As duas Douvres gemeas campeavam horriveis deixando ver entre si, como
uma armadilha, a garganta de que fallámos. Dissera-se um quebra-costas
do oceano.
Estavam perto delle as rochas Douvres; o nevoeiro, como cumplice,
escondera-as.
Clubin errara o caminho por causa do nevoeiro. Apezar de toda a
attenção, aconteceu-lhe o mesmo que a dous grandes navegadores, a
Gonzalez que descobrio o Cabo Branco, e a Fernandez que descobrio o
Cabo Verde. A bruma desencaminhou-o. Pareceu-lhe excellente para a
execução do projecto, mas tinha os seus perigos. Clubin desviou-se
para o oeste e enganou-se. O passageiro guernesiano, acreditando ver
o Hanois, determinou o movimento do leme final; Clubin cuidou que se
atirava ao Hanois.
A Durande arrombada por um dos bancos do escolho, estava separada das
duas Douvres apenas por algumas centenas de braças.
A duzentas braças mais longe via-se um massiço cubo de granito.
Descobria-se nas faces escarpadas desta rocha algumas estrias e relevos
apropriados para galgal-a.
Os cantos rectilinios dessas rudes muralhas de angulo recto faziam
presentir no cume uma planura.
Era o Homem.
A rocha Homem era mais alta ainda que as Douvres. A sua plataforma
dominava as pontas inacessiveis das duas rochas. Essa plataforma,
abatendo-se pelas bordas, tinha uma cimalha e mostrava uma certa
regularidade architectural. Não se podia imaginar nada mais triste e
funesto. As vagas iam dobrar as suas tranquillas toalhas, nas faces
quadradas daquelle enorme rochedo negro, especie de pedestal para os
espectros immensos do mar e da noite.
Tudo aquillo estava mudo e morto. Havia apenas um sopro no ar e uma
ruga nas ondas. Debaixo daquella superficie muda da agua advinhava-se a
vasta vida afogada das profundezas.
Clubin vira muitas vezes de longe o escolho Douvres.
Convenceu-se bem que era ali as Douvres.
Não podia duvidar.
Subita e terrivel mudança. As Douvres em vez dos Hanois. Em vez de
uma milha, cinco leguas do mar! o impossivel. A rocha Douvres, para
o naufrago solitario, é a presença, visivel e palpavel dos ultimos
momentos. É impossivel chegar á terra.
Clubin estremeceu. Tinha se mettido no goela da sombra. Não havia
outro refugio além do rochedo Homem. Era provavel que a tempestade
sobreviesse de noite, e que a chalupa de Durande sobrecarregada
sossobrasse. Nenhum aviso do naufragio chegaria a terra. Não se saberia
mesmo que Clubin ficara no rochedo Douvres. Não havia outra perspectiva
senão a morte por frio e fome. Os seus setenta e cinco mil francos nem
mesmo lhe davam um bocado de pão. Tudo quanto elle construira deu em
resultado aquella cilada; foi elle proprio o architecto laborioso de
sua emboscada. Nenhum recurso. Nenhuma solução possivel. O triumpho
fazia-se precipicio. Em vez da liberdade, a captura. Em vez de um
futuro prospero e longo, a agonia. De um relance esboroou-se-lhe
o edificio. O paraizo sonhado por aquelle demonio retomou a sua
verdadeira figura; o sepulchro.
Entretanto soprava o vento. O nevoeiro, saccudido, furado, repuxado,
desfazia-se no horisonte em grandes lanhos informes. Reappareceu o mar.
Os bois cada vez mais invadidos pela agua, continuavam a berrar no
porão.
Approximava-se a noite; provavelmente a tempestade.
A Durande a pouco e pouco levantada pelo mar, oscilava da direita para
a esquerda, degois da esquerda para a direita, e começava a girar sobre
o escolho como sobre um eixo.
Podia-se pressentir o momento em que uma vaga arrancaria o navio, e o
levaria agua abaixo.
Havia menos obscuridade do que no momento do naufragio. Apezar da hora
ser já avançada, estava mais claro. O nevoeiro levou comsigo uma parte
da escuridão. O oeste limpou-se de nuvens. O crepusculo é um vasto céo
branco. Essa vasta claridade allumiava o mar.
A Durande naufragara em plano inclinado de pôpa a prôa. Clubin trepou á
prôa que estava quasi fóra da agua. Fitou no horisonte os olhos.
