tempo a esta parte, temos tido bastantes conversações a tal respeito.
Sim, minha senhora, puz-me ao trabalho, e d’aqui em deante conto
empregar assim uma parte do meu tempo, a minha resolução está tomada
e é inquebrantavel, agora não mudarei. Estou envergonhado da vida que
tenho levado até hoje, e é preciso que isto acabe. Bastantes vezes lhe
tenho manifestado o desejo que sentia de achar um emprego. Em vez de
me confirmar n’este designio, a senhora tem sempre procurado fazer-me
esquecer do que a minha posição tinha de censuravel. Não lhe faço uma
arguição. Deus me livre de tal! cada um ama a seu modo: uns sómente pelo
prazer de amar; outros pela felicidade que experimentam em ouvir fazer
o elogio do objecto da sua escolha. Eu possuo só um recurso, a pintura.
Posso, á força de estudo, de trabalho, adquirir algum talento. É o que
vou tractar de fazer; não ve o em que isso me poderia malquistar com a
senhora, porque lhe asseguro que os prazeres parecem mais doces, quando
vêm depois das horas de trabalho.
Casimiro disse tudo isto com um ar tão decidido, n’um tom tão firme,
tão convencido, que a sr.ª Montémolly comprehende que d’esta vez não
triumphará da nova resolução do seu amante. A colera desappareceu
então como por encanto. É que ella conhece Casimiro sufficientemente
para perceber que perderia muito no conceito d’elle, procurando ainda
estorvar-lhe os projectos. Em vez d’isso, faz esforços para retomar o seu
ar gracioso, e toma-lhe o braço, dizendo-lhe:
—Perdôe-me, meu amigo, eu não tinha razão; não o censurarei mais por
trabalhar. Mas isso ha-de impedir-nos por ventura de irmos ainda passear
algumas vezes?
—Ah! estou ás suas ordens e encantado de a achar tão razoavel...
—Pois bem! então, vamos dar um passeio até ao bosque, e á volta
jantaremos no Ledoyen...
X
Ainda as creadas
São decorridos quinze dias. Casimiro trabalha com assiduidade no seu
quadrosinho de cavallete e da cabeça de Rouflard; este conserva a posição
muito regularmente, sobretudo desde que dá as sessões antes do almoço.
Mas não conseguiu ainda vencer a resistencia de Lisa, que não quer deixar
tirar o retrato. Isto penaliza o joven pintor, que subiu muitas vezes a
casa da sua linda vizinha do quinto andar; mas não se demorou muito lá,
porque ella parece sempre temer que a vista do rapaz contraríe sua avó,
e é mostrando-se bem discreto que Casimiro espera captar a confiança de
Lisa e triumphar da sua recusa.
O joven pintor continúa a dar lições de desenho á menina Proh, que não
faz nenhum progresso e passa uma semana com a mesma orelha. Começou
tambem o retrato da sr.ª Proh, mas pouco trabalha n’elle, e prefere muito
mais a cabeça de Rouflard. Emfim, Casimiro acabou a sua pequena paizagem,
e mandou-a para uma loja de quadros, deante da qual param de boamente os
amadores, porque se expõem alli a miude bonitas coisas e raras vezes má
pintura.
Deve-se bem suppôr que a ciumenta Ambrosina, não acceitou sem desgosto,
sem receio, o novo modo de viver que o seu amante acaba de adoptar; mas
comprehendeu que era preciso fazer algumas concessões para não perder
inteiramente o seu imperio. Vê Casimiro muitas vezes; mas em vez de
passar em casa d’ella uma parte das suas manhãs e das suas tardes, a
conversar como costumava, o rapaz almoça agora em sua casa, e trabalha
algumas vezes até ás cinco horas da tarde; quando se sente perfeitamente
bem, quando está contente de si, custa-lhe muito largar os seus pinceis,
e fica muito admirado de vêr com que rapidez se passa um dia todo
consagrado ao trabalho, elle que outr’ora achava o tempo bem comprido e
não sabia como empregal-o para evitar o aborrecimento.
