que trabalho para viver, para que nada falte á minha boa avó, e desejou
ser-me util; não posso senão agradecer-lhe muito o interesse que se
dignou tomar por mim. Mas não acceito a sua proposta; ser modelo de
pintores não é a minha occupação, e tenho ouvido dizer... ao meu vizinho
cá de cima, que as mulheres que consentiam em servir de modelos, não
eram bem vistas na sociedade. Eu sou uma pobre rapariga, sem amparo, sem
familia, não tenho pois por unica fortuna senão a minha reputação, e devo
ter a peito conserval-a; tenho razão não é verdade?
Estas palavras tão simples, mas tão justas fazem viva impressão
em Casimiro, que não está habituado a ouvir uma mulher falar tão
discretamente. Tracta comtudo de convencer Lisa.
—Menina, convenho que o mister de modelo não dá a qualquer mulher uma
perfeita reputação de seriedade, posto que em todas as profissões se
possa ter bom comportamente quando ha firme vontade de proceder bem.
Mas tambem eu não vinha propôr-lhe que renunciasse ás suas occupações
habituaes por esta nova profissão. Podia-lhe que me servisse de modelo
sómente a mim, que me permittisse reproduzir as suas feições na tela,
era um favor que eu solicitava e, para a menina, uma curta distracção
aos seus trabalhos. E como lhe podia parecer pouco regular ir a minha
casa servir de modelo, viria eu para aqui pintar, traria para cá a minha
palheta e os meus pinceis; d’esta maneira, a menina não deixaria mesmo um
instante a pessoa a quem prodigaliza todos os seus cuidados. Os modelos
pagam-se muito caro, desculpe-me entremetter a questão de dinheiro em
tudo isto; mas na vida não ha remedio senão attender a essa questão: ora,
se eu occupasse um modelo durante umas dez sessões, dar-me-hia por muito
feliz se elle se contentasse em receber cincoenta francos...
—Ih! Jesus! tanto dinheiro, só por servir de modelo!...
—Sim; e quanto mais bonito é o modelo, mais caro se faz pagar, isso
comprehende-se. Por isso, para achar um como a menina, em primeiro logar
seria muito difficil, depois teria de o pagar por um preço muito mais
elevado, e as minhas posses não me permittem uma tão grande despeza.
Já vê portanto que, satisfazendo ao meu pedido, era a mim que a menina
obsequiava, era eu que lhe devia agradecimentos; mas isto desagrada-lhe,
não pensemos mais em tal...
Lisa d’esta vez hesita para responder; a final murmura.
—Sinto não poder ser-lhe agradavel; parece-me entretanto que não deve
ser difficil achar uma cara que valha bem a minha. Olhe, senhor, eu não
conheço nada o mundo, mas creio que o céu me deu o segredo de ler no
pensamento das outras pessoas: o senhor deseja ser-me util e tracta
de me persuadir de que eu é que lhe prestaria serviço. Ah! isso é bem
generoso da sua parte... confesse que adivinhei.
Casimiro está muito admirado da perspicacia da rapariga. Não pode deixar
de sorrir, balbuciando:
—Confesso que me espanta, menina; a sua linguagem annuncia mais educação
do que de ordinario se recebe na posição precaria em que a vejo. Não tem
mais parentes senão essa pobre enferma, diz a menina; mas aquelles que
perdeu occupavam então uma posição mais afortunada; perdão, sou talvez
demasiadamente curioso?
—Oh! eu não tenho motivo para me rodear de mysterios! não conheci nunca
meus paes; abandonaram-me muito cedo aos cuidados d’uma ama, depois
esqueceram-se de mim completamente.
—É possivel! pobre creança! mas essa velhinha que ahi está?...
