um sacco de biscouto, um sacco de farinha de centeio, uma cesta de
stok-fisch e de carne fumada, um grande pichel de agua doce, uma caixa
norueguense com ramagens pintadas, contendo algumas camisas de lã,
grevas alcatroadas, e uma pelle de carneiro que elle punha de noite
em cima da japona. Tinha posto tudo isso, ás carreiras, na _pança_, e
mais um bocado de pão fresco. Com a pressa, não levou outra ferramenta
mais que o martello da forja, o machado e a picareta, uma serra, e uma
corda de nós armada de fateixa. Com uma escada desta ordem, e a maneira
de servir della, as subidas escabrosas tornam-se praticaveis nos mais
rudes declives.
Póde-se ver na ilha de Serk a vantagem que os pescadores do Havre
Gosselin tiram de semelhante corda.
As rêdes e as linhas e todo o arsenal de pescaria estavam na barca.
Pôl-os dentro por costume, e machinalmente, porquanto, tendo de tentar
até o ultimo esforço, talvez se demorasse algum tempo no archipelago de
cachopos, e o apparelho da pescaria é inutil em taes sitios.
No momento em que Gilliatt abordou o escolho, o mar baixava,
circumstancia favoravel. As vagas decrescentes descobriam ao pé da
pequena Douvre, algumas pedras chatas ou pouco inclinadas, á semelhança
de harpéos carregando um pavimento. Essas superficies, umas estreitas,
outras largas, encadeando e elevando-se, com espaços desiguaes, ao
longo do monolitho vertical, prolongava-se em cornija até debaixo da
Durande, que abarcava o espaço entre os dous rochedos. Estava apertada
ali como n'um tomilho.
Eram commodas aquellas plataformas para desembarcar e observar.
Podia-se desembarcar ali, provisoriamente, o carregamento da _pança._
Mas era preciso apressar-se, porque ellas estariam fóra d'agua pouco
tempo. Quando a maré enchesse ficariam outra vez cobertas.
Foi para essas rochas, umas chatas, outras declives, que Gilliatt
impellio e fez parar a _pança._
Uma espessura de sargaço, humida e escorregadia cobria essas rochas, e
a obliquidade de algumas dellas mais escorregadias as tornava.
Gilliatt descalçou-se, saltou sobre o limo, e amarrou a _pança_ em uma
ponta de rochedo.
Depois approximou-se o mais devagar que pôde sobre a estreita cornija
de granito, chegou debaixo da Durande levantou os olhos e contemplou-a.
A Durande estava preza, suspensa, e como que ajustada entre os dous
penedos, vinte pés acima das vagas. Era preciso que fosse atirada ali
por uma furiosa violencia do mar.
Tão impetuoso empurrão não faz pasmar a gente do mar. Para citar
apenas um exemplo, a 25 de Janeiro de 1840, no golpho de Itora, uma
tempestade, já espirante, fez saltar um brigue, de um só pulo, por cima
do casco naufragado da corveta _La Marne_, e incrustou-o com o gurupés
á frente, entre dous penedios.
Demais, nas Douvres apenas havia um resto da Durande.
O navio arrancado ás vagas foi de algum modo desenraisado da agua pelo
furacão. O turbilhão do vento tinha-o torcido, o turbilhão do mar
tinha-o preso, e o navio, seguro em sentido inverso pelas duas mãos
da tempestade, quebrou-se como se fôra uma ripa. O pedaço da popa,
com a machina e as rodas, arrebatado das aguas e impellido por toda
a furia do cyclone para a garganta das Douvres, lá ficou. O vento
foi acertado; para metter aquelle casco entre os dous rochedos o
furacão transformou-se em massa. A proa, levada e rolada pelo vento,
deslocou-se nos bancos de pedra.
O porão, que estava arrombado, esvasiara no mar os bois, mortos.
Um grande pedaço da amurada da proa, ainda estava preso ao casco, mas
pendurada nas caixas das rodas por algumas lascas, faceis de quebrar
com um machado.
Via-se aqui e ali, nas anfractuosidades longinquas do escolho,
barrotes, taboas, pedaços de vela, pedaços de correntes, todos os
destroços, tranquillos nos rochedos.
Gilliatt comtemplava com attenção a Durande. A quilha era o tecto que
lhe ficava sobre a cabeça.
O horisonte, onde a agua illuminada apenas se mechia, estava sereno. O
sol sahia explendidamente daquella vasta massa azul.
