dito comsigo: «Elle não deve já ter muito dinheiro.» e não se enganou,
restavam-me apenas vinte francos; mas receber sempre dinheiro d’esta
mulher. Ah! é humilhante, é vergonhoso! ainda se ella me mettesse na
algibeira quatro ou cinco mil francos de uma vez, ao menos teria eu
para muito tempo sem andar á divina; porém ella terá todo o cuidado em
me não dar nunca similhante quantis, quer ter-me sempre debaixo da sua
dependencia. E não quer que eu trabalhe; não, teria um desgosto se eu
podesse passar sem ella. E diz que me ama, sim, por si, mas não por
mim. Infelizmente, nas mulheres, esta maneira de amar é a mais vulgar.
Ah! as mulheres de hoje não são como as de Sparta, que diziam ao marido
que partia para a guerra: «Volta vencedor ou faze-te matar.» Dir-me-hão
talvez que é tambem uma singular maneira de amar qualquer pessoa o
dar-lhe de conselho que se faça matar! _Ne quid nimis!_ o excesso em tudo
é um defeito. Vamos jogar o bilhar, é a estas horas que Miflaud costuma
estar no café do theatro. Ah! diabo! agora me lembro, é hoje o meu dia de
lição á menina Proh; irei? Mas eu não estou em estado de dar uma lição
de desenho. Ambrosina fez-me beber tantas coisas! Devo mesmo exhalar um
forte cheiro a vinho e a licor; não posso apresentar-me n’este estado
deante d’uma familia respeitavel, não, seria indecoroso. Ó delicias de
Capua! aqui tendes os vossos resultados! Ambrosina faz bem tudo o que é
necessario para me tirar o gosto pelo trabalho. Ora adeus! tanto peior!
toca a jogar o bilhar.
Quando a gente adquiriu uma vez o habito de não pensar senão, em
divertir-se, é muito difficil vencel-o e ter força bastante para rejeitar
o prazer que se apresenta e preferir-lhe o estudo ou trabalho. É o
que acontece n’este momento a Casimiro; este rapaz não é falto de bons
sentimentos, do que deu provas encarregando-se de dar lições de desenho
á filha da sua vizinha: deseja ganhar dinheiro, já pelo seu talento, já
exercendo um emprego em qualquer secretaría; mas lá está a amante para
lhe tolher o passo; como é rica, quer monopolizar o amante, quer o que
pobre moço não viva senão para ella e por ella! Quando uma mulher, que é
ainda muito encantadora, quer subjugar um homem, emprega n’isso todos os
seus meios, e para agradar tem ella muitos.
Casimiro não vae dar a lição á menina Angelina; vae para o seu café
favorito, onde encontra alguns rapazes, amigos de vádiar como elle; ha
mesmo alguns que fazem ainda mais: vêm para o café assim que elle se
abre, sentam-se a uma meza e põem-se a jogar o dóminó até á hora do
jantar. Acabada esta refeição, voltam muito depressa a continuar o seu
joguinho, e não se vão embora senão quando o estabelecimento se fecha.
Vão dizer-me que estes rapazes são jogadores e não ociosos ou vádios; é
possivel; eu, por mim, chamo vádios áquelles que passam a vida no café.
Depois de muitas horas consagradas ás carambolas, Casimiro lembra-se que
a amante quer ir tomar sorvetes ao café Napolitano, antes de ir para o
theatro; é pois mister que a vá buscar antes da hora em que deve começar
a peça da Opera-Comica. Dirige-se portanto a casa da sr.ª Montémolly,
que se acha lindamente vestida, apresentando-se com essa desinvoltura
que nem todas as mulheres sabem ter; porque umas conservam-se sempre
muito direitas, muito impertigadas, outras mostram demasiado desleixo e
indolencia.
—Já jantou? pergunta a formosa dama.
—Não, nem mesmo pensei em tal; não tive appetite.
—Pois bem! nem eu tão pouco. Mas sabe o que devemos fazer? É irmos cear
ao café Inglez depois do espectaculo. Agrada-lhe isto?
