conscienciosamente ao largo, não tinha pensado em examinar o rochedo
ao lado e em baixo. Dava as costas para a escada pouco praticavel
que punha em communicação a plataforma com o mar. Não reparou que
alguma cousa andava alli em movimento. Havia nessa escada, por traz
da anfractuosidade, alguma pessoa, um homem escondido alli, segundo
parecia, antes da chegada do guarda-costa. De tempos a tempos, na
sombra, apparecia uma cabeça por baixo da rocha, olhava para cima e
espiava o espião. Essa cabeça coberta por um largo chapéo americano,
era a cabeça do quaker, que, uns dez dias antes, fallara nas pedras do
Petit Bey, ao capitão Zuela.
De repente pareceu redobrar a attenção do guarda-costa.
Limpou rapidamente com a manga o vidro do oculo e firmou-o com energia
sobre o navio.
Destacara-se um ponto negro.
O ponto negro, semelhante a uma formiga no mar, era uma barcaça.
A barcaça parecia querer ganhar a terra. Era tripolada por alguns
marinheiros que remavam vigorosamente.
Já obliquava a pouco e pouco e dirigia-se para a ponta do Decollé.
A espreita do guarda-costa chegou ao seu maior gráo de fixidez. Elle
não perdia nenhum dos movimentos da barcaça. Approvimou-se mais ainda
da borda do rochedo.
Neste momento um homem de alta estatura, o quaker, surgio por traz do
guarda-costa, no alto da escada. O espião não via o quaker.
Parou este alguns instantes, com os braços cahidos, e os punhos
crispados, e, com o olhar do caçador que aponta, olhou para as costas
do espião.
Quatro passos apenas o separavam do guarda-costa; adiantou um pé,
depois parou; deu outro passo e parou outra vez; o unico movimento
que fazia era andar, o resto do corpo era estatua; o pé firmava-se na
relva sem rumor; deu terceiro passo, e parou; estava quasi tocando o
guarda-costa, sempre immovel, com o oculo fixo. O homem ajuntou as
duas mãos fechadas na altura das suas claviculas, depois, bruscamente,
abateram-se os antebraços, e os dous punhos, como que soltos por uma
mola, bateram nos hombros do guarda-costa. O choque foi sinistro. O
guarda-costa nem teve tempo de soltar um ai. Cahio de cabeça no mar.
Viram-se-lhe os pés durante o tempo de um relampago. Foi uma pedra
n'agua. A agua cerrou-se depois, descrevendo dous ou tres grandes
circulos.
Ficou apenas o oculo escapo ás mãos do guarda-costa e cahido no chão.
O quaker inclinou-se á borda das rochas, vio acalmar-se a agua, esperou
alguns minutos, depois endireitou-se, cantando entre os dentes:
_Monsieur de la police est mort_
_En perdant la vie._
Inclinou-se outra vez. Nada reappareceu. Sómente no lugar onde o
guarda-costa tinha cahido, formou-se na superficie da agua uma
especie de espessura negra, que se alargava no movimento da vaga.
Era provavel que o guarda-costa tivesse quebrado o craneo em alguma
rocha sub-marinha. O sangue subira e fazia aquella mancha na espuma. O
quaker, contemplando aquella mancha, continuou:
_Un quart d'heure avant sa mort,_
_Il était encore...._
Não acabou.
Ouvio atraz de si unia voz doce que lhe dizia:
--Ora viva, Rantaine. Acaba o senhor de matar um homem.
Elle voltou-se, e vio a quinze passos, no intervallo de dous rochedos,
um homem baixo que tinha um revolver na mão.
Respondeu:
--Como vê. Bom dia. Sr. Clubin.
O homem baixo estremeceu.
--Reconheceu-me?
--Não me reconheceu o senhor? disse Rantaine.
Entretanto ouvio-se um rumor de remos no mar. Era a barcaça observada
pelo guarda-costa que se approximava.
O Sr. Clubin disse a meia voz como se fallasse comsigo:
--A cousa foi rapida.
--Em que precisa de mim? perguntou Rantaine.
