Os Etruscos, que são para a metereologia o que os Chaldeos são para
a astronomia, tinham dous pontificados--o pontificado do trovão e o
pontificado da nuvem: uns observavam o relampago, outros o nevoeiro.
O collegio dos augures de Tarquinas era consultado pelos Tyrios,
Phenicios e Pelasgios, e de todos os navegadores primitivos da antiga
Marinterne. O modo de geração das tempestades era entrevisto; ligava-se
intimamente ao modo de geração dos nevoeiros, e a bem dizer, é o
mesmo phenomeno. Existem no mesmo oceano tres regiões de brumas, uma
equatorial, duas polares; os marinheiros dão-lhe um só nome--_le pot au
noir._
Em todas as paragens, e sobretudo na Mancha, os nevoeiros de equinoxio
são mui perigosos. Fazem anoitecer de subito. Um dos perigos do
nevoeiro, mesmo quando não é muito cerrado, é impedir que se reconheça
a mudança de fundo pela mudança da côr da agua resulta daqui ficarem
dissimulados os cachopos e parceis. O navegador approxima-se de um
escolho sem ser advertido.
Muitas vezes os nevoeiros não deixam ao navio em marcha outro recurso
que não seja pôr-se á capa ou ancorar. Ha tantos naufragios causados
pelo nevoeiro como pelo vento.
Entretanto após uma violentissima borrasca que succedeu a um dia de
nevoeiro, a chalupa _Cashmere_ chegou perfeitamente da Inglaterra.
Entrou em Saint-Pierre Port aos primeiros raios dos dia no momento
em que o castello Cornet salvava o sol com um tiro. Illuminava-se o
horisonte. A chalupa _Cashmere_ era esperada como devendo trazer o novo
cura de Saint-Sampson. Pouco depois de chegar a chalupa espalhou-se o
boato de que encontrara á noite no mar outra chalupa com uma equipagem
naufragada.
VII
BOA FORTUNA DE APPARECER A TEMPO
Naquella noite Gilliatt, quando o vento amainou, sahio a pescar, sem
affastar-se muito da costa.
Na volta, estando a maré a encher, pelas duas horas da tarde, e fazendo
um sol esplendido, quando Gilliatt passou por diante da Corne de la
Bette para entrar na angra, em que ficava a _pança_, pareceu-lhe ver
na projecção da cadeira Gild-Holm'Ur uma sombra que não era a do
rochedo. Deixou a _pança_ chegar até alli, e reconheceu que um homem
estava assentado na cadeira Gild-Holm'Ur. O mar já estava alto, a rocha
estava cercada pela agua, não era possivel ao homem voltar para terra.
Gilliatt gesticulou para o homem, o homem ficou immovel. Gilliatt
approximou-se. O homem estava adormecido.
Tinha elle vestuario preto. Parece padre, pensou Gilliatt.
Approximou-se ainda mais e vio um rosto de adolescente.
Não conheceu quem era.
A rocha felizmente era a pique; havia muito fundo; Gilliatt costeou
a muralha. A maré levantava a barca quanto bastava para que Gilliatt
pondo-se de pé, sobre a _pança_, pudesse tocar os pés do homem.
Gilliatt levantou-se sobre a borda e ergueu os braços. Se cahisse
naquelle momento, é duvidoso que tornasse a apparecer. A vaga batia
entre a _pança_ e o rochedo era inevitavel ser esmagado.
Gilliatt puchou o pé do homem adormecido.
--Olá! que faz ahi?
O homem acordou.
--Estou olhando, disse elle.
Depois acordando de todo, continuou:
--Cheguei ha pouco á terra, vim passeiar aqui; passei a noite no mar,
achei a vista bonita, estava cançado, adormeci.
--Dez minutos mais, afogar-se-hia, disse Gilliatt.
--Ah!
--Salte para a barca.
