—Emquanto a Chausson, o meu antigo creado, elle não é de todo máu, se

quer eu lhe falarei.

—Não, não é preciso, isso fica por minha conta...

—Ah! é antes dos Prohs que se deve desconfiar; são uns tagarellas, uns

palradores, uns mexeriqueiros! que ficam encantados quando sabem o que

se passa em casa dos vizinhos, e acham meio de fazer d’um argueiro um

cavalleiro!

—Terei cuidado de que elles não saibam nada das minhas visitas a casa de

Lisa, e vou tratar de acabar quanto antes o retrato da sr.ª Proh, para

que ella não venha mais a minha casa.

—Ahi está um retrato que eu não queria ter nas minhas _inglezas_, a não

ser como laxante...

—Rouflard, vendi a minha pequena paizagem, aqui tem, tome lá isto para se

divertir, sou hoje feliz, quero que toda a gente esteja satisfeita.

—Isto é que é falar como Buckingam obrava, o senhor tinha nascido para

semear perolas no seu caminho e eu para as apanhar.

Casimiro acha a sua amante acabando de arranjar-se e dispondo-se para ir

a sua casa.

Até que emfim! é uma felicidade vel-o! exclama Ambrosina, o senhor vem

cada vez mais tarde; d’aqui a pouco, sem duvida, deixa de vir de todo.

—Minha querida amiga, desculpe-me, tenho hoje tido muitas occupações.

—Esteve a trabalhar com o borrachão do seu modelo... como é

interessante!...

—Não, hoje não trabalhei com Rouflard; recebi a visita do logista que me

vende os quadros; dê-me os parabens, está vendida a minha paizagem.

Ambrosina franze o sobr’olho e morde os beiços, respondendo ao mesmo

tempo:

—Ah! está vendida a sua paizagem...

—Sim, e muito bem vendida, por muito mais do que eu teria ousado pedir.

—O senhor é demasiadamente modesto, e faz mal em ser assim; nas artes,

a modestia é uma tolice, porque é um merecimento que ninguem leva em

conta ao artista, e que muitas vezes o impede de chegar á celebridade.

Porquanto lhe pagaram o seu quadro?

—Quatrocentos e cincoenta francos.

—Ah! que miseria! e é isso que o senhor chama bem vendido! pensava que ia

dizer-me dois ou tres mil francos.

—Ah! está zombando commigo! bem sabe que aquella pequena paizagem não

valia isso; para uma estreia é um preço muito bonito; isto anima-me, e

quero trabalhar de modo que possa vender mais caro os quadros que fizer.

—Ah! o senhor tenciona fazer outros quadros de _genero_; então renuncia

ao retrato? Provavelmente não acabará o meu, pelo qual não mostrava

nenhum enthusiasmo.

—Como é injusta! sou sempre eu que lhe peço para se pôr em attitude; mas

a senhora, em estando em posição um quarto de hora enfada-se, já não pode

estar quieta no mesmo sitio.

—Ah! é que me faz mal aos nervos! Vamos, a sem razão está da minha parte,

convenho. D’aqui em deante serei mais razoavel, irei metter-me em sua

casa logo pela manhã, e não arredarei pé do seu _atelier_, assim, poderá

fazer-me estar em posição todo o tempo que quizer.

D’esta vez, é Casimiro que morde os labios e franze ligeiramente as

sobrancelhas. É coisa para se notar que, n’um colloquio de duas pessoas,

fazem-se muitissimas vezes d’estas mudanças physionomicas, que dizem o

que a bocca não diz, ou que significam inteiramente o contrario do que

ella diz. Porque, por mais que se queira dissimular o pensamento, ha

sempre alguma coisa que transparece n’este semblante que a natureza nos

deu, e que é por vezes rebelde ás transformações que lhe queremos impôr.

Ambrosina deseja ir passear ao campo. Casimiro accede a esse desejo com

alegria; como trouxe comsigo o seu livro de lembranças, tomará notas,

esboçará alguns pontos de vista.