--Pouca cousa. Ha quasi dez annos que nos não vemos. O senhor ha de ter
feito bons negocios. Como está de saude?
--Bem, disse Rantaine. E o senhor?
--Perfeitamente, respondeu Clubin.
Rantaine deu um passo para o Sr. Clubin.
Um pequeno som chegou aos seus ouvidos. Era o Sr. Clubin que armava o
revolver.
--Rantaine, estamos a 15 passos. É uma boa distancia. Fique onde está.
--Ah! mas o que quer o Sr. de mim?
--Venho conversar.
Rantaine não se mecheu. O Sr. Clubin coutinuou:
--O senhor matou agora mesmo um guarda-costa, Rantaine levantou a aba
do chapéo e respondeu:
--Já me fez a honra de dizel-o.
--Em termos menos precisos. Disse ha pouco: um homem; agora digo: um
guarda-costa, O quarda-costa tinha o n. 619. Era um pai de familia.
Deixa mulher e cinco filhos.
--Deve ser assim, disso Rantaine.
Houve um imperceptivel tempo de silencio.
--São homens escolhidos estos guarda-costas, disse Clubin, quasi todos
antigos maritimos.
Notei que em geral deixam mulher e cinco filhos. Clubin continuou:
--Advinhe quanto me custou este revolver.
--É um lindo instrumento, respondeu Rantaine.
--Quanto vale?
--Vale muito.
--Custou-me cento e quarenta e quatro francos.
--Comprou naturalmente na loja de armas da rua Contanchez.
Clubin continuou:
--O guarda-costa nem gritou. A queda corta a voz.
--Sr. Clubin, hade ventar esta noite.
--Eu sou o unico que sei do segredo.
--Continúa a morar na pousada João?
--Sim. Vive-se bem alli.
--Já lá comi muito boa couve fermentada.
--Rantaine, o senhor deve ser excessivamente forte. Tem cada espadua!
Não seria eu quem lhe levaria um piparote. Era tão rachitico quando vim
ao mundo, que nem se sabia se me poderiam criar.
--Felizmente, criou-se.
--Sim, e continúo a morar na pousada João.
--Sabe porque motivo eu o reconheci, Sr. Clubin? Porque o senhor me
tinha reconhecido. Disse comigo: Só Clubin póde reconhecer-me.
E adiantou um passo.
--Fique onde estava, Rantaine.
Rantaine recuou e disse aparte:
--A gente torna-se criança diante destes instrumentos.
O Sr. Clubin continuou.
--Situação. Temos aqui á direita, do lado de Saint-Enogat, a trezentos
passos, outro guarda-costa, numero 618, que está vivo, e á esquerda, do
lado de Saint-Lunaire, um posto de alfandega. Sete homens armados que
podem estar aqui dentro em cinco minutos. O rochedo ficará cercado. O
desfiladeiro ficará guardado. Impossivel fugir. Ha um cadaver ao pé da
rocha.
Rantaine deitou um olhar obliquo ao revolver.
--Como diz, Rantaine. É um lindo instrumento. Talvez esteja carregado
com polvora secca. Mas que importa? Basta um tiro para fazer correr a
força armada. Tenho seis tiros.
O choque alternativo dos remos tornava-se mais distincto. A barcaça não
estava longe.
O homem alto olhava estranhamente para o homem baixo. O Sr. Clubin
fallava com um ar cada vez mais tranquillo e doce.
--Rantaine, os homens da barcaça que vai chegar, sabendo o que fez ha
pouco, ajudar-me-hiam a prende-lo. O senhor paga 10,000 francos de
passagem ao capitão Zuela. Entre parenthesis, a passagem ficaria mais
barata se tratasse com os contrabandistas de Plainmont, mas estes só o
levariam para Inglaterra, e demais o senhor não póde arriscar-se a ir a
Guernesey onde ha quem tenha a honra de conhecel-o. Volto á situação.
Se eu disparar prendem-n'o. Nesse caso pagará a Zuela 10,000 francos de
fuga. Já lhe deu 5,000 mil francos; Zuela guardará esses 5,000 trancos
e vai-se embora. É isto. Rantaine acho-o bem rebuçado. Esse chapéo,
esse casaco, e essas polahias disfarçam-n'o. Esqueceram-lhe os oculos.
