clarão vago, um desses effeitos de lanterna surda, indicados ha pouco,
e que abundam na illuminação das feitiçarias.
Quando se acharam ao pé da casa pararam de todo.
Um dos rapazes de Torteval arriscou esta observação:
--Não são almas do outro mundo, são fantasmas.
--Que é aquillo que pende alli á janella? perguntou o outro.
--Parece uma corda.
--É uma serpente.
--É corda de enforcado, disse o francez com autoridade. Serve-lhes. Mas
eu não creio.
E mais em tres pulos que em tres passos, o francez estava ao pé da
parede da casa. Havia febre naquelle atrevimento.
Os outros, tremulos, imitaram-n'o, e foram collocar-se ao pé delle,
encostando-se um á direita, outro á esquerda. Os rapazes applicaram o
ouvido á parede. Continuava-se a fallar dentro de casa.
Eis o que diziam os phantasmas: [1]
--Assim pois, está entendido?
--Entendido.
--Dito?
--Dito.
--Aqui esperará nm homem e partirá depois para a America com Blasquito?
--Pagando.
--Pagando.
--Blasquito tomará o homem na barca.
--Sem indagar de que terra elle é?
--Não temos nada com isso.
--Sem lhe perguntar o nome?
--Não se pede o nome, pede-se a bolsa.
--Bem. O homem esperará nesta casa.
--Tendo que comer.
--Terá.
--Onde?
--Neste sacco que trago.
--Muito bem.
--Posso deixar o sacco aqui?
--Os contrabandistas não são ladrões.
--E os senhores quando vão?
--Amanhã de manhã. Se o seu homem está prompto poderá vir comnosco.
--Não está prompto.
--É lá com elle.
--Quantos dias esperará aqui?
--Dous, tres, quatro, dias. Mais ou menos.
--É certo que Blasquito virá?
--Certo.
--Aqui? a Plainmont.
--A Plainmont:
--Em que semana?
--Na proxima.
--Em que dia?
--Sexta, sabbado ou domingo.
--Não pode faltar?
--É meu tocayo.
--Virá com qualquer tempo?
--Qualquer. Não tem medo. Eu sou Blasco, elle é Blasquito.
--Assim não deixará de ir a Guernesey?
--Eu venho n'um mez, elle virá n'outro.
--Entendo.
--A contar de sabbado proximo, de hoje a oito dias, não se passará
cinco dias sem que venha Blasquito.
--Mas se o mar estiver muito máo?
--Máo tempo?
--Sim.
--Não virá tão depressa, mas virá.
--Donde virá?
--De Bilbao.
--Para onde irá?
--Para Portland.
--Bem.
--Ou para Tor Bay.
--Melhor.
--O seu homem póde ficar tranquillo.
--Blasquito não será traidor?
--Os covardes são traidores. Somos valentes. O mar é a igreja do
inverno. A traição é a igreja do inferno.
--Ninguem nos ouve?
--É impossivel ouvir-nos ou ver-nos. O medo faz isto deserto.
--Sei.
--Quem se atreveria a escutar?
--É verdade.
--Mesmo que escutassem não poderiam entender. Fallamos uma lingua que
ninguem conhece. Desde que você a sabe, é dos nossos.
--Eu vim para arranjarmos os negocios.
--Bom.
--E agora vou-me embora.
--Pois sim.
--Diga-me cá, homem. Se o passageiro quizer que Blasquito vá a outro
lugar que não Portland ou Tor Bay?
--Traga onças.
--Blasquito fará o que o homem quizer?
--Blasquito fará o que as onças quizerem.
--É preciso muito tempo para ir a Tor Bay?
--Depende do vento.
--Oito horas?
--Mais ou menos.
--Blasquito obedecerá ao passageiro?
--Se o mar obedecer ao Blasquito.
--Ha de ser bem pago.
--Ouro é ouro. Vento é vento.
--É justo.
--O homem faz o que pode com o ouro. Deos com o vento faz o que quer.
