalho, e olhou.

Collocou-se de pé sobre uma saliencia de rochedo inclinado por traz da

segunda claraboia quasi terminada. Se a primeira chapa do quebra-mar

fosse afundada, desabaria a segunda, ainda não consolidada, e debaixo

dessa demolição, esmagaria Gilliatt, Gilliatt no lugar que escolhera,

seria achatado antes de ver a _pança_ e a machina e toda a sua obra

abysmar-se no golphão. Tal era a eventualidade. Gilliatt, acceitou-a,

e, terrivel, elle a queria.

Nesse naufragio de todas as suas esperanças, morrer primeiro,

convinha-lhe a elle; morrer primeiro, porque a machina fazia-lhe o

effeito de uma pessoa. Levantou com a mão esquerda os cabellos collados

aos olhos pela chuva, apertou o martello, inclinou-se para traz,

ameaçante, e esperou.

Não esperou muito.

Um ribombo deu o signal, fechou-se a abertura pallida do zenith,

precipitou-se uma rajada de chuva, tudo tomou-se escuro, e não houve

outro facho mais que o relampago. Começava o sombrio ataque.

Possante vagalhão, visivel entre os relampagos, levantou-se a leste

além do rochedo Homem. Parecia um grande rolo de vidro. Era verde e

sem escuma nem ondas. Inchava aproximando-se; era um largo cylindro de

trevas rolando no oceano. A trovoada roncava surdamente.

Esse vagalhão chegou ao rochedo Homem, partio-se em dous e continuou.

Os dous pedaços juntos tornaram a ligar-se, e fizeram uma grande

montanha de agua, e de parallela que estava ao quebra-mar, tornou-se

perpendicular. Era uma vaga com a fórma de uma viga.

Atirou-se ao quebra-mar aquelle ariete. Rugia o choque. Tudo

desappareceu em espuma.

Não se póde imaginar o que são essas avalanchas de neve que o mar

ajunta, e debaixo das quaes engole rochedos de mais de cem pés de

altura, taes, por exemplo, como o grande Anderlo, em Guernesey, e o

Pinaculo, em Jersey. Em Santa Maria de Madagascar, saltam por cima da

ponta de Pintingue.

Durante alguns instantes, o rolo de mar tapou tudo. Só ficou visivel um

montão furioso, uma escuma immersa, a alvura de um sudario fluctuando

no vento do sepulchro, uma mistura de ruido e de tempestade debaixo da

qual trabalhava o exterminio.

Dissipou-se a escuma. Gilliatt estava de pé.

O tapamento resistira. Nenhuma corrente arrebentou, nenhum prégo

sahio. O tapamento mostrou á prova as duas qualidades do quebra-mar;

foi flexivel como um caniço e solido como uma parede. O vagalhão

dissolveu-se em chuva.

A espuma escorrendo ao longo dos zig-zags do estreito foi morrer

debaixo da _pança._

O homem que fizera aquelle açamo ao oceano não repousou.

A tempestade divagou felizmente durante algum tempo. O encarniçamento

das vagas voltou-se para as partes muradas do escolho. Foi uma tregoa.

Gilliatt aproveitou-a para completar a claraboia de traz.

O dia expirou nesse trabalho. A tormenta continuava as suas violencias

no flanco do escolho com uma solemnidade lugubre. A urna de agua e a

uma de fogo que existem nas nuvens, esvasiava-se sem esgotar nunca. As

ondulações altas e baixas do vento, pareciam movimentos de um dragão.

Quando a noite chegou já havia noite; não se pôde reparar nella.

Mas não era obscuridade completa. As tempestades illuminadas e cégas

pelo relampago, têm intermittencias de visivel e invisivel. Tudo está

claro, depois tudo fica escuro. Assiste-se á sahida das visões, e á

entrada das trevas.

Uma zona de phosphoro, côr da aurora boreal, fluctuava como um farrapo

de flamma spectral por traz das espessuras de nuvens. Resultava uma

vasta pallidez. As chapas de chuva eram luminosas.

E esses clarões ajudavam Gilliatt e o dirigiam. Elle voltou-se para o

relampago e disse: segura-me a vela!

Com o auxilio dessa claridade póde elle levantar a claraboia de traz,

ainda mais acima da da frente. O quebra-mar estava quasi completo.