—Chamo-lhe avó, mas não me é nada; era mãe de minha ama. Essa chamava-se
Catharina Vauger; queria-me muito, e o que mais receiava era o momento em
que teria de separar-se de mim para me entregar á minha familia; ficou
pois bem contente quando lhe enviaram uma forte quantia, dizendo-lhe:
«Saia da sua aldeia, fique com a creança; em vez do nome que ella tem,
chame-lhe _Lisa_ unicamente; mas vá para Paris, para a morada que aqui se
lhe indica, estabeça-se, e arranje uma lojita, que alguem terá o cuidado
de a indemnisar das despezas que fizer com a menina.» A minha ama acabava
de perder o marido. Partiu para Paris, trazendo comsigo a mãe, que alli
está, n’aquella cama. Durante algum tempo recebeu pelo correio certas
quantias para mim, depois, de repente isso acabou, não se ouviu mais
falar em coisa alguma!...
—Mas a sua ama sabia sem duvida o nome da pessoa que lhe escrevia?
—Não, as cartas não vinham assignadas; nunca mesmo lhe tinham dito o nome
de minha mãe...
—É completamente um romance!...
—A minha boa ama pouco se inquietou com isso; tinha emprehendido um
negociosinho de leite e de queijos que corria bem. Assim que fiz seis
annos, mandou-me á escola; depois, um pouco mais tarde, a um collegio
semi-interna, porque ella não queria nunca separar-se de mim mais de
meio dia. Querida e boa ama! queria-me mais que uma mãe! visto que a
minha me abandonára. Vivemos assim muito felizes durante alguns annos;
mas, ha quatro annos, a boa Catharina caíu doente, e, apezar de todos os
meus desvelos, morreu; tinha eu apenas quatorze annos, e comtudo a minha
ama recommendou-me sua velha mãe, porque ella conhecia-me, sabia que eu
tinha coragem, e a firme vontade de reconhecer pelo meu trabalho tudo o
que tinham feito por mim. Durante os primeiros tempos, para vivermos,
minha avó e eu, fomos obrigadas a trespassar o estabelecimento da minha
ama. Eu procurava trabalho, mas não o podia obter, achavam-me muito nova
para m’o confiarem, e quando minha avó o pedia, achavam-n’a muito velha.
A final, a Providencia veiu em nosso auxilio, e eu pude ganhar a nossa
vida. Mas, ha um anno, a minha pobre companheira ficou meia paralytica,
já o senhor vê que tenho razão para trabalhar sem descanço e para velar
constantemente pela pobre velha que não tem mais ninguem para a tractar.
—O que me acaba de dizer, não tem feito mais que augmentar o interesse
que me inspirava, e perdôe, se torno ainda a falar n’isto, o desejo que
sinto de lhe ser util. Pobre pequena, abandonada pelos paes, que vivem
talvez na abastança e podem ter todos os gozos que a riqueza proporciona,
emquanto que a menina...
—Asseguro-lhe que nunca penso em tal, não choro senão a minha ama, a
minha unica mãe! e que me queria tanto! Não tenho resentimentos contra
meus paes por me haverem deixado com ella. Nem minha mãe nem meu pae me
teriam de certo tractado melhor.
—A menina tem muita philosophia, dou-lhe por isso os meus parabens:
outras, no seu logar, forjariam mil chimeras.
—Oh! eu não! não penso senão no meu trabalho.
—E sempre me recusa o favor que lhe peço de me deixar tirar o seu
retrato, vindo eu aqui?
—Certamente; d’essa maneira, é muito mais decoroso; mas não importa, não
quero servir de modelo.
Casimiro suspira e levanta-se dizendo:
—Vamos, vejo perfeitamente que nada pode vencer a sua repugnancia. Não
devo por insistir mais; mas, no emtanto, se por acaso mudar de parecer,
eu estarei sempre prompto com a palheta e os pinceis, e a menina não tem
senão uma palavra a dizer, para me ver aqui immediatamente.
—Muito agradecida.
—Demais, se me dá licença, virei eu proprio saber da saude da sua doente,
a menina permitte-me, não é verdade?