É proprio da hypocrisia ater-se á esperança. O hypocrita é o homem que
espera. A hypocrisia é uma esperança horrivel: o fundo dessa mentira é
feito desta virtude, tornada vicio.
Cousa estranha de dizer, ha confiança na hypocrisia. O hypocrita
confia-se a certa indifferença do desconhecido, que consente no mal.
Clubin olhava para a extensão.
A situação era desesperada: aquella alma sinistra não desesperou.
Dizia comsigo que depois daquelle longo nevoeiro os navios conservados
na bruma, á capa ou ancorados; iam continuar viagem, e algum passaria
no horisonte.
E com effeito appareceu uma véla.
Vinha de leste e ia para oeste.
Appoximando-se desenhava-se o navio; tinha apenas um mastro, e estava
armado em goleta. O gurupés era quasi horisontal.
Antes de meia hora devia passar por perto do escolho Douvres.
Clubiu disse comsigo: estou salvo.
Em momentos semelhantes, pensa-se primeiro na vida.
O cuter era quasi estrangeiro. Quem sabe se não era um dos
contrabandistas que iam a Plainmont? Quem sabe se não era Blasquito?
Nesse caso, não sómente salvava a vida como a fortuna; e o encontro
do rochedo Douvres, appressando a conclusão, supprimindo a espera na
casa mal assombrada, dando desfecho á aventura em pleno mar, seria um
incidente feliz.
Toda a certeza do bom exito entrou freneticamente naquelle espirito
sombrio.
Extranha cousa é ver com que facilidade os tratantes acreditam que
devem ser bem succedidos.
Cumpria fazer apenas uma cousa.
A Durande, mettida nos rochedos, misturava a sua configuração á delles;
confundia-se com os seus recortes, sobre os quaes parecia apenas um
lineamento, ficava indistincta e perdida, e não bastava, com o pouco
dia que havia, para attrahir a attenção da embarcação que ia passar.
Mas uma figura humana desenhando-se na alvura crepuscular, de pé na
planura do rochedo Homem, e fazendo signaes de perigo, seria vista, sem
duvida alguma. Mandariam um escaler para recolher o naufrago.
O rochedo Homem ficava a duzentas braças. Era simples attingil-o a
nado, facil trepar por elle.
Não havia tempo a perder.
Estando a prôa da Durande sobre a rocha, era do alto da pôpa e do ponto
em que estava, que Clubin devia atirar-se ao mar.
Começou por deitar um sonda, e reconheceu que havia ao pé da pôpa muito
fundo. As conchas microscopicas de foraminiferos e de polydistineas que
a sonda trouxe comsigo estavam intactas, o que indicava que havia alli
profundas cavas de rocha, onde a agua, qualquer que fosse a agitação da
superficie, era sempre tranquilla.
Despio-se, deixando as roupas no tombadilho. Acharia roupa no cuter.
Conservou apenas o cinto de couro.
Depois de despir-se, levou a mão ao cinto, apertou-o bem, apalpou a
caixinha de ferro, estudou rapidamente com o olhar a direcção que devia
seguir no meio dos parceis e das vagas para alcançar o rochedo Homem;
depois, precipitou-se de cabeça para baixo.
Como cahio de alto mergulhou muito.
Chegou ao fundo do mar, tocou-o. Costeou alguns instantes as rochas
submarinhas, depois fez um movimento para subir á superficie.
Nesse momento sentio-se aggarrado pelo pé.
LIVRO SETIMO
Imprudencia de interrogar um livro
I
A PEROLA NO FUNDO DO PRECIPICIO
Minutos depois do curto colloquio com o Sr. Landoys, Gilliatt estava em
Saint-Sampson.
Gilliatt ia inquieto até á anciedade. Que teria acontecido?
Saint-Sampson tinha um rumor de colmêa assustada. Toda a gente estava
ás portas. As mulheres exclamavam. Muitas pessoas contavam alguma
cousa, fazendo gestos; as outras agrupavam-se á roda dessas. Ouviam-se
estas palavras: que desgraça! Alguns sorriam.
Gilliatt não interrogou ninguem. Não era proprio delle fazer perguntas.
Demais, ia demasiado commovido para fallar a indifferentes. Desconfiava
das narrações, preferia saber logo tudo; foi á casa de Lethierry.
A sua anciedade era tal que nem mesmo teve medo de entrar naquella casa.
Demais, a porta da sala baixa estava escancarada. Na soleira havia um
formigueiro de homens e mulheres. Todos entravam; elle entrou.
