estavam seguras, e foram postas em tempo secco. Gilliatt, porém,
tirou-as, porque o maçame podia ser-lhe util.
Recolheu igualmente a pequena ancora que ficara pendurada em uma cava
do banco onde o mar encalhara.
Achou no que fôra camarote de Tangrouille um pedaço de giz e guardou-o
cuidadosamente. Podia ter necessidade de fazer algumas marcas.
Uma celha de couro para incendio e algumas tinas em bom estado
completavam a ferramenta de trabalho.
O resto do carvão que havia na Durande foi levado para o armazem.
Em oito dias o salvamento dos destroços estava acabado; o escolho
estava limpo, e a Durande alliviada. No casco só restava a machina.
O pedaço da amurada que ainda adheria ao resto não fatigava o casco.
Pendia sem peso, pois que era sustentado embaixo por uma saliencia
de pedra; demais era largo e vasto, e pesado, e não podia ficar no
armazem. Parecia uma jangada aquelle pedaço de madeira. Gilliatt
deixou-o onde estava.
Gilliatt profundamente pensativo neste labor, procurou em vão a
_boneca_ da Durande. Era uma dessas cousas que a onda tinha levado
para sempre, Gillatt para achal-a daria os seus dous braços, se não
precisasse tanto delles.
Na entrada do armazem, e fóra, viam-se dous montes de rebutalho, um de
ferro, para fundir, outro de páo, para queimar.
Gilliatt trabalhava desde madrugada. Fóra do tempo do somno, não
descançava nunca.
Os corvos marinhos, voando aqui e alli, contemplavam-n'o a trabalhar.
X
A FORJA
Feito o deposito, Gilliatt fez a forja.
A segunda anfractuosidade escolhida por Gilliatt offerecia ura refugio,
especie de garganta, assaz profunda. Gilliatt teve ao principio a
idéa de dormir ahi, mas o vento, renovando-se constantemente, era tão
continuo e teimoso nesse corredor que elle teve de renunciar á morada.
O vento deu-lhe idéa de fazer forja. Se a caverna não podia ser quarto,
podia ser officina. Utilisar o obstaculo é um grande passo para o
triumpho. O vento era o inimigo do Gilliatt, Gilliatt resolveu fazer
delle o seu lacaio.
O que se diz de certos homens:--proprios para tudo, bons para
nada,--póde-se dizer das cavas de rochedo. Não dão o que offerecem. Tal
cava de rochedo é uma banheira, mas deixa escapar a agua; outra é um
leito de musgo, porém molhado; outra é uma cadeira, mas de pedra.
A forja que Gilliatt queria estabelecer estava esboçada pela natureza;
mas domar esse esboço, até torna-lo appropriado, e transformar a
caverna em laboratorio, nada mais áspero e difficil. Com tres ou quatro
rochas largas, abertas como funil, e abrindo para uma fenda estreita, o
acaso fizera alli um vasto foles informe, muito melhor que os antigos
foles de quatorze pés de comprimento, que davam por cada vez, noventa
e oito mil polegadas de ar. Aquillo era outra cousa. As proporções de
operação não se calculam.
O excesso de força era incommodo; era difficil regularisar aquelle
sopro.
A caverna tinha dous inconvenientes; o ar e a agua atravessavam de um
lado para o outro.
Não era a onda, era um pequeno esgoto perpetuo, mais semelhante a uma
distillação que a uma torrente.
A espuma, continuamente lançada pela ressaca sobre o escolho, algumas
vezes a mais de cem pés no ar, acabara por encher de agua do mar uma
bacia natural situada nas altas rochas que dominavam a excavação.
A abundancia de agua nesse reservatorio fazia, um pouco atraz, no
declive, uma pequena quéda d'agua, de cerca de uma polegada, cahindo de
quatro a cinco toezas. Ajuntava-se a isso um contingente de chuva. De
tempos a tempos, uma nuvem de passagem derramava algumas gotas naquelle
reservatorio inexgotavel, e sempre transbordando.
A agua era salobra, não potavel, mas limpida, embora salgada. A quéda
escorria graciosamente nas extremidades dos filamentos verdes como nas
pontas de uma cabelleira.
Gilliatt pensou em servir-se dessa agua para disciplinar o vento. Por
meio de um funil de dous ou tres tubos de taboas, arranjados á pressa,
sendo um de torneira, e de uma larga tina disposta como reservatorio
inferior, sem contrapeso, Gilliatt que era, como dissemos, um pouco
ferreiro e um pouco mecanico, conseguio compor, para substituir o folle
da forja, que não tinha, um apparelho menos perfeito do que aquelle que
se chama hoje _cagniardelle_, porém menos rudimentario do que o que se
chamava outrora nos Pyreneos uma trompa.
