mesura graciosa á rapariga e retira-se. Lisa está bastante commovida, mas
muito contente de não ter já em sua casa o cavallete. No dia seguinte,
não falta a dar parte a Casimiro da visita que recebeu. Este não fica
satisfeito com isso; abana a cabeça murmurando:
—Ambrosina, que quer que a menina trabalhe para ella... Ambrosina,
amavel, affectuosa com a menina.... hum! isso não é natural; tome
cuidado, Lisa, não confie n’essa senhora, porque tudo isto esconde alguma
perfidia!
—Oh! sr. Casimiro, creio que não tem razão, e que d’esta vez é injusto
para com essa senhora; já não tenho nenhum receio d’ella; pelo contrario,
é uma coisa bem exquisita, parece-me que estou quasi a ter-lhe affeição...
—Ah! é que a menina não suspeita de nada, não desconfia dos laços que lhe
podem armar!
—Laços? oh! aquella senhora tem um sorriso encantador... isso não pode
occultar uma perfidia.
—Bem se vê que não conhece o mundo.
—Meu Deus! é então um conhecimento bem máu, pois que se deve sempre
desconfiar d’elle!
—D’esse modo, fará a obra que a senhora lhe deu?
—Sem duvida, são uns lenços magnificos para bordar... mas é obra que ha
de levar muito tempo.
—E irá levar-lh’os a casa quando estiverem promptos?
—Sim. Acaso não faço eu o mesmo á sr.ª Proh? porque havia de ser menos
cortez com esta senhora do primeiro andar?
Casimiro não diz nada, mas deixa Lisa, muito inquieto com a visita que
ella recebeu.
D’ahi a poucos dias cae doente a menina Angelina Proh; a mãe receia que
seja uma constipação de peito; o pae sustenta que é uma febre miliar,
e o menino Proh affirma que sua irmã está doente por ter comido uvada
de mais. Mas as indigestões são ás vezes perniciosas, e podem dar logar
a outras doenças; quer a uvada tenha ou não alguma coisa n’isso, o que
é certo é que a rapariga tem uma grande febre, uma sede ardente, e por
vezes um pouco de delirio.
Os Proh não têem creada, porque o ex-professor sustenta que, n’uma casa
onde ha duas mulheres, não se deve ter necessidade de tomar uma terceira
para os arranjos domesticos, e que seria isso um luxo inutil. Não ha pois
senão a sr.ª Proh para tractar de sua filha, porque o papá encerra-se na
sua dignidade, e o Fonfonsinho, como quebra tudo quanto apanha, não pode
ser utilizado. Como a joven Angelina tem estado bastante doente para que
seja mister velar junto d’ella de noite, a sr.ª Proh anda que não pode
comsigo, e diz um dia ao maride:
—Senhor, eu não posso mais; se isto continua, vou tambem caír doente; ha
duas noites que não durmo e eu não sou de ferro...
—Eu nunca disse que a senhora era de ferro, se as mulheres fossem de
ferro, seria isso bem incommodo nas relações que a natureza nos manda ter
com ellas.
—Vejamos, Castor, porque é que não quer tomar uma creada? a nossa posição
permitte-nos isso...
—A nossa posição é muito correcta como está: nós somos quatro, o
quadrado perfeito, uma pessoa de mais em casa desarranjaria o equilibrio
e a rectidão; não, a rectidão não é o termo próprio, devo dizer o
rectangulo...
—Oh! senhor, quanto me aborrece com os seus quadrados e as suas
combinações. Quer então que eu caia doente?
—Não, senhora, porque seria preciso dobrada tisana, dodrado xarope, e por
conseguinte seria dobrada despeza; não poderia ser esse o meu desejo.
—E’ todavia o que ha de acontecer se eu tiver de passar ainda esta noite
velando á cabeceira de nossa filha. Quer o seehor ficar?
—Eu? mas a senhora bem sabe que, em chegando a minha hora de dormir, é-me
impossivel resistir-lhe; torno-me um arganaz, um buzio, se acham melhor,
ainda que a comparação é estrambotica; eu por consequencia não seria de
nenhuma utilidade.