—Oh! perfeitamente; a senhora tem sempre excellentes idéas.
A menina Adriana foi arranjar uma pequena _victoria_, e voltou com ella
muito depressa para ficar mais cedo livre de sua ama. Ambrosina e o
amante fazem-se conduzir ao café tão affamado pelos seus sorvetes, depois
dirigem-se á Opera-Comica, e vão para um camarote que a sr.ª Montémolly
mandára alugar antecipadamente.
Cantava-se uma opera nova de Auber, d’esse celebre compositor, ao qual
devemos tantas obras primas, tantas operas que ninguem se enfastia de
ouvir; vae envelhecendo, dizem algumas pessoas, mas enganam-se; quando um
homem compõe tão encantadoras melodias, é porque se conserva sempre moço,
para Auber parou o tempo.
Casimiro escutava a musica, emquanto que Ambrosina se entretinha
sobretudo em observar se o seu companheiro dirigia o binoculo para
algumas senhoras. Mas tudo se passa em bem, porque o rapaz não fixou
muito tempo as suas vistas no mesmo lado. Acabada a opera, o par amoroso
dirige-se ao café Inglez, que fica apenas a dois passos da Opera-Comica.
Alli, pedem um gabinete reservado e mandam vir uma bella ceia, á qual
ambos fazem honra. Não lhes direi se esta magnifica ceia é entremeada
de ternas caricias e de juramentos de amor, deixo isso á sua discrição;
o que é certo, é que são quasi duas horas da madrugada quando a sr.ª
Montémolly diz:
—Creio que é tempo de irmos para casa. Diga ao creado que nos vá buscar
uma carruagem.
Nunca faltam carruagens n’este rico e elegante bairro, onde se faz
da noite dia, de modo que ás duas horas da madrugada está ás vezes
mais animado, mais cheio de vida que ao meio dia. Casimiro leva
Ambrosina a casa, depois faz-se conduzir ao seu domicilio, na rua de
Paradis-Poissonniére, dizendo comsigo:
Aqui está um dia bem empregado; foi um dia cheio.
Mas, ao dizer isto, o rapaz tambem estava bem cheio, porque se não tinha
poupado mais á ceia do que ao almoço; o Champagne tinha representado um
grande papel em todo este dia; elle não estava bebedo, porque um homem
bem educado nunca se embebeda, mas estava n’esse estado de ebriedade que
é o meio termo entre a embriaguez e o perfeito juizo.
—Parou emfim a carruagem. Casimiro, que se acha deante da sua porta,
paga ao cocheiro, e vae puxar o botão de metal que deve fazer tocar a
campaínha e acordar o porteiro, dizendo comsigo:
—Comtanto que o meu estimavel porteiro não tenha o somno muito pezado, e
que saiba que não recolhi ainda.
Na occasião de tocar a campainha, Casimiro vê um vulto estendido deante
da porta; abaixa-se para ver melhor, estende cautelosamente o pé, o vulto
mexe-se; é um homem que está alli deitado.
Casimiro faz um movimento para a rectaguarda, na idéa de que é talvez um
ladrão que finge estar a dormir, e elle não tem sequer uma bengala para
se defender; mas o vulto não se mexe mais, e o rapaz decide-se a puxar
outra vez o botão de metal.
O porteiro não abre ainda, e Casimiro, impacientado, empurra com o pé
o individuo que alli está estendido tomando-lhe a passagem; ouve-se um
grunhido surdo e levanta-se um pouco uma cabeça, que tinha a cara voltada
contra a porta, resmungando:
—Então! olá! o que é que temos?
—O que está aqui fazendo deitado na rua?
—Bem viu que estava dormindo. Então agora já se não pode dormir socegado?
—Não se dorme deante da porta d’uma casa.
—Mas eu sou cá do predio, é o meu domicilio politico... nas aguas
furtadas...
—Se mora aqui, porque não entra para sua casa em vez de estar ahi
deitado? Estaria muito melhor na sua cama.
—Na minha cama!... é fresca a tal minha cama! um enxergão e milhares de
percevejos... nada mais...