A menina Lisa faz-se córada, hesita, mas este pedido era-lhe feito com
uma voz tão meiga, este rapaz tem mostrado por ella tanto interesse,
mostra-se tão respeitoso, tão delicado, e depois não é um estranho
qualquer, mora no mesmo predio, e o porteiro nunca disse d’elle senão
bem; tudo isto decide, a rapariga a pronunciar um sim, que enche de
alegria o seu vizinho.
Casimiro então torna a agradecer a Lisa a permissão que ella acaba de
lhe conceder, depois despede-se e retira-se em bicos dos pés, sem fazer
bulha, de modo que a doente não accorda.
O nosso mancebo, ao entrar em sua casa, sente-se cheio de ardor para
o trabalho; dispõe a sua tela, e prepara a palheta e os pinceis. Os
bons exemplos fazem muito mais effeito que os bons conselhos, no que
ha a differença da practica á theoria; escuta-se muitas vezes com
indifferença, e esquece-se mesmo o que se ouviu; mas nunca se olvida o
que se viu. Tem razão o proverbio que diz: Um olho vale mais que dez
ouvidos:
O joven pintor aguarda impaciente a chegada de Rouflard para se pôr ao
trabalho; mas passa-se o tempo e o modelo não apparece. Casimiro começa a
pensar que fez mal em pagar adiantado ao inquilino da agua-furtada, que
é capaz de gastar tudo quanto recebeu, antes de pensar em cumprir a sua
promessa.
Mas não tarda que se ouça um grande arruido de vozes; grita-se, ralha-se
no patamar, e a voz de Rouflard cobre muitas vezes todas as outras.
Casimiro quer saber o que se passa, corre a abrir a porta e vê no seu
patamar a familia Proh á briga com o seu futuro modelo.
O sr. Proh e sua mulher parecem muito exaltados; Rouflard está apenas um
pouco «electrizado...»
—Sim, senhor, grita o sr. Proh, que tem effectivamente alguma similhança
com um chimpanzé; eu tinha direito para o chamar a uma policia
correccional pelo que o senhor escreveu por cima da minha porta...
—Ah! ah! ah! o senhor faz-me rir com a sua policia correccional, faça-me
ir ao tribunal, isso ha de divertir-me...
—Pelo menos ha de ir á presença do juiz de paz! diz Celeste Proh, porque
o senhor insultou-me, chamando-me sr.ª _Profanée_!...
—Insultei-a! com a breca! a senhora é difficil de contentar! comparo-a
com uma flor. Quando uma flor está meio murcha, diz-se que está
_fanée_... concedo-lhe que é uma rosa _fanée_... e zanga-se com isso...
eu podia-lhe ter posto: a sr.ª _Probléme_... a sr.ª _Profile_... um reles
algodão...
—Cale a bocca, insolente! meu vizinho, faço-o juiz d’esta questão: o
senhor leu sem duvida o que este homem tinha escripto com giz por cima da
nossa porta?...
—Não, minha senhora, não reparei...
O rapazito põe-se a gritar:
—Era: A menina _Pronobis_, a sr.ª _Profanée_...
—Cale-se, Affonsinho, não é preciso repetir essas coisas feias, visto que
o nosso vizinho não as leu...
—O sr. _Professe_! eu sou o menino _Propice_...
—Cale a bocca. Fonfonso!... vá já para casa...
—Não quero...
—E porque é que me pôz a mim o sr. _Professe_?... O que entende por esta
locução? exclama o falso chimpanzé muito zangado.
—O que entendo? oh! essa é boa! Pois não é difficil de adivinhar! É
verdade que talvez isso lhe não aconteça já!
—Senhor, hei de ter uma satisfação de todas essas offensas!...
—Quer que eu lhe dê uma satisfação? Estou prompto, um duello! agrada-me
a proposta; logo cá lhe mandarei o meu creado, para o senhor ajustar com
elle as condições do combate, acceitarei a arma que escolher, isso para
mim é indifferente! bato-me com tudo quanto se quer, mas o florete é a
arma das pessoas de distincção...
