radiosa e a aurora sorri, o que enchia de religioso horror os antigos
poetas e os antigos adevinhos, assustados de que se podesse crer na
deslealdade do sol. _Solem quis dicere falsum audeat._
A sombria visão do possivel latente é interceptada ao homem pela
opacidade fatal das cousas. O mais temivel e o mais perfido aspecto é a
mascara do abysmo.
Diz-se: _anguis in herba_; devia dizer-se: _borrasca na calma._
Assim se passam horas, e ás vezes dias. Os pilotos assestam os seus
oculos. O rosto dos velhos marinheiros tem um ar de severidade que se
prende á colera secreta da expectação.
De subito ouve-se um grande murmurio confuso. Ha uma especie de dialogo
mysterioso no ar.
Não se vê cousa alguma.
A extensão fica impassivel.
Entretanto o rumor cresce, engrossa, eleva-se. Accentua-se o dialogo.
Ha alguem por traz do horisonte.
Pessoa terrivel essa, é o vento.
O vento, isto é, a populaça de titães que chamamos Tufões.
Immensa plebe da sombra.
A India chamava-os Morouts, a Judéa Keroubins, a Grecia Aquilões. São
os invisiveis passaros ferozes do infinito. Esses Boreas precipitam-se.
II
OS VENTOS DO LARGO
Donde vem elles? Do incomensuravel. Os seus grandes vôos exigem o
diametro do golphão. As suas azas desmedidas precisam das solidões
indefinidas. O Atlantico, o Pacifico, essas vastas aberturas azues,
eis o que lhes convém. Fazem-n'as sombrias. Voam em bandos. O
commandante Page vio de uma vez no mar alto, sete trombas a um tempo.
Ahi são medonhas. Premeditam os desastres. Tem por trabalho delles
o entumecimento ephemero e eterno dos vagalhões. Ignora-se o que
elles podem, desconhece-se o que elles querem. São as sphynges do
abysmo; e Vasco da Gama é o seu Œdipo. Faces de nuvens apparecem nessa
obscuridade da extensão sempre em movimento. Quem descobre os seus
lineamentos lividos nessa dispersão que é o horisonte do mar sente-se
em presença da força irreductivel. Dissera-se que a intelligencia
humana os assusta, e eriçam-se contra ella. A intelligencia é
invencivel, mas o elemento é indomavel. Que fazer contra a ubiquidade
que se não sujeita? O vento faz-se massa e torna-se vento outra vez. Os
ventos combatem esmagando e defendem-se esvaindo-se. Quem depara com
elles só póde lançar mão de expedientes. Elles frustam-nos pelo assalto
diverso e repercutido. Tanto atacam como fogem. São os impalpaveis
tenazes. Como vence-los? A prôa do navio Argo, esculpida em um carvalho
de Dodona, ao mesmo tempo prôa e piloto, costumava fallar-lhes. Elles
maltratavam aquella prôa deosa. Christovão Colombo, vendo-os vir de
encontro á _Pinta_ subio ao tombadilho e dirigio-lhes os primeiros
versiculos do Evangelho de S. João. Surcouf insultava-os. _Ahi vem a
pandilha_, dizia elle. Napier descarregava-lhes tiros em cima. Elles
tem a dictadura do chaos.
Tem o chaos. Que fazem delle? Fazem uma cousa implacavel. A cova dos
ventos é mais monstruosa que a cova dos leões. Quantos cadaveres
debaixo dessas dobras sem fundo! Os ventos empurram sem piedade a
grande massa obscura e amarga. A gente os ouve sempre, mas elles não
ouvem a ninguem. Commettem cousas que parecem crimes. Não se sabe
sobre quem atiram elles os punhados brancos de espuma. Que ferocidade
impia no naufragio! Que affronta á Providencia! Ás vezes parecem que
cospem em Deos. São os tyrannos dos lugares desconhecidos. _Luoghi
spaventosi_, murmuravam os marinheiros de Veneza.
