Ha quarenta annos, duas rochas de forma extraordinaria assignalavam

de longe o escolho Douvres aos viandantes do oceano. Eram duas pontas

verticaes e recurvadas, tocando-se quasi no cume. Parecia vêr-se

irrompendo do mar dous dentes de um elephante engulido. Mas eram

dentes do tamanho de torres que só poderiam pertencer a elephantes do

tamanho de uma montanha. Essas duas torres naturaes da obscura cidade

dos monstros não deixavam entre si mais que uma passagem estreita

onde a vaga se atirava. Essa passagem, tortuosa e de alguns covados

de comprimento, parecia ura pedaço de rua entre duas paredes. A essas

duas rochas gemeas chamava-se as duas Douvres. Havia a grande Douvre e

a pequena Douvre, uma tinha sessenta pés de altura, a outra quarenta.

O vai-vem das ondas fez na base dessas torres um aspecto de serra, e o

violento furacão do equinocio de 26 de Outubro de 1859, derrubou uma

dellas. A que ficou, a pequena, está mutilada e gasta.

Um dos mais estranhos rochedos do grupo Douvres chama-se o Homem. Esse

ainda existe. No seculo passado alguns pescadores, perdidos naquelles

cachopos, acharam um cadaver. Ao pé do cadaver havia uma porção de

conchas vazias. Tinha naufragado alli um homem, refugiou-se naquelles

rochedos, alimentou-se algum tempo de conchas, até que morreu. Veio

dahi chamar-se Homem ao rochedo.

São singulares as solidões da agua. É o tumulto e o silencio. O que ahi

se faz já nada tem com o genero humano. É a utilidade desconhecida. Tal

é o isolamento do rochedo Douvres. Em derredor, a perder de vista, o

immenso tormento das vagas.

II

COCNAC INESPERADO

Na sexta-feira de manhã, um dia depois da partida do _Tamaulipas_, a

Durande partio para Guernesey.

Deixou Saint-Malo ás 9 horas.

Claro estava o tempo, não havia nevoeiro; parece que o velho capitão

Gertrais-Gaboureau tinha delirado.

As preocupações do Sr. Clubin fez com que embarcasse pouco

carregamento. Apenas metteu a bordo alguns fardos de Paris para as

lojas de Saint-Pierre Port, tres caixas para o hospital de Guernesey,

uma de sabão amarello, outra de velas e a terceira de couro de sola

e cordavão fino. Levava tambem, da precedente viagem, uma caixa de

assucar Arushed e tres caixas de chá conjou, que a alfandega franceza

não quiz receber. O Sr. Clubin embarcou pouco gado; alguns bois apenas.

Os bois foram postos no porão e bem mal arranjados.

Haviam a bordo seis passageiros: um guernesiano, dous maloenses

vendedores de animaes, um _tourista_, como já se dizia nesse tempo,

um parisiense meio burguez, provavelmente tourista do commercio, e um

americano distribuidor de Biblias.

A Durande, sem contar Clubin, tinha sete homens de tripolação; um

timoneiro, um carvoeiro, um marinheiro carpinteiro, um cozinheiro,

manobrista quando era preciso, dous trabalhadores da machina e um

grumete. Um dos penultimos era tambem mecanico. Era um valente e

intelligente negro hollandez, evadido das fabricas de assucar de

Surinam; chama-se Imbrancam. O negro Imbrancam comprehendia e servia

admiravelmente a machina. Nos primeiros tempos, contribuio elle não

pouco, quando apparecia na fornalha, para dar um ar diabolico á Durande.

O timoneiro, jerseyano de nascimento, originario da costa, chamava-se

Tangrouille. Tangrouille era de alta nobreza.

É verdade isto. As ilhas da Mancha são, como a Inglaterra, paizes

hierarchicos. Ainda existem castas nessas ilhas. As castas tem as suas

idéas, que são os seus dentes. Essas idéas são as mesmas em toda a

parte, na India, como na Allemanha. A nobreza conquista-se pela espada

e perde-se pelo trabalho. Conserva-se pela ociosidade. Não fazer cousa

alguma, é viver fidalgamente; quem não trabalha é reverenciado. Officio

faz decahir. Na França de outr'ora só se exceptuavam os operarios de

vidro. Sendo gloria para os fidalgos esvasiar garrafas, fazel-as não

era deshonra alguma.