Ambrosina, que quer certificar-se de que Casimiro não a engana, chega
muitas vezes a casa d’elle sem o prevenir da sua visita. Acha-o
trabalhando com o seu modelo, e não é Rouflard que pode inquietal-a;
encontrou lá tambem uma vez a sr.ª Proh, que dava uma sessão ao seu
vizinho, mas a esposa do antigo professor não podia despertar-lhe ciume.
Não tinha pois nenhum motivo real para se affligir, e todavia não estava
socegada; parecia-lhe que o amante não era já o mesmo com ella, que com
o amor inteiramente novo que lhe viera pelo estudo, tinha perdido muito
d’aquelle que n’outro tempo lhe dedicára. Não sabia bem o que se passava
no coração de Casimiro, mas adivinhava que havia agora entre ambos alguma
coisa que devia destruir a sua felicidade. As mulheres teem uma segunda
vista, que lhes faz presentir tudo o que tem relação com o seu amor.
Isto devia necessariamente produzir um augmento de crises nervosas, e a
menina Adriana era muito a miude enviada á pharmacia que já tivemos o
prazer de fazer conhecer aos nossos leitores.
Correndo alli um dia (sabemos já como Adriana corre, que pára a conversar
com todos os conhecimentos que encontra,) a gorda creada acha-se outra
vez cara a cara com a sua amiga, a menina Rosa, aquella que tem um tão
bello commodo em casa d’um homem só, que lhe faz presentes, e que tomou
um creado para que ella se não cance muito com o trabalho domestico.
—Bons dias, Adriana.
—Ah! és tu, Rosa! onde vaes d’esse modo?
—Vou alli á pastelaria encommendar umas empadas, que as fazem
deliciosas!...
—Ah! bem sei, é tambem onde nós compramos, é a melhor do bairro.
—Ainda estás em casa da tal senhora nervosa?
—Oh! não me fales n’isso! desde algum tempo a esta parte, está
constantemente de máu humor! anda furiosa! porque os amores já não correm
muito bem! Eu bem vejo, o tal sujeito já apparece menos vezes, por mais
que a senhora se apure no vestuario, por mais que se faça bonita, estou
convencida de que elle tem vontade de a deixar.
—Ora! e ella arranja logo outro!
—Pensas que la em casa se faz isso com essa facilidade! Nós adoramos o
nosso pintor, minha rica, seriamos capazes do nos deixarmos depennar por
elle!
—Ah! é um pintor, algum pobre pintamonos?...
—Parece que desde certo tempo para cá vae adquiríndo talento, está para
fazer o retrato da senhora, é ella que o quer, é preciso ver se elle me
faz tambem o meu em quanto está de vez. E tu, Rosa, andas muito _chic_,
pareces a mulher d’um ourives! Continúas em casa do tal homem só?
—Em casa do sr. Loursain, de certo minha rica; sou mais sua dama de
companhia que sua creada; não faz nada sem me ouvir, hoje fui eu que
appeteci as empadas, disse-me logo: «Vae encommendal-as...»
—Ah! elle tracta-te por tu!...
—Não... enganei-me... elle disse-me: «Vá, Rosa, encommende-as a seu
gosto, e traga tambem pasteis de nata.»
—Caspité! és tractada como uma princeza!
—O senhor não faz nada sem me consultar. Quando os seus amigos me fazem
zangar, digo-lhe a elle: «O seu amigo fulano deu-me hontem um beliscão em
certo sitio...» Oh! o tal amigo fica pronto, é recebido de tal maneira
que nunca mais volta.
—Oh! isso é bem armado, é um meio para te veres livre das pessoas que te
aborrecem.
