Em muitos pontos do littoral inglez e francez o contrabando estava

em boa harmonia com o negocio licito. Entrava na casa de mais de um

financeiro de alta classe, ás escondidas, é verdade; e dilatava-se

subterraneamente na circulação commercial e por todas vias de

industria. Negociante em publico, contrabandista ás escondidas, eis a

historia de muitas fortunas. Seguin dizia isto de Bourguin. Bourguin

dizia isto de Seguin. Não garantimos o dito de ambos. Talvez se

calumniassem um ao outro. Fosse como fosse, o contrabando perseguido

pela lei estava sem contestação muito aparentado no commercio.

Carteava-se com a gema da sociedade. A caverna onde Maudrin acotovelava

outr'ora o conde de Charolais, era honesta exteriormente e tinha uma

fachada irreprehensivel para o lado da sociedade.

Daqui resultaram muitas connivencias necessariamente mascaradas. Taes

mysterios exigiam sombra impenetravel. Um contrabandista sabia de

muitas cousas e devia guardar segredo; a sua lei era uma fé inviolavel

e rigida. A primeira qualidade de um trapaceiro era a lealdade. Sem

discrição não ha contrabando. Havia o segredo da fraude como ha o

Segredo da confissão.

Esse segredo era imperturbavelmente guardado. O contrabandista jurava

não dizer nada e mantinha a sua palavra. Ninguem inspirava mais

confiança do que um contrabandista. O juiz alcaide de Oyarzun apanhou

um dia um contrabandista e poz-lhe a questão para obrigal-o a declarar

quem era o seu caixa de fundos. O contrabandista não confessou quem

era o caixa de fundos. O caixa de fundos era o juiz alcaide. Dos dous

cumplices, juiz e contrabandista, o primeiro devia para cumprir a lei

aos olhos de todos ordenar a tortura, á qual o segundo resistia para

cumprir o juramento.

Os dous mais famosos contrabandistas que andavam em Plainmont naquella

época, eram Blasco e Blasquito. Eram tocayos. Parentesco hespanhol e

catholico que consiste em ter o mesmo patrão no paraiso, cousa não

menos digna de consideração que ter o mesmo pae na terra.

Quem estava pouco mais ou menos ao facto do furtivo itinerario do

contrabando e queria fallar a esses homens, era isso a cousa mais

facil e mais difficil. Bastava não ter preconceitos nocturnos, ir a

Plainmont, e affrontar o mysterioso ponto de interrogação que alli se

levanta.

IV

PLAINMONT

Plainmont, perto de Torteval, é um dos tres angulos de Guernesey. Ha,

na extremidade do cabo, uma corôa de relva que domina o mar.

O cume é deserto.

Tanto mais deserto quanto ha alli uma casa.

Aquella casa augmenta o horror da solidão.

Dizem que é mal assombrada.

Assombrada ou não, o aspecto é medonho.

É feita de granito, tem um só andar, e está no meio da relva. Não tem

aspecto de ruina. É perfeitamente habitavel. As paredes são grossas e

o tecto solido. Não falta uma só pedra ás paredes, nem uma só telha

ao telhado. Tem uma chaminé de tijolo. A casa está de costas para o

mar. A fachada do lado do mar é apenas uma parede. Examinando bem essa

parede vê-se uma janella murada. Ha tres trapeiras, uma a leste, duas a

oeste, muradas todas. A frente da casa tem uma só porta e janellas. A

porta é murada e as duas janellas de baixo tambem. No primeiro andar,

e é isso que espanta logo ao principio, ha duas janellas abertas; mas

as janellas tapadas são menos assustadoras que as janellas abertas.