Os espaços tremulos supportam os seus ataques. É inesprimivel o que
se passa nesses grandes abandonos. Mistura-se á sombra um elemento
equestre. O ar faz um rumor de floresta. Não se vê nada, mas ouve-se
um ruido de cavallos. É meio dia, de subito anoitece; passa um
_tornado_; é meia noite, de repente esclarece, accende-se o effluvio
polar. Alternam em sentido inverso os turbilhões, especie de dansa
hedionda, tripudeo dos flagellos sobre o elemento. Quebra-se pelo meio
uma pesada nuvem, e os pedaços vão precipitar-se no mar. Outras nuvens
purpureadas, illuminam e roncam, depois escurecem lugubremente; a nuvem
esvasiada de raio, é carvão apagado. Saccos de chuva rompem-se em
bruma. Fornalha em que chove, onda que vomita luz. As alvuras do mar
debaixo do aguaceiro illuminam sorprehendentes quadros; desfiguram-se
espessuras onde se reproduzem as semelhanças. Monstruoso umbigo vai
rompendo as nuvens. Volteam os vapores, saracoteam as vagas; rolam
embriagadas as nayades; a perder de vista, o mar massiço e mole move-se
sempre sem jamais deslocar-se; tudo é livido; desesperados gritos sobem
desse palor.
No fundo da obscuridade inaccessivel tremem grandes germens de
sombra. De quando em quando ha paroxismo. O rumor torna-se tumulto,
do mesmo modo que a vaga se torna marulho. O horisonte, superposição
confusa de vagas, oscillação sem fim, murmura continuamente; alli
arrebentam extranhamente uns arremeços de fracaço; parece-se ouvir as
hydras espirrando; sopram palitos frios, seguem-se halitos quentes.
A trepidação do mar annuncia um medo que tudo espera. Inquietação.
Angustia. Terror profundo das aguas. Subitamente, o furacão, como uma
besta, desce a beber no oceano; sorvo inaudito, a agua sóbe para a boca
invisivel, fórma-se uma ventosa, incha o tumor; é a tromba, o Prester
dos antigos, stalactite em cima, stalagmite em baixo, duplo cone
inverso girante, uma ponta equilibrada em cima de outra, beijo de duas
montanhas, uma montanha de espuma que se levanta, uma montanha de nuvem
que desce; coito medonho da vaga e da sombra. A tromba, como a columna
da Biblia, é tenebrosa de dia e luminosa de noite. Diante da tromba
cala-se o trovão. Parece que tem medo.
Ha uma escala na vasta turvação das solidões; temivel _crescendo_; a
brisa, a lufada, a borrasca, o temporal, a tormenta, a tempestade, a
tromba; as sete cordas da lyra do vento, as sete notas do abysmo. O céo
é uma largura, o mar é um arredondado; passa um vento, já não ha nada
disso, tudo é furia e confusão.
Taes são aquelles severos sitios.
Os ventos correm, voam, abatem-se expiram, revivem, pairam, assoviam,
rugem, riem: freneticos, lascivos, desvairados, tomam conta da vaga
irascivel. Tem harmonia esses berradores. Tornam sonoro todo o céo.
Sopram nas nuvens como n'um metal; embocam o espaço, e cantam no
infinito, com todas as vozes amalgamadas dos clarins, buzinas e
trombetas, uma especie de tangeres prometheanos. Quem os ouve, ouve
Pan. O que mais assusta é vêl-os assim. Tem uma colossal alegria
composta de sombra. Fazem nas solidões a batida dos navios. Sem
tregoas, noite dia, em todas as estações, no tropico como no polo,
tocando a trombeta delirante, vão elles, por meio do travamento da
nuvem e da vaga, fazendo a grande caça negra dos naufragios. São os
donos das matilhas. Divertem-se. Fazem ladrar as ondas, que são os seus
cães, contra as rochas. Combinam e desunem as nuvens. Amassam como se
tivessem milhões de mãos, a flexibilidade da agua immensa.
