A parte inferior dos escolhos estava tapetado de sargaço e a parte

superior de _lichen._ O nivel uniforme do sargaço em todas as rochas

marcava a linha da flutuação da maré cheia. As pontas que a agua não

attingia tinha o prateado e o dourado que dá aos granitos marinhos o

lichen branco e o lichen amarello.

Cobria a rocha em certos pontos uma lepra de conchas corroidas.

Em outros pontos, nos angulos reentrantes, onde se accumulára uma arêa

fina, ondeada na superficie antes pelo vento que pela vaga, havia tufas

de cardo azul.

Nos redentes pouco batidos pela espuma, reconhecia-se as pequenas covas

furadas pelos ursos do mar. Este urso-concha, que anda, bola viva,

rolando-se nas pontas, e cuja couraça compõe-se de mais de dez mil

peças artisticamente ajustadas e soldadas, o urso marinho, cuja boca se

chama, ninguem sabe porque, _lanterna de Aristoteles_, cava o granito

com os cinco dentes que tem e aloja-se nos buracos. Nessas alveolas é

que os pescadores de fructas do mar dão com elle. Cortam-n'o em quatro

partes e comem-n'o crú como ostra. Alguns metem o pão naquella carne

mólle. Dahi o nome de _ovo do mar._

As cumiadas dos bancos descobertas pela maré que vasava iam ter mesmo

debaixo do rochedo Homem a uma especie de angra murada quasi por todos

os lados. Havia alli evidentemente um ancouradouro possivel. Gilliatt

observou a angra a forma de uma ferradura, e abria-se de um ao vento

Este, que é o menos máo daquellas paragens. O vento alli estava preso

e quasi adormecido. Era segura aquella bahiazinha. Nem Gilliatt tinha

muito onde escolher.

Se Gilliatt quizesse aproveitar a maré vasante devia apressar-se.

O tempo continuava a ser magnifico. Estava de humor aquelle insolente

mar.

Gilliatt tornou a descer, calçou os sapatos, desatou a amarra, entrou

na barea, e navegou para fóra. Costeava com o remo a parte externa do

cachopo.

Chegando perto do Homem examinou a entrada da angra.

Um certo ondeado na mobilidade da agua, ruga imperceptivel a qualquer

que não fosse marinheiro, desenhava aquelle passo.

Gilliatt estudou alguns instantes a curva, lineamento quasi indistincto

na vaga, depois tomou ao largo, afim de virar a gosto, e entrar bem, e

vivamente, de um só movimento de remo, entrou na angra.

Sondou.

Era excellente o ancouradouro.

A _pança_ estaria protegida alli quasi contra todas as eventualidades

da estação.

Os mais temiveis arrecifes teem desses recantos tranquillos. Os portos

que se acham nos escolhos assemelhara-se á hospitalidade do beduino;

são honestos e seguros.

Gilliatt arranjou a _pança_ o mais perto do Homem que lhe foi possivel,

em ponto que não podesse perder-se, e poz ao mar as duas ancoras.

Feito isto, cruzou os braços e reflectio.

A _pança_ estava abrigada; era um problema resolvido; mas

apresentava-se o segundo. Onde abrigar-se Gilliatt?

Offereciam-se dous pontos; o primeiro era a propria _pança_, com o

seu camarote mais ou menos habitavel; o segundo era o cimo do rochedo

Homem, facil de escalar.

De qualquer destes dous angulos podia-se ir a pé nas vasantes,

saltando-se de rocha em rocha, até ás Douvres, onde estava a Durande.

Mas a vasante dura apenas um momento, e no resto do tempo ficava elle

separado, ou do asylo, ou da Durande, por umas duzentas braças. Nadar

no mar de um escolho é difficil; com qualquer agiatação é impossivel.

Era preciso desistir da _pança_ e do Homem.

Nenhuma estação possivel nos rochedos visinhos.

Os cimos inferiores dasapparecem duas vezes por dia debaixo da enchente

da maré.