Fez bem em deixar erescer as suisas.
Rantaine sorrio como quem range os dentes. Clubin continuou:
--Rantaine, o senhor tem uma calça americana com duas algibeiras. N'uma
dellas tem o seu relogio. Guarde-o.
--Obrigado, Sr. Clubin.
--Na outra ha uma caixinha de ferro batido, que abre e fecha por molas.
É uma velha boceta de marinheiro. Tire-a do bolso, e atire-a para cá.
--Mas isto é um roubo!
--Póde chamar a guarda.
E Clubin fixou os olhos em Rantaine.
--Olhe, mess Clubin.... disse Rantaine dando um passo e estendendo a
mão aberta.
_Mess_ era uma lisonja.
--Fique onde está, Rantaine.
--Mess Clubin, arranjemos as cousas. Offereço-lhe metade.
Clubin executou um crusar de braços, mostrando a bocca do revolver.
--Rantaine, quem pensa que eu sou? Sou um homem honrado.
E acrescentou depois de uma pausa.
--Quero tudo.
Rantaine disse entre dentes:
--É temivel este.
Entretanto acenderam-se os olhos de Clubin. A voz tornou-se cortante
como o aço. Disse elle:
--Creio que se engana. O seu nome é que é Roubo, o meu é Restituição.
Ouça, Rantaine. Ha dez annos, sahio o senhor de Guernesey á noite
tomando da caixa de uma sociedade cincoenta mil francos que lhe
pertenciam, e esquecendo de lá deixar cincoenta mil francos que
pertenciam a outro. Esses cincoenta mil francos roubados ao seu
socio, o excellente e digno mess Lettierry, fazem hoje com os juros
accumulados de dez annos oitenta mil seiscentos e sessenta e seis
francos e sessenta e seis centimos. O senhor entrou hontem na casa
de um cambista. Reluchet, chama-se elle, rua de S. Vicente. Deu-lhe
setenta e seis mil francos em bilhetes de banco francezes, e em troca
deu-lhe elle tres bank-notes de Inglaterra de mil libras esterlinas
cada uma, e mais uns trocos. O senhor poz essas bank-notes na boceta
de ferro, e a boceta de ferro na algibeira direita. As tres mil
libras esterlinas fazem setenta e cinco mil francos. Em nome de mess
Lethierry, contento-me com isso. Parto amanhã para Guernesey, e vou
levar-lh'os. Rantaine, a galera que alli está á capa é o _Tamaulipas._
O senhor embarcou alli esta noite as malas misturadas com os saccos
e canastras da equipagem. Quer sabir de França. Tem suas razões para
isso. Vai a Arequipa. A barcaça vem buscal-o. Está á espera della.
Ella ahi vem. Já a estamos ouvindo. Depende de mim deixal-o partir ou
obrigal-o a ficar. Basta de palavras. Atire cá a boceta de ferro.
Rantaine abrio o bolso, tirou uma caixinha de ferro e atirou-a a
Clubin. A caixinha foi rolar aos pés de Clubin.
Clubin inclinou-se sem abaixar a cabeça, e apanhou a boceta, tendo
dirigidos contra Rantaine os dous olhos e os seis canos do revolver.
Depois disse:
--Meu amigo, volte as costas.
Rantaine voltou as costas.
O Sr. Clubin poz o revolver debaixo do braço, e apertou a mola da
caixinha. A caixinha abrio-se.
Havia dentro quatro bank-notes, tres de mil libras, e uma de dez libras.
Clubin dobrou as tres notas de mil libras, pol-as outra vez na
caixinha, fechou-a, e metteo-a no bolso.
Depois apanhou no chão uma pedra. Embrulhou a pedra no bilhete de dez
libras e disse:
--Volte para cá.
Rantaine voltou-se.
O Sr. Clubin continuou;
--Disse-lhe que me contentava com as tres mil libras. Aqui vão as dez
libras.