—Mas, emfim, na rua não se dorme; se vem por ahi alguma patrulha, algum
policia, levam-n’o para a estação.
—Isso e o que eu quero é tudo um... estou á espera d’elles. Que afinal
quem tem a culpa é o maroto, o patife do Chausson, que me não abre a
porta.
—Ah! o porteiro não lhe quer abrir a porta?
—Sim, Chausson, o meu creado.
—Quer dizer, o porteiro?
—Porteiro, é verdade... mas foi meu creado e por muito tempo. Isto fal-o
admirar, mas é assim mesmo.
Quando eu era amo d’elle dava-lhe ás vezes umas correcções, elle bebia-me
os licores, licores da sr.ª Amphoux... da verdadeira, que me mandava a
minha Dulcinéa... e hoje, para se vingar, o meu creado, que veiu a ser
meu porteiro, deixa-me ficar de noite no meio da rua.
—Oh! mas ha de abrir a porta por força.
E Casimiro vae puxar com todas as suas forças o botão de metal.
Ao barulho da campainha succede a voz do porteiro, gritando:
—Rouflard! se não acabas de tocar a campainha, faço-te despedir ámanhã.
—Não é Rouflard que toca, sou eu... abra immediatamente, porteiro; mando
eu!
—Como! é o sr. Casimiro! Oh! perdão, eu pensava que já estava recolhido
ha muito tempo. Ah! se eu soubesse que era o senhor, bem sabe que não
costumo fazel-o esperar...
Abre-se a porta effectivamente. Casimiro entra, dizendo ao homem que está
deitado no chão:
—Bom! aqui tem a porta aberta... Então agora fica na rua?
O tal individuo, a quem o porteiro chamou Rouflard, parece hesitar em
abandonar a sua posição horisontal, decide-se comtudo a fazel-o, ergue-se
ou antes enfia pela porta dentro aos trambulhões, e vae agarrar-se á
parede. Chausson, o porteiro, levanta-se, veste uma jaqueta, que lhe
serve de chambre, e vem com um castiçal na mão tornar a fechar a porta e
offerecer luz ao seu joven inquilino para subir a escada.
Casimiro está entretido a examinar o homem que se acha encostado
á parede, contra a qual muito lhe custa a segurar-se, porque está
completamente ebrio.
—Se o senhor quer levar esta luz para subir a sua casa... sinto immenso
tel-o feito esperar; eu bem ouvia tocar, mas pensava que era ainda o
Rouflard, e por isso é que não abria...
—Vejam este brégeiro! queria deixar o amo na rua... n’isso reconheço bem
o meu antigo lacaio...
—Cale-se, Rouflard; quando um homem se põe n’esse estado, recolhe-se
antes da meia noite, ao menos.
—Mas se eu me quero recolher mais tarde, porque assim me dá na vontade,
tens obrigação de me abrir a porta, percebeste tu, meu creado?
—Graças a Deus, já não sou seu creado! esse tempo já lá vae.
—Quando me bebias os licores!
—Tu não me pagavas as minhas soldadas, portanto era forçoso que eu
apanhasse alguma coisa para me sustentar... mas tu comias tudo!
—Prohibo-te que me trates por tu, percebes meu creado?
—E eu prohibo-te que me chames teu creado... Vae-te deitar, borrachão.
—Vae para o teu cubiculo, perro, ámanhã falaremos... não te digo mais
nada... teu amo te ensinará!
Depois de haver atirado esta ameaça, que faz encolher os hombros ao
porteiro, Rouflard dirige-se, cambaleando, para a escada, apoia-se ao
corrimão e lá consegue subir a muito custo. Casimiro tinha ficado em
baixo para assistir ao dialogo entre o bebedo e o porteiro; sentia tambem
uma certa curiosidade, e desejava saber como é que aquelle homem, tão
mal arranjado, que parecia tão miseravel, pudera ter por creado o sr.
Chausson; pergunta pois ao porteiro, assim que Rouflard desapparece na
escada:
—Este bebedo, que affirma que o senhor esteve ao seu serviço, fala
verdade?