Por estarem abertas, apparecem negras em pleno dia. Não tem vidros

nem caixilhos. Abrem para as trevas do interior. Dissera-se umas

orbitas vasias de olhos arrancados. Nada ha naquella casa. Vê-se pelas

janellas abertas o descalabro de dentro. Nem retabulos, nem entalhos de

madeira, pedra núa. Parece um sepulchro com janellas para deixar que

os espectros olhem para fóra. As chuvas alluem os alicerces do lado do

mar. Algumas ortigas agitadas pelo vento beijam a barra das paredes. No

horisonte, nenhuma habitação humana. Aquella casa é uma cousa vasia e

silenciosa. Mas quem pára e põe o ouvido á parede ouve confusamente um

bater de azas assustadas. Por cima da porta tapada, na pedra que faz a

architrava, estão gravadas estas letras; ELM--PBILG, e esta data 1780.

De noite o luar lugubre penetra na casa.

Todo o mar está em roda da casa. A situação é magnifica, e por

consequencia, sinistra. A belleza do lugar torna-se um enigma. Por que

motivo aquella casa não é habitada por nenhuma familia humana? O lugar

é bonito, a casa é boa. Donde procede esse abandono? Ás perguntas da

razão ajuntam-se as perguntas da superstição. O campo é cultivavel, por

que motivo está inculto? Não ha dono. A porta murada. Que tem pois este

lugar? porque foge o homem? que se faz aqui? Se não ha nada, porque é

que não ha ninguem? Quando todos dormem ha alguem acordado? A lufada

tenebrosa, o vento, as aves de rapina, os animaes escondidos, os entes

ignorados, apparecem ao pensamento e misturam-se aquella casa. A que

passageiros serve ella de hospedaria? a gente imagina trevas de graniso

e de chuva mettendo-se pela janella dentro. Ha na parte interior uns

vagos signaes de chuva que gotejou: Os quartos fechados e abertos são

visitados pelo furacão.

Commetter-se-hia algum crime alli? Parece que aquella casa, á noite,

entregue ás trevas, deve chamar por soccorro. Será muda? Sahem vozes

de dentro? Que faz ella na solidão? O mysterio das horas negras existe

alli facilmente. A casa assusta ao meio dia: que será ella á meia

noite? Contemplando-a, contempla-se um segredo. Pergunta-se,--porque

a superstição tem a sua logica e o possivel a sua inclinação,--o que

será aquella casa entre o crepusculo da noite e o crepusculo da manhã.

A immensa dispersão da vida extra-humana tem acaso naquelle cume

deserto um vinculo em que ella pára, e que a obriga a fazer-se visivel

e a descer? O esparso vai redomoinhar alli? o impalpavel vai alli

condensar-se? Enigmas. Sahe daquellas pedras o horror sagrado. A treva

que está nesses quartos defesos é mais do que treva; é o desconhecido.

Depois do sol posto voltam barcos de pescadores para terra, calam-se

os passaros, o cabreiro que está atraz do rochedo vai-se com as suas

cabras, as fendas das pedras darão passagem aos reptis mais animados,

as estrellas começarão a olhar, soprará o vento, far-se-ha plena

escuridão, as duas janellas estarão alli escancaradas. Abrem-se para o

sonho; e é por apparições, larvas, phantasmas mal distinctos, sombras

cobrindo luzes, mystenosos tumultos de almas e espectros, que a crença

popular, estupida e profunda, traduz as sombrias intimidades daquella

casa com a noite.

A casa é mal assombrada, esta palavra explica tudo.

Os espiritos credulos dão a sua explicação; mas os espiritos positivos

dão outra. Nada mais simples do que essa casa, dizem elles. É um antigo

posto de observação, do tempo das guerras da revolução e do imperio,

e dos contrabandos. Foi construida para isso. Acabada a guerra, foi

abandonado o posto. Não se demolio a casa por que pode tornar-se

util. Taparam-se as portas e as janellas do rez do chão contra os

stercorarios humanos, e para que ninguem podesse entrar; taparam-se as

janellas do lado do mar, por causa do vento do sul e do vento de oeste.

Eis tudo.

