Casimiro sae immediatamente para o patamar; Ambrosina, furiosa de ciumes,

hesita em saír, e olha para Lisa, que parece sempre pedir-lhe que se

cale, mostrando-lhe o leito da enferma. A zelosa dama decide-se emfim,

sae do quarto, depois de ter lançado sobre a rapariga um olhar ameaçador,

depois desce atraz de Casimiro, que entra para sua casa. Ella entra

tambem, e deita um olhar furioso sobre Rouflard, que se afasta encolhendo

os hombros e olha para o pintor como para lhe dizer:

—Não é culpa minha; o senhor é que não teve a prudencia necessaria.

Ambrosina entra no _atelier_, e atira comsigo para uma poltrona,

exclamando:

—Ha muito tempo que duram estes amores, senhor, e que esta rapariga é sua

amante?

Casimiro, que recobrou todo o seu socego, põe-se a trabalhar na sua

obrasinha, e responde:

—Minha senhora, o ciume cega-a e faz-lhe dizer coisas indignas d’uma

mulher que se preza. Estou fazendo o retrato d’uma menina que mora no meu

predio; parece-me que isto é uma coisa que me é permittida, pois que o

meu officio é tirar retratos. Achei alli uma cabeça encantadora, senti

o desejo de a reproduzir na tela, tudo isto é muito natural. Propuz á

menina Lisa que me servisse de modelo; ella a principio recusou-se por

muito tempo, porque não quer deixar a avó um unico instante. Eu disse-lhe

que iria trabalhar em sua casa, e ella recusava-se ainda; mas ganha

apenas com que prover á sua existencia, e a doença de sua avó exige por

vezes gastos inesperados; fiz comprehender a esta menina que, consentindo

em me servir de modelo melhoraria a sua situação, e ella finalmente

cedeu. A senhora pergunta-me desde quando sou amante d’essa pobre menina.

Ah! se a conhecesse, não teria similhante pensamento! ella é recatada,

honesta, não pensa senão no seu trabalho, em alliviar e consolar a sua

velha doente, e eu, deante d’um procedimento tão digno, tão puro,

ter-me-hia envergonhado de lhe dirigir uma unica palavra de amor.

A sr.ª Montémolly, que tem escutado tudo isto com impaciencia batendo

muitas vezes com o pé no sobrado, assim que Casimiro acabou de falar,

exclama:

—O senhor pensa que vou dar credito ás suas historias, aos seus contos!

ao que parece, tem-me por tola! O senhor não tem dito uma palavra de amor

a essa rapariga? O que estava então a fazer quando eu entrei? não estavam

em atitude de quem trabalha, nem o senhor nem o seu modelo, olhavam um

para o outro muito attentos, como se quizessem comer-se com os olhos; não

ha necessidade de se falar de amor, quando se olha assim para alguem; os

olhos dizem o bastante! e se o senhor não tivesse pensado em vir a ser

amante d’essa rapariga, acaso teria feito um mysterio d’esse retrato, das

suas idas ao quinto andar? E que tenciona então fazer do retrato d’essa

menina?

—É um estudo, pol-o-hei no meu _atelier_.

—Pois saiba que o hei-de de fazer em tiras! E esse miseravel Rouflard, a

quem o senhor tinha ensinado o recado, e que me disse que tinha ido ao

Louvre! Estavam todos combinados para zombarem de mim!...

—Eu não ensinei recado nenhum a Rouflard, elle disse-lhe o que quiz.

—Bom! basta! para que não torne mais a acontecer similhante coisa, o

senhor vai já deixar esta casa e não terá o capricho de subir todas as

manhãs ao quinto andar; venha commigo é um momento emquanto lhe arranjo

uma casa decente; mandarei buscar os seus moveis.

Casimiro encolhe os hombros, e continua a pintar dizendo:

—A senhora está doida!

—Como é que o senhor disse?

—Que a senhora não tem senso commum! e que eu não desejo mudar-me...

—Não quer mudar-se para não deixar a rapariga da agua-furtada?

