tinha arrepios de frio. Queimava-o o fogo, gelava-o a agua, a sêde
causava-lhe febre, o vento rasgava-lhe a roupa, a fome minava-lhe o
estomago. Elle supportava a oppressão era um conjuncto fatigante. O
obstaculo, tranquillo, vasto, tendo a irresponsabilidade apparente da
fatalidade, mas cheio de uma unanimidade feroz, convergia de todas as
partes sobre Gilliatt. Gilliatt sentia-o apoiado inexoravelmente sobre
elle. Nenhum meio de escapar-lhe. Era quasi uma entidade. Gilliatt
tinha consciencia de um desprezo sombrio e de um odio que fazia
esforço por diminui-lo. Dependia delle fugir, mas, pois que ficava,
tinha de lutar com a hostilidade impenetravel. Não podendo po-lo fóra
d'alli, punham-n'o debaixo dos pés. Quem? O Ignoto. Apertavam-n'o,
comprimiam-n'o, tiravam-lhe lugar e alento. Estava abatido pelo
invisivel. Cada dia, a mysteriosa verruma entrava um pedaço.
A situação de Gilliatt naquelle medonho lugar assemelhava-se a um duelo
equivoco com um traidor.
Cercava-o a coalição das forças obscuras. Elle sentia uma resolução de
alguem para expulsal-o dalli. É assim que a geleira expelle a massa
erratica.
Quasi sem parecer que o tocava, essa coalição latente punha-o em
farrapos, cheio de sangue, falho de recursos, e por assim dizer, fóra
de combate antes do combate. Nem por isso deixava elle de trabalhar,
e sem cessar, mas á proporção que a obra se fazia, ia-se desfazendo
o operario, Dissera-se que aquella feroz natureza, receiando a alma,
resolvera-se a extenuar o homem. Gilliatt affrontava, e esperava. O
abysmo começava por cançalo. Que faria depois o abysmo?
A dupla Douvres, dragão de granito e emboscado em pleno mar, admitira
Gilliatt. Deixou-o entrar e trabalhar. A admissão assemelhava-se á
hospitalidade de um sorvedouro aberto.
O deserto, a extenção, o espaço onde ha para o homem tantos recursos,
a inclemencia muda dos phenomenos seguindo o seu curso, a grande lei
geral implacavel e passiva, o flux e o reflux, o escolho, pleiada
negra onde cada ponto é uma estrella de turbilhões, centro de uma
irradiação e correntes, a conspiração da indifferença das cousas
contra a tenacidade de um ente, o inferno, as nuvens, o mar sitiante,
cercavam Gilliatt, apertavam-n'o lentamente, fechavam-se sobre elle,
e o separavam dos vivos, como um carcere que fosse subindo á roda
de um homem. Tudo contra elle, nada a favor delle; estava isolado,
abandonado, minado, esquecido.
Gilliatt tinha esgotado as provisões, as ferramentas já estavam usadas,
a sede e a fome de dia, o frio de noite, feridas e andrajos, vestidos
rotos cobrindo suppurações, buracos nas roupas e na carne, mãos
dilaceradas; pés sangrentos, membros magros, rosto livido, uma flamma
nos olhos.
Flamma soberba essa, era a vontade visivel. O olho do homem é feito
de modo que se lhe vê por elle a virtude. A nossa pupilla diz que
quantidade de homens ha dentro de nós. Affirmamo-nos pela luz que fica
debaixo da sobrancelha. As pequenas consciencias piscam o olho, as
grandes lançam raios. Se não ha nada que brilhe debaixo da palpebra,
é que nada ha que pense no cerebro, é que nada ha que ame no coração.
Quem ama quer, e aquelle que quer relampeja e scintilla. A resolução
enche os olhos de fogo; admiravel fogo que se compõe da combustão dos
pensamentos timidos.
Os teimosos são os sublimes. Quem é apenas bravo tem só um assomo,
quem é apenas valente tem só um temperamento, quem é apenas corajoso
tem só uma virtude; o obstinado na verdade tem a grandeza. Quasi todo
o segredo dos grandes corações está nesta palavra:--Perseverando. A
perseverança está para a coragem como a roda para a alavanca; é a
renovação perpetua do ponto de apoio. Esteja na terra ou no céo o alvo
da vontade, a questão é ir a esse alvo; no primeiro caso, é Colombo, no
segundo caso, é Jesus. Insensata é a cruz; vem dahi a sua gloria. Não
deixar discutir a consciencia, nem desarmar a vontade, é assim que se
obtem o soffrimento e o triumpho. Na ordem dos factos moraes o cahir
não exclue o pairar. Da queda sabe a ascenção. Os mediocres deixam-se
perder pelo obstaculo especioso; não assim os fortes. Parecer é o
_talvez_ dos fortes, conquistar é a certeza delles. Pódes dar a Estevão
todas as boas razões para que elle não se faça apedrejar. O desdem das
objecções razoaveis crêa a sublime victoria vencida que se chama o
martyrio.
