Parietarias com estranhos ramalhetes mostravam os seus tuffos a

proposito e com gosto. Havia alli a casquilhice possivel numa caverna.

A sorprehendente luz edenica que vinha debaixo d'agua, a um tempo

penumbra marinha e radiação paradisiaca, esfumava todos os lineamentos

em uma especie de diffusão visionaria. Cada vaga era um prisma.

O contorno das cousas debaixo desses ondeamentos iriados tinha o

chrosmatismo das lentes d'optica demasiado convexas; spetros solares

fluctuavam debaixo da agua.

Acreditar-se-hia ver torcer-se nessa diaphaneidade auroreal pedaços

de arco-iris afogados. Em outros lugares havia nagua um certo luar.

Todos os esplendores pareciam amalgamados alli para fazer um quê de

cego e de nocturno. Nada mais impossivel e enigmatico do que aquelle

fasto naquella cava. O que dominava alli era o encanto. A vegetação

phantastica e a stratificação informe acordavam-se e compunham uma

harmonia. Era de bello effeito aquelle consorcio de cousas medonhas.

Penduravam-se as ramificações parecendo apenas tocar de leve. Era

profundo o affago da rocha selvagem e da flôr ruiva.

Pilares massiços tinham por capiteis e por ligaduras, frageis e

tremulas grinaldas; parecia ver-se dedos de fada fazendo cocegas nas

patas de um hypopotamo, e o rochedo sustentava a planta e a planta

abraçava o rochedo com uma graça monstruosa.

Resultava dessa difformidade mysteriosamente ajustada uma belleza

soberana. As obras da natureza, não menos supremas que as obras do

genio, contém o absoluto e impoem-se. O inesperado dellas faz-se

obedecer imperiosamente pelo espirito; sente-se uma premeditação que

fica fora do homem, e ellas não são mais sorprehendentes do que quando

fazem subitamente sahir o delicado do terrivel.

Aquella grota estava por assim dizer, e se tal expressão é admissivel,

sederalisada. Sentia-se alli o imprevisto do espanto. O que enchia

aquella crypta, era luz do apocalypse. Não havia certeza de que aquillo

existisse. Tinha-se diante dos olhos uma realidade cheia de impossivel.

Olhava-se isto, tocava-se, presenciava-se; mas era difficil crer.

Era luz aquillo que jorrava daquella janella debaixo d'agua? Era agua

aquillo que tremia naquella bacia obscura? Aquelles cimbrios e porticos

não eram nuvem celeste imitando uma caverna? Que pedra era aquella que

se pisava? Aquelle apoio não ia desconjuntar-se e tornar-se fumo? Que

joalheria de conchas era aquella que se entrevia? Que distancia havia

dalli á vida, á terra, aos homens? Que encanto era aquelle misturado

áquellas trevas? Commoção inaudita, quasi sagrada, á qual misturava-se

a doce inquietação das hervas no fundo d'agua.

Na extremidade da cava, que era oblonga, debaixo de uma archivolta

cyclopica singularmente correcta, em um buraco quasi indistinto,

especie de antro no antro, especie de tabernaculo no sanctuario,

atraz de uma toalha de luz verde, interposta como um véo de templo,

descobria-se fora d'agua uma pedra de angulos cortados em quadro com

uma parecença de altar. A agua circumdava essa pedra. Parecia que uma

deusa tinha descido d'alli. Era impossivel deixar de pensar, debaixo

d'aquella crypta, em cima daquelle altar, em alguma nueza celeste

eternamente pensativa, que a entrada de um homem tinha feito fugir.

Era difficil conceber aquella celula augusta sem uma visão dentro

della; a apparição, evocada pelo devaneio, recompunha-se por si; um

rorejar de casta luz sobre espaduas apenas entrevistas, uma fronte

banhada de alvores, um oval de rosto olympico, uns mysteriosos seios

arredondados, uns braços pudicos, uma coma esparra em uma aurora,

uns quadris ineffaveis modelados em luz pallida, no meio da sagrada

bruma, umas fórmas de nympha, um olhar de virgem, uma Venus sahindo

do mar, uma Eva sahindo do cahos; tal era o sonho que forçosamente

assaltava a imaginação. Era inverosimil que não estivesse antes um

phantasma naquelle lugar. Uma mulher nua, com um astro em si, devia

provavelmente ter occupado aquelle altar. Sobre aquelle pedestal,

d'onde emanava um estasis inexprimivel, imaginava-se uma alvura, viva

e de pé. O espirito creava, no meio da adoração muda daquella caverna,

uma Amphitrite, uma Tethys, alguma Diana que podesse amar, estatua

do ideal formada de um raio e contemplando a sombra com meiguice.