Quando Gilliatt amarrava ao ponto culminante um cabo de reforço, o

vento soprou-lhe na cara em cheio. Isto fez-lhe levantar a cabeça. O

vento voltára bruscamente para nordeste. O assalto da abertura de leste

recomeçava. Gilliatt olhou para o mar. O quebra-mar ia ser atacado

outra vez. Vinha um novo vagalhão.

Esse foi rudemente vibrado; depois veio outro, mais outro, mais outro,

cinco ou seis em tumulto, quasi juntos; finalmente um ultimo e tremendo.

Este que era um como que total de forças, tinha a figura de uma cousa

viva. Não era difficil imaginar naquella intumescencia e naquella

transparencia, inauditos aspectos com escamas. Achatou-se e partio-se

no quebra-mar. A sua forma quasi animada dilacerou-se num esguicho.

Naquelle montão de rochedos e taboas, foi uma especie de esmagamento

de hydra. A onda morrendo devastava. Profundo tremor agitou o escolho.

Misturava-se a isso um grunhir de animal. A espuma assemelhava-se á

saliva de um leviathan.

A espuma que cahia deixava vêr uma devastação. O vagalhão fez obra.

Dessa vez o quebra-mar soffreu um pouco. Uma longa e pesada viga,

arrancada da claraboia da frente, foi lançada por cima do tapamento de

traz, sobre a rocha inclinada escolhida por Gilliatt para o lugar do

combate. Felizmente desta vez não estava elle ahi. Ficaria morto.

Houve na queda da viga uma singularidade, que, impedindo qualquer

movimento da prancha, salvou Gilliatt de qualquer sobresalto perigoso.

Foi ainda util por outro modo como se vai vêr.

Entre a saliencia da rocha e o declive interno da garganta, havia um

intervallo, um grande hiato semelhante ao encaixe de um machado ou á

alveola de um canto. Uma das extremidades da prancha atirada ao ar pela

vaga, cahio no meio dessa abertura. A abertura alargou-se.

Gilliatt teve uma idéa.

Pesar na outra extremidade.

A prancha, presa por uma ponta na fenda do rochedo que alargara, sahia

d'ahi como um braço estendido. Essa especie de braço alargava-se

paralellamente á facha interna da garganta, e a extremidade livre da

prancha afastava-se desse ponto de apoio cerca de dezoito ou vinte

pollegadas. Boa distancia para fazer o exforço.

Gilliatt estreitou com os pés, os joelhos e os braços o rochedo e

metteu hombros á enorme viga. A viga era comprida, o que augmentava

a força do peso. A rocha já estava abalada. Comtudo Gilliatt teve de

tentar a cousa quatro vezes. Cahia-lhe dos cabellos mais suor do que

chuva. O quarto exforço foi frenetico. Houve um estalo na rocha, a

abertura abriu-se como uma boca, e a pesada massa cahio no estreito

intervallo com um ruido terrivel, replica aos trovões.

Cahio direita, se esta expressão é possivel, isto é sem quebrar-se.

Imaginae um menhir precipitado todo inteiro.

A viga acompanhou o rochedo, e Gilliatt cedendo ao mesmo tempo, escapou

de cahir tambem.

O fundo estava muito atravancado, e tinha pouca agua. O monolitho,

n'uma agitação de espuma, que foi respingar em Gilliatt, deitou-se

entre as duas grandes rochas paralellas da garganta e fez uma parede

transversal, especie de linha de união dos dous rochedos. Tocavam as

duas pontas; era um pouco mais longo, e o cume, que era de rocha macia,

ficou esmigalhado. Resultou dessa queda uma especie de beco sem sahida

que ainda hoje pode ser visto. A agua por detraz dessa barra de pedra,

é quasi sempre tranquilla.

Era um baluarte aquelle ainda mais invencivel que a amurada da Durande

ajustada entre as duas Douvres. Esse tapamento interveio a proposito.

Os vagalhões tinham continuado. A vaga teima sempre contra o obstaculo.

A primeira claraboia começava a desarticular-se. Uma malha de

quebra-mar desfeita é uma grande avaria. É inevitavel o alargamento

do buraco, e nenhum meio póde remediar logo. A vaga carregaria o

trabalhador.

Uma descarga electrica, que illuminou o escolho, descobrio a Gilliatt

o estrago que se fazia no quebra-mar, as vigas soltas, as cordas

e correntes começando a fluctuar ao vento, um rasgão no centro do

aparelho. A segunda claraboia estava intacta.

