--Realmente, este nevoeiro é o diabo.

--E póde causar desgraças.

O parisiense exclamou:

--Mas, porque desgraças! a proposito de que? de que servem desgraças? É

o caso do incendio do Odeon! Ficou uma porção de familias reduzidas á

miseria! É justo isto? Olhe cá, eu não sei qual é a sua religião, mas

digo-lhe que não estou contente.

--Nem eu, disse o maloense.

--Tudo o que se passa neste mundo, continuou o parisiense, parece um

desconcerto. Creio que Deos não entra nisto.

O maloense coçou o alto da cabeça, como quem procura comprehender. O

parisiense continuou.

--Deos está ausente. Devia-se lavrar um decreto para obriga-lo a

residir aqui. Anda lá na sua casa de campo e não se importa comnosco.

E tudo vai torto e mal encaminhado. É evidente, meu bom senhor, que

Deos já não está no governo, está em ferias, e é o vigario, algum anjo

seminarista, algum bocio com azas de pardal, quem dirige os negocios.

O capitão Clubin, que se aproximara, pôz a mão no hombro do parisiense.

--Silencio, disse elle. Cuidado nas palavras. Estamos no mar.

Ninguem mais fallou.

No fim de cinco minutos, o guernesiano, que tudo ouvira, murmurou aos

ouvintes.

--É um capitão religioso.

Não chovia e todos estavam molhados. Só se reparava no caminho que o

navio descrevia por uma especie de máo-estar. Parecia que se entrava

na tristeza. O nevoeiro emmudece o oceano, adormenta a vaga e supita o

vento. Naquelle silencio, o rumor da Durande tinha um não sei que de

inquieto e lamentoso.

Já se não encontravem navios. Só ao longe, quer do lado de Guernesey,

quer do lado de Saint-Malo, alguns navios estavam no mar, fóra do

nevoeiro; para esses a Durande, submergida na bruma, não era visivel, e

a sua longa fumaça, presa a cousa nenhuma, parecia-lhes um cometa negro

no céo branco.

De repente Clubin exclamou:

--Com seiscentos! estás dirigindo mal. Olha que me avarias o barco!

Mereces bem que te ponha a ferros. Vai-te, bebado!

E tomou a canna do leme.

O timoneiro humilhado refugiou-se na cordoalha da prôa.

Disse o guernesiano:

--Estamos salvos.

A marcha continuou rapida.

Pelas tres horas, a orla inferior do nevoeiro começou a levantar-se e

vio-se o mar.

--Máo! disse o guernesiano.

Só o sol ou o vento deve levantar a bruma. Quando é o sol é bom signal;

quando é o vento, não é tão bom signal. Era tarde já para ser o sol.

Ás tres horas, em Fevereiro, o sol está fraco. Não era cousa desejavel

a volta do vento naquella situação critica. Muitas vezes annuncia o

furacão.

Verdade seja, que, se havia brisa, mal se sentia.

Clubin, com o olhar na bitacula, governando o leme, mastigava algumas

palavras que chegavam aos passageiros; era isto mais ou menos:

--Não ha tempo a perder. Aquelle bebado demorou a viagem.

O seu rosto, porém, não tinha expressão alguma.

O mar estava menos adormecido. Já se enxergavam algumas vagas. Luzes

geladas fluctuavam na agua. Essas placas de clarão nas ondas preocupam

os marinheiros. Indicam que o vento faz buracos por cima do nevoeiro. A

bruma levantava-se e tornava a cahir mais densa. As vezes a opacidade

era completa. O navio estava numa verdadeira montanha de nevoeiro. De

quando em quando aquelle circulo tremendo abria-se como uma tenaz,

deixava ver o horisonte, e fechava-se depois.

O guernesiano, armado de um oculo, estava como uma vedeta, na frente do

navio.

Clareou, depois escureceu outra vez.

O guernesiano voltou-se assustado:

--Capitão Clubin!

--Que é?