Foi ella quem, ao esquivar-se, deixou na caverna aquella claridade,

especie de perfume--luz sahido daquelle corpo-estrella. A fascinação

daquelle fantasma já não estava alli; já se não via a figura, feita

para ser vista sómente pelo invisivel, mas sentia-se; recebia-se

aquelle estremecimento que é uma volupia. A deosa estava ausente, mas a

divindade estava presente.

A bellesa do antro parecia feita para aquella presença. Era por causa

dessa deidade, dessa fada dos nacares, dessa rainha das brisas, dessa

graça nascida das vagas, era por causa delia, ao menos suppunha-se

isto, que o subterraneo estava religiosamente murado, afim de que nada

perturbasse nunca, em derredor daquelle divino fantasma, a obscuridade

que é um respeito, o silencio que é uma magestade.

Gilliatt, que era uma especie de vidente da naturesa, scismava,

confusamente commovido.

De subito, alguns palmos abaixo delle, na transparencia encantadora

daquella agua, que eram pedras preciosas dissolvidas, Gilliatt vio

alguma cousa inexprimivel. Uma especie de longo andrajo movia-se na

oscillação das vagas. Esse andrajo não fluctuava, vogava; tinha a

fórma de um sceptro de truão com pontas; essas pontas tinham reflexos;

parecia que uma poeira impossivel de molhar-se cobria aquelle todo.

Era mais que horrivel, era nojento. Tinha um quê de chimerico; era um

ente, a menos que não fosse uma apparencia. Parecia dirigir-se para o

obscuro da cava e mergulhava-se alli. As espessuras da agua tornaram-se

sombrias sobre aquella cousa que resvalou e desappareceu, sinistra.

LIVRO SEGUNDO

O trabalho

I

OS RECURSOS DAQUELLE QUE NÃO TEM RECURSOS

A cava não soltava facilmente quem lá ia. A entrada era pouco commoda,

a sahida foi ainda peior. Gilliatt entretanto safou-se, mas não voltou

lá. Nada encontrou do que procurava, e não tinha tempo para ser curioso.

Poz immediatamente a forja em actividade. Faltava ferramenta, Gilliatt

fabricou-a.

Tinha por combustivel os destroços, a agua por motor, o vento por

folles, uma pedra por bigorna, por arte o instincto, por força a

vontade.

Gilliatt entrou ardentemente nesse trabalho sombrio.

O tempo mostrava-se complacente. Continuava bello, e o menos equinoxial

possivel. Chegára o mez de Março, mas tranquillamente. Os dias

tornavam-se compridos. O azul do céo, a vasta doçura dos movimentos da

extensão, a serenidade do meio dia, pareciam excluir qualquer intensão

má. Alegrava-se o mar debaixo do sol. Um affago previo tempera as

traições. A agoa marinha não é avara desses affagos. Com aquella mulher

é preciso desconfiar do sorriso.

Havia pouco vento; a hydraulica soprava bem. O excesso do vento

tolheria em vez de ajudar.

Gilliatt tinha uma serra; fabricou uma lima; com a serra attacou a

madeira, com a lima, o metal; depois ajuntou as duas mãos do ferreiro,

uma tenaz e uma pinça: a tenaz agarra, a pinça maneja; uma trabalha

como a mão, a outra como o dedo. A ferramenta é um organismo. A pouco e

pouco Gilliatt arranjava auxiliares, e construia as suas armaduras. Com

um pedaço de ferro em folha fez uma anteparo na forja.

Um dos seus primeiros cuidados foi a separação e a reparação das

roldanas. Concertou as caixas e as rodas das polés. Cortou a exfoliação

de todos os barrotes quebrados e aplainou as extremidades; como

dissemos, tinha para as necessidades da carpintaria, grande cópia de

peças de madeira armazenadas, e apparelhadas, segundo as formas, as

dimensões e as essencias, o carvalho de um lado, o pinheiro do outro,

as peças curvas, como as porcas, separadas das peças direitas, como

as que ligam as escotilhas. Era uma reserva de pontos de apoio e

alavancas, de que podia precisar em um momento dado.