Tinha farinha de centeio, fez cola, tinha corda branca, fez estopa. Com
essa estopa e essa cola, e alguns pedacinhos de pão, tapou elle todas
as fendas do rochedo, deixando apenas um bico, feito com um pedaço de
espoleta que achou na Durande e que servira á pedra de signal. O bico
ficava horisontalmente dirigido contra uma larga pedra onde Gilliatt
poz a lareira da forja. Gilliatt fez uma rolha para tapar o bico quando
fosse preciso.
Depois disto, Gilliatt ajuntou carvão e lenha na lareira, arranjou
a pedra de ferir fogo no proprio rochedo, fez cahir a faisca em um
punhado de estopa, com a estopa acesa acendeu a lenha e o carvão.
Experimentou o folle. Era admiravel.
Gilliatt sentio essa altivez de cyclope, senhor do ar, da agua e do
fogo.
Senhor do ar, deu ao vento uma especie de pulmão, creou no granito um
apparelho respiratorio, e fez um folle; senhor da agua, da pequena
cascata fez um tubo; senhor do fogo, tirou a flamma daquelle rochedo
inundado.
Estando a escavação quasi toda aberta, o fumo sahia livremente,
enegrecendo o rochedo. Aquelle rochedo que parecia feito para a espuma,
conheceu a ferrugem.
Gilliatt tomou por bigorna um seixo multicor offerecendo a forma e as
dimensões que se quizesse. Era uma perigosa base para bater, e podia
acontecer que rebentasse. Uma das extremidades do seixo, arredondada,
e acabando em ponta, podia a rigor figurar de bigorna conoide, mas
faltava a bigorna pyramidal. Era a antiga bigorna de pedra dos
Troglodytas. A superficie polida pela agua, tinha a rigidez do aço.
Gilliatt lastimava não ter trazido a sua bigorna. Como ignorava que a
Durande estivesse partida pelo meio, esperava achar toda a ferramenta
de carpintaria, ordinariamente collocada no porão da prôa. Ora, era
exactamente a prôa que faltava.
As duas escavações, conquistadas no escolho por Gilliatt, eram visinhas
uma da outra. O deposito e a forja communicavam-se.
Todas as noites, acabado o trabalho, Gilliatt ceava um pedaço de
biscouto molhado em agua, um ursosinho d'agua, ou algumas castanhas do
mar, caça unica daquelle rochedo, e tiritando como a corda, trepava
para ir dormir na grande Douvre.
A especie de abstracção em que Gilliatt vivia, augmentava-se pela
materialidade das suas occupações. A realidade era em alta doze. O
trabalho corporal com os seus pormenores innumeraveis não diminuia
a estupefacção que sentia de achar-se alli, e de fazer o que estava
fazendo. Ordinariamente o cançasso material é um fio que puxa para
terra; mas a propria singularidade do trabalho emprehendido por
Gilliatt, mantinha-o em um trabalho de região ideal e crepuscular.
Parecia-lhe ás vezes estar dando martelladas nas nuvens. Outras vezes
parecia-lhe que as suas ferramentas eram armas. Tinha o singular
sentimento de um ataque latente que elle repellia ou prevenia. Tecer
maçame, desfiar uma vela, escorar duas pranchas, era fabricar machinas
de guerra. Os mil cuidados minuciosos deste salvamento acabavam por
assemelhar-se a precauções contra as aggressões intelligentes, mui
pouco dissimuladas e muito transparentes. Gilliatt não sabia as
palavras que exprimem as idéas, mas percebia as idéas. Sentia-se cada
vez menos operario e cada vez mais pelejador.
Entrou alli como um domador. Comprehendia isso quasi. Estranha
ampliação para o seu espirito.