—Se nós fossemos á Suissa? diz a bella morena; é lá que o meu amigo

acharia vistas admiraveis, que poderia fazer ampla provisão de bosquejos

para os seus quadros de _genero_.

Mas o joven pintor não está por forma alguma disposto a viajar.

—Sem ir tão longe, diz elle, ha nos arredores de Paris sitios lindos,

vistas encantadoras; mas ninguem pensa em pintal-as, porque estão ás

portas de Paris, e não se liga merecimento senão ao que está longe de

nós. Eu, minha querida amiga, não vejo razão para se fazer pouco caso

d’uma coisa que nós podemos arranjar sem incommodo e sem despeza. Assim,

por exemplo, muito perto d’aqui, por detraz do forte de Romainville,

n’aquelle sitio que era n’outro tempo o bosque, ha outeiros d’onde a

vista é magnifica, tem a gente deante de si uma extensão immensa de

terreno; podem os olhos abranger mais de doze leguas em redor. Em baixo

fica Patim com os seus fornos de cal, que tornam a paizagem pittoresca;

depois está o canal que corta o caminho, e um pouco mais adiante S.

Diniz, Montmorency, Pierrefitte. Á esquerda vê-se Montmartre, o Monte

Valeriano, e Saint-Cloud, que se desenha no horizonte. E tudo isto

entremeado de bosquesinhos, de bonitas casas de campo, de fabricas.

Affianço-lhe que é um panorama admiravel. Quer ir vel-o?

A sr.ª Montémolly deixa-se conduzir ao que era n’outro tempo o bosque de

Romainville, e entretem-se a colher algumas flores campestres, emquanto

Casimiro está sentado na relva esboçando á pressa algumas vistas; mas as

flôres são raras no terreno barrento, que é bom para fabricar louça, mas

não para fazer brotar as rosas. Demais, Ambrosina é sempre a mulher da

moda, e portanto leva d’alli o seu companheiro dizendo-lhe:

—Meu riquinho, por mais que o senhor diga, as suas lindas vistas de

Romainville não valem a cascata e o lago do Bosque de Bolonha.

—Para a senhora, comprehendo isso; perdõe-me pois, nunca mais a trarei

para este lado, é preciso ser pintor para o apreciar.

—Meu amigo, é mister procurarmos a nossa _victoria_, que não poude

seguir-nos n’estes caminhos cheios de barrancos, onde a gente a cada

instante corre risco de cair n’um buraco, ou de se enterrar na areia!

Vamos jantar ao _Ledoyen_ nos Campos-Elyseos, isso ha de mudar-nos

completamente...

—Ahi está o que são as mulheres! e falava a senhora em ir á Suissa! lá é

que ha caminhos escarpados, difficeis de trepar!

—Sim, mas está a gente na Suissa, inscreve o seu nome no registo das

estalagens; e vê-se alli que os srs. Fulanos de tal passaram por aquelle

sitio, e quizeram trepar o monte Righi.

Este dia passa mui lentamente para o joven pintor, que almeja pelo

momento em que poderá fazer o retrato de Lisa. E, posto que faça todo o

possivel para ser com Ambrosina tão amavel, tão alegre como de costume,

tem por vezes momentos de preoccupação, ou de distracção, que não escapam

á sua zelosa amante; esta diz-lhe então de subito:

—Em que é que está pensando?

—Eu... em nada... estou-a ouvindo.

—Está-me ouvindo? O que é que eu acabo de dizer?

—O que acaba de dizer-me? já não sei o que foi, era então alguma coisa

muito interessante?

—Bem vê que não me estava ouvindo. Ah! olhe, Casimiro, eu não sei o que

lhe aconteceu, mas, com toda a certeza, o senhor tem alguma coisa! anda

pensativo, responde fóra de proposito ao que lhe digo. Oh! n’isto andam

amoricos.

—É que vendi o meu quadro, e ando a pensar n’aquelle que hei de fazer

agora, aqui está o que é.

—O senhor não fala verdade! não é n’isso que pensa. Oh! eu conheço bem o

mundo! não me enganam assim!