—A rapariga da agua-furtada não entra para nada na minha resolução; não

quero deixar esta casa, porque não quero fazer as suas vontades, porque

estou cansado de ser escravo, e porque é tempo que isto acabe.

—Ah! ahi está aonde o senhor queria chegar; é um rompimento que me

propõe!...

—Será um rompimento se a senhora quizer, mas repito-lhe que não me quero

submetter mais a todos os seus caprichos, e que me não mudarei.

—Casimiro! tome cuidado, se fica n’esta casa, não lh’o perdoarei...

—Hei de ficar.

—E é a essa delambida que o senhor me sacrifica! Oh! é indigno! é infame!

—Nada de palavrões, minha senhora, bem sabe que commigo perdem o seu

effeito; eu não a sacrifico a ninguem. Digo-lhe que não quero ser mais

seu escravo, que quero ser senhor de mim, se isto lhe não convem, tanto

peior!

—É porque já me não ama que o senhor me fala assim!

—Olhe, Ambrosina, seja franca, se eu fizesse o que me ordena, havia de

desprezar-me e teria razão.

—Oh! o senhor é um traidor, tem zombado commigo, mas não quero continuar

a ser enganada! depois de tudo quanto eu tenho feito por sua causa...

—Ah! eu estava á espera d’essa phrase! teria faltado á situação!

Effectivamente a senhora tem feito muito por mim, eu não me esqueço,

permitta-me sómente dizer-lhe que era sempre contra a minha vontade;

que ha muito tempo que eu me queria dar ao trabalho e que a senhora

incessantemente me impedia de o fazer, porque queria ter-me

constantemente nas suas rêdes, impedir-me de ser livre emfim e de poder

tomar qualquer resolução sem a consultar. Se a fortuna um dia me fôr

favoravel, creia, minha senhora, que terei muito prazer em pagar tudo

quanto lhe devo!

—Casimiro, esqueça-se do que eu acabo de dizer, o ciume faz-me perder a

cabeça, vamos, ceda-me ainda por esta vez, peço-lhe eu, venha commigo,

deixe esta casa... e não lhe falarei mais n’essa menina da agua-furtada...

—As suas instancias são inuteis, a minha resolução é inabalavel, não saio

d’aqui.

Ambrosina ergue-se furiosa, dá alguns passos pelo quarto, pára deante de

Casimiro, e exclama:

—Então, senhor, está tudo acabado entre nós!

—Como a senhora quizer.

—Sim, senhor, nunca mais na minha vida o tornarei a vêr!...

Depois de haver dito estas palavras, Ambrosina sae arrebatadamente,

fechando a porta com estrondo, desce a escada sem parar, depois atravessa

o pateo, passa por deante do porteiro que lhe varre para cima, e dá

alguns passos na rua. Mas alli, pára, volta-se, olha para a casa d’onde

acaba de sair, e vê um rotulo pendurado por cima da porta. Entra

immediatamente na casa e diz ao porteiro, que está ainda no pateo:

—Tem cá alguns quartos para arrendar? vi um rotulo.

—Sim, minha senhora, um magnifico primeiro andar, com sete casas, todo

forrado de novo, e uma bella adega!

—Quando está desoccupado?

—D’aqui a dez dias, minha senhora...

—Fica por minha conta...

—O preço é de dois mil e duzentos francos.

—Muito bem, arrendo-o eu.

—Mas a senhora não o viu, se quer subir, os inquilinos saíram agora

mesmo...

—Não é preciso, repito-lhe que eu arrendo a casa. Tome, aqui tem o

signal...

E Ambrosina mette uma moeda de vinte francos na mão de Chausson,

accrescentando:

—Tome; mas ficar-lhe-hei muito agradecida se não disser ao sr. Casimiro

que fui eu que arrendei a casa, aqui tem a minha morada e o meu nome...

se quizer ir tirar informações...

—Oh! minha senhora, eu bem vejo que não é preciso, quando se tem maneiras

como a senhora; demais, a senhora é conhecida do sr. Casimiro!