Nas ilhas da Mancha, assim como na Grã-Bretanha, quem quizer ser nobre

deve conservar-se opulento. Um workman não pode ser gentleman. Inda

que o tenha sido, já não o é mais. Tal marujo descende do cavalheiros

e é apenas marujo. Ha trinta annos, em Aurigny, um Gorges authentico

que, ao que parece tinha direitos á senhoria de Gorges confiscada

por Philippe Augusto, apanhava sargaço com os pés nús. Ha em Serk um

Carteret que é carreiro. Existe em Jersey um mercador de pannos, e

em Guernesey um sapateiro, que tem o nome de Gruchy, que se declaram

Grouchy e primos do marechal de Waterloo. Os antigos registros do

bispado de Contances, mencionam uma senhoria de Tangroville, parenta

evidente de Tancarville no Baixo-Sena, que é Montmorency. No decimo

quinto seculo Johan de Heroudeville, bésteiro e afim do Sr. de

Tangroville, levava sempre comsigo justilhos e arnezes. Em Maio de

1371, em Tontorson, o Sr. Tangroville fez o seu dever como cavalheiro.

Nas ilhas normandas quem cabe em pobreza é logo eliminado da fidalguia.

Basta uma mudança de nome. De _Tangroville_ faz Taugouille, e tudo se

arranja.

Foi o que aconteceu ao timoueiro da Durande.

Ha em Saint-Pierre Port, no Bordage, um mercador de ferros velhos

chamado Ingrouille, que é provavelmente Ingroville. No reinado de Luiz

o Gordo, os Ingroville possuiam tres parochias em Valognes. Fez um

padre Trigan a _Historia ecclesiastica da Normandia._ Este chronisla

Trigan era cura de Digoville. O Sr. de Digoville, se cahisse no

populacho, chamar-se-ha _Digouille._

Tangrouille, Tancarville provavel e Montmorency possivel, tinha

esta antiga qualidade de fidalgo, defeito grave n'um timoneiro;

embriagava-se.

O Sr. Clubin teimava em conserval-o. Respondia por elle a mess

Lethierry.

O timoneiro Tangrouille não sahia nunca do navio e dormia a bordo.

Na vespera da partida, quando o Sr. Clubin foi, já a horas mortas,

visitar o navio, Tangrouille estava na sua maca e dormia. Acordou de

noite. Era-lhe isso costume antigo. Quando o bebado não é senhor de si

tem um esconderijo. Tangrouille tinha o seu, a que chamava dispensa.

A dispensa secreta de Tangrouille era no porão onde se guardava a

agua. Pol-a ahi para tornal-a inverosimil. Estava certo de que só elle

conhecia aquelle esconderijo. O capitão Clubin era severo, porque era

sobrio. O pouco rhum e gin que o timoneiro podia subtrahir á vigilancia

do capitão, punha de reserva naquelle mysterioso cantinho, no fundo

de uma celha de sonda, e quasi todas as noites tinha entrevista

amorosa com aquella dispensa. Era rigorosa, a vigilancia, pobre devia

ser a orgia, e de ordinario os excessos nocturnos de Tangrouille

limitavam-se a dous ou tres goles furtivamente bebidos. Muitas vezes a

dispensa estava vasia. Nessa noite Tangrouille achou lá uma garrafa de

aguardente inesperada. Alegrou-se muito, e espantou-se ainda mais. De

que céos lhe cahio aquella garrafa? Não pôde lembrar-se nem quando nem

como levou-a para o navio. Bebeu-a immediatamente. Em parte fêl-o por

prudencia: tinha medo que a aguardente fosse descoberta e confiscada.

Atirou a garrafa ao mar. No dia seguinte quando tomou a cana do leme

Tangrouille tinha certa oscillação.

Todavia governou o barco quasi como nos outros dias.

Quanto a Clubin, sabe-se que voltou a dormir na pousada João.