—Tanto peior para a senhora, porque as pessoas mais felizes são aquellas

que se deixam enganar mais facilmente.

—É possivel, mas não quero essa felicidade.

Emfim, passa-se o dia e a noite tambem; Casimiro levanta-se muito cedo,

escolhe a téla, arranja a palheta, e prepara um cavallete que já lhe não

servia e que elle tencionava deixar em casa da sua vizinha, para não ter

o trabalho de o levar e trazer todos os dias. Olha a cada instante para o

relogio, receia ser indiscreto chegando antes da hora que se ajustou.

Dão oito horas: Casimiro vae abrir a porta da escada, certifica-se de que

não está ainda alli ninguem, depois vae buscar todos os objectos de que

precisa, e sobe lentamente os dois andares.

A porta de Lisa tem a chave na fechadura; mas vem ella pessoalmente

abril-a, porque ouviu subir e desconfiou logo que é a pessoa por quem

espera.

—Oh! meu Deus! como o senhor vem carregado! exclama Lisa querendo

desembaraçar Casimiro do seu cavallete.

—Tudo isto é muito leve, menina, não se incommode. Posso entrar?

—De certo; minha avó está a dormir, creio eu, mas, ainda mesmo que

acordasse, eu disse-lhe hontem que o senhor havia de vir aqui fazer o meu

retrato, e ella ficou muito contente. Disse-me assim: «Has de collocal-o

deante de mim para que eu te veja sempre minha filha.» Ah! é que ella

quer-me muito, a minha avósinha.

—Bem vê pois a minha querida vizinha que, consentindo em se deixar

retratar, já fez duas pessoas felizes!

—É verdade. Se eu soubesse que era assim, teria accedido mais cedo. Creio

que a avósinha está descançando; não faremos bulha.

—Eu não tenho necessidade nenhuma de fazer bulha quando trabalho. Olhe,

aqui tem o cavallete armado, estou ás suas ordens.

—Mas o senhor é que manda; como quer que eu me colloque?

—Como costuma estar; sente-se e pegue no seu trabalho.

—O quê! devéras posso trabalhar!

—Sem duvida, principalmente durante a primeira sessão, em que eu não

copio senão o conjuncto da cabeça.

—E não tenho precisão de olhar para o senhor?

—Sim, algumas vezes, mas não sempre.

Põem-se ambos ao trabalho. Lisa faz bainhas, o que não obriga a muita

attenção. De vez em quando Casimiro diz-lhe:

—Olhe para mim...

O que ella se apressa a fazer; mas baixa bem depressa os olhos, porque

encontra os do joven pintor que lhe diz então:

—Mas a menina não olha par mim bastante tempo, mal pude apanhar-lhe a

_nuance_ dos olhos.

—É que o senhor encara-me tanto, que me intimida; isso perturba-me.

—É preciso que eu olhe para a menina com attenção para reproduzir as suas

feições, isso não deve intinmidar-a; não veja em mim senão um artista, ou

antes um operario que faz o seu officio, e isso não a perturbará.

—Ah! mas o senhor não é um operario!

—Ora adeus, minha vizinha, todos nós o somos, cada um no seu genero;

pois quem trabalha para viver não é operario? Ha porém, dirá a menina,

profissões que exigem mais estudos, mais intelligencia que outras; mas

esteja persuadida de que o poeta ou o escriptor que trabalha com o seu

pensamento, que tira do cerebro os seus materiaes, tem ás vezes muito

mais fadiga, muito maior lida em fazer a sua obra do que o marceneiro em

aplainar as suas tábuas. Olhe para mim por um pouco.

Lisa ergue os olhos, e d’esta vez torna a baixal-os menos depressa

encontrando os de Casimiro. Este gosta de fazer conversar o seu modelo,

o que não receiam fazer os pintores de grande talento, porque apanham

melhor a expressão da nossa physionomia emquanto falamos, do que o

fazem aquelles que nos prohibem de nos mexermos, o que nos dá então um

ar aborrecido, ou contrafeito, ou affectado; eu poderia mesmo dizer

apalermado.