Quem quer construir um guindaste deve munir-se de traves e polés mas

não basta isso, é preciso corda. Gilliatt restaurou os cabos e as

cordas. Estendeu as vellas rasgadas, e conseguio extrahir excellente

fio com que compoz uma sarja, e cirzio o cordoame. Mas essas costuras

eram sujeitas a apodrecer, era preciso empregar as cordas e os cabos,

Gilliatt apenas pôde fazer o massame sem ter alcatrão.

Concertou as cordas, concertou as correntes.

Pôde, graças á ponta lateral da bigorna, fazer aneis grosseiros, mas

solidos; com esses aneis, prendeu uns aos outros os pedaços de corrente

quebrados, e fez correntes compridas.

Forjar só, e sem auxilio, é mais do que incommodo. Comtudo Gilliatt

conseguio fazêl-o. É certo que só teve de trabalhar na forja, peças de

pequeno volume; podia meneal-as com uma mão, e martellar com a outra.

Cortou em pedaços as barras de ferro redondas do lugar do commando;

forjou nas duas extremidades de cada pedaço, de um lado uma ponta, do

outro uma larga cabeça chata, e desse modo fez grandes prégos de palmo

e meio. Esses prégos, muito usados em trabalhos maritimos, são uteis

para fixar os páos nas pedras.

Porque motivo Gilliatt tomava todo este trabalho? Vêr-se-ha.

Teve de refazer muitas vezes o fio da machadinha e os dentes da serra.

Para a serra fabricou uma lima triangular.

Servia-se tambem do cabrestante da Durande. Quebrou-se a fateixa da

corrente. Gilliat fez outra.

Com ajuda da pinça e da tenaz, e servindo-se da faca como de um virador

emprehendeu desmontar as duas rodas do navio; conseguio. É preciso

não esquecer que isso era exequivel; essa era a particularidade da

construcção das rodas. As caixas que as tinham coberto, serviram-lhes

de capas; com as taboas das caixas, Gilliatt arranjou dous caixotes

onde metteu peça por peça, as duas rodas cuidadosamente numeradas.

O pedaço de giz servio-lhe para essa numeração.

Arranjou os dous caixotes na parte mais solida do convez da Durande.

Terminados estes preliminares, Gilliatt achou-se diante da difficuldade

suprema. Surgio a questão da machina.

Desmontar as rodas foi possivel; desmontar a machina, não.

Primeiramente, Gilliatt conhecia mal aquelle mecanismo. Trabalhando ao

acaso, podia produzir algum desconcerto irreparavel. Depois, mesmo para

tentar desmontal-a peça por peça, se tivesse esta imprudencia, eram-lhe

precisas outras ferramentas do que as que elle podia fazer n'uma

caverna por officina, com o vento por folles, e uma pedra por bigorna.

Tentando desmontar a machina arriscava-se a despedaçal-a.

Aqui podia-se crêr que estava diante do impraticavel.

Affigurou-se-lhe que estava ao pé deste muro: o impossivel.

Que fazer?

II

DE QUE MODO SHAKESPEARE PODE ENCONTRAR-SE COM ESCHYLO

Gilliatt tinha uma idéa.

Desde aquelle carpinteiro de Salbris que, no VI seculo, na infancia

da sciencia, muito antes que Amoutons tivesse achado a primeira

fricção, Labire a segunda, e Coulomb a terceira, sem conselho, sem

guia, sem mais auxiliar que um menino, filho delle, com uma ferramenta

informe, resolveu em massa, arreando o grande relogio da igreja de

Charité-Sur-Loire, cinco ou seis problemas de statica e de dynamica,

todos juntos, como as rodas de carros embaraçados; desde esse

trabalhador extravagante que achou meio de, sem quebrar um fio de latão

e sem desfazer um encaixe, arrear de uma só vez, por uma simplificação

prodigiosa, do segundo andar da torre ao primeiro, aquella massiça

gaiola de horas, toda de ferro e cobre, grande como uma guarita, com

o seu movimento, cylindros, tambores, ganchos, mostrador, pendula

horisontal, ancoras de escapamento, meada de corda, pesos de pedra dos

quaes um pesava quinhentas libras, tympano, carrilhão; desde esse homem

que fez esse milagre, e cujo nome já se não sabe, jámais houve nada

igual á empreza que Gilliatt commettia.

A operação de Gilliatt era talvez peior, isto é, mais bella ainda que a

outra.

O peso, a delicadeza, o conjuncto das difficuldades, não eram menores

na machina da Durande que no relogio de Charité-Sur-Loire.

O carpinteiro gothico tinha um auxiliar, o filho; Gilliatt era só.

