julgariam felizes de conquistar; mas, n’este momento é ella que parece
procurar agradar ao seu amante, prendel-o em novas cadeias, emfim
captival-o ainda mais. Estão trocados os papeis: é a senhora quem faz a
côrte, e o homem quem a recebe.
—Meu amiguinho, coma um bocadinho d’este _foie gras_, diz Ambrosina a
Casimiro. Não o acha bom?
—Delicioso, optimo! mas já comi.
—Não importa. Então vae perdendo o appetite?
—Pelo contrario, tenho um appetite enorme, e parece-me que o mostro bem;
faço honra ao seu almoço.
—Que tal acha este Chambertin?
—Excellente: sinto-me tentado a cantar aquella copla do _Novo senhor de
aldeia_: _É um vinho dos mais excellentes!... tem dez tem doze annos!..._
—Tenho aqui um velho Madeira, de retorno da India, que o meu fornecedor
de vinhos me recommendou; vae dizer-me o que pensa d’elle.
—Estou d’antemão persuadido de que pensarei muito bem; a senhora tem
sempre vinhos deliciosos.
—É verdade, estou muito contente com o meu fornecedor. Coma d’esta
lagosta em _mayonnaise_...
—É o que estou fazendo.
—Aqui tem azeitonas... e atum.
—Logo, logo, temos muito tempo; a senhora não tem que sahir hoje de manhã?
—Eu? ora essa! E aonde poderia eu ir quando estou com o senhor, quando
o pussuo aqui, ao pé de mim, em minha casa? Ah! sou tão feliz então!
queria estar sempre assim...
—Provemos uma gota d’este famoso Madeira de retorno da India. Hum! que
linda côr... e como está _nif_....
—O que entende por _nif_, meu amiguinho?
—É um termo de camponio que quer dizer claro, puro. Hum! bello aroma,
este não cheira a agua-ardente como todo o Madeira falsificado... Á sua
saude, minha querida amiga...
Vá á sua, meu brégeiro: mas sobretudo não me prégue petas como hontem.
—Ah! quer tornar á mesma? Afinal de contas, o crime não era grande. Toda
a gente vae ao Mabille, e pode-se estar lá com muito juizo.
—Sim, mas não se deve dansar como o seu amigo Miflaud; aquelle rapaz tem
os ossos deslocados!
—Então que quer? elle aspira a uma reputação no genero da do famoso
Chicard!
—Felizmente o senhor não gosta de dansa...
—Ainda que gostasse, peço-lhe que acredite que não seria isso razão para
eu me entregar a um _cancan_ tão descabellado.
—Meu amiguinho, aqui tem salmão grelhado que ha de ser muito bom com este
môlho á genebriana.
—Diabo! ainda salmão; já tenho comido muito! Emfim, tanto peior!
sacrifico-me...
—Então não bebe!
—Não faço outra coisa...
—Temos aqui Champagne _rosey_; gosta, creio eu?
—Oh! eu gosto de todos os vinhos quando são bons, é como as mulheres.
—Como, senhor! gosta de todas as mulheres?...
—Perdão! é quando ellas são boas, e asseguro-lhe que não me prende isso
muito.
—Ah! mau! então acha as mulheres más?
—Sim, em geral, mas ha excepções.
—É uma felicidade! e eu sou uma excepção?
—Oh! a senhora abusa da minha situação, faz-me beber uma grande
diversidade de vinhos... e depois faz-me perguntas insidiosas...
—Vamos, responda: eu sou boa?
—Ah! ah! ah!
—Não se ria! quero que me diga se sou boa.
—Só pela maneira de me perguntar isso, se poderia logo pensar o
contrario! mas não, pode estar socegada, a senhora é boa, é um carneiro,
um cordeirinho... nunca se zanga...
—Creio que está mangando commigo?
—Não, oh! francamente, julgo-a boa, quando não está debaixo do imperio
d’uns zelos que lhe estragam ás vezes o genio.
—É minha a culpa? Eu não seria ciosa de certo se o amasse menos...
—Sim, isso diz-se sempre, mas eu não duvido dos seus sentimentos. Tem-me
dado bastantes provas de affeição, tem-m’as dado até de mais... e como
poderei eu pagar...
—Cale-se! agora vae dizer tolices, beba, que é melhor. O Champagne está á
sua espera. Vamos, faça-me a razão... este é o meu vinho favorito...
