Chega emfim a creada, esfregando os olhos:

—O que é, minha senhora?

—É que esta menina não acha a colhér que estava aqui hontem á noite...

—Ah! bem me lembro, havia uma grande e tres pequenas...

—As tres pequenas aqui estão, diz Lisa, mas não comprehendo como a grande

não está aqui tambem...

—Ora! exclama a menina Adriana, olhem que admiração! terá ido juntar-se

com a da sr.ª Proh...

—Oh! menina, é indigno isso que está dizendo! Minha senhora, acaso vae

tambem pensar que tenho eu a sua colhér?

—Menina, o que quer que eu lhe diga... quando os factos falam... é

preciso render-se a gente á evidencia; a menina mesma concorda em que

tinha aqui uma colhér de prata...

—Sim, minha senhora, sim convenho n’isso; repito-lhe que me servi d’ella

esta noite para dar o calmante á menina...

—Pois bem! vossemecê ficou sósinha aqui esta noite... e esta manhã esse

objecto desappareceu. Que outra pessoa, por consequencia, pode tel-a

tirado?

—Oh! minha senhora, reviste-me, faça favor... verá que o não tenho...

—É inutil, quando alguem tira uma coisa não a esconde em si.

—Oh! é o mesmo, exclama Adriana, vou revistal-a eu; porque, emfim, não

quero que se perca prata nenhuma na casa onde eu estou a servir.

A creada corre ás algibeiras de Lisa, e vira-as inteiramente; depois

apalpa a rapariga de alto a baixo, e termina a sua inspecção exclamando:

—Nada! oh! affianço que não tem a colhér em si.

—Então, minha senhora, bem vê, diz Lisa.

—Vejo que a não escondeu em si; mas, se não a acharmos, é que a menina a

terá levado para outra parte.

—Mas para onde, minha senhora, se não saí d’este quarto?

—Quem me prova isso? por este corredor pode-se sair perfeitamente sem

acordar ninguem...

—Oh! minha senhora, é horrivel pensar isso. Meu Deus meu Deus! sou bem

desgraçada!...

Lisa rompe em soluços. Adriana tem-se posto de gatas e esquadrinha

debaixo de todos os moveis; mae em vão se procura por toda a parte, a

colhér não se acha. Ambrosina approxima-se da pobre Lisa, que se afflige

muito, e diz-lhe:

—Socegue, não darei seguimento a este negocio, o que outrem talvez faria,

vá, não a demoro mais. Tomarei unicamente a liberdade de dizer ao sr.

Casimiro que não é feliz na escolha dos seus novos conhecimentos.

Lisa não escuta mais nada; tarda-lhe sair d’aquelle quarto, que ella

achou tão bonito na vespera. Caminha, mal podendo suster-se, e chega

assim até á escada. Mas, no segundo andar, encontra Casimiro, que a

estava esperando, e que exclama, vendo-a lavada em lagrimas:

—O que foi? que succedeu? o que tem a menina ainda? o que é que lhe

fizeram para chorar assim?

Lisa conta a Casimiro o que se acaba de passar, e refere-lhe as palavras

de Ambrosina, que lhe disse que ella teria podido sair sem acordar

ninguem.

—Mas então, diz Casimiro, podia-se tambem chegar até junto da menina sem

ser ouvido. A menina dormiu durante a noite?

—Ai! sim, pelas tres horas não pude resistir ao somno, é mais forte do

que eu.

—Ah! que fatalidade, porque durante o seu somno poude alguem entrar

n’esse quarto..

—Não me parece porque teria acordado.,.

—Suppôr que a menina tenha tirado essa colhér, isso não tem senso commum,

depois do que aconteceu em casa da sr.ª Proh... que lhe causou tão grande

degosto!

—É justamente por isso que me accusam ainda, a creada d’essa senhora

disse-me: «A colhér foi-se juntar cem a da sr.ª Proh.»

—Isso é indigno!... mas socegue, Lisa, ha em tudo isto um mysterio que

eu conseguirei descobrir, não descançarei emquanto a sua innocencia não

estiver completamente reconhecida.