Lisa estima bastante poder conversar; em vida da sua ama, quando esta

tinha uma venda de leite e fazia muito bom negocio, levou tres vezes a

pequena ao theatro, e esta lembra-se sempre d’isso, porque gostou muito

do espectaculo. Este divertimento e a leitura são os unicos que ella

deseja; a dansa, os passeios, as festas campestres teem para ella poucos

attractivos. Antes de cair doente, a boa da avó queria que a sua Lisa

procurasse estas distracções; mas, em vez de ir vêr esses bailes que

ha no termo de Paris com o falso nome de campestres, Lisa levava a sua

companheira para um passeio pouco frequentado, para uma vereda solitaria,

coberta de sombra, e alli, sentando-se na relva, lia um romance que

tinha alugado economizando alguns soldos na despeza do sustento. Lia em

voz alta; a velha adormecia, mas Lisa continuava a lêr, e ambas estavam

contentes.

—Se a minha vizinha gosta de lêr, diz Casimiro, posso emprestar-lhe

alguns livros; tenho todos os romances de Alexandre Dumas, e estou bem

certo de que lhe hão de agradar muito.

—Ah! agradeço a sua bondade; mas, desde que a avó caíu doente, não tenho

já tempo de lêr, vale mais trabalhar.

—É mister todavia ter alguns instantes de repouso.

—O trabalho que eu faço não cansa.

Na primeira sessão, Casimiro não quer demorar muito tempo o seu modelo;

levanta-se pois, dizendo:

—Basta por hoje; obrigado, minha vizinha.

—Ah! está acabado?

—Acabado por esta sessão; permitte-me que deixe aqui o cavallete?

—Oh! certamente. Ah! leva o quadro; mas o senhor não precisa d’elle sem

mim!

—Perdão, ha coisas em que posso trabalhar sem ter o modelo á vista.

—Deixa-me ver?

—Ainda não, peço-lhe eu. Está muito pouco adeantado; em tres ou quatro

sessões, poderá ver á sua vontade. São dez horas, vou almoçar.

—Já dez horas! é singular como o tempo passa depressa quando se está

servindo de modelo. O senhor virá ámanhã?

—De certo, se isto não a contraria.

—Oh! de modo algum.

A pequena ia dizer: _pelo contrario_, mas parou fazendo-se muito córada,

e limita-se a murmurar:

—Então, até ámanhã.

No dia seguinte, Casimiro não falta a dirigir-se a casa do seu encantador

modelo, que o vê agora chegar com prazer, e, sem ser _coquette_, tem

todavia mais esmero no seu penteado, no arranjo dos seus cabellos;

o joven pintor repara n’isto, não diz nada, mas fica secretamente

lisonjeado, porque ha uma multidão de pequenas coisas que fazem presagiar

as grandes.

Trabalha-se, e conversa-se a meia voz; é quasi sempre de manhã que a avó

descança melhor. Lisa levanta mais vezes os olhos para o seu pintor e

sustenta um pouco melhor o fogo dos seus olhares; algumas vezes, comtudo,

um vivo rubor lhe sobe á cara, emquanto Casimiro murmura:

—Ah! como a menina se colloca bem! que lindo retrato eu vou fazer, sim,

ha de ficar muito parecido; tenho as suas feições tão bem gravadas na

memoria!

—Então, já não é preciso que eu olhe para o senhor?

—Oh! sim! sim! eu nunca a vejo bastante.

—Que felicidade saber pintar!

—Sim, tambem acho isso agora, e ainda ha pouco tempo nem o suspeitava!

Ah! minha vizinha, saiba que se eu chegar a adquirir algum talento, é á

menina que o deverei.

—A mim! ora essa! não foi olhando para mim que o senhor fez essa linda

paizagem que vendeu.