A agua é flexivel porque é incompressivel. Resvala debaixo do esforço.
Apertada por um lado, escapa por outro. É assim que a agua se faz onda.
A vaga é a sua liberdade.
III
EXPLICAÇÃO DO RUMOR OUVIDO POR GILLIATT
A grande approximação dos ventos para a terra faz-se nos equinoxios.
Nessas épocas o grande balanço do tropico e do polo, e a collossal maré
atmospherica derrama o seu flux em um hemispherio, e o reflux em outro.
Ha constellações que significam esses phenomenos. Libra e Aquario.
É a hora das tempestades.
O mar espera silencioso.
Ás vezes o céo tem feio aspecto. Fica baço, e como que coberto por um
grande panno obscuro; os marinheiros contemplam anciosos o ar opprimido
de sombra.
Mas o que elles mais temem é o ar alegre. Céo risonho no equinoxio é a
tempestade com pés de lã. Com céos desses, a Torre das Carpideiras de
Amsterdão enchia-se de mulheres que examinavam o horizonte.
Quando se demora a tempestade invernal ou outonal é que está ajuntando
uma massa ainda maior. Enthesoura para destruir. Desconfia da
acumulação de juros. Ango dizia: _O mar é bom pagador._
Quando a demora é demasiado longa, o mar trahe a sua impaciencia pela
calma. Sómente a tenção magnetica se manifesta naquillo que se póde
chamar a inflamação da agua. Rompem clarões da vaga. Ar electrico,
agua phosphorica. Os marinheiros sentem-se estafados. É uma hora
especialmente perigosa para os encouraçados; o casco de ferro póde
produzir falsas indicações da bussola e perdel-os. Assim pereceu o
paquete transatlantico _Yowa._
Para os que estão familiarisados com o mar, o seu aspecto nesses
momentos é extranho; dissera-se que o mar deseja e receia o cyclone.
Certos hymeneus, aliás impostos pela natureza, são acolhidos assim. A
leôa desejosa foge diante do leão. Tambem a agua tem o seu calor, e
dahi lhe vem o estremecimento.
Vae realisar-se o immenso consorcio.
Este consorcio, como as nupcias dos antigos imperadores, celebra-se com
exterminações. É uma festa temperada de desastres.
Attenção, ahi vem o facto equinoxial.
Conspira a tempestade. A velha mythologia entrevia essas personalidades
indistinctas misturadas á grande natureza diffusa. Eolo harmonisa-se
com Boreas. O accordo do elemento com o elemento é necessario.
Distribuem entre si a tarefa. Ha impulsões para a vaga, para a nuvem,
para o effluvio; a noite é um auxiliar; deve ser empregada. Ha bussolas
para desviar, pharóes para apagar, estrellas para esconder. É preciso
que o mar coopere. Todas as tempestades são precedidas de um murmurio.
Por traz do horisonte ha o cochicho prévio dos furacões.
É o que se ouve, na obscuridade, ao longe, por cima do silencio
assustado do mar.
Gilliatt ouvio esse chochichar tremendo. A phosphorescencia foi a
primeira advertencia; o rumor foi a segunda.
Se existe o demonio Legião, esse demonio é o Vento, com certeza.
O vento é multiplo, mas o mar é um.
Dahi esta consequencia: toda tempestade é mixta. A unidade de ar o
exige.
Abismo implica tempestade. O oceano inteiro está n'uma borrasca. A
totalidade das suas forças entra em linha e toma parte nella. Uma vaga
é o golphão de baixo; um tufão é o golphão de cima. Lutar com uma
tempestade é lutar com o mar inteiro e o céo inteiro.
Messier, o homem da marinha, o astronomo pensativo da choça de Clerny,
dizia: _O vento de toda a parte está em todas as partes._ Elle não
acreditava nos ventos presos, mesmo nos mares fechados. Para elle
não haviam ventos mediterraneos. Dizia que os conhecia na passagem.