—Então é mister tomar uma enfermeira...
—Uma enfermeira! introduzir uma estranha nos meus lares! Nunca! isso é
estupido e perigoso.
—Entretanto, declaro-lhe que não quero passar em claro a noite proxima;
não poderia resistir... Ah! uma idéa!... a menina Lisa... sim, ella é
muito obsequiadora, não se negará a vir um instante revzar-me; esta não
dirá o senhor que é uma estranha... conhecemol-a perfeitamente.
—A menina Lisa... sim, essa mora no predio. Em rigor, podemos occupal-a.
—Subo immediatamente a casa d’ella; quero estar certa de ter alguem esta
noite ao pé de minha filha.
Lisa fica menos admirada vendo entrar em sua casa a vizinha do terceiro
andar, para quem tem trabalhado muitas vezes. A sr.ª Proh explica-lhe
immediatamente o motivo da sua visita, e a rapariga responde-lhe:
—Oh! minha senhora, eu estimaria muito poder ser-lhe prestavel; mas, para
ir para sua casa, teria de deixar minha avó...
—Mas sua avó, emquanto está a dormir não tem precisão da menina;
lembre-se de que pode ir lá para baixo ás dez horas da noite, e pela
manhã ás sete e meia, oito horas quando muito, voltará para junto d’ella.
Demais, sua avó não está melhor?
—Sim, minha senhora, graças ao vinho quinado, passa muito melhor desde
certo tempo para cá. Não é verdade, avósinha, que vae agora melhor?
A velha levanta-se um poucochinho na cama, dizendo:
—Sim, minha filha, sim, vou melhor. Ah! é que tu tractas bem de mim;
e depois déste-me uma colhér de prata, e isso deu-me grande prazer.
Mostra-a lá á nossa vizinha.
—Oh! avósinha, isso pouco interessa a esta senhora.
No entanto, para fazer a vontade á avó, Lisa mostra á sr.ª Proh a colhér
de prata, que é muito simples.
—É uma prova de que a menina faz as suas economias, diz Celeste, dou-lhe
os meus parabens...
Depois a sr.ª Proh approxima-se da paralytica, e diz-lhe:
—Não é verdade que a senhora poderia dispensar a sua neta por uma noite,
e permittir que ella venha velar á cabeceira de minha filha, que está
doente? desceria só ás dez horas da noite e voltaria logo de manhã; oh!
com isso me faria um grande serviço.
—Sim, sim, pode ir; vae, Lisa, para obsequiares a senhora. Bem sabes que
eu, em adormecendo á noite, não tenho mais precisão de ti. Oh! eu estou
melhor.
—Como! pois a avósinha consente em que eu a deixe uma noite inteira?
—Sim, minha filha, sim; é preciso obsequiar esta senhora.
—Pois bem, visto que a avósinha consente. Minha senhora, esta noite ás
dez horas, estarei em sua casa.
—Ah! muito agradecida, a menina é muito amavel; retiro-me sem mais
demora, porque tenho que preparar a cabeça de vitella para meu marido;
até á noite.
Ás dez horas em ponto, assim que adquire a certeza de que sua avó dorme
socegadamente, Lisa sae do seu quarto e dirige-se a casa da sr.ª Proh.
Esta aguardava-a com impaciencia, porque tinha muita necessidade de
dormir. Leva a sua joven vizinha para o quarto de cama de sua filha, e
ahi a deixa, dizendo-lhe:
—Angelina está hoje melhor, creio que não terá uma noite desassocegada;
em todo o caso, aqui está em cima d’esta mesa tudo o que é preciso: a
tisana sobre a lampada de espirito de vinho, assucar para a tisana, uma
colherinha para a mecher, depois uma colhér de sopa para dar d’este
xarope que vê n’esta garrafa; mas isto, sómente lh’o dará se ella não
puder dormir e estiver agitada; comprehende bem?
—Sim, minha senhora, tudo isso não é difficil.