Os cimos superiores eram constantemente cuspidos pelos saltos da

espuma. Inhospita lavagem.

Restava o casco da Durande.

Podia-se viver alli?

Gilliatt teve essa esperança.

VII

QUARTO PARA O VIAJANTE

Meia hora depois, Gilliatt, de volta á Durande, subia e descia no

interior, do tombadilho ao porão, aprofundando o exame summario de sua

pequena visita.

Com auxilio do cabrestante, tinha elle içado á Durande o pacote que

fez do carregamento da _pança._ O cabrestante comportára-se bem. Não

faltava onde metter o carregamento, Gilliatt tinha, no meio daquelles

destroços, muito onde escolher.

Achou entre as ruinas um escopro cahido sem duvida da celha do

carpinteiro e com o qual augmentou elle a ferramenta.

Além disso, como tudo serve onde não ha abundancia, tinha comsigo a

faca.

Gilliatt trabalhou todo o dia no casco, limpando, consolidando,

simplificando.

Á tardinha se conheceu isto:

Todo o casco tiritava ao vento, tremia a cada passo de Gilliatt. Só era

estavel e firme a parte do casco metida entre os rochedos, que continha

a machina, e ficava poderosamente presa ao granito.

Instalar-se na Durande era imprudente. Era sobre posse; e, longe de dar

pezo ao navio, cumpria tornal-o mais leve.

Carregar sobre o casco era o contrario do que cumpria fazer.

Aquella ruina queria melhores tratos. Era uma especie de doente que

expira. Havia bastante vento para maltratal-a.

Já era máo ter de trabalhar nella. A porção de trabalho que o casco

devia supportar naturalmente talvez o fatigasse mais do que comportavam

as suas forças.

Além disso, se sobreviesse algum accidente nocturno durante o somno

de Gilliatt, estar no navio era sossobrar com elle. Nenhum auxilio

possivel: tudo ficava perdido. Para soccorrer o navio, era precizo

estar fora delle.

Fóra delle e junto delle, tal era o problema.

Complicava-se a difficuldade.

Onde achar um abrigo em taes condições?

Gilliatt pensou.

Só restavam as duas Douvres. Pareciam pouco habitaveis.

Via-se debaixo, no _plateau_ superior da grande Douvre uma especie de

excrescencia.

As rochas em pé, com a parte superior chata, como a grande Douvre e

o Homem, são penedos decapitados, abundam nas montanhas e no oceano.

Certos rochedos, principalmente os que se encontram em mar largo, teem

entranhas como se foram arvores golpeadas. Parecem ter recebido um

golpe de machado. Com effeito, essas rochas andam sujeitas ao vae-vem

do furacão, que é o lenhador do mar.

Existem outras causas de cataclysma mais profundas ainda. Dahi vem

que ha tantas feridas em todos esses velhos granitos. Alguns desses

collossos teem a cabeça cortada.

Ás vezes a cabeça, sem que se possa explicar, não cahe e fica mutilada,

no cume do rochedo. Não é rara essa singularidade. A Roque-au-Diable,

em Guernesey, e a Fable, no valle de Anweiler, apresentam nas mais

sorprehendentes condicções esse estranho enigma geologico.

Provavelmente tinha acontecido á grande Douvre alguma cousa semelhante.

Se a tumescencia que havia no _plateau_ não era natural, era

necessariamente algum fragmento que ficaria da decapitação.

Talvez houvesse alguma exacavação nesse pedaço de rocha.

Buraco para metter-se um homem; era o que Gilliatt queria.

Mas como chegar até lá? como trepar por aquella columna vertical, densa

e polida como um seixo, meio coberta de uns filamentos viscosos, tendo

o aspecto escorregadio de uma superficie ensaboada?