—É uma astucia velha que nunca erra o seu effeito. Mas imagina que me
tinha vindo á idéa aquillo que me disseste o outro dia; uma d’estas
tardes, depois de jantar, á sobremesa, digo ao patrão, que estava mais
terno que de costume: «Senhor, se tem vontade de casar commigo, não se
constranja, eu não desejo outra coisa.» A isto o patrão desata a rir,
como um perdido! Fez-me zanga vel-o rir assim, e digo-lhe: «Então que
motivo ha para rir do que lhe proponho?» Elle ri ainda mais, e depois
responde-me: «Que diabo de idéa se te meteu na cabeça! e que tolice ires
pensar no casamento.» «Mas, senhor, tornei eu, não acho que o casamento
seja uma tolice.» «Pois olha que é, e bem grande; não, minha rica, não
casarei comtigo, não farei similhante disparate! mas ainda mesmo que
tivesse vontade de o fazer, não me seria isso possivel, pois que já sou
casado.»
«Bem deves fazer idéa que fiquei embaçada ao ouvir isto «Como! pois o
senhor é casado?» exclamei eu «e sua mulher está viva?» «Sim Rosa, minha
mulher está viva, bem viva, e não creio que tenha vontade de morrer,
porque é muito mais moça do que eu.» «E então porque não está o senhor
com ella? para que vive sem mais nem mais como se fosse solteiro? É
enganar a gente; isso dá ás raparigas solteiras certas idéas a seu
respeito: póde a gente illudir-se com o senhor, pensando que é para bom
fim, e depois era uma vez!... Isso é desagradavel...» O patrão fez então
uma cara de mau humor, e respondeu-me:
«—Não tenho que lhe dar satisfações; se me separei de minha mulher, é
porque provavelmente isso me conveiu, não é negocio da sua conta. De hoje
para o futuro, ha de fazer favor de me não tornar mais a falar a tal
respeito, porque isto desagrada-me.»
«Ora, bem deves suppôr que não foi preciso dizer-m’o duas vezes; vi que
tinha ido longe de mais, e desde então não tenho falado mais em tal.
Mas é o mesmo, desejava bem conhecer a mulher do sr. Loursain, e saber o
motivo por que elle a deixou.
—Ora! tem muito que saber! é que lhe fez falcatrua, e esse senhor não
gostou; ha homens tão ridiculos. Valha-me Deus! e eu sem ir buscar o
remedio á botica! Adeus, Rosa, até mais ver.
—E o teu moço de quem gostavas tanto?
—Ah! isso já acabou! agora é outro! eu nunca me prendo, gosto da
variedade.
Quando a menina Adriana volta á presença de sua ama, esta ralha muito com
ella por se ter demorado tanto tempo fóra; a creadinha porém não falta a
responder-lhe:
—Não foi por minha culpa, minha senhora, é que encontrei uma amiga,
uma patricia, que não via ha muito tempo, então estivemos a conversar,
perguntei-lhe pela familia...
—Sempre desejava saber que interesse podia ter n’isso...
—É que a Rosa tem um irmão que esteve quasi á morte por minha causa.
—Por amor?
—Não, minha senhora; mas querendo levar-me muito longe nos braços, á
força de pulso, ficou corcovado.
—E o que faz a sua amiga?
—Oh! tem um bello commodo, em casa d’um homem só, onde ella faz tudo
quanto quer; manda fazer empadas quando lhe dá na vontade... e pasteis de
nata, emfim, grandes banquetes.
—É então rico, esse senhor?
—Sim, minha senhora. Oh! parece que o sr. Loursain é riquissimo!
Ao nome de Loursain, Ambrosina sente uma viva commoção; apressa-se porém
a dominal-a replicando:
—Como se chama esse senhor em casa de quem está a sua amiga?
—Loursain. A senhora conhece-o?
—Não, parecia-me ter ouvido outro nome. E esse sujeito é... viuvo?
—Quer dizer, vive como se o fosse; mas na realidade não o é. Tem ainda a
mulher viva. Eu soube tudo isto pela Rosa, de quem elle está loucamente
namorado, e com quem estimaria muito casar; mas elle disse-lhe em
confidencia: «Eu não posso casar comtigo, Rosa, e tenho muita pena
d’isso, porque sou casado e minha mulher ainda é viva, infelizmente; mas,
se ella morrer, podes estar descançada, tens a certeza de occupar o seu
logar... o teu futuro está seguro.» O que é pena, é que parece que a tal
senhora é muito mais moça que o marido; mas, emfim, em todas as edades se
morre, não é verdade, minha senhora?