E atirou a Rantaine o bilhete e mais o lastro de pedra.
Rantaine com um pontapé deitou o bilhete e a pedra ao mar.
--Como queira, disse Clubin. Vamos lá, o senhor hade estar rico. Estou
tranquillo.
O rumor dos remos que se tinha approximado durante o dialogo, cessou.
Indicava isto que a barcaça estava ao pé das rochas.
--Está embaixo o seu carro. Pode ir, Rantaine.
Rantaine dirigio-se para a escada e desceu.
Clubin foi com precaução até a borda do rochedo, e adiantando a cabeça,
vio descer Rantaine.
A barcaça tinha parado ao pé do ultimo degráo do rochedo, no mesmo
lugar em que tinha cahido o guarda-costa.
Vendo descer Rantaine, Clubin murmurou:
--Bom numero seiscentos e desenove! Pensava que estava só. Rantaine
pensava que eram apenas dous. Só eu sabia que eramos tres.
Clubin vio no chão o oculo do guarda-costa; apanhou-o.
Começou o ruido dos remos. Rantaine acabou de pular na barcaça, e esta
tomava o largo.
Quando Rantaine achou-se na barca, indo-se já afastando dos rochedos,
levantou-se bruscamente, a face tornou-se-lhe monstruosa; mostrou o
punho e gritou:
--Ah! o proprio diabo é um canalha!
Instantes depois, Clubin do alto das rochas, e fixando o oculo na
barcaça, ouvio distinctamente estas palavras, articuladas por uma voz
grossa, meio do rumor do mar:
--O Sr. Clubin é um homem honrado, mas consinta que eu escreva a
Lethierry para participar-lhe o facto, e aqui vai nesta barcaça um
marinheiro de Guernesey que é da equipagem do _Tamaulipas_, que se
chama Ahier Tortevin, o que ha de voltar a Saint-Malo, na proxima
viagem de Zuela, e que será testemunha de que eu lhe entreguei para
mess Lethierry a somma de tres mil libras esterlinas.
Era a voz de Rantaine.
Clubin era o homem das cousas bem feitas. Immovel como estivera o
guarda-costa, e no mesmo lugar, com o oculo no olho, não perdeu de
vista a barcaça. Vio diminuir-se os remos, desapparecer, reapparecer,
approximar-se a barcaça do navio; e pôde reconhecer a alta corpulencia
de Rantaine no tombadilho do _Tamaulipas._
Quando a barcaça foi içada, o _Tamaulipas_ entrou a preparar-se. A
brisa soprava de terra, o navio abrio as velas todas, o oculo de Clubin
continuava fixo no lineamento cada vez mais simplificado, e, meia hora
depois o _Tamaulipas_ era apenas um ponto negro que ia a diminuir-se, a
diminuir-se, a diminuir-se no céo amarello do crepusculo.
IX
INFORMAÇÃO UTIL ÁS PESSOAS QUE ESPERAM, OU RECEIAM CARTAS DE ALEM-MAR
Nessa noite, o Sr. Clubin recolheu-se tarde.
Uma das causas da sua demora, é que antes de recolher-se, foi elle
até á porta Dinan onde haviam tavernas. Tinha comprado em uma dessas
tavernas onde não era conhecido, uma garrafa de aguardente que pôz em
uma larga algibeira da japona como se quizesse escondel-a; depois,
devendo a Durande sahir no dia seguinte de manhã, foi a bordo para ver
se tudo estava em ordem.
Quando o Sr. Clubin entrou ua pousada João, já não havia na sala baixa
senão o velho capitão de longo curso, Gertrais-Gaboureau, bebendo e
fumando cachimbo.
O capitão Gertrais-Gaboureau cumprimentou o Sr. Clubin entre um gole e
uma baforada.
--Good bye, capitão Clubin.
--Boa noite, capitão Gertrais.
--Com que então, lá se foi o _Tamaulipas._
--Ah! disse Clubin, não reparei.
O capitão Gertrais-Gaboureau cuspio e disse:
--Raspou-se o Zuela.
--Quando?
--Esta noite.
--Onde vai?
--Vai ao diabo.