--O homem que quer ir com Blasquito aqui virá sexta-feira.
--Bem.
--A que horas chega Blasquito.
--Á noite. Chega-se á noite, sahe-se á noite. Temos uma mulher que
se chama agua salgada, e uma irmã que se chama noite. A mulher pode
enganar, a irmã nunca.
--Está dito tudo. Adeos, homens.
--Boas tardes. Um gole de aguardente?
--Obrigado.
--É melhor que xarope.
--Tenho a sua palavra.
--O meu nome é Pundonor.
--Deos seja comvosco.
--Se é fidalgo, eu sou cavalheiro.
Era claro que só diabos podiam fallar assim. Os rapazes não ouviram
mais, e desta vez fugiram deveras, até o francez, que convencido então,
corria mais depressa que os outros.
Na seguinte terça-feira, o Sr. Clubin estava de volta a Saint-Malo
trazendo a Durande.
O _Tamaulipas_ continuava ancorado.
O Sr. Clubin, entre duas baforadas de fumo, perguntou ao dono da
pousada João:
--Então, quando sahe o _Tamaulipas?_
--Depois de amanhã, quinta-feira, respondeu o estalajadeiro.
Nessa noite, Clubin ceou á mesa dos guardas das costas, e, contra o
costume, sahio logo depois de cear. Resultou desta sahida que não pôde
estar presente no escriptorio da Durande, e faltou ao carregamento. Foi
isto reparado por ser elle um homem tão exacto.
Parece que elle conversou alguns instantes com o seu amigo cambista.
Voltou duas horas depois que Noguette tocou a recolher. O sino
brasileiro sôa ás dez horas. Era, pois, meia-noite.
[1] No original vem este dialogo em hespanhol.
VI
A JACRESSARDE
Ha quarenta annos Saint-Malo possuia uma viela chamada viela
Coutanchez. Essa viela já não existe: foi comprehendida nos
melhoramentos da cidade.
Era uma dupla fileira de casas de páo inclinadas umas para as outras,
e deixando no centro lugar sufficiente para correr um rego que se
chamava rua. Andava-se alli com as pernas abertas dos dous lados da
agua lamacenta, abalroando com a cabeça e o cotovello as casas da
direita e da esquerda. As velhas choupanas da idade média normanda
tem perfis quasi humanos. De albergue a feiticeiro a distancia não
é grande. Os andares entrantes, as paredes inclinadas, os alpendres
circumflexos, e o embrenhado de ferros velhos, simulam labios, queixos,
nariz e sobrancelhas. A trapeira é o olho, zarolho. A face é a parede,
rugosa e herpetica. Tocam-se as paredes como se conspirassem uma acção
iniqua. Todos estes nomes da antiga civilisação, quebra-cabeças e
quebra-ventas, prendem-se aquella architectura.
Uma das casas da viela Coutanchez, a maior, a mais famosa ou a mais
afamada, chamava-se a Jacressarde.
A Jacressarde era a habitação daquelles que não têm habitação.
Em todas as cidades, e especialmente nos portos de mar, ha, abaixo
da população, um residuo. Vagabundos, aventureiros, vivendo de
expedientes, chimicos de especie larapio, pondo sempre a vida
no alambique, todas as formas do andrajo e todas as maneiras de
vesti-lo, os jubilados da improbidade, as existencias em bancarrota,
as consciencias que já fizeram balanço, os que abortaram no assalto
e no arrombamento de portas, (porque os ladrões trabalham por baixo
e por cima) os operarios e as operarias do mal, os velhaquetes e
as velhaquinhas, os escrupulos rasgados e os cotovellos rotos, os
tratantes chegados á indigencia, os malevolos mal recompensados,
os vencidos do duelo social, os famintos que foram devorados, os
_ganha-pouco_ do crime, os miseraveis na dupla e lamentavel accepção
da palavra, tal é o pessoal. Alli é bestial a intelligencia humana. É
o montão de immundicies das almas. Ajunta-se tudo aquillo a um canto,
onde passa de quando em quando a vassoura policial. Em Saint-Malo esse
canto era a Jacressarde.