Clubin trazia sempre debaixo da camisa um cinto de couro, de viagem,

onde guardava uns vinte guinéos, e que só tirava á noite. No interior

do cinto estava escripto o nome delle, escripto por elle mesmo no couro

bruto com tinta lithographica, que é indelevel.

Ao levantar, antes de partir, poz no cinto a caixinha de ferro contendo

os setenta e cinco mil francos em notas do banco, depois atou o cinto,

como costumava, á roda do corpo.

III

PALESTRA INTERROMPIDA

Foi alegre a partida. Os passageiros, apenas arranjadas as malas por

baixo e em cima dos bancos, passaram, ao navio, essa revista que nunca

falta, e que parece obrigatoria, tal é o costume. Dous passageiros,

o tourista e o parisiense, nunca tinham visto vapores, e desde os

primeiros movimentos da roda, contemplaram a espuma, depois o fumo.

Examinaram peça por peça, e quasi fio por fio, na coberta e entreponte,

todos os apparelhos maritimos, argolas, ganchos, fateixas, cylindros,

que á força de precisão e justeza são uma especie de colossal

ourivesaria; ourivesaria de ferro dourada com ferrugem pela tempestade.

Circularam o pequeno canhão de rebate atado na coberta, «com uma

corrente de cão de sentinella,» observou o tourista, e «coberto com

blusa de linho alcatroado para impedir as constipações» accrescentou

o parisiense. Affastando-se de terra, trocaram-se as observações do

costume acerca da perspectiva de Saint-Malo; um passageiro emittio o

axioma de que as perspectivas do mar illudem, e que, a uma legua da

costa, nada se parece mais com Ostende como Dunkerque. Completou-se

o que havia a dizer de Dunkerque, observando-se que os seus navios

de vigia, pintados de vermelho, chamam-se,--um _Ruyttngue_ e o outro

_Mardyck._

Saint-Malo foi diminuindo até que desvaneceu-se de todo.

O aspecto do mar era o vasto calmo. O rasto do navio fazia no oceano

uma rua franjada de espuma que se prolongava quasi sem torsão a perder

de vista.

Guernesey está no centro de uma linha recta tirada de Saint-Malo em

França, e Exeter em Inglaterra. A linha recta no mar nem sempre é a

linha logica. Entretanto os vapores tem, até certo ponto, o poder de

seguir a linha recta que não podem seguir os navios de vela.

O mar e o vento formam um composto de forças. O navio é um composto

de machinas. As forças são machinas infinitas, as machinas são

forças limitadas. Entre os dous organismos, um inexgotavel, outro

intelligente, trava-se o combate que se chama navegação.

Uma vontade no mecanismo faz contrapeso ao infinito. Tambem o infinito

encerra um mecanismo. Os elementos sabem o que fazem e para onde vão.

Não ha força cega. Cabe ao homem espreitar as forças e descobrir-lhes o

itinerario.

Emquanto se não descobre a lei, prosegue a luta, e nessa luta a

navegação a vapor é uma especie de victoria perpetua que o genio

humano vai ganhando a todas as horas do dia em todos os pontos do mar.

A navegação a vapor é admiravel porque disciplina o navio. Diminue a

obdiencia ao vento e augmenta a obdiencia ao homem.

Nunca a Durande trabalhou no mar como naquelle dia. Andava

maravilhosamente.

Pelas 11 horas, soprando uma fresca brisa de nor-nordeste, achou-se a

Durande do lado de Minquiers, trabalhando com pouco vapor, navegando a

oeste e conchegada ao vento. Claro e bello estava o céo. Todavia iam

voltando para terra todos os pescadores.

A pouco e pouco, como se todos pensassem em ancorar nos portos, ia-se o

mar limpando de navios.

Não se podia dizer que a Durande estivesse no caminho do costume. A

tripulação não se preoccupava com isso, era absoluta a confiança no

capitão; entretanto, talvez por culpa do timoneiro, havia algum desvio.