Além disso, tinha á roda de si, a perder de vista, o immenso sonho
do trabalho perdido. Nada mais perturbador do que vêr manobrar a
diffusão das forças no insondavel e no illimitado. Procuram-se os
fins. O espaço sempre em movimento, a agua infatigavel, as nuvens que
parecem affadigadas, o vasto esforço obscuro, toda essa convulsão é um
problema. Que faz este perpetuo tremor? que construem estes ventos?
que levantam estes abalos? Em que se occupam os choques, os soluços,
os gritos? que faz todo esse tumulto? O flux e reflux dessas questões
é eterno como a maré. Gilliatt sabia o que fazia; mas a agitação
da extenção era um enigma que o aturdia confusamente. Sem querer,
mecanicamente, imperiosamente, por pressão e penetração, sem outro
resultado mais que uma fascinação inconsciente, e quasi feroz, Gilliatt
pensativo ajuntava ao seu trabalho, o prodigioso trabalho inutil do
mar. Na verdade, como não impressionar-se e sondar alli á vista, o
mysterio da tremenda vaga laboriosa? Como não meditar, na proporção, da
meditação que se tem, a oscilação da onda, a impetuosidade da espuma,
a usura imperceptivel do rochedo, o esfalfamento insensato dos quatro
ventos? Que terror para o pensamento não é o recomeçar perpetuo, o
oceano poço, as nuvens Danaydes, todo esse trabalho para cousa nenhuma!
Para cousa nenhuma, não; só o Ignoto o sabe!
XI
DESCOBERTA
Um escolho proximo da costa é algumas vezes visitado pelos homens; um
escolho em mar largo, nunca. Que se iria buscar ahi? não é uma ilha.
Não se pode contar com vitualhas, nem arvores com fruta, nem pastos,
nem animaes, nem fontes de agua potavel. É uma nueza n'uma solidão. É
uma rocha, com declives fóra d'agua, e pontas debaixo d'agua. Nada se
encontra ahi a não ser o naufragio.
Essa especie de escolhos que a velha lingua marinha chama os Isolados,
são, como dissemos, lugares estranhos. Só ha o mar. O mar faz alli
o que lhe parece. Nenhuma apparição terrestre o perturba. O homem
assusta o mar; o mar desconfia delle; esconde-lhe o que é e o que faz.
No escolho, está seguro; lá não vai o homem. Não será perturbado o
monologo da onda. A agua trabalha no escolho, repara-lhe as avarias,
aguça-lhe as pontas, eriça-o, concerta-o. Emprehende a abertura do
rochedo, desconjunta a pedra mole, desnuda a pedra dura, tira a carne,
deixa o osso, remeche, fura, esboraca, canalisa, põe os intestinos em
communicação, enche o escolho de cellulas, imita a esponja em grande,
cava o interior, esculpe o exterior.
Nessa montanha, que lhe pertence, o mar faz para si antros,
sanctuarios, palacios; tem uma vegetação hedionda e esplendida;
compõe-se de hervas fluctuantes que mordem e monstros que se enraizam;
mette na sombra da agua essa horrivel magnificencia. No escolho
isolado, ninguem o espreita, nem o incommoda; o mar desenvolve ahi
a gosto o seu lado mysteriosa inaccessivel ao homem. Depõe ahi as
secreções vivas e horriveis. Acha-se alli todo o ignorado do mar.
Os promontorios, os cabos, os cachopos, os arrecifes, são verdadeiras
construcções. A formação geologica é pouca cousa, comparada á formação
oceanica. Os escolhos, casas da vaga, pyramides da espuma, pertencem
á arte mysteriosa que o autor deste livro chamou algures a Arte da
Natureza, e tem uma especie de estylo enorme. Alli o fortuito parece
intencional. Essas construcções são multiformes. Tem o embaraçado
do polypo, a sublimidade da cathedral, a extravagancia do pagode, a
amplidão da montanha, a delicadeza da joia, o horror do sepulchro. Tem
velaolas como uma colmêa, latibulo como um páteo de bichos, tuneis como
um combro de toupeiras, carceres como uma bastilha, emboscadas como
um campo. Tem portas, mas tapadas columnas, mas truncadas, torres,
mas inclinadas, pontes, mas despedaçadas. Os seus compartimentos
são inextrincaveis; isto é só para os passaros; aquillo é só para
os peixes. Não se passa. A figura architectural transforma-se,
desconcerta-se, affirma e nega a estatica, quebra-se, detem-se, começa
em archivolta, acaba em architrave; seixo sobre seixo. Encelado é o
pedreiro. Uma dynamica extraordinaria ostenta alli os seus problemas
resolvidos. Terriveis abobadas pendentes ameaçam cahir, mas não cahem.
Ninguem sabe como se seguram estes edificios vertiginosos. Declives,
lacunas, suspensões insensatas; desconhece-se a lei desse babelismo. O
Ignoto, immenso architecto, nada calcula e tudo consegue; os rochedos,
construidos confusamente, compõem um monumento monstro; nenhuma
logica, um vasto equilibrio. É mais do que a solidez, é a eternidade.