--Sim; mas onde?
--A Arequipa.
--Não sabia, disse Clubin.
Accrescentou:
--Vou dormir.
Accendeu a vela, caminhou para a porta e voltou.
--Já foi a Arequipa, capitão Gertrais?
--Sim. Ha annos.
--Onde se costuma a arribar?
--Em diversos portos. Mas o _Tamaulipas_ não arribará em parte alguma.
O Sr. Gertrais-Gaboureau deitou na borda de um prato a cinza do
cachimbo, e continuou:
--Conhece o _Cheval-de-Troie_ e o _Trentemousin_ que foram a Cardiff.
Não opinei a favor da partida por causa do tempo. Voltaram em bello
estado. _Cheval-de-Troie_ levava therebentina e abrio agua, e fazendo
trabalhar as bombas, perdeu no meio da agua todo o carregamento. Quanto
ao _Trentemousin_, ficou bem estragado; quebrou-se-lhe o cepo da
ancora, o botalós, ovens; não soffreu o mastro de mesena, mas teve um
forte abalo. Cahio o ferro do gurupés que aliás só ficou machucado, mas
completamente nú. Veja o que resulta de não ouvir conselhos.
Clubin tinha posto a vela na mesa, e pôz-se a pregar de novo uma porção
de alfinetes que tinha na japona. Disse:
--Não dizia, capitão, que o _Tamaulipas_ não arriba em porto algum?
--Não. Vai direito ao Chile.
--Neste caso não pode mandar noticia alguma em caminho.
--Perdão, capitão Clubin. Primeiramente póde entregar despachos a todos
os navios que encontrar em caminho para a Europa.
--É justo.
--Depois, tem a caixa de cartas do mar.
--A que chama o Sr. caixa de cartas do mar?
--Não sabe, capitão Clubin?
--Não.
--É quando se passa pelo estreito de Magalhães.
--Que ha então?
--Neva em toda a parte, temporal sempre, ruins ventos, mar de tresentos
diabos.
--Depois?
--Quando se dobra o cabo Monmouth.
--Bem. Depois?
--Depois dobra-se o cabo Valentin.
--E depois?
--Depois dobra-so o cabo Izidoro.
--E depois?
--Dobra-se a ponta Anna.
--Bem. Mas o que é que chama caixa das cartas do mar?
--Chegamos á caixa. Montanhas á direita, montanhas á esquerda. De todos
os lados aves marinhas. Terrivel sitio! Ah! com um milhão de diabos!
que chusma, e que matinada! A borrasca alli não precisa de auxilio.
Toca a vigiar a cinta da popa! toca a diminuir as velas! Da vela grande
passava ao juanete! Lufada sobre lufada! Quatro, cinco, seis dias de
capa. Quantas vezes de um vellame novinho em folha não nos fica senão
o fio. Que dansa! furacões capazes de fazer saltar uma galera como se
fosse uma pulga. Já vi n'um brigue inglez, o _True Blue_, um grumette
occupado com o páo da giba ser levado por um milheiro de ventos,
com páo e tudo. Anda-se no ar como borboletas! Vi o contra-mestre
da _Revenue_, ser arrancado do navio e morrer. A cinta do meu navio
quebrou-se, e todas as peças de madeira do convez ficaram despedaçadas.
A gente sahe dalli com as velas comidas, até fragatas de cincoenta
fazem agua como se fossem cestos. E a endiabrada costa! É o que ha de
mais damnado. Rochedos retalhados como por criancice. Approxima-se a
gente do Porto Fome. Ahi é peor que peor. São as laminas mais agudas
que tenho visto. Paragens do inferno. De repente vê-se estas duas
palavras escriptas com tinta vermelha: _Post-Office._
--Que quer dizer, capitão Gertrais?
--Quero dizer, capitão Clubin, que logo depois de dobrar o cabo Anna
vê-se em uma pedra de cem pés de altura um grande páo. É um poste com
uma barrica no alto. Essa barrica é a caixa das cartas. Os inglezes
escreveram em cima: _Post-Office._ Porque se metteram elles nisto?