O joven pintor consegue acalmar um pouco a magua de Lisa, acompanha-a até

á sua porta, e deixa-a promettendo-lhe mais uma vez que ha-de obrigar

toda a gente a fazer-lhe justiça. Mas Casimiro promettia o que elle

proprio não sabia como cumprir, porque debalde dava tratos á imaginação

para adivinhar como era que as colhéres de prata desappareciam dos

quartos onde Lisa passava a noite.

Depois de ter entrado um momento em sua casa, Casimiro sae, decidido a

ir ter com Ambrosina, para saber se ella crê devéras que a rapariga seja

criminosa. Mas já a aventura da noite é sabida em todo o predio; porque

o primeiro cuidado de Adriana foi ir dizer ao porteiro que a menina Lisa

deu em casa de sua ama segunda representação da noite em que ficara em

casa da sr.ª Proh. Chausson, que sente certa sympathia pela inquilina do

quinto andar, tem muita pena de ser obrigado a julgal-a criminosa, mas

Rouflard, que escutou a creada de Ambrosina, diz-lhe:

—A menina é uma tola em ter má lingua! é mister ser imbecil, depois das

historias da colhér perdida em casa da sr.ª Proh, para suppôr que uma

rapariga que quizesse commetter um furto repetisse exactamente a mesma

historia dois andares mais abaixo...

—Pois bem! então onde está a colhér?

—Que sei eu? debaixo das suas saias talvez....

—O senhor insulta-me, eu sou uma rapariga honrada, toda a gente o sabe, e

tenho orgulho n’isso.

—Quem é honrada, não se gaba de o ser, não faz mais que o seu dever....

—Fica-lhe bem falar assim, o senhor que bebe o _rhum_ que lhe mandam

comprar. Ah! eu sei essa historia; o porteiro tem-me contado as suas

proezas.

—Contou-lhe tambem as d’elle, quando era meu creado?

—O senhor teve um creado? oh! é boa pilheria...

—Pouco me importa que o acredite ou não, não é de mim que se tracta, é da

menina Lisa, que eu lhe prohibo accusar de furto.

—O senhor prohibe-me! Ah! eu não faço caso das suas prohibições, sim, a

menina Lisa furtou uma cochér, ou duas, para melhor dizer...

Adriana dizia isto gritando com todas as suas forças; Rouflard está

furioso. Ao barulho que se faz no patamar do primeiro andar, quasi todos

os inquilinos do predio teem saído de suas casas, e Casimiro chega alli

no momento em que Ambrosina vinha tambem á escada para ordenar á sua

creada que se callasse.

XVII

O que era

Casimiro pára deante de Ambrosina, dizendo-lhe.

—E a senhora tambem acredita que aquella menina lhe tenha tirado essa

colhér de prata que lhe falta?

Ambrosina tracta de dominar a impressão que lhe causa a vista de

Casimiro, com quem ella se não tinha encontrado desde a altercação que

dera em resultado o rompimento das suas relações, e responde-lhe com um

tom levemente ironico:

—Na verdade, sinto muito o que acontece, sobretudo por sua causa; lamento

que seja a sua protegida aquella a quem o senhor sacrificou uma antiga

amizade, que se tenha tornado culpada d’uma acção tão reprehensivel, mas

é forçoso reconhecer o que é, o que não se pode negar...

—Mas, minha senhora, essa menina tem sido sempre um modelo de

honestidade, de bom comportamento. A senhora sabe como ella trabalha para

que a sua velha paralytica não sinta falta de coisa alguma...

—Tudo o que quizer, senhor, mas então ache-me a colhér...

—Podia ter entrado alguem em sua casa emquanto Lisa dormia, porque ella

dormiu.

—Quem queria o senhor que entrasse... ladrões? mas o porteiro havia de

saber se entraram alguns no predio, e o senhor não suppõe, presumo eu,

que seja alguem da minha casa que tenha entrado no quarto onde a menina

Lisa estava velando a Adelinasinha... Ella dormiu, diz o senhor, dil-o

ella, mal quem o prova?

