examinando, ás 9 horas da noite, um buraco feito por larapios na cerca
da sua horta, e ao mesmo tempo que averiguava os estragos, não pode
deixar de observar um barco dobrando temerariamente o Croce-Point
áquella hora.
No dia seguinte ao de uma tempestade, com o resto de agitarão que
sempre fica no mar, aquelle itinerario era pouco seguro, a menos que se
não saiba de cór todos os passos.
Ás nove horas e meia, no Equerrier, um pescador levando a rede, parou
algum tempo para ver entre Colombellee Soufleresse alguma cousa
que devia ser um barco, e que se expunha muito ao tempo. Ha ventos
perigosos nesse lugar. A rocha Soufleresse é assim chamada porque sopra
constantemente os barcos que passam.
Ao levantar da lua, estando a maré cheia, e havendo pleno mar no
estreito de Li-Hou, o guarda solitario da ilha de Li-Hou, assustou-se
ao ver passar entre a lua e elle uma longa forma negra. Esta forma ia
resvalando lentamente por cima das especies de paredes que formam os
bancos da rocha. O guarda de Li-Hou pensou ver a Dama Negra.
A Dama Branca habita o Tau de Pez d'Amont, a Dama Cinzenta habita
o Tau de Pez d'Aval, a Dama Vermelha habita a Lilleuse ao norte
do Banc-Marquis, e a Dama Negra habita o Grand-Etacré ao este de
Li-Houmet. Ao clarão da lua todas essas damas sahem e encontram-se ás
vezes.
Rigorosamente essa forma negra podia ser uma vela. As longas fileiras
de rochas sobre as quaes parecia que a vela andava podiam com
effeito esconder o casco de um barco vogando a traz de si, deixando
ver apenas a vela. Mas o guarda perguntou á si proprio que barco
ousaria arriscar-se aquellas horas entre Li-Hou e a Pecheresse, e as
Angullieres e Lerée Point. E com que fim? Pareceu-lhe mais provavel que
fosse a Dama Negra.
Estando a lua já acima da torre de Saint-Pierre du Bois, o sargento de
Rocquaine levantou metade da escada da ponte levadiça, e distinguio na
foz da bahia, mais perto que a Sambule, um barco á vela que parecia
descer do norte a sul.
Existe na costa sul de Guernesey, atraz do Plainmont, no fundo de
uma bahia, toda precipicios e muralhas, cortada a pique na onda, um
porto singular que um francez residente na ilha desde 1844, talvez o
mesmo que escreve agora estas linhas, baptisou com o nome de _porto do
quarto andar_, nome geralmente adoptado hoje. Esse porto que então se
chamava a Moie, é uma planura de rocha meio natural, meio talhada, de
quarenta pés de altura acima d'agua, e communicando com as vagas por
duas grandes pranchas parallelas em plano inclinado. Os barcos, içados
á força de braços por correntes e roldanas, sahem ao mar e descem ao
longo dessas pranchas que são dous trilhos. Para os homens ha uma
escada. Esse porto era então muito frequentado pelos contrabandistas.
Sendo pouco praticavel, era lhes commodo.
Pelas onze horas, alguns trapaceiros, talvez os mesmos com quem
Clubin contava, estavam com os seus fardos na Moie. Quem trapaceia,
espia; elles espiavam. Admiraram-se de ver uma vela desembocando
repentinamente além das linhas negras do Cabo Plainmont. O luar estava
claro. Os contrabandistas espreitavam a vela, receiando que fosse algum
guarda-costa collocar-se de emboscada atraz do grande Hanois, mas a
vela passou os Hanois, deixou atraz de si a noroeste a Boue Blondi, e
mergulhou-se ao largo nas brumas lividas do horisonte.
Onde diabo vai aquella barca? disseram os contrabandistas?