O penedo, tão poderosamente lançado por Gilliatt no intervallo das

rochas, por traz do quebra-mar, era a mais solida barreira, mas tinha

um defeito; era demaziado baixo. As vagas não podiam rompel-o, mas

podiam galgal-o.

Era impossivel faze-lo crescer. Só massas da rocha podiam ser utilmente

sobrepostas áquelle tapamento de pedra; mas como arrancar essas massas,

como arrastal-as, como levantal-as, como collocal-as, como fixal-as?

Pregam-se taboas, não se pregam rochedos.

Gilliatt não era Encelado.

A pouca elevação daquelle pequeno isthmo de granito preocupava Gilliatt.

Breve fez-se sentir o defeito. Os ventos já não deixavam o quebra-mar;

já se não encarniçavam, parecia que se applicavam. Ouvia-se naquella

construcção abalada uma especie de escouceamento regular.

De repente um pedaço de peça de viga, destacado da dislocação, pulou

por cima da segunda claraboia, voou por cima da rocha transversal,

e foi cahir na garganta do rochedo, onde a agua a levou pelas

sinuosidades da viella. É provavel que fosse esbarrar na _pança._

Felizmente, no interior do escolho, a agua fechada por todos os lados,

mal se resentia da agitação exterior. Havia pouco marulho, e o choque

não devia ser forte. Gilliatt nem teve tempo de occupar-se com essa

avaria, se avaria houve; todos os perigos se erguiam a um tempo, a

tempestade concentrava-se no ponto vulneravel, a imminencia estava

diante delle.

Profunda foi, por alguns instantes, a escuridão, interrompeu-se o

relampago, connivencia sinistra; a nuvem e a vaga eram a mesma cousa!

houve um golpe surdo.

Depois um fracasso.

Gilliatt adiantou a cabeça. A claraboia que tapava a frente estava

deslocada. Viam-se as pontas de vigas saltar na vaga. O mar servia-se

do primeiro quebra-mar para atacar o segundo.

Gilliatt sentio o que sentiria um general vendo voltar a vanguarda.

A segunda tapagem resistio ao choque. A armadura de traz estava

fortemente ligada. Mas a claraboia despedaçada era pesada, estava á

disposição das vagas que a atiravam e tomavam, as ligaduras que lhe

restavam impediam-n'a de partir-se em pedaços, e mantinham-lhe todo

o volume, e as qualidades que Gilliatt lhe dera como apparelho de

defeza faziam agora d'aquillo uma excellente ferramenta de destruição.

De broquel tornara-se massa. Além disso as fracturas herissavam-n'a,

sahiam-lhe pontas em toda ella, cobriam-n'a de dentes esporas. Nenhuma

arma contundente mais temivel e propria para ser manejada pela

tempestade do que aquella.

Era o projectil, e o mar a catapulta.

Succediam-se os golpes com uma especie de regularidade tragica.

Gilliatt, pensativo por traz daquella porta tapada por elle, ouvia esse

bater da morte querendo entrar.

Elle refletio amargamente que, se não fosse o cano da Durande tão

fatalmente retido no casco estaria áquella hora, e desde manhã, em

Guernesey, e no porto, com a _pança_ abrigada e a machina salva.

Realisou-se o tremendo perigo. Fez-se a effração. Foi como uma agonia

de moribundo. Todo o madeiramento do quebra-mar, as duas armaduras

confundidas e despedaçadas juntas, foi n'uma tromba d'agua rolar no

tapamento de pedra como um cahos n'uma montanha, e parou. Foi um

travamento informe de pãos embrenhados, penetravel ás vagas, mas

pulverisando-as ainda. Aquelle baluarte vencido agonisava heroicamente.

O mar quebrou-o, elle quebrava o mar. Derrubado ainda ficava um pouco

efficaz. A rocha que senda de tapagem, obstaculo sem recurso possivel,

retinha-o pelo pé. A garganta naquelle ponto, era muito estreita; a

tempestade victoriosa tinha empurrado, misturado e empilhado todo

o quebra-mar naquelle lugar angustioso; a violencia da impulsão,

misturando a massa, e mettendo as fracturas umas nas outras, fez

daquella demolição uma cousa solida. Estava destruido e inabalavel.

Só algumas peças de páo ficaram destacadas. Dispersou-as a vaga. Uma

passou no ar, perto de Gilliatt. Elle sentio o ar agitado pela taboa na

fronte.