De tempos a tempos uma gota de agua destacava-se do navio e cahia no
mar.
II
AS PERFEIÇÕES DO DESASTRE
As Douvres eram differentes de fórma como de altura.
Na pequena Douvre, recurvada e aguda, via-se ramificar-se, da base ao
cimo, longas veias de uma rocha côr de tijolo, relativamente tenra,
que fechava com as suas laminas o interior do granito. Nessas laminas
avermelhadas havia, de espaço a espaço, fendas próprias para subir.
Uma dessas fendas, um pouco acima do navio, foi tão bem trabalhada
pelos arremeços do mar, que tornou-se uma especie de nicho, onde podia
guardar-se uma estatua. O granito da pequena Douvre era arredondado na
superficie e macio como pedra de toque, o que não lhe tirava a dureza
que tinha. A pequena Douvre terminava om ponta como um chifre. A grande
Douvre, polida, unida, lisa, perpendicular, e feita como por desenho,
era de um só jacto e parecia feita de marfim preto. Nem um buraquinho,
nem um relevo. Trepar por ella era impossivel: não podia servir nem á
fuga de um criminoso, nem ao ninho de um passaro. No cume havia como no
rochedo Homem, uma plata-fórma; era porém inaccessivel.
Podia-se trepar pela pequena Douvre, mas não ficar lá, podia-se ficar
na grande Douvre, mas não se podia subir.
Gilliatt, depois de lançar os olhos por tudo aquillo voltou á _pança_,
descarregou-a na mais larga das cornijas á flôr d'agua, fez de todo o
carregamento, aliás pequeno, uma especie de pacote, atou-o n'um panno
alcatroado, depois içou-o por meio de um cabo até um ponto da rocha
onde o mar não podia chegar; feito isto, abraçou-se á pequena Douvre,
e com pés e mãos, de fenda em fenda, trepou por ella até a Durande que
estava no ar.
Chegando a altura das caixas das rodas saltou dentro.
O interior do navio era lugubre.
A Durande apresentava todos os vestigios de um arrombamento medonho.
Era a violação tremenda da tempestade. A tempestade comporta-se como um
pirata. Nada assemelha-se mais a um attentado que um naufragio. Nuvens,
trovão, chuva, vagas, tufões, rochedos, horrivel multidão de cumplices
é esta.
No meio daquelles destroços, pensava-se em alguma cousa semelhante ao
tripudio furioso dos espiritos do mar. Tudo eram vestigios de raiva.
As torções estranhas de certos ferros, indicavam a acção impectuosa
dos ventos. O convéz assemelhava-se á célula de um louco; tudo estava
despedaçado.
Nenhum animal estrangula uma pedra como o mar. A agua regorgita das
garras. O vento morde, o mar devora, a vaga é um queixo. É um sacar e
um esmigalhar ao mesmo tempo. O oceano tem um golpe igual á pata do
leão.
O descalabro da Durande apresentava esta particularidade: era
minucioso. Era uma especie de terrivel descascamento. Muitas cousas
pareciam feitas de proposito. Que maldade! podia dizer-se. As fracturas
das amuradas eram feitas com arte. Este genero de destruição é proprio
do cyclone. Retalhar e adelgaçar tal é o capricho desse desvastador
enorme. O cyclone usa das averiguações do carrasco. Os seus desastres
parecem supplicios. Dissera-se que algum rancor o anima; é requintado
como um selvagem. Disseca examinando. Tortura o naufragio, vinga-se,
diverte-se; é mesquinhamente cruel.
Raros são os cyclones em nossos climas, e tanto mais terriveis quanto
que são inesperados. Um rochedo encontrado póde fazer andar á roda a
tempestade. É provavel que a borrasca tivesse feito espiral sobre as
Douvres, voltando-se subitamente em tromba ao choque do escolho, o que
esplicava o salto do navio a tamanha altura naquellas rochas. Quando o
cyclone sopra, um navio peza tanto como a pedra de uma funda.
A Durande tinha a chaga que fica ao homem cortado pelo meio; era
um tronco aberto deixando ver um molho de destroços semelhante a
entranhas. O cordoame fluctuava e estremecia; as correntes balançavam e
tiritavam; as fibras e os nervos do navio estavam nús e pendiam no ar.
