—Tu é que és uma tola; bem ouviste o borrachão que mora nas

aguas-furtadas dizer o outro dia na escada: Viva Lisa! viva a minha

namorada! E por signal tu disseste: Ora não ha! olhem que bello namorado

que a Lisa tem!

—Isso não é verdade! eu não disse tal!

—Disseste, sim!

—Não, não, não!

—Sim, sim, sim!...

—Basta, basta! _satis! satis!_ grita por sua vez Castor Proh; estes

irmãos fazem-me lembrar Cain e Abel, que eu não conheci, mas cujas

questões tiveram consequencias bem terriveis!

—Desde o momento em que o bebedo das aguas-furtadas está mettido em tudo

isto, diz Celeste, já o senhor vê que caso se pode fazer do que acaba de

dizer seu filho.

—Sim, senhora, esse bebedo, esse tal Rouflard, porque é assim que elle se

chama, creio eu, esse maroto, preguiçoso, borrachão que devia ser expulso

do predio. Chausson, o porteiro, tinha-m’o recommendado, pedindo-me que

lhe désse alguma coisa que fazer, e dizendo-me que era um homem bem

educado, que tivera desastres na sua vida. Eu accedi a occupal-o, ainda

que desconfio sempre d’essas pessoas que tiveram desastres. Eu tinha

justamente precisão de _rhum_ da Jamaica, a senhora não gosta, prefere o

licor de herva doce, mas gosto eu. Era um dia em que a senhora jantava

fora com os pequenos. Dou dinheiro ao tal Rouflard, ordenando-lhe que

fosse aos _Americanos_, que é onde ha certeza de o achar bom. O homem

sae d’aqui perto das quatro horas da tarde. Era preciso quando muito uma

hora para fazer o recado, e ás seis horas ainda não tinha voltado. Vou-me

queixar ao porteiro, receioso de que tivesse acontecido algum desastre

ao seu protegido. Dão sete horas, dão oito, finalmente, ás dez horas,

vejo chegar o nosso homem, borracho, bebedo, mal podendo suster-se nas

pernas, e que me apresenta uma garrafa quasi despejada, dizendo com ar

chocarreiro: «Aqui tem a sua garrafa de _rhum_... entornou-se um pouco

pelo caminho... é que provavelmente não trazia a rolha bem apertada.»

«Como! lhe dige eu, atreve-se a affirmar que a garrafa se entornou!

porém ella devia estar perfeitamente lacrada! para que teve a confiança

de a abrir?... foi para beber o meu _rhum_... você é um maroto!... um

patife!...» Em vez de se desculpar, de me pedir perdão, o tal Rouflard

diz-me a modo de injuria: «Se não está contente, vou beber o resto!...»

Effectivamente, deixei-lhe o resto; mas dei os meus agradecimentos ao

porteiro, e, repito, um tal bebedo não devia continuar a viver no predio.

—Ora adeus! o Rouflard não tem medo de vossemecê, papá Chimpanzé, não,

Chimpanzé não... papá Castor...

—Então o menino conversa com esse homem? Fonfonso, prohibo-o que lhe

fale, não quero que aprenda máus costumes.

—Não sou eu que lhe falo, elle é que me diz sempre tolices quando passa.

—Não lhe responda, encerre-se no seu foro intimo.

—Não entendo, papá.

—Quero dizer que não dê attenção ao que lhe diz esse bebedo.

—Ora! mas diverte-me, faz-me rir, hontem pela manhã disse-me: Porque é

que teu pae não põe o seu nome por cima da porta? é uma coisa que sempre

se faz para os artistas.

—O que, Fonfonso! esse homem tem a petulancia de te tractar por tu! Que

insolencia!

—Eu não lhe posso obstar...

—Deves-lhe dizer: Olhe que eu nunca guardei perús com o senhor.

—E elle responder-me-ha: Mas já os guardaste com o teu pae.