Mas algumas vagas, essas grossas vagas que nos temporaes voltam sempre,

com uma periodicidade imperturbavel, saltavam por cima das ruinas do

quebra-mar. Cahiam na garganta, e a despeito dos cotovellos que a

viella tinha, chegavam a levantar a agua. A onda do estreito começava a

agitar-se de um modo feio. Accentuava-se o beijo obscuro das vagas nas

rochas.

Como impedir agora que essa agitação se propagasse até á _pança?_

Não precisava muito tempo para que toda a agua interior ficasse

tempestuosa, e com algumas ondas, a _pança_ seria estripada, e a

machina a pique.

Gilliatt scismava tremulo.

Mas não se desconcertou. Para aquella alma havia derrota possivel.

O furacão engolphava-se agora entre as duas muralhas do estreito.

De subito resoou e prolongou-se a alguma distancia por traz de Gilliatt

um estalo mais assustador, que tudo quanto Gilliatt até então ouvira.

Era do lado da _pança._

Passava-se alli alguma cousa funesta.

Gilliatt correu.

Do lado de leste, onde se achava, não podia elle vêr a _pança_ por

causa dos zig-zags da viella. Na ultima volta parou e esperou o

relampago.

Rompeu o relampago e mostrou-lhe a situação.

Á vaga da abertura de leste correspondeu um tufão na abertura de oeste.

Esboçava-se um desastre.

Á _pança_ não tinha avaria visivel; ancorada como estava, dava pouco

flanco, mas o casco da Durande estava em risco de cahir.

Aquella ruina, em semelhante tempestade, apresentava uma victima.

Estava toda fora d'agua, no ar, offerecida ao temporal. O buraco que

Gilliatt praticára para extrahir a machina enfraquecêra o casco. O

barrote da quilha estava cortado. O esqueleto tinha columna vertebral

despedaçada.

Soprára em cima o furacão.

Não precisou mais. A amurada dobrou-se como um livro que se abre.

Fez-se o desmembramento. Foi estalo que, no meio da tempestade, chegára

aos ouvidos de Gilliatt.

O que elle vio ao chegar parecia quasi irremediavel.

A incisão operada por elle tornára-se uma chaga. Dessa abertura fez

o vento uma fratura. O córte transversal separava em duas a Durande.

A parte posterior, a que ficava em frente de Gilhatt, vizinha da

_pança_, ficára solida nos rochedos. A parte anterior, que fazia face

a Gilliatt, estava pendurada. Uma fractura é um gonzo. Aquella massa

oscillava sobre as suas fendas, e o vento balançava-a com um tremendo

rumor.

Felizmente a _pança_ já não estava em baixo.

Mas o balanço abalava a outra metade do casco, ainda presa e immovel

entre as duas Douvres. Do abalo á queda, a distancia era pequena.

Com a teima do vento, a parte deslocada podia subitamente arrastar a

outra que tocava quasi na _pança_, e tudo, _pança_ e machina, ficaria

engulido.

Gilliatt, tinha isso diante dos olhos.

Era a catastrophe.

Como desvial-a?

Gilliatt, era daquelles que tiram recurso do proprio perigo. Reflectio

um momento.

Depois, foi ao deposito e tirou o machado.

O martello trabalhára muito; era chegada a vez do machado.

Gilliatt subio á Durande. Firmou-se na parte do navio, que ainda estava

segura, e, inclinado sobre o precipicio do intervallo das Douvres,

pôz-se a cortar as taboas quebradas, e tudo quanto ainda prendia o

pedaço de casco pendente.

Consummar a separação dos dous pedaços do casco, libertar a metade

solida, deitar ao mar aquillo que o vento destruira, dar o quinhão

á tempestade, tal era a operação. Era mais perigosa que difficil. A

metade pendente do casco, empuchada pelo vento e pelo peso, adheria

apenas por alguns pontos. O conjuncto do casco assemelhava-se a um

dyptico, partido em dous pedaços, e batendo ambos um no outro. Cinco

ou seis peças apenas, vergadas e arrebatadas, mas não completamente

soltas, ainda sustentavam o casco. As fracturas guinchavam e

alargavam-se a cada sopro do vento, e o machado apenas ajudava. Esta

circumstancia, que tornava facil o trabalho, tornava-o arriscado

tambem. Tudo podia esboroar ao mesmo tempo debaixo Gilliatt.

Os Trabalhadores do Mar · 第 21 / 28 段