Na mesma noite, pouco depois de pôr o sol, ouvio-se alguem bater na
porta da casa mal assombrada em que morava Gilliatt. Era um rapaz
vestido de escuro, com meias amarellas, o que indicava ser sacristão. A
casa estava fechada, porta e postigos. Uma velha pescadora de fructas
do mar, passeando pelo banco, com uma lanterna na mão, chamou o rapaz,
e trocaram-se estas palavras entre elles:
--Que quer você?
--O homem d'aqui.
--Não está em casa.
--Onde está?
--Não sei.
--Virá amanhã?
--Não sei.
--Foi-se embora d'aqui?
--Não sei.
--É que o novo cura da parochia, o reverendo Ebenezer Caudray, queria
fazer-lhe uma visita.
--Não sei.
--O reverendo mandou-me saber se o homem estava em casa amanhã de manhã.
--Não sei.
III
NÃO TENTEIS A BIBLIA
Nas vinte e quatro horas que se seguiram, mess Lethierry não dormio,
nem comeu, nem bebeu, beijou a testa de Deruchette, informou-se de
Clubin do qual ainda não havia noticias, assignou um papel declarando
que não pretendia dar queixa, e fez soltar Tangrouille.
Ficou todo o dia seguinte, meio encostado a mesa do escriptorio da
Durande, nem assentado nem de pé, respondendo com brandura a quem lhe
fallava. Demais, estando satisfeita a curiosidade, ficou solitaria
a casa de Lethierry. Ha muito desejo de observar na solicitude de
lamentar. Fechara-se a porta; deixava-se Lethierry com Deruchette.
O relampago que passára nos olhos de Lethierry estava extincto;
voltara-lhe o olhar lugubre do começo da catastrophe.
Deruchette assustada, foi calladinha, a conselho de Graça e Doce,
collocar ao lado delle, na mesa, um par de meias que Lethierry tecia
quando a triste noticia chegou.
Lethierry sorrio amargamente e disse:
--Então pensam que não tenho juizo?
Depois de um quarto de hora de silencio, accrescentou:
--Estas manias são boas quando a gente é feliz.
Deruchette tirou o par de meias, e aproveitou a occasião para tirar
tambem a bussola e os papeis de bordo, que mess Lethierry contemplava
demasiadamente.
De tarde, um pouco antes da hora do chá, a porta abrio-se, e entraram
dous homens, vestidos de preto, um velho, e outro moço.
O moço já foi visto no curso desta narração.
Tinham ambos um ar grave, mas de gravidade differente; o velho tinha
aquillo que se póde chamar gravidade de profissão; o mancebo tinha a
gravidade da natureza. A primeira vem do habito, a segunda nasce do
pensamento.
Eram, como indicava o traje, dous padres, pertencendo ambos á religião
estabelecida.
O que se notava desde logo no mancebo, era que a gravidade, profunda no
olhar, e resultando do espirito, não nascia absolutamente da pessoa.
A gravidade admitte a paixão, exalta-a purificando-a, mas aquelle
mancebo era, antes de tudo, lindo. Sendo padre devia ter ao menos
vinte e cinco annos; parecia ter desoito. Apresentava uma harmonia e
um contraste, isto é, tinha uma alma que parecia feita para a paixão
o um corpo que parecia feito para o amor. Era loiro, rosado, fresco,
delicado e flexivel, apezar do vestuario severo, com faces de donzella
e mãos delicadas; embora reprimido, tinha o gesto vivo e natural. Tudo
nelle era encanto, elegancia, e quasi volupia. A belleza do seu olhar
corrigia esse excesso de graça. O sorriso sincero, que deixava ver uns
dentes de criança, era pensativo e religioso. Era a gentileza de um
pagem e a dignidade de um bispo.
Debaixo dos espessos cabellos louros, tão dourados que pareciam
garridos, tinha elle um craneo elevado, candido e bem feito. Uma
leve ruga de inflexão dupla, entre as duas sobrancelhas, despertava
confusamente a idéa da ave do pensamento pairando, com as azas abertas,
no meio daquella fronte.