Entrando, achou encostado á porta o Sr. Landoys que lhe disse a meia
voz:
--Então, já sabe do successo?
--Não.
--Eu não quiz dizer-lh'o ha pouco do meio da rua. Pareceria correio de
desgraças.
--Que foi então?
--Perdeu-se a Durande.
Havia muita gente na sala.
Os grupos fallavam baixo, como no quarto de um doente.
Os assistentes, que eram os visinhos, os viandantes, os curiosos,
estavam amontoados ao pé da porta, com uma especie de receio, e
deixavam vasio o fundo da sala onde estava, ao lado de Deruchette
lacrimosa e assentada, mess Lethierry de pé.
Lethierry estava encostado ao tabique do fundo. O bonet de marujo
cahia-lhe nas sombrancelhas; uma mecha de cabellos grisalhos
prendia-se-lhe na face. Não dizia nada. Os braços não tinham movimento,
a boca parecia não ter alento. Parecia uma cousa encostada á parede.
Ao vê-lo, sentia-se um homem dentro de quem se extinguira a vida.
Deixando de existir a Durande, Lethierry já não tinha razão de ser.
Tinha uma alma no mar, e essa alma acabava de perecer. Que faria elle
agora? Levantar-se de manhã, deitar-se de noite. Já não podia esperar a
Durande, nem vê-la partir, nem voltar. O que é um resto de existencia
sem objecto? Beber, comer, e depois? Aquelle homem tinha corôado os
seus trabalhos com uma obra prima, e as dedicações com um progresso.
Abolira-se-lhe o progresso, morrera-lhe a obra prima. Para que viver
ainda alguns annos vasios? Não tinha mais nada que fazer. Naquella
idade não é possivel recomeçar; de mais a mais estava arruinado. Pobre
velho!
Deruchette, assentada ao pé delle, e chorando, tinha entre as suas duas
mãos a mão de mess Lethierry. As della estavam postas, a de Lethierry
apertada. Via-se nisso a differença daquelles dous abatimentos. As mãos
postas ainda tem esperança: a apertada, nenhuma.
Mess Lethierry abandonava-lhe o braço sem resistencia. Estava passivo.
Tinha em si apenas aquella porção de vida que póde haver depois do raio.
Ha certas descidas ao fundo do abysmo que retiram um homem do meio
dos vivos. As pessoas que andam em roda são confusas e indistinctas;
acotovelam-n'o e não lhe chegam. De parte a parte ficam inacessiveis.
A ventura e o desespero não são os mesmos centros respiraveis; o
desesperado assiste á vida dos outros, mas de muito longe; ignora quasi
a sua presença; perde o sentimento da propria existencia; que importa
ser de carne e osso, o desesperado já se não sente real; já não é elle
proprio, é apenas um sonho.
Mess Lethierry tinha o olhar dessa situação.
Cochichavam os grupos.
Cada qual dizia o que sabia.
Eis as noticias:
A Durande perdera-se na vespera nos rochedos Douvres, com o nevoeiro,
uma hora antes do pôr do sol. Á excepção do capitão, que não quiz
deixar o navio, toda a gente salvou-se na chalupa. Uma borrasca, vinda
do sudueste, depois do nevoeiro, quasi fez naufragar a chalupa, e
carregou-a para o mar largo além de Guernesey. De noite tiveram os
naufragos a boa fortuna de encontrar o _Cashmere_, que os recolheu
elevou a Saint-Pierre Port. O culpado de tudo foi o timoneiro
Tangrouille, que já estava preso. Clubin mostrou-se magnanimo.
Os pilotos que abundavam nos grupos, pronunciavam estas palavras
_escolho Douvres_, de um modo particular.--Má hospedaria aquella! dizia
um delles.
Via-se na mesa uma bussola e um masso de registros e notas; eram sem
duvida a bussola de Durande e os papeis de bordo entregues por Clubin
a Imbrancam e a Tangrouille no momento de partir a chalupa; magnifica
abnegação desse homem, salvando até os papeis no momento em que ia
morrer; minuciasinha cheia de grandeza, esquecimento sublime de si
proprio.
Todos eram unanimes em admirar Clubin, e igualmente unanimes em
julga-lo salvo. O cuter _Shealtiel_ chegára poucas horas depois do
_Cashmere_, e esse cuter trazia as ultimas informações. Esteve vinte o
quatro horas nas mesmas aguas da Durande. Parou e bordejou durante o
nevoeiro e a tempestade. O patrão do _Shealtiel_ estava tambem na sala
do Lethierry.