Todos os esforços de Gilliatt pareciam agarrados ao impossivel, o exito
era mesquinho ou lento, e cumpria gastar muito para obter pouco; isso é
que o fazia magnanimo, isso é que o fazia pathetico.
Que para fazer um andaime de quatro pranchas acima de um navio
naufragado, para cortar nesse navio a parte que se podia salvar,
para ajustar a esse resto dos restos quatro guindastes com os seus
cabos, fossem precisos tantos preparativos, tantos trabalhos, tantas
apalpadellas, tantas noites mal dormidas, tantos dias afadigados, essa
era a miseria do trabalho solitario. Fatalidade na causa, necessidade
no effeito. Gilliatt fez mais do que aceitar essa miseria; quil-a.
Temendo um concurrente, porque um concurrente poderia ser um rival, não
procurou auxiliar. A esmagadora empreza, o risco, o perigo, o trabalho
multiplicado por si mesmo, o engolimento possivel do salvador no
salvamento, a fome, a febre, a nudez, o abandono, tudo isso tomou elle
para si só. Teve este egoismo.
Gilliatt estava debaixo de uma especie de machina pneumatica. A
vitalidade ia-se retirando delle a pouco e pouco. E elle mal o sentia.
A perda das forças não esgota a vontade. Crer é apenas a segunda
potencia; a primeira é querer; as montanhas proverbiaes que a fé
transporta nada valem ao lado do que a vontade produz. O que Gilliatt
perdia em vigor, rehavia em tenacidade. A diminuição do homem physico
debaixo da acção repellente daquella natureza selvagem produzia o
engrandecimento do homem moral.
Gilliatt não sentia a fadiga, ou para melhor dizer, não consentia
nella. O consentimento da alma recusado ao desfalecimento do corpo é
uma força immensa.
Gilliatt via os progressos do trabalho, e não via nada mais. Era
miseravel sem sabel-o. O seu alvo, que elle tocava quasi, allucinava-o,
soffria todos os soffrimentos sem ter outra idéa que não fosse esta:
Avante! A sua obra subia-lhe á cabeça. Vontade embriagada. O homem póde
embriagar-se com a propria alma. Essa embriaguez chama-se heroismo.
Gilliatt era uma especie de Job do Oceano.
Mas um Job que lutava, um Job que combatia e affrontava os flagellos,
um Job que conquistava, e se taes palavras não são demasiado grandes
para um pobre marinheiro pescador de carangueijos A de lagostas, um Job
Prometheu.
V
SUB UMBRA
Ás vezes, alta noite, Gilliatt abria os olhos e olhava para a sombra.
Sentia-se extremamente commovido.
Olhar aberto sobre trevas. Situação lugubre: anciedade.
Existe a pressão da sombra.
Inexprimivel tecto de tenebras; alta obscuridade sem mergulhador
possivel; luz mesclada á obscuridade, mas uma luz vencida e sombria;
claridade reduzida a pó; é semente? é cinza? milhões de fachos,
claridade nulla; vasta ignição que não diz o seu segredo, uma diffusão
de fogo em poeira que parece um bando de faiscas paradas, a desordem
do turbilhão e a immobilidade do sepulchro, o problema offerecendo uma
abertura de precipicio, o enigma desvendando e escondendo a sua face,
o infinito mascarado com a escuridão, eis a noite. Pesa no homem esta
superposição.
Esse amalgama de todos os mysterios a um tempo, do mysterio cosmico e
do mysterio fatal, abate a cabeça humana.
A pressão da sombra actúa em sentido inverso nas differentes especies
de almas. O homem diante da noite reconhece-se incompleto. Vê a
obscuridade e sente a enfermidade. O céo negro é o homem cégo.
Entretanto com a noite, o homem abate-se, ajoelha-se, prostorna-se,
roja-se, arrasta-se para um buraco, ou procura azas. Quasi sempre quer
fugir a essa presença informe do desconhecido. Pergunta o que é; treme,
curva-se, ignora; ás vezes quer ir lá.