—O que é que diz? um duello! este homem propõe-me um duello, creio
eu... que desaforo! atrever-se a suppôr que iria medir-me com elle! tem
graça!...
—Medir-se, meu caro amigo! oh! não com um metro! o senhor é uma grande
vara, e eu não tenho senão tres pollegadas e meia, a vantagem seria toda
sua! mas Chausson, o meu antigo _groom_, nos emprestará duas espadas de
guarda nacional, ou dois páus de vassoura, á sua escolha. Convem-lhe
isto, sr. _Pro... rata_?
—Sr. Casimiro, peço-lhe que diga a este homem que se cale, aliás não
respondo pelo que acontecerá...
—Não te faças fanfarrão, _Professeur_! olha que te vou á figura...
—Sr. Rouflard, vê-se perfeitamente que almoçou bem de mais, não é isso
que me tinha promettido. Esquece-se de que tem de vir a minha casa
servir-me de modêlo, e que estou á sua espera?...
—Ah! é verdade, tem razão, desculpe, meu pintor, eu ia a sua casa, para
que me tomou esta gente o caminho?...
—Sr. Proh, e minha senhora, peço-lhes que não tomem a sério os gracejos
de máu gosto que este homem se atreveu a proferir, elle bebe de mais
algumas vezes para esquecer a sua miseria, devemos ser indulgentes com os
desgraçados, prometto-lhes que não tornará mais!...
—Ah! sr. Casimiro, é só em attenção ao senhor!
—Vamos, Rouflard, vamos para o nosso trabalho...
—Já vou, meu Miguel Angelo, meu Raphael. Familia Proh... tornaremos a
ver-nos...
—Venha, Rouflard, venha d’ahi...
—Vamos lá fazer de modelo _Pro Deo e pro patria_!... É bonito isto!
_Pro-deo_...
Casimiro faz entrar o modelo em sua casa, e a familia Proh retira-se
tambem do patamar, depois de ter tido o cuidado de apagar o que restava
de giz por cima da porta.
IX
Uma colhér de prata
Não é sem custo que o joven artista consegue do seu modelo que se deixe
pôr em posição, e principalmente que se não mecha depois de adoptada
emfim a sua attitude. A final Rouflard aquieta-se; demais, Casimiro
permitte-lhe conversar e elle usa da permissão. O antigo seductor tem-se
feito muito loquaz com a edade; gosta de falar dos seus triumphos
passados e enfeita as suas recordações de reflexões que são ás vezes
picantes. Rouflard não é falto de espirito; este homem possuia tudo o que
é preciso para fazer caminho no mundo, e foram todas as suas vantagens
que o perderam.
Casimiro ouve o seu modelo contar-lhe os seus triumphos com as damas, mas
em breve conduz a conversação a um assumpto que o interessa mais. É da
menina do quinto andar que elle gosta muito de ouvir falar!
—Mora ha muito tempo n’este predio sr. Rouflard?
—O senhor é muito delicado em dizer morar, meu Raphael; estar empoleirado
é que devia dizer. Emfim não importa; ha seis mezes que o occupo, aquelle
buraco, e confesso que nunca lá tive vontade de cantar: «Como se está bem
n’uma agua-furtada aos vinte annos!...» É verdade que já não tenho vinte
annos; mas, ainda que os tivesse, não seria nunca da opinião de Béranger.
Mas isto de poetas, em o pensamento sendo original é o sufficiente! Bem
se importam elles com a verdade!
—E quando o senhor veiu morar cá para cima, já a menina Lisa aqui
habitava com a avó?
—Sim, já cá estava, mas havia pouco tempo, pelo que tenho ouvido dizer.
—O senhor está no caso de saber quando ella recebe as suas visitas.