—Ah! esse tal Rouflard queria que eu puzesse o meu nome por cima da porta!

—Sim, senhor; até me disse: Fica descançado, pequeno, hei de eu lá pôl-o

e mais o de toda a familia, é preciso que todos saibam onde hão de

procurar a familia Proh...

—Elle disse-te isso! mera brincadeira, talvez...

—Ah! exclama Angelina, isto faz-me lembrar que vi hontem esse homem subir

a escada com um grande pedaço de giz na mão.

—Teria elle porventura a petulancia de fazer caricaturas ridiculas por

cima da minha porta!...

—Vá sempre vêr, sr. Proh, n’um bebedo tudo se deve esperar, nós ainda

hoje não saímos, poderia elle ter effectuado hontem as suas ameaças sem

que nós o soubessemos.

O sr. Proh sae da sala e dirige-se ao patamar. D’ahi a poucos instantes

ouve-se um grito de indignação; toda a familia corre immediatamente para

a escada, com grande curiosidade de saber o que pode estar escripto por

cima da porta.

—Venha, senhora, venha! exclama Castor, venham todos, e vejam o que o tal

Rouflard teve a pouca vergonha e a audacia de escrever por cima da nossa

porta. Oh! ha para toda a gente...

Com effeito, por cima da porta tinham escripto a giz, e em grandes

lettras:

A sr.ª _Pro-fanée_.

A menina, _Pro-nobis_.

O sr. _Pro-fesse_.

O menino _Pro-pice_.

VII

A menina Lisa

Depois do seu dia tão bem empregado, Casimiro não passou uma noite tão

agradavel: dormiu pouco; não se lhe tira da idéa a historia d’aquelle

pobre diabo que estava deitado na rua e que chama seu creado ao porteiro;

obriga-o a fazer reflexões que não são côr de rosa; o rapaz, sem todavia

se collocar no mesmo nivel que o tal Rouflard, diz comsigo que um homem

é infinitivamente despresivel quando vive á custa d’uma mulher.

O resultado d’estas reflexões é uma resolução, firmissima d’esta vez,

de se entregar ao trabalho, e, como a pintura é a unica habilidade que

possue e que pode utilizar, promette a si mesmo tornar a pegar nos lapis

e nos pinceis e tractar de adquirir, trabalhando, o que ainda lhe falta

para se arrojar a fazer um retrato do natural; demais, jura tambem não

dizer nada a Ambrosina das suas novas intenções.

O que é indispensavel a um pintor de retratos, é um modelo. Bem sabe

Casimiro que a sr.ª Proh estimaria bastante prestar-lhe esse serviço; mas

o rapaz, antes de fazer o retrato d’esta senhora, quereria exercitar-se

com outro modelo. Lembra-se do que lhe disse o porteiro a respeito de

Rouflard, e por isso, logo depois de haver tomado a chicara de café que o

Chausson lhe traz todas as manhãs, Casimiro sobe a escada para se dirigir

a casa de Rouflard.

A escada era alta. Chegava ao quinto andar, onde não ha senão quartos

occupados em grande parte pelas creadas do predio, Casimiro pára

a fim de tomar folego, e olha depois em torno de si. Acaba alli a

escada; o porteiro porém disse-lhe que o seu antigo amo habitava n’uma

agua-furtada, no sexto andar, e elle não vê o minimo rasto de escada.

N’isto ouve-se uma voz de mulher, muito suave, muito juvenil, cantando

como se embalasse uma creança. O quarto d’onde sae a voz tem a chave na

porta. Casimiro decide-se a entreabrir essa porta para perguntar por onde

se sobe ao sexto andar.