É a desordem ao mesmo tempo. O tumulto da vaga parece ter passado no
granito. Um escolho é a tempestade petrificada. Nada mais impressivel
para o espirito do que essa medonha architectura, sempre esboroante,
sempre de pé. Tudo alli se ajuda e se contraria. É um combate de linhas
donde resulta um edificio. Reconhece-se a collaboração dessas duas
querellas, o oceano e o furacão.
Architectura que tem terriveis obras primas. O escolho Douvres era uma
dellas.
Esse foi construido e aperfeiçoado pelo mar com um amor formidavel.
Lambia-o a agua rabugenta. Era hediondo, perfido, obscuro; cheio de
cavas.
Tinha um systema de veias que eram fendas submarinas, ramificando-se em
profundezas insondaveis. Muitos orificios desse rasgão inextrincavel
ficavam a secco nas vasantes.
Podia-se entrar então, com risco.
Gilliatt, pela necessidade do trabalho, teve de explorar todas essas
grotas. Nenhuma dellas deixava de ser temivel. Em todas as cavas,
reproduzia-se, com as dimensões exageradas do oceano, aquelle aspecto
de matadouro e açougue extranhamente imitado do centro das Douvres.
Quem não vio as excavações desse genero, na parede do eterno granito,
esses horriveis _frescos_ da natureza, não póde fazer uma idéa do que é.
Eram dissimuladas essas grotas ferozes, era inconveniente demorar-se
nellas. A maré enchente invadia-as até o tecto.
Abundavam os mariscos e os fructos do mar.
Estavam cheias de seixos rolados e amontoados no fundo. Muitos pesavam
mais de uma tonelada. Eram de todas as proporções e de todas as côres,
a maior parte pareciam ensanguentados, alguns cobertos de filamentos
pelludos e viscosos, pareciam grossas toupeiras verdes focinhando no
rochedo.
Muitas dessas cavas terminavam como um forno. Outras, arterias de uma
circulação mysteriosa, prolongavam-se no rochedo em fendas tortuosas
e negras. Eram as ruas do golphão. Essas fendas estreitavam-se
constantemente de modo a não deixar passar um homem. Um brandão aceso
deixava ver obscuridades gotejantes.
Gilliatt aventurou-se uma vez numa dessas fendas. A hora da maré
prestava-se a isso. Era bello dia de calma e de sol. Não havia que
temer nenhum accidente do mar que pudesse complicar o perigo.
Duas necessidades como dissemos, levavam Gilliatt a essas explorações:
procurar os destroços uteis, e achar lagostas para comer. Já lhe
faltavam conchas nas Douvres.
A fenda era estreita e a passagem quasi impossivel. Gilliatt via
claridade do outro lado. Fez esforço, espremeu-se como pôde, e entrou
até onde lhe foi possivel.
Achou-se, sem pensar, no interior do rochedo da ponta do qual Clubin
atirára-se da Durande. Gilliatt estava debaixo dessa ponta. O rochedo,
abrupto exteriormente, e inaccessivel, era vasio no interior. Tinha
galerias, poços e quartos como o tumulo de um rei do Egypto. Aquelle
dedalo era dos mais complicados, trabalho da agua, infatigavel solapa
do mar. As divisões daquelle subterraneo submarinho, communicavam
provavelmente com a agua immensa do exterior por mais de uma sahida,
umas abertas ao nivel da agua, outras profundos funis invisiveis. Perto
dalli, Gilliatt nem o sabia, foi que Clubin atirou-se ao mar.
Gilliatt, naquella fisga de crocodillos, onde na verdade não havia
medo de achal-os, serpenteava, arrastava-se, esbarrava, curvava-se,
levantava-se, perdia o pé, encontrava o chão, avançava penosamente. A
pouco e pouco alargou-se o bocal, appareceu uma meia luz, e de repente
Gilliatt entrou em uma caverna extraordinaria.
XII
O INTERIOR DE UM EDIFICIO DEBAIXO DO MAR
A luz vinha a proposito.
Um passo mais, e Gilliatt estaria em uma agua talvez sem fundo. As
aguas das cavas tem um tal resfriamento e uma paralysia tão subita, que
lá ficam muitas vezes os mais fortes nadadores.
Demais, não havia meio de subir e agarrar ás rochas entre as quaes
ficaria preso.