—Oh! sim, senhor, não o nego; mas o que o senhor difficilmente
acreditará, vendo-o agora tão miseravel, é que, ha vinte e cinco annos,
este mesmo individuo era então um homem da moda, o menino querido de
todas as mulheres, que não lhe chamavam senão o lindo Rouflard! o
encantador Rouflard! e, a dizer a verdade, era então um bonito rapaz,
bem feito, airoso de corpo, uma cara amavel, fino... Oh! o maganão sabia
dar aos olhos todas as expressões possiveis para seduzir as mulheres, e,
palavra! entendia da coisa... era o seu officio?
—O seu officio? O que quer dizer com isso?
—Pois é bem facil de perceber: quero eu dizer na minha, que o lindo
Rouflard não se occupava n’outra coisa senão em fazer a côrte ás
senhoras, e atirava-se de preferencia ás senhoras ricas. Então recebia
d’uma, e depois de outra! mimos d’esta, presentes d’aquella. Quando os
fornecedores, os crédores, lhe vinham pedir dinheiro, nunca era elle quem
lhes pagava. Eu estava ao facto de tudo, era o seu creado grave, o seu
homem de confiança; elle dava-me as intrucções, dizia-me: «Chausson, has
de mandar o meu alfaiate a casa de Leonor e o meu sapateiro a casa da
Ernestina, ellas pagarão a esses patifes; não quero descer a pagar aos
meus crédores; é de muito máu tom! Ah! é verdade, has de ir a casa da
sr.ª fulana, ganhei-lhe hontem cem luizes ao _écarté_; irás pedir-lh’os,
que ella dá-t’os immediatamente, já se sabe; demais, as dividas de jogo
são sagradas, pagam-se em vinte e quatro horas. Passarás tambem por
casa da baroneza ou da condessinha; apostámos nas corridas, ganhei mil
escudos a uma, mil francos á outra, receberei tudo isso, tenho precisão
de dinheiro!» Eu ia fazer estes recados, e durante muito tempo aquellas
senhoras pagaram, pagaram muito bem sem fazerem a menor observação. Então
apanhava eu alguma coisa por conta das minhas soldadas, e bebia licores
da sr.ª Amphoux pelo resto. Oh! os licores das ilhas! aquillo era o meu
fraco! Mas a pouco e pouco as coisas principiaram a não correr tão bem:
Rouflard, que bebia como uma esponja, viu dentro de pouco tempo o nariz
pôr se-lhe côr de beterraba; isto fez-lhe muito mal no conceito das
amantes; em geral as mulheres não gostam dos narizes vermelhos. Quando
meu patrão me mandava buscar a quantia d’uma aposta ou o dinheiro perdido
ao jogo, aquellas senhoras diziam-me algumas vezes: «Rouflard engana-se,
não fui eu que perdi, foi elle;» ou então: «Sinto muito, mas a minha
thesouraria está fechada.» Algumas tinham a confiança de me dizer: Apre!
estou farta de aturar esse bebedo do Rouflard, não estou para o sustentar
por mais tempo.» Quando eu voltava com estas respostas a meu amo, elle
ficava furioso, queria desancar-me: depois, para arranjar dinheiro,
via-se obrigado a vender uns apoz outros os lindos presentes, ou as joias
que havia recebido das suas apaixonadas. Quando não lhe restou mais nada
que vender, e quando eu vi que já lhe não mandavam licores das ilhas,
disse commigo: «É tempo de largar o commodo!...» Deviam-se-me seis mezes
das minhas soldadas, mas era mister não pensar em tal. Deixei pois o
lindo Rouflard, que já não tinha nada de bonito nem se vestia como um
elegante, e que para salvar-se das difficuldade, procurava arranjar
outra amante nos casos de o sustentar, e consegui achar um bom emprego.