Vê uma casa modestamente mobilada, poderia mesmo dizer-se mobilada

pobremente; no fundo está um leito bastante confortavel, com uns grandes

cortinados de sarja, e quasi ao lado uma caminha, sem cortinas, que

apenas se compõe d’um enxergão e d’um colchão muito pobre, de lã; depois

ha uma commoda de nogueira, uma meza, algumas cadeiras, um pequeno

espelho sobre a chaminé, tudo o que é indispensavel, o strictamente

necessario e mais nada; mas isto tudo está arranjado com um cuidado e um

aceio que dessimulam em parte a pobreza.

No leito está uma velha deitada; mas ao pé da meza ha uma rapariga

sentada a coser. Casimiro fica pasmado á vista d’esta joven, cujo trajo é

bem simples, bem modesto, mas cujo semblante agrada logo pela expressão

meiga e engraçada dos seus lindos olhos, pelo encanto do seu sorriso,

emfim por essa sensação, difficil de analysar, que experimentamos á vista

d’uma pessoa que nos é desconhecida, mas que nós voltamos para vêr ainda

muito tempo quando o acaso nol-a faz encontrar.

—Perdão, menina, diz Casimiro conservando-se junto da porta que acaba

de abrir. Sou indiscreto. Incommodo-a talvez. Mas, se bem que morando

n’este predio ha já muitos mezes, conheço pouco as localidás. Procuro um

individuo que mora no sexto andar, pelo que me disse o porteiro, mas esse

sexto andar não dou com elle... não sei por onde se sobe para lá...

A rapariga sorri-se respondendo:

—Effectivamente, quando se não conhece bem este patamar, é difficil dar

com a escada que vae para cima... Mas, olhe, alem ao fundo a parede faz

uma quina, é de traz d’essa quina que o senhor achará uma escada muito

estreita, que vae ter ao sexto andar, é tão estreita que, se o senhor

fosse gordo, não caberia por ella!...

—Provavelmente o senhorio não quer que os inquilinos carreguem a casa

demais, responde Casimiro rindo.

—Oh! não ha senão um inquilino... um homem que está muito mal lá em

cima!...

—Como parece que está sempre embriagado, pode tomar a agua-furtada por um

palacio.

—Acha que sim? Pobre Rouflard! mas elle não está sempre embriagado,

felizmente está mais alegre quando se acha em jejum do que quando tem

bebido... Ah! perdão, senhor, minha avó está-se voltando na cama... Creio

que quer alguma coisa... perdão...

A rapariga faz-lhe uma mesura. Casimiro comprehende que deve retirar-se;

agradece outra vez á sua formosa visinha e torna a fechar a porta,

dizendo comsigo:

—Como! pois eu tinha uma visinha tão encantadora, e nem suspeitava de tal

coisa! Em Paris mora a gente annos n’uma casa e não conhece as pessoas

que habitam na mesma escada, não as encontra nunca! É que esta rapariga

é deveras encantadora; feições finas e suaves ao mesmo tempo, bonitos

olhos, cabello preto como ebano, uma boquinha amavel; que delicioso

modelo que isto faria! Vive com a avó; ellas não parecem ser muito

ricas... é preciso que me informe. Vamos, procuremos a escada por onde se

sobe a casa de Rouflard. Ah! creio que achei... effectivamente é muito

estreita! é uma escada de moinho! uma saia de balão não cabia por aqui.

Casimiro, conforme pode, sobe a escada, que não tem corrimão, mas

segura-se a gente á parede dos dois lados. Chega a uma especie de patamar

que tem tres portas; duas estão abertas de par em par, a do centro está

fechada, mas simplesmente com o trinco. É necessariamente alli que

deve morar o sujeito que na vespera se tinha deitado na rua. Casimiro

levanta o trinco, abre a porta, e fica muito espantado do quadro que se

lhe apresenta deante dos olhos; mas d’esta vez não é enlevo o que a sua

physionomia exprime.