—Ora! demais, exclama a sr.ª Proh, que desceu do terceiro andar para

se metter na conversação; não se dirá que em minha casa poude alguem

entrar até junto da enfermeira; depois, ha em tudo isto alguma coisa que

deve fazer condemnar Lisa, é o amor, a paixão da avó pelas colhéres de

prata, a sua menina comprou-lhe uma ultimamente, que ella se apressou a

mostrar-me. E’ provavel que a velha tenha querido ter outras...

—A senhora está a calumniar pessoas honradas, não o consentirei!...

—Eu não calumnio, digo o que é e custa pouco a dizer: Ella está

innocente! está innocente! então onde estão as nossas colhéres?

Uma senhora que mora por cima de Ambrosina, que tem cincoenta annos, o ar

muito distincto, o aspecto frio, severo mesmo, e não fala a ninguem no

predio, mas que, attrahida pelo barulho que se faz na escada, ouviu tudo

o que se acaba de dizer no patamar do primeiro andar, desce tambem ahi

por sua vez, e diz a Casimiro:

—O senhor não crê a menina Lisa culpada, nem eu tão pouco; mas ha em tudo

isto um mysterio que é preciso descobrir, estou persuadida de que o hei

de conseguir eu...

—Ah! minha senhora! restituirá a vida a essa pobre Lisa, porque ella

morrerá de desgosto se a sua innocencia não fôr por todos reconhecida...

fale, o que tenciona fazer?...

—Senhor, para isso é preciso que essa menina consinta em vir passar esta

noite em minha casa, dir-lhe-hei que minha irmã, que vive commigo, está

doente, e que é preciso que alguem a fique velando...

—Ah! minha senhora, Lisa não quererá; depois do que lhe aconteceu duas

vezes, como quer a senhora que ella consinta ainda em velar alguem?

—Consentirá se o senhor se encarregar de lhe pedir, se lhe disser que é

para ficar certa da sua innocencia que lhe pede este ultimo sacrificio

d’uma noite...

—Oh! minha senhora, se assim é, eu a decidirei a ficar velando esta noite

em sua casa.

—Pois bem! então, mande-a vir á meia noite. Pedirei a estas senhoras que

estejam em minha casa um pouco antes.

—Para quê? pergunta a sr.ª Proh.

—Para serem testemunhas do que lá se ha de passar, e, como espero,

reconhecerem a innocencia de Lisa.

—Oh! a mim é-me impossivel estar de véla, isso constipa-me...

—Eu não faltarei, diz Ambrosina, antes da meia noite terei a honra de a

ir visitar.

—Muito bem, com o sr. Casimiro e commigo, será o sufficiente. O senhor

terá a extrema bondade de vir durante o dia dizer-me se Lisa consente em

vir ficar de véla em minha casa?...

—Vou immediatamente lá acima, minha senhora, e em breve terá a sua

resposta.

—Muito bem. Minhas senhoras, tenho a honra de as cumprimentar.

A sr.ª Durmont, é este o nome da inquilina do segundo andar, sobe para

sua casa, deixando cada vizinha a fazer os seus commentarios.

—Eu não creio nada que esta senhora descubra o mysterio, diz a sr.ª Proh.

—Ficará tambem sem uma colhér, murmura Adriana.

A sr.ª Montémolly manda calar a creada, e entra com ella para casa.

—Ahi está uma senhora respeitavel, exclama Rouflard olhando para o

segundo andar; aquella não é de continhos, diz lá comsigo: A pequena

não tirou as colhéres, mas ha n’isso um mysterio, logo é preciso

descobril-o...

—E como se haverá ella para isso? diz o porteiro.

—Isso está acima da sua capacidade...

—E da sua tambem...

—Vossê esquece-se da sua posição, meu ex-_frontinio_!...

—Qual _frontinio_!... eu sou guarda-portão...