—Se por acaso sobrevier alguma coisa extraordinaria, acorde-me, eu durmo
aqui no quarto do lado; mas espero que não acontecerá nada. Aqui tem uma
grande poltrona onde ficará perfeitamente... e livros. A menina gosta de
ler?
—Oh! muito, minha senhora.
—Então aqui tem um romance que a ha de captivar, está cheio de crimes,
assassinatos, enforcamentos, torturas, é muito interessante. Angelina
já o leu duas vezes; é desde esse tempo que ella tem tido delirio. Mas
eu vou-me deitar, porque estou com muito somno; os meus homens dormem já
como pedra em poco... vou fazer outro tanto; minha filha está socegada,
não tenho precisão de lhe dizer que é mister não a acordar.
—Oh! pode ir descansada, minha senhora.
—Não se esqueça das minhas instrucções: uma colhér de xarope, sómente se
ella estiver agitada.
—Sim, minha senhora.
E a sr.ª Proh retira-se. Lisa, que não deixou de trazer trabalho para
fazer, senta-se a bordar. Passado algum tempo a doente pede de beber,
e Lisa apressa-se a dar-lhe um copo de tisana. Angelina reconhece-a, e
diz-lhe:
—Ah! é a menina que me está velando... sim a mamã tinha-me prevenido...
—Como se acha a menina?
—Muito melhor.
—Quer uma colhér de xarope?
—Não, não é preciso... sinto que vou outra vez adormecer; agradecida.
Effectivamente, a menina Proh torna em breve a pegar no somno. Lisa
volta ao seu bordado, mas este genero de trabalho cansa muito a vista.
Larga-o pois por um momento, e cede ao desejo de conhecer o romance que a
sr.ª Proh lhe gabou. Senta-se para isso na grande poltrona; mas, no fim
d’algum tempo, quer por fadiga quer por effeito do romance, Lisa adormece
profundamente.
São seis horas da manhã quando a sr.ª Proh entra no quarto da filha, e
ainda Lisa esfrega os olhos.
—Então, como se passou esta noite? pergunta Celeste. A nossa doente ainda
está a dormir, é bom signal.
—Oh! minha senhora, a noite foi muito socegada; a menina só pediu de
beber uma vez.
—Muito bem; então não tomou o xarope?
—Não, minha senhora.
—Ás mil maravilhas! Decididamente, creio que Angelina vae entrar em
convalescença.
—Minha senhora, visto que está levantada, permitte-me que volte
immediatamente para junto de minha avó, não é verdade?
—Sim, certamente, vá, minha menina, nós nos entenderemos a respeito da
remuneração pela sua noite de véla.
—Oh! minha senhora, não falemos n’isso, estimo muito ter podido
obsequial-a!...
E a joven enfermeira, com a pressa de subir a sua casa, está já na saleta
de entrada, quando a voz da sr.ª Proh a chama:
—Lisa, Lisa!...
—O que quer, minha senhora?
—Onde metteu a menina a colhér do xarope!... não a acho.
—Não a acha!... deve estar no mesmo sitio, minha senhora; pois que não
tive precisão de me servir d’ella...
—Diz que não se serviu d’ella!... comtudo, a colhér não está já em cima
da mesa... olhe, veja a menina...
Lisa vê em cima da mesa, depois debaixo, depois em todos os moveis, em
toda a parte, e a sr.ª Proh faz outro tanto do seu lado; mas não se acha
a colhér.
—É singular! diz Lisa.
—E mais que singular! exclama Celeste, cuja physionomia tomou já um
aspecto severo. Emfim, a menina bem sabe que eu deixei-lhe sobre esta
mesa duas colheres de prata, uma pequena e uma grande, a pequena aqui
está, mas que é feito da grande? é preciso que appareça, é preciso!
não entrou aqui outra pessoa além da menina... logo é a menina a unica
responsavel pela colhér...e a menina ia saindo com tanta pressa...
—Oh! minha senhora, pois pode suspeitar que eu levava a sua colhér! ah!
veja bem, minha senhora, esquadrinhe tudo... veja nas minhas algibeiras,
no meu vestido. Oh! meu Deus! suspeitar-me de-furtar...