A Durande parecia antes ir para Jersey que para Guernesey. Pouco depois

das onze horas, o capitão rectificou a direcção e aproou para o lado de

Guernesey. Perdeu-se algum tempo. Nos dias curtos o tempo perdido tem

inconvenientes. Fazia um bello sol de Fevereiro.

Tangrouille, no estado em que estava, já não tinha nem pés nem braços

firmes. Resultava dahi que o bravo timoneiro desviava-se da costa e

atrazava a marcha.

O vento ia amainando.

O passageiro guernesiano, que tinha um oculo na mão, firmava-o de

tempos a tempos para um froco de espuma coada pelo vento no extremo

horisonte de oeste, assemelhando-se a um pouco de algodão, empoeirado

em roda.

O capitão Clubin tinha o aspecto puritano do costume. Parecia redobrar

de attenção.

Tudo estava calmo e quasi risonho a bordo da Durande; os passageiros

conversavam.

Fechando os olhos, no meio de uma viagem, pode-se avaliar do estado

do mar pelo tremolo da conversa. A plena liberdade de espirito dos

passageiros corresponde á perfeita tranquillidade da agua.

É impossivel, por exemplo, que houvesse uma conversa, como esta que se

segue, em mar que não fosse calmo.

--Veja aquella bonita mosca verde e encarnada.

--Perdeu-se no mar e descança no navio.

--As moscas não se cançam muito.

--Pudera! são tão leves. Carrega-as o proprio vento.

--Já se pezou uma onça de moscas, e contadas depois vio-se que eram

seis mil duzentas e sessenta e oito.

O guernesiano do oculo tinha-se chegado aos maloenses mercadores de

gado, e a conversa delles era pouco mais ou menos esta:

--O boi de Aubrac tom o tronco redondo e bojudo, as pernas curtas, o

pello amarello. É demorado no trabalho por causa da pequenez das pernas.

--Neste ponto, o Salers vale mais que o Aubrac.

--Vi dous magnificos bois em minha vida. O primeiro tinha as pernas

curtas, o joelho espesso, alcatra grossa, as nadegas largas, bom

comprimento da nuca á garupa, boa altura no garrote, manejo facil,

pelle boa de arrancar-se. O segundo apresentava todos os signaes da

um engordamento judicioso, tronco reforçado, pescoço robusto, pernas

leves, pelle branca e vermelha, alcatra cahida.

--Isso é raça da costa.

--Sim, mas com certa semelhança com o touro angus ou o touro suffolk.

--Acredite se quer, no meio-dia ha concurso de bestas.

--De bestas?

--De bestas. Como tenho a honra de lhe dizer. E as feias é que são

bonitas.

--Então são como as jumentas. As feias é que são boas.

--Justamente. A jumenta deve ter barriga grossa e pernas grossas.

--A melhor jumenta deste mundo é uma barrica sobre quatro estacas.

--A belleza dos animaes não é como a belleza dos homens.

--É sobretudo das mulheres.

--Justo.

--Eu cá quero que a mulher seja bonita.

--Prefiro-a bem trajada.

--Sim, limpa, asseiada, esticadinha.

--Ares de mocidade. Uma rapariga deve parecer que sahe do joalheiro.

--Volto aos bois. Vi vender os taes bois no mercado de Thouars.

--Conheço o mercado. Os Boniau de la Rochelle, e os Babu, os mercadores

de trigo de Marans, não sei se ouvio fallar delles, devem ter ido a

esse mercado.

O tourista e o parisiense conversavam com o americano das Biblias; a

conversação ahi era como nos outros grupos.

Dizia o tourista:

--Eis a tonellagem fluctuante do mundo civilisado; França, sete centas

e dezeseis mil tonelladas; Allemanha, um milhão; Estados-Unidos, cinco

milhões; Inglaterra, cinco milhões e quinhentos mil. Acrescente-se o

contingente das pequenas bandeiras. Total; doze milhões nove centos e

quatro mil tonelladas distribuidas por cento e quarenta e cinco mil

navios na agua do globo.

O americano interrompeu.

--Os Estados-Unidos é que tem cinco milhões e quinhentos mil.

--Convenho, disse o tourista. O senhor é americano?

--Sim, senhor.