Sentia-se ao vel-o, uma dessas creaturas benevolas, innocentes e puras,
que progridem em sentido inverso da humanidade vulgar, a quem a illusão
torna sabios e a experiencia enthusiastas.
A mocidade transparente deixava vêr a maturidade interior. Comparado
ao padre dos cabellos grisalhos que o acompanhava, á primeira vista,
parecia filho, reparando-se bem, parecia pai.
Era este o Dr. Jaquemin Herodes. O Dr. Jaquemin Herodes pertencia
á alta igreja, que é pouco mais ou menos um papismo sem papa. O
anglicanismo nessa época era agitado pelas tendencias que depois se
affirmaram e condensaram no puleysmo. O Dr. Jaquemin Herodes era desse
matiz anglicano, que é quasi uma variação romana. Era alto, correcto,
delgado e superior. O raio visual interior mal se distinguia de fóra.
O seu espinto era cingir-se á letra. Demais a mais era altivo. Enchia
com a sua pessoa o lugar que occupava. Parecia menos um reverendo que
um monsenhor. A casaca era talhada a moda de sotaina. Em Roma é que
elle estaria bem. Nascera para ser prelado da camara. Parecia ter sido
creado expressamente para ser ornamento do papa, e ir atraz da cadeira
gestatoria, com toda a côrte pontificia, _in abitto paonazzo._ O
accidente de ter nascido inglez, e uma educação theologica mais voltada
para o Antigo Testamento que para o Novo, fizera com que lhe falhasse
esse destino. Todos os seus explendores resumimiu-se nisto: ser cura de
Saint-Pierre Port, decano da ilha de Guernesey e subrogado do bispo de
Winchester. Não ha duvida que era gloria tudo isso.
Essa gloria não impedia que o Sr. Jaquemin Herodes fosse um bom homem.
Como theologo, dispunha da estima dos conhecedores, e fazia quasi
autoridade em Arches, que é a Sorbonna da Inglaterra.
Tinha um ar douto, um piscar d'olhos apto e exagerado, narinas
cabelludas, dentes visiveis, o labio inferior fino e o labio superior
expesso, muitos diplomas, uma gorda prebenda, amigos barões, a
confiança do bispo, e continuamente trazia uma biblia na algibeira.
Mess Lethierry estava tão completamente absorto que tudo quanto pôde
produzir nelle a entrada dos dous padres, foi um imperceptivel enrugar
de sobrancelhas.
O Sr. Jaquemin Herodes approximou-se, cumprimentou, recordou em
poucas palavras sobriamente altivas, a sua recente promoção, e
disse que vinha, segundo o uso, apresentar aos notaveis, e a mess
Lethierry especialmente, o seu successor na parochia, o novo cura de
Saint-Sampson, o reverendo Joe Ebenezer Caudray, que dahi em diante
seria o pastor de mess Lethierry.
Deruchette levantou-se.
O padre moço, que era o reverendo Ebenezer, inclinou-se.
Mess Lethierry olhou para o Sr. Ebenezer Caudray, e mastigou entre
dentes estas palavras: mão marinheiro.
Graça apresentou cadeiras. Os dous reverendos assentaram-se perto da
mesa.
O Dr. Herodes começou um speech. Tinha sabido de um acontecimento.
Naufragara o Durande. Vinha, como pastor, trazer consolação e
conselho. O naufragio era uma desgraça, mas era tambem uma felicidade.
Sondemo-nos; não nos inchava a prosperidade? As aguas da felicidade
são perigosas. Não se deve tomar as desgraças á má parte. Os caminhos
do Senhor são desconhecidos. Mess Lethierry estava arruinado. Pois
ser oppulento, é estar em perigo. Apparecem amigos falsos. A pobresa
affasta-os. Fica-se isolado. _Solus eris._ A Durande dizem que dava mil
libras esterlinas por anno. Era demais para um philosopho. Fujamos ás
tentações, desdenhemos o ouro. Aceitemos com reconhecimento à ruina e o
abandono. O isolamento dá fructos. Ganha-se nelle as graças do Senhor.