Gilliatt tirou da caixa da ferramenta a corda de nós, prendeu-a á

cintura, e poz-se a escalar a pequena Douvre. Á proporção que ia

subindo, tornava-se mais difficil a ascenção. Esquecera-se de tirar os

sapatos, o que augmentava a difficuldade. Não sem custo chegou á ponta.

Chegando á ponta poz-se de pé sobre ella. Havia apenas lugar para os

pés. Fazer disso um lugar para descançar e dormir era difficil. Um

stylicte contentara-se, Gilliatt mais exigente queria cousa melhor.

A pequena Douvre curvava-se para grande, e de longe parecia

comprimental-a, e o intervallo das duas Douvres, que era de uns vinte

pés em baixo, era apenas de oito ou dez pés em cima.

Da ponta, onde trepara, Gilliatt vio mais distintamente a entumescencia

que cobria a plataforma da grande Douvre.

Essa plataforma elevava-se umas tres toezas acima da cabeça delle.

Separava-o della um precipicio.

O declive da pequena Douvre desapparecia debaixo delle.

Gilliatt desprendeu da cintura a corda de nós, tomou rapidamente com o

olhar as dimenções, e atirou a ponta da corda sobre a plataforma.

O gancho arranhou a rocha e resvalou. A corda de nós que tinha o gancho

na extremidade, cahio aos pés de Gilliatt ao longo da pequena Douvre.

Gilliatt recomeçou, lançando, a corda mais longe e visando a

protuberancia granitica onde via buracos.

O lanço foi tão destro e tão firme que o gancho segurou.

Gilliatt puxou.

Desprendeu-se a corda, e veio bater na columna abaixo de Gilliatt.

Gilliatt lançou a corda pela terceira vez.

Desta vez não cahio.

Gilliatt puxou a corda. Acorda resistio. O gancho estava seguro.

Ficara seguro em alguma anfractuosidade da plataforma que Gilliatt não

podia ver.

Tratava-se de confiar a vida aquella desconhecida prisão do gancho.

Gilliatt não hesitou.

Urgia tudo. Era preciso ir quanto antes.

Além de que, descer ao tombadilho da Durande para procurar qualquer

outro meio, era cousa impossivel. O resvalamento era provavel e a queda

quasi certa. Sobe-se, não se desce.

Tinha Gilliatt, como todos os bons marinheiros, movimento de previsão.

Nunca perdia força. Vinham dahi os prodigios de vigor que elle

executava com musculos ordinarios; tinha as forças communs, mas uma

grande coragem. Ao lado da força, que é physica, tinha a energia, que é

moral.

Devia praticar alli um acto tremendo.

Galgar, suspenso áquelle fio, o intervallo das duas Douvres; tal era a

questão.

São frequentes nos actos de dedicação ou de dever esses pontos de

interrogação que parecem postos pela morte.

Farás isto? diz a sombra.

Gilliatt executou uma segunda tracção de ensaio sobre o gancho; o

gancho resistio.

Gilliatt embrulhou a mão esquerda no lenço, apertou a corda com a

mão direita coberta pela mão esquerda, depois tendo um pé adiante,

e empurrando com o outro pé a rocha afim de que o vigor do impulso

impedisse a rotação da corda, precipitou-se do do alto da pequena

Douvre sobre a columna da grande.

Duro foi o choque.

Apezar da precaução tomada por Gilliatt, a corda volteou, e foi o

hombro delle que bateu no rochedo.

Por sua vez os punhos bateram na rocha. Desatara-se o lenço. As mãos

ficaram arranhadas; admirou que não ficassem esmagadas.

Gilliatt conservou-se algum tempo aturdido e suspenso.

Mas ainda assim bastante senhor de si para não largar a corda.

Decorreu algum tempo em oscilação e sobresaltos antes que pudesse

agarrar a corda com os pés mas conseguio afinal.

Voltando a si e conservando a corda entre as mãos, Gilliatt olhou para

baixo.

Não se assustava a respeito do comprimento da corda, que mais de uma

vez lhe servira a maiores alturas. A corda com effeito arrastava na

Durande.