—Visitas! em casa da Lisa! oh! nunca! que eu saiba, nunca a nossa visinha
recebeu ninguem de fóra. Só a sr.ª Proh é que lá subiu uma ou duas vezes
com o filho, para levar trabalho. O garoto não cessava de gritar: que
feio que é isto aqui! e, como queria ralar a paciencia á pobre da avó,
Lisa pôl-o fóra de casa. Emquanto á senhora _Pro-tocole_, essa não se
fartava de dizer á rapariga: «Eu não poso pagar isto por doze soldos,
é muito caro, não dou senão dez.» E tantas vezes o repetiu, que Lisa
respondeu-lhe: «Dê a senhora o que quizer...» Pobre pequena! regatear
por dois soldos, a quem trabalha dia e noite para sustentar a avó! é uma
acção digna da sr.ª _Pro-fanée_!...
—Volte a cabeça um pouco mais para a esquerda. Muito bem, faça por
conservar essa posição...
—Está satisfeito commigo?
—Sim, senhor, não se põe mal... isto hade ir...
—O senhor está pintando o meu retrato para o mandar á exposição?
—Talvez, se me sair bom.
—Em todo o caso, ha-de-m’o dizer, não é verdade? porque eu não
desgostaria de me ir contemplar.
—Sim, sim, mas ainda lá não chegámos. Sabe o sr. Rouflard quem eu
estimaria bastante ter por modelo?
—Ora! aposto que adivinho? é a menina Lisa que o senhor quereria retratar!
—Exactamente, teria grande prazer em reproduzir na tela as bonitas
feições d’essa interessante rapariga!
—Pois bem! quem é que lh’o impede!
—Perguntei á nossa visinha se consentiria em me deixar tirar-lhe o
retrato, e ella recusou-se!
—Ah! recusou! Aposto que foi para não deixar a avó sósinha tanto tempo?
—Mas, como eu tinha comprehendido isso, propuz-lhe ir eu a sua casa com
os pinceis e a palheta, de modo que poderia ella servir-me de modelo sem
se afastar um momento da sua pobre doente...
—Oh! isso era bonito da sua parte! E ella ainda recusou?
—Sim, recusou sempre. Tenho dobrada pena com essa recusa, porque a menina
Lisa trabalha muito e ganha pouco...
—Acredito! sobre tudo se trabalha para a sr. Proh...!
—Emquanto que consentindo em me servir de modelo teria ganho muito
mais, e mesmo sem que isso lhe fizesse largar o seu trabalho habitual.
Ter-lhe-ia proporcionado alguns regalos, poderia comprar para a sua
doente coisas que ella por falta de dinheiro não lhe pode agora
offerecer. Pois eu não tinha razão, Rouflard?
—Tinha cem vezes, mil vezes razão! e não sei por que ella recusou!
—É que tem medo de se comprometter; tem ouvido dizer que as mulheres que
servem de modelo aos pintores não gozam de boa reputação.
—De ordinario não são nenhumas vestaes! mas quem necessita de trabalhar
para viver, não se deve prender com isso! A susceptibilidade de Lisa
é exagerada! Esteja descançado, meu pintor, o senhor só tem boas
intenções, só quer fazer bem á pequena, fazendo ao mesmo tempo um bonito
estudo; indo pintar em casa d’ella deante da avó, tira todo o pretexto
á maledicencia. Farei comprehender isso á minha boa vizinha, estou
convencido de que a hei-de resolver a deixar-se retratar!
—Devéras! acha que vencerá a sua resistencia?
—Com toda a certeza! tenho vencido outras mais fortes. Triumphar das
mulheres era a minha profissão! É verdade que empregava para isso meios
de que não usarei com a menina Lisa; resta-me, porém, a minha eloquencia,
e o desejo que tambem tenho de ser util áquella que nunca me recusou um
boccado de pão. Será talvez a primeira vez que prestarei serviço a uma
mulher, isso ha de fazer-me mudar.
Para primeira sessão, Casimiro não quer fatigar muito o seu modelo, e ao
cabo de duas horas, conhecendo que Rouflard começa a sentir formigueiros
nas pernas, diz-lhe:
—Basta por hoje.