N’uma agua-furtada que tem doze pés quadrados, e que recebe a luz de

uma trapeira construida no tecto, está um homem estendido em cima d’um

montão de palha que sustenta uma especie de colchão feito de aparas; um

cobertor de algodão, negro de immundicie e esburacado em muitos sitios,

é tudo o que tem para se cobrir; ausencia total de lençoes; serve-lhe de

travesseiro uma acha redonda, que, para ser menos dura, está coberta de

velhos cartazes de espectaculos, que provavelmente foram arrancados das

esquinas. O homem que dorme alli não deve nunca despir-se completamente;

mas como se está no verão, tirou o paletot e o collete. Tem na cabeça

uma velha cassarola de lata sem cabo, a qual lhe serve de barrete de

dormir.

Junto d’esta miseravel cama está uma cadeira côxa servindo de meza de

cabeceira, em cima da qual se vê uma terrina de porcelana rachada e

quebrada em muitos sitios. Aquella terrina, que talvez outr’ora teve

dentro saborosas sopas, está reduzida a um emprego bem humilhante! _Sic

transit gloria mundi!_ Ha fato espalhado pelo meio do chão. Sobre uma

tábua pregada no tabique estão alguns boiões de pomada, um pente, um

cangirão, uma garrafa, um cachimbo e um pedacinho de espelho.

Quando o rapaz abre a porta, o sujeito que estava deitado dorme, tem a

cara voltada para a parede, e a chegada de Casimiro não parece tel-o

accordado; por isso este ultimo pode muito á vontade examinar o sitio em

que se acha, e é o que elle faz, porque para um pintor _de genero_ havia

alli assumpto d’um quadro original e curioso.

Mas, depois de ter visto e revisto tudo, o que não podia levar muito

tempo, Casimiro decide-se a levantar a voz para despertar o dorminhoco:

—Olá!... ó senhor!... sr. visinho! não se lhe poderia dar uma palavra?

Rouflard volta meio corpo, resmungando:

—O que é? que me querem? não estou cá! vão para o diabo! não pode um

homem dormir socegado n’este cochicholo!...

—Perdão, sr. Rouflard, pelo ter accordado, mas são mais de dez horas,

pensava encontral-o já levantado.

—Eu levanto-me tarde, porque gosto de estar deitado, e nada tenho de

melhor a fazer do que dormir. Ah! se o senhor me paga o almoço, isso é

differente...

—Talvez que sim; e se lhe não offereço d’almoçar, posso dar-lhe com que

possa arranjar um almoço muito decente.

[Illustration: —Mas o que faz o senhor aqui?]

A estas palavras, Rouflard volta-se de todo, senta-se na cama, tira a

cassarola que lhe serve de barrete de dormir, esfrega os olhos, e exclama:

—Oh! mas então o caso é differente; isso é que são palavras bem pensadas;

espere, eu creio que o estou reconhecendo, é o sr. Casimiro Dernold, mora

cá no predio, no terceiro andar...

—Exactamente, ah! o senhor sabe o meu nome!...

—Foi o meu criado que me deu estas informações. Chausson, o nosso

porteiro, que foi n’outro tempo meu servo, e que queria hontem á noite

deixar-me dormir na rua; porque, agora me lembro muito bem, se não fosse

o meu nobre visinho, era a soleira da porta da rua que me serviria de

cama! Aquelle tratante do Chausson!...

—Se me dá licença, não foi hontem á noite, foi esta madrugada que tudo

isso aconteceu, porque era muito mais de duas horas quando eu vim para

casa...

—Pois bem! ainda que fossem quatro! Por ventura as pessoas finas, as

pessoas da boa sociedade deitam-se como as gallinhas! Já não tenho com

que ir cear á _Maison d’Or_, é verdade, mas posso sempre passear no

_boulevard_ dos Italianos emquanto isso me der prazer! e Chausson é um

maroto! vinga-se dos sôcos que lhe dei n’outro tempo. Ahi está o que são

os homens! para conhecer os seus defeitos dêem-lhes a riqueza. Creio que

foi Larochefoucauld que disse isto, ou alguma coisa equivalente.