No momento em que Gilliatt entrou, acabava elle de fazer a sua narração
a mess Lethierry. Era um verdadeiro relatorio. De manhã, tendo cessado
a borrasca o acalmado o vento, o patrão do _Shealtiel_ ouvio mugido de
bois em pleno mar. Este rumor proprio das campinas, ouvido alli nas
vagas, surprendeu o patrão. Descobrio a Durande nos rochedos Douvres.
A calma era sufficiente para que elle podesse acercar-se dos rochedos.
Chamou o navio á falla. Só lhe respondeu o mugido dos bois que se
afogavam no porão. O patrão do _Shealtiel_ estava certo de que não
havia ninguem á bordo da Durande. O casco estava completamente preso;
e por mais violenta que fosse a borrasca; devia ter passado a noite á
bordo. Não era homem de desanimar facilmente. Não estava á bordo, logo
estava salvo.
Muitos sloops e lugars de Granville e Saint-Malo, desprendendo-se
do nevoeiro, era fóra de duvida que deviam ter costeado as Douvres.
Evidentemente algum delles recolheu o capitão Clubin. Devem lembrar-se
que a chalupa da Durande estava cheia ao deixar o navio, ia correr
perigos, mais um homem poderia fazel-a sossobrar, e foi isso sobretudo
o que resolveu Clubin a ficar na Durande: mas, cumprido esse dever,
se apparecesse um navio salvador, Clubin, não teria difficuldade de
aproveitar-se delle. Deve-se ser heróe, não se deve ser pascacio.
Um suicidio seria tanto mais absurdo quanto que Clubin portára-se
com dignidade. O culpado era Tangrouille, não Clubin. Tudo isto era
consequente; o patrão do _Shealtiel_ tinha razão, e toda a gente
esperava vêr Clubin de um momento para outro. Premeditava-se recebel-o
em triumpho.
Da narração do mestre resultavam duas certezas: Clubin salvo e a
Durande perdida.
Quanto a Durande estava decidido que a catastrophe era irremediavel.
O patrão do _Shealtiel_ assistira á ultima phase do naufragio. O
grandissimo rochedo em que naufragara a Durande, resistira ao choque
da tempestade, como se quizesse guardar comsigo o navio; mas de manhã,
no momento em que o _Shealtiel_, verificando que não havia ninguem
para salvar affastava-se da Durande, houve um desses movimentos de mar
que são como os ultimos arrancos da colera das tempestades. Essa onda
levantou furiosamente a Durande, arrancou-a do cachopo, e com a rapidez
e a rectidão de uma flexa disparada, atirou-a entre as duas rochas
Douvres. Ouvio-se um estalo «diabolico» dizia o patrão. A Durande,
levada pela vaga a uma certa altura, metteu-se entre as rochas. Estava
outra vez pregada, mas desta vez mais solidamente que no escolho
submarino. Ficou ahi deploravelmente suspensa, exposta a todo o vento e
a todo mar.
A Durande, no dizer da equipagem do _Shealtiel_ já estava quasi toda
despedaçada. Teria sossobrado, com certeza, de noite, se o cachopo
não a sustivesse. O patrão do _Shealtiel_ com o seu oculo estudou o
casco. Descreveu o desastre com precisão maritima; o lado de estibordo
estava roto; os mastros truncados, o velame sem tralhas, as correntes
dos ovens quasi todas cortadas, as sangadilhas cortadas o mais rente
possivel desde o meio do mastro até acima; o lugar dos viveres
arrombado, os cavaletes da chalupa destruidos, a arvore do leme rôta,
os cabos despregados, os pavezes arrasados, as abitas levadas pelo
vento, a antena do mesmo modo, o cadaste quebrado. Era a devastação
frenetica da tempestade. Quanto ao guindaste do carregamento, preso ao
mastro de prôa, já não existia, não havia noticia delle, completamente
limpo, levaram-n'o os diabos, com todas as roldanas, polés e correntes.
A Durande estava deslocada; a agua começava agora a sargal-a. Dentro de
alguns dias nada mais restaria della.
E comtudo a machina, cousa notavel, e que provava a sua perfeição,
soffreu pouco com a tempestade. O patrão do _Shealtiel_ affirmava que
a manivella não teve avaria grave. Os mastros do navio cederam, mas o
cano da machina resistio. Os baluartes de ferro do lugar do com mando
estavam apenas torcidos; as caixas das rodas soffreram, mas as rodas
pareciam não ter um só raio de menos. A machina estava intacta. Era
a convicção do patrão do _Shealtiel._ O machinista Imbrancam, que
estava entre os grupos, partilhava esta convicção. Aquelle negro,
mais intelligente que muitos brancos, era o admirador da machina.