—Devéras! põe-me em liberdade! Pois bem! gosto d’isso, porque principiava
a sentir uma especie de caimbras nas pernas, falta de habito, já se vê
mas hei-de-me costumar. Será preciso vir ámanhã outra vez?
—De certo; assusta-o isso, por ventura?
—Nada, pelo contrario, creio até que tomarei gosto pela coisa. Ganhar
dinheiro assim não custa nada. Oh! é preciso que a nossa vizinha se
preste tambem a isto, tanto mais que poderia assim dar grande prazer á
avó, estou mesmo espantado de que ella não tenha pensado em tal.
—Como é isso? explique-se melhor, Rouflard; em que é que a menina Lisa
daria grande prazer á sua pobre paralytica?
—Vae immediatamente perceber. Conversando algumas vezes commigo, porque
eu gosto muito de conversar, sobretudo com as raparigas bonitas, é um
resto da minha juventude... _desinit in piscem_... oh! eu tambem sabia
latim! mas, com as mulheres, esquecia-me d’elle, ellas não gostam de
linguas mortas!
—Voltemos a Lisa.
—Tem razão, eu poderia ter sido um bello advogado, porque trato os
pormenores com muito cuidado. Ora, ia eu dizendo: conversando, a minha
vizinha tem-me dito algumas vezes: «Ah! se eu podesse ajuntar algumas
economias. Ha uma coisa que daria grande prazer a minha avó, e que eu
estimaria muito poder-lhe offerecer, mas não o posso conseguir!» «O que
é então, lhe disse eu, que a sua avó deseja tanto?» «É, me respondeu
ella, uma colhér de prata; porque ella teve uma muito bonita n’outro
tempo, em vida da minha ama, porém depois da sua morte, quando estive
muito tempo sem achar trabalho, foi-nos preciso pouco a pouco vender o
que possuiamos, e a colhér de prata levou esse destino. Hoje conseguimos
viver, mas não posso ajuntar dinheiro para comprar outra; e ainda menos
agora, que o medico receita algumas vezes remedios que são muito caros!
Mas a saude está primeiro que tudo, vale mais que uma colhér de prata!...»
—Tem razão, Rouflard, essa menina, servindo-me de modelo, teria ganho em
breve com que comprar o que deseja offerecer á avó.
—A não ser que o medico receite ainda algum remedio ruinoso; então, lá
se ia embora todo o dinheiro! porque Lisa não regateia quando se tracta
de dar allivio á pobre enferma. Mas é o mesmo, eu lhe falarei. A sessão
ámanhã é á mesma hora?
—Mais cedo, ás dez horas em ponto.
—Á hora que quizer; eu sou livre como o besouro! Ah! permitte-me que veja
o que o senhor fez?
—Sim, pode vêr.
—Espere, isto já não está mau, eu não sei pintar, mas tive a reputação de
entender de quadros e, no tempo das minhas fortunas, comprei por vezes
alguns quadrosinhos _de genero_... e ganhei sempre n’elles.
—Pois então, olhe para essa vistasinha de Bougival, que ainda não
acabei...
—Vejamos; oh! é bonita, é aprazivel, tem vida! O senhor é colorista, o
que nem todos os pintores são, mesmo alguns que teem entretanto muito
talento. Isto que lhe digo, não é para lhe fazer um elogio banal, o
senhor tem o sentimente da côr... tracte bem este quadrosinho. Olhe, eu
n’outro tempo teria pago isto por trezentos francos, e ainda havia de
ganhar...
—Bom, visto que esta paizagem não lhe parece de todo má, vou acabal-a.
Eu faria talvez melhor o quadro _de genero_ que o retrato, não importa,
tentarei as duas coisas. Até ámanhã, Rouflard.
—Sim, senhor, e não almoçarei senão depois da sessão, para me collocar em
posição com mais dignidade.
