Cumpria impedir que a maré entrasse toda, impedir que esbarrasse embora
enchesse, tapar-lhe a passagem sem recusar-lhe a entrada, resistir-lhe
e ceder-lhe, previnir a compressão da onda na boca do rochedo, que
era o perigo, substituir a irrupção pela introducção, conter a raiva
e a brutalidade da vaga, obrigar aquella furia a ser tranquilla. Era
preciso substituir ao obstaculo que irrita, o obstaculo que applaca.
Gilliatt, com a destreza que tinha, mais forte que a força, executando
uma manobra de camello na montanha ou de macaco na floresta, utilisando
com saltos oscilantes e vertiginosos a menor saliencia de pedra,
pulando na agua, nadando nos rodomoinhos, trepando ao rochedo, com
uma corda nos dentes, um martello na mão, desatou o cabo que prendia
á pequena Douvre o pedaço da amurada de prôa da Durande, fez com as
pontas da maroma uma especie de gonzos prendendo aquelle pedaço de
madeira aos grandes pregos mettidos no granito, fez voltar naquelles
gonzos aquella armadura de taboas semelhante ao alçapão de um dique,
expôl-o em flanco, como se faz com um leme, á onda que impellia, e
applicou essa extremidade á grande Douvre, emquanto os gonzos de cordas
retinham na pequena Douvre a outra extremidade; operou na grande
Douvre, por meio de prégos, postos do antemão, a mesma fixação que na
pequena, amarrou solidamente essa vasta placa de madeira ao duplo pilar
da abertura, travou nessa barra uma corrente como um talabarte n'uma
couraça, e em menos de uma hora, levantou-se o obstaculo contra a maré,
e a viella do escolho ficou fechada como por uma porta.
Este robusto tapamento, pesada massa de pranchas, que deitado seria uma
jangada, e de pé era uma parede, foi, com auxilio da vaga, trabalhado
por Gilliatt com uma agilidade de saltimbanco. Podia-se dizer quasi que
a cousa foi feita antes que o mar se apercebesse disso.
Era um desses casos em que Jean Bart dizia o famoso dito que
elle dirigia á vaga do mar, cada vez que esquivava um naufragio:
_Apanhei-te, inglez!_ Sabe-se que Jean Bart quando queria insultar o
oceano chamava-o _inglez._
Tapado o estreito, Gilliatt cuidou da _pança._ Dividio o cabo nas duas
ancoras para que ella podesse subir com a maré. Operação analoga a que
os antigos maritimos chamavam: _mouiller avec des embossures._
Em tudo isto Gilliatt não foi sorprehendido, o caso estava previsto;
um homem do officio reconhecel-o-hia vendo as duas roldanas de guindar
mettidas por traz da pança, nas quaes passavam dous pequenos cabos
cujas pontas estavam presas ás argolas das duas ancoras.
Entretanto crescia a maré; já subira metade; é nesse momento que os
choques das ondas, mesmo placidos, podem ser rudes. O que Gilliatt
combinára realisou-se. A onda rolava violentamente para a porta,
encontrava-a, inchava epassava por cima. Fóra era o marulho. Dentro
a infiltração. Gilliatt imaginou alguma cousa semelhante ás forcas
caudinas do mar. A maré estava vencida.
VIII
MAIS PERIPECIA QUE DESENLACE
Chegára o tremendo instante.
Tratava-se agora de pôr a machina na _pança._
Gilliatt ficou pensativo alguns momentos, tendo o cotovello do braço
esquerdo na mão direita, e a fronte na mão esquerda.
Depois subio á Durande cuja metade, que era a machina, devia sahir e
cujo casco devia ficar.
Cortou os quatro cabos que prendiam a estibordo e a bombordo as quatro
correntes do cano. Como era corda bastou-lhe a faca.
As quatro correntes, livres, ficaram pendentes ao longo do cano.
Do navio subio elle ao apparelho que construira, bateu com o pé em
todas as pranchas, examinou as roldanas, vio as polés, apalpou os
cabos, verificou as emendas, assegurou-se de que o massame não estava
profundamente molhado, certificou-se de que nada faltava, nem estava
bambo, depois, pulando do alto das peças sobre o tombadilho, tomou
posição, ao pé do cabrestante, na parte da Durande que devia ficar nas
Douvres. Era esse o seu posto de trabalho.
Grave, sentindo sómente a commoção util, lançou um ultimo olhar ao
apparelho, depois tomou uma lima e pôz-se a cortar a corrente que
sustentava tudo.