Havia uma população, vinda de Menug-Sur-Loire, de Nevers, e mesmo de

Orleans, a qual podia, em caso de necessidade, ajudar o carpinteiro de

Salbris, e animal-o com os seus rumores benevolos; Gilliatt só tinha á

roda de si o rumor do vento e a multidão das ondas.

Nada se compara á timidez da ignorancia, a não ser a sua temeridade.

Quando a ignorancia começa a ousar é que tem uma bussola comsigo. Essa

bussola é a intuição da verdade, mais clara ás vezes num espirito

simples que n'um espirito complicado.

Ignorar convida a tentar. A ignorancia é um devaneio, e o devaneio

curioso é uma força. Saber, desconcerta ás vezes, e desaconselha

muitas. Se Vasco da Gama soubesse recuára ante o Cabo das Tormentas. Se

Christovão Colombo fosse bom cosmographo não teria descoberto a America.

O segundo que subio ao Monte Branco foi um sabio, Saussure; o primeiro

foi um pastor, Balmat.

Taes casos, digamol-o de passagem, são a excepção, e tudo isto não tira

nada á sciencia, que fica sendo a regra. O ignorante póde achar, só o

sabio inventa.

A _pança_ continuava a estar ancorada na angra do Homem, onde o mar

a deixava tranquilla. Gilliatt, como se sabe, arranjou tudo de modo

a ficar em livre pratica com a barca. Foi alli e mediu-a em diversos

pontos. Depois voltou á Durande e mediu o grande diametro da machina. O

grande diametro, sem as rodas, bem entendido, era mais curto dous pés

que o espaço da pança. Portanto, a machina podia entrar na barca.

Mas como metel-a ahi?

III

A OBRA PRIMA DE GILLIATT AJUDA A OBRA PRIMA DE LETHIERRY

Alguns dias depois, o pescador que fosse assaz tonto para ir perlustrar

aquellas paragens, em semelhante estação, teria pago a sua ousadia com

a visão de uma cousa singular entre as Douvres.

Veria isto o pescador: quatro roubustas pranchas com espaços iguaes

entre si, indo de uma Douvre á outra, e como que forçadas entre os

rochedos, o que é a melhor solidez deste mundo. Do lado da pequena

Douvre as suas extremidades pousavam e fincavam-se nas fendas da

rocha; do lado da grande Douvre, essas extremidades deviam ter sido

violentamente espetadas na columna com um martello por um robusto

trabalhador trepado na propria prancha. Essas pranchas eram um pouco

mais longas que o intervallo das Douvres; dahi, a segurança e o plano

inclinado em que estavam, formando uma ladeira. Tocavam a grande Douvre

em angulo agudo e a pequena em angulo obtuso. Era suave o declive, mas

desigual, o que se tornava defeito. A essas quatro pranchas prendiam-se

quatro polés guarnecidas todas de corda e boça, e tendo esta

singularidade e ousadia, que a polé de rodas estava em uma extremidade

da prancha e a polé simples na extremidade opposta. Este desvio

de arte, tamanho que era perigoso, era provavelmente exigido pela

necessidade da operação. As polés compostas eram fortes e as siraplices

eram solidas. A essas prendiam-se cabos que de longe pareciam fios, e

por baixo desse aparelho aereo de guindastes e taboas, o massiço casco

da Durande parecia suspenso a esses fios.

Ainda não estava suspensa. Perpendicularmente por baixo das pranchas,

oito aberturas foram praticadas no casco, quatro a bombordo e quatro

a estibordo da machina, e mais oito debaixo dessas, na carena. Os

cabos desciam verticalmente, entravam no convez, depois sahiam pela

carena, pelas aberturas de estibordo, passavam por baixo da quilha e

da machina, entravam outra vez no navio pelas aberturas de bombordo

e subindo, atravessando, o convez, voltavam a prender-se nos quatros

guindastes das pranchas, onde um guincho prendia-os e fazia um rolo

de um cabo unico podendo ser dirigido por um só braço. Um gancho e um

carretel por cujo centro passava e dividia-se o cabo unico completavam

o apparelho, e em caso de necessidade, continham-no. Esta combinação

obrigava as quatro polés a trabalharem juntas, e, verdadeiro freio

de forças pendentes, leme de dynamica na mão do piloto da operação,

mantinha a manobra em equilibrio. O ajustamento engenhoso do guincho

tinha alguma das qualidades simplificadoras do guindaste Werton de

hoje, e do antigo polypastono de Vitruvio. Gilliatt descobrio isso,

sem conhecer Vitruvio, que já não existe, nem Werton, que não existia

ainda. O comprimento dos cabos variava segundo o desigual declive das

pranchas, e corrigia um pouco a desigualdade. As cordas eram perigosas,

o maçame branco podia quebrar; era melhor empregar correntes, finas as

correntes não poderiam passar com facilidade nas polés.