—Tome; aqui tem mais vinte francos, seja discreto, que não ficarei

sómente n’isto...

—Estarei ás ordens da senhora tanto de dia como de noite, sempre

prompto!...

Ambrosina retira-se, e Chausson admira as duas moedas de vinte francos,

dizendo comsigo:

—Isto é que é a nata das inquilinas! logo eu estava indo tirar

informações!...

XIV

A senhora do primeiro andar

Dez minutos depois da saída de Ambrosina, subia Casimiro ao quinto andar

e entrava em casa da sua joven vizinha.

Lisa está trabalhando, mas grossas lagrimas lhe rebentam dos olhos e por

momentos caem sobre a sua costura. O seu lindo rosto parece ainda mais

seductor sob esta nuvem de tristeza espalhada por todas as suas feições.

Ao vêr Casimiro, o seu primeiro movimento é limpar os olhos e esforçar-se

por sorrir.

Mas o rapaz, que já lhe viu as lagrimas, apressa-se a correr para ella,

exclamando:

—Lisa, está chorando, e sou eu a causa da sua tristeza. Ah! perdôe-me, se

soubesse quanto estou afflicto pelo que succedeu.

—Oh! eu não lhe quero mal, não chorava...

—Chorava, sim, em vão procura occultar-m’o.

—É sómente, porque sinto haver sido a causa de que aquella senhora

ralhasse com o sr. Casimiro; ella parecia muito encolerisada, disse que o

senhor já não cuida do seu retrato e que é por culpa minha. Bem vê que

fiz mal em consentir que fizesse o meu; mas está tudo acabado; não lhe

servirei mais de modelo; poderá assim retratar aquella senhora; não lhe

farei mais perder o seu tempo...

—Não diga isso, Lisa, continuarei a retratal-a como de costume...

—Oh! não, aquella senhora não quer; se ella voltasse e o encontrasse

aqui, teriamos nova scena, isto assusta minha avó, e eu não quero...

—Aquella senhora não voltará aqui; demais, não tem o direito de me

impedir de fazer o que me agrada; conheço-a ha muito tempo, ella estava

habituada a dar-me conselhos e eu ouvia-a como se ouve um antigo

conhecimento...

—Aquella senhora é mais velha que o sr. Casimiro?...

—Sim, é por isso que eu lhe mostrava uma certa deferencia. Mas não é

razão para que ella me tracte como uma creança...

—E é bem bonita, aquella senhora, mas deitava-me uns olhos cheios de

odio, que me faziam muita pena...

—Não pense mais n’ella, não tornará a vel-a.

—Parece-me que teria muito gosto em a ver, se ella me não tivesse deitado

uns olhos tão terriveis. Sr. Casimiro, é preciso levar o seu cavallete e

não vir mais aqui pintar...

—Minha querida vizinha, espero que terá a bondade de me dar ainda as

sessões de que necessito, não ha de querer que eu deixe um trabalho

imperfeito; a sua cabeça é um estudo que me fará muita honra, assim o

espero; permitta-me acabal-o com cuidado e satisfazer-lhe o que lhe devo

por todas as sessões que me tem dado...

—Mas o senhor não me deve nada, comprou-me o vinho quinado...

—Oh! isso pagava apenas tres sessões! depois tivemos mais dez pelo menos,

que eu pago bem mesquinhamente dando-lhe esta remuneração.

Casimiro põe trinta francos em cima da mesa, volta a pegar na mão da

rapariga, e aperta-a ternamente nas suas, dizendo-lhe:

—Não chorará mais, esquecerá a scena d’esta manhã, e dar-me-ha ainda

algumas sessões, não é verdade?

Lisa sorri-se, e responde:

—Far-lhe-hei a vontade, visto que assim o quer!

Casimiro retira-se muito satisfeito.

No dia seguinte, Rouflard, que entra todas as manhãs em casa de Casimiro

para saber se elle tem algum recado para lhe dar, diz ao joven pintor:

—Acabo de vêr o meu bom anjo, a menina Lisa, que está feliz como uma

rainha, e isto graças ao sr. Casimiro!