Gilliatt, certo de poder descer, começou a trepar.

Em poucos momentos chegou ao cume.

Ninguem, a não serem os passaros, tinha posto alli o pé. A plataforma

estava coberta de esterco de passaros. Era um trapezio irregular, lasca

daquelle collosal granito chamado grande Douvre. No meio havia uma cava

como uma bacia. Trabalho das chuvas.

Gilliatt conjecturara com exatidão. Via-se no angulo meridional

do trapesio uma superposição de rochedos, de troços provaveis do

descalabro do cimo. Esses rochedos, especie de monte de pedras

desmedidas, deixavam lugar a um animal feroz que alli tivesse trepado

para passar. Equilibravam-se no meio da confusão; tinha os intersticios

de um montão de grabatos. Não havia grota nem antro, mas buracos como

uma esponja. Um desses podia admittir Gilliatt.

O fundo desse buraco era de relva e musgo. Gilliatt estaria alli como

se fosse em casa.

A alcova na entrada tinha dous pés de altura. Estreitava-se para o

fundo. Ha tumulos de pedra que tem essa fórma. O monte de rochedos

estava encostado ao sudoeste, de modo que a casinhola de Gilliatt

ficava garantida das aguas, mas aberta ao vento do norte.

Gilliatt achou que isso era bom.

Os dous problemas estavam resolvidos, a _pança_ tinha um porto, elle

tinha casa.

A excellencia da casa era ficar perto da Durande.

O gancho da corda tinha cahido entre dous pedaços de rocha e ficou

solidamente preso. Gilliatt immobilisou-o pondo em cima uma grossa

pedra.

Depois entrou immediatamente em livre pratica com a Durande.

Já estava em casa.

A grande Douvre era a casa, e Durande era a officina.

Ir e vir, subir e descer, nada mais simples.

Atirou-se vivamente pela corda abaixo até o tombadilho.

O dia foi bom, a cousa começava bem, Gilliatt estava satisfeito,

reparou que tinha fome.

Desatou o cesto de provisões, abrio a faca, cortou um pedaço de carne

fumada, trincou o pão de rala, bebeu um gole do pichel de agua doce, e

ceou admiravelmente.

Trabalhar bem e comer bem, são duas alegrias. O estomago cheio

assemelha-se a uma consciencia satisfeita.

Acabada a ceia, ainda havia sol. Gilliatt aproveitou a claridade para

começar a alliviar o navio, que era urgente.

Tinha passado uma parte do dia a separar os destroços. Poz de lado, no

compartimento solido, onde estava a machina, tudo o que podia servir,

madeira, ferro, cordoame, velame. O que era inutil deitou ao mar.

O carregamento da _pança_, içado pelo cabrestante até o tombadilho,

era, embora summario, um estorvo. Gilliatt vio a especie de nicho

cavado na pequena Douvre, a uma altura que elle podia tocar com a mão.

Vê-se muitas vezes nos rochedos esses armarios naturaes, não fechados,

é verdade. Pensou que era possivel confiar o deposito aquelle nicho.

Poz no fundo as duas caixas, a da ferramenta e a do vestuario, os dous

saccos, o centeio e o biscouto, e na frente, demasiado chegado a borda,

por não haver mais lugar, o cesto das provisões.

Teve cuidado de retirar da caixa das roupas a pelle dc carneiro, a

japona e as grevas alcatroadas.

Para impedir que o vento desse na corda de nós prendeu a ponta em uma

porca da Durande.

A porca era muito curva, e prendia a corda tão bem como se fôsse uma

mão fechada.

Restava a parte superior da corda. Prender a extremidade de baixo era

facil, mas no cimo da columna, no lugar onde a corda encontrava a borda

da plataforma, era de esperar que fôsse a pouco e pouco gasta pelo

angulo do rochedo.

Gilliatt investigou o montão de destroços que reservara, apanhou alguns

pedaços de lona, e alguns fios de carreta achados entre os cabos, e

meteu tudo nas algibeiras.