—Certamente. E o amo da sua amiga mora perto d’aqui?
—Sim, minha senhora, na rua Béranger, aquella que faz continuação á
nossa. Parece que aquelle senhor tem uma bella casa, n’um segundo andar,
do lado da rua, e mobilada no grande _chic_. O quarto da Rosa é no mesmo
pavimento, o que é muito commodo, porque... a senhora bem entende... a
Rosa não m’o quiz confessar, mas é como se m’o tivesse dito, demais, ella
descuidou-se commigo... o amo trata-a por tu, e...
—Basta, basta, não quero saber dos negocios da menina Rosa; mas, para a
outra vez, tracte de conversar menos tempo quando eu a mandar a algum
recado.
Deixada só, Ambrosina fica por largo espaço engolphada nas suas
reflexões, das quaes sae por fim, dizendo de si para si:
—Loursain mora perto de mim, e eu não desejo encontral-o, é preciso
mudar-me.
XI
O vinho quinado
Um dia de manhã, Casimiro fica agradavelmente surprehendido ao receber
a visita do lojista em casa de quem expôz o seu quadrosinho, e que se
approxima d’elle dizendo:
—Temos comprador para o seu quadro por quatrocentos e cincoenta francos,
quer dal-o?
O joven pintor receia ter ouvido mal, abre muito os olhos para se
certificar de que é effectivamente o seu negociante de quadros que está
deante d’elle, e exclama:
—Quatrocentos e cincoenta francos, diz o senhor? é pela minha vista de
Bougival que lhe offerecem esse dinheiro?
—Sim, se lhe convem, é negocio feito, e pode logo passar por minha casa
para receber o dinheiro.
—Se me convem! isso deixa-me encantado, enche-me de alegria, nunca teria
ousado pedir tanto.
—Eu tinha pedido quinhentos francos, e estou certo de que, se o senhor
quizesse esperar, acabariamos por achar quem os desse.
—Nada, não, não quero esperar, parece-me que fica muito bem pago, demais,
visto que se acha valor aos meus quadros, pintarei outros.
—E fará muito bem. Trabalhe, sr. Casimiro, dê-se antes áquelle genero
que a outro qualquer. Creio que lhe será isso muito mais rendoso que
o retrato. O senhor é colorista, o que é um dom da natureza; conheço
pintores de talento que não teem o menor sentimento da côr; teem uma
figura para fazer, empregam a primeira coisa que acham no pincel; está
perfeitamente desenhada, é espirituosa de attitude, de maneira, de idéas.
Reina porém em tudo aquillo um tom pardo-escuro que tira ao quadro toda
a graça que deveria ter. A esses, não peçam nunca luz, claridade, sol;
é-lhes impossivel metterem d’isso nos seus quadros. Trabalhe, que nós o
auxiliaremos.
Assim que o lojista se retira, Casimiro põe-se a pular e a dansar no
quarto. Não é a idéa de que vae receber quatrocentos e cincoenta francos
que o torna tão alegre; graças á generosidade da sua amante, tem tido
muitas vezes quantias maiores á sua disposição; mas é o pensamento de que
esse dinheiro é o fructo do seu trabalho, que elle soube ganhar por si
mesmo, e que quando o receber, poderá mettel-o na algibeira sem córar.
—Nada faltaria agora á sua felicidade, se a sua vizinha do quinto andar
consentisse em deixal-o fazer-lhe o retrato; não conseguiu ainda vencer a
sua resistencia, e comtudo Rouflard disse-lhe no dia anterior:
—Está-me parecendo que a menina Lisa não tardará a deixar-se retratar,
porque o medico que tracta da sua velha doente tem vindo vel-as estes
dias; receitou uma nova beberagem, creio que é vinho quinado. Seria
preciso que a boa da velha o tomasse todos os dias, e, com a breca!
aquelle vinho é caro; as garrafas são muito pequenas despejam-se em dois
goles. A pequena levanta-se ainda mais cedo, véla ainda até mais tarde
para arranjar o vinho quinado; mas creio que lhe custa a chegar. Não
faria ella cem vezes melhor em se deixar tomar por modelo? Ainda hontem
lh’o disse. Suba lá o senhor, é agora a occasião, eu conheço as mulheres,
tanto quanto a gente as pode conhecer; mas olhe, com ellas, o que é
preciso é aproveitar a occasião.