—Graças a mim! como é isso, Rouflard?

—Porque, com o dinheiro que o senhor lhe deu hontem, comprou ella uma

colhér, de prata á avó, uma bella colhér effectivamente, que lhe custou

vinte e dois francos. A velha doente está encantada, era a sua mania,

isto restituir-lhe-ha uma parte das forças.

—Estimo immenso ter podido melhorar um pouco a posição de Lisa, que se

mata com trabalho. E o sr. Rouflard tem ido a casa do pintor a quem eu o

recommendei?

—Sim, senhor, mas não para fazer de romano, é para fazer de saltimbanco.

É verdade que isso para mim é indifferente! servir de modelo para um

heroe ou para um salteador, é sempre servir de modelo.

Decorrem alguns dias; Casimiro não deixa passar um unico dia sem subir a

casa de Lisa, que lhe mostra a colhér de prata, dizendo-lhe:

—Estou muito contente! mas acreditará o senhor que sonho todas as noites

que m’a roubam? Isto faz-me pesadelos.

—Isso ha de passar, minha vizinha, a gente habitua-se a tudo, mesmo aos

talheres de prata.

Casimiro não tornou a casa da sr.ª Montémolly, e, com grande surpreza

sua, não ouviu falar mais d’ella desde o seu rompimento. Applaude-se por

emfim quebrado um grilhão que já não podia supportar, e entrega-se com

ardor ao trabalho, porque quer poder passar sem o socorro alheio. O seu

quadrosinho de _genero_ vae saindo muito bom; o negociante de quadros que

veiu vel-o, ficou muito satisfeito, e offereceu-lhe mesmo algum dinheiro

adeantado, se elle o precisasse.

Mas, nas suas idas e vindas a casa, Rouflard, que conversa amiude com

o porteiro, repara, no penultimo dia do arrendamento, que emquanto o

inquilino do primeiro andar faz a sua mudança, Chausson esfrega as mãos,

apressa quanto pode essa mudança, depois, assim que vê a casa despejada,

põe-se a encerar o patamar do primeiro andar, a varrer cuidadosamente os

quartos desoccupados, e a observar se tudo está aceiado e se ha têas de

aranha n’algum recanto.

—Com a breca! como se afadiga com o seu primeiro andar! diz Rouflard ao

porteiro, nunca esfregou tanto em minha casa, nos meus bons tempos!

—É que mesmo nos seus bons tempos nunca teve uns aposentos tão

esplendidos!

—Está então arrendado o seu primeiro andar?

—Sim, de certo, está arrendado, e magnificamente arrendado; presumo que

se muda para cá ámanhã o novo inquilino, por isso fiz saír o outro hoje,

para ter tempo de arranjar tudo. Ah! ah! quero que ao entrar aqui se veja

tudo reluzente...

—É algum dentista que vem para a casa?

—Não... não é um dentista! é uma senhora... e mesmo uma bonita senhora...

—Ah! entendo, é uma _cocotte_ de primeira ordem!

—Não, senhor, pois eu arrendo lá a casa a _cocottes_! porventura o predio

não está bem habitado, não contando com o senhor?...

—Chausson, não me insulte; difficilmente acharia um homem tão fino como

eu para morar na sua agua-furtada.

—Sim, quando não está bebedo, tem ainda uma boa presença.

—A tal senhora bonita tem marido?

—Não; pelo menos, creio que não. A final de contas, como ella vem ámanhã,

posso dizer ao senhor quem é.

—Então eu conheço-a?

—Deve tel-a visto em casa do sr. Casimiro, é aquella senhora que o vinha

visitar tantas vezes, antigamente, porque não tem aqui voltado desde que

arrendou o primeiro andar.

—Como! seria a sr.ª Montémolly que arrendou o quarto do primeiro andar?

—Exactamente, a sr.ª Montémolly, é o nome que está no seu bilhete.

—Oh! com mil diabos!...