—Não, mas foi vendo-a trabalhar sem descanço, n’este modesto aposento,

sabendo que achava meio de prover ás necessidades de sua velha avô

paralytica, que eu tive vergonha da minha existencia, da minha preguiça,

que comprehendi que havia de lamentar um dia o ter empregado tão mal a

minha mocidade e emfim que tomei a resolução de mudar de vida. Bem vê

pois que, se eu obtiver um dia talento, é á menina que o deverei.

Lisa não responde nada, porque está demasiadamente commovida, mas o seu

olhar fita-se em Casimiro, e tem uma expressão tão terna, tão meiga, que

d’esta vez é o pintor que deixa de trabalhar.

Estes colloquios confidenciaes renovam-se todos os dias e tornam mais

intimas as relações que existem entre o pintor e o seu modelo. Pouco a

pouco, uma affectuosa confiança substitue a fria polidez. Conversam mais,

fazem as sessões maiores, separam-se a custo, porque teem sempre alguma

coisa para se dizerem; acham-se tão bem juntos, que Lisa impacienta-se

e abre a porta quando Casimiro tarda alguns minutos. E, comtudo, nunca

uma palavra de amor foi pronunciada n’estas sessões de todas as manhãs;

mas ha coisas que a gente não tem precisão de dizer para se fazer

comprehender, e o amor é uma d’essas coisas.

O retrato adeantava-se; mas, como Casimiro queria fazer durar muito as

sessões, achava sempre alguma coisa para pintar de novo, para retocar.

Lisa não se queixava d’isso, pelo contrario, quando o seu pintor dizia:

«Basta por hoje,» acontecia-lhe ás vezes exclamar:

—Já! ah! parece-me que não trabalhámos muito esta manhã!

Então Casimiro sorria-se, e continuavam a conversar. A rapariga examinára

o retrato, e pulára de prazer vendo-se tão bonita. Tinha exclamado:

—Ah! o senhor lisonjeia-me; eu não sou assim!...

Não se atrevera a dizer: «Tão bonita!» Mas as mulheres param muitas vezes

no momento de dizerem o verdadeiro fundo do seu pensamento.

XIII

Um rapazito endiabrado

O retrato de Lisa fazia muitas vezes descuidar o de Ambrosina, e não era

só em pintura que esta dama notava que se descuidavam d’ella. Casimiro ia

a sua casa cada dia mais tarde, e, quando ella lhe lançava isso em rosto,

elle achava por desculpa a nova paizagem que estava fazendo, as sessões

que dava á sr.ª Proh ou a Rouflard e Ambrosina exclamava:

—Mas não é possivel que o senhor não tenha acabado essas cabeças! E

quando eu lhe peço para termos sessão, diz-me que não me quer fatigar. O

senhor tem alguns amoricos, alguma nova ligação que arranjou; mas tome

cuidado! eu o saberei.

Um dia pela manhã, a sr.ª Montémolly, sem ter prevenido o amante da

sua visita, levanta-se muito mais cedo do que costuma, faz-se vestir á

pressa por Adriana, e chega a casa de Casimiro pelas dez horas. Perguntou

ao porteiro se o rapaz tinha saído; Chausson respondeu que o não vira

descer. Ella sobe os tres andares, vê a chave na porta da habitação do

pintor, e entra sem bater, sem tocar a campainha, dizendo comsigo:

—Vou surprehendel-o e saber emfim em que trabalha tão assiduamente.

Ambrosina entra na saleta que serve de _atelier_ a Casimiro, e não acha

alli senão Rouflard, que está ensaiando posições deante d’um espelho.

—O sr. Casimiro não está aqui? diz Ambrosina, correndo os olhos pelo

_atelier_.

Rouflard, que reconheceu a dama e adivinha a situação, apressa-se a

cortejar profundamente, respondendo:

—Não, minha senhora, o sr. Dernold saíu.

Apezar d’esta resposta, Ambrosina vae vêr ao quarto da cama, depois

volta, dizendo:

—É verdade, não está, effectivamente.

—A senhora verificou que eu não menti, murmura Rouflard com um sorriso

ligeiramente ironico.

—Mas onde está? voltará breve?