--Vamos direito aos cachopos de Hanois.

--É engano, disse Clubin friamente.

O guernesiano insistio:

--Estou certo.

--Impossivel.

--Vi uma pedra no horisonte.

--Onde?

--Alli?

--É ao largo. Impossivel.

E Clubin continuou a pôr o navio no ponto indicado pelo passageiro.

O guernesiano travou do oculo.

Minutos depois correu para o capitão.

--Capitão!

--Que é?

--Vire de bordo.

--Por que?

--Vi uma rocha muito alta e muito perto. É o grande Hanois.

--Ha de ser algum nevoeiro mais escuro.

--É o grande Hanois. Vire de bordo, em nome do céo!

Clubin deu uma volta á canna do leme.

V

CLUBIN LEVA A ADMIRAÇÃO AO CUMULO

Ouvio-se um estalo. O rasgamento do flanco de um navio, em um cachopo,

em mar alto, é um dos sons mais lugubres que se póde imaginar. A

Durande parou.

Com o choque muitos passageiros cahiram e rolaram no tombadilho.

O guernesiano levantou as mãos para o céo.

--Nos Hanois! eu bem dizia!

Longo grito soou no navio.

--Estamos perdidos.

A voz de Clubin, secca e breve, dominou o grito.

--Ninguem está perdido! E silencio!

O corpo negro de Imbrancam, nú até a cintura, sahio do espaço da

machina.

O negro disse com calma:

--Capitão, a agua está entrando. A machina vai apagar-se.

Terrivel foi o momento.

O choque assemelhava-se a um suicidio. Se fosse de proposito não

seria mais terrivel. A Durande atirou-se como se atacasse o rochedo.

Uma pontada rocha penetrou no navio como um prego. Mais de uma toesa

quadrada de vergas rebentou, rompeu-se a roda de prôa, fracassou a

quilha, partio-se o gurupés, o casco aberto bebia agua aos borbotões.

Era uma chaga por onde entrava o naufragio. A reacção foi tão violenta

que quebrou na pôpa a caixa do leme que ficou solto e oscillante. O

cachopo arrancara o fundo, e á roda do navio, não se via nada, além do

nevoeiro espesso e compacto e agora quasi negro. Chegava a noite.

A Durande mergulhava pela prôa. Era o cavallo que tem nas entranhas a

ponta do touro. Estava morta.

Sentia-se no mar a hora da maré.

Tangrouille estava desperto da embriaguez; ninguem fica bebado em um

naufragio; desceu abaixo, subio e disse:

--Capitão, a agua enche o porão. Dentro de dez minutos está nos

embornaes.

Os passageiros corriam no tombadilho fóra de si, torcendo os braços,

inclinando-se na amurada, olhando para a machina, fazendo todos os

movimentos inuteis do terror. O tourista desmaiou.

Clubin fez um signal com a mão, calaram-se todos. Interrogou Imbrancam:

--Quanto tempo pode a machina trabalhar ainda?

--Cinco ou seis minutos.

Depois interrogou o passageiro guernesiano:

--Eu estava ao leme. O senhor observou o rochedo. Em qual dos Hanois

estamos nós?

--Na Mauve. Reconheci ainda agora, com um pouco de claridade.

--Sendo a Mauve, continuou Clubin, temos o grande Hanois a bombordo e o

pequeno Hanois a estibordo. Estamos a uma milha de terra.

A equipagem e os passageiros escutavam, tremulos de anciedade e de

attenção, com os olhos fixos no capitão.

Allijar o navio era inutil, e demais, impossivel. Para pôr a carga ao

mar, era preciso abrir as portinholas e augmentar as probabilidades

de entrar agua. Atirar a ancora era inutil; estavam pregados. Demais

podia ficar presa. Não estava avariada a machina, e continuando á

disposição do navio emquanto o fogo não estava apagado, isto é, por

alguns minutos, podia-se á força de rodas e de vapor, recuar e arrancar

o navio do escolho. Nesse caso iria ao fundo immediatamente. O rochedo

até certo ponto tapava o rombo e tolhia a passagem da agua. Servia de

obstaculo. Desobstruida a abertura, seria impossivel impedir a entrada

da agua. Quem retira o punhal de uma ferida no coração, mata logo o

ferido. Sahir do cachopo era ir ao fundo.