Os ignorantes e os credulos insistem. Em primeiro lugar a casa não foi

construida no tempo das guerras da revolução. Traz a data de 1780,

anterior á revolução. Depois, não foi construida para ser posto; tem

as letras ELM-PBILG que são o duplo monogramma de duas familias, e que

indicam, segundo o uso, que a casa foi construida para algum joven

casal. Portanto foi habitada. Porque não o é agora? Se se tapou a porta

e as janellas para que ninguem entrasse, porque motivo deixaram-se

abertas duas janellas? Deviam tapar tudo ou nada. Porque não ha vidros

nem caixilhos, nem postigos? Porque fecha-las de um lado, sem fecha-las

de outro? A chuva não entra pelo sul, mas entra pelo norte.

Os credulos não têm razão, e certo; mas os positivos também não a tem.

O problema persiste.

O que é certo é que a casa, dizem ter sido mais util que nociva aos

contrabandistas.

Quando o medo cresce os factos perdem a verdadeira proporção.

Não ha duvida que muitos phenomenos nocturnos, entre aquelles de

que a pouco e pouco se compoz o _assombramento_ da casa, poderia

explicar-se por presenças fugitivas e obscuras, curtas estações de

homens logo embarcados, já pelas precauções, já pela ousadia de certos

commerciantes suspeitos, escondendo-se para fazer mal, e deixando-se

entrever para causar medo.

Naquella época já remota, muitas audacias eram possiveis. A policia,

sobretudo, nos lugares pequenos, não era o que é hoje.

Ajunte-se a isto que se a casa era commoda aos contrabandistas, as suas

entrevistas alli deviam ser francas, exactamente porque a casa era mal

vista. O ser mal vista impedia que fosse denunciada. Ninguem pede á

policia soccorro contra os espectros. Os supersticiosos persignam-se,

mas não fazem processos. Vêem ou acreditam vêr, fogem e calam. Existe

uma convivencia tacita involuntaria, mas real, entre os que fazem

medo e os que tem medo. Os assustados sentem que fizeram mal em se

assustarem, imaginam ter sorprehendido um segredo, receiam aggravar a

posição mysteriosa para elles, e enfadar as apparições. Isto fal-os

discretos. E ainda fóra deste calculo, o instincto dos credulos é o

silencio; o medo é mudo; os atterrorisados fallam pouco; parece que o

horror diz: _silencio!_

Devem recordar-se que isto remonta á época em que os camponezes

guernesianos acreditavam que o mysterio do presepio era repetido todos

os annos pelos bois e pelos asnos; época em que ninguem, na noite de

Natal, ousaria penetrar em uma estrebaria com receio de encontrar os

animaes ajoelhados.

Se se deve acreditar nas legendas locaes e narrativas dos camponezes

a superstição chegou a suspender nas paredes da casa de Plainmont, em

pregos de que ainda existem vestigios, ratos sem pés, morcegos sem

azas, arcabouços de animaes mortos, sapos esmagados entre as paginas de

uma Biblia, febras de tremoços amarellos, estranhos ex-voto pendurados

por viandantes imprudentes que acreditavam ver alguma cousa, e por

meio desses presente contavam obter perdão e conjurar o máo humor

das stryges, das larvas e dos duendes. Houve sempre quem acreditasse

em congressos de feitiçaria, e alguns desses credulos altamente

collocados. Cesar consultava Sagana, e Napoleão mademoiselle Lenormand.

Ha consciencias tão inquietas que chegam a procurar indulgencias de

diabo. _Faça-o Deos, mas não o desfaça Satanaz_, era uma das orações de

Carlos V.