Gilliatt susteve a barca com o pé, pôz uma das mãos no rochedo, e
estendeu a outra ao homem que pulou lestamente na barca. Era um bonito
rapaz.
Gilliatt tomou o leme; em dous minutos, a _pança_ chegou á angra da
casa mal assombrada.
O moço tinha chapéo redondo e gravata branca. Trazia abotoada até o
pescoço a comprida sobrecasaca preta. Tinha cabellos louros, rosto
feminino, olhar puro, ar grave.
Entretanto a _pança_ tocou em terra. Gilliatt passou o cabo na argola
da amarra, depois voltou-se, e vio a mão do moço que lhe apresentou um
soberano de ouro.
Gilliatt repellio docemente a mão.
Houve um silencio. O moço fallou:
--Salvou-me a vida, disse elle.
--Talvez, respondeu Gilliatt.
A _pança_ estava amarrada. Sahiram da barca.
O moço continuou:
Devo-lhe a vida, senhor.
--Que importa isso?
Esta resposta de Gilliatt foi acompanhada de novo silencio.
--É desta parochia o senhor? perguntou o mancebo.
--Não, respondeu Gilliatt.
--De que parochia é então?
Gilliatt levantou a mão direita, mostrou o céo e disse:
--Daquella.
O moço comprimentou e foi caminho.
Depois de alguns passos voltou, metteu a mão no bolso, tirou um livro,
e voltou-se para Gilliatt.
--Consinta que lhe offereça isto.
Gilliatt tomou o livro
Era uma Biblia.
Instantes depois, Gilliatt encostado ao parapeito, olhava para o moço
que voltava o angulo do caminho que ia ter a Saint-Sampson.
A pouco e pouco abateu a cabeça, esqueceu o mancebo, não soube mais se
existia a cadeira Gild-Holm'Ur, e tudo desappareceu na immersão sem
fundo o scismar. Gilliatt tinha um abysmo, Deruchette. Tirou-o daquelle
abysmo uma voz que lhe gritou:
--Olá, Gilliatt!
Reconheceu a voz e ergueu os olhos.
--Que ha, Sr. Landoys?
Era com effeito o Sr. Landoys que passava na estrada a cem passos da
casa, no seu phaeton, com um pequeno cavallo. Parou afim de chamar
Gilliatt á falla, mas parecia atarefado e apressado:
--Ha novidade, Gilliatt.
--Onde?
--Na casa de mess Lethierry.
--O que ha?
--Estou longe para lhe contar o caso.
Gilliatt estremeceu.
--Casa-se miss Deruchette?
--Não. Mas ...
--Que quer dizer?
--Vá lá a casa delle, que ha de saber.
E o Sr. Landoys chicoteou o cavallo.
LIVRO QUINTO
O revolver.
I
A PALESTRA NA POUSADA JOÃO
O Sr. Clubin era o homem que espera a occasião.
Era baixo e amarello, com a força de um touro. O mar não podia com
elle. Tinha uma carne que parecia cera. Era da côr de uma tocha e tinha
nos olhos uma luz discreta. A sua memoria tinha um quê de imperturbavel
e especial. Vêr um homem uma vez era conserval-o como se fosse uma nota
em um registro. O olhar laconico apunhalava. A palpebra tirava a prova
de um rosto, e conservava-o; não importava que o rosto envelhecesse
depois, o Sr. Clubin não deixava de reconhecel-o. Era impossivel fugir
áquella memoria tenaz. O Sr. Clubin era breve, sóbrio, e frio; não
fazia gesto algum. Tinha uns ares de candura que prendiam logo. Muitas
pessoas acreditavam-n'o simplorio; trazia no rosto uma certa, ruga que
indicava uma espantosa estupidez. Não havia melhor marinheiro do que
elle. Não havia reputação de religiosidade e integridade maior que a
sua. Quem o suspeitasse é que era suspeito. Travara amizade com o Sr.