—Eu não digo isso; mas algumas vezes, inadvertencia... sem fazer reparo...
—Oh! veja, minha senhora, peço-lhe eu, faça favor de me revistar!...
A sr.ª Proh apressa-se a passar revista ás algibeiras de Lisa; apalpa-a
por toda a parte, ausculta-a como faria um cirurgião, examina-lhe até os
sapatos, ainda que a rapariga tem o pé tão pequeno que o seu calçado mal
poderia conter uma colhér pequena. Esta inspecção severa prova á esposa
do antigo professor que Lisa não levava a colhér.
—Então, minha senhora, está agora persuadida de que eu não levava nada?
diz Lisa.
—De certo, bem vejo que a não tem em si, mas então o que fez a menina á
colhér? vamos... procure... atirou certamente alguma agua pela janella e
deitou fóra tambem a colhér.
—Não, minha senhora, não atirei nada pela janella.
—Ou deixou-a caír n’alguma parte?
—Eu não saí d’este quarto, minha senhora; não fui ao patamar...
—Oh! ao patamar, de facto, não teria podido lá ir, porque eu fecho sempre
com tres voltas a porta que dá para a escada; e tem um ferrolho de
segredo... acabo agora de a abrir...
—De modo que a senhora está bem certa de que eu não saí de sua casa esta
noite durante o seu somno...
—Valha-me Deus! não digo o contrario!... mas tudo isso não me restitue a
minha colhér...
—Ha-de se achar, minha senhora, ha de se achar no momento em que menos se
pensar n’ella.
—Mas onde diabo a escondeu?...
—Para que quer a senhora que eu a tenha escondido? com que fim? porque
motivo? Volto para juncto de minha avó, que deve estar agora acordada...
a senhora fica bem certa de que não levo a sua colhér, não é verdade?
—Estou certa de que não a tem em si... mas que diabo fez d’ella?
—Oh! se é preciso pagar-lhe o valor da colhér, eu lh’o pagarei, chegarei
a isso á força de trabalho; mas, por quem é, não fale em similhante coisa
a minha avó, que lhe faria muito mal...
—Está bem, menina, está bem, falarei a esse respeito com o sr. Proh.
Lisa sobe para sua casa muito triste e com os olhos rasos de lagrimas,
dizendo comsigo:
—Suspeitarem de ter furtado! oh! é horrivel isto! O sr. Casimiro tinha
muita razão em dizer que desconfiasse do mundo! E todavia esta senhora
não pode querer affligir-me; mas que foi então feito d’aquella maldita
colhér!...
XVI
Mais um caso extraordinario
A sr.ª Proh não falta a contar esta aventura a seu esposo, e o professor
exclama:
—Não introduza nunca pessoas estranhas nos seus lares, eu tinha-a
prevenido; ahi estamos com uma colhér de menos, por sua culpa.
—Mas, senhor, a menina Lisa não é uma estranha... demais estou bem
persuadida de que ella não levou a nossa colhér.
—Então foi a colhér que se foi embora sósinha.
—Eu apalpei-a, revistei-a bem por toda a parte e ella não a tinha.
—Pensou a senhora revistar tudo... ha sitios mysteriosos onde se escondem
muitas coisas; pergunte aos ladrões onde escondem os diamantes que
roubaram!...
—Oh! senhor, uma colhér de sopa não se esconde como um diamante, ainda se
fosse uma das pequenas!...
—Senhora, ha pessoas que teem grandes facilidades.
Esta historia da colhér de prata desapparecida não tarda a saber-se em
todo o predio, e a ser o assumpto de todas as conversações. Adriana, que
a ouve contar no cubículo do porteiro, não falta a ir referil-a a sua
ama, que a escuta muito atenta, mas sem fazer reflexão.
—A senhora deu obra a fazer áquella rapariga, diz Adriana, mas quando
ella aqui vier trazel-a, terei o cuidado de não lhe tirar a vista de
cima, e de não deixar por ahi nada ao alcance da mão.
—Quando ella aqui vier, diz Ambrosina, ficará a menina no seu quarto até
que eu a chame. Não se esqueça disto...