—Então, varra melhor o pateo.

Casimiro não perde um instante; sobe a casa de Lisa, que elle acha sempre

na mesma tristeza, e diz-lhe:

—Tenho boas noticias a annunciar-lhe. A sr.ª Durmont, esta senhora que

mora no segundo andar, interessa-se pela menina e não duvida da sua

innocencia...

—Ah! agradeço-lhe muito; com effeito, essa senhora sempre olhou para mim

com bondade...

—Mas não é só isso; ella quer que a verdade seja conhecida de todos, que

se descubra o que é feito das duas colhéres que desappareceram.

—Ah! como serei feliz se ella consegue fazer isso; é a vida, porque é a

honra que essa senhora me restituirá. E o que fará ella para isso?

—Oh! vae parecer-lhe singular; mas é preciso que esta noite a menina

consinta ainda em ir velar em casa d’ella, ao pé de sua irmã, que está

doente.

—Velar, passar a noite longe de minha avó? oh! não, não, bem sabe que é

uma coisa que sempre me traz desgraça.

—Mas d’esta vez é pelo contrario para a justificar que se lhe pede isso.

O que pode recear? aquella senhora interessa-se pela menina, ceda pois,

peço-lhe eu, consinta mais esta vez; tenho confiança na sr.ª Durmont,

ella descobrirá de certo o mysterio que reina n’essas duas noites

inexplicaveis...

—E’ essa a sua vontade? pois bem! farei o que o senhor quer; mas em casa

d’essa senhora terei o cuidado de não adormecer.

—Sim, é isso; d’esse modo verá o que se passar. A’ meia noite virei

buscal-a, e eu mesmo a levarei a casa d’essa senhora.

—Terá essa bondade?

—Ah! Lisa, tracta-se da sua felicidade, da sua reputação; pois a menina

acredita que alguem tome n’isso mais interesse do que eu? Então, está

ajustado; á meia noite estará prompta?

—Oh! sim, a essa hora já minha avó está a dormir.

—Eu virei buscal-a.

E, deixando Lisa, Casimiro dirige-se immediatamente a casa da vizinha do

segundo andar, e diz-lhe:

—Lisa consentiu; á meia noite eu lh’a trarei.

—Muito bem.

—Prometteu não se deixar dormir, e eu incitei-a tambem a isso, para que

ella veja se alguem vem ter com ella durante a noite.

—Oh! o senhor fez muito mal, pelo contrario, é preciso que Lisa durma, é

indispensavel; é com isso que eu conto...

—Não a comprehendo, minha senhora.

—Ha de comprehender-me esta noite; demais, vou preparar uma bebida

ligeiramente soporifica, e pedir-lhe-hei que a faça beber o senhor mesmo

a essa menina, dizendo-lhe que é para se conservar bem esperta.

—Mas, minha senhora...

—Senhor, se Lisa não dormir, não saberemos nada, e esta experiencia será

completamente inutil.

—Oh! n’esse caso obedecerei, porque tenho confiança na senhora.

—Folgo de crer que se não arrependerá. Venha, senhor, acompanhe-me, vou

leval-o ao quarto onde Lisa ha de ficar velando esta noite; é onde dorme

minha mana, que goza de perfeita saude, mas que fingirá estar doente,

e pela noite adeante pedirá de beber duas ou tres vezes quando a sua

enfermeira não estiver a dormir.

A sr.ª Durmont faz entrar o rapaz n’um bello quarto de dormir, que tem

duas portas: uma, que é de vidraça, dá para outro quarto; ahi estão os

vidros apenas cobertos por uma ligeira cortina de cassa. A senhora leva

Casimiro a este quarto, e diz-lhe:

—Não acha, senhor, que detraz d’esta vidraça se pode ver tudo quanto se

faz no quarto onde Lisa ha de ficar?

—Sim, minha senhora, effectivamente, não ha nada mais facil; como a

cortina está d’este lado, pode-se facilmente affastar.