Foi na solidão que Aia achou as aguas quentes, conduzindo os asnos de
Sebeão, seu pai. Não nos revoltemos contra os impenetraveis decretos
da providencia. O santo homem Job, depois da sua miseria, cresceu em
riquezas. Quem sabe se a perda de Durande não teria compensações, mesmo
temporaes? Tambem elle, Herodes, empregára capitaes em uma magnifica
operação que se realizava em Sheffleld; se mess Lethierry, com os
fundos que lhe restavam, quizesse entrar nessse negocio, podia refazer
a fortuna; era um grande fornecimento de armas ao czar para reprimir a
Polonia. Ganharia trezentos por cento.
A palavra czar pareceu despertar Lethierry, que interrompeu o Dr.
Herodes:
--Não quero nada com o czar.
O reverendo Herodes respondeu:
--Mess Lethierry, os principes são acceitos por Deos. Deos escreveu:
Dai a Cesar o que é de Cesar. O czar é Cesar.
Lethierry, meio absorto na scisma, murmurou:
--Quem é Cesar? Não conheço.
O reverendo Herodes continuou a exhortação. Não insistio por Sheffield.
Não aceitar Cesar era ser republicano. O reverendo comprehendia que um
homem fosse republicano. Nesse caso, comprehendia que mess Lethierry se
voltasse para uma republica. Mess Lethierry podia estabelecer a fortuna
nos Estados-Unidos, melhor do que em Inglaterra. Se quizesse desculpar
o que lhe restava, bastava-lhe tomar acções na grande companhia de
exploração das plantações do Texas, que empregava mais de vinte mil
negros.
--Não quero nada com a escravidão, disse Lethierry.
--A escravidão, replicou o reverendo Herodes, é de instituição sagrada.
Está escripto: «Se o senhor bater o escravo, nada lhe será feito,
porque bate o seu dinheiro.»
Graça e Doce, na soleira da porta, ou viam com uma especie de extase as
palavras do reverendo doutor.
O reverendo continuou. Era, em summa, como dissemos um bom homem; e
quaesquer que podessem ser os seus dissentimentos de casta ou de pessoa
com mess Lethierry, vinha-lhe sinceramente dar o auxilio espiritual, e
mesmo temporal, de que dispunha.
Se mess Lethierry estava arruinado ao ponto de não poder cooperar,
com fructo, numa especulação qualquer, russa ou americana, porque não
entrava no governo e nas funcções assalariadas? São nobres empregos
esses, e o reverendo estava prompto a introduzir mess Lethierry. Vagára
em Jersey o lugar de deputado-visconde. Mess Lethierry era amado e
estimado, e o reverendo Herodes, decano de Guernesey, podia obter para
mess Lethierry o emprego de deputado-visconde de Jersey. O deputado
visconde é um funccionario consideravel; assiste, como representante de
Sua Magestade aos actos juridicos, aos debates da plebe, e ás execuções
de sentenças.
Lethierry fixou os olhos no Dr. Herodes.
--Não gosto de enforcamentos, disse elle.
O Dr. Herodes, que até então pronunciára todas as palavras com a mesma
inflexão, teve um assento de severidade e uma inflexão nova:
--Mess Lethierry, a pena de morte é ordenada por Deus. Deus entregou a
espada ao homem. Está escripto: olho por olho, dente por dente.
O reverendo Ebenezer approximou imperceptivelmente a sua cadeira da
cadeira do reverendo Jaquemin, e disse-lhe de modo que não fosse ouvido
senão por elle:
--O que este homem diz é-lhe dictado.
--Por quem? perguntou no mesmo tom o reverendo Herodes.