Casimiro tracta logo de pôr em practica o conselho de Rouflard, e sobe
de novo a casa da menina Lisa. Todas as vezes que se dirige alli, sente
uma viva commoção e o seu coração bate mais apressado. Comtudo, tem dito
muitas vezes a si proprio que não devia pensar em fazer a côrte a Lisa;
que aquella pequena era honesta, e que da parte d’elle seria muito mal
feito procurar seduzil-a, perturbar-lhe o socego e fazer-lhe deixar a
verêda da honra, na qual, como diz o poeta: é difficil entrar uma vez
que se esteja fóra.
Casimiro disse comsigo tudo isto e muitas outras coisas, o que não impede
que, ao olharem para a linda cara d’aquella menina, os seus olhos não
tenham uma expressão que não é de modo algum a da indifferença, e que a
sua voz se não faça mais suave e mais insinuante.
Pela sua parte, Lisa sente-se inteiramente outra desde que travou
conhecimento com o seu vizinho do terceiro andar. Tem-se mostrado para
com ella tão delicado, e sobretudo tão respeitoso, que a rapariga
pergunta a si mesma por que receia conceder-lhe o favor que elle
solicita. Mas pergunta isto muitas vezes de mais; pensa em Casimiro
todo o dia, não pode já reprimir-se de o fazer, e, apezar de toda a
sua innocencia, uma donzella de dezoito annos adivinha perfeitamente
que é muito perigoso estar sempre a pensar n’um rapaz, occupar-se
constantemente d’elle; e, ainda que esse rapaz lhe não tenha dito uma
unica palavra de amor, ainda que não a veja senão deante de sua avó, a
donzella deve conservar-se acautelada contra o sentimento que se lhe
introduz na alma, e sobretudo não se expôr a amar alguem que não pensa
n’ella senão para lhe tirar o retrato.
É com receio de tomar demasiado gosto em se achar só com o seu joven
vizinho, que Lisa recusa sempre deixar-se retratar por elle.
Mas no meio de tudo isto, chegou aquella receita de quina em vinho de
Malaga. Os malditos medicos não se importam com as posses dos seus
doentes; receitam o que é favoravel ao restabelecimento da saude, e tanto
peior para o enfermo se não pode comprar o remedio; elles cumpriram a sua
missão.
Lisa havia comprado uma garrafinha do vinho receitado; fizera-o beber
á sua velha doente, a quem isso havia dado grandes melhoras. Mas essa
garrafinha fôra bebida em sete dias, e ainda se não tinha comprado outra.
Este maldito vinho quinado preoccupava agora Lisa quasi tanto como
Casimiro, e, como na vida todas as coisas têm o seu ricochete, ella não
podia deixar de dizer de si para para si:
—Se eu me resolvesse a servir de modelo, bem depressa teria vinho quinado.
Rouflard não se enganara pois nas suas conjecturas, e, com effeito, ao
vêr entrar Casimiro no seu aposente, Lisa experimenta um vivo sentimento
de prazer que ella dissimula o melhor que pode, cumprimentando o seu
vizinho com ar amavel e indicando-lhe uma cadeira, porque não pode largar
a obra que está a acabar.
—Bons dias, minha vizinha, diz Casimiro; aqui tem um homem extremamente
feliz.
—Realmente, estimo muito; o que lhe succedeu então para lhe causar tanta
alegria?
O que me acconteceu? Ah! a menina não o comprehende talvez bem, porque é
preciso ser artista para conhecer estas alegrias! Imagine um auctor que
obtem o seu primeiro triumpho no theatro, o compositor que ouve cantar na
rua a musica que fez publicar, emfim o pintor que vende o seu primeiro
quadro, eis os homens mais felizes da terra! pois bem! eu sou d’esse
numero... acabo de vender o meu primeiro quadro.