Aonde?
Lá.
Lá? O que é? Que ha lá?
Essa curiosidade é evidentemente a das cousas defezas, porque para
aquelle lado todas as pontes á roda do homem estão cortadas. Mas o
desejo attrahe, porque é golphão. Onde não vae o pé, vae o olhar,
onde o olhar pára, póde continuar o espirito. Não ha homem qne não
tente, por mais fraco e insufficiente que seja. O homem, segundo a
sua natureza, investiga ou espera diante da noite. Para uns é um
rechaçamento, para outros é uma dilatação. O espectaculo é sombrio.
Mescla-se a elle o indefinivel.
Vai a noite serena? É um fundo de sombra. Vai tempestuosa? É um fundo
de fumaça. O illimitado recusa-se e offerece-se ao mesmo tempo, fechado
à experiencia, aberto á conjectura. Infinitas picadas de luz tornam
mais negra a obscuridade sem fundo. Carbunculos, scintillações, astros.
Presenças verificadas no Ignorado; tremendos reptos para ir tocar esses
clarões. São estacas da creação no absoluto; são marcos de distancia
lá onde já não ha distancia; é uma especie de numeração impossivel,
e todavia real, do canal das profundezas. Um ponto microscopico que
fulge, depois outro, mais outro, mais outro; é o imperceptivel, é o
enorme. Essa luz é um fóco, esse fóco é uma estrella, essa estrella é
um sol, esse sol é um universo, esse universo é nada. Todo o numero é
zero diante do infinito.
Esses universos, que nada são, existem. Verificando-os, sente-se a
diferença que vai entre ser nada, e não ser.
O inaccessivel ligado ao inexplicavel, eis o céo.
Dessa contemplação solta-se um phenomeno sublime: o crescimento da alma
pelo assombro. O medo sagrado é proprio do homem; a besta ignora esse
medo. A intelligencia acha nesse terror augusto o seu eclipse e a sua
prova.
A sombra é una: vem dahi o seu horror, É ao mesmo tempo complexa: vem
dahi o terror. A sua unidade pesa no nosso espirito e sacca-lhe a
vontade de resistir.
A complexidade faz com que se olhe para todos os lados; parece que
se devem receiar assaltos subitos. O homem rende-se, e defende-se,
Fica em presença de Tudo, dahi vem a submissão, e de Muitos, dahi
vem a desconfiança. A unidade da sombra contém um multiplo. Multiplo
mysterioso, visivel na materia, sensivel no pensamento. Faz silencio,
razão de mais para espreitar.
A noite,--já o disse algures quem escreve estas linhas,--é o estado
proprio, normal da creação especial de que fazemos parte. O dia, breve
na duração como no espaço, é apenas uma proximidade de estrella.
O prodigio nocturno universal não se realiza sem attritos, e os
attritos de uma tal machina são as contusões da vida. Os attritos da
machina, é o que chamamos o Mal. Sentimos nessa obscuridade o mal,
desmentido latente da ordem divina, blasphemia implicita do facto
rebelde ao ideal. O mal accrescenta uma teratologia de mil cabeças ao
vasto conjunto cosmico. O mal está presente em tudo para protestar.
É furacão, e atormenta a marcha de um navio, é cahos e entrava o
desabrochar de um mundo. O Bem tem a unidade, o Mal tem a ubiquidade.
O mal desconcerta a vida, que é uma logica. Faz devorar a mosca pelo
passaro, e o planeta pelo cometa. O mal é um borrão na natureza.
A obscuridade nocturna peja-se de uma vertigem. Quem a aprofunda,
submerge-se e debate-se. Não ha fadiga comparavel a esse exame de
trevas. É o estudo de um apagamento.
Não ha lugar definitivo para pousar o espirito. Pontos de partida sem
ponto de chegada. O cruzamento das soluções contradictorias, todos os
ramos da duvida a um tempo, a ramificação dos phenomenos esfoliando-se
sem limite sob uma impulsão indefinida, mistura de todas as leis,
uma promiscuidade insondavel que faz com que a mineralisação vegete,
com que a vegetação viva, com que o pensamento pese, com que o amor
irradie, e a gravitação ame; a immensa fronte de ataque de todas as
questões desenvolvendo-se na obscuridade sem limites; o entrevisto
esboçando o ignorado; a simultaneidade cosmica em plena apparição,
não para o olhar, mas para a intelligencia, no espaço indistincto;
o invisivel tornado visão. É a Sombra. O homem está embaixo. Não
conhece os pormenores, mas supporta, em qualidade proporcionada ao
seu espirito, o peso monstruoso do conjunto. Esta obsessão impelia os
pastores chaldeus á astronomia. Sahem dos poros da creação revelações
involuntarias; faz-se por si mesma uma transudação de sciencia e invade
o ignorante. Debaixo dessa impregnação mysteriosa torna-se o solitario,
muitas vezes sem ter consciencia, um philosopho natural.