Houve um silencio; o americano missionario perguntou a si mesmo se era

occasião de offerecer uma Biblia.

--Será verdade, continuou o tourista, que os senhores lá na America

gostam tanto das alcunhas, a ponto de as pôr em todos os seus homens

celebres? Será verdade que chamaram ao famoso banqueiro do Missouri,

Thomaz Benton, _a velha barra de ouro?_

--Do mesmo modo que chamamos ao Zacharias Taylor, _o velho Zach?_

--E o general Harrison, _o velho Tip?_ e o general Jackson _o velho

Hickory?_

--Sim, porque Jackson é duro como pão hickory, e Harrison bateu os

Pelles Vermelhas em Tippecauve.

--É um costume bysantino esse.

--É costume nosso. Chamamos Van Buren o _feiticeirinho_, Seward, que

mandou fazer bilhetes miudos do banco, _o bilhete miudo_, e Douglas,

o senador democrata do Illinois, que tem quatro pés de altura e uma

grande eloquencia, o _gigantinho._ Percorra do Texas ao Maine, não

encontrará ninguem que diga este nome: Cass; todos dizem: _o grande

Michigantier_; nem este nome: Clay; dizem todos: o _rapaz do moinho

acutilado._ Clay é filho de um moleiro.

--Eu prefiro, Clay ou Cass, observou o parisiense, é mais curto.

--Pois estaria fóra do uso. Nós chamamos Corwin, que é secretario

do thesouro _o rapaz da carreta._ Daniel Webster é o _negro Dan._

Quanto a Winfield Scott, como a sua primeira idéa, depois de bater

os inglezes em Chippeway, foi assentar-se á mesa, chamamo-lo

_Da-cá-um-prato-de-sopa-depressa._

Tinha-se agigantado o froco de neve. Occupava no horisonte um segmento

de cerca de 15 gráos. Dissera-se uma nuvem arrastada á flôr d'agua

por falta de vento. Não havia um sopro de brisa se quer. Embora fosse

apenas meio dia, o sol ia empallidecendo. Allumiava, mas já não aquecia.

--Creio, disse o tourista, que o tempo vai mudar.

--Talvez haja chuva, disse o parisiense.

--Ou nevoeiro, disse o americano.

--Na Italia, continuou o tourista, o lugar em que cahe menos chuva é

Molfetta, e onde cahe mais é em Tolmezzo.

Ao meio-dia, segundo o uso do archipelago, tocou a sineta para jantar.

Jantou quem quiz. Alguns passageiros levavam comida comsigo e comeram

no convez. Clubin não jantou.

Ao jantar, a palestra continuou.

O guernesiano, tendo o faro das Biblias, approximou-se do americano. O

americano disse-lhe:

--Conhece este mar?

--Sem duvida, sou filho delle.

--E tambem eu, disse um dos maloenses.

O guernesiano adherio com um comprimento, e continuou:

--Agora estamos ao largo, mas não me agradava nada ter nevoeiro

emquanto estavamos ao pé dos Minquiers.

O americano disse ao maloense.

--Os insulares são mais homens do mar que a gente da costa.

--É exacto, nós os filhos da costa, temos apenas metade do mar.

--Que cousa é essa dos Minquiers? continuou o americano.

O maloense respondeu:

--São umas pedras ruins.

--Ha tambem os Grelets, disse o guernesiano.

--Ora! disse o maloense.

--E os Chouas, accrescentou o guernesiano.

O maloense deu uma gargalhada.

--Dessa fórma, disse elle, temos tambem os Sauvages.

--E os Maine, observou o guernesiano.

--E o Canard, disse o maloense.

--O senhor tem resposta para tudo, disse o guernisiano com rapidez.

--Maloense, malicioso.

Dando esta resposta, o maloense piscou o olho.

O tourista interpoz uma pergunta.

--Dar-se-ha caso que vamos atravessar toda essa pedraria de que os

senhores fallam?

--Qual! Deixamol-a a sudoeste. Já ficou atraz de nós.

E o guernesiano continuou:

--Entre grandes e pequenos, os Grelets têm cincoenta e sete pontas de

rocha.