O que se encontra nessas espeluncas não são os grandes criminosos, os
bandidos, os grandes productos da ignorancia e da indigencia. Se o
assassino é representado alli, é por algum bebado brutal; alli o roubo
não vai além da ratonice. É antes o escarro que o vomito da sociedade.
O vagabundo sim, o salteador não. Todavia não ha que fiar. Aquelle
ultimo degráo dos bohemios póde ter extremidades malvadas. Um dia,
lançando a rêde no Epi-Scié, que era em Paris, o que a Jacressarde é em
Saint-Malo, a policia apanhou Lacenaire.
Tudo entra naquelles albergues. A queda é um nivelamento. Ás vezes a
honestidade esfarrapada escoa-se por alli. A virtude e a probidade
tem aventuras. Não se deve, á primeira vista, estimar os Louvres nem
condemnar as galés. O respeito publico e a reprovação universal devem
ser descascados. Quantas sorprezas não se dão! Um anjo no lupanar, uma
perola no monturo,--não é impossivel este sombrio e deslumbrante achado.
A Jacressarde era mais páteo que casa, e mais poço que páteo. Não tinha
andares para a rua. A fachada era uma alta parede com uma porta baixa.
Levantava-se o ferrolho, empurrava-se a porta, entrava-se em um páteo.
No meio desse páteo havia um buraco redondo, cercado de uma orla de
pedra, ao nivel do chão. Era um poço. O páteo era pequeno, e o poço era
grande. Em roda do bocal do poço o chão era mal calçado.
O páteo, quadrado, tinha construcções por tres lados. Do lado da rua,
nada; mas diante da porta, á direita e á esquerda, haviam aposentos.
Quem, á noite, entrasse alli, um pouco arriscadamente, ouviria como
que um rumor de respirações juntas, e se houvesse bastante luar ou
estrellas, para dar forma aos lineamentos obscuros, eis o que veria:
O páteo. O poço. Em roda do páteo, em frente á porta, uma palhoça
figurando uma especie de ferradura quadrada, galeria carunchosa,
toda aberta, com tecto de vigas, sustentada por pilares de pedra
desigualmente espaçados; no centro, o poço; á roda do poço, em uma
liteira de palha, e fazendo como que um rosario circular, viam-se solas
de sapato, umas direitas, outras acalcanbadas, dedos apparecendo pelos
buracos dos sapatos, e muitos tornozelos nús, pés de homem, pés de
mulher, pés de criança. Todos esses pés dormiam.
Depois desses pés, penetrando o olhar na penumbra da palhoça,
distinguiam-se corpos, fórmas, cabeças adormecidas, prolongamentos
inertes, farrapos de ambos os sexos, uma promiscuidade no monturo,
um sinistro jazigo humano. Era um quarto de dormir para todos.
Pagava-se dous soldos por semana. Os pés tocavam no poço. Nas noites
de tempestade, chovia sobre os pés; nas noites de inverno, cabia neve
sobre os corpos.
Quem eram aquellas creaturas? Os desconhecidos. Iam alli de noite e
sabiam de manhã. A ordem social anda misturada com aquellas larvas.
Alguns esgueiravam-se alli de noite e não pagavam. A maior parte
entrava em jejum. Todos os vicios, todas as abjecções, todas as
supposições, todas as miserias, o mesmo somno de prostração no mesmo
leito do lodo. Os sonhos de todas essas almas faziam boa visinhança.