Ouvia-se o ranger da lima no meio do murmurio do mar.
A corrente do cabrestante presa ao cabo regulador, ficava ao alcance da
mão de Gilliatt.
De repente houve um estalo. A argola que a lima cortava, já limada por
metade, tinha-se quebrado; todo o apparelho estava solto. Gilliatt teve
apenas tempo de agarrar o grande cabo.
A corrente quebrada bateu no rochedo, os oito cabos retezaram-se, toda
a massa cerrada e cortada desprendeu-se do navio, abrio-se o ventre
da Durande, o assoalho de ferro da machina, pesando sobre os cabos,
appareceu debaixo da quilha.
Se Gilliatt não tivesse chegado a tempo ao cabo regulador, havia uma
queda. Mas a sua mão terrivel estava lá; foi apenas uma descida.
Quando o irmão de Jean Bart, Pieter Bart, aquelle bebado possante
e sagaz, aquelle pobre pescador de Dunkerque que tratava o grande
almirante por tu, salvou a galera _Langeron_ perdida na bahia de
Ambleteuse, quando para tirar aquella pesada massa fluctuante dos
cachopos da bahia furiosa amarrou a vella grande com juncos marinhos,
quando elle quiz que os juncos, quebrando-se por si, abrissem a vella
ao vento, fiou-se na rotura dos juncos, como Gilliatt na fractura da
corrente, e foi a mesma estranha audacia coroada pela mesma victoria
surprehendente.
A corda motora segura por Gilliatt operou admiravelmente. Devem
lembrar-se que essa corda tinha por fim diminuir as forças convertidas
em uma só e reduzidas a um movimento de conjuncto. Aquella corda tinha
alguma relação com uma bolina; sómente em vez de onentar uma vela,
equilibrava um machinismo.
Gilliatt de pé, e com a mão no cabrestante, tinha por assim dizer a mão
no pulso do aparelho.
Aqui a invenção de Gilliatt, manifestou-se toda.
Produzio-se uma notavel coincidencia de forças.
Emquanto a machina da Durande, separada em massa, descia para a
_pança_, a _pança_ subia para a machina. O navio naufragado e o
barco salvador, ajudando-se em sentido inverso, iam encontrando-se.
Poupavam-se deste modo metade do trabalho.
A maré enchendo sem rumor entre as duas Douvres, levantava a embarcação
e aproximava-a da Durande. A maré estava mais que vencida, estava
domesticada. O oceano fazia parte do machinismo.
A vaga subindo, levantava a _pança_ sem choque, brandamente, quasi com
precaução e como se ella fosse de porcellana.
Gilliatt, combinava e proporcionava os dous trabalhos, o da agua e o
do apparelho, e, immovel no cabrestante, especie de estatua temivel
obedecida por todos os movimentos ao mesmo tempo, regulava a lentidão
da descida pela lentidão da subida.
Nenhum abalo na agua, nenhum balanço nas pranchas. Era uma estranha
collaboração de todas as forças naturaes dominadas. De um lado a
gravitação levava a machina; do outro a maré trazia o barco. A
attracção dos astros, que é o flux, e a attracção do globo, que é
a gravidade, pareciam harmonisar-se para servir a Gilliatt. A sua
subordinação, não tinha hesitação nem parada, e, debaixo da pressão
de uma alma, aquellas duas potencias passivas, tornavam-se activos
auxiliares. A obra caminhava de minuto a minuto; o intervallo entre a
_pança_ e a Duraude diminuia insensivelmente. Fazia-se a aproximação
em silencio e com uma especie de terror pelo homem que estava alli. O
elemento recebia uma ordem e executava-a.
Quasi no momento em que a maré cessou de subir, os cabos cessaram de
correr subitamente, mas sem commoção; as roldanas pararam. A machina,
como se fosse collocada á mão assentou-se no fundo da _pança._ Estava
direita, de pé, immovel, solida. A placa que a sustentava apoiava-se
com os seus quatro angulos e aprumo no porão.
Estava prompto.
Gilliatt olhou attonito.
A pobre creatura não tinha tido muitas alegrias em sua vida. Sentio o
alquebramento de uma immensa felicidade. Dobravam-se-lhe os membros; e
diante do seu triumpho, elle que não se perturbara até então, começou a
tremer.
Contemplou a _pança_ debaixo do navio e a machina dentro da _pança._
Parecia não acreditar. Dissera-se que elle não contava com aquillo.
Sahira-lhe um prodigio das mãos, e elle contemplava-o com espanto.