A obscuridade é indivisivel. É habitada. Habitada sem deslocação pelo
absoluto; habitada tambem com deslocação. Move-se alli dentro alguma
cousa, o que é para assustar. Uma formação sagrada desenvolve alli as
suas phazes. Premeditações, potencias, destinos intencionaes, laboram
ahi em commum uma obra desmedida. Vida terrivel e horrivel é o que
existe alli dentro. Ha vastas evoluções de astros, a familia stellaria,
a familia platenaria, o pollen Zodiacal, o Quid divinum das correntes,
dos effluvios, das polarisações e das alterações; ha o amplexo e o
antagonismo, um magnifico flux e reflux da antithese universal, o
imponderavel em liberdade no meio dos centros; ha a seiva nos globos,
a luz fora dos globos, o atomo errante, o germen esparso, curvas de
fecundação, encontros de ajuntamento e de combate, profusões inauditas,
distancias que parecem sonhos, circulações vertiginosas, mergulhos
de mundos no incalculavel, prodigios perseguindo-se nas trevas, um
machinismo definitivo, sopro de espheras em fuga, rodas que se sente
andarem; existe e esconde-se; é inexpugnavel, fora de alcance. Fica-se
convencido até á oppressão. Tem-se em si uma evidencia negra. Nada se
póde agarrar. Esmaga-nos o impalpavel.
Por toda a parte o incomprehensivel: em parte alguma o intelligivel.
E a tudo isto accrescentai a terrivel questão: esta Immanencia é um Ser?
Está-se debaixo da sombra. Olha-se. Escuta-se.
Entretanto a terra sombria caminha e rola, as flôres tem consciencia
desse movimento enorme; a silena abre-se ás onze horas da noite e a
emerocala ás cinco horas da manhã. Impressivel regularidade.
Em outros profundidades a gotta d'agua faz-se mundo, o infusorio
pulula, a fecundidade gigante sahe do animaculo, o imperceptivel
ostenta a sua grandeza, o sentido inverso da immensidade manifesta-se;
uma diatoméa produz em uma hora um milhar e trezentos milhões de
diatoméas.
Que proposição de todos os enigmas ao mesmo tempo!
Está ahi o irreductivel.
Constrange-se-nos á fé. Crer por força, eis o resultado. Mas para estar
tranquillo não basta ter fé. A fé tem uma estranha necessidade de
forma. Dahi vem as religiões. Nada é tão oppressivo como uma crença sem
delineamento.
Qualquer que seja o pensamento e a vontade, qualquer que seja a
resistencia interior, olhar a sombra, não é olhar, é contemplar.
Que fazer desses phenomenos? Como mover-se debaixo de sua convergencia?
É impossivel decompôr esta pressão. Que devaneio se deve ajuntar a
todos esses confinantes mysteriosos? Quantas revelações abstrusas,
simultaneas, obscurecendo-se em sua propria multidão, especie de
balbuciar do verbo! A sombra é um silencio: mas esse silencio diz
tudo. Surge magestosamente um resultado: Deos. Deos é a noção
incomprehensivel. Essa noção está no homem. Os syllogismos, as
querellas, as negações, os systemas, as religiões, passam por cima
sem diminuil-a. A sombra inteira affirma aquella noção. Mas turva-se
tudo o mais. Immanencia formidavel. A inexprimivel harmonia das forças
manifesta-se pelo equilibrio dessa obscuridade. O universo pende; nada
tomba. O deslocamento incessante e desmedido opera-se sem accidente
e sem fractura. O homem participa deste movimento de translação e
á quantidade de oscilação que supporta, chama elle destino. Onde
começa o destino? Onde acaba a natureza? Que differença ha entre um
acontecimento e uma estação, entre um pezar e uma chuva, entre uma
virtude e uma estrella? Uma hora não é uma onda? Continúa o movimento
da roda, sem responder ao homem, em sua revolução impassivel. O céo
estrellado é uma visão de rodas, de pendulas e de contra pesos. É a
contemplação suprema, forrada da suprema meditação. É toda a realidade
e mais a abstracção. Nada além dahi. O homem sente-se preso. Fica
á discrição da sombra. Não ha evasão possivel. Vê-se elle naquelle
composto de rodas, é parte integrante de um Todo ignorado, sente o
desconhecido que está fora delle. Isto é o annuncio sublime da morte.