--Pela consciencia.
O reverendo Herodes metteu a mão no bolso, tirou um grosso volume em
18° encadernado com fechos, pô-lo na mesa e disse em voz alta:
--A consciencia é isto.
O livro era a Biblia.
Depois foi-se abrandando o Dr. Jaquemin. O seu desejo era ser util a
mess Lethierry, que considerava ser um homem forte. Como pastor, tinha
elle direito e dever de aconselhar; todavia mess Lethierry tinha a
liberdade de acceitar ou recusar o conselho.
Mess Lethierry, cahindo outra vez na absorpção e no abatimento, já
não ouvia. Deruchette, assentada ao pé delle, e pensativa tambem, não
levantava os olhos, e dava áquella pratica pouco animada a porção de
acanhamento que resulta de uma presença silenciosa. Uma testemunha que
não diz palavra é uma especie de peso indefinivel. Mas o Dr. Herodes
não parecia sentil-o.
Como Lethierry não respondia, o Dr. Herodes deu largas á palavra. O
conselho vem do homem, a inspiração vem de Deus. Ha inspiração no
conselho do padre. É bom aceitar os conselhos, e perigoso regeita-los.
Sochoth foi agarrado por onze diabos por ter desdenhado das exhortações
de Nathaniel. Tiburiano foi atacado de lepra por ter posto fóra de
casa o apostolo André. Barjesus, apezar de magico, ficou cégo por ter
zombado das palavras de S. Paulo. Elxai, e suas irmãs Martha a Marthena
estão no inferno a esta hora por terem desprezado as advertencias de
Valencianus que lhes provava claro como o dia, que o Jesus Christo
delles, de trinta e oito leguas de comprimento, era um demonio.
Rolibana, que tambem se chama Judith, obedecia aos conselhos. Ruben
e Theniel, ouviam os conselhos do céo; basta os nomes delles para
indica-los; Ruben significa _filho da visão_, e Theniel significa _face
de Deus._
Mess Lethierry deu um socco na mesa.
--Mas a culpa é minha!
--Que quer dizer? perguntou Jaquemin Herodes.
--Digo que a culpa é minha.
--Culpa de que?
--Por ter mandado vir a Durande á sexta-feira.
O Sr. Jaquemin Herodes murmurou ao ouvido do Sr. Ebenezer Caudray:
--Este homem é supersticioso.
Continuou depois, e em tom de mestre:
--Mess Lethierry, é pueril acreditar na sexta-feira. Não se deve
acreditar em fabulas. A sexta-feira é um dia, como qualquer outro. Ás
vezes é data feliz. Melendez fundou a cidade de Santo Agostinho em
sexta-feira; foi n'uma sexta-feira que Henrique VII deu a sua commissão
a John Cabot; os perigrinos de Mayflower chegaram a Province-Town em
sexta-feira. Washington nasceu na sexta-feira, 22 de Fevereiro de 1732;
Christovão Colombo descobrio a America na sexta-feira 12 de Outubro de
1492.
Dizendo isto levantou-se.
Ebenezer, que tinha ido com elle, levantou-se tambem.
Graça e Doce advinhando que os reverendos iam despedir-se, abriram as
portas.
Mess Lethierry não via nem ouvia nada.
O Sr. Jaquemin Herodes disse em aparte ao Sr. Ebenerez Caudray:
--Nem nos comprimenta. Não é tristeza, é embrutecimento. Devemos crer
que elle está doudo.
Entretanto pegou na _Biblia_, e collocou-a entre as mãos abertas, como
quem segura um passaro com receio que fuja. Esta attitude creou entre
os personagens presentes uma certa espera. Graça e Doce esticaram a
cabeça.
A voz de Herodes fez quanto pede para ser magestosa.
--Mess Lethierry, não nos separemos sem ler uma pagina do livro santo.