--E os Minquiers quarenta e oito, disse o maloense.

Aqui o dialogo concentrou-se entre o maloense e o guernesiano.

--Parece-me, Sr. de Saint-Malo, que ha tres rochedos que o Sr. deixou

de contar.

--Contei tudo.

--A Derée da Maitre-Ile?

--Sim.

--E Maisons tambem?

--Que são sete rochas no meio dos Minquiers. Sim.

--Já vejo que conhece os cachopos.

--Quem não os conhece não é de Saint-Malo.

--Causa gosto ouvir o raciocinio dos francezes.

O maloense comprimentou, e disse:

--Sauvages são tres rochedos.

--E Maines são dous.

--Canard é um.

--Basta dizer Canard; já se sabe que é um.

--Não, por que a Suarde são quatro rochedos.

--Que é a Suarde? perguntou o guernesiano.

--Chamamos Suarde ao que o senhor chama Chouas.

--Não é bom passar entre Chouas e Canard.

--Só os passaros podem passar ahi.

--E os peixes.

--Nem sempre. Quando ha máo tempo, os peixes esbarram-se nas rochas.

--Ha arêa em Minquiers.

--Á roda de Maisons.

--Veem-se oito rochedos de Jersey.

--Da praia de Asette, é justo. Náo são oito, são sete.

--Nas vasantes póde-se passear entre os Minquiers.

--Sem duvida, ha espaço.

--E Dirouilles?

--Dirouilles não tem nada com Minquiers.

--Quero dizer que é perigoso.

--É do lado de Granville.

--Vê-se que, como nós, os senhores de Saint-Malo gostam de navegar

nestes mares.

--Sim, disse o maloense, com a differença de que nós dizemos: estamos

acostumados, e os senhores dizem: gostamos.

--São bons marinheiros os senhores.

--Eu sou mercador de gado.

--Quem é que foi tambem de Saint-Malo?

--Surcouf.

--Não, outro.

--Duguay-Trouin.

Aqui o viajante parisiense interrompeu.

--Duguay-Trouin? foi apanhado pelos inglezes. Era tão amavel quão

valente. Agradou a uma joven ingleza. Foi ella quem lhe quebrou os

ferros.

Neste momento uma voz tremenda gritou:

--Estás bebado!

IV

MOSTRAM-SE TODAS AS QUALIDADES DO CAPITÃO CLUBIN

Voltaram-se todos.

Era o capitão Clubin que interpellava o timoneiro.

O Sr. Clubin não tratava ninguem por tú. Para que elle atirasse a

Tangrouille semelhante apostrophe, era preciso que estivesse colerico

ou quizesse mostrar-se assim.

Uma expressão de colera, vindo a proposito, demitte a responsabilidade,

e algumas vezes deita-a para as costas de outrem.

O capitão, de pé no lugar do commando, entre as caixas, das rodas,

olhava fixamente para o timoneiro. Repetio entre dentes: Beberrão! O

honesto Tangrouille abaixou a cabeça.

Desenvolvia-se o nevoeiro. Já occupava metade do horisonte. Avançava em

todos os sentidos ao mesmo tempo; o nevoeiro parece-se com a gota de

óleo. A bruma alargava-se insensivelmente. O vento soprava-a sem pressa

e sem rumor. A pouco e pouco ia elle apoderando-se do oceano. Vinha

de nordeste e o navio estava com ella pela prôa. Era um vasto penedio

movediço e vago. Cortava-se no mar como se fosse uma muralha. Havia um

ponto preciso em que a agua immensa entrava por baixo do nevoeiro e

desapparecia.

Este ponto de entrada no nevoeiro estava ainda a meia legua de

distancia. Se o vento mudasse, podia-se evitar a immersão na bruma;

mas era preciso que mudasse logo. A meia legua de intervallo enchia-se

e diminuia a olhos vistos; a Durande caminhava, o nevoeiro tambem. O

nevoeiro ia para o navio, o navio para o nevoeiro.

Clubin mandou augmentar o vapor e obliquar a leste.

Deste modo costeou-se algum tempo o nevoeiro, mas elle avançava sempre.