Aquillo é o correio do oceano; não pertence a esse honrado gentleman,
o rei de Inglaterra. A caixa das cartas é commum. Pertence a todas as
bandeiras. _Post-Office_, ha nada mais chinez! parece uma chicara de
chá que o diabo offerece em pleno oceano. Eis como se faz o serviço.
Todos os navios que passam expedem ao poste um escaler com os seus
despachos. O navio que vem do Atlantico envia cartas para Europa, e o
navio que vem do Pacifico manda cartas para a America. O official que
commanda o escaler põe na barrica o maço de cartas e tira o maço que
lá encontra. Toma-se conta dessas á espera que o proximo navio tome
conta das cartas que se deixam. Como se navega em sentido contrario,
o continente d'onde o senhor vem é aquelle para onde eu vou. Levo as
suas cartas, o senhor leva as minhas. A barrica está presa ao poste por
uma corrente de ferro. E chove! E neva! Mar dos diabos! O _Tamoulipas_
ficará ahi. A barrica tem uma tampa, mas sem fechadura nem cadeado. Bem
vê que se póde escrever aos amigos. As cartas chegam ao seu destino.
--É esquisito, murmurou Clubin pensativo.
O capitão Gertrais-Gaboureau voltou-se para a bebida.
--Supponhamos que o bregeiro do Zuela me escreva, mette as suas
garatujas na barrica de Magalhães, e dentro de quatro mezes tenho as
cartas do patife. Diga-me lá, capitão Clubin, sahe amanhã?
Clubin absorto em uma especie de somnambulismo, não ouvio. O capitão
Gertrais repetio a pergunta. Clubin despertou.
--Sem duvida, capitão Gertrais. É o dia marcado. Devo sahir amanhã de
manhã.
--Pois olhe, eu não sahia. Capitão Clubin, os cães tem o pello molhado.
As aves marinhas andam ha duas noites á roda do pharol. Máo signal.
Tenho um storm-glass que faz das suas. Estamos no segundo, quarto da
lua; é o maximum da humidade. Vi ha pouco pimpinellas que fechavam
as folhas e um campo de trevo cujas hastes estavam retezadas. Os
vermes sabem do chão, as moscas mordem, as abelhas não se affastam dos
cortiços, os pardaes consultam-se. Ouve-se o som dos sinos de longe. Eu
ouvi hoje o sino de Saint-Lunaire dar ave-marias. E ao pôr do sol havia
muitas nuvens no horisonte. Amanhã hade haver grande nevoeiro. Não lhe
digo que parta. Receio mais o nevoeiro que o furacão. Grande sonso é o
nevoeiro.
FIM DO 1° TOMO.
TRABALHADORES DO MAR
POR
VICTOR HUGO
traduzido por Machado de Assis
2° TOMO
RIO DE JANEIRO
TYP.--PERSEVERANÇA--RUA DO HOSPICIO N. 91.
1866.
PRIMEIRA PARTE
O Sr. Clubin.
NOTA
O Diario do Rio de Janeiro obteve do editor Lacroix (de Pariz e
Bruxellas), por meio de um contracto celebrado entre esse editor e o
correspondente do _Diario do Rio_, em Pariz, o direito de publicar a
tradução portugueza deste romance, nas suas collumnas, começando mesmo
antes que o 1° volume apparecesse em Pariz. O romance começou a ter a
publicidade no _Diario do Rio_ no dia 16 de Março de 1866.
LIVRO SEXTO
O timoneiro ebrio e o capitão sobrio
I
OS ROCHEDOS DOUVRES
Cerca de cinco leguas, em pleno mar, ao sul de Guernesey, em face da
ponta de Plainmont, entre as ilhas da Mancha e Saint-Malo, ha um grupo
de cabeços chamados rochedos Douvres. Funesto lugar esse.
Esta denominação, Douvre, _Dover_, pertence a muitos cachopos e
rochedos. Ha especialmente perto das costas do Norte uma rocha Douvre
na qual se construe agora mesmo um pharol, escolho perigoso, mas que
não deve ser confundido com este.