Assim que o modelo se retira, Casimiro deixa a cabeça de Rouflard e
deita-se á paizagem; trabalha com um ardor de que elle proprio se
espanta, mas toma gosto pela sua obra, procura-lhe cuidadosamente os
defeitos, aperfeiçôa-lhe muitas partes, e o tempo passa depressa quando
a gente se entrega a um trabalho que agrada. Casimiro ouve dar quatro
horas, e diz comsigo:
—Não é possivel que já seja tão tarde. Ah! Santo Deus! e eu que devia
ir buscar Ambrosina ás tres horas, para ir passear com ella ao bosque!
mais uma scena que terei de aturar! Porque deixei eu esta mulher dispôr
assim do meu tempo? porque? Porque sou um preguiçoso, um cobarde, porque
a menor occupação me mettia medo, e hoje tenho infinitamente mais prazer
em trabalhar n’este quadro do que em ir passear ao bosque. Ah! é que
penso n’essa menina Lisa que não procura nenhuma distracção, que trabalha
constantemente n’um quarto onde não tem por companhia senão uma velha
paralytica, e isto de ter assim vivido na inacção envergonha-me. Tenho
ainda deante dos olhos a situação de Rouflard. Este homem, que foi
tão festejado, tão amimado pelas mulheres, viveu á custa d’ellas e eu
vejo onde isso conduz, o seu exemplo não será perdido para mim. A sr.ª
Montémolly pode zangar-se quando quizer, mas de hoje em deante hei-de
trabalhar; estou resolvido a isso, no entanto, como é preciso ser sempre
delicado com as senhoras, vamos ter com ella, senão seria capaz de vir
aqui para saber o que estou fazendo.
Casimiro dirige-se portanto a casa da formosa Ambrosina. Esta dama está
de muito máu humor; acha-se vestida e prompta ha mais de uma hora, e não
vê apparecer o amante. Passeava com impaciencia pela sala, olhava a cada
instante para o relogio, chamava a creada e dizia-lhe que fosse perguntar
que horas eram a qualquer parte, exclamando:
—Estou certa de que este relogio anda adeantado, deve regular mal;
Adriana, vá saber que horas deram com exactidão.
Adriana vae informar-se ao quarto do porteiro, e volta dizendo:
—Minha senhora, o seu relogio não está adeantado, pelo contrario, anda
atrazado seis minutos.
—Você é uma tola! exclama Ambrosina, rasgando as luvas com colera, de
certo viu mal...
—Não, minha senhora, eu...
—Basta! não quero que sejam perto de cinco horas, é impossivel!...
—Ah! se a senhora quer que não seja mais de meio dia, isso para mim é o
mesmo.
—Cale o bico! parece-me que tem a confiança de gracejar commigo! se diz
mais uma palavra, ponho-a na rua!...
Adriana retira-se, dizendo comsigo:
—É que o gajo ferrou-lhe alguma peça! Ainda agora a procissão vae na
praça, minha rica!
Chega finalmente Casimiro. Esperando uma scena de ralhos, vem revestido
de toda a sua paciencia; demais, está decidido a persistir na resolução
que tomou de mudar de vida.
—Ah! chegou emfim, diz Ambrosina mordendo os labios com despeito. Sabe
que horas são?
—Cinco horas menos vinte minutos.
—E a que horas devia o senhor vir buscar-me?...
—Um pouco mais cedo, é verdade; mas puz-me a pintar e o tempo passou mais
depressa do que eu imaginava.
—De certo que não presume que eu me satisfaço com similhantes razões;
deveria, pelo menos, ter inventado outras, dizer-me ainda que estava á
espera do seu amigo Miflaud, que foi elle que o demorou...
—Disse-lhe a verdade, minha senhora, não tem razão em não me acreditar.
Estive trabalhando.
—Esteve trabalhando! e desde quando, se me faz favor, desde quando lhe
veio esse bello amor pelo trabalho, que eu lhe não conhecia?