O que não estava quebrado estava desarticulado; a pregadura do casco
assemelhava-se a uma almofada eriçada de pregos; em tudo havia a fórma
de ruina; uma barra de pé de cabra não era menos que um simples pedaço
de ferro; uma sonda era apenas um pedaço de chumbo; uma drissa era
apenas uma ponta de canhamo; uma tralha era apenas um fio de debrum;
por toda a parte a inutilidade lamentavel da destruição; nada havia que
não estivesse despregado, desenganchado, rachado, roido, recurvado,
aniquilado; nenhuma adhesão naquelle feio montão de destroços; em tudo
o deslocamento e a ruptura, esse aspecto de inconsistente e liquido que
caracteriza todas as confusões, desde as refregas dos homens que se
chamam batalhas, até ás refregas dos elementos que se chamara cahos.
Tudo esboroava, tudo cahia, e uma torrente de taboas, de lonas, de
ferro, de cabos e de vigas tinha parado na grande fratura da quilha,
donde o menor choque podia precipitar tudo ao mar. O que restava
daquella poderosa carena tão triumphante outr'ora, toda aquella parte
suspensa entre as duas Douvres e talvez prestes a cahir, tudo estava
roto e dilacerado, deixando ver pelos buracos o interior sombrio do
navio.
Debaixo cuspia a espuma sobre aquella cousa miseravel.
III
SÃ, MAS NÃO SALVA
Gilliatt não esperava achar sómente metade do navio. Nas indicações,
aliás tão precisas, do capitão do _Shealtiel_, nada fazia presentir
aquella divisão do casco pelo meio. Foi talvez na occasião em que o
navio partio-se, debaixo da immensa espessura da espuma, que houve
aquelle _estallo diabolico_ ouvido pelo capitão do _Shealtiel._ O
capitão affastava-se sem duvida no momento do ultimo sopro do vento,
e não vio que era uma tromba que impellia o navio. Mais tarde,
approximando-se para observar o desastre, vio apenas a parte anterior
do casco, ficando-lhe escondido pelo rochedo o lado fracturado donde se
rompera metade do navio.
Excepto isto, o patrão do _Shealtiel_ disse tudo exacto. O casco estava
perdido, a machina estava intacta.
São frequentes estes acasos nos naufragios como nos incendios. Não se
pode comprehender a logica do desastre.
Os mastros quebrados tinham cahido; o cano nem mesmo envergou; a grande
placa de ferro que amparava o mecanismo manteve-o intacto e completo.
O revestimento de taboas das rodas estava destruido como as laminas de
uma persiana; mas atravez das fendas viam-se as rodas em bom estado.
Apenas faltavam alguns raios.
Além da machina, tinha resistido o grande cabrestante da popa. Tinha
ainda a corrente, e graças ao seu robusto encaixe em um quadro de
tabuões, ainda podia prestar serviços, uma vez que se não rompesse a
prancha. O pedaço do casco mettido entre as Douvres estava firme, já o
dissemos, e parecia solido.
A conservação da machina tinha um que de irrisorio e acrescentava a
ironia á catastrophe. A sombria malicia do desconhecido mostra-se ás
vezes nessas especies de zombarias amargas. A machina estava salva, o
que não impedia que estivesse perdida.
O oceano guardava-a para demolil-a aos poucos. Divertimento de gato.
A machina ia agonisar e desfazer-se peça por peça. Ia diminuir dia a
dia, e por assim dizer, derreter-se. Ia servir de brinco ás selvajarias
de espuma. Que fazer? Que aquelle pesado montão de mecanismos e
encaixes, massiço e delicado a um tempo, condemnado á immobilidade por
seu peso, entregue na solidão ás forças demolidoras, posto pelo cachopo
a discrição do vento e do mar, podesse, sob a pressão daquelle lugar,
implacavel, escapar á destruição lenta, era até loucura imaginal-o.
A Durande estava prisioneira das Douvres.
Como tiral-a dali?
Como libertal-a?
A evasão de um homem é difficil; mas que problema não é este: a evasão
de uma machina!
IV
PREVIO EXAME LOCAL
Gilliatt estava cercado de urgencias. O mais urgente era achar
ancoradouro para a _pança_, e depois abrigo para si.
A Durande, estava mais carregada a bombordo que a estibordo, e por isso
a roda da direita ficava mais elevada que a da esquerda.
Gilliatt subiu á caixa das rodas da direita. Dahi dominava a parte
baixa dos bancos, e embora a rede de rochas alinhadas em angulos por
traz das Douvres, fizesse muitos cotovellos, Gilliatt pôde estudar o
plano geometrico do escolho.
Começou por ahi.