Mas esse espanto durou pouco.
Gilliatt teve o movimento de um homem que desperta, travou da serra,
cortou os oito cabos, depois, separado agora da _pança_ apenas uns dez
pés, deu um salto, cahio dentro, pegou em um rolo de fio, fez quatro
cabos, passou-os nas argolas preparadas de antemão, e prendeu por ambos
os lados da _pança_, as quatro correntes do cano que uma hora antes
ainda estavam presas na amurada da Durande.
Amarrado o cano, Gilliatt desembaraçou a parte superior da machina.
Um pedaço do tombadilho da Durande ainda alli estava preso. Gilliatt,
despregou-o e limpou a _pança_ daquella porção de taboas e vergas que
atirou sobre os rochedos. Util allivio.
Demais, como é de prever a _pança_ sustentou com firmeza a carga da
machina. Mergulhou muito pouca cousa. A machina da Durande, embora
massiça, era menos pesada que o montão de pedras e o canhão trazidos
outrora de Herm pela _pança._
Tudo estava acabado. Só restava ir-se embora.
IX
INTERROMPE-SE O EXITO
Nem tudo estava acabado.
Abrir a entrada das Douvres, fechada pelo pedaço da amurada da Durande,
e levar immediatamente a _pança_ para fóra do escolho, nada mais claro
do que isto.
No mar todos os minutos são urgentes. Pouco vento, apenas uma ruga ao
longe; a bella tarde promettia uma bella noite. O mar era de rosas, mas
o reflux começava; excellente momento para partir. Gilliatt teria a
vasanto para sahir das Douvres, e a enchente para entrar era Guernesey.
Podia estar em Saint-Sampson de madrugada.
Mas apresentou-se um obstaculo inesperado, Houve uma lacuna na
providencia de Gilliatt.
A machina estava livre, o cano estava preso.
A maré approximando a _pança_ da Durande, tinha diminuido os perigos
da descida; mas essa diminuição de intervallo deixou a parte superior
do cano mettida na especie de quadro que apresentava o bojo aberto da
Durande. O cano estava preso como entre quatro paredes.
O serviço prestado pelo mar complicava-se com esta dissimulação. Parece
que o mar, obrigado a obedecer, teve uma segunda tenção.
É verdade que aquillo que a enchente fizera, ia desfazel-o a vasante.
O cano, tendo mais de tres toezas de altura, tinha uns oito pés
mettidos na Durande; o nivel d'agua abi baixaria doze pés; o cano
descendo com a _pança_, teria quatro pés de espaço acima de si, e
poderia sahir.
Mas quanto tempo era preciso para isto? Seis horas.
D'ahi a seis horas seria meia-noite. Que meio tentaria Gilliatt para
sahir áquella hora, que canal tomaria atravez daquelles cachopos, já
tão inextrincaveis de dia, e como arriscar-se no meio da noite em
semelhante emboscada de bancos de pedras?
Era força esperar até o dia seguinte. Aquellas seis horas perdidas
faziam perder ao menos doze horas.
Era mesmo necessario não adiantar trabalho abrindo a entrada ao
cachopo. O tapamento era preciso até a maré proxima.
Gilliatt devia repousar.
Cruzar os braços, era a unica cousa que elle não tinha feito desde que
estava no escolho Douvres.
Irritou-o, indignou-o quasi, como se fosse culpa delle, aquelle
descanso. Disse comsigo: Que pensaria de mim Deruchette se me visse
aqui sem fazer nada?
Comtudo não lhe era inutil refazer as forças.
Estando a _pança_ á sua disposição, Gilliatt resolveu passar a noite á
bordo.
Foi buscar a pelle de carneiro no alto da grande Douvre, desceu, comeu
algumas conchas e duas ou tres castanhas do mar, bebeu por ter muita
sede os ultimos goles da agua doce do pichel quasi vasio, embrulhou-se
na pelle cuja lã deu-lhe prazer ao corpo, deitou-se como um cão de
guarda ao pé da machina, abaixou o chapéo sobre os olhos e adormeceu.
Dormio profundamente. Tem-se daquelles somnos depois das obras acabadas.
X
AS ADVERTENCIAS DO MAR
No meio da noite, bruscamente, e como por mola, Gilliatt acordou.
Abrio os olhos.
As Douvres, acima da cabeça delle, estavam illuminadas como pela
reverberação de uma grande brasa branca. Havia em toda a fachada negra
do escolho um reflexo de fogo.