Os bois, atacados pela agua, começavam a mugir.

Clubin ordenou.

--A chalupa ao mar.

Imbrancam e Tangrouille precipitaram-se e desataram as amarras. O resto

da tripulação olhava petrificado.

--Todos á obra, gritou Clubin.

Desta vez obdeceram todos.

Clubiu, impassivel, continuou a dar ordens, naquella velha lingua do

mar, que os marinheiros de hoje não comprehenderiam.

A chalupa estava no mar.

No mesmo instante, as rodas da Durande pararam, cessou o fumo, a

fornalha estava cheia de agua.

Os passageiros, resvalando ao longo da escada ou pendurando-se nas

enxarcias, deixavam-se antes cahir que descer na chalupa. Imbrancam

apanhou o tourista desmaiado, levou-o para a chalupa, depois subio ao

navio.

Os marinheiros atiravam-se apoz os passageiros. O grumete rolou; elles

pisavam o rapaz.

--Ninguem antes do moço, disse elle.

Afastou com os braços negros os marinheiros, apanhou o grumete, e

estendeu-o ao passageiro guernesiano, que, de pé na chalupa, recebeu o

rapaz.

O grumete salvo, Imbrancam deu caminho e disse:

--Passem.

Entretanto, o Sr. Clubin, foi ao seu camarote e fez um embrulho dos

papeis de bordo e dos instrumentos. Tirou a bussola da bitacula.

Entregou os papeis e os instrumentos a Imbrancam e a bussola a

Tangrouille, e disse-lhes:

--Desçam á chalupa.

Elles desceram. A tripulação tinha-os precedido. A chalupa estava

cheia. Estava quasi rasa.

--Agora, disse Clubin, vão embora.

--E o senhor, capitão?

--Fico.

As pessoas que naufragam tem pouco tempo de deliberar e ainda menos de

internecer-se. Entretanto os que estavam na chalupa, e relativamente

com segurança, tiveram uma commoção que não era por elles. Todas as

vozes insistiram ao mesmo tempo.

--Venha comnosco, capitão.

--Fico.

O guernesiano, que conhecia o mar, replicou:

--Ouça, capitão. O senhor naufragou nos Hanois. A nado ha apenas uma

milha até Plainmont. Mas na chalupa só se póde abordar na Roquaine,

e são duas milhas. Ha cachopos e nevoeiro. Esta chalupa não chega á

Roquaine antes de duas horas. Não tarda a anoitecer. Enchendo á maré

refresca o vento. Está proxima a borrasca. É nosso desejo vir buscal-o

depois, mas se romper o temporal, não será possivel. Se fica está

perdido. Venha.

O parisiense interveio:

--A chalupa está cheia, e cheia de mais, é verdade, e um homem de mais

seria ainda peior. Mas nós somos treze, é máo numero para a barça, e é

melhor sobrecarregal-a de um homem que de um algarismo.

Trangouille accrescentou:

--A culpa é minha, não é sua. Não é justo que o senhor fique.

--Fico, disse Clubin. O navio será despedaçado pela tempestade hoje

de noite. Não o deixarei. Quando o navio se perde, morre o capitão.

Dir-se-ha de mim que eu cumpri o meu dever. Perdôo-te, Tangrouille.

E crusando os braços gritou:

--Attenção ás ordens. Larguem a banda da amarra. Partam!

Abalou-se a chalupa. Imbrancam tomou o leme. Todas as mãos que não

remavam voltaram-se para o capitão. Todas as bocas gritaram: Hourrah

para o capitão Clubin!

--Eis um homem admiravel, disse o americano.