Affirmava que em tal dia, a tal hora, o Fohn do lago de Constança,
o antigo Favonio de Lucrecio, atravessara no horisonte de Paris; em
outro dia era o Bora do Adriatico; em outro era o Noto giratorio que
se pretende estar encerrado nas Cyclades. Especificava os effluvios.
Não pensava que o vento que gira entre Malta e Tunis, e o vento que
gira entre a Corsega e as Baleares, estivessem na impossibilidade de
se libertarem. Não admittia os ventos, como ursos, fechados em jaula.
Dizia: «Todas as chuvas vem do tropico, e todos os raios do polo.»
O vento, com effeito, satura-se de electricidade na intercessão dos
coluros, que marca as extremidades do eixo, e da agua no equador;
traz-nos da linha o liquido e dos polos o fluido.
Ubiquidade é o vento.
Não quer isto dizer que não existam as zonas dos ventos. Nada mais
demonstrado que as correntes continuas, e dia virá em que a navegação
aérea, servida pelos navios do ar (_air-navires_) que chamamos,
por mania de grego, aeroscaphos, utilisará as linhas principaes.
A canalisação do ar pelo vento é incontestavel; ha rios de vento,
ribeiros de vento, riachos de vento; sómente ao invez das ramificações
da agua, são os riachos que sahem dos ribeiros, e os ribeiros que sahem
dos rios, em vez de serem affluentes: em vez de concentração, dispersão.
Essa disposição é que faz a solidariedade dos ventos e a unidade da
atmosphera. Uma molecula deslocada desloca outra molecula. Os ventos
agitam todos juntos. A estas profundas causas do amalgama, acrescentai
o relevo do globo, rasgando a atmosphera com todas as suas montanhas,
fazendo nós e torções nas carreiras do vento e determinando em todos os
sentidos as contra-correntes. Irradiação illimitada.
O phenomeno do vento é a oscilação de dous oceanos um sobre outro;
o oceano do ar, sobreposto ao oceano de agua, apoia-se nessa fuga e
vacilla nessa vacillação.
O indivisivel não usa compartimentos. Não ha tabique entre uma onda e
outra. As ilhas da Mancha sentem o empurrão do Cabo de Boa Esperança. A
navegação universal faz frente a um monstro unico. Todo o mar é uma só
hydra. As vagas cobrem o mar de uma especie de escama. Oceano é Ceto.
Nessa unidade abate-se o inumeravel.
IV
TURBA, TURMA
Para a bussola ha trinta e dous ventos, isto é, trinta e duas
direcções; mas essas direcções podem subdividir-se indefinidamente. O
vento classificado por direcções, é o incalculavel; classificado por
especies, é o infinito.
Homero recuaria ante esse recenceamento.
A corrente polar roça na corrente tropical. Eis o frio e o calor
combinados, o equilibrio começa pelo choque, sahe a onda dos ventos,
inchada, esparsa e toda dilacerada em jorros medonhos. A dispersão dos
tufões sacode nos quatro cantos do horisonte o prodigioso esgadelhado
do ar.