Qualquer marujo advinhava logo que elle ia forrar com a lona e os fios

o pedaço da corda na altura do angulo do rochedo, de modo a preveni-lo

de qualquer avaria.

Feita a provisão dos trapos, poz as grevas nas pernas, vestio a japona,

prendeu ao pescoço a pelle de carneiro, e assim vestido, com essa

panoplia completa, agarrou a corda, rubustamente presa ao flanco da

grande Douvre, e subio por aquella sombria torre do mar.

Gilliatt, apezar de ter as mãos arranhadas, chegou rapidamente á

plataforma.

Os ultimos clarões do poente iam-se apagando. Fazia noite no mar. O

alto da Douvre conservava alguma claridade.

Gilliatt aproveitou o resto da claridade para forrar a corda.

Applicou-lhe no cotovello que ella fazia no rochedo, uma ligadura de

muitos pedaços de vela, fortemente atada em cada pedaço. Era pouco mais

ou menos o forro que costumam a pôr nos joelhos aa actrizes para as

agonias e supplicas do 5° acto.

Terminado o forro, Gilliatt levantou-se.

Desde alguns instantes, emquanto esteve forrando a corda, ouvia elle

confusamente no ar um extrecimento singular.

Assemelhava-se, no silencio da noite, ao rumor que fizesse o bater das

azas de um morcego.

Gilliatt levantou os olhos.

Um grande circulo negro volteava-lhe por cima da cabeça no céo profundo

e alvo do crepusculo.

Costuma-se a vêr, nos velhos quadros, circulos iguaes sobre a cabeça

dos santos. A differença é que são de ouro em fundo sombrio; este era

tenebroso em fundo claro. Nada mais extranho. Dissera-se a aureola

nocturna da grande Douvre.

O circulo abaixava-se e levantava-se; estreitava-se e alargava-se.

Eram gaivotas, goelanos, corvos, cotovias, uma nuvem de passaros do

mar, espantados.

É provavel que a grande Douvre fosse a hospedaria delles, e que elles

fossem buscar ahi o repouso. Gilliatt tinha-lhe tomado um quarto.

Assustou-os o inesperado inquilino.

Nunca tinham visto esse homem alli.

Durou algum tempo aquelle voar assustado.

Os passaros pareciam esperar que Gilliatt se fosse embora.

Gilliatt, vagamente pensativo, acompanhava-os com os olhos.

O turbilhão volante acabou por tomar uma resolução, o circulo desfez-se

em espiral, e a nuvem de passaros foi cahir do outro lado do escolho,

no rochedo Homem.

Ahi pareceram consultar e deliberar. Gilliatt estendendo-se no

seu buraco de granito, e pondo debaixo da cabeça uma pedra, como

travesseiro, ouvio por muito tempo a conversa dos passaros, que

guinchavam cada um por sua vez.

Depois calaram-se, e tudo dormio, os passaros em uma rocha e Gilliatt

em outra.

VIII

IMPORTUNAQUE VOLUCRES

Gilliatt dormio bem. Mas sentio frio, e por isso acordou varias vezes.

Tinha naturalmente os pés collocados no fundo do buraco, e a cabeça á

borda. Não teve o cuidado de tirar daquelle leito uma porção de seixos

agudos que não lhe davam melhor somno.

De quando em quando entreabria os olhos.

Ouvia em certos instantes detonações profundas. Era o mar que enchia e

entrava nas cavas do escolho com um ruido de canhão.

Tudo alli em roda apresentava o extraordinario da visão; Gilliatt tinha

a chimera á roda de si. O meio espanto da noite contribuia para que

elle se visse mergulhado no impossivel. Gilliatt dizia comsigo: Estou

sonhando.

Depois tornava a dormir, e sonhando então, achava-se na casa delle,

na de Lethierry, em Saint-Sampson; ouvia cantar Deruchette; estava

no real. Emquanto dormia acreditava estar acordado e viver; quando

acordava, pensava dormir.