--É o mais honrado homem do mar, respondeu o guernesiano.

Trangouille chorava.

--Eu devia ter ficado com elle.

A chalupa internou-se por entre o nevoeiro, e desappareceu.

Não se vio mais nada.

O rumor dos remos diminuio e perdeu-se.

Clubin estava só.

VI

ALLUMIA-SE O INTERIOR DE UM ABISMO

Quando aquelle homem achou-se naquelle rochedo, debaixo daquella nuvem,

no meio daquella agua, longe do contacto humano, deixado por morto,

sósinho entre o mar que subia e a noite que descia, teve profundo

jubilo.

Alcançara o que queria.

Realisara-se-lhe o sonho. Estava paga a letra de longo praso que elle

saccou sobre o destino.

Para elle, ficar abandonado, era ficar livre. Estava no Hanois, a uma

milha de terra; tinha setenta e cinco mil francos. Nunca se realisou

mais acertado naufragio. Nada falhou; é verdade que tudo estava

previsto. Desde a juventude Clubin teve uma idéa; fazer da honestidade

uma parada no jogo da _roulette_ da vida, passar por homem probo, e

partir dahi, esperando que a sorte corresse; não apalpar, segurar;

fazer um lance, mas só um, agarrar tudo, e deixar atraz os papalvos.

Assentava que devia alcançar de uma vez aquillo que os larapios tolos

deixam de agarrar vinte vezes, e, emquanto estes vão ter á forca, elle

iria á fortuna. O encontro de Rantaine foi o raio de luz. Construio

immediatamente o plano: obrigar Rantaine á restituição; quanto ás suas

revelações possiveis, annulal-as desapparecendo; passar por morto, que

é a melhor desapparição do mundo; para isso fazer naufragar a Durande.

O naufragio era necessario. Além de tudo, ir-se embora deixando boa

fama, era fazer da sua existencia uma obra prima. Quem podesse ver

Clubin naquelle naufragio acreditaria ver um demonio feliz.

Viveu toda a sua vida naquelle minuto.

Toda a sua pessoa exprimia esta palavra; Emfim! Tremenda serenidade

empallideceu aquella fronte obscura. Os olhos embaciados, no fundo

dos quaes parecia haver um tabique, tornou-se profundo e terrivel. O

abrasamento interno daquella alma reverberou-se nelles.

O foro intimo, como a natureza externa, tem a sua tensão elastica. Uma

idéa é um meteóro; no momento do triumpho, entreabrem-se as meditações

acumuladas que o preparam, e jorra uma faisca; ter em si uma garra do

mal, e sentir nella uma presa, ventura é esta que tem a sua irradiação;

máo pensamento que triumpha illumina o rosto daquelle que o concebeu;

certas combinações triumphantes, certos desejos realisados, certas

felicidades ferozes, fazem apparecer e desapparecer nos olhos dos

homens, lugubres e luminosas dilatações. É a tempestade jubilosa, é a

aurora ameaçadora. Tudo isso sahe da consciencia, que se faz sombria e

ennevoada.

Foi esse fulgor que illuminou aquelles olhos.

Relampago que não se parecia com cousa alguma do que se póde ver no céo

e na terra.

O velhaco comprimido que havia em Clubin fez explosão.

Clubin fitou a immensa obscuridade, e não pôde reter uma gargalhada

baixa e sinistra.

Estava livre! estava rico!

Achara a incognita. Resolvera o problema.

Clubin tinha tempo de cuidar de si. A maré enchia e por conseguinte

sustentava a Durande, e afinal devia pol-a a nado. Mas o navio adheria

solidamente ao rochedo; não havia perigo de sossobrar. Além disso, era

preciso deixar á chalupa o tempo de affastar-se, perder-se talvez;

Clubin contava com isso.

De pé sobre a Durande naufragada, cruzou os braços, saboreando aquelle

abandono nas trevas.