D'onde vinha o fogo?
Da agua.
O mar estava extraordinario.
Parecia que a agua incendiava-se. Aonde os olhos alcançavam, no escolho
e fora do escolho, flammejava o oceano. Não era uma flamma vermelha;
não se parecia com a grande flamma viva das crateras e das fornalhas.
Nenhuma crepitação, nenhum ardor, nenhum avermelhado, nenhum ruido.
Rastilhos azulados imitavam n'agua as dobras de uma mortalha. Um grande
clarão livido, estremecia n'agua. Não era incendio; era o espectro
delle.
Era uma cousa semelhante ao abrazamento livido do interior de um
sepulchro por uma chamma ideal.
Imaginai trevas accesas.
A noite, a vasta noite turva e diffusa, parecia ser um combustivel
daquelle fogo gelado. Era uma claridade feita de cegueira. A sombra
entrava como elemento naquella luz phantasma.
Os marinheiros da Mancha, conhecem todas essas indescriptiveis
phosphorescencias, que advertem o navegante. Em parte alguma são mais
surprehendentes, do que no Grande V, perto de Isigny.
Diante desta luz as cousas perdem a realidade. Uma penetração
phantastica toma-as como que transparentes. Os rochedos são apenas
lineamentos. Os cabos das ancoras parecem barras de ferro ardentes. As
redes dos pescadores parecem um crivo de fogo debaixo d'agua. Metade do
remo é de ebano, a outra metade debaixo d'agua é de prata. Os pingos
d'agua que cahem dos remos fazem estrellas no mar. Todos os barcos
arrastam um cometa. Os marinheiros molhados e luminosos parecem homens
que ardem. Mergulha-se a mão no mar e sahe calçada de chamma: é uma
chamma morta, não se sente. O braço parece um tição aceso. Vê-se as
formas que estão no mar rolarem debaixo das vagas alumiadas. A espuma
scintilla. Os peixes são linguas de fogo, e uns pedaços de relampago
serpenteam n'aquella pallida profundidade.
Gilliatt acordou porque o clarão atravessou-lhe as palpebras fechadas.
Acordou a tempo.
A maré tinha descido; começava a encher de novo.
O cano da machina, solto durante o somno de Gilliatt, ficou outra vez
preso no casco do navio.
Subia lentamente.
Mais palmo e meio e o cano estaria dentro da Durande.
Para isso ainda havia meia hora. Gilliatt se quizesse aproveitar a
occasião tinha essa meia hora diante de si.
Levantou-se sobresaltado.
Por mais urgente que fosse a situação, elle não pôde deixar de ficar
alguns instantes de pé, contemplando a phosphorescencia e meditando.
Gilliatt conhecia o mar a fundo. Embora tivesse sido muito maltratado
por elle, o mar era já de muito tempo companheiro de Gilliatt. Aquelle
ente mysterioso que se chama oceano, não podia ter nenhuma idéa que
Gilliatt não a adevinhasse. Gilliatt, á força de observação, de scisma
e de solidão, tornára-se um vidente do tempo, aquillo que se chama em
inglez um _wheater wise._
Gilliatt correu ás amarras e guindou-as; depois já não estando
retido pelas ancoras, travou do croque da _pança_, e apoiando-se nas
rochas affastou-a para fóra algumas braças distante da Durande perto
do tapamento de taboas. Havia _rang_, como dizem os maritimos de
Guernesey. Em menos de dez minutos a _pança_ estava fóra do casco. Já
não havia receio de que o cano podesse ficar preso.
Entretanto Gilliatt, não se mostrava disposto a partir.
Contemplou ainda a phosphorescencia e levantou as ancoras; mas não era
para navegar, era para ancorar de novo a _pança_, e muito solidamente;
é verdade que o barco ficou junto da porta.
Até então só tinha usado das duas ancoras da _pança_, e não tinha
ainda empregado a pequena ancora da Durande, achada como se sabe nos
cachopos. Essa collocou-a elle, prompta para as urgencias, num canto
da _pança_ entre maromas e polés, e juntamente o cabo guarnecido de
boças. Gilliatt deitou ao mar essa terceira ancora tendo cuidado de
prender o cabo a outro cabo pequeno, cuja ponta passava na argola da
ancora ficando a outra ponta no ferro de guindar. Deste modo amarrou
a _pança_ com tres ancoras o que era mui forte. Indicava isto uma
viva preoccupação e um redobrar de cautelas. Qualquer marinheiro
reconheceria nessa operação, alguma cousa semelhante a um deitar ferros
obrigado, quando ha a receiar uma corrente que possa fazer garrar o
navio.