Funebre entrevista em que se remechiam e se amalgamavam no mesmo
miasma, os cançassos, os desfallecimentos, as borracheiras, incubadas
as marchas e contra-marchas de um dia sem um pedaço de pão e sem um
bom pensamento, as noites lividas e somnolentas, remorsos, cobiças,
cabellos immundos, rostos com o olhar da morte, beijos, talvez, das
bocas da treva. A podridão humana fermentava naquella tina. Eram
atiradas áquelle alvergue pela fatalidade, pela viagem, pelo navio
chegado na vespera, por uma sahida de prisão, pelo acaso, pela noite. O
destino vasava alli, todos os dias, a sua alcofa. Entrava quem queria,
dormia quem podia, falhava quem ousava. Era proprio para cochichar.
Todos se apressavam em misturar-se. Tratavam de esquecer-se no somno,
visto que não podiam perder-se na sombra. Tiravam á morte aquillo que
podiam. Fechavam os olhos naquella agonia confusa que todas as noites
começava. Donde sahiam? Da sociedade, porque eram a miseria; da vaga,
porque eram a espuma.
Nem todos tinham palha. Mais de uma nudez estava alli no chão;
deitavam-se estafados; erguiam-se anquilosados. O poço sem parapeito
e sem tampa, sempre aberto, tinha trinta pés de profundidade. Cahia
alli a chuva, escorriam as immundicies, filtravam todos os escoamentos
do pateo. A caçamba para tirar agua ficava a um lado. Quem tinha
sede, bebia. Quem estava aborrecido, afogava-se. Do somno do monturo
passava-se ao somno do poço. Em 1819 tirou-se dalli um menino de 14
annos.
Para não correr risco naquella casa era preciso ser _da laia._ Os
estranhos eram mal vistos.
Conheciam-se acaso entre si, aquellas creaturas? Não; farejavam-se.
A dona da casa era uma mulher moça, assaz bonita, trazendo um barrete
ornado de fitas, lavada ás vezes com agua do poço, e tendo uma perna de
páo.
Desde madrugada esvasiava-se o pateo; iam-se embora os freguezes.
Havia no pateo um gallo e algumas gallinhas, que esgaravatavam
no esterco durante o dia. O pateo era atravessado por um barrote
horisontal, collocado sobre postes, figura de força, que não estava
alli em terra estranha. Via-se ás vezes estendido no barrote, no dia
seguinte ás noites chuvosas, um vestido de seda molhado e enlameado,
pertencente á mulher da perna de páo.
Acima da palhoça, e, circulando o pateo, havia um andar superior e
acima do andar um celeiro. Subia-se até lá por uma escada de madeira
podre que furava o tecto; escada vacillante por onde subia com
estrepito a mulher côxa.
Os locatarios de arribação, por semana ou por noite, moravam no pateo;
os locatarios residentes moravam na casa.
Janellas, nem um caixilho; portas, nem uma hombreira; lareiras, nem um
fogão; era a casa. Passava-se de um quarto a outro indifferentemente
por um buraco quadrado e comprido que fôra porta, ou por uma fresta
triangular que ficava entre duas pilastras do tabique. A caliça cahida
cobria o assoalho. Não se sabia como aquella casa estava em pé. O vento
não a abalava. Mal se podia subir pela escada gasta, e escorregadia.
Tudo estava aberto. O inverno entrava na casa como agua em esponja.
A abundancia das aranhas tranquillisava os moradores contra o
desmoronamento immediato. Mobilia, nenhuma. Dous ou tres enxergões nos
cantos, rotos no centro, deixando ver mais cinza que palha, aqui e alli
uma bilha e um alguidar, servindo para diversos usos. Cheiro insipido e
hediondo.
As janellas davam sobre o pateo. De cima o pateo assemelhava-se a um
carro de lama. As cousas, aem contar os homens, que alli apodreciam
e enferrujavam-se, eram indescriptiveis. Os destroços fraternisavam:
cahiam paredes, cabiam creaturas. Os trapos semeavam entulhos.