Levantava os braços abrindo os dez dedos das suas mãos negras, e dizia
a Lethierry mudo: meu amo, a machina está viva.
O salvamento de Clubin parecia cousa segura; o casco da Durande
estava sacrificado; a conversação dos grupos recahio sobre a
machina. Interessavam-se por ella, como se fosse uma pessoa. Todos
admiravam o bom procedimento da machina.--Solida comadre aquella,
dizia um marinheiro francez.--É magnifica! exclamava um pescador
guernesiano.--Deve ter sido muito astuciosa, accrescentava o patrão,
para escapar apenas com alguns arranhões.
A pouco e pouco tornou-se a machina a preoccupação unica. Animou as
opiniões pró e contra. Tinha amigos e inimigos. Mais de um, que tinha
algum velho cuter de vela, e esperava apanhar a freguezia da Durande,
alegrou-se por vêr o escolho Douvres fazer justiça á nova invenção. O
cochicho tornou-se algazarra. Discutia-se com barulho. Era com tudo
um rumor discreto, que de quando em quando se calava sob a pressão do
silencio sepulcral de Lethierry.
Do colloquio havido em todos os pontos resultava isto:
A machina era o essencial. Refazer o navio era possivel, não a
machina. Era unica. Para fabricar outra faltava o dinheiro e o
fabricante. Lembram-se que o constructor tinha morrido. Custou quarenta
mil francos. Ninguem arriscaria agora aquelle capital naquella
eventualidade; tanto mais quando acabava de provar-se que os vapores
naufragam como navios de vela; o accidente actual da Durande mettia á
pique o seu passado succedimento. E era doloroso pensar que naquelle
momento a machina ainda estava em bom estado, e que, antes de cinco
ou seis dias, ficaria despedaçada como o navio. Emquanto existia a
machina, podia dizer-se que não havia naufragio. Só a perda da machina
era irremediavel. Salvar a machina era reparar o desastre.
Salvar a machina, é facil dizel-o. Mas quem ousaria? era acaso
possivel? Fazer e executar, são cousas differentes, e a prova é que é
facil _formular uma aspiração_ e difficil executal-a. Ora, se houve
jámais um sonho impraticavel e insensato era este; salvar a machina
encalhada nas Douvres. Mandar trabalhar naquellas rochas um navio e
uma equipagem seria absurdo; não se devia pensar nisso. Era a estação
dos temporaes: ao primeiro que houvesse, rasgavam-se as correntes das
amarras nos pontos submarinhos e o navio despedaçava-se. Era mandar
um naufragio em soccorro do primeiro. Na especie de buraco da planura
superior onde se abrigára o naufrago legendario morto de fome, mal
havia lugar para um homem. Era preciso pois que, para salvar essa
machina, fosse um homem aos rochedos Douvres, e que fosse sozinho,
só naquelle mar, só naquelle deserto, só a cinco leguas da costa,
naquelle medo, só durante semanas inteiras, só diante do previsto e
do imprevisto, sem vitualhas nas angustias da privação, sem soccorro
nos incidentes da desgraça, sem outro vestigio humano que o do antigo
naufrago morto alli, sem outro companheiro além daquelle finado.
E como salvaria elle a machina? Era preciso que fosse, não sómente
marujo, senão tambem ferreiro. E quantas difficuldades! O homem que o
tentasse seria mais que um heróe. Seria um louco. Porquanto, em certos
commettimentos desproporcionados, onde parece necessario o sobrehumano,
a bravura tem acima de si a demencia. E com effeito, sacrificar-se por
um pouco de ferro não era estravagante? Não, ninguem iria aos rochedos
Douvres. Devia-se renunciar á machina do mesmo modo que ao navio. O
salvador que era preciso não apparecia. Onde encontrar esse homem?
Isto, dito de outro modo, era o fundo das conversas murmuradas daquella
multidão.
O patrão do _Shealtiel_ que era um antigo piloto, resumio o pensamento
de todos, exclamando em alta voz:
--Não! está acabado. Não existe um homem capaz de ir buscar a machina!
--Se eu não vou, disse Imbrancam, é que é impossivel ir.
O patrão do _Shealtiel_ sacudio a mão esquerda com aquelle
arrebatamento que exprime a convicção do impossivel, e repetio:
--Se existisse...