Com effeito, era um sonho aquillo.

Lá pelo meio da noite, ouvio-se um vasto rumor no céo. Gilliatt teve

confusamente consciencia disso atravez do somno. Era provavel que fosse

o vento.

De uma vez que elle acordou, com um estremecimento de frio, abrio as

palpebras mais do que ate então. Havia largas nuvens no zenith; a lua

fugia e uma grande estrella ia atraz della.

Gilliatt tinha o espirito cheio da diffusão dos sonhos, e esse

crescimento do sonho complicava as medonhas paisagens da noite.

De madrugada estava gelado e dormia profundamente.

A aurora tirou-o daquelle somno talvez perigoso. A alcova de Gilliatt

estava em frente ao sol nascente. Gilliatt bocejou, espreguiçou-se, e

levantou-se do buraco.

Dormiria tão bem que não comprehendeu nada.

A pouco e pouco foi-lhe voltando o sentimento da realidade, e elle

exclamou: Almocemos!

O tempo estava calmo, o céo estava frio e sereno, não havia nuvens, a

vassoura da noite limpára o horisonte, o sol levanta-se bem. Era um

segundo dia bonito que começava. Gilliatt sentio-se alegre.

Tirou a japona, envolveu-a na pelle de carneiro, atou tudo, e metteu o

embrulho no fundo do buraco ao abrigo de alguma chuva eventual.

Depois fez a cama, isto é, poz fóra os seixos agudos.

Feita a cama, deixou-se rolar ao longo da corda sobre o tombadilho da

Durande, e correu para o nicho onde puzera o cesto de provisões.

Não achou o cesto; como estava muito á beira, o vento da noite atirou-o

ao mar.

Isto annunciava uma intenção de luta.

Era preciso que houvesse no vento uma certa vontade e malicia para ir

buscar o cesto.

Era um começo de hostilidades. Gilliatt comprehendeu isso.

É difficil, quando se vive em familiaridade com o mar não vêr no vento

e nas rochas creaturas e personagens.

Só restava a Gilliatt, além do biscouto e da farinha de centeio, o

recurso das conchas com que se alimentou o naufrago morto de fome no

rochedo Homem.

A pesca era impossivel. O peixe, inimigo dos choques, evita os

escolhos; as redes perdem o seu tempo nos recifes; as pontas da rocha

só servem para rasgar as redes.

Gilliatt almoçou alguns mariscos que arrancou da pedra com difficuldade

escapando-se-lhe de quebrar a faca; feito este guapo _lunch_ ouvio um

estranho tumulto no mar. Olhou.

Era o bando de goelanos e gaivotas que cahia sobre uma das rochas

baixas, batendo as azas, empurrando-se, gritando. Formigavam no mesmo

ponto. Aquella horda de bicos e unhas saqueava alguma cousa.

Essa cousa era o cesto de Gilliatt.

O cesto lançado sobre um banco pelo vento, rasgou-se. Os passaros

correram logo. Levaram no bico toda a especie de pedaços de comida.

Gilliatt reconheceu de longe a sua carne fumada e o seu stockfisch.

Era a vez de entrarem tambem em luta os passaros. Faziam represalias.

Gilliatt tomara-lhes a casa; elles tomavam-lhe a comida.

IX

O ESCOLHO E A MANEIRA DE SE SERVIR DELLE

Passou-se uma semana.

Embora fosse a estação das chuvas, não chovia, o que alegrava Gilliatt.

Mas o que elle emprehendia estava acima da força humana, em apparencia

ao menos. O successo era de tal modo inverosimil que a tentativa

parecia louca.

As operações encaradas de perto mostram os seus impecilhos e perigos.

Basta começar para ver como é difficil concluir. Todo começo resiste. O

primeiro passo que se dá é um revelador inexoravel. A difficuldade que

se toca fere como um espinho.