As situações da vida são esclarecidas pelos livros; os profanos tem as
sortes virgilianas, os crentes tem as advertencias biblicas. O primeiro
livro, apanhado ao acaso, aberto ao acaso, dá um conselho; a Biblia,
aberta ao acaso, faz uma revelação. É sobretudo boa para os afflictos.
O que a Santa Escriptura respira indubitavelmente é um lenitivo ás
dôres. Diante dos afflictos, deve-se consultar o santo livro sem
escolher o lugar, e ler com candura o passo encontrado. O que o homem
não escolhe, escolhe-o Deus. Deus sabe o que precisamos. O seu dedo
invisivel aponta o passo inesperado que nós lemos. Qualquer que seja
a pagina, rebenta-lhe luz. Não busquemos outra. É a palavra do céo. O
nosso destino é revelado mysteriosamente no texto evocado com confiança
e respeito. Ouçamos e obedeçamos. Mess Lethierry, o senhor tem uma
afflicção, este é o livro da consolação; está enfermo, este é o livro
da saude.
O reverendo Jaquemin Herodes abrio a mola do fecho, metteu o dedo ao
acaso entre duas paginas, poz a mão no livro aberto, e concentrou-se;
depois abaixando os olhos com autoridade leu em alta voz.
Eis o que elle leu:
«Isaac passeava no caminho que vai ter ao poço chamado Poço daquelle
que vive e vê.
«Rebecca, vendo Isaac, disse: Quem é este homem que vem andando para
mim.
«Então Isaac fel-a entrar na sua tenda, e tomou-a por mulher, e grande
foi o amor que lhe teve».
Ebenezer e Deruchette olharam um para o outro.
FIM DA PRIMEIRA PARTE.
SEGUNDA PARTE
O engenhoso Gilliatt
LIVRO PRIMEIRO
O escolho
I
INCOMMODA CHEGADA, DIFFICIL SAHIDA
Já os leitores terão adivinhado que o barco, visto em muitos pontos
da costa de Guernesey, na noite anterior, em horas diversas, era a
_pança._ Gilliatt escolheu ao longo da costa o canal que se abre entre
os rochedos; era a rota perigosa, mas era o caminho directo. Tomar o
mais curto foi o cuidado delle. Os naufragos não esperara. O mar é
cousa urgente, uma hora de demora podia ser irreparavel. Queria chegar
depressa para soccorrer a machina.
Sahindo de Guernesey, uma das preoccupações de Gilliatt era não
despertar a attenção. Sahio como quem fugia. Tinha ares de pessoa que
se esconde. Evitou a costa d'Este como se achasse inutil passar á
vista de Saint-Sampson e Saint-Pierre Port; resvalou silenciosamente
ao longo da costa opposta que é relativamente inhabitada. Nos bancos
teve de remar: mas Gilliatt manejava o remo segundo a lei hydraulica:
tomar a agua sem choque e impeli-la devagar; desse modo pôde nadar, na
obscuridade com a maior força e o menor rumor possiveis. Parecia que ia
commetter uma acção feia.
A verdade é que, atirando-se de olhos fechados a um commettimento que
parecia impossivel, e arriscando a vida com todas as probabilidades
contra elle, receiava a concurrencia.
Como o dia começava a despontar, os olhos ignotos que estão talvez
abertos no espaço, puderam ver no meio do mar, num ponto em que ha
mais solidão e ameaça, duas cousas entre as quaes ia diminuindo
o intervallo, sendo que uma approximava-se da outra. Uma, quasi
imperceptivel no largo movimento das vagas, era um barco de vela; nessa
barca havia um homem; era a _pança_ levando Gilliatt. A outra immovel,
collossal, negra, tinha, sobranceira ás vagas, uma sorprehendente
figura. Dous altos pilares amparavam acima d'agua, no vacuo, uma
especie de travessão horisontal que era como que uma ponte entre as
duas cumiadas. O travessão, tão informe de longe que seria impossivel
advinhar o que era, fazia corpo com os dous pilares. Parecia uma
porta. Porque, haveria uma porta naquella abertura de todos os lados
do mar? Dissera-se um dolmen titanico plantado alli, em pleno oceano,
por uma phantasia magistral, e construido por mãos que leem o habito
de apropriar ao abysmo as suas construcções. Aquella medonha forma
levantava-se na claridade do céo.