A hypocrisia pesou áquelle homem durante trinta annos. Era o mal, e

consorciou-se com a probidade. Odiava a virtude com um odio de mal

casado. Teve sempre uma premeditação malvada; desde que se fizera

homem, trazia aquella armadura rigida, a apparencia. Era monstro

internamente; vivia em uma pelle de homem de bem, com um coração de

bandido. Era o pirata ameno. Era prisioneiro da honestidade; estava

fechado naquelle caixão de mumia, a innocencia; tinha nas costas azas

de anjo, esmagadoras para um velhaco. Pesava-lhe de mais a estima

publica. Passar por homem honrado é duro! Manter constante equilibrio,

pensar mal e fallar bem, que labutação! Clubin era o phantasma da

rectidão, sendo o espectro do crime. Este contra-senso foi o destino

delle. Era-lhe preciso mostrar ares apresentaveis, escumar por baixo

do nivel, sorrir em vez de ranger. A virtude para elle, era cousa que

esmagava. Passou a vida a ter vontade de morder aquella mão que lhe

tapava a boca.

E querendo mordel-a, foi obrigado a beijal-a.

Ter mentido, é ter soffrido. O hypocrita é um paciente na dupla

accepção de palavra; calcula um triumpho e soffre um supplicio. A

premeditação indefinida de uma acção ruim acompanhada por dóses de

austeridade, a infamia interior temperada de excellente reputação,

enganar continuadamente, não ser jámais quem é, fazer illusão, é uma

fadiga. Compôr a candura com todos os elementos negros que trabalham

no cerebro, querer devorar os que o veneram, acariciar, reter-se,

reprimir-se, estar sempre alerta, espiar constantemente, compôr o

rosto do crime latente, fazer da disformidade uma belleza, fabricar

uma perfeição com a perversidade, fazer cocegas com o punhal, pôr

assucar no veneno, velar na franqueza do gesto e na musica da voz,

não ter o proprio olhar, nada mais difficil, nada mais doloroso. O

odioso da hypocrisia começa obscuramente no hypocrita. Causa nauseas

beber perpetuamente a impostura. A meiguice com que a astucia disfarça

a malvadeza repugna ao malvado, continuamente obrigado a trazer essa

mistura na boca, e ha momentos de enjôo em que o hypocrita vomita quasi

o seu pensamento. Engulir essa saliva é cousa horrivel. Ajuntai a isto

o profundo orgulho. Existem horas estranhas em que o hypocrita se

estima. Ha um _eu_ desmedido ao impostor. O verme resvala como o dragão

e como elle retesa-se e levanta-se. O traidor não é mais que um despota

tolhido que não póde fazer a sua vontade senão resignando-se ao segundo

papel. É a mesquinhez capaz da enormidade. O hypocrita é um titão-anão.

Clubin imaginava de boa fé que tinha sido opprimido. Porque razão não

nascèra rico? O que elle queria era que os paes lhe houvessem deixado

cem mil libras de renda. Por que não as tinha? Não era culpa delle.

Porque motivo, não lhe dando todos os gosos da vida, forçaram-n'o a

trabalhar, isto é, a enganar, a trahir, a destruir? Porque motivo

condemnaram-n'o assim a essa tortura de adular, de rastejar, de

comprazer, de fazer-se amar e respeitar, e trazer dia e noite no

rosto um rosto que não ere delle? Dissimular é uma violencia imposta.

Odeia-se diante de quem se mente. Soára emfim a hora. Clubin vingava-se.

De quem? De todos e de tudo.

Lethierry não lhe fez senão bem: queixa de mais; vingava-se de

Lethierry.

Vingava-se de todos aquelles ante quem foi obrigado a constranger-se.

Desforrava-se. Quem quer que pensasse bem delle, era seu inimigo,

porque elle foi captivo desse homem.

Clubin achava-se livre. Realisára-se a fuga. Estava fóra dos homens. O

que se tinha por morte, era vida; elle ia começar agora. O verdadeiro

Clubin despojava-se do falso Clubin. De um lance dissolveu tudo.