Gilliatt teve logo de contar com o obstaculo.

Para salvar a machina da Durande, para tentar com alguma probabilidade

um tal salvamento naquelle lugar e naquella estação, parecia que seria

necessario uma grande porção de homens. Gilliatt era só; precisava

ter uma ferramenta completa de carpinteiro e machinista, e Gilliatt

apenas tinha uma serra, um machado, uma faca e um martello; precisava

ter uma boa officina e um bom telheiro, Gilliatt não tinha nada disso;

precisava ter provisões e viveres, Gilliatt não tinha pão.

Alguem que, durante essa primeira semana, visse Gilliatt trabalhando no

escolho, não saberia o que pretendia elle. Parecia não pensar nem na

Durande nem nas Douvres. Estava occupado com o que havia nos bancos;

parecia absorto no salvamento dos pequenos destroços do naufragio.

Aproveitava as marés baixas, para limpar os recifes de tudo o que o

naufragio lhes tinha dado. Andou de rocha em rocha apanhando o que

o mar ahi depuzera, pedaços de velame, pedaços do corda, pedaços de

ferro, taboas rasgadas, vergas destruidas, aqui um barrete, alli uma

corrente, além uma roldana.

Ao mesmo tempo estudava todas as anfractuosidades do escolho. Nenhum

delles era habitavel, com grande decepção de Gilliatt que sentia frio

de noite no buraco arranjado na grande Douvre, e desejaria achar melhor

pousada.

Duas dessas anfractuosidades eram assaz espaçosas posto que o chão de

rocha natural fosse quasi geralmente obliquo e desigual, podia-se andar

alli de pé. A chuva e o vento entravam alli a gosto, as altas marés não

lhes chegavam. Eram visinhas da pequena Douvre, e faceis de trepar á

qualquer hora. Gilliatt decidio que uma seria um deposito e a outra uma

forja.

Com todos os cabos que pôde recolher, fez pacotes dos restos do

naufragio, ligando os destroços em molhos e as lonas em embrulhos.

Apertou tudo cuidadosamente. Á proporção que a maré enchente batia

nesses pacotes, Gilliat arrastava-os atravez dos recifes até o

deposito. Achou na cava de uma rocha um cabo de guindar, por meio do

qual podia levantar mesmo os grossos pedaços de madeira. Do mesmo modo

arrancou ao mar os numerosos pedaços de corrente esparsos nos escolhos.

Gilliatt era tenaz e admiravel nesse trabalho. Fazia quanto queria.

Nada resiste a um encarniçamento de formiga.

No fim da semana, Gilliatt tinha nesse deposito de granito todo o

arsenal de objectos destruidos pela tempestade. Havia o lugar dos cabos

e o das escotas; as bolinas não estavam misturadas com as adrissas;

as bigotas estavam arranjadas conforme a quantidade de buracos que

tinham; as roldanas estavam classificadas separadamente; as cavilhas do

papafigos, as machadinhas, os cabos, e mil outros objectos, occupavam,

urna vez que não estivessem completamente desfigurados pela avaria,

compartimentos differentes; tudo quanto era de carpintaria estava

á parte; de cada vez que era possivel, as taboas dos fragmentos do

casco eram ajustadas umas ás outras; não havia confusão de rises com

viradores, nem pateraces, com enxarcias, nem amuradas com precintas; um

dos recantos era reservado á tabuiga da Durande, que apoiava os ovens

do cesto de gavea e as gabundonas. Cada destroço tinha o seu lugar.

Todo o naufragio estava alli classificado e com o rotulo competente.

Era uma cousa semelhante ao cahos armazenado.

Uma vela de estaes, presa por pedras, cobria, aliás rota, o que a chuva

podia estragar.

Por mais quebrada que estivesse a prôa da Durande, Gilliatt conseguio

salvar os dous cêpos da ancora, com as tres rodas de polé.

Os Trabalhadores do Mar · 第 15 / 28 段