—O senhor tem instrucção, sr. Rouflard, como é que não tem achado em que

se empregar convenientemente?

—Empregar-me! empregar-me. Ah! o vizinho tem graça! é por não ter querido

nunca empregar-me que durmo hoje em cima d’uma pouca de palha! Mas

não façamos recriminações! o senhor ficou em me dar com que almoçar,

isso cahiria do céu, porque não tenho um soldo, e em compensação tenho

grande appetite; a tudo isto accresce que não tenho já credito em parte

nenhuma!...

—Mas, se o senhor não quer empregar-se, vae talvez rejeitar a minha

proposta?...

—Conforme! se é coisa que não dê muito trabalho...

—Oh! não dá trabalho nenhum; tractava-se de vir a minha casa servir-me de

modelo, quatro ou cinco horas por dia.

—Servir de modelo... para a cabeça?

—Naturalmente, oh! eu não quero senão o seu busto, a cabeça e as mãos.

—Bravo! isso convem-me, oh! convem-me muito! quando quer principiar?

—Hoje mesmo, esta manhã, se o senhor poder?

—Eu posso sempre... todavia...

—Todavia precisa almoçar, comprehendo isso! Tome, aqui tem dez francos

adeantados sobre o seu trabalho; vá almoçar, depois venha a minha casa,

que eu vou preparar a palheta.

Rouflard levanta-se muito expedito, recebe os dez francos com uma cara

radiante, e enfia logo o collete e o paletot, dizendo:

—Ha muito tempo que não tenho um despertar tão bonito. Vamos entrar na

extravagancia de comprar uma pouca de pomada de baunilha, para fazer

honra ao nosso pintor...

—Não faça despezas de toucador por minha causa, acho-o muito bem assim

como está.

—Que bondade a sua. Ah! se me houvesse conhecido outr’ora, nos meus bons

tempos! então é que o meu retrato e a minha pessoa eram disputados; mas

outros tempos, outros cuidados!

—Perdão, sr. Rouflard, uma outra pergunta, que vae talvez parecer-lhe

indiscreta.

—Pergunte á vontade, não faça ceremonias.

—O senhor disse ahi ha pouco que não tinha nem um soldo, e que não

queriam já dar-lhe nada fiado. Se não tivesse recebido a minha visita

esta manhã, como é que havia de almoçar?...

—Como? ah! sim, comprehendo que isso lhe pareça difficil de resolver! é

que o senhor ignora que ha um anjo n’esta casa...

—Um anjo?

—Sim, senhor.

—No predio?

—Sim, n’esta mesma escada, não falo da que vem ter a esta agua-furtada,

mas cá por baixo, no quinto andar, n’um quarto muito modesto, mas que

parece um palacio em comparação d’este chiqueiro, mora uma rapariga que

pode ter dezoito annos, creio, e uma velha a quem ella chama sua avó. A

rapariga chama-se Lisa, a menina Lisa, como toda a gente a conhece; é

baixinha, é verdade, mas tão bem feita, tão graciosa... e uma cara!...

linda a mais não poder ser! Oh! nos meus bons tempos vi bastantes

mulheres bonitas! e mulheres que faziam furor, que viam a seus pés tudo

o que havia de melhor no _turf_. Pois bem, digo-o francamente, a menina

Lisa vale mais que todas ellas...

—Vi ha pouco essa rapariga, foi a ella que me dirigi para dar com a sua

escada, pareceu-me, com effeito, muito interessante.