Rebuchet, cambista em S. Malo, rua de S. Vicente, ao lado do armeiro,
e o Sr. Rebuchet costumava dizer que confiaria a sua fabrica a Clubin.
O Sr. Clubin era viuvo. A mulher foi tão honesta como elle. Morreu
com a fama de uma virtude invencivel. Se o bailio lhe fizesse uma
declaração ella iria conta-lo ao rei, e se Nosso Senhor se apaixonasse
por ella iria contal-o ao padre vigario. O casal Clubin realizou em
Torteval o ideal do epitheto inglez _respectable._ A Sra. Clubin era o
cysne; o Sr. Clubin era o arminho. Morreria se lhe puzessem uma nodoa.
Nunca achou um alfinete que não fosse logo á cata do proprietario. Era
capaz de pôr em almoeda uma caixa de phosphoros se acaso a tivesse
achado na rua. Entrou uma vez em uma taberna em Saint-Servan e disse
ao taberneiro: almocei aqui ha tres annos e você enganou-se na conta;
e dizendo isto restituio ao taberneiro 75 centimos. Era uma grande
probidade, mordendo attentamente os beiços.
Parecia estar sempre á espera. De quem? Provavelmente dos velhacos.
Todas as terças-feiras levava a Durande de Guernesey a S. Malo. Chegava
a S. Malo na terça-feira á noite, demorava-se dous dias para fazer o
carregamento, e voltava a Guernesey na sexta-feira de manhã. Havia
então em S. Malo uma pequena hospedaria, situada no porto, que se
chamava a pousada João.
A construcção dos cáes actuaes fez demolir a pousada. Naquella época
vinha o mar até a porta S. Vicente e a porta de Dinan; S. Malo e S.
Servan communicavam-se nas marés baixas por meio de carrinhos que
rolavam e circulavam entre os navios em secco, evitando as boias, as
ancoras e os maçames, e arriscando-se às vezes a rasgar a coberta de
couro em alguma verga baixa. No intervallo de duas marés, os cocheiros
fustigavam os cavallos, naquella mesma arêa, onde, seis horas depois,
vinha o vento chicotear as vagas. Na mesma praia andavam outr'ora os
vinte e quatro cães, porteiros de S. Malo, que devoraram um official
de marinha em 1770. Tamanho zelo fez suprimir os cães. Já não se ouve
agora latidos nocturnos entre o pequeno e o grande Tallard.
O Sr. Clubin ia á pousada João. Era alli o escriptorio francez da
Durande. Os guardas da alfandega e os guardas da costa ião comer e
beber na pousada João. Faziam rancho á parte. Os guardas da alfandega
de Binic encontravam-se, vantajosamente para o serviço, com os guardas
da alfandega de S. Malo.
Também lá iam os mestres de navio, mas comiam em outra mesa.
O Sr. Clubin assentava-se ora n'uma, ora n'outra, mas preferia a dos
guardas á dos mestres. Era bem recebido em ambas.
As mesas eram bem servidas. Haviam as mais apuradas bebidas
estrangeiras para os maritimos expatriados. Um marinheiro gamenho de
Bilbáo acharia alli um copo de _helada._ Bebia-se _stuol_ como em
Greenwich, e _gueuse_, como em Anvers.
Capitães de longo curso e armadores tomavam ás vezes lugar na mesa dos
mestres de navio. Trocavam-se ahi noticias:
--Como vai o assucar?
--Pequenos lotes. Vende-se bem o assucar bruto; tres mil saccas de
Bombay e quinhentas barricas de Sagua.
--Ha de ver que o partido da direita ainda derruba o ministerio Villele.
--E o anil?
--Venderam-se apenas uns sete surrões de Guatemala.
--A _Nanine Julie_ ancorou. Lindo navio de Bretanha.
--As duas cidades do Rio da Prata estão outra vez desavindas.
--Quando Montevidéo engorda, Buenos-Ayres emmagrece.
--Foi preciso deitar ao mar a carga do _Regina Coeli_ condemnado em
Calháo.