As Douvres, como indicámos, eram duas altas pilastras marcando a
entrada estreita de uma viela de penedos perpendiculares na frente. Não
é raro achar nas formações submarinhas primitivas, esses corredores
singulares feitos como que a machado.
Aquelle, que era tortuoso, nunca estava a secco, mesmo nas marés
baixas. Uma corrente agitada atravessava-o sempre. A impetuosidade
do rodomoinho era boa ou má, segundo o rumo do vento reinante; ora
quebrava a onda, e fazia-a cahir; ora exasperava-a. Este ultimo caso
era o mais frequente; o obstaculo encolerisa a vaga eleva-a aos
excessos; a espuma é a exageração da vaga.
O vento da tempestade, naquelles estrangulamentos entre duas rochas,
soffre a mesma compressão e adquire a mesma malignidade. É a tempestade
no estado de estranguria. O sopro immenso fica immenso, mas faz-se
agudo. É ao mesmo tempo massa e dardo. Fura e esmaga. Imaginai o
furacão fazendo-se vento coado.
As duas cadeias de rochedos, deixando entre si, essa especie de rua
do mar, terminava em degráos mais baixos que as Douvres, gradualmente
decrescentes, e mergulhavam juntas no mar a uma certa distancia. Havia
ahi outra foz menos elevada que a das Douvres, porém mais estreita
ainda e que era a entrada, a Este, daquella garganta. Advinhava-se
que o duplo prolongamento das duas arestas de rocha continuava a rua
debaixo da agua até o rochedo Homem collocado como uma cidadella
quadrada na outra extremidade do escolho.
Nas marés baixas, e era nessa occasião que Gilliatt observava, as duas
fileiras de bancos mostravam os seus dorsos, alguns a secco, todos
visiveis, e coordenando-se sem interrupção.
O Homem limitava e resguardava no levante a massa inteira do escolho,
que era limitado, ao poente, pelas duas Douvres.
Todo o escolho, visto a vôo de passaro, apresentava um rosario
recurvado de rochedos, tendo em uma ponta as Douvres e na outra o Homem.
O escolho Douvres, visto em seu conjuncto, era apenas a immersão
de duas gigantescas laminas de granito tocando-se quasi e cahindo
verticalmente, como uma crista de montes que estão no fundo do oceano.
Ha fora do abysmo essas exfoliações immensas. A lufada e a onda
tinham recortado essa cristã como uma serra. Via-se apenas o cimo,
era o escolho. O que a onda escondia devia ser enorme. A viela onde a
tempestade tinha atirado a Durande, era o centro dessas duas laminas
collossaes.
Essa viela, em zig-zag como o relampago, tinha quasi em todos os pontos
a mesma largura. O oceano fel-a assim. O eterno tumulto produz suas
regularidades estranhas. Sobe d'agua uma geometria.
De um cabo a outro da garganta, as duas muralhas da rocha faziam-se
face paralellamente a uma distancia que a Durande media quasi com
exactidão entre as duas Douvres; o esvasamento da pequena Douvre,
recurvada e voltada, dera lugar ás caixas das rodas. Em qualquer outro
lugar as caixas ficariam quebradas.
A dupla fachada interna do escolho era hedionda. Quando na exploração
do deserto de agua chamado Oceano, chega-se ás cousas ignotas do
mar, torna-se tudo surprehendente e disforme. Aquillo que Gilliatt,
do alto do casco, podia vêr na garganta fazia horror. Ha muitas
vezes nas gargantas graniticas do oceano uma estranha imagem
permanente do naufragio. A garganta das rochas Douvres tinha a sua,
que era assustadora. Os oxydos da rocha davam-lhes aqui e alli umas
vermelhidões imitando placas de sangue coalhado. Era uma especie de
transudação sangrenta de um matadouro. Havia um ar de açougue naquelles
parceis. A rude pedra marinha, diversamente colorida, aqui pela
decomposição dos amalgamas metalicos misturados á rocha, alli pelo
bolor, ostentava vermelhidões hediondas, esverdeamentos suspeitos,
despertando uma idéa de morte e de exterminio. Acreditava-se vêr
uma parede ainda não enxuta do quarto de um assassinato. Dissera-se
que eram aquelles os vestigios de um despedaçamento de homens; a
rocha ingreme tinha um cunho de agonias accumuladas. Em certos
lugares a carnagem parecia escorrer ainda, a muralha estava molhada
e parecia impossivel apoiar o dedo sem tiral-o sangrento. Por toda a
parte apparecia uma ferrugem de morticinio. Ao pé do duplo declivio
paralello, esparso á flôr d'agua ou debaixo da vaga, ou a secco nas
excavações, monstruosos seixos redondos, uns escarlates, outros negros
ou roxos, tinham semelhanças de visceras; acreditava-se vêr pulmões
frescos ou figados putridos. Dissera-se que alli se tinham esvasiado
ventres de gigantes. Longos fios vermelhos, que se poderiam tomar por
distillações funebres, riscavam o granito de alto a baixo.