Ha espiritos mais timoratos ainda. Esses chegam a persuadir-se de que o

mal pode ter razão contra elles. Ser irreprehensivel para com o demonio

é uma das suas preoccupações. Dahi vem as praticas religiosas voltadas

para a immensa malicia obscura. É uma carolice como qual quer outra. Os

crimes contra o demonio existe ein certas imaginações doentias; violar

a lei do inimigo é uma cousa que faz soffrer os estranhos casuitas

da ignorancia; ha escrupulos para com as regiões das trevas. Crer na

efficacia da devoção aos mysterios do Brocken e de Armuyr, imaginar

que se pecca contra o inferno recorrendo a penitencias chimericas por

infracções chimericas, confessar a verdade ao espirito da mentira,

fazer o _mea culpa_ diante do pai da Culpa, confessar-se em sentido

inverso, tudo isto existe ou existio. Os processos de magia provam-no

em cada uma de suas paginas. Vai até esse ponto o sonho humano. Quando

o homem começa a assustar-se não pára mais. Sonha culpas imaginarias,

sonha purificações imaginarias, e faz limpar a sua consciencia com a

vassoura das feiticeiras.

Fosse como fosse, se aquella casa teve aventuras, é cousa que lá ficou;

pondo de parte alguns acasos e algumas excepções, ninguem subio a ver

o que era; a casa ficou só; ninguem gosta de arriscar-se aos encontros

infernaes.

Graças ao terror que a cerca e affasta dalli todo aquelle que pudesse

observar e testemunhar, facil foi em todos os tempos entrar de noite

naquella casa por meio de uma escada de corda ou simplesmente por meio

da primeira tranqueira que se achasse nas hortas visinhas. Levava-se um

rancho de viveres, o que dava lugar a esperar alli com toda a segurança

a eventualidade de um embarque furtivo. Conta a tradição que ha 40

annos um fugitivo, dizem uns que da politica, outros que do commercio,

lá esteve algum tempo escondido, e dalli embarcou n'um barco de pesca

para Inglaterra. De Inglaterra é facil passar á America.

A mesma tradição affirma que as provisões depositadas naquelle albergue

lá se conservam sem que ninguem as toque, visto como Lucifer e os

contrabandistas têm interesse em que a pessoa que lá as põem, vá

buscal-as.

Do lugar em que existe aquella casa, vê-se ao sudueste, a uma milha da

costa, o escolho de Hanois.

É celebre aquelle escolho. Fez todas as más acções que um rochedo

pode fazer. Era um dos mais temiveis assassinos do mar. Esperava

perfidamente os navios á noite. Entulhou os cemiterios de Torteval e de

Rocquaine.

Em 1862 pôz-se alli um pharol.

Hoje o escolho de Hanois allumia a navegação que elle proprio

extraviava outr'ora; a emboscada traz agora um archote na mão.

Procura-se hoje como protector e guia o rochedo do qual fugia-se

outr'ora como de um malfeitor. O escolho tranquilisa aquelles vastos

espaços nocturnos onde outr'ora inspirava o medo. Assemelha-se a um

salteador feito soldado de policia.

Ha tres Hanois: o grande Hanois, o pequeno Hanois e a Mauve. No pequeno

Hanois é que existe hoje o Light Red.

O escolho faz parte de um grupo de picos, uns submarinhos, outros acima

d'agua. Domina-os. Como se fôra uma fortaleza, tem baterias avançadas;

do lado do mar alto, um cordão de treze rochas; ao norte dous cachopos,

Hautes-Fourquies e Aiguillons, e um banco d'arêa; Heronée; ao sul tres

rochedos, Cat-Rock, Percée e Roque-Herpin; depois a South Boue e a Boue

Mouet, e além disso em frente de Plainmont, á flor d'agua o Tas de Pois

d'Aval.

Atravessar a nado o estreito de Hanois a Plainmont é cousa incommoda,

mas não impossivel. O leitor lembra-se que era essa uma das proezas do

Sr. Clubin. O nadador que conhece os baixios tem duas estações em que

pode descançar, a Roque redonda, e mais longe obliquando um pouco á

esquerda, a Roque vermelha.