Ahi estão todos os rumos; o vento de Gulf-Stream que despeja tanta
nevoa na Terra Nova: o vento do Perú, região de céo mudo onde jamais
se ouviram trovoadas; o vento da Nova Escocia onde vôa o grande Auk,
_Alca impennis_, de bico riscado; os turbilhões de Ferro dos mares da
China; o vento de Moçambique que maltrata os juncos; o vento electrico
do Japão denunciado pelo gong; o vento da Africa que habita entre a
montanha da Mesa e a montanha do Diabo, e que se desencadea dahi; o
vento do equador que passa por cima dos ventos regulares, e traça
uma parabola cujo cimo fica a oeste; o vento plutonico que sahe das
crateras e que é o temivel sopro das chammas; o extranho vento proprio
do volcão Awa que faz sempre surgir do norte uma nuvem azeitonada; a
monção de Java, contra a qual estão construidas aquellas casamatas
chamadas _casas do furacão_; a brisa ramificada que os inglezes chamam
_busk_, bebida; os grãos arqueados do estreito de Malaca observados
por Horsfurgh; o possante vento de sudoeste, chamado Pampero no Chile,
e Rebojo em Buenos-Ayres, que carrega o condor em pleno mar e o
salva da cova onde o esperava, debaixo de uma pelle de boi arrancada
de fresco, o selvagem deitado de costas e retesando o arco com os
pés; o vento chimico que, segundo Lemery, faz nas nuvens pedras de
trovoada; o hermatan do Caffres; o sopra-neves polar, que se prende
aos eternos gelos e os arrasta; o vento do golpho de Bengala que vai
até Nijni-Novogorod devastar o triangulo das barracas de pão onde se
faz a feira da Asia; o vento das cordilheiras, agitador das grandes
vagas e das grandes florestas; o vento dos archipelagos da Australia
onde os caçadores de mel arrancam as colmêas silvestres escondidas nos
galhos do eucalyptus gigante; o sirocco; o mistral; o hurricana; o
vento de secca; os ventos de innundação; os diluvianos; os torridos;
os que lançam nas ruas de Genova a poeira das planicies do Brazil;
os que obedecem á rotação diurna; os que a contrariam e fazem dizer
a Herrera: _Malo viento torna contra el sol_; os que vão aos pares,
para destruir, desfazendo um o que o outro faz; e aquelles ventos
antigos que assaltaram Colombo na costa de Veraguas; e os que durante
quarenta dias, desde 21 de Outubro a 28 de Novembro de 1520, puzeram em
questão Magalhães abordando o Pacifico, e os que desfizeram a Armada, e
sopraram sobre Philippe II.
Outros ventos mais, e como achar-lhes o fim? Os ventos carregadores
de sapos e gafanhotos que sopram nuvens e bichos por cima do oceano;
os que operam o que se chama _salto de vento_ e que tem por tarefa
acabar com os naufragos; os que, com um sopro unico, deslocam a carga
do navio e o obrigam a continuar viagem todo inclinado; os ventos que
construem os circumcumuli; os ventos que construem os circumstrati;
os pesados ventos cegos, tumidos de chuva; os ventos do graniso; os
ventos da febre; os ventos cuja approximação faz ferver os salsos e
os solfatarios de Calabria; os ventos que fazem brilhar o pello das
pantheras de Africa andando nos espinheiros do cabo de Ferro; os que
vem sacudindo fóra da sua nuvem, como uma lingoa trigonocephala, o
temivel relampago de forquilha; os que trazem neves negras. Tal é o
exercito.
O escolho Douvres, no momento em que Gilliatt construia o quebra-mar,
ouvia-lhes o galopo longinquo.
Já o dissemos, o Vento compõe-se de todos os ventos.
Acercava-se toda aquella horda.
De um lado, essa legião.
Do outro, Gilliatt.
V
GILLIATT PÓDE ESCOLHER
As mysteriosas forças escolheram bem o momento.
O acaso, se é que existe, é habil.
Emquanto a _pança_ esteve guardada na angra do Homem, emquanto a
machina esteve mettida no casco da Durande, Gilliatt foi inexpugnavel.
A _pança_ estava em segurança, a machina estava abrigada; as Douvres,
que sustentavam a machina, condemnavam-n'a a uma destruição lenta,
mas protegiam-n'a contra uma surpreza. Em todos os casos, ficava a
Gilliatt um recurso. A machina destruida não destruia a Gilliatt. Tinha
a _pança_ para salvar-se.