Esses aspectos são frequentes nas cavernas do mar.
V
UMA PALAVRA A RESPEITO DAS COLLABORAÇÕES SECRETAS DOS ELEMENTOS
A fórma de um escolho não é cousa indifferente para os que, nos riscos
das viagens, podem ser condemnados á habitação temporaria de um escolho
no oceano.
Ha o escolho pyramide, um cimo fóra da agua; ha o escolho circulo,
cousa semelhante a uma roda de pedras grandes; ha o escolho corredor. O
escolho corredor é o peior de todos. Não somente por causa da angustia
das ondas entre as rochas e do tumulto das aguas apertadas, mas tambem
por causa das propriedades meteorologicas que parecem desprender-se do
paralellismo das duas rochas em pleno mar. As duas paredes rectas são
um verdadeiro aparelho de Volta.
Orienta-se o escolho corredor, e isso é importante. Resulta dahi uma
primeira acção sobre o ar e a agua. O escolho corredor actua na agua
e no vento mecanicamente, pela forma, galvanicamente, pela attração
diversa dos seus planos verticaes, massas sobrepostas e contrariadas
umas pelas outras.
Esta especie de escolhos atrahe todas as forças furiosas esparsas no
furação, e tem sobre a borrasca uma singular força de concentração.
Donde resulta que nas paragens desses cachopos, ha uma certa
accentuação da tempestade.
Cumpre saber que o vento é composito. Acredita-se que o vento é
simples; engano. Essa força não é sómente dynamica, é chimica; não é
sómente chimica, é magnetica. Tem alguma cousa que é inexplicavel.
O vento é tão eletrico como aereo. Certos ventos coincidem com auroras
boreaes. O vento do banco das Arguilles, rola vagas de cem pés de
altura, espanto de Dumontd'Urville. _A corveta_, disse elle, _não sabia
a quem havia de attender._
Debaixo das lufadas austraes, verdadeiros tumores doentios sopram no
oceano, e o mar torna-se tão horrivel que os selvagens fogem para não
vêl-o.
As lufadas boreaes são outras; misturam-se de pontas de gelo, e esses
furações irrespiraveis impellem para a neve os trenós dos esquimós.
Outros ventos queimam. É o simoun da Africa, é o typhon da China e o
samiel da India. Simoun, Typhon, Samiel; parece que são demonios estes
nomes. Fundem o cimo das montanhas; uma tempestade vitrificou o vulcão
de Tulucea. Este vento quente, turbilhão côr de tinta atirando-se sobre
as nuvens encarnadas fez dizer aos Vedas: _Eis ahi o Deos negro que
vem roubar as vaccas encarnadas._ Sente-se em tudo isto a pressão do
mysterio eletrico.
O vento é cheio desse mysterio. Do mesmo modo o mar. Tambem elle é
complicado; debaixo das suas vagas de aguas, que se veem, ha outras
vagas de forças, que se não veem. Compõe-se de tudo. De todas as
misturas, a do oceano é a mais invisivel e a mais profunda.
Tentai conhecer esse cahos, tão enorme que vai ter ao nada. É o
recepiente universal, reservatorio para as fecundações, cadinho
para as transformações. Amassa, depois dispersa; accumula, depois
semêa; devora, depois produz. Recebe todos os esgotos da terra, e
aferrolha-os. É solido no banco, liquido na agua, fluido no eflluvio.
Como materia é massa, e como força é abstracção. Iguala e consorcia os
phenomenos. Simplifica-se no infinito pela combinação. É a força da
mescla e da turvação que chega á transparencia. A diversidade soluvel
prende-se na sua unidade. Tem tantos elementos diversos que é identico.
Uma das suas gottas é todo elle. Como é cheio de tempestades, torna-se
equilibrio. Platão via dansar espheras; cousa estranha, mas real na
collossal evolução terrestre á roda do sol, o oceano, com o seu fluxo e
refluxo, é o pendulo do globo.