—Oh! não creio, minha senhora; o sr. Dernold disse: «Vou almoçar, e

depois irei dar uma volta pelo Louvre, onde tenho que fazer uns estudos.»

—É singular, o porteiro disse-me que Casimiro não tinha saído.

—Oh! minha senhora! esse miseravel Chausson nunca vê o que se passa;

fazia-me muitas d’essas quando era meu creado. Eu dizia-lhe: «Põe-te de

sentinella, não deixes entrar os meus crédores, não quero receber senão

senhoras...» e o imbecil fazia exactamente o contrario.

—Mas o que faz o senhor aqui?

—Eu, minha senhora, tinha vindo agradecer ao meu artista, que teve a

bondade de se occupar de mim, e de me arranjar collocação em casa d’um

pintor seu amigo, um pintor de historia; devo fazer um romano. E o sr.

Casimiro disse-me: «Arranje um penteado á romana, ponha-se deante do

espelho, ate uma fita vermelha á roda da cabeça, eu lhe direi depois se

tem um falso ar de Romulo...» porque parece que é um Romulo que devo

representar.

Ambrosina não parece dar muito credito a esta historia romana. Passeia

pelo _atelier_, pára por momentos, parece reflectir, e diz:

—Não sei se devo esperar por elle.

—A senhora tem para isso todo o direito, certamente; mas temo que espere

por muito tempo. Quando um pintor vae ao Louvre, nunca se sabe quando de

lá sairá.

—O sr. Rouflard vem aqui muito amiude?

—Sim, minha senhora, estou sempre ás ordens do meu artista quando elle

tem precisão de mim.

—E vê vir aqui muitas mulheres? não me engane...

[Illustration: Levanto-me tarde porque gosto de estar deitado...]

—Minha senhora, posso affiançar-lhe que nunca vi aqui senão a senhora e

a vizinha alli defronte; mas áquella não chamo eu uma mulher, o marido

alcunhou-a de girafa, e fez muito bem.

—Vamos, acredito no senhor, e vou-me embora, terá a bondade de lhe dizer

que vim aqui... e que o espero em minha casa, não é verdade?

—Executarei as suas ordens, minha senhora.

Ambrosina retira-se, e Rouflard acompanha-a até ao patamar; mas aqui

encontram-se de cara com a sr.ª Proh e o filho, o joven Fonfonso, que

teima em querer montar-se na balaustrada. A amante de Casimiro tinha

encontrado duas vezes em casa d’elle esta senhora estando em sessão para

o retrato, conhecem-se pois um pouco. Cumprimemtam-se e trocam algumas

phrases banaes.

—Minha senhora, tenho a honra de a cumprimentar; a sua saude parece-me

sempre perfeita?...

—É? optima, muito agradecida, minha senhora. Ia a casa do sr. Casimiro?

—Não, minha senhora, n’este momento não ia lá; vou comprar cabeça de

vitella para meu marido, que não gosta d’outra coisa para o almoço. É um

habito em que se pôz. Oh! meu marido é devéras insupportavel com a sua

cabeça de vitella! A senhora vem de casa do meu vizinho, do sr. Casimiro?

—Sim, tencionava dar-lhe sessão para o meu retrato.

—O meu está acabado, perfeitamente acabado; estou muito satisfeita com

elle, ainda que toda a gente sustenta que me pareço com a sr.ª Saqui, que

Deus haja, nos seus bons tempos; parece que era uma bonita mulher. E a

senhora já acabou a sua sessão?

—Hoje não poude ser, o sr. Casimiro não está em casa, isto contraria-me,

porque tinha sido hoje mais madrugadora do que costumo ser.

—Ah! o meu vizinho já saiu...

—Não! não! não! não saiu. Oh! oh! oh! hi! hi! hi! grita o Fonfonsinho,

pendurando-se da balaustrada.

—Fonfonso, não te balouces assim da balaustrada, que podes cair.

—Mas quero eu balouçar-me!

—Este pequeno é incorrigivel!

—Perdão, minha senhora, mas parece-me que seu filho disse que o sr.

Casimiro não tinha saído.