—Tanto mais que, pela maneira porque ha de estar allumiado o quarto de

minha mana, esta porta de vidraça ficará completamente na obscuridade.

Pois bem, senhor, é aqui, de traz d’esta vidraça e sem que a pequena o

saiba, que nós passaremos a noite, o senhor, a vizinha do primeiro andar

e eu; parece-lhe que poderemos assim vêr tudo o que Lisa fizer?

—Certamente, minha senhora; mas, não comprehendo...

—Espere, espere, e estou certa de que ha de comprehender esta noite.

O senhor terá a bondade de me trazer a menina Lisa, e fingirá que vae

para sua casa, mas voltará aqui por est’outro lado; não se esquecerá do

caminho?

—Fique descançada, minha senhora, não me esquecerei de coisa alguma...

—Até á noite, senhor.

Casimiro deixa esta senhora, procurando em vão adivinhar o que ella

espera. Emcontra Rouflard e communica-lhe as suas inquietações. O

ex-janota abana a cabeça, dizendo:

—Eu tambem não adivinho nada em tudo isso; mas em todo o caso,

affianço-lhe que passarei a noite na escada deante da porta d’essa

senhora, e que se algum larapio de colhéres tentar introduzir-se na casa,

começarei pelo desancar.

Assim que dá meia noite, Casimiro dirige-se a casa da sua vizinha. Acha-a

muito triste, a tremer, mas prompta a seguil-o, porque sua avó está a

dormir. A rapariga apressa-se a pegar no seu trabalho, e, sem dizer

palavra, vae acceitar o braço que lhe offerece Casimiro. Descem assim

alguns degraus.

—A menina está a tremer, diz-lhe o seu braceiro, tem frio?

—Não, pelo contrario, tenho muito calor; mas estou a tremer, porque

adivinho ainda uma desgraça...

—Mas, ao contrario, são os seus desgostos que vão acabar, socegue, esta

senhora quer que a sua innocencia brilhe aos olhos de toda a gente.

—E como se haverá para isso?...

—E’ segredo d’ella... tenha confiança.

Chegam ao segundo andar. A sr.ª Durmont vem pessoalmente ao seu encontro,

e leva-os para o quarto onde a irmã está deitada ha muito tempo.

—E’ aqui que a menina ficará velando, diz ella á sua joven vizinha; tome

uma chavena de chá, que lhe ha de fazer bem e conserval-a acordada.

—Agradecida, minha senhora, não preciso de nada.

—Lisa, diz Casimiro, tome o que esta senhora lhe offerece, peço-lhe eu,

isso ha-de socegal-a.

—Se o senhor o deseja...

E a rapariga bebe o conteúdo da chavena que lhe apresentam.

—Agora, boa noite, diz Casimiro, vou para minha casa... até ámanhã...

—Sim, até ámanhã.

O joven pintor retira-se. A sr.ª Durmont diz então a Lisa:

—Minha menina, aqui tem tudo quanto lhe é preciso; tisana para quando

minha irmã pedir de beber... uma colhér d’este xarope quando ella tossir.

—Uma colhér, ah! sim... ahi temos outra; mas podia-se passar sem ella,

minha senhora.

—Não... pelo contrario, é indispensavel; precisa mais alguma coisa?

—Oh! não, minha senhora, de nada absolutamente.

—N’esse caso, vou deixal-a; minha irmã parece menos afflicta esta noite,

creio que lhe dará pouco que fazer, aqui tem uma grande poltrona onde

estará á sua vontade para repousar. Porque, se minha irmã dormir, tambem

a menina pode descançar um pouco.

—Oh! não, minha senhora, não quero... velarei sempre...

—Boa noite, menina, até ámanhã.

Assim que a sr.ª Durmont se retira, Lisa senta-se n’uma cadeira e pega no

seu trabalho, dizendo comsigo:

—Oh! não, não me deixarei dormir, para que durante o meu somno venham

ainda tirar a colhér... Ah! se eu tivesse velado sempre, não teria

acontecido isso; mas esta lampada allumia perfeitamente, posso bordar.