No phenomeno do mar, todos os phenomenos estão presentes. O mar é
aspirado pelo turbilhão como um siphon; uma tempestade é um corpo de
bomba; o raio vem da agua como do ar; nos navios sentem-se abalos
surdos, depois um cheiro de enxofre sahe do poço das correntes. O
oceano ferve. _O diabo poz o mar na sua caldeira_, dizia Ruyter.
Em certas tempestades que caractensam os movimentos das estações e as
entradas em equilibrio das forças genesiacas, os navios battidos de
escuma parecem evaporar uma luz, e flammas de phosphoro corrêm pelo
cordoame, tão misturadas aos cabos que os marinheiros estendem a mão e
procuram apanhar esses passaros de fogo. Depois do terremoto de Lisboa,
um halito de fornulha impellio para a cidade uma vaga de sessenta pés
de altura. A oscillação liga-se ao estremecimento terrestre.
Essas energias incommensuraveis tornam possiveis todos os cataclysmas.
No fim de 1864, a cem leguas das costas de Malabar, sossobrou uma
ilha, como se fôsse um navio. Os pescadores que tinhão sahido de
manhã voltaram á noite e não acharam nada; apenas puderam ver as suas
aldêas de baixo de agua; e desta vez foram os barcos que assistiram ao
naufragio das casas.
Na Europa onde parece que a naturesa sente-se constrangida em respeito
à civilisação, taes acontecimentos são raros até á impossibilidade
presumivel.
Todavia, Jersey e Guernesey fizeram parte da Gallia; e, no momento
em que escrevemos, um vento equinocio acaba de demolir na fronteira
da Inglaterra e de Escossia o penedio da praia chamado Primeiro dos
Quatro, _First of the Fourth._
Em parte alguma essas forças panicas apparecem mais formidavelmente
amalgamadas do que no sorprehendente estreito boreal chamado
Lyse-Fiord. O Lyse-Fiord é o mais temivel dos escolhos-boreaes do
oceano. Ahi a demonstração é completa. É o mar da Noruega, a visinhança
do tremendo golpho Stavanger, o quinquagesimo nono gráo de latittude. A
agua é pesada e negra com uma febre de tempestatade intermittente.
Nessa agua, no meio da solidão, ha uma grande rua sombria. Não é rua
para pessoa alguma. Ninguem passa alli; nenhum navio se arrisca nesse
lugar. Um corredor de dez leguas de comprido, entre duas muralhas de
tres mil pés de altura: eis a entrada. Esse estreito tem cotovellos e
angulos como todas as ruas do mar, que nunca são rectas pois que são
feitas pela torção da vaga.
No Lyse-Fiord, a vaga é quasi sempre tranquilla; o céo é sereno; lugar
terrivel. Onde está o vento? Não está em cima. Onde está o trovão? Não
está no céo. O vento está debaixo do mar; o trovão está debaixo da
rocha.
De tempos a tempos ha um estremecimento debaixo da agua. Em certas
horas, sem que haja uma nuvem sequer no ar, no meio da altura do
penedio vertical, a mil ou mil e quinhentos pés acima das vagas, mais
do lado do sul, que do norte, o rochedo rebôa subitamente, rompe dahi
um relampago, que fende o ar, e recolhe-se logo, como esses brinquedos
que se alongam e contrahem nas mãos das crianças; tem contracções
e ampliações esse relampago, fere a rocha opposta, entra outra
vez, torna apparecer, recomeça, multiplica as suas cabeças e as as
linguas, erriça-se, fere onde póde, recomeça ainda, até que se apaga
sinistramente. Fogem os bandos de passaros. Nada é tão mysterioso como
essa artilharia sahindo do invisivel. Um rochedo attaca outro. Fulminam
entre si os cachopos. É uma guerra que nada tem com os homens. Odio de
dous penedos no golphão.
No Lyse-Fiord o vento torna-se effluvio, a rocha desempenha as funcções
de nuvem, e o trovão tem arrojos de volcão. É uma pilha aquelle
estranho estreito; tem por elementos as suas duas fllas de rochas.
VI
CAVALLARIÇA PARA O CAVALLO
Gilliatt era sabedor de cachopos e não tomava as Douvres ao serio.
Antes de tudo, já o dissemos, tratou elle de pôr a _pança_ em segurança.
A dupla fileira de arrecifes que se prolongava sinuosamente por traz
das Douvres, fazia grupo com os outros rochedos, e advinhava-se cavas e
saccos sahindo da viela, e prendendo-se á garganta principal como ramos
a um tronco.