Todavia o navio continuava a andar em pleno sol.

Perdia-se o tempo naquellas manobras que difficilmente podiam dar bom

resultado. Anoitece cedo em Fevereiro.

O guernesiano comtemplava a bruma. Disse aos maloenses:

--É atrevido este nevoeiro.

--Desaceio do mar, observou um dos maloenses.

O outro accrescentou:

--Isto atraza a viagem.

O guernesiano aproximou-se de Clubin.

--Capitão Clubin, receio que sejamos envolvidos pelo nevoeiro.

Clubin respondeu:

--Eu queria ficar em Saint-Malo, mas aconselharam-me que partisse.

--Quem?

--Veteranos do mar.

--Fez bem em partir, continuou o guernesiano. Quem sabe senão haverá

tempestade amanhã? Nesta estação espera-se o peior.

Alguns minutos depois a Durande entrava no nevoeiro.

Foi singular esse momento. Toda a gente que estava na pôpa ficou de

repente sem ver a gente que ia na prôa. Tenue tabique cinzento cortou o

navio ao meio.

Depois todo o navio mergulhou na bruma. O sol parecia uma lua. Subito

todos começaram a tiritar. Os passageiros vestiram as capas, e os

marinheiros as japonas. O mar, quasi sem uma dobra, tinha a fria ameaça

da tranquillidade. Parece que ha conluio neste excesso da calma. Tudo

estava pallido e enfiado. O negro cano e a fumaça negra lutavam contra

a lividez que cercava o navio.

A derivação a leste já não tinha razão de ser. O capitão aproou de novo

sobre Guernesey e augmentou o vapor.

O passageiro guernesiano, andando á roda da machina, ouvio o negro

Imbrancam que fallava a um dos companheiros. O passageiro prestou

ouvidos. Dizia o negro:

--Quando havia sol iamos devagar; agora que ha nevoeiro, vamos depressa.

O guernesiano foi ter com o Sr. Clubin.

--Capitão Clubin, não ha cuidado; mas não acha que vamos depressa

demais?

--Que quer senhor? É preciso ganhar o tempo perdido por culpa daquelle

bebado.

--É verdade, capitão Clubin.

E Clubin accrescentou.

--Quero chegar quanto antes. Já basta o nevoeiro; com a noite

ficariamos aceiados.

O guernesiano foi ter com os maloenses e disse-lhes:

--Temos um excellente capitão.

De quando em quando ondas grandes de bruma, que pareciam cardadas,

passavam e escondiam o sol. Depois o sol reapparecia mais pallido, e

como que enfermo. O pouco céo que se via assemelhava-se ás fachas de ar

sujas e manchadas de uma velha decoração de theatro.

A Durande passou junto de um cuter que tinha ancorado por prudencia.

Era o _Shealtiel_, de Guernesey. O patrão do cuter notou a rapidez

com que ia a Durande. Pareceu-lhe que não estava no caminho exacto;

affigurou-se-lhe que obliquava a oeste. Vendo aquelle navio, andando a

todo o vapor no meio do novoeiro, o homem pasmou.

Pelas duas horas a bruma era tão espessa, que o capitão foi obrigado

a deixar o lugar do costume, e a aproximar-se do timoneiro. O sol

desmaiára; tudo era nevoeiro. Havia na Durande uma especie de escuridão

branca. Navegava-se na pallidez diffusa. Já se não via nem o céo nem o

mar.

Não ventava.

A ancoreta da therebentina suspensa em uma argola ao pé da caixa das

rodas já não tinha oscillação.

Os passageiros tornaram-se silenciosos.

Comtudo o parisiense cantarolava entre dentes a canção de Béranger _Un

jour le bon Dieu s'éveillant._

Um dos maloenses dirigio-lhe a palavra.

--O senhor vem de Paris?

--Sim senhor. _II mit la tête à la fenêtre._

--Que se faz por lá?

--_Leur planète a péri peut-être._ Lá em Paris tudo anda mal.

--Então é tanto lá em terra como aqui no mar.

Os Trabalhadores do Mar · 第 10 / 28 段