V

OS FURTA-NINHOS

Pouco mais ou menos naquelle dia de sabbado em que o Sr. Clubin esteve

em Torteval, deu-se um facto singular, pouco assoalhado em principio

e que só transpirou muito depois. Como dissemos, ha muitas cousas

que ficam desconhecidas, mesmo por causa do medo que inspira ás suas

proprias testemunhas.

Na noite de sabbado ao domingo, (precisamos o dia e cremol-o exacto)

tres meninos escalaram o rochedo de Plainmont. Voltavam á villa. Vinham

do mar. Eram o que na lingua local chamam _deniquoi-oiseaux_; lêa-se

_deniche-oiseaux_ (furta-ninhos). Onde quer que haja penhascos na praia

e fendas de rochedos acima do mar ha furta-ninhos em abundancia. Já

fallamos delles. O leitor lembra-se que Gilliatt preoccupava-se com

isto, por causa dos passaros e por causa das crianças.

Os furta-ninhos, são especies de _gaiatos_ do occeano, pouco timidos.

A noite era escura. Espessas superposições de nuvens escondiam o

zenith. Tres horas da manhã soavam no sino de Torteval que é redondo e

pontudo, semelhante a um chapéo de magico.

Porque voltavam tão tarde aquelles pequenos? Nada mais simples. Tinham

ido á caça dos ninhos de cotovias no Tas de Pois d'Aval. Como a estação

tinha sido amena, começaram cedo os amores dos passaros. Os pequenos,

espreitando os machos e as femeas á roda dos ninhos, e distrahidos pela

tenacidade da empreza tinham esquecido as horas. Foram cercados pela

maré. Não poderam voltar a tempo para a canoa e tiveram de esperar que

o mar se retirasse, assentados em uma das pontas do Tas de Pois. Tal

foi o motivo da volta nocturna. Estas voltas são esperadas sempre pela

febril inquietação das mães que, uma vez tranquillas, manifestam a

alegria por meio da colera, e lacrimosas dissipam o terror a cachações.

Por isso os pequenos apressavam-se, mas iam assustados. Apressavam-se,

mas de boa vontade se demorariam, era um certo desejo de não chegar

nunca. Tinham em perspectiva um beijo complicado de sopapo.

Só um dos meninos nada receiava; era um orphão. Era francez e ia bem

contente de não ter naquelle dia nem pae nem mãe. Não tendo ninguem

que se interessasse por elle, escapava á bordoada. Os outros dous eram

guernezianos e da parochia de Torteval.

Escaladas as rochas, os tres furta-ninhos, chegaram á planura onde

estava a casa mal assombrada.

Começaram por ter medo, dever de todo o viandante, sobretudo crianças,

aquella hora e naquelle lugar.

Quizeram fugir e quizeram parar afim de contemplar a casa.

Pararam.

Contemplaram a casa.

Era negra e formidavel.

Era, naquelle deserto, um montão escuro, uma escrescencia symetrica e

hedionda, uma alta massa quadrada de angulos rectilinios, uma cousa

semelhante a um enorme altar de trevas.

O primeiro pensamento dos meninos tinha sido fugir; o segundo foi

approximar-se. Nunca tinham visto aquella casa áquella hora. A

curiosidade de ter medo existe. Havia entre elles um francez, donde

resultou que os pequenos approximaram-se da casa.

É sabido que os francezes não acreditam em cousa alguma.

Demais, quando são muitos todos se tranquillisam; o medo dividido por

tres dá animação.

E depois, eram curiosos; eram crianças, sommada a idade dos tres não

dava trinta annos; era a idade de prescrutar, de escavar, esquadrinhar

as cousas occultas; deve-se acaso parar no meio? Mette-se a cabeça

neste buraco, porque não mette-la no outro? a caça arrasta; andar em

uma descoberta é o mesmo que metter-se em um moinho. Ter olhado para

o ninho dos passaros dá vontade de olhar um pouco para o ninho dos

espectros. Investigar o inferno, porque não?