Casimiro entretanto dirigiu-se ao quarto que lhe foi indicado e que está

apenas allumiado por uma lamparina. Encontra alli Ambrosina, que está

sentada junto da porta de vidraça; toca um frio cumprimento com ella,

dizendo-lhe:

—Agradeço-lhe, minha senhora, o não ter faltado aqui, para ter a prova da

innocencia de Lisa...

—Desejo-o muito, porque eu não sou tão má como o senhor pensa; mas

confesso-lhe que duvido que se consiga proval-a.

Põe termo a este colloquio a chegada da sr.ª Durmont, que colloco a

lamparina muito longe da porta de vidraça, dizendo:

—D’esta maneira, é impossivel que do quarto da minha mana se veja que

ha luz aqui, emquanto que nós, atravez d’esta ligeira cortina de cassa,

podemos ver tudo o que alli se passa. Olhe, minha senhora, tenha a

bondade de vêr...

—Ambrosina põe a cara á vidraça e murmura:

—Effectivamente, vejo muito bem, porque o quarto està muito illuminado...

a rapariga trabalha...

—Sim, e agora é preciso termos paciencia, devemos esperar que ella

adormeça.

—Mas se não adormecer?

—Oh! estou certa do contrario, graças a um ligeiro narcotico que misturei

na chavena de chá que lhe fiz tomar, e creio que era isso necessario,

porque ella estava muito decidida a não dormir. Mas aquella beberagem não

fará talvez o seu effeito senão dentro de duas ou tres horas... d’aqui

até lá, se a senhora quer encostar-se n’esta poltrona...

—Não, minha senhora, muito agradecida, não tenho vontade de dormir,

porque estou com muita curiosidade de saber o que sairá de tudo isto.

Esta conversação era toda em voz baixa, o que augmentava o mysterio

que esta noite devia descobrir. As tres pessoas alli reunidas teem-se

sentado e guardam silencio, pondo os ouvidos á escuta do que se passa no

quarto onde está Lisa. A irmã da sr.ª Durmont, que sabe bem o seu recado,

pede de beber; a rapariga apressa-se a dar-lhe a tisana, e em seguida

offerece-lhe uma colhér de xarope, que é logo acceita. Lisa torna a pôr a

colhér em cima do meza, e senta-se ao lado. A supposta enferma adormece

devéras, e a rapariga põe-se de novo ao seu trabalho.

Assim se passa uma hora, e depois outra. A anciedade de Casimiro

augmenta; Ambrosina não diz palavra, mas não fecha os olhos. A sr.ª

Durmont olha constantemente pela vidraça, murmurando:

—Mas a pequena não adormece... conseguiria ella vencer o narcotico!...

—Passam ainda alguns minutos, que parecem seculos; a final a sr.ª Durmont

exclama:

—Ah! debalde pretende resistir, cae-lhe o trabalho das mãos, vae

adormecer...

—Sim, sim, adormece, diz Casimiro; veja, lá inclinou a cabeça para traz.

Oh! ella ahi está bem adormecida...

—E agora, diz Ambrosina olhando tambem pela vidraça, o que é que se vae

passar?...

—Espere, minha senhora, espere que o somno seja bem profundo, agora

podemos levantar de todo esta cortina sem receio de sermos vistos.

E’ levantada a cortina. As tres pessoas que espreitam estão com os olhos

pregados em Lisa; esta, no fim de algum tempo, agita-se; o seu somno

parece desassocegado e molesto.

—Coitada! parece-me bem afflicta, diz Casimiro, deve estar com algum

sonho máu...

—Ah! ahi acorda ella... porque lá se levanta e abre os olhos, diz

Ambrosina.

—Silencio, minha senhora, silencio, diz a sr.ª Durmont; ella continúa

dormindo, não vê que é somnambula?

—Somnambula!

—Pois! escute... está falando...