Mas esperar que a _pança_ estivesse fóra do ancoradouro, onde era
inaccessivel, deixal-a pôr entre as Douvres, esperar que ella lá
estivesse presa tambem pelo escolho, consentir que Gilliatt operasse
o salvamento e o transporte da machina, não impedir esse maravilhoso
trabalho, consentir nesse triumpho, esse era o laço. Via-se agora, como
uma especie de lineamento sinistro, a sombria astucia do abysmo.
Agora, a machina, a _pança_, Gilliatt, estavam todos reunidos na viela
dos rochedos. Eram apenas um. A _pança_ esmigalhada no escolho, a
machina mettida a pique, Gilliat, affogado, era negocio de um esforço
unico num só ponto. Tudo podia ser desfeito de uma vez, ao mesmo tempo,
e sem dispersão; tudo podia ser destruido de um lance.
Não ha situação mais critica do que a de Gilliatt.
A sphynge possivel, que os sonhadores suspeitam estar no fundo da
sombra, parecia propor-lhe este dilemma.
Fica ou parte.
Partir era insensato, ficar era medonho.
VI
O COMBATE
Gilliatt trepou á grande Douvre.
Dahi via todo o mar.
Era sorprehendente o oeste. Sahia delle uma muralha. Muralha de
nuvem, tapando a extenção, subia lentamente do horisonte para o
zenith. Essa muralha rectilinea, vertical, sem um rombo no alto, sem
um rasgão na orla, parecia feita a esquadro, e esticada a corda. Era
nuvem semelhante a granito. O declive dessa nuvem, completamente
perpendicular na estremidade sul, dobrava-se um pouco para o norte,
como dobra uma folha, e offerecia o vago aspecto de um plano inclinado.
Alargava e crescia sem que a cymalha deixasse um instante de ser
paralella á linha do horisonte, quasi indistincta na obscuridade que se
ia fazendo. Essa muralha do ar subia de uma só peça e silenciosamente.
Nenhuma ondulação, nenhuma dobra, nenhuma saliencia. Era lugubre
aquella immobilidade em movimento. O sol, livido por traz de uma certa
transparencia morbida, alumiava aquelle lineamento de apocalipse. A
nuvem invadia já quasi metade do espaço. Dissera-se o medonho talude do
abysmo. Era uma como que levantar de montanha de sombra entre a terra e
o céo.
Era em pleno dia a ascenção da noite.
Havia no ar um calor de fogão. Uma lixivia de estufa sahia daquelle
amontoado mysterioso. O céo, que de azul tornára-se branco, de branco
tornou-se cinzento. Dissera-se uma grande ardosia. Embaixo o mar escuro
e de chumbo, era outra ardosia enorme. Nem um sopro, nem um rumor. Ao
longe o mar deserto. Nenhuma vela. Os passaros tinham-se escondido.
Sentia-se a traição do infinito.
O crescimento de toda aquella sombra amplificava-se insensivelmente.
A montanha movediça de vapores que se dirigia para as Douvres, era uma
dessas nuvens que se podem chamar nuvens de combate. Nuvens vesgas.
Atravez daquelles amontoados escuros, extranho estrabismo fita o homem.
Temivel era a approximação.
Gilliatt examinou firmemente a nuvem e murmurou entre dentes: «Tenho
sede, vás dar-me agua.»
Ficou alguns momentos immovel com os olhos fitos na nuvem. Parecia
medir a tempestade.
Tinha o barrete no bolso, tirou-o e pol-o na cabeça. Tirou do buraco,
onde por tanto tempo dormira, o fato de reserva, e vestio tudo, grevas
e capotão, como um cavalleiro veste a armadura para entrar em combate.
Sabem que perdera os sapatos, mas os pés descalços tinham-se endurecido
nos rochedos.
Preparado o vestuario de guerra, contemplou elle o quebra-mar, empunhou
vivamente a corda de nós, desceu da platafórma das Douvres, tomou pé
nas rochas debaixo, e correu ao deposito. Instantes depois trabalhava.