—O pequeno sabe lá o que diz, minha senhora!

—Sim, sim, eu bem sei onde está o pintor, onde elle vae todas as manhãs...

—Aonde vae todas as manhãs, mas então, Fonfonso, bem vês que o sr.

Casimiro saiu.

—Não, porque elle vae lá acima, a casa da menina Lisa, para onde levou o

cavallete e as tintas para estar a pintar como em sua casa. Hi! hi! hi!

oh! oh! oh!

Ambrosina muda de côr, e a sr.ª Proh escancara os olhos, exclamando:

—O quê! o meu vizinho vae pintar em casa da pequena do quinto andar!

palavra de honra, é a primeira vez que tal sei; mas este pequeno é

extraordinario, minha senhora, sabe tudo, vê tudo o que se passa, não lhe

escapa nada!

—Quem será essa menina Lisa que recebe o sr. Casimiro?

—É uma rapariga que vive com sua avó; a pobre velha está doente, meio

paralytica; Lisa trabalha para a sustentar. Oh! é uma donzella honesta,

muito capaz... pelo menos assim o creio.

—É bonita?

—Hum? bem sabe que isso depende do gosto, uma carinha que não é de todo

desengraçada...

—Não! não! não! Rouflard diz que a menina Lisa é um anjo. Oh! oh! oh! ah!

ah! ah!

—Ah! o Rouflard conhece-a, perdão, minha senhora, mas como é

absolutamente preciso que eu fale ao Casimiro, tomo a liberdade de o ir

procurar a casa d’essa menina. Não me disse que é no quinto andar?

—Sim, a porta á direita...

—A chave está sempre na fechadura. Hu! hu! hu!...

Ambrosina não quer ouvir mais, e galga os andares como um valente soldado

sobe ao assalto. Chega acima n’um instante; acha effectivamente a chave

na porta á direita, abre de repente, e dá com a menina Lisa sentada

defronte de Casimiro, com a sua costura na mão, mas sem trabalhar; pela

sua parte, o joven pintor está ao seu cavallete, com a palheta e o pincel

nas mãos, mas sem pintar. Á vista d’esta pessoa que abriu a porta e se

conserva immovel á entrada do quarto, o artista e o seu modelo ficam

espantados. Mas Casimiro é o mais impressionado, porque Lisa recobra logo

a sua placidez e diz a Ambrosina:

—É sem duvida a mim que a senhora procura, e é para me dar alguma obra a

fazer? tenha a bondade de entrar...

—Não, responde Ambrosina com um tom arrogante, não é a menina quem eu

procuro, não é pela menina que estou aqui, é este senhor quem venho

procurar, este senhor que já não tem um momento para me dedicar, que não

acaba o meu retrato, porque está fazendo o da menina. Aqui está então a

causa de todas as suas mentiras, da sua mudança de procedimento; eu bem

sabia que n’isto andavam amoricos! é para estar com esta menina que já

não tem tempo de me ir vêr. Ah! como os homens são falsos!

A voz da mulher ciumenta torna-se estrepitosa, os seus olhares lançam

chispas. Lisa está toda a tremer, grossas lagrimas lhe obscurecem os

olhos, depois uma voz tremula e quebrada sae do leito, e diz:

—Lisa! o que é isso? pareceu-me ouvir gritar; estás altercando com alguem?

—Não, avósinha, não, não é nada...

E a donzella deita para Ambrosina uns olhares supplicantes, como para lhe

dizer:

—Por quem é, não fale tão alto!

Mas já Casimiro se tem levantado, pegando na palheta, no quadro e nos

pinceis, e dirige-se para a porta dizendo á sr.ª Montémolly:

—Faça favor de sair commigo, minha senhora, para pouparmos a esta menina

uma bulha e uma scena pouco decorosa, faço isto, não pela senhora, mas

em attenção a ella. Menina Lisa, desculpe-me de ter sido a causa d’este

barulho, que acordou a sua avó, e pode ficar certa de que não tornará a

acontecer similhante coisa.

A menina Lisa · 第 8 / 12 段