Tudo isso, cheio de defeitos, mas feito por um só homem, era

sorprehendente.

De mais, abreviemos a explicação. Comprehender-se-ha que ommittimos

muitos pormenores que tornariam a cousa clara para as pessoas do

officio, e obscura para as outras.

O cimo do cano da machina passava por entre as duas pranchas do meio.

Gilliatt, sem dar por isso, plagiario inconsciente do desconhecido,

refez, a tres seculos de distancia, o mechanismo do carpinteiro de

Salbris, mechanismo rudimentario e incorrecto, assustador para quem

ousasse manobral-o.

Digamos aqui que os defeitos mais grosseiros não impedem que um

mechanismo funccione. O obelisco da praça de S. Pedro de Roma foi

levantado contra todas as regras da statica. O coche do czar Pedro era

construido de tal modo que parecia tombar a cada passo; entretanto

andava. Quantas difformidades na machina de Marly. Tudo alli era mal

feito. Nem por isso deixou de dar de beber a Luiz XIV.

Fosse como fosse, Gilliatt tinha confiança. Contava até com o successo

ao ponto de fixar na borda da _pança_, no dia em que lá foi, dous pares

de argolas de ferro, diante um do outro, nos dous lados da barca, nos

mesmos espaços que as quatro argolas da Durande ás quaes se prendiam as

quatro correntes do cano.

Gilliatt tinha evidentemente um plano muito completo e definitivo.

Tendo contra si todas as probabilidades, queria pôr todas as precauções

do seu lado.

Fazia cousas que pareciam inuteis, signal de uma premeditação attenta.

A sua maneira de proceder desviava um observador, e mesmo um conhecedor.

Uma pessoa que o visse, por exemplo, com exforços inauditos e em risco

de quebrar o pescoço, pregar com um martello oito ou dez grandes

pregos que elle forjou, no esvasamento das duas Douvres, na entrada

da garganta do escolho, comprehenderia difficilmente o motivo desses

pregos, e perguntaria provavelmente porque razão fazia todo aquelle

trabalho.

Se visse Gilliatt medir o pedaço da amurada da prôa que ficára

pendurada, depois prender uma forte corda na borda superior desta

peça, cortar com um machado as madeiras deslocadas que a retinham,

arrastal-as fora da garganta, com auxilio da maré que descia, e emfim

prender laboriosamente com a corda essa pesada massa de taboas e vigas,

mais larga que a entrada da garganta, aos prégos mettidos na base

da pequena Douvre, o observador comprehenderia menos ainda, e diria

que, se Gilliatt quizesse para facilidade da manobra, desempedir o

intervallo das Douvres, bastava deixar cahir aquelle pedaço de taboas

na maré que o levaria á flor d'agua.

Gilliatt provavelmente tinha lá as suas razões.

Gilliatt, para fixar os prégos na base das Douvres, tirava partido de

todas as fendas do granito, alargava-as quando era preciso, e mettia

ao principio tocos de páos, nos quaes introduzia depois os prégos.

Emboçou a mesma preparação nas duas rochas que se levantavam n'outra

extremidade do escolho, do lado de leste; guarneceu de cavilhas de

páo todos os buracos, como se as quizesse ter promptas para receber

ganchos; mas isso pareceu ser uma simples reserva, porque Gilliatt não

metteu prégos nessas fendas. Comprehende-se que, por prudencia na sua

penuria, elle não podia gastar materiaes senão á proporção que tivesse

necessidade, e no momento em que a necessidade se manifestasse. Era

mais uma complicação no meio de tantas difficuldades.

Acabado um primeiro trabalho, surgia um segundo, Gilliatt passava sem

hesitar de um a outro e dava resolutamente esse pulo de gigante.

IV

SUBRE

O homem que fazia estas cousas tornára-se medonho.

Gilliatt, naquelle trabalho multiplo, gastava todas as suas forças;

difficilmente as refazia.

Privações de uma parte, cançasso de outra, Gilliatt tinha emmagrecido.