—O seu primeiro? como, pois ainda não tinha feito nenhum?
Esta reflexão tão natural de Lisa faz córar Casimiro, que comprehende
que a sua joven vizinha deve perguntar lá de si para si em que tem elle
empregado o seu tempo, para não ter feito, na sua edade, senão um quadro.
O rapaz tracta de sair do embaraço, respondendo:
—Não menina, é verdade; comecei muito tarde a pintar a paizagem, eu
preferi o retrato, agradava-me isso mais.
—E agora renuncia o retrato para se dar á paizagem?
—Oh! não! renunciar ao retrato! nunca! uma coisa não impede a outra! Mas
eu estava tão contente esta manhã com a venda do meu quadro, que não pude
resistir ao desejo de lhe dar parte do meu bom succedimento... e depois,
quando se está em maré de felicidade, dizem que sempre nos chegam muitas;
então, disse commigo: Vamos vêr a minha linda vizinha; quem sabe se ella
hoje quererá tambem consentir em deixar-se retratar, se não abrandarei a
sua resistencia!...
—Isso fazia-o então ainda muito feliz, se eu lhe deixasse fazer o meu
retrato?
—Ah! seria o auge da minha felicidade? Empregaria todos os meus cuidados,
todo o meu talento n’esse trabalho! e estou bem certo de que havia de ser
bem succedido, que faria uma cabeça lindissima.
—Mas esse retrato... vendia-o depois?
—Vender o seu retrato! oh! nunca, minha vizinha, nunca! conserval-o-hia
toda a minha vida... mas faria uma copia para lh’a offerecer, ou, se a
menina o preferisse, dar-lhe-hia o original e ficaria eu só com a copia.
—Mas o que fará o senhor do meu retrato em sua casa! ha de incommodal-o...
—Incommodar-me! pelo contrario, será o mais bello ornato do meu
_atelier_, olharei para elle todos os dias, não me cansarei nunca de o
contemplar. Ah! minha vizinha, consinta, por obsequio, diga que consente.
Lisa ainda hesitava, porque os olhos de Casimiro tinham tomado uma
expressão que lhe causava uma commoção vivissima; mas n’este momento a
enferma, que estava adormecida, accorda, dizendo:
—Lisa, dá-me uma gota d’esse vinho que me faz tanto bem.
—Sim, avósinha, d’aqui a um instante, já o não ha em casa, eu o vou
buscar...
Depois, voltando-se para Casimiro, Lisa diz-lhe em voz baixa:
—Pois bem! consinto, começaremos ámanhã.
—Oh! como a menina é cheia de bondade! e quão feliz eu sou! Corro então
á pharmacia a comprar-lhe o vinho quinado.
—Não, isso não, irei eu mesma.
—A menina não pode deixar a sua doente, permitta-me fazer-lhe este
pequeno serviço, eu sei que é vinho de Malaga.
—Oh! sr. Casimiro... por quem é...
—Deixe-me por minha vez ser-lhe agradavel, a menina consente em me servir
de modelo... estou tão contente! Corro a buscar o vinho, volto com elle
n’um momento.
E sem attender mais á rapariga, Casimiro sae apressadamente; desce a
escada a quatro e quatro, por pouco que não deita ao chão o menino Proh
que procurava pôr-se a cavallo na balaustrada do patamar, passa como uma
frecha por deante do porteiro, corre á botica mais proxima, pede vinho
de Malaga quinado, compra tres garrafas, mette uma em cada um dos bolsos
lateraes, esconde a terceira debaixo de paletot e volta a casa de Lisa
com a mesma pressa com que de lá saíu.
—Valha-me Deus!... então o senhor traz tres garrafas! exclama a rapariga
vendo Casimiro tiral-as dos bolsos.
—Sim, minha vizinha, terá assim para muito tempo sem se incommodar.
—Mas não era preciso, isto custa tres francos e dez soldos cada garrafa...