Gilliatt parou.
Á grota, donde elle sahira, ia ter a mesma saliencia estreita e
viscosa, especie de vulcão na muralha a pique. Gilliatt encostou-se á
muralha e olhou.
Estava n'uma grande cava. Tinha acima de si alguma cousa semelhante
ao interior de um craneo dissecado. E parecia dissecado de fresco. As
nervuras gotejantes das strias do rochedo imitavam na abobada as fibras
dentadas de uma bola. Por tecto, a pedra; por assoalho, o mar; as ondas
apertadas entre as quatro paredes da grota, pareciam vastos ladrilhos
fluctuantes. A grota estava fechada por todos os lados. Nenhuma
trapeira, nenhum respiradouro, nenhuma fenda na parede. À luz vinha
debaixo atravez da agua. Era um resplendor tenebroso.
Gilliatt cujas pupillas se dilataram durante o trajecto obscuro do
corredor, distinguia tudo naquelle crepusculo.
Conhecia, por lá ter ido mais de uma vez, as cavas de Plenmont em
Jersey, o Croux-Maillé em Guernesey, as Boutiques em Jerk, assim
chamadas por causa dos contrabandistas que alli depunham as suas
mercadorias; nenhum desses maravilhosos antros era comparavel ao quarto
subterraneo e submarinho onde penetrára.
Gilliatt via diante delle, debaixo da vaga, uma especie de arcada
afogada. Essa arcada, ogiva natural, trabalhada pela onda, era
brilhante entre as suas duas columnas profundas e negras. Era por
aquelle portico submergido que entrava na caverna claridade do alto
mar. Luz estranha que vinha por um buraco na agua.
Essa claridade esvasava-se debaixo da agua como um largo leque e
repercutia no rochedo. Os raios rectilineos, cortados em longas fitas
negras, sobre a opacidade do fundo, clareando ou escurecendo de uma
anfractuosidade a outra, immilavam interposicões de laminas de vidro.
Havia luz, mas luz desconhecida. Já não era a nossa luz. Podia-se
crer que se estava em outro planeta. A luz era um enigma; dissera-se
o verde clarão da pupilla de uma sphynge. A cava figura o interior de
uma caverna enorme; a esplendida abobada era o craneo, e a arcada era a
bocca; não havia buracos dos olhos. A boca engulindo e vomitando o flux
e o reflux, aberta em pleno meio dia exterior, bebia a luz e vomitava o
amargor.
Certos entes, intelligentes e máos, assemelham-se a isto. O raio do
sol, atravessando aquelle portico obstruido de uma espessura vidrenta
da agua do mar, tornava-se verde como um raio de Aldebaran. A agua,
cheia dessa luz molhada, parecia esmeralda em fusão. Um reflexo de
agua-marinha de incrivel delicadeza tingia brandamente toda a caverna.
A abobada com os seus lobulos quasi cerebraes e as suas ramificações
semelhantes a nervos, tinha um fraco reflexo de chrysopraso. O
chamalote da onda, reverberado no tecto, decompunha-se e recompunha-se
constantemente, alargando e estreitando as suas rodas de ouro com um
movimento de dansa mysteriosa. Sahia dalli uma impressão espectral; o
espirito podia perguntar que preza ou que espera era aquella que fazia
tão alegremente aquelle magnifico filete de fogo vivo. Nos relevos da
abobada e nas asperidades da rocha pendiam longas e finas vegetações
banhando provavelmente as raizes atravez do granito em alguma toalha de
agua superior, e desbagando, nas pontas, uma gota d'agua, uma perola.
Essas perolas cahiarn no golphão com um pequeno rumor. Todo esse
conjuuto era inexprimivel. Não se podia imaginar nada mais lindo nem
mais lngubre.
Era alli o palacio da Morte, alegre.
XIII
O QUE SE VÊ E O QUE SE ENTREVÊ
Sombra que deslumbra, tal era aquelle sitio sorprehendente.
A palpitação do mar fazia-se sentir naquella cava. A oscillação externa
inchava e depremia a toalha de agua interior com a regularidade de
uma respiração. Cuidava-se vêr uma alma mysteriosa naquelle grande
diaphragma verde elevando-se e abaixando-se em silencio.
A agua era magicamente limpida, e Gilliatt distinguia, em profundezas
diversas, estações immersas, superficie de rochas de um verde carregado
a mais e mais. Certas cavas obscuras eram provavelmente insondaveis.