Pude ajuntar alguma coisa, casei-me e obtive um logar de porteiro n’esta
casa, onde estou ha oito annos, e onde morreu minha mulher, o que me
não impede de ser muito feliz. Mas faça o senhor idéa de qual não foi
a minha surpreza quando, ha perto de nove mezes, vejo chegar aqui um
homem vestido como um mendigo, sujo, desfigurado, que me perguntou se eu
tinha no predio um cantinho, um sotão, ou mesmo uma agua-furtada para
lhe alugar. Eu não o podia crer; todavia, na expressão do rosto fica
sempre alguma coisa do que a gente era, e exclamei: «Deus me perdõe!
mas é o sr. Rouflard!...» «Foste tu que o disseste! me respondeu elle;
sim, sou o outr’ora bonito Rouflard! que o tempo e as desgraças têem um
pouco deteriorado. Mas deixa-me encarar-te bem... Ah! agora!... és o
Chausson... és o meu creado, pois bem! aluga-me um quarto, e sê hoje o
meu porteiro; tenho tomado muito juizo, deito-me todas os dias ás nove
horas, e não bebo senão agua, quando não tenho com que comprar vinho.» A
vista da miseria de um homem, que eu tinha conhecido tão elegante, tão
appetecido e procurado, fez-me pena, e levou-me a dizer-lhe: «Pois sim,
dou-lhe um quarto na agua-furtada; mas o que faz o senhor agora, qual é a
sua profissão?» Elle coçou a cabeça por algum tempo, depois respondeu-me:
«Faço tudo quanto se quer! recados, cosinha; engarrafo vinhos, tosquio
cães, educo papagaios; mas o que é sobretudo a minha occupação favorita,
é servir de modelo aos pintores.» «Pois bem! tratarei de lhe arranjar
que fazer e vou dar-lhe casa lá em cima; mas estará aqui n’um predio
socegado, será pois mister portar-se decentemente.» Elle assim o
prometteu; mas Deus sabe como tem cumprido a sua palavra! Arranjei que
elle fizesse recados a uma inquilina; mas assim que apanha alguns soldos,
o borrachão vae bebel-os de vinho e recolhe-se fóra de horas. Avisei-o
de que isto não podia durar assim, elle promette-me emendar-se, quando
está em jejum, mas veja como se emenda! Esta noite estava fazendo grande
barulho á porta; mas se não fosse o senhor, dou-lhe a minha palavra que
teria dormido na rua! Decididamente este Rouflard é um extravagante,
um mal procedido! Mas os homens que na sua mocidade vivem á custa das
mulheres, devem necessariamente acabar assim, porque o seu ganha-pão é a
sua cara bonita, e logo que essa boniteza se vae, boas noites! acabou-se
tudo! Casimiro não responde nada, e sobe a escada com ar muito pensativo:
a historia do lindo Rouflard fez-lhe passar a embriaguez.
VI
A familia Proh
Achava-se a familia Proh reunida na sua sala. Os leitores já conhecem
a sr.ª Celeste Proh, de quem lhe fizemos o retrato; seu marido, o sr.
Castor Proh, é um antigo professor de historia e de linguas mortas. É
um homem alto, magro, amarello, que era feio em moço, e que não se fez
bonito em velho; tem o nariz de tal forma chato, de tal forma acachapado,
que lhe seria impossivel segurar n’elle uns oculos. Esse senhor tem
sempre os ares d’um preceptor prestes a ralhar com o discipulo, conserva
constantemente uns modos arrogantes e desagradaveis; sua mulher sustenta
nunca o ter visto rir, mas ha pessoas que se divertem por dentro sem que
ninguem dê por isso: com o sr. Proh não se dá por similhante coisa.
Uma herança, com que elle não contava, permittiu ao professor descançar
e viver dos seus rendimentos; já não quer occupar-se, diz elle, senão da
educação dos filhos; mas a filha prefere as artes agradaveis ao estudo
da historia, e o Affonsinho deita a lingua de fóra ao pae, quando este
lhe fala de linguas mortas; é um verdadeiro diabrete, guloso, curioso,
preguiçoso, traquinas, respondão; o pae affirma que o pequeno promette...