Além da população fluctuante alojada no pateo, a Jacressarde tinha
tres inquilinos, um carvoeiro, um trapeiro e um fabricante de ouro. O
carvoeiro e o trapeiro, occupavam dous enxergões no primeiro andar; o
fabricante de ouro, chimico, morava nas aguas furtadas, que tambem se
chamava sotão. Não se sabia em que lugar dormia a mulher. O fabricante
de ouro era um tanto poeta. Habitava debaixo das telhas n'um quarto em
que havia uma trapeira estreita e uma grande chaminé de pedra, golphão
onde ia rugir o vento. A trapeira não tinha caixilhos; o fabricante
de ouro pregou em cima um pedaço de ferro em folha, proveniente de
um rasgão de navio. A folha deixava passar pouca luz e muito frio. O
carvoeiro pagava a casa com um sacco de carvão de quando em quando;
o trapeiro pagava com um cestario de grãos para as gallinhas, cada
semana; o fabricante de ouro não pagava nada. Entretanto ia queimando
a casa. Já tinha arrancado a pouca madeira, e a cada instante tirava
da parede, ou do tecto uma ripa para aquecer a caldeira do ouro.
No tabique acima do grabato do trapeiro, viam-se em duas columnas
algarismos feitos com greda, escriptos pelo trapeiro todas as semanas,
uma columna de tres e uma columna de cinco, conforme o cestario de grão
custasse tres liards ou cinco centimos. A caldeira do chimico era uma
velha bomba quebrada, promovida por elle ao cargo de caldeira, e que
lhe servia para combinar os ingredientes. A transmutação absorvia-a.
Algumas vezes fallava nisso aos maltrapilhos do pateo, que deitavam a
rir. Dizia elle: _aquella gente está cheia de preconceitos._ Estava
resolvido a não morrer sem atirar a pedra phylosophal ás vidraças da
sciencia. O forno com que trabalhava comia muita lenha. Já o patamar da
escada tinha desapparecido. Ia-se toda a casa paulatinamente. Dizia-lhe
a hoteleira: _Neste andar só me fica o casco._ O chimico abrandava-lhe
a colera fazendo-lhe versos.
Tal era a Jacressarde.
O criado da casa era um menino, talvez anão, contando doze annos ou
sessenta de idade, cheio de borbulhas, e trazendo sempre uma vassoura
na mão.
Os frequentadores entravam pela porta do páteo; o publico entrava pela
porta da loja.
O que era a loja?
A alta parede que dava para a rua tinha á direita da entrada do páteo
uma abertura feita em esquadria, que era a um tempo porta e janella,
tendo postigo e caixilhos; o postigo era o unico da casa que tinha
eixos e fechaduras, o caixilho era o unico que tinha vidros. Por traz
da janella que abria sobre a rua havia um pequeno quarto que tomava uma
parte do telheiro de dormir. Lia-se na porta da rua este distico feito
com carvão: _Aqui encontram-se as curiosidades._ A palavra já corria
mundo. Sobre tres taboas que fingiam prateleiras collocadas por traz de
vidraças, viam-se alguns potes de porcellana falsa, sem aza, um chapéo
de sol chinez feito de pergaminho delgado, ornado de figuras, furado em
diversos pontos, impossivel de abrir e fechar, cadinhos de ferro, louça
informe, chapéos de homem e mulher estragados, tres ou quatro conchas,
alguns embrulhos de botões de osso e de cobre já velhos, uma boceta
com o retrato de Maria Antoinette, e um volume trancado da algebra de
Boisbertrand.
Tal era a loja. Aquelle sortimento era a curiosidade. A loja
communicava por uma porta do fundo com o páteo onde estava o poço.
Tinha uma mesa e um escabello. A mulher do perna de páo era a moça do
balcão.
VII
COMPRADORES NOCTURNOS E VENDEDOR TENEBROSO
Clubin não foi á pousada João, nem na noite de terça-feira, nem na
noite de quarta-feira.
Nesta noite, ao escurecer, dous homens entraram pela viella Coutanchez;
pararam diante da Jacressarde. Um delles bateu na vidraça. Abrio-se
a porta da loja. Entraram ambos. A mulher da perna de páo deu-lhes o
sorriso reservado aos burguezes. Havia uma vela sobre uma mesa.