Empurrou com o pé, Rantaine ao espaço, Lethierry á ruina, a justiça

humana ás trevas, a opinião ao erro, a humanidade inteira para longe de

si. Tinha eliminado o mundo.

Quanto a Deos, Clubin curava pouco dessa palavra de quatro letras.

Passou como religioso. Que importa?

Ha cavernas no hypocrita ou antes, o hypocrita é uma caverna.

Quando Clubin ficou só, abrio-se-lhe o antro. Teve um instante de

delicias; arejou a alma.

Respirou largamente o seu crime.

O fundo do mal tornou-se visivel naquelle rosto. Clubin abrio-se. Nesse

momento, o olhar de Rantaine ao pé daquelles olhos pareceria um olhar

de recem-nado.

Arrancar a mascara, que livramento! A consciencia de Clubin alegrou-se

por ver-se hediondamente nua, e por tomar livremente um banho ignobil

no mal. O constrangimento de um longo respeito humano acaba por

inspirar um gosto violento á impudencia. Chega-se a uma certa lascivia

na perversidade. Existe nessas tremendas profundezas moraes tão

pouco sondadas, uma não sei que ostentação atroz e agradavel que é a

obscenidade do crime. A insipidez da falsa reputação dá appetite de

vergonha. Desdenha-se os homens a ponto tal que se deseja o despreso

delles. Ser estimado, aborrece. Admira-se a franquesa da degradação.

Olha-se cobiçosamente a torpeza que se mostra tão a seu gosto na

ignominia. Os olhos obrigados a baixar-se, tem muitas vezes destes

olhares obliquos. Nada se approxima tanto de Messalina como Maria

Alacope. Vede Capiere e a religiosa de Louviers.

Clubin vivera debaixo do véo. O descaramento foi sempre a sua ambição.

Invejava a mulher publica e a fronte de bronze do opprobrio aceito;

sentia-se mais mulher publica do que ella e tinha desgosto em passar

por virgem. Foi o Tantalo do cynismo. Emfim naquella solidão, podia ser

franco; era-o. Que volupia não é sentir-se sinceramente abominavel!

Todos os extasis possiveis no inferno, teve-os Clubin naquelle momento;

foram-lhe pagos todos os atrasados da dissimulação; a hypocrisia é um

adiantamento; Satanaz embolsou-o, Clubin embriagou-se de desfaçamento,

pois que os homens tinham desapparecido e apenas ficara o céo. Disse

comsigo: Sou um picaro! e ficou satisfeito.

Jamais houve cousa igual em uma consciencia humana.

Erupção de um hypocrita, não ha rompimento de cratera igual a esse.

Achava-se feliz por não haver ali ninguem, e não desgostaria que alguem

o visse. Teria prazer em ser medonho á vista de uma testemunha.

Teria prazer em dizer ao espirito humano: és idiota!

A ausencia de homens assegurava-lhe o triunpho, mas diminuia-o.

Só elle era o espectador da sua gloria.

Ha certo encanto em estar de golilha. Toda a gente vê que és infame.

Obrigar a multidão a examinar-te é reconhecer a tua força. Um galé,

sobre um estrado, com uma coleira de ferro ao pescoço, é o despota

de todos os olhares que elle obriga a voltarem-se para si. Aquelle

cadafalso é ao mesmo tempo pedestal. Que mais bello triumpho do que

esse de ficar no centro de convergencia para a attenção geral? Obrigar

o olhar publico é uma das formas da supremacia. Os que tem o mal por

ideal acham no opprobrio uma auréola. Domina-se dahi. Olha-se de cima

de alguma cousa. Mostra-se com soberania. Um poste, á vista de todo o

universo, tem alguma analogia com um throno.

Estar exposto, é ser contemplado.

Um máo reinado tem evidentemente jubilos do pelourinho. Nero

incendiando Roma, Luiz XIV tomando traiçoeiramente o Palatinado, o

regente Jorge matando lentamente Napoleão, Nicoláu assassinando a

Polonia em face da civilisação, deviam sentir um pouco daquella volupia

sonhada por Clubin. A immensidade do despreso parece grandesa ao

despresado.