De caça em caça, chega-se ao demonio. Depois dos pardáes os diabretes.

Ha vontade de saber o que é esse medo inspirado pelos paes. Andar na

pista dos contos de carocha é o que ha mais resvaladiço. Saber tanto

como as contadeiras de historias é cousa que tenta.

Todo este amalgama de idéas no estado de confusão e instincto, na

cabeça dos rapazes, deu em resultado a temeridade delles. Caminharam

para a casa.

Demais, o pequeno que lhes servia de apoio nesta bravura, era digno

disso. Era um rapaz resoluto, aprendiz de calafate, uma dessas crianças

que já são homens, dormindo no estaleiro em cama de palha, ganhando

a vida, tendo uma voz grossa, trepando ás arvores e ás paredes sem

escrupulos a respeito das fructas que encontrava, tendo trabalhado em

concertos de navios de guerra, filho do acaso e do bamburrio, orphão

alegre, nascido em França, sem se saber em que ponto, duas razões para

ser atrevido, dando sem reparar aos pobres, muito máo, muito bom, louro

rastejando a ruivo, tendo já fallado aos parisienses. Agora ganhava

um scheling por dia calafetando os barcos dos pescadores. Dando-lhe a

veneta punha-se em férias e ia tirar os ninhos dos passaros. Tal era o

francez.

A solidão do lugar tinha um não sei quê de funebre. Sentia-se a

inviolabilidade ameaçadora. Era medonho. Aquella planura silenciosa e

nua escondia no precipicio a sua curva declive. Embaixo callava-se o

mar. Não havia vento. As ervas não se mechiam.

Os furta-ninhos avançavam de vagar com o francez á frente, contemplando

a casa.

Um delles contando depois o facto ou o pouco que lhe restava na

memoria, acerescentava: a casa não dizia nada.

Approximavam-se retendo a respiração, como quem se approxima de um

animal feroz.

Tinham subido o comoro que fica atraz da casa, e que vai ter a um

pequeno isthmo de rochedos pouco praticavel; estavam perto da casa;

mas viam apenas a fachada do sul, que é toda murada; não tinham ousado

voltar á esquerda, o que os teria exposto a ver a outra fachada em

queha apenas duas janellas, o que é terrivel. Entretanto atreveram-se,

por que o aprendiz de callafate disse-lhes baixinho: viremos de

bombordo; daquelle lado é que é bonito; é preciso ver ás duas janellas

negras.

Viraram de bombordo e chegaram ao outro lado da casa.

As duas janellas estavam illuminadas.

Os meninos fugiram.

Qando estavam longe, voltou-se o francez.

--Olhem, disse elle, já não ha luz.

Com effeito, não havia luz nas janellas. A casa desenhava-se na lividez

diffusa do céo.

O medo não se foi, mas a curiosidade voltou. Os furta-ninhos

approximaram-se.

De repente appareceram as luzes outra vez.

Os dous rapazes de Torteval tornaram a pôr sebo ás canellas. O pequeno

Satanaz francez, não avançou, mas não reccuou.

Ficou immovel, em frente da casa, olhando para ella.

Extinguio-se a luz, depois brilhou de novo. Nada mais horrivel. O

reflexo fazia um vago rastilho de fogo na relva humida pelo orvalho.

Em certo momento, o clarão desenhou na parede interior da casa grandes

perfis negros que se mechiam e sombras de cabeças enormes.

Demais, a casa não tinha tecto nem tabiques, e tendo apenas as quatro

paredes e o telhado, uma janella não pode ser illuminada sem que a

outra o seja.

Vendo que o aprendiz de calafate ficava, os outros dous voltaram

tremulos, curiosos. O aprendiz de calafate, disse-lhes baixinho:--Ha

almas do outro mundo na casa. Vi o nariz de uma dellas.--Os dous

pequenos agruparam-se atraz do francez, e levantando-se sobre a ponta

dos pés, por cima do hombro, abrigados por elle, fazendo delle um

escudo, oppondo-o á casa, tranquillisados por tel-o entre si e a visão,

olharam tambem.