A vasta nuvem muda pôde ouvir-lhe os sons do martello. Que fazia
Gilliatt? Com o resto dos prégos, cordas e vigas, construia na abertura
de leste uma segunda porta de dez a doze pés por traz da primeira.
Profundo era o silencio. Os talos de herva nas fendas do escolho nem
mesmo tremiam.
Subitamente o sol desappareceu. Gilliatt levantou a cabeça.
A nuvem ascendente acabava de attingir o sol. Foi como que uma extinção
da luz substituida por uma reverberação mesclada e pallida.
A muralha de nuvem mudara de aspecto. Já não tinha unidade.
Encrespara-se horisontalmenle tocando o zenith, pendendo em todo
o resto do céo. Tinha agora divisões. A formação da tempestade
desenhava-se como em uma secção dividida. Distinguia-se as camadas da
chuva e os jazigos do granito. Não havia relampago, mas um horrivel
clarão espesso; porque a idéa do horror póde ligar-se á idéa da luz.
Ouvia-se o vago respirar da tempestade. Aquelle silencio palpitava
obscuramente. Gilliatt, tambem silencioso, via agruparem-se por cima
delle todos aquelles montões de bruma e compôr-se a difformidade das
nuvens. No horisonte pesava e estendia-se uma facha de nevoeiro côr de
cinza, e no zenith uma facha côr de chumbo; lividos farrapos pendiam
das nuvens de cima sobre os nevoeiros debaixo. O fundo, que era a
parede de nuvens, estava baço, leitoso, terreo, livido, indescriptivel.
Uma delgada e alvacenta nuvem transversal, vinda não se sabe donde,
cortava obliquamente, de norte a sul, a alta muralha sombria. Uma das
extremidades dessa nuvem arrastava no mar. No ponto em que tocava na
compressão das nuvens, via-se na obscuridade, um abafamento de vapor
vermelho. Por baixo da longa nuvem pallida, pequenas nuvens, mui
baixas e pretas, voavam em sentido inverso umas das outras como se
não soubessem para onde iriam. A possante nuvem do fundo crescia de
todas as partes a um tempo, augmentava o eclipse, e continuava a sua
interposição lugubre. A leste, por traz de Gilliatt, havia apenas um
portal de céo claro que ia ser fechado. Sem a menor impressão de vento,
passou uma extranha diffusão de penugem cinzenta, esparsa em migalhas,
como se algum passaro gigantesco acabasse de ser depennado por traz
daquelle muro de tenebras. Formou-se um tecto de negrume compacto
que, no extremo horisonte tocava no mar e misturava-se na noite.
Sentia-se alguma cousa que se avançava. Era vasta e pesada e medonha. A
obscuridade lornava-se mais espessa. De subito roncou immenso trovão.
Gilliatt sentio o abalo. Ha sonho no trovão. Essa realidade brutal na
região visionaria tem alguma cousa de terrifico. Acredita-se ouvir a
queda de um movel no aposento dos gigantes.
Nenhum flammejar electrico acompanhara o som. Foi um trovão negro.
Voltou o silencio. Houve uma especie de intervallo como quando
se toma posição. Depois um após outro, e lentamente, romperam-se
informes relampagos. Eram todos mudos. Nenhum rugido. Cada relampago
illuminava. A muralha de nuvens era agora um antro. Havia nella
abobadas, e arcarias. Viam-se traços. Esboçavam-se monstruosas cabeças;
distendiam-se pescoços; entreviam-se e desappareciam elephantes
carregados de torres. Uma columna de bruma, recta, redonda, com uma
fumaça branca em cima, simulava o cimo de um vapor collossal, engolido,
bufando debaixo da vaga fumegante. Ondulavam toalhas de nuvem.
Acreditava-se vêr dobras de bandeiras. No centro, debaixo de vermelhas
espessuras, mergulhava-se, immovel, um caroço de nevoeiro denso,
inerte, impenetravel ás faiscas electricas, especie de feto hediondo no
ventre da tempestade.