--O cacáo vai andando; os saccos Caracas são cotados a 234, e os saccos
Trindade a 73.
--Parece que na revista do Campo de Marte ouvio-se gritar: abaixo os
ministros.
--Os couros salgados saladeros vendem-se, os dos bois a 60 frs. e o das
vaccas a 48.
--Já passaram o Balkan? O que faz Diebitsch?
--Em S. Francisco ha falta de anisette. O azeite Plagniol está calmo. O
queijo de Gruyére está a 32 frs. o quintal.
--Com que então Leão XII morreu?
--Etc., etc., etc.
Todas estas cousas eram ditas e commentadas no meio de grande barulho.
Á mesa dos guardas da alfandega e dos guardas da costa fallava-se menos.
A policia das costas e dos portos quer menos sonoridade e menos clareza
no dialogo.
A mesa dos mestres de navio era presidida por um velho capitão de longo
curso, o Sr. Gertrais-Gaboureau. Não era um homem, era um barometro. Os
habitos do mar deram-lhe uma espantosa infallibilidade de prognostico.
Elle decretava o tempo que devia haver no dia seguinte; ascultava o
vento; tomava o pulso á maré. Dizia á nuvem; mostra-me a tua lingua. A
lingua era o relampago. Era o doutor da vaga, da brisa e da lufada. O
oceano era o seu doente; fez uma viagem á roda do mundo como quem faz
uma clinica, examinando todos os climas na sua boa e má saude; sabia
a fundo a pathologia das estações. Enunciava factos como este:--o
barometro desceu uma vez em 1796 a tres linhas abaixo da tempestade.
Era marinheiro por amor. Odiava a Inglaterra tanto quanto estimava o
mar. Estudou cuidadosamente a marinha ingleza para conhecer os seus
lados fracos. Explicava em que ponto o _Sovereign_ de 1637 differia do
_Royal William_ de 1670 e de _Victory_ de 1755. Comparava os castellos
de pôpa. Lamentava as torres no tombadilho e os cestos de gavea
afunilados do _Great Harry_ de 1514, provavelmente no ponto de vista
da bala franceza que se aninhava perfeitamente naquellas superficies.
Para elle as nações só existião por suas instituições maritimas;
fazia synonymias extravagantes. Chamava a Inglaterra _Trinity House_,
a Escossia _Northern Commissioners_, e a Irlanda _Ballast Board._
Abundava de informações; era alphabeto e almanack. Sabia de cór a
portagem dos pharoes, principalmente inglezes; um _penny_ por tonelada
ao passar diante deste, um _farthing_ ao passar diante daquelle.
Dizia: o pharol de _Smalt Rock_, que consumia apenas duzentos galões
de azeite, consome agora quinhentos. Achando-se muito doente um dia, a
bordo, a tripulação que já o tinha por defunto, estava á roda de sua
maca, quando elle interrompeu os soluços da agonia para dar ao mestre
carpinteiro uma ordem relativa a um concerto do navio.
Era raro que o assumpto de conversa fosse sempre o mesmo na mesa dos
capitães e na mesa dos guardas. Apresentou-se, porém, o seguinte caso
nos primeiros dias do mez de Fevereiro, em que se passam os factos
que estamos contando. A gallera _Tamaulipas_, capitão Zuela, vinda do
Chile, e prestes a voltar, chamava a attenção das duas mesas. Na mesa
dos mestres fallou-se do carregamento, e na mesa dos guardas fallou-se
dos ares suspeitos do navio.