O ponto de França mais proximo do rochedo Douvres é o cabo Brehant. O
rochedo Douvres é um pouco mais longe da costa da França que a primeira
ilha do archipelago normando. A distancia deste escolho a Jersey
mede-se pouco mais ou menos pela grande diagonal de Jersey. Se a ilha
de Jersey se voltasse sobre a Corbière tomo sobre um eixo, a ponta de
Santa Catharina iria quasi bater nos Douvres. É uma distancia de quasi
quatro leguas.
Nesses mares da civilisação os rochedos mais selvagens são raramente
desertos. Encontram-se contrabandistas em Hagot, guardas da alfandega
em Binic, cultivadores de ostras em Cancale, caçadores de coelhos
em Cesambre, ilha de Cesar, apanhadores de caraguejos em Brecqhou,
pescadores de rêde em Minquiers e Ecrehou. Nos rochedos Douvres,
ninguem.
As aves marinhas estão alli em sua casa.
Não ha peor encontro. Os Casquets, onde dizem que se perdeu a _Blanche
Nef_, o banco Calvados, as pontas da ilha de Wight, a Ronesse que faz
a costa de Beaulieu tão perigosa, os baixios de Preel que torna tão
angustiosa a entrada de Merquel e que obriga a deitar a umas vinte
braças a balisa vermelha, as proximidades perfidas de Étables e de
Plouha, as duas druidas de granito do Sul ds Guernesey, o velho Anderlo
e o pequeno Anderlo, a Corbière, os Hanois, a ilha de Ras, recommendada
ao medo por este proverbio:--_Quando passares o Ras, se não morreres,
tremerás_;--as Mortes-Femmes, a passagem do Boue e de Frouquie, a
Deroute entre Guernesey e Jersey, a Hardent entre os Minquiers e
Chausey, o Mauvais-Cheval entre o Boulay-Bay e Berneville, são mal
afamados. Vale mais affrontar todos os cachopos do que o Douvres uma só
vez.
Em todo o perigoso mar da Mancha que é o mar Egeo do occidente, o
rochedo Douvres só tem um rochedo igual no terror que inspira, é o
escolho Pater Noster, entre Guernesey e Serk.
E ainda no Pater Noster póde-se fazer um signal: quem está ali em
perigo póde ser soccorrido. Vê-se ao Norte a ponta Dicard ou de Icaro,
ao Sul, o Gros-Nez. Do rochedo Douvres não se vê nada.
O vento, a agua, a nuvem, o illimitado, o inhabitado. Só se passa ali
perdido. Os granitos são de uma estatura brutal e hedionda. Avultam as
rochas escarpadas. Severa inhospitalidade do abysmo.
É mar alto. A agua é profunda. Um escolho absolutamente isolado,
como o rochedo Douvres, attrahe e abriga os animaes que precisam
affastar-se dos homens. É uma especie de vasta madrepora submarinha.
É um labyrintho afogado. Ha alli, em profundezas que difficilmente
alcançam os mergulhadores, antros, cavas, cavernas, cruzamentos de
ruas tenebrosas. Pollulam as especies monstruosas. Devoram-se umas
ás outras. Os carangueijos comem os peixes, e são devorados tambem.
Formas medonhas, feitas para não serem vistas por olhos humanos,
andam vivas naquella obscuridade. Vagos lineamentos de guellas,
antennas, tentaculos, barbatanas, bocas abertas, escamas, garras,
unhas, fluctuam, tremem, engrossam, decompõe-se, e desfazem-se na
transparencia sinistra. Tremendos nadadores andam alli na labutação. É
uma colmêa de hydras.
Alli o horrivel é ideal.
Imagina, se podes, um formigueiro de holothurias.
Vêr o interior do mar, é vêr a imaginação do Ignoto. É vêl-a do lado
terrivel. O golphão é analogo á noite. Tambem ahi ha somno, somno
apparente ao menos, da consciencia da creação. Commettem-se alli em
plena segurança os crimes da irresponsabilidade. Os esboços da vida,
phantasmas quasi, completos demonios, vagam alli, em medonha paz, nas
sombrias occupações da sombra.