Que angustia e ao mesmo tempo que fascinação! Adherir ao infinito, e
por essa adherencia attribuir-se uma immortalidade necessaria, quem
sabe? uma eternidade possivel, sentir na prodigiosa vaga desse silencio
universal a obstinação insubmersivel do eu! contemplar os astros, e
dizer: Sou uma alma como vós! contemplar a obscuridade e dizer: sou um
abysmo com tú.
Essas enormidades são a noite.
Tudo isso augmentado, pela solidão, pesava em Gilliatt.
Comprehendia-o elle? Não. Sentia-o? Sim.
Gilliatt era um grande espirito turvado e um grande coração selvagem.
VI
GILLIATT COLLOCA A PANÇA EM POSIÇÃO
O salvamento da machina, meditado por Gilliatt, era, como dissemos, uma
verdadeira evasão, e são conhecidas as paciencias da evasão. Tambem se
conhecem as suas industrias. A industria chega ao milagre; a paciencia
attinge á agonia. Tal prisioneiro, Thomas, por exemplo, no monte S.
Miguel, achou meio de esconder metade de uma parede dentro da palha em
que dormia. Outro, em Tulle, em 1820, cortou o chumbo na plataforma de
passeio da prisão, não se sabe com que faca, fundio-o não se sabe com
que fogo, vasou-o numa fôrma feita de migalhas de pão; com esse chumbo
e essa fôrma fez uma chave e com essa chave abrio uma fechadura que
elle apenas conhecia por ter-lhe visto o buraco. Gilliatt tinha estas
habilidades inauditas. Era capaz de subir e descer o penedio Boisrosé.
Era o Trenck de um destroço e o Latude de uma machina.
O mar, que era o carcereiro, vigiava-o.
Demais, por ingrata e má que fosse a chuva, Gilliatt aproveitou-a.
Refez com ella a sua provisão de agua doce; mas a sede era
inextinguivel e Gilliatt esvasiava o pichel quasi tão rapidamente como
o enchia.
Um dia, o ultimo de Abril creio, ou o 1.° de Maio, tudo estava prompto.
O assoalho da machina estava como que mettido entre os oito cabos das
polés, quatro de um lado, quatro de outro. As dezeseis aberturas, por
onde passavam esses cabos, estavam ligadas ao tombadilho e á carena. A
madeira foi cortada com o machado, o ferro com a lima, o forro com a
faca e, o resto com a serra. A parte da quilha onde estava a machina,
foi cortada em quadro e estava prompta para resvalar com a machina
sustentando-a. Todo esse grupo assustador só estava preso por uma
corrente, a qual dependia só de um golpe de lima. Tão perto do remate,
a pressa era prudencia.
A maré estava baixa, o momento era bom.
Gilliatt, tinha conseguido desmontar a arvore das rodas, cujas
extremidades podiam fazer obstaculo e impedir, aquelle levantar de
ancora. Tinha conseguido amarrar vertical mente a pesada peça na
propria machina.
Era tempo de acabar. Gilliatt, como dissemos, não estava cançado
porque não queria, mas as suas ferramentas estavam. A forja tornava-se
impossivel a pouco e pouco. A pedra que servia de bigorna tinha-se
quebrado. O folles começava a trabalhar mal. Como a pequena queda
hydraulica era de agua marinha, formaram-se depositos salinos nas
junturas do apparelho e impediam-lhe o jogo.
Gilliatt foi á angra do Homem, passou revista á _pança_ assegurou-se
de que tudo estava bom, particularmente as quatro argolas pregadas
a bombordo e a estibordo, levantou a ancora e remando voltou com a
_pança_ ás duas Douvres.
O intervallo das Douvres podia admittir a _pança._ Havia bastante fundo
e bastante largura. Gilliatt reconheceu, desde o primeiro dia, que
podia-se levar a _pança_ até debaixo da Durande.
A manobra era comtudo excessiva, exigia uma precisão de joalheiro e
esta inserção do barco no escolho era tanto mais delicada quanto que,
para o que Gilliatt queria fazer, era necessario entrar pela pôpa com
o leme na prôa. Era necessario que o mastro e os apparelhos da _pança_
ficassem áquem do casco do vapor, do lado da entrada.