O capitão Zuela, de Copiapó, era chileno, um pouco columbiano; tinha
feito com independencia as guerras da independencia, acompanhando, ora
Bulivar, ora Morillo, conforme os lucros a haver. Tinha-se enriquecido
obsequiando a toda a gente. Não havia homem mais bourbonico, mais
bonapartista, mais absolutista, mais liberal, mais atheu e mais
catholico. Elle pertencia a este grande partido que se póde chamar o
partido Lucrativo. De tempos a tempos fazia apparições commerciaes
em França; e, a acreditar-se nos boatos, dava passagem a bordo aos
fugitivos, bancarroteiros ou proscriptos politicos, fossem quem fossem,
com tanto que pagassem. O meio de embarcal-os era simples. O fugitivo
esperava n'um ponto deserto da costa, e no momento de apparelhar,
Zuela destacava um escaler que ia buscal-o. Foi deste modo que na sua
precedente viagem fez evadir um homem implicado no processo Berthon, e
desta vez contava levar pessoas compromettidas na questão da Bidassoa.
A policia, já avisada, estava com o olho n'elle.
Era um tempo de fugas aquelle. A restauração era uma reacção; ora as
revoluções trazem emigrações, e as restaurações arrastam proscripções.
Durante os sete ou oito primeiros annos, depois da entrada dos
Bourbons, espalhou-se o terror em tudo, nas finanças, na industria,
no commercio, que sentiam tremer a terra e viam multiplicar-se as
falencias. Havia um _salve-se quem puder_ na politica. Lavalette
fugira; Lefebvre Desnouettes fugira; Delon fugira. Os tribunaes de
excepção trabalhavam; depois veio Trestaillon. Fugia-se á ponte de
Saumur, á explanada de Reole, ao muro do observatorio de Paris, á torre
de Taurias d'Avignon, tudo isso que se conserva de pé na historia,
vestigios da reacção, aonde se distingue ainda a sua mão sanguinolenta.
Em Londres, o processo Thisthewood, ramificado em França, em Paris
o processo Trogoff, ramificado na Belgica, na Suissa e na Italia,
multiplicaram os motivos da inquietação e desapparecimento, e
augmentaram essa profunda derrota subterranea, que deixava vasios os
mais altos lugares da ordem social de então. Pôr-se em segurança, era a
preoccupação universal. O espirito dos tribunaes prebostaes sobrevivera
á instituição. As condemnações eram feitas por complacencia. Fugiam
para o Texas, para o Perú, para o Mexico. Os homens da Loire,
salteadores então, paladinos hoje, tinham fundado o campo de Asylo.
Dizia uma canção de Beranger:
_Sauvages, nous sommes français;_
_Prenez pitié de notre gloire._
Expatriar-se era o recurso; porém, nada menos simples que fugir; este
monosyllabo encerra abysmos. Tudo é obstaculo para quem se esquiva.
Fugir é disfarçar-se. Pessoas importantes, e até illustres, viram-se
reduzidas aos expedientes dos malfeitores. E ainda assim sahiam-se mal.
Eram inverosimeis. Os seus habitos de franqueza tornava-lhes difficil
resvalar pelas malhas da evasão. Um gatuno fugitivo mostrava-se mais
correcto aos olhos da policia do que um general. Imaginem a innocencia
constrangida a disfarçar-se, a virtude contrafazendo a voz, a gloria
mascarando o rosto. Algum individuo que passasse com ar suspeito,
era uma reputação á cata de um passaporte falso. O ar embaraçado de
um fugitivo, não provava que elle deixasse de ser um heróe. Traços
fugazes e caracteristicos dos tempos, que a historia regular esquece,
mas que o verdadeiro pintor de um seculo deve rememorar. Atraz dos
homens honestos, fugiam os tratantes, menos vigiados, menos suspeitos.
Um tratante obrigado a eclipsar-se aproveitava-se da confusão, fazia
parte dos proscriptos, e muitas vezes, graças a uma arte apurada,
parecia naquelle crepusculo mais honesto que o honesto. Que ha ahi mais
acanhado que a probidade diante da justiça? Nada entende, nada finge.
Um falsario escapa-se mais facilmente que um convencional.