Rouflard apressa-se a subir a casa do pintor, e diz-lhe:

—Venho dar-lhe uma noticia! o quarto do primeiro andar foi arrendado pela

sr.ª Montémolly, que se muda para cá ámanhã.

Casimiro fica aterrado; julgava-se para sempre livre de Ambrosina, e ella

vem morar para o seu predio; não duvida que não seja para espreitar o seu

procedimento e saber que relações existem entre elle e a menina do quinto

andar. Estas relações são muito innocentes, mas aos olhos do mundo, que

procura por toda a parte o mal e nunca o bem hão de parecer criminosas. O

que Casimiro receia sobretudo, é que as frequentes visitas que elle faz a

Lisa lhe tragam ainda alguma scena desagradavel. Está a ponto de subir a

casa da sua vizinha para a prevenir do que acontece, mas diz comsigo: Não

devo assustal-a antes de tempo. Aguardemos. Ambrosina não arrendou talvez

a casa para si, é tambem possivel que se não mude ainda ámanhã.

Mas no dia seguinte não é já possivel a duvida: faz-se a mudança para o

primeiro andar, e é effectivamente a sua antiga amante que Casimiro vê

chegar; ouve já na escada a voz estrondosa da creada Adriana, que está

muito contrariada por ter saído da casa da rua Meslée, que dava sobre o

_boulevard_, para virem morar na rua Paradis-Poissonniére e tomarem uma

casa onde o quarto da creada está debaixo da mesma chave que a dos amos.

Então o joven pintor decide-se a subir a casa de Lisa. Pelo seu ar

perturbado, commovido, a rapariga adivinha que succedeu algum caso

desagradavel, e diz:

—O senhor tem alguma coisa; aquella senhora voltou a vel-o; virá ella

aqui, porventura.

—Não, não é isso, Lisa, entretanto, é alguma coisa que a vae contrariar,

tenho a certeza.

—Então, fale!

—Aquella senhora, porque effectivamente é d’ella que se tracta... o

primeiro andar estava sem inquilino para este semestre... a menina sabe

isto sem duvida.

—Eu! não! pois eu occupo-me lá do que se passa no predio? E então, o

primeiro andar?...

—Está arrendado... por... por essa senhora...

—Que veiu aqui.

—Sim.

—Ah! meu Deus! e virá para cá brevemente?

—Muda-se hoje...

—Ella está aqui! no predio. Ah! vá-se embora, sr. Casimiro, vá-se embora,

muito depressa, se ella subisse e o encontrasse... tenho medo d’essa

senhora.

—Socegue, ella não virá mais a sua casa, estou persuadido d’isso; que

motivo teria para cá voltar?

—Virá procural-o...

—Não, eu disse-lhe que já não a via. Estamos indifferentes, e se ella me

quizesse falar, é a minha casa e não á sua que viria ter commigo...

—Ah! o senhor diz isso para me socegar; d’aqui em deante não me atreverei

muis a descer a escada; felizmento, não a desço muito! uma vez sómente,

de madrugada, para ir fazer as minhas compras; mas não importa, sr.

Casimiro, o meu retrato está acabado, como o senhor hontem confessou;

portanto é mister que não venha mais visitar-me...

—Ah! Lisa, então já não sou seu amigo? não quer receber-me em sua casa?

—Não digo isso, mas não quero que essa senhora aqui o encontre.

—Serei prudente, eu conheço os habitos d’essa senhora, e depois

espreitarei as occasiões em que ella sair, incumbirei isso a Rouflard,

posso contar n’elle.

—Oh! é um excellente homem, esse Rouflard; é pena embriagar-se; meu Deus!

parece-me que ouço subir!...

—Não... é no quarto andar que abrem a porta...

—Sr. Casimiro, leve d’aqui o seu cavallete... vendo-o em minha casa,

dirão: «Então elle continúa a ir pintar lá?» e é preciso que se não possa

dizer isto...