Dos dous lados do portico sub-marinho, esboços de cimbrios abatidos,
cheios de trevas, indicavam pequenas cavas lateraes, pontos inferiores
da caverna central, accessiveis talvez na época das marés extremamente
baixas.
Essas anfractuosidades tinham tectos em plano inclinado, em angulos
mais ou menos abertos. Pequenas plagas, descobertas pelas excavações do
mar, mergulhavam-se e perdiam-se debaixo dessas obliquidades.
Longas hervas expessas, de mais de uma toeza, ondulavam debaixo d'agua
como um balancear de cabellos ao vento. Entreviam-se florestas de
sargaço.
Fóra d'agua, e dentro d'agua, toda a muralha da cava, de alto abaixo,
desde a abobada até ao desapparecimento no invisivel, era tapetada
dessas prodigiosas florescencias do oceano, tão raramente viaveis ao
olho humano, que os velhos navegadores hespanhóes, chamaram _praderias
del mar._ Expesso musgo, com todos os matizes da azeitona, escondia
e ampliava as exostosis de granito. De todos os declives rompiam
os delgados lóros lavrados do sargaço com que os pescadores fazem
barometros. O halito obscuro da caverna agitava essas correas luzentes.
Debaixo dessas vegetações escondiam-se e mostravam-se ao mesmo
tempo, as mais raras joias do escrinio do oceano, os marfins, as
mitras, os elmos, as purpuras, os buzios, os strultiolarios, as
conchas univalvulas. As campanas de lapas, semelhantes a barracas
microscopicas, adheriam ao rochedo e grupavam-se em aldèas, em cujas
ruas rolavam as multivalvulas, esses escarabeos da vaga. Não podendo os
seixos de marisco entrar facilmente nessa grota, ahi se refugiavam as
conchas. As conchas são grandes fidalgos que, bordados e paramentados,
evitam o rude e incivil contacto do populacho das pedras. A fulgida
reunião das conchas fazia debaixo d'agua, em certos lugares, ineffaveis
irradiações atravez das quaes entrevia-se um grupo de azues e
vermelhos, e todos os reflexos da agua.
Na parede da caverna, um pouco ácima da linha de flutuação da maré,
uma planta magnifica e singular, prendia-se como um debrum á tapeçaria
do sargaço, continuava-o e terminava-o. Essa planta, fibrosa, vasta,
inextrincavelmente dobrada, e quasi negra, offerecia ao olhar largas
toalhas embaraçadas e obscuras, ornadas em toda a extensão de numerosas
florinhas côr de lapiz lazuli. Na agua parecia que essas flôres
accendiam-se, e cuidava-se vêr brazas azues. Fóra da agua eram flôres,
dentro da agua eram saphyras, de modo que a onda, subindo e innundando
o esvazamenlo da grota, revestia essas plantas e cobria o rochedo de
carbunculos.
A cada enchimento da vaga tumida como um pulmão, essas flôres banhadas,
resplandeciam, a cada abaixamento apagavam-se; melancolica semelhança
com o destino. Era a aspiração, que é a vida; era a expiração que é a
morte.
Uma das maravilhas daquella caverna era a rocha. Essa tocha, ora
muralha, ora cymbrio, ora pilastra, era em alguns lugares bruta e nua,
em outros trabalhada pelos mais delicados lavores naturaes. Um não sei
quê, aliás de espirito, misturava-se á estupidez massiça da pedra.
Que artista não é o abysmo! Tal pedaço de parede, cortado em quadro
e cheio de altos e baixos, representando attitudes, figurava um vago
baixo-relevo; ante essa esculptura, em que havia um tanto de nuvem,
podia-se sonhar com Prometteo esboçando para Miguel Angelo. Parecia
que com alguns toques de cinzel o genio poderia acabar o que o gigante
começara. Em outros lugares a rocha era embutida como um broquel
sarraceno ou traçada como uma florentina. Tinham almofadas que pareciam
bronze de Corintho, arabescos como uma porta de mesquita; como uma
pedra runica tinha signaes de unha obscuros e improvaveis. Plantas com
ramos torcidos em forma do verruma, cruzando-se no dourado do musgo,
cobriam-na filagranas. Era um antro e uma alhambra. Era o encontro da
selvageria e da ourivesaria na augusta e disforme architectura do acaso.
O magnifico bolor do mar avelludava os angulos do granito. As pedras
estavam adornadas de lianas grandi-flôres, tão destras que não cahiam,
e pareciam intelligentes tão bem adornavam ellas.