—Á sua saude, querida Ambrosina; sim, bebo mas isso não me impedirá de
lhe dizer que no fundo do coração não estou contente commigo. Não faço
coisa alguma, não me falta nada, a senhora corre ao encontro de todos os
meus desejos, paga a todos os meus fornecedores: é odioso, isto assim não
pode durar!
—Na verdade, Casimiro, não sei o que tem hoje, mas está a dizer-me coisas
muito desagradaveis. Como, porventura entre duas pessoas que se amam, não
deve ser tudo commum, o prazer e o desgosto, a miseria e a riqueza? Se eu
não tivesse um soldo de meu, se carecesse de tudo, pensa que me havia de
envergonhar de lhe dever tudo, de partilhar da sua fortuna, de viver dos
seus beneficios?...
—Oh! n’uma mulher, o caso é muito differente! uma mulher, é esse o seu
papel, é a sua sorte; a mulher nasceu para ser protegida, soccorrida,
sustentada pelo homem. As senhoras são feitas de uma das nossas
costellas, por conseguinte são uma parte de nós mesmos. Mas o homem
nasceu para trabalhar, para ganhar dinheiro, ou para o perder quando não
é bem succedido nas suas emprezas. E quando elle passa todo o seu tempo a
passear, a não fazer nada, senão divertir-se á custa da mulher, é o mundo
ás avessas!
—Ah! como é cruel! E todos aquelles que nasceram com fortuna, com
herdades, quintas... têem acaso necessidade de trabalhar?
—Não, mas tambem não têem necessidade de que os seus fornecedores sejam
pagos pela dama a quem fazem a côrte.
—Mas, todos os dias se está vendo um homem que não tem nada casar com uma
mulher que lhe leva um dote consideravel; e elle não se envergonha de
acceitar esse dote. Bem vê que é a sua mulher que elle deverá o seu bem
estar, a sua fortuna, que muitas vezes elle se apressará a dissipar com
amantes. Por que razão se acha o senhor tão reprehensivel, emquanto que
esse homem será bem visto na sociedade?
—Oh! minha querida amiga, é que ha ahi uma grande differença: esse homem
veiu a ser marido da senhora rica, ella julgou-o digno de o unir a si
por laços indissoluveis, emfim tem o nome d’elle. O marido torna-se dono
da casa, o que é muito differente! Então pode mandar, pode pôr e dispôr
d’uma fortuna que passou a ser sua...
A sr.ª Montémolly não responde nada; escutou com attenção as ultimas
palavras do seu amante, e isso carrega-lhe de sombras a physionomia,
emquanto que Casimiro, enche um copo de Champagne, que em seguida bebe
aos golinhos, achando que é infinitamente mais agradavel beber assim o
vinho do que ingurgital-o, e nós somos completamente da seu parecer; não
vemos que vantagem pode haver em fazer da bocca jogo do tonel.
Entretanto, espantado do silencio que guarda a sua amante, e do ar
pensativo que substituiu o prazer que lhe animava os olhos, depois de
ter acabado de beber o Champagne, Casimiro diz-lhe:
—Minha boa amiga, o que é que tem? vejo-a com um ar tão triste! está
incommodada?
—Não, meu amigo, não, não é isso...
—Então temos outra coisa? Aind’agora parecia-me, tão alegre...
—Ah! Casimiro! foi o que o senhor acaba de dizer que me estragou a minha
felicidade...
—O que foi então que eu disse para produzir esse effeito?
—Tudo coisas muito justas; mas eu comprehendi-o perfeitamente, e além
d’isso, o que me quiz fazer perceber é naturalissimo.
—O que é que eu quiz fazer-lhe perceber? Affianço-lhe que não entendo!
—Finge que me não comprehende! O senhor, falando-me das mulheres que
enriquecem um homem casando com elle, quiz dizer-me: Por que não faz a
senhora outro tanto, se tem muito a peito ver-me gosar da sua fortuna sem
remorsos?...
—Eu? nunca tive similhante pensamento. Oh! juro-lhe que se engana. É
verdade que disse isso, mas foi sem a intenção que suppõe.
—Oh! meu amigo, ainda que fosse com essa intenção, onde estaria ahi o
mal? Pensa que não tenho dito commigo desde muito tempo: Ah! como eu me
daria por feliz em ser sua mulher, como me sentiria ufana de usar do
nome d’elle! E se fosse possivel isso, não lhe teria eu já pedido que
se ligasse a mim por laços indissoluveis?... Se o não tenho feito, ai!
é por que é impossivel! Olhe, meu amigo, não quero ter segredos para o
senhor