—Interessante! oh! isso é pouco; ella é mais que interessante! e depois

um coração! uma bondade! quando estou completamente á divina, como eu

lhe dizia ainda agora, é ella que me soccorre. Um dia, havia eu parado

deante da sua porta, que estava aberta, tinha fome, e arrisquei-me a

dizer-lhe: «Minha vizinha, não terá por ahi um boccado de pão que me dê?

não tenho migalha em casa.» «Tem fome!...» exclamou ella, e correu logo

ao armario a buscar-me pão e um pedacito de queijo, que me offereceu,

dizendo-me: «Tome, não lhe posso dar mais nada, não tenho vinho...» «Oh!

isto é bastante, lhe disse eu, e a menina é um anjo de bondade!» ella

accrescentou: «Quando lhe faltar pão, venha pedir-m’o, não se constranja,

é-nos preciso tão pouco a mim e a minha avó, que sempre tenho de sobra.»

Aqui tem o senhor por que eu chamo a essa rapariga um anjo; vê que tenho

razão, faço por não abusar da sua bondade, mas algumas vezes, mesmo muito

amiude, vejo-me obrigado a recorrer a ella... então que quer o senhor?

parece que estava no meu destino o ser sustentado pelas mulheres; por

isso chamo á menina Lisa a minha namorada. Mas d’esta vez é honestamente!

respeito essa pequena, tanto quanto a estimo; faço mais, escuto os seus

conselhos, ella ralha commigo ás vezes, quando venho para casa bebedo...

—Mas não segue esses conselhos?

—Não sigo, é verdade; ainda hontem me emborrachei... que quer! a força

do habito. Tambem, quando estou bebedo, não ha perigo que eu pare para

conversar com Lisa; pobre pequena! a sua bondade para commigo é tanto

mais meritoria, que ella trabalha sem descanço para sustentar sua avó,

que está paralytica, algumas vezes á meia noite, á uma hora, sinto-a a

trabalhar ainda... e então grito-lhe: «Vizinha! isso é de mais, velar até

tão tarde, vá descançar, olhe que pode adoecer com tanto trabalho!» Ella

responde-me alegremente: «Não, não! o meu divertimento é coser; depois,

não tenho somno.» É realmente extraordinario que n’uma rapariguita haja

ás vezes mais coragem para o trabalho do que em cinco ou seis homens

robustos com eu!

Casimiro tem escutado mui attentamente tudo o que Rouflard lhe tem dito

da menina Lisa. Isso ainda lhe dá que reflectir. Mas Rouflard, que acabou

de vestir-se, faz tinir os dez francos que tem na mão, e diz-lhe:

—Perdão, meu caro vizinho, mas a fome aperta commigo, eu não o ponho

fóra... o senhor pode ficar aqui se se diverte com isso, eu porém peço

licença para me ir confortar.

E, sem aguardar a resposta do rapaz, Rouflard sae pela porta fóra e desce

rapidamente a escada, escutando apenas a Casimiro, que lhe grita:

—D’aqui a uma hora... em minha casa!... não se esqueça!...

VIII

Travam conhecimento

Casimiro desce a escada muito devagar atraz do inquilino da agua-furtada,

não porque tenha receio de cair, mas porque está muito preoccupado com o

que Rouflard lhe contou ácerca da rapariga que mora no quinto andar, que

trabalha toda a noite para sustentar a avó, e acha ainda meio de ser util

aos que carecem de pão.

Chegado ao patamar do quinto andar, o nosso mancebo pára deante da porta

da menina Lisa; estimaria bastante que aquella porta estivesse aberta,

mas não acontece assim; é verdade porém que a chave está ainda na

fechadura, o que annuncia que se não receia vísita importuna. Casimiro

está morto por tornar a vêr a rapariga de quem se lhe fez tão grande

elogio, diz de si para si que ha pouco não lhe agradeceu bastante a

indicação que ella lhe dera, accrescenta ainda que entre visinhos não

deve haver muita cerimonia, que de mais esta menina não tem muito

trabalho para ganhar dinheiro pela sua agulha, e que se elle podesse

ser-lhe util arranjando-lhe que fazer, n’isso lhe prestaria um grande

serviço. Emfim dá a si mesmo uma infinidade de razões para ter o direito

de abrir a porta, e é o que faz.