Adriana retira-se resmungando. O porteiro revistou o pateo e os canos das
aguas; está persuadido de que a menina Lisa não é culpada. O Fonfonsinho
canta na escada:
Ficámos sem uma colhér de prata,
Desde que Lisa velou minha mana
E Rouflard, que ouve isto, apanha o rapazito pelos fundilhos das calças e
suspende-o no ar, dizendo-lhe:
—Aposto que foste tu, velhaquete, que pregaste a peça; provavelmente
foste buscar a colhér durante a noite para tomares xarope.
—Não é verdade... eu durmo com o papá, não me levanto de noite; isso é
bom para o senhor.
—Cala-te, sapo!...
Os gritos do rapazinho fazem acudir os esposos Proh, assim como o jovem
pintor. Ao saber dos boatos que correm a respeito de Lisa, Casimiro fica
furioso; dirige-se à sr.ª Proh:
—Espero, minha senhora, que não suspeite que Lisa lhe tenha furtado essa
peça de baixela que lhe falta?
—Eu não digo que foi ela que a tirou, mas digo que foi quem a perdeu;
acha que isto me possa ser agradavel?
—Minha senhora, eu fico responsavel por essa menina, e, aconteça o que
acontecer, a senhora não perderá nada.
—E eu, exclama Rouflard, repito que a menina Lisa é incapaz de commetter
uma acção feia! é um modelo de probidade, como de juizo, de prudencia, de
bondade. Quem trabalha sem descanço para sustentar uma velha paralytica,
não deve um instante ser suspeitada.
—Mas parece que a velha tem um grande amor pelas colhéres de prata,
replica a sr.ª Proh, porque ella propria me mostrou uma que a sua Lisa
lhe tinha comprado...
—O que prova á senhora que ella não tem precisão da sua.
—Abundancia de bens não prejudica, diz o professor.
—Ahi está uma reflexão bem digna do sr. Prorata.
Os esposos Proh voltam para sua casa cheios de colera. Casimiro
apressa-se a subir a casa de Lisa. Acha-a com os olhos vermelhos
de chorar; ella põe um dedo na bocca mostrando-lhe a avó. Casimiro
comprehende que a rapariga occulta á pobre velha o caso da colhér; vae
sentar-se ao pé da donzella e pega-lhe na mão, murmurando muito baixo:
—Tem então ainda algum desgosto, Lisa, a menina que merecia ser tão feliz?
—Ah! sr. Casimiro, o senhor sabe sem duvida a historia da colhér, ouço
d’aqui o filho da sr.ª Proh que a canta na escada.
—Sim... eu sei pouco mais ou menos...
—Mas não acredita que eu tenha querido tirar uma colhér de prata á sr.ª
Proh, não é verdade?
—Pois a menina pode fazer-me similhante pergunta! acaso não sei eu o que
a menina vale! ah! eu faço-lhe justiça, a sua alma é pura como o seu
olhar...
—E a senhora Montémolly, tem-n’a visto? sabe o que ella pensa a este
respeito?
—Não tenho visto essa senhora, não a encontro nunca, ella deve pensar
como quasi todos os outros inquilinos do predio, que anda aqui
brincadeira, ou antes maldade do rapazinho.
—Não, elle não veiu ao quarto.
—Mas a menina não dormiu um só instante em toda a noite?
—Sim... dormi... até bastante tempo.
—Pois então alguem poude entrar durante o seu somno, e tirar essa colhér;
mas esteja socegada aposto que brevemente descobriremos essa pessoa...
São passados seis dias, e os Proh não acharam ainda a colhér. Entretanto
Ambrosina levou para sua casa a filha da sua amiga Florentina,
emquanto esta foi tomar banhos do mar. A pequenita tem oito annos, e
é muito bonita; mas sobrevem-lhe o sarampo, acompanhado d’uma febre
violentissima. A menina Adriana, que tem muito medo de que se lhe pegue o
sarampo, não se approxima do leito da doentinha senão de má vontade.
Então Ambrosina sobe de manhã cedo a casa de Lisa, que primeiramente se
põe a tremer ao seu aspecto, mas logo se tranquilliza ao ver o sorriso
d’esta senhora, que lhe diz:
—Menina, venho pedir-lhe um obsequio; tenho em minha casa a filha d’uma
das minhas melhores amigas, que m’a confiou emquanto dura uma viagem que
ella era obrigada a fazer; tenho os maiores cuidados com a Adelinasinha;
mas este anjinho está n’este momento com sarampo e com uma febre
ardentissima; a minha creada, que tem medo do sarampo, não tracta d’ella
muito bem. Emfim, a menina fazia-me um grandissimo obsequio se quizesse
vir passar esta noite á cabeceira da doentinha. Como sei que teve essa
complacencia para com a sr.ª Proh, pensei que se não recusaria a fazer
outro tanto por mim.
—Sim, minha senhora, responde Lisa suspirando sim, passei uma noite á
cabeceira da filha da sr.ª Proh, mas deve saber que desgosto isso me
occasionou; desappareceu n’essa noite uma colhér de prata, que não se
achou mais; a sr.ª Proh bem sabe que não fui eu que lh’a tirei; mas,
apesar d’isso, quem sabe! ha talvez ainda pessoas que suspeitam de mim.
—Este meu passo, deve provar-lhe que eu não sou d’essas pessoas; ao
contrario, pedindo-lhe que vá ficar de noite em minha casa, pensei que
isso poria termo a todos esses contos inconvenientes. A menina não se
pode recusar...
—Mas, minha senhora...
—Não lhe peço que vá ás dez horas, desça um pouco antes da meia noite;
depois, voltará cedo para sua casa. Bem vê que sua avó não terá tempo de
dar pela sua ausencia...
—Minha senhora, não me atrevo a recusar; entretanto isto custa-me muito;
tenho tanto desgosto pela noite que passei em casa da sr.ª Proh.
—Isso é uma creancice; em minha casa nada tem que recear. Até á noite,
alli pela volta da meia noite... ou antes se quizer.
—Oh! prefiro ir tarde.
—Muito bem, está tractado; espero pela menina, porque quero eu mesma
apresental-a no quarto da minha doentinha.
Ambrosina retira-se. Lisa deseja ardentemente ver Casimiro para lhe dar
parte da sua nova contrariedade; o joven pintor não se faz esperar muito
tempo. Ao saber o que a sr.ª Montémolly acaba de pedir a Lisa, fica
bastante surprehendido, e parece não gostar de que esta tenha acceitado.
—Acaso fiz mal em acceder a ir ficar de noite em casa d’essa senhora? diz
a donzella.
—A menina não se podia excusar, comprehendo, tendo-se já prestado a ir a
casa da sr.ª Proh.
—E depois, aquella senhora é agora muito amavel commigo; bem vê que não
dá credito aos aleives que se teem espalhado por causa d’aquella colhér
perdida.
—Vejo; effectivamente, o procedimento d’essa senhora prova que ella
faz-lhe justiça; e todavia custa-me a acreditar que ella lhe queira bem...
—Porque não?
—Ah! porque... emfim, vá esta noite velar a Adelinasinha, mas ámanhã, de
manhã cedo, eu espreitarei a sua volta para casa.
—Oh! voltarei muito cedo.
É meia noite menos alguns minutos quando Lisa bate á porta da senhora do
primeiro andar. É a gorda Adriana que vem abrir-lh’a e a introduz junto
de sua ama, que recebe a donzella com um sorriso que não é talvez bem
franco, mas que quer parecel-o. A sr.ª Montémolly apressa-se a conduzir
Lisa para um lindo quarto onde dorme a doentinha, dizendo:
—Puz Adelina no quarto que reservo para a mãe d’ella, quando habita no
campo e vem por acaso a Paris. Penso que a menina ficará aqui muito bem;
por este corredor pode-se sair sem haver necessidade de acordar ninguem.
—Oh! minha senhora, eu não terei necessidade de sair esta noite, para quê?
—Ahi tem uma poltrona onde poderá repousar e mesmo dormir um pouco, se a
doentinha estiver em socego. Aqui tem livros... Ah! quer cear?
—Oh! não, minha senhora, eu nunca ceio.
—Em todo o caso, se tiver fome, aqui tem bolos, biscoitos e vinho. Isto
é tisana para a pequena; n’esta garrafinha está um calmante. E então,
aquella tola da Adriana não poz aqui uma colhér! Adriana! Adriana!...
A creada acode esfregando os olhos.
—Adriana, traga para aqui uma colhér grande e algumas pequenas; se esta
menina quizer tomar vinho com assucar, não se ha de servir da mesma
colhér que empregar para a tisana.
A creada sae, e volta logo em seguida com uma colhér grande e duas
pequenas, que ella põe em cima da mesa de cabeceira, dizendo:
—Isto faz uma colhér grande e tres pequenas... porque já cá estava uma.
—Está bem, Adriana, está bem! ninguem lhe pergunta a conta.
—Mas eu desejo muito fazer ver isto á senhora.
—Vá-se deitar.
—Isso e o que eu quero é a mesma coisa.
—Agora, menina Lisa, vou tambem descançar... a menina tem o que lhe é
preciso; não deseja mais nada?
—Não, minha senhora, muito agradecida.
—Quando a pequenita acordar, é preciso fazel-a beber; depois, se tossir,
deve-lhe dar o calmante.
—Pode ir socegada, minha senhora.
—Boa noite, até ámanhã. Virei cedo saber noticias da minha Adelina.
Lisa fica só. Põe-se a admirar o quarto onde se acha; a mobilia é toda
nova e d’um gosto lindo.
—Que felicidade não é viver n’um aposento tão bonito, diz ella comsigo;
mas a final de contas, tambem aqui se pode estar muito doente, e ter
tanto desgosto como n’um modesto quarto de qualquer agua-furtada; eis
aqui uns livros, mas não lerei nenhum, trouxe o meu trabalho, vou
trabalhar.
Lisa deita-se ao bordado. D’ahi a pouco a Adelinasinha acorda, e ella
dá-lhe de beber; um pouco mais tarde a creança tosse, e ella faz-lhe
tomar uma colhér do calmante. Assim se passa uma parte da noite. Pela
volta das tres horas, o somno apodera-se de Lisa, que procura em vão
resistir-lhe porque n’ella a necessidade de dormir era tão imperiosa que
não a podia vencer. Mas, como a sua doentinha dorme mui socegadamente, a
joven enfermeira não tarda a fazer outro tanto.
Cerca das sete horas da manhã, Lisa acorda, e quasi no mesmo instante,
abre-se uma porta e aparece a sr.ª Montémolly embrulhada n’um lindo
roupão. Approxima-se da cama dizendo:
—Então, como vae a pequenita? passou bem a noite?
—Sim, minha senhora, muito bem; a menina tossiu pouco e dormiu
optimamente; eu mesma cedi um pouco ao somno esta madrugada.
—Não ha mal nenhum n’isso, visto que a pequena não precisava de nada. Ah!
ahi acorda ella. Bons dias, Adelina, como te sentes esta manhã?
A pequenita responde que se sente melhor, mas põe-se a tossir; Ambrosina
exclama logo:
—Dê-me uma colhér do calmante, para eu lh’o fazer tomar; isso ha de
aplacar-lhe a tosse.
Lisa corre á mesa onde estava o frasquinho e a colhér.
—Então, dê-me esse calmante, torna Ambrosina, bem ouve a creança estar a
tossir...
—Sim, minha senhora, sim... mas é que... não acho a colhér...
—É que a pôz n’outro sitio... faça favor de a procurar...
—Valha-me Deus! é o que eu estou fazendo, minha senhora; mas não percebo
isto... não a vejo...
—Mas a menina sabe muito bem que lhe ficou aqui uma, não é verdade?
—De certo, minha senhora, pois que me servi d’ella duas vezes esta
noite...
—Então é que procura mal. Adriana! Adriana!... ah! é capaz de estar ainda
a dormir... Adriana!...