A menina Angelina Proh approxima-se dos dezeseis annos; n’esta edade, em
não sendo torta nem corcovada, em não tendo o nariz escarrapachado nem
os olhos remelosos, uma rapariga é sempre bonita; não é ás vezes senão
a _belleza do diabo_, mas isso faz ainda conquistas, ha homens que não
apreciam senão essa belleza. A menina Proh não possuia outra; juntava a
isso uma dóse de toleima, que podia ainda passar por ingenuidade, mas que
mais tarde não devia deixar a menor duvida sobre a sua qualidade.
N’este momento, a sr.ª Proh está principiando a bordar uma golla, a
menina Angelina tenta desenhar olhos e orelhas; o Fonfonsinho recorta uma
estampa, e o ex-professor passeia pelo meio da casa, cofiando com a mão a
barba e parecendo meditar. De repente pára:
—Affonso, vou-te fazer uma pergunta bem simples.
—De que é que vae fazer...
—Não se diz: de que é que! em primeiro logar essa construcção de phrase é
viciosa...
—Viciosa! então que mal fez ella?
—Meu filho, eu interrogo-o, mas o menino não tem direito para me
interrogar... Escute bem, e responda-me _illico_! Como se chamava o
primeiro homem?
—_Illico!_...
—Hein? vamos, menino, dê-me attenção... Pergunto-lhe como se chamava o
primeiro homem?
—Pois bem! _Illico!_ Disse-me que respondesse: _Illico!_... digo-lh’o, e
não está contente!...
—Mas, velhaquete, eu entendo por _illico_, immediatamente... logo, logo...
—O pequeno tem razão; para que emprega com elle termos barbaros que a
creança não comprehende? estraga-lhe a memoria, e mais nada!
—Minha senhora, metta-se lá nos seus trapos, nos seus vestidos, e
deixe-me dirigir a educação de meu filho, elle tem talento; promette, mas
precisa ser bem ensinado...
—Graças a Deus, tem muito tempo deante de si.
—Nunca se tem bastante. Aqui estou eu, que sei muito, lisonjeio-me
d’isso, e precisaria ainda cem annos de existencia para ser completo!
—Como um omnibus!...
—Fonfonso! _tu castigaberis!_...
—Papá, bem sabe que nos omnibus o conductor grita: Completo! Olhe!
desenhe-me um boneco, a mana não me quer fazer nenhum...
—A mana está trabalhando nos seus olhos e nas suas orelhas, e tem razão.
Isto porém faz-me lembrar que a sua lição de desenho era hontem... O
Casimiro veiu?
—Sim, papá...
—Não, é falso; a mana não fala verdade, o vizinho não veiu hontem
dar-n’os lição...
—Seu mano tem razão, menina?
—Ora! não sei... já me não lembro... vão fazer-me enganar na minha orelha!
—Eu não dou vinte e cinco francos por mez a esse rapaz para que elle se
descuide das suas lições. Sr.ª Proh, a senhora é que devia tomar sentido
n’essas coisas...
—Por quem é, socegue! o sr. Casimiro não é capaz de o prejudicar n’uma
lição! é um rapaz muito distincto, e que só ensina desenho aos nossos
filhos para nos obsequiar.
—Desconfio das pessoas que fazem as coisas para obsequiarem: em geral
fazem-n’as mal; é como aquelles creados que estão sempre a dizer que não
nasceram para servir, não fazem nunca bem a sua obrigação.
—Papá, faça-me um boneco.
—Vamos lá; tens papel e lapis?
—Aqui está tudo. Ah! mas eu quero que faça o boneco com o pé.
—Com o pé? Fonfonso, tu não sabes o que dizes! então a gente desenha com
os pés quando tem as mãos á sua disposição?
—Mas o papá deve servir-se tanto dos pés como das mãos, visto que é
quadrumano.
—Quadrumano! eu sou quadrumano! quem é que lhe disse tal insolencia? o
menino sabe o que é um quadrumano?