Os dous homens eram effectivamente burguezes.
O homem que tinha batido na vidraça disse:
--Boa noite, mulher. Venho por aquillo.
A mulher da perna de páo sorrio segunda vez e sahio pela porta que dava
para o páteo. Minutos depois abrio-se de novo a porta, e appareceu um
homem pela fresta, trazendo bonet e blusa, debaixo da qual havia um
objecto volumoso. Tinha uns fios de palha nas dobras da blusa e pelos
olhos via-se que acabava de acordar.
O homem avançou. Olharam-se todos. O homem da blusa tinha um ar turvado
e esperto.
--O senhor é o armeiro? disse elle.
O homem que tinha batido respondeu.
--Sim. O senhor é o Parisiense?
--Chamado Peaurouge. Sim.
--Deixe vêr.
--Aqui está.
O homem tirou debaixo da blusa um instrumento; muito raro na Europa
naquella época, um revolver.
O revolver era novo e brilhante. Os dous burguezes examinaram-no. O que
pareceu conhecer a casa e a quem o homem da blusa chamou armeiro, fez
mover o mecanismo. Entregou depois a arma ao outro burguez, que parecia
não ser morador na cidade, e que se conservava com as costas voltadas
para a luz.
O armeiro perguntou:
--Quanto custa?
O homem da blusa respondeu.
--Venho da America. Ha pessoas que trazem macacos, papagaios, animaes,
como se os francezes fossem selvagens. Eu trouxe isto. É uma invenção
util.
--Quanto custa? perguntou de novo o armeiro.
--É uma pistola que faz molinete.
--Quanto custa?
--Paf. Primeiro tiro. Paf. Segundo tiro. Paf... é uma saraivada! Isto
faz obra.
--Quanto custa?
--Tem seis canos.
--Mas quanto custa?
--Seis canos são seis luizes.
--Quer cinco luizes?
--Impossivel. Um luiz por cada bala. É o preço.
--Quer fazer negocio, seja razoavel.
--Já disse o preço. Examine-me esta obra, Sr. arcabuzeiro.
--Já examinei.
--O molinete anda de roda como o Sr. Talleyrand. Podiam pôr este
molinete no diccionario das ventoinhas. É uma joia.
--Já vi.
--Os canos são de fabrica hespanhola.
--Já reparei.
--São lavrados. A cousa arranja-se assim. Deita-se na forja uma alcofa
de ferros velhos, cravos, ferraduras quebradas...
--E velhas laminas de fouces.
--Ia dizel-o, Sr. armeiro. Depois deita-se em cima uma boa porção de
fogo, e sahe disto tudo um magnifico instrumento de ferro.
--Sim, mas póde ter gretas e buraquinhos; póde sahir esconço.
--Sim. Mas tudo se arranja.
--O senhor é do officio?
--Tenho todos os officios.
--Os canos são brancos.
--É belleza, Sr. armeiro. Faz-se isto com borra de antimonio.
--Diziamos nós que isto custa cinco luizes...
--Tomo a liberdade de observar que eu tive a honra de dizer seis luizes.
O armeiro abaixou a voz.
--Ouça, Parisiense. Aproveite a occasião. Desfaça-se disto. Isto para
vocês não vale nada. Chama a attenção.
--Na verdade, disse Parisiense, é um tanto vistoso. É melhor para um
burguez.
--Quer cinco luizes?
--Não, seis. Um por cada buraco.
--Pois bem, seis napoleões.
--Quero seis luizes.
--Não é bonapartista. Prefere um luiz a um napoleão?
Parisiense sorrio.
--Napoleão é melhor, disse elle, mas luiz vale mais.
--Seis napoleões.
--Seis luizes. É para mim uma differença de oitenta francos.
--Então não fazemos nada.
--Pois sim. Guardo o revolver.
--Guarde.
--Abater o preço! pois não! não se dirá que eu me desfiz sem mais nem
menos de uma invenção destas!