Cresceram-lhe as barbas e cabellos. Excepto uma camisa, todas as mais

estavam em frangalhos. Tinha os pés nús, por que o vento levára-lhe

um sapato, e o mar o outro. Pedaços da bigorna rudimentaria, e mui

perigosa, de que se servia, tinham-lhe feito nas mãos e nos braços

pequenas chagas, salpicos de trabalho. Essas chagas, mais esfoladuras

que feridas, eram superficiaes, mas irritadas pelo ar vivo e pela agua

salgada.

Tinha fome, tinha sede, tinha frio.

O pichel de agua doce estava vasio. A farinha de centeio fôra já comida

ou empregada no trabalho. Restava-lhe um pouco de biscouto.

Não tendo agua para molhal-o, Gilliatt quebrava-o com os dentes.

Dia a dia iam-lhe escasseando as forças.

Aquelle temivel rochedo esgotava-lhe a vida.

Beber, era uma questão; comer, era uma questão; dormir, era uma questão.

Gilliatt comia quando apanhava algum marisco ou outro bichinho do

mar; bebia quando via um passaro descer a alguma ponta da rocha.

Trepava então e achava n'uma cava um pouco de agua doce. Bebia depois

do passaro, ás vezes ao mesmo tempo; porque as gaivotas já estavam

acostumadas a elle, e não fugiam quando elle se approximava. Gilliatt,

mesmo na maior fome não lhes fazia mal. Sabemos que elle tinha a

superstição dos passaros. Os passaros, como os cabellos de Gilliatt

estivessem eriçados e horriveis, e a barba longa, já lhe não cobravam

medo; a mudança do aspecto tranquillisava-os; já não viam naquillo um

homem, acreditavam-n'o bicho.

Os passaros e Gilliatt eram agora bons amigos. Todos aquelles pobres

ajudavam-se uns aos outros. Emquanto Gilliatt teve centeio, deu-lhes

algumas migalhas dos bolos que fazia; agora os passaros indicavam-lhe

em que lugar havia agua.

Comia as conchas cruas; as conchas, em certa proporção, são

refrigerantes. Quanto aos caranguejos cosia-os; não tendo vasilha

propria, cosia-os entre duas pedras abrasadas ao fogo, como os

selvagens das ilhas Feroe.

Declarou-se entretanto um pouco de equinoxio; veio a chuva; mas chuva

hostil. Nem ondas, nem aguaceiros, mas longos choviscos, finos,

gelados, que, atravessavam-lhe a roupa até á pelle, e a pelle até os

ossos. Era chuva que dava pouco de beber e molhava muito.

Avara de auxilio, prodiga de miseria, tal era aquella chuva, indigna do

céo. Gilliatt apanhou-a toda, durante uma semana, de noite e de dia.

Era uma má acção lá de cima.

De noite, no seu buraco do rochedo, só dormia por cançasso. Os grandes

mosquitos do mar iam morde-lo. Acordava coberto de pustulas.

Tinha febre, que o sustentava; a febre é um amparo, que mata.

Mastigava, por instincto, o musgo ou chupava as folhas de cochlearia

selvagem, magras producções das fendas seccas do rochedo. Mas

occupava-se bem pouco com o soffrimento. Não tinha tempo de

distrahir-se do trabalho para cuidar de si. A machina da Durande estava

de saude. Era o que bastava.

A cada momento, para as necessidades do trabalho, Gilliatt atirava-se

ao mar, depois tomava pé. Entrava na agua e sahia, como se passa de um

quarto a outro.

As roupas já lhe não seccavam. Estavam embebidas da agua da chuva

que não parava, e da agua do mar que não secca nunca. Gilliatt vivia

molhado.

Viver molhado é um habito que se adquire. Os pobres grupos irlandezes,

velhos, mães, raparigas quasi nuas, crianças, que passara o inverno

debaixo de aguaceiros e neve, apertados uns contra os outros nos

angulos das casas nas ruas de Londres, vivem e morrem molhados.

Estar molhado e ter sede; Gilliatt supportava essa tortura extranha. De

quando em quando mordia a manga da japona.

O fogo que elle accendia não o aquecia; o fogo no meio de um grande

espaço arejado é um meio soccorro; secca-se de um lado, humedece-se de

outro.

Gilliatt suava e tiritava.

Tudo lhe resistia em roda delle numa especie de silencio terrivel. Elle

sentia o inimigo.

As cousas tem um sombrio _Non possumus._

A inercia dellas é uma lugubre advertencia.

Os Trabalhadores do Mar · 第 17 / 28 段