A phosphorescencia sobre a qual Gilliatt tinha os olhos fixos,
ameaçava-o talvez, mas ao mesmo tempo servia-o. Se não fosse ella,
Gilliatt era prisioneiro do somno e victima da morte. Ella não só o
dispertou, senão que o alumiava tambem.
Havia no escolho uma luz opaca. Mas esse clarão, por mais assustador
que parecesse a Gilliatt, foi-lhe util porque tornou-lhe o perigo
visivel e a manobra possivel.
Agora quando Gilliatt quizesse abrir vella, a _pança_, carregando a
machina, estava livre.
Sómente, Gilliatt parecia pensar cada vez menos em partir. Ancorada a
pança, foi elle buscar a mais forte corrente que tinha no deposito e
prendeu-a nos pregos mettidos nas duas Douvres, fortificou com ella o
baluarte de vergas e barrotes já protegido pela lado de fora pela outra
corrente. Longe de abrir caminho, Gilliatt tapava-o.
A phosphorescencia ainda illuminava, mais ia diminuindo. É verdade que
o dia começava a romper.
De repente Gilliatt prestou ouvidos.
XI
PARA UM BOM ENTENDEDOR, MEIA PALAVRA BASTA
Pareceu-lhe ouvir, immensamente longe, um quê fraco e indistincto.
As profundezas, em certas horas, tem um certo rugido.
Gilliatt attentou pela segunda vez. O rumor longiquo recomeçou.
Gilliatt sacudio a cabeia como quem sabia o que era.
Momentos depois, estava elle na outra extremidade da viella do escolho,
na entrada de leste, livre até alli, e com grandes martelladas, metteu
grossos prégos no granito dos portaes daquella abertura visinha do
rochedo Homem.
Os buracos desses rochedos estavam preparados e guarnecidos de
cavilhas de madeira, quasi tudo carvalho. O escolho desse lado estava
escalavrado, tinha muitas fendas, e Gilliatt pôde metter ahi mais
pregos ainda que no esvasamento das Douvres.
N'um momento dado, e como se lhe soprassem de cima, a phosphorescencia
apagou-se; o crepusculo, cada vez mais luminoso, substituia-a.
Mettidos os pregos, Gilliatt arrastou umas pranchas, depois cordas,
depois correntes, e sem desviar os olhos do trabalho, sem se distrahir
um momento, começou a construir na abertura do Homem, com taboas
fixadas horisontalmente e presas por cabos, um desses tapamentos de
claraboia, que a sciencia já adoptou, e qualifica de quebra-mar.
Os que viram, por exemplo, na Rocquaine em Guernesey, ou no Boury-d'eau
em França, o effeito que fazem algumas estacas pregadas no rochedo,
comprehendem a força desses trabalhos simplices. O quebra-mar é a
combinação daquillo que em França se chama _epi_, e daquillo que na
Inglaterra se chama _dick._ O quebra-mar são os cavallos de frisa das
fortificações contra as tempestades. Não se póde lutar contra o mar
senão aproveitando a divisibilidade dessa força.
Entretanto levantara-se o sol, perfeitamente puro. O dia estava claro,
o mar calmo.
Gilliatt apressava o trabalho. Tambem elle estava calmo, mas na sua
pressa havia anciedade.
Passava, em grandes pulos de rocha em rocha, do tapamento ao deposito
e do deposito ao tapamento. Voltava puxando apressadamente, ora um
gancho, ora um cabo. Manifestou-se então a necessidade daquelle
deposito de destroços. Era evidente que Gilliatt estava diante de uma
eventualidade prevista.
Uma forte barra de ferro servia-lhe de alavanca para mover os barrotes.
O trabalho executava-se tão depressa que mais parecia um crescimento
que uma construcção. Quem não vio trabalhar um postageiro militar não
póde fazer idéa daquella rapidez.
A abertura de leste era ainda mais estreita que a de oeste. Tinha
apenas cinco ou seis pés de largura. A estreiteza ajudava Gilliatt.
Sendo estreito o espaço que tinha de fortificar e fechar, a armadura
seria mais solida e podia ser mais simples. Bastavam pois vigas
horisontaes; as peças verticaes eram inuteis.
Postos os primeiros travessões do quebra-mar, Gilliatt trepou em cima e
escutou.
O rugido tornava-se expressivo.