--Então, boa noite.
--É um progresso sobre a pistola, que os indios chesapoakes chamam
Nortay-u-Hoh.
--Cinco luizes á vista, é ouro.
--Nortay-u-Hoh, quer dizer espingarda pequena. Muitas pessoas ignoram
isto.
--Quer cinco luizes e mais um escudo?
--Eu já disse que custa seis.
O homem que estava de costas para a luz e que ainda não tinha fallado,
fazia mover o mecanismo. Approximou-se do armeiro e disse-lhe ao ouvido:
--A arma é boa?
--Excellente.
--Eu dou os seis luizes.
Cinco minutos depois emquanto Parisiense apertava em um buraco feito
na manga da blusa, os seis luizes de ouro que acabava de receber, o
armeiro e o comprador, levando no bolso da calça o revolver sahiram da
viella Coutanchez.
VIII
CARAMBOLA DA BOLA VERMELHA E DA BOLA PRETA
No dia seguinte, que era quinta-feira, a pouca distancia de Saint Malo,
perto da ponta do Decolé, n'um lugar em que as rochas das praias são
altas, e o mar profundo, passou-se uma cousa tragica.
Nada mais frequente na architectura do mar, que uma lingua de rochedos
em fórma de lança, que se prende á terra por um isthmo estreito,
prolonga-se na agua e acaba-se ahi bruscamente em forma de rochedo a
pique. Para chegar ao alto desse rochedo, indo da praia, segue-se um
plano inclinado cuja subida é ás vezes assaz difficil.
No alto de um rochedo desse genero, achava-se em pé, pelas quatro
horas da tarde, um homem embrulhado em uma larga capa de uniforme, e
provavelmente armado, o que era facil de reconhecer por certas dobras
rectas e angulosas do manto. O sitio em que estava esse homem era
uma plataforma assaz vasta semeada de cubos á semelhança de seixos
immensos, deixando entre si estreita passagem. Esta plataforma onde
brotava uma hervasinha estreita e curta, terminava do lado do mar por
um espaço livre, que ia dar a um despenhadeiro, de uns sessenta pés
de altura, acima do mar, e parecia talhado com um prumo. Entretanto,
o angulo da esquerda ia-se arruinando e offerecia uma dessas escadas
naturaes proprias aos granitos marinhos, cujos degraos pouco
commodos exigem ás vezes pernas de gigante ou pulos de downs. Descia
perpendicularmente ao mar e mergulhava nas aguas. Era um quebra-costas.
Podia-se, comtudo, a rigor, ir por alli embarcar na muralha da lingua
de rochas.
Soprava uma brisa. O homem, apertado na capa, firme nas pernas, com o
cotovello direito na mão esquerda, piscava um olho e applicava ao outro
um oculo. Parecia absorto em uma attenção séria. Approximou-se da borda
do rochedo, e alli estava immovel com o olhar imperturbavelmente fito
no horisonte. A maré estava cheia. A vaga batia por baixo delle no sopé
do rochedo.
O que o homem observava era um navio ao largo que fazia manobras
singulares.
Esse navio, que apenas uma hora antes sahira de Saint-Malo, tinha
parado por traz dos Banquetiers. Era uma galera. Não tinha deitado
ancora, talvez porque o fundo não lh'o permittisse, e porque o navio
teria prendido a ancora de baixo do gurupés. Limitou-se a pôr-se á capa.
O homem, que era guarda-costa, como o uniforme indicava, espiava todas
as manobras do navio e parecia tomar nota mentalmente. O navio tinha
atravessado: era o que indicava a vela ré alada a barlavento, e as de
prôa largas por mão; tinha braceado o panno de ré o mais que lhe foi
possivel, de forma que neutralisava a força dos de prôa. Deste modo,
cahindo a sotavento, não perdia mais de milha e meia por hora.
O dia ainda estava claro, sobretudo em pleno mar e no alto das rochas.
Mas ao pé das costas começava a escurecer.