Este aggravo na manobra, tornou a operação difficil ao proprio
Gilliatt. Já não era, como na angra do Homem, uma questão de movimento
de leme; era preciso ao mesmo tempo entrar, puchar, remar e sondar.
Gilliatt empregou nisso nada menos de um quarto de hora, mas conseguio.
Em quinze ou vinte minutos a _pança_ ficou collocada debaixo da
Durande. Ficou quasi atravessada. Gilliatt por meio de duas ancoras,
segurou a _pança._ A maior ficou collocada de modo a trabalhar com o
vento mais forte, que era o vento de oeste, depois por meio de uma
alavanca e de um cabrestante, Gilliatt passou para a _pança_ as duas
caixas contendo as rodas desmontadas cujos cabos de guindar estavam
promptos. As duas caixas fizeram lastro.
Desembaraçado das duas caixas, Gilliatt prendeu ao gancho da corrente
do cabrestante o cabo regulador destinado a conter os guindastes.
Para a obra de Gilliatt os defeitos da _pança_ tornavam-se qualidades;
não tinha coberta, o carregamento achava mais fundo e podia pousar no
porão. Era mastreada na prôa, muito na prôa talvez, o carregamento
achava mais facilidade e o mastro ficava fóra da machina, de modo que
nada impedia a sahida; era uma especie de concha, e nada mais estavel e
solido no mar como uma concha.
De repente Gilliatt vio que a maré enchia. Tratou de ver donde soprava
o vento.
VII
SURGE UM PERIGO
Havia pouca brisa, mais vinha do oeste. É um máo costume de vento no
equinoxio.
A maré enchente, conforme o vento que sopra, comporta-se diversamente
no escolho Douvres. Conforme o vento, a onda entra naquelle corredor ou
por leste ou por oeste. Se o mar entra por leste a agua é boa e molle,
se entra por oeste é furiosa. A razão disto é que o vento de leste,
vindo de terra tem pouco alento, emquanto que o vento de oeste, que
atravessa o Atlantico, traz comsigo todo o sopro da immensidade. Mesmo
quando a brisa é fraca assusta quando vem do oeste. Róla largas ondas
da extençáo illimitada e cospe grossas vagas no estreito.
A agua que se engolpha é sempre terrivel. A agua é como a multidão;
uma multidão é um liquido; quando a quantidade que póde entrar é
menor que a quantidade que deseja entrar, a multidão machuca-se e a
agua convulsiona-se. Emquanto sopra o vento do poente, ainda a mais
fraca brisa, ha nas Douvres este assalto, duas vezes por dia. A maré
levanta-se, a rocha resiste, a abertura é pequena, a onda entrando á
força salta e ruge, e um marulho enraivecido bate as duas fachadas
internas da viéla. De modo que as Douvres ao menor vento do oeste,
offerecem este espectaculo singular: no mar, calma, no escolho,
tempestade. Esse tumulto local e circumscripto, não é uma tormenta; é
apenas uma revolta de vagas, mas terrivel. Quanto aos ventos do norte
e do sul, esses fazem pouca ressaca na garganta do escolho. A entrada
por leste, é preciso lembra-lo, confina com o rochedo Homem; a abertura
temivel do oeste fica na extremidade opposta exactamente entre as duas
Douvres.
Nessa abertura de oeste é que se achava Gilliatt com a Durande
naufragada e a _pança_ ancorada.
Parecia inevitavel uma catastrophe, esta catastrophe imminente, tinha,
embora pouco, o vento de que precisava.
Dentro de poucas horas o inchamento do mar que subia, ia naturalmente
entrar em grande luta no estreito das Douvres. As primeiras vagas
já começavam a rugir. Inchamento esse, refluxo impetuoso de todo o
Atlantico que teria atraz de si a totalidade do mar. Nenhuma borrasca,
nenhuma cólera; mas uma simples onda soberana, contendo em si uma força
de impulsão que, partindo da America para chegar á Europa, tinha duas
mil leguas de jacto. Essa onda, barra gigantesca do oceano, encontraria
o hiate do escolho, e, apertada nas duas Douvres, torres de entrada,
pilares do estreito, inchada pela maré, inchada pelo obstaculo,
repellida pelo rochedo, castigada pelo vento, faria violencia ao
escolho, penetraria, com todos os torções do obstaculo encontrado,
e todos os frenesis da vaga entravada, entre as duas muralhas,
encontraria a _pança_ e a Durande, e as estrangularia.