—Pois sim, levarei o cavallete; mas isso não me impedirá de a vir ver

todos os dias, é para mim um habito tão agradavel... não poderia mais

trabalhar em todo o dia se não a visse pela manhã; outro tanto não

acontece á menina...

Lisa não responde, mas suspira olhando para Casimiro, e o seu olhar vale

a melhor resposta. O joven pintor aperta-lhe a mão, e decide-se emfim a

levar o cavallete.

XV

A menina Proh doente

Durante todo este dia Casimiro teve uma especie de febre; ficou em casa,

mas deixou entreaberta a porta da entrada para ouvir o que se passa na

escada; não ouviu senão o joven Fonfonso cantar com a musica do carrilhão

de Dunkerque:

Uma esgalgada girafa

Rima certo com garrafa;

Mas chimpanzé pelladinho

Rima bem com coitadinho!

—Quem é que te ensinou essa infame cantiga? diz de repente a sr.ª Proh,

saíndo ao patamar.

—Foi Rouflard, que a canta muitas vezes quando desce da agua-furtada.

—Que monstro que é esse borrachão do Rouflard! não comprehendo que o meu

vizinho Casimiro empregue similhante homem; e tu, Fonfonso, se tornas a

cantar essa cantiga, levas uma roda de açoutes e ponho-te a pão secco.

—Sim? pois se me dás pão secco, direi que hontem, com a força d’um

espirro, deixaste cair os dentes postiços.

—Cala-te, Lucifer! Ó céus! e dizer que ha pessoas que desejam ter filhos!

Casimiro não sae de casa senão para ir jantar. Quando chega ao patim do

primeiro andar, passa muito depressa e depois sae sem levantar a cabeça.

Vae á noite ao theatro, e só recolhe depois da meia noite, mas vê ainda

luz nos quartos do primeiro andar. A sr.ª Montémolly entretem-se sem

duvida em arranjar os seus novos aposentes. Elle, segundo o costume, vae

buscar a luz ao cubiculo do porteiro; então este diz-lhe com ar malicioso:

—O senhor sabe sem duvida quem tem agora a felicidade de ter por vizinha?

—Não, sr. Chausson, e affianço-lho que isso me interessa pouco.

—Não dirá o mesmo quando souber que arrendei o primeiro andar á sr.

Montémolly, uma amiga intima do senhor.

—Em primeiro logar, o sr. Chaussom faz amigas intimas de simples

conhecimentos, depois, nós tivemos uma ligeira discussão, essa senhora e

eu... estamos indifferentes.

—Ah! que pena! aposto que foi por causa da maldita politica! isso

malquista toda a gente, mas o senhor ha de fazer as pazes com essa

senhora, que tem muito bonitas maneiras.

—Dê cá a minha luz, e faça favor de não me tornar a falar em tal assumpto.

Casimiro apressa-se a subir a casa, e o perteiro segue-o com a vista,

murmurando:

—Ah! elle está arrufado com esta senhora! como os homens são voluveis!

dirá muita gente, e as mulheres tambem: então, é coisa que está na

natureza!...

No dia seguinte pela manhã, o joven pintor sobe a casa de Lisa; mas,

antes d’isso, procurou Rouflard, e pôl-o de sentinella na escada, com

ordem de cantar a canção dos _Lampiões_ se vir subir a inquilina do

primeiro andar. D’este modo, não será surprehendido em casa da sua

vizinha; terá descido os dois andares antes que Ambrosina tenha tido

tempo de subir os seus...

Lisa põe-se ainda a tremer vendo entrar Casimiro em sua casa. Mas este

tranquilliza-a dizendo-lhe a ordem que deu a Rouflard, relativamente

á senhora do primeiro andar. Casimiro não cessa de repetir a Lisa que

não era para elle mais que um simples conhecimento, uma pessoa que o

queria proteger, mas que abusava da influencia que tinha tomado sobre

elle, influencia de que ha muito tempo estava, resolvido a libertar-se.