A luz da manhã ia crescendo a leste; a alvura do horisonte augmentava a
negridão do mar. Do lado opposto, declinava a lua.
Os dous pilares eram as Douvres. A especie de massa apertada entre
elles como uma architrave era a Durande.
Apertando assim a sua victima, e deixando-a ver, o escolho era
horrivel. A atitude daquelles rochedos era uma especie de repto.
Parecia esperar.
Nada mais altivo e arrogante como tudo aquillo; o navio vencido, o
abysmo victorioso. Os dous rochedos, ainda gotejantes da tempestade da
vespera, pareciam dous combatentes em suor. Tinha acalmado o vento,
o mar dobrava-se placidamente; advinhava-se que havia á flôr d'agua
alguns bancos onde os penachos de escuma cahiam com graça; de longe
vinha um murmurio semelhante ao zumbido das abelhas. Tudo era um nivel,
menos as duas Douvres, levantadas e tezas como duas collunas negras.
Os flancos escarpados tinham reflexos de armaduras. Pareciam prestes a
encetar de novo a luta. Comprehendia-se que ellas nasciam de montanhas
submarinas. Havia em tudo aquillo uma especie de omnipotencia tragica.
De ordinario, o mar occulta os seus lances. Conserva-se voluntariamente
obscuro. A incommensuravel sombra guarda tudo para elle. É raro que o
mysterio renuncie ao segredo. Ha um quê de monstro na catastrophe, mas
em quantidade ignota. 0 mar é patente e secreto; esconde-se, não quer
divulgar as suas acções. Produz um naufragio, e abafa-o; engolir é o
seu pudor. A vaga é hypocrita; mata, rouba, sonega, ignora e sorri.
Ruge, depois abranda-se.
Nada semelhante nas Douvres. Os dous rochedos, levantando acima das
ondas o cadaver da Durande, tinham um ar de triumpho. Dissera-se dous
braços sahindo do golphão, e mostrando ás tempestades, o cadaver
daquelle navio. Era uma cousa igual ao assassino que se vangloria do
crime.
A isto acrescentava-se o horror sagrado da hora. A madrugada tem uma
grandeza mysteriosa que se compõe de um resto de sonho e de um começo
de pensamento. Nesse momento turvado, como que fluctua ainda um pouco
de espectro. A especie de immenso H maiusculo formado pela duas Douvres
com a Durande no centro, apparecia no horisonte no meio de uma certa
magestade crepuscular.
Gilliatt vestia a roupa do mar, camisa de lã, meias de lã, sapatos
taixeados, japona de lã, calça de panno grosso mal tecido, com bolsos,
e na cabeça um daquelles barretes de lã vermelha usados então na
marinha, e que se chamavam no seculo passado _galeriennes._
Reconheceu o escolho e avançou.
A Durande estava ao contrario de um navio deitado a pique; era um navio
pendurado no ar.
Não havia mais estranho commettimento que o de salvar a machina
daquelle navio.
Era dia claro quando Gilliatt chegou ás aguas do escolho.
Como dissemos, havia pouco mar. A agua tinha apenas a quantidade de
agitação que lhe dava a estreiteza entre os rochedos. Ha sempre marulho
nos espaços d'agua como aquelle, quer sejam grandes, quer pequenos. O
interior de um estreito espuma sempre.
Gilliatt não abordou ao Douvres sem precaução.
Deitou a sonda muitas vezes.
Gilliatt tinha de fazer um pequeno desembarque de matalotagem.