Cousa estranha! especialmente em relação aos tratantes, quasi se
póde dizer, que a evasão fazia subir o individuo. A quantidade de
civilisação que um velhaco levava de Paris ou de Londres valia-lhe por
dote nos paizes primitivos ou barbaros, recommendava-o e fazia delle um
iniciador. Era facil que um aventureiro, escapando ao codigo, chegasse
depois ao sacerdocio. Havia phantasmagoria na desapparição, e mais
de uma evasão tinha os resultados de um sonho. Uma fuga deste genero
levava ao desconhecido e ao chimerico. Tal bancarroteiro sahia de
Europa e apparecia mais tarde grão-visir em Mogol ou rei na Tasmania.
Ajudar as evasões era uma industria, e, visto a frequencia do
facto, uma industria lucrativa. Esta especulação completava certos
generos de commercio. Quem queria fugir para Inglaterra dirigia-se
aos contrabandistas quem queria fugir para a America dirigia-se aos
trapaceiros de longo curso, taes como Zuela.
II
CLUBIN DESCOBRE ALGUEM
Zuela ia comer algumas vezes á pousada João. O Sr. Clubin conhecia-o de
vista.
E o Sr. Clubin não era soberbo; não se desprezava conhecer de vista um
tratante. Ás vezes chegava mesmo a conhecel-os de facto, dando-lhes a
mão em plena rua. Fallava inglez com o smogler e engrolava hespanhol
com o contrabandista.
A este respeito tinha elle as seguintes maximas:
--Póde-se adquirir o bem, pelo conhecimento do mal.--O monteiro
conversa proveitosamente com o ladrão de caça.--O piloto deve sondar
o pirata; o pirata é um escolho.--Trato de provar um velhaco como o
medico prova o veneno.
Não tinha replica. Todos davam razão ao capitão Clubin. Era approvado
por não ter escrupulos tolos. Quem ousaria dizer mal delle? Tudo quanto
fazia era _para bem do serviço._ Nelle tudo era simples. Nada podia
compromettel-o. O crystal querendo manchar-se não pode. Esta confiança
era a justa recompensa de uma longa honestidade e é essa a excellencia
das reputações firmes. Fizesse o que fizesse o Sr. Clubin, todos lhe
viam malicia no sentido da virtude; tinha adquirido a impecabilidade;
e de mais a mais dizia-se que era muito esperto; deste ou daquelle
encontro que com outra pessoa seria suspeito, a sua probidade sahia
sempre com um relevo de habilidade. A fama de habilidade combinava-se
harmoniosamente com a fama de ingenuidade, sem contradicção alguma.
Ingenuo habil é cousa que existe. É uma das variedades do homem honesto
e das mais apreciadas. O Sr. Clubin era desses homens que, encontrados
em conversa intima com um larapio, ou um bandido, são recebidos,
comprehendidos, e mais respeitados, e têm ainda por si o piscar de
olhos satisfeito da estima publica.
O _Tamaulipas_ tinha completado o carregamento. Estava proximo a partir
e ia aparelhar.
Em uma terça-feira á tarde, ainda com sol, chegou a Durande a
Saint-Malo. O Sr. Clubin de pé no passadiço e dirigindo a manobra da
entrada, descobriu perto de Petit Bey, na praia, entre dous rochedos,
em um lugar muito solitario, dous homens conversando. Deitou-lhes o
oculo e reconheceu um dos homens. Era o capitão Zuela. Parece que
reconheceu tambem o outro.
O outro era alto, um pouco grizalho. Trazia o chapéo largo e o
vestuario grave dos Amigos. Era provavelmente um quaker. Baixava os
olhos com modestia.
Chegando á pousada João, o Sr. Clubin soube que o _Tamaulipas_ ia
aparelhar dentro de 10 dias.
Soube-se depois que elle tomara outras informações.
Á noite, entrou em casa do armeiro da rua de S. Vicente, e disse-lhe:
--Sabe o que é um revolver?
--Sei, respondeu elle, é americano.
--É uma pistolla que renova sempre a conversação.