Deruchette voltou a cabeça.
--Casava-me com elle.
Houve um silencio.
Um homem pallido sahio do meio dos grupos e disse:
--A senhora casava-se com elle, miss Deruchette?
Era Gilliatt.
Entretanto todos levantaram os olhos. Mess Lethierry endireitou-se.
Tinha nos olhos uma luz estranha.
Tirou o boné e lançou-o ao chão, depois olhou solemnemente para a
frente sem vêr pessoa alguma e disse:
--Deruchette casava-se com esse homem. Dou a minha palavra de honra a
Deos.
II
GRANDE ESPANTO NA COSTA OESTE
A noite desse dia, das 10 horas em diante, devia ser noite de luar.
Todavia, qualquer que fosse a boa apparencia da noite, do vento e do
mar, nenhum pescador estava disposto a sahir nem de Hongue la Perre,
nem do Bordeaux, nem de Houmet Benet, nem de Platon, nem de Port
Grat, nem da bahia Vason, nem de Perrelle Bay, nem de Pezeris, nem de
Tielles, nem da bahia dos Santos, nem de Petit Bô, nem de nenhum outro
porto ou angra de Guernesey. E isto por uma razão simples; o gallo
tinha cantado ao meio dia.
Quando o gallo canta a uma hora extraordinaria não ha peixe.
Nesse dia, pois, ao cahir da tarde, um pescador que voltava a Omptolle
teve uma sorpreza. Na altura de Houmet Paradis, além de Brayges e
Gunes, tendo á esquerda a balisa de Plattes Fougères, que representa
um funil virado, e á direita a balisa de Saint-Sampson, que representa
uma figura de homem, o pescador acreditou ver uma terceira balisa. Que
balisa era essa? quando foi posta alli? que banco indicava ella? A
balisa respondeu logo a estas interrogações; mexeu-se; era um mastro.
Não diminui o o espanto do pescador. Balisa era para admirar; mastro
ainda mais. Não havia pesca possivel. Quando todos voltavam, porque
sahia aquelle? Quem era? porque?
Dez minutos depois, o mastro caminhando lentamente, chegou a pouca
distancia do pescador de Omptolle. Este não pôde reconhecer o barco.
Ouvio remar. O ruido era de dous remos. Provavelmente era um homem só.
O vento era norte; o homem navegava evidentemente para ir tomar o vento
além da ponta Fontenelle. Ahi era natural que abrisse a vela. Contava
pois dobrar o Ancresse e o monte Crevel. Que queria dizer aquillo?
O mastro passou; o pescador foi para terra.
Nessa mesma noite, na costa oeste de Guernesey, observadores de
occasião, disseminados e isolados fizeram alguns reparos a horas
diversas e em diversos pontos.
O pescador de Omptolle acabava de amarrar o barco, quando um conductor
de sargaço, a meia milha distante, chicoteando os animaes na estrada
deserta de Clotures, perto do Cromleche, nos arredores dos martellos
6 e 7, vio no mar, um tanto longe, em lugar pouco frequentado, porque
é preciso conhece-lo bem, do lado da Roque-Nord e da Sablonneuse, um
barco içando uma vela. Deu pouca attenção, pois que era homem de carro
e não de barco.
Meia hora depois, um estucador que voltava da cidade e contornava a
lagôa de Pelée, achou-se repentinamente quasi em face de um barco
que penetrara audaciosamente entre as rochas do Quenon, da Roune de
Mer, e da Gripe de Roune. A noite era negra, mas o mar estava claro;
effeito que se produz muitas vezes, e podia-se distinguir ao largo os
navegantes. Só havia no mar aquelle barco.
Mais abaixo e mais tarde, um pescador de lagostas, dispondo as suas
tendas no areal que separa o Port Soif do Port Enfer, não comprehendeu
o que faria um barco que passava entre a Boue Cornelle e a Moncrette.
Era preciso ser bom piloto e ter pressa de chegar a algum lugar para
arriscar-se a passar alli.
Sendo oito horas no Catel, o taverneiro de Cobo Bay observou, com algum
espanto, uma vela além da Boue do Jardin e das Grunettes, mui perto da
Susanna, e dos Grunes do Oeste.
Não longe de Cobo Bay, na ponta solitaria do Houmet da bahia Vason,
estavam dous namorados a despedir-se e a reter-se um ao outro; foram
distrahidos do ultimo beijo por um vasto barco que passou por perto
delles e dirigia-se para as Menellettes.