Ser desmascarado é uma derrota, mas desmascarar-se é uma victoria.

É a ebridade, é a impudencia insolente e satisfeita, é uma nudez

transportada que insulta tudo diante de si. Suprema felicidade.

Estas ideas em um hypocrita parecem contradição, e não são. Toda a

infamia é consequente. O mel é fel. Escobar confina no marquez de Sade.

Prova: Leotade. O hypocrita, sendo o perverso completo, tem em si os

dous polos da perversidade. De um lado é padre, do outro cortezão. O

seu sexo de demonio é duplo. O hypocrita é o horrivel hermaphrodita

do mal. Fecunda-se a si proprio; gera-se, transforma-se. Queres vel-o

formoso? olha-o; queres vel-o horrivel? vira-o.

Clubin tinha em si toda esta sombra de idéas confusas. Pouco as

percebia, mas gozava-as muito.

Uma porção de faiscas do inferno attravessando a noite, era a successão

dos pensamentos naquella alma.

Clubin conservou-se pensativo algum tempo; olhava para a sua

honestidade com o ar com que a serpente contempla a pelle que despio.

Toda a gente acreditou naquella honestidade, elle proprio acreditou um

bocadinho nella.

Deu segunda gargalhada.

Iam pensar que elle estava morto, e estava vivo. Pensavam que estava

perdido, e estava salvo. Que boa caçoada á tolice universal!

E nessa tolice universal contava-se Rantaine. Clubin pensava em

Rantaine com um desdem sem limites. Desdem da fuinha para com o tigre.

Tinha conseguido o que falhára a Rantaine. Rantaine retirara-se

enfiado, e Clubin triumphante. Tomou o lugar de Rantaine no leito da

sua má acção, e foi elle quem teve a boa fortuna.

Quanto ao fucturo, Clubin não tinha plano. Possuia os bilhetes do banco

na boceta de ferro atada á cintura; bastava-lhe esta certeza. Mudaria

de nome. Ha paizes onde sessenta mil francos valem seiscentos mil. Não

seria má solução ir para um desses lugares viver honestamente com o

dinheiro apanhado ao ladrão Rantaine. Especular, entrar em um grande

negocio, engrossar o capital, tornar-se seriamente millionario, também

não era máo.

Por exemplo, em Costa Rica, como era o começo do grande commercio do

café, podia ganhar toneis de ouro. Veria isso.

Demais, pouco importava. Clubin tinha tempo de pensar nessas cousas.

O mais difficil estava feito. Despojar Rantaine, desaparecer com a

Durande era o mais importante. Estava feito. O resto era simples. Não

havia obstaculo possivel. Nada de temer. Não podia acontecer nada.

Nadaria para a costa, abordaria a Plainmont, de noite, galgaria as

rochas da praia, iria á casa mal assombrada, entraria facilmente por

meio da corda de nós escondida de antemão no buraco do rochedo; acharia

na casa a mala contendo roupa e viveres, dentro de oito dias lá estavam

os contrabandistas de Hespanha, Blasquito provavelmente; por alguns

guineos, far-se-hia transportar, não a Tor Bay, como disse a Blasco

para illudir, mas a Pasages ou a Bilbáo. Dahi iria a Vera-Cruz ou a

Nova-Orleans. Já era tempo de atirar-se ao mar, a chalupa estava longe,

uma hora a nado era cousa nenhuma para Clubin, só uma milha o separava

de terra, pois que estava no Hanois.

Neste ponto dos seus calculos, rasgou-se uma fresta do nevoeiro. O

formidavel rochedo Douvres surgio aos seus olhos.

VII

INTERVEM O INESPERADO

Clubin olhou espantado.

Era o medonho escolho isolado.

Os Trabalhadores do Mar · 第 11 / 28 段