Gilliatt continuou a construcção. Accrescentou-lhe dous cepos da
Durande ligados ás pontas das vigas com adrissas passadas nas tres
rodas das polés. Ligou tudo com correntes.
Essa construcção era nada menos que uma especie de grade collossal; as
pranchas eram as tenazes e as correntes eram os vimes.
Parecia entrançado como parecia construido.
Gilliatt multiplicou os laços e pôz mais prégos onde era preciso.
Tendo muito ferro redondo na Durande, pôde fazer uma grande provisão
desses pregos.
Ao mesmo tempo que trabalhava ia mastigando biscouto. Tinha sede, mas
não podia beber, por já não ter agua doce. Esgotára o pichel na noite
anterior.
Accrescentou ainda quatro ou cinco taboas, depois trepou em cima de
tudo. Escutou.
Cessou o rumor ao longe e calava-se tudo.
O mar estava manso e soberbo; merecia todos os madrigaes que lhe
dirigem os burguezes quando estão contentes com elle,--_um espelho,--um
mar de rosas,--um tanque,--um mar de leite._--O azul profundo do céo
correspondia ao verde profundo do oceano. Aquella saphira e aquella
esmeralda podiam admirar-se ambas. Não tinham de que exprobrar-se.
Nenhuma nuvem em cima, nenhuma espuma em baixo. No meio desse esplendor
subia magnificamente o sol de Abril. Era impossivel ver mais bello dia.
No extremo horisonte uma fila negra de aves de arribação atravessava o
céo. Iam depressa. Dirigiam-se para a terra. Parecia uma fuga.
Gilliatt continuou a levantar o quebra-mar.
Levantou-o o mais que pôde, tão alto como lhe permittio a curvatura dos
rochedos.
Ao meio-dia o sol pareceu-lhe mais quente do que devia estar. Meio-dia
é a hora critica do dia. Gilliatt, de pé na robusta clara-boia que
acabava de construir, entrou a contemplar a extensão.
O mar estava mais que tranquillo, estava estagnado. Não se via uma
vela. O céo estava limpido; somente o azul tornara-se mais branco. Era
um branco singular. No horisonte, a oeste, havia uma manchasinha de
apparencia ruim. Essa mancha estava immovel, mas crescia. Junto dos
cachopos o mar palpitava brandamente.
Gilliatt fizera bem em construir o quebra-mar.
Approximava-se uma tempestade.
O abysmo resolvera dar batalha.
FIM DO 2° VOLUME.
TRABALHADORES DO MAR
POR
VICTOR HUGO
traduzido por Machado de Assis
3° TOMO
RIO DE JANEIRO
TYP.--PERSEVERANÇA--RUA DO HOSPICIO N. 91.
1866.
SEGUNDA PARTE
O engenhoso Gilliatt
LIVRO TERCEIRO
A luta
I
O EXTREMO TOCA O EXTREMO E O CONTRARIO ANNUNCIA O CONTRARIO
Nada tão ameaçador como o equinoxio que retarda.
Ha no mar um phenomeno medonho que se póde chamar a chegada dos ventos
do largo.
Em todas as estações, especialmente na época das syzygias, no momento
em que menos se espera, o mar apresenta uma subita e estranha
tranquillidade. Applaca-se aquelle prodigioso movimento continuo; cahe
em madorna e languidez; parece que vai descançar: crer-se-hia que
está fatigado. Todos os trapos marinhos, desde as flamulas de pesca,
até ás insignias de guerra, pendem ao longo dos mastros. Os pavilhões
almirantes, reaes, imperiaes, dormem todos.
De repente esses pannos começam a mexer-se discretamente.
É a hora, se ha nuvens, de espreitar a formação dos cirrus; se o sol se
põe, é a hora de examinar a côr da tarde; se é de noite e ha luar, é a
hora de estudar as aureolas planetarias.
Nessa hora, o capitão ou chefe de esquadra que tem a fortuna de possuir
um desses vidros de tempestade cujo inventor não se conhece, observa
o vidro com o microscopio e toma as suas precauções contra o vento do
sul, se a mistura tem aspecto de assucar fundido; e contra o vento
do norte, se a mistura se esfolha em crystallisações semelhantes aos
tuffos de hervas ou aos bosques de pinheiro. Nessa hora, depois de
ter consultado o gnomon mysterioso gravado pelos romanos, ou pelos
demonios, n'uma dessas estreitas pedras enigmaticas que na Bretanha se
chama menhir, e na Irlanda cruach, o pobre pescador irlandez ou bretão
retira a sua barça do mar.