Lisa continuava trabalhando, mas já não cantava; tinha o parecer triste,

e dirigia especialmente a vista para o leito, onde a velha estava

deitada, depois dava um profundo suspiro. Ao vêr entrar de novo Casimiro

em sua casa, as suas feições exprimem a sua surpreza; mas, quando o rapaz

vae para falar, ella põe um dedo na bocca, e diz-lhe a meia voz:

—Baixinho! tenha a bondade de falar baixo, porque minha avó está

dormindo, e preciso não a acordar; esteve esta noite muito doente, muito

inquieta, não socegou um instante...

Casimiro entra pé ante pé, e murmura approximando-se da rapariga:

—Menina, eu sou sem duvida muito indiscreto em vir segunda vez

incommodal-a, mas não sei se lhe disse que era seu vizinho.

—Sim, senhor, disse-m’o, demais, eu já o sabia, tenho-o visto algumas

vezes no predio.

—Tem-me visto, e eu não tinha dado pela menina. Onde tinha os olhos?...

—É que eu estava no cubiculo do porteiro, e depois occupo tão pouco

espaço, é muito facil não me verem...

—Mas, quando alguem a vir uma vez é impossivel que não deseje tornar a

vêl-a mais vezes...

Lisa não responde a isto, mas volta os olhos para o leito; Casimiro

percebe que o momento é mal escolhido para lhe render finezas, e que,

demais, não é para lhe fazer a côrte que elle quer travar conhecimento

com a sua vizinha, mas no desejo de lhe ser util. É esse realmente o seu

unico intuito? Eu por mim não respondo por isso; mas já é alguma coisa o

ter boas intenções. O mancebo prosegue pois falando baixo e sentando-se

n’uma cadeira que está perto d’elle:

—Perdão, minha vizinha, vou falar-lhe francamente, e espero que nas

minhas palavras não verá nada que a possa offender. Soube pela pessoa

que móra lá em cima, com que actividade a menina se entrega ao trabalho,

para que sua avó não careça de coisa alguma; mas o trabalho d’uma mulher

é quasi sempre mal retribuido, eu ter-me-hia por muito feliz se podesse

offerecer-lhe o meio de ganhar mais, fatigando-se menos...

—Porque outro trabalho? eu não sei senão coser, bordar e fazer meia ou

renda.

—Eu me explico: sou pintor; ensaiei alguns quadrosinhos _de genero_,

mas ganha-se mais dinheiro a fazer retratos; n’isso ainda eu não sou

muito forte, preciso estudar, trabalhar muito, emfim tenho necessidade

sobretudo de pintar do natural, e para isso preciso de modelos. Notei

que aquelle Rouflard tinha uma cabeça caracteristica, eis a razão por

que fui esta manhã falar com elle. Propuz-lhe vir a minha casa servir-me

de modelo; elle acceitou com alegria, e eu poderei occupal-o bastante

tempo. Mas a minha sympathica vizinha, que tem uma cabeça encantadora,

ah! perdôe-me este elogio, é como artista que lh’o faço, eu julgar-me-hia

muito feliz se podesse reproduzir na tela as suas feições tão finas,

tão suaves. Oh! estou certo de que havia de conseguir! trabalha-se tão

bem quando se tem deante dos olhos um modelo que nos encanta... não lhe

pedirei que venha servir-me de modelo senão quando não tiver nada urgente

para fazer... acceitaria a sua hora... o seu tempo vago... e não julgaria

nunca pagar bastante caro as sessões que houvesse por bem conceder-me;

eis o motivo por que tomei a liberdade de abrir outra vez a sua porta e

de me apresentar aqui de novo. Se a minha proposta lhe desagrada, espero,

ao menos, que não verá n’isso da minha parte nenhuma intenção má.

A menina Lisa, que escutou Casimiro com muita attenção, responde-lhe logo:

A menina Lisa · 第 5 / 12 段