A casa a seu turno parecia olhar para elles. Tinha naquella vasta

obscuridade muda, duas orbitas vermelhas. Eram as janellas. A luz

eclipsava-se, reapparecia, eclipsava-se ainda, como essas luzes

costumam fazer. Estas intermittencias sinistras representavam

provavelmente as alternativas do inferno. Abre-se, fecha-se. O

respiradouro do sepulchro tem effeitos de lanterna surda.

De repente uma escuridão opaca com forma humana levantou-se em uma das

janellas, como se viesse de fora, depois mergulhou no interior da casa.

Parece que alguem chegava.

Entrar pela janella era o habito dos visitantes.

O clarão appareceu um momento mais vivo, depois apagou-se e não

reappareceu mais. A casa tornou-se escura. Então ouviram-se rumores.

Esses rumores pareciam vozes. É sempre assim. Quando se vê, não se

ouve; quando não se vê, ouve-se.

O mar tem á noite uma taciturnidade particular. O silencio da sombra é

ahi mais profundo que em qualquer outra parte. Quando não ha nem vento

nem marulho, naquella agitada extensão de aguas, onde de ordinario

não se ouvem as aguias voar, ouvir-se-hia voar uma mosca. Aquella paz

sepulchral dava um relevo lugubre aos rumores que sahiam da casa.

--Vejamos, disse o francez.

--E deu um passo para a casa.

Os outros dous tinham tal medo que decidiram-se a acompanhal-o. Não

ousavam fugir sós. Acabavam de passar um grande montão de lenha que,

sem que o saibamos, os animava naquella solidão, quando de uma mouta

voou uma coruja. As corujas tem uns vôos tortos, de assustadora

obliquidade. Aquella passou de travez pelos rapazes, fixando nelles os

olhos claros no meio da treva.

Houve um certo estremecimento no grupo atraz do francez.

O francez clamou contra a coruja.

--Tarde vens, coruja. Já não é tempo. Quero ver. E avançou.

O ranger dos seus sapatos grossos e ferrados não lhes impedia ouvir os

rumores da casa que se elevavam e baixavam, com a accentuação calma e a

continuidade de um dialogo.

Momentos depois accrescentou o francez:

--Demais, só os tolos podem crer em almas do outro mundo.

A insolencia no perigo reune os retardados e impelle-os para a frente.

Os dous rapazes de Torteval puzeram-se a caminho atraz do aprendiz de

calafate.

A casa mal assombrada fazia-lhes o effeito de crescer desmesuradamente.

Nesta illusão de optica do medo, havia realidade. A casa crescia

realmente por que elles approximavam-se della.

Entretanto, as vozes que estavam na casa tornavam-se mais distinctas.

Os rapazes ouviam. O ouvido tem os seus augmentos. Não era murmurio,

era mais que um cochichar, menos que um alarido. De quando em quando

destacava-se uma ou duas palavras claramente articuladas. Essas

palavras, impossiveis de comprehender, soavam estranhamente. Os rapazes

paravam, ouviam e depois continuavam a andar.

--É a conversa das almas do outro mundo, mas eu não creio em almas do

outro mundo, disse o aprendiz de calafate.

Os pequenos de Torteval tinham vontade de esconder-se atraz da lenha;

mas já estavam longe, e o amigo francez continuava a andar para a casa.

Temiam ir com elle, e não ousavam deixal-o.

Acompanhavam-n'o, a passo e passo e perplexos.

O aprendiz de calafate voltou-se para elles e disse-lhes:

--Bem sabem que não é verdade. Não existe nenhuma.

A casa tornava-se cada vez mais alta.

Approximavam-se.

Os Trabalhadores do Mar · 第 7 / 28 段