—Sei, é um chimpanzé, e bem sabe que o outro dia a mamã disse-lhe que era
um chimpanzé. Perguntei ao sr. Casimiro o que era um chimpanzé, e elle
respondeu-me que era um homem dos bosques, que era um quadrumano.
—A senhora bem está ouvindo; seu filho compara-me com um macaco, porque
a senhora o outro dia não receiou qualificar-me com esse epitheto.
—Tambem o senhor me chamou girafa. Era porventura mais delicado?
—Papá chimpanzé, faça-me um boneco.
—Se me tornas a chamar chimpanzé, levas uma sova de açoutes que te racho!
Vá estudar a sua lição de grammatica, para m’a dizer logo.
—Ora! a grammatica aborrece-me; gosto mais de recortar estampas.
—Faça o que lhe ordeno, seu patife! e não resmungue. Angelina, quando
acabares o teu desenho de orelhas, espero que te lembres das minhas
piugas, que estão em muito máu estado, já me queixei d’isso a tua mãe,
que creio que terá attendido a minha reclamação.
—As suas piugas! Ora! ainda lhes não toquei.
—Como! pois a senhora não manda concertar a roupa? na verdade, não sei
em que pensa, ou antes sei-o demasiado. É nos seus adornos, nos seus
enfeites, nos seus vestidos de cauda ou sem cauda, e a roupa fica n’um
estado miseravel! os meus colletes de flanella não têem botões, as
camisas estão todas rasgadas, as ceroulas estão cheias de buracos; mas
a senhora, comtanto que tenha um vestido á moda, não quer saber de mais
nada.
—Queria talvez que eu tivesse sempre as suas ceroulas no pensamento! Ah!
credo! seria bem triste!...
—O que é triste, é achar a gente as camisas rôtas na occasião de as
vestir.
—Socegue, a sua roupa ha de ser concertada; mas como n’esta casa ha
trabalho de mais e como eu e minha filha não podemos chegar para tanto
dei tudo isso a uma costureira.
—A uma costureira! mas está a senhora bem informada a respeito d’essa
costureira? ha algumas que trocam os objectos que se lhes confiam.
—Oh! não imagine que ella lhe vae trocar as piugas, o senhor está sempre
com medo de que o roubem, demais, é uma rapariga que mora no predio, no
quinto andar, é a menina Lisa.
—A menina Lisa! não conheço. E trabalha bem, essa menina Lisa.
—Cose como uma fada; já lhe dei que fazer, e fiquei muito satisfeita com
ella, tanto mais que não leva caro, dá-lhe a gente o que quer.
—Oh! então é preciso dar-lhe que fazer muitas vezes. E essa rapariga mora
sózinha lá em cima?
—Não, está com a avó, uma boa velhinha, quasi paralytica, que já não se
acha em estado de fazer nada; pois bem! é a menina Lisa que tem cuidado
d’ella, que trabalha dia e noite para que não falte nada á pobre velha.
Oh! esta rapariga porta-se muito bem... toda a gente no predio lhe faz
elogios.
—Hum! desconfio d’essas pessoas a quem todo o mundo faz elogios,
isso esconde ás vezes muitas coisas, essa sujeitinha tem sem duvida
namorados...
—Oh! que idéa! não fale assim deante de sua filha.
—Minha filha aprende desenho, e quando uma menina quer desenhar de
modelos de gesso e copiar estatuas antigas, creio que pode comprehender
o que é um namorado. Demais, a tal menina Lisa é muito ajuizada, não tem
nenhum! estimo bastante.
—Sim! sim! Lisa tem um namorado! exclama o joven Fonfonso; eu bem sei! eu
conheço-o...
—O que está o menino a dizer! aonde foi aprender essas coisas?...
—Ora, ouvi dizer. Não é verdade mana, que a costureirinha do quinto andar
tem um namorado?...
—Deixa-me, vaes fazer com que me engane na minha orelha.
—Menina, diz por sua vez a mamã, sou eu que a interrogo; deixe por um
momento as suas orelhas e responda-me. A menina sabe que Lisa tem um
namorado?
—Se derem credito ás tolices que diz o mano, estão bem aviados.