Lisa, que continua a dormir, não obstante estar com os olhos muito

abertos, levanta-se da cadeira, dizendo:

—Sim, avósinha, sim, vou fechar a sua colhér de prata... que a avósinha

estima tanto, e que tem tanto medo que nos furtem. Oh! mas eu a

esconderei bem, não tenha cuidado, sempre no mesmo sitio, a avósinha bem

sabe, debaixo do meu colchão de crina...

E Lisa vae immediatamente buscar a colhér que está em cima da mesa, e,

indo pôr-se de joelhos deante da cama, mette-a entre o leito e o colchão;

depois ergue-se, dizendo:

—Oh! está bem escondida, ninguem dará com ella... não tenha medo agora,

avósinha...

Lisa volta para o seu logar, torna a sentar-se e fecha os olhos. A’s

tres pessoas que espreitam pela vidraça, não lhes escapou nada do que se

passou. Casimiro está transportado de alegria.

—Justificada! exclama elle, está justificada, porque as outras colhéres

devem estar escondidas no mesmo sitio, não é verdade, minha senhora?

—Certamente! responde a sr.ª Durmont, esta rapariga é somnambula, eis

o que eu havia adivinhado; eis o que eu tinha a peito fazer-lhes ver:

agora, venham, podemos entrar no quarto, que ella não acordará...

—Somnambula! diz Ambrosina, que custa a cair em si do seu espanto. Ah!

estou com muita curiosidade de a examinar de perto.

Aberta a porta de vidraça, entram todos tres no quarto de dormir. Lisa

está na poltrona, com a cabeça inclinada para traz, e, na agitação do seu

somno, afastou completamente o lencinho que lhe cobria o pescoço; pode-se

então ver uma pequena medalha presa a uma fita preta, que ella traz

sempre escondida debaixo do vestido.

A sr.ª Montémolly, que duvida ainda do somno de Lisa, approxima-se d’ella

e examina-a com muita attenção.

—Venha, minha senhora, diz-lhe Casimiro, venha, vamos a sua casa, a

colhér deve estar egualmente escondida debaixo do leito da sua doentinha;

é preciso que a senhora tenha pessoalmente a prova da innocencia de

Lisa...

Mas Ambrosina parece estar attonita; acaba de ver a medalha que a

rapariga traz ao pescoço; essa medalha, que tem uma fórma particular, é

esmaltada toda em roda e artisticamente lavrada. Ambrosina não pode tirar

d’ella os olhos, e responde apenas a Casimiro:

—Vá, senhor, vá com essa senhora... não precisam de mim; a minha creada

está velando, com luz... demais, aqui teem a minha chave...

—Mas porque não vem a senhora comnosco?

—Porque não, alguma coisa muito mais importante me faz ficar ao pé de

Lisa; logo saberão o que é... andem, vão...

Casimiro não insiste, porque demais está com pressa de ir procurar a

outra colhér; a sr.ª Durmont não tem menos pressa, porque sente certo

orgulho em ter conseguido descobrir o mysterio que envolvia as acções de

Lisa. Na escada encontram Rouflard, o qual se puzera alli de sentinella.

—Justificada! diz-lhe logo Casimiro, Lisa é somnambula, e a dormir,

pensando sempre na colhér da avó, esconde debaixo do colchão de crina

quantas colhéres encontra á mão. Vamos procurar a que ella deve ter

escondido assim em casa da sr.ª Montémolly.

—Ah! por favor, permittam-me que vá tambem, exclama Rouflard, gostarei

muito de ver a cara que vae fazer a besbilhoteira da creada!...

—Venha, Rouflard, venha...

Entram em casa de Ambrosina, e acham a menina Adriana a dormir na sala em

vez de estar velando á cabeceira da doentinha; mas Casimiro desperta-a

dizendo-lhe:

—Venha comnosco, menina, conduza-nos ao quarto onde Lisa passou hontem a

noite; vamos lá achar esse objecto perdido...

—A colhér? ah! isso agora é forte de mais; se eu procurei por toda a

parte inutilmente!...

A menina Lisa · 第 11 / 12 段