--Na verdade, ella tem pergunta e resposta.
--E replica.
--É justo, Sr. Clubin. O cano é gyrante.
--E cinco ou seis balas.
O armeiro levantou o cantinho do beiço e fez ouvir aquelle estalo de
lingua, que, acompanhado de um movimento de cabeça, exprime a admiração.
--A arma é boa, Sr. Clubin. Creia que ha de vir a ser universal.
--Eu queria um revolver de seis tiros.
--Não tenho desses.
--Pois que, o Sr. não é armeiro?
--Mas ainda não tenho disso. Bem vê que é cousa nova. Em França só se
fazem pistolas.
--Diabo!
--É cousa que ainda não está no commercio.
--Diabo!
--Tenho pistolas excellentes.
--Quero um revolver.
--Convenho que é melhor. Mas, espere Sr. Clubin.
--O que é?
--Creio que ha um em Saint-Malo.
--Revolver?
--Sim.
--Para vender?
--Sim.
--Onde?
--Creio que sei. Hei de informar-me.
--Quando me dá a resposta?
--O revolver é bom.
--Quando devo voltar?
--Se eu lhe arranjo um revolver, é porque é bom.
--Quando me dá a resposta?
--Na sua primeira viagem.
--Não diga que é para mim.
III
CLUBIN LEVA UNS OBJECTOS E NÃO OS TRAZ
O Sr. Clubin fez o carregamento da Durande, embarcou o gado e alguns
passageiros, e, como de costume, sahio de Saint Malo para Guernesey na
sexta-feira de manhã.
Nesse mesmo dia quando o navio já estava ao largo o que permitte ao
capitão ausentar-se do tombadilho alguns momentos, Clubin entrou no
seu camarote, fechou-se, pegou em um saco de viagem que tinha, metteu
alguma roupa no compartimento elastico, biscoutos, latas de conserva,
algumas libras de cacáo, um chronometro e um oculo no compartimento
solido, e passou pelas argolas uma maroma preparada para içal-o se
fosse preciso. Depois desceu ao porão, entrou no deposito dos cabos e
viram-n'o subir com uma dessas cordas armadas de um gancho que servem
aos calafates no mar e aos ladrões em terra. Essas cordas facilitam a
escalada.
Chegando a Guernesey, Clubin foi a Torteval. Passou ahi trinta e seis
horas. Levou o saco e a corda, mas não voltou com elles.
Diga-mol-o uma vez por todas, o Guernesey de que se trata neste livro
é o antigo Guernesey que já não existe e seria impossivel achal-o
hoje, a não ser no campo. É ahi que elle existe vivo, mas nas cidades
morreu. A observação que fazemos a respeito de Guernesey deve ser
feita a respeito de Jersey. St. Helier vale Dieppe; St. Pierre Port
vale Lorient. Graças ao progresso, graças ao admiravel espirito de
iniciativa daquelle valente povo insular, tranformou-se tudo em
quarenta annos no archipelago da Mancha. Onde havia sombra ha luz.
Dito isto, continuemos. Naquelles tempos que, pelo affastado, já são
historicos, o contrabando activava-se no mar da Mancha. Abundavam os
navios trapaceiros, principalmente na costa de oeste de Guernesey. As
pessoas demasiado informadas e que sabem em todas as minucias o que
se passava ha quasi meio seculo, chegam a citar os nomes de muitos
desses navios quasi todos asturianos. O que é fora de duvida é que não
se passava semana, sem que apparecesse um ou dous, ora na bahia dos
Santos, ora em Plainmont. Parecia um serviço regular. Havia uma cava
de mar em Serk que se chamava e ainda se chama a _loja_, porque era
nessa gruta que a gente da terra ia comprar aos contrabandistas as
suas mercadorias de importação. Para as necessidades desse commercio
fallava-se na Mancha uma especie de lingua contrabandista, esquecida
hoje, e que estava para o hespanhol como o levantino para o italiano.