—Com duas sessões ficam as nossas contas saldadas.
—Ah! senhor, não é possivel!
—Perdão, minha vizinha, juro-lhe que a um modelo como a menina não se
paga menos, e que lhe ficarei ainda muito obrigado. Mas tenha a bondade
de me dizer a que hora quer que eu venha para a sessão.
—É sempre de manhã cedo que minha avó descança melhor e não tem precisão
de mim; se o não contrariasse vir ás oito horas... mas é talvez cedo de
mais para o senhor?
—Não! pelo contrario, essa hora convem-me muito, trabalharemos das oito
ás dez, se me fizer esse obsequio, porque eu não a quero fatigar, e,
duas horas, isso é talvez já demasiado para a menina...
—Oh! não, senhor! demais, o senhor disse-me que eu poderia coser ao mesmo
tempo...
—Sim, sim, fará tudo quanto quizer; em eu podendo olhar para a menina, é
quanto basta.
—Eu pensava que o modelo era tambem obrigado a olhar para o pintor!
—Algumas vezes, de certo, é isso melhor; mas nós temos tempo, e quando
fôr absolutamente necessario, então a menina terá a bondade de levantar
por um momento os olhos de cima do seu trabalho. Assim, está ajustado,
ámanhã ás oito horas cá me tem a minha vizinha com toda a minha bagagem...
—Estarei prompta.
Casimiro retira-se, e Lisa approxima-se da velha doente, dizendo-lhe:
—Avósinha, aqui está o vinho quinado!
XII
A primeira sessão
Casimiro está encantado com o seu dia, e assim que sae de casa do seu
novo modelo, dirige-se á morada de Ambrosina, á qual quer participar a
venda do seu quadro. Não está bem certo se ella compartilhará da sua
alegria, mas estima muito que saiba que elle pelo seu trabalho pode emfim
prescindir dos soccorros de outrem.
Emquanto ao que acaba de obter de Lisa, terá o cuidado de não dizer uma
unica palavra á sua amante, da qual conhece os excessivos zelos; bem pelo
contrario, espera que ella ignorará as suas relações com a sua joven
vizinha; por isso ficou muito contente quando esta lhe propoz dar-lhe
sessão ás oito horas da manhã; das oito ás dez não receia receber a
visita de Ambrosina, que se levanta habitualmente muito tarde, e se por
acaso ella viesse a sua casa antes que elle tivesse descido do quinto
andar, sempre poderia dizer que tinha ido almoçar ao café.
Ao sair de casa, Casimiro encontra-se com Rouflard; o inquilino da
agua-furtada nota o ar alegre e triumphante do joven pintor, e exclama:
—Aposto que se arranjou a coisa!
—É verdade, Rouflard, sim, a menina Lisa consente em me deixar fazer o
estudo da sua cabeça, ah! estou muito contente!
—Eu bem sabia que haviamos de acabar por isso, mas isto de mulheres, é
preciso sempre que se façam rogar um pouco.
—Ámanhã pela manhã ás oito horas subo a casa d’ella, com a palheta e os
pinceis, e temos a primeira sessão...
—Quando qualquer mulher dá uma sessão, dá ao depois tantas quantas se
querem... isso vae mesmo por si, é como o primeiro passo.
—Mas, Rouflard, isto fica aqui entre nós; quando eu estiver trabalhando
com o senhor em minha casa, se vier aquella senhora, bem sabe, aquella
morena a quem trato simplesmente por Ambrosina... e que já aqui tem vindo
muitas vezes...
—Sim, sim, a senhora primeira, a sultana favorita, percebo!
—Pois bem! escuso de advertir-lhe que é preciso não dizer palavra ácerca
das minhas visitas a casa de Lisa e do retrato que vou fazer...
—Ora essa! como, meu artista! é a mim que o senhor diz isso, a mim, um
veterano nas lides amorosas! parece-me todavia que não tenho ares de
galucho! eu, que ficaria afflicto se causasse o menor dissabor á minha
joven bemfeitora!
—Tem razão, eu devia louvar-me no senhor.