A rapariga, que não sabe nada do que se passa no mundo, acredita tudo o

que lhe diz o vizinho. Conversam largo espaço; o tempo corre tão depressa

quando se está bem acompanhado! De repente, Lisa empallidece, exclamando:

—Ouvi cantar!...

—Mas não é o Rouflard, é aquelle maldito garoto do menino Proh!

—É o mesmo, ouço muito barulho no predio é preciso ir-se embora.

—É Adriana que a menina ouve, a creada da sr.ª Montémolly, quando esta

rapariga está em alguma parte, não se ouve senão ella.

—Mas vae ver o Rouflard na escada.

Em primeiro logar, para o ver, será preciso que ella olhe para o ar.

—Oh! estou bem certa que é a ordem que tem.

—Vamos, socegue minha encantadora Lisa, eu me vou embora, mas ámnhã...

—Oh! sim, ámanhã tratarei de me habituar a ter medo.

Passam-se d’esta sorte oito dias. Casimiro sobe pela manhã a casa de

Lisa, depois de ter posto Rouflard de sentinella na escada. Não tem

encontrado Ambrosina, nem mesmo a tem visto de longe, entretanto está bem

persuadido de que ella não veiu morar para o mesmo predio sem ter o seu

plano. Sabe que a sr.ª Montémolly é bastante altiva, bastante orgulhosa

para procurar fazer as pazes com elle; mas sabe tambem que é vingativa e

deve ter formado o projecto de se vingar.

Ao nono dia da sua entrada nos seus novos aposentos, alli pela volta do

meio dia, Ambrosina sobe os quatro andares que vão ter á morada de Lisa,

e entra de repente em casa da rapariga, que fica pallida e tremula ao seu

aspecto.

«Todavia a sr.ª Montémolly não tem aquelle ar terrivel com que uma vez

se apresentou a Lisa; pelo contrario, é sorrindo, é com um ar amavel,

gracioso mesmo, que ella se approxima, e lhe diz:

—Perdão, menina, venho talvez incommodal-a, mas sou ha oito dias sua

vizinha, moro no primeiro andar, soube, pela sr.ª Proh, que a menina se

occupava em trabalhar em roupa branca, e venho perguntar-lhe se quererá

trabalhar para mim?

Lisa está de tal modo perturbada, que pode apenas balbuciar:

—Mas, minha senhora, queira sentar-se... Perdão, não ouvi bem o que me

disse.

—Socegue, menina; pois eu metto-lhe medo?

—Oh! sim, minha senhora, quero dizer, não, minha senhora, agora não...

mas é que receava...

—Que viesse ainda contender com o sr. Casimiro? Socegue, no outro dia

fiz mal, convenho n’isso, mas eu sou muito arrebatada; aquelle senhor

tinha-me faltado muitas vezes á sua palavra para o meu retrato e isto

tinha-me encolerisado. E o retrato da menina está acabado?

—Sim, minha senhora.

—Mas o sr. Casimiro continúa a vir vizital-a?

—Algumas vezes, minha senhora...

—Ora, tem todo o direito de o fazer. Mas a menina ainda me não respondeu

sobre o fim da minha visita; quer trabalhar para mim?

—Oh! certamente, minha senhora, com muito gosto.

—Muito bem. E borda tambem?

—Sim, minha senhora.

—Então, aqui tem estes lenços de cambraia, quero as minhas iniciaes

bordadas; olhe, como este... pode bordar-m’as?

—De certo, minha senhora.

—Pois aqui lhe deixo estes seis e o modelo; mas faça isto de seu vagar,

quando tiver tempo, eu não tenho pressa nenhuma. Emquanto ao preço, a

menina dirá quanto quer.

—Oh! minha senhora, ficarei satisfeita com o que a senhora me der.

—Adeus, menina, ou antes, até á vista, porque ha-de permittir que eu

venha algumas vezes saber se pensa em mim.

—Oh! quando a senhora quizer.

—Já lhe não metto medo, espero?

—Não, minha senhora, pelo contrario, sinto agora que terei muito prazer

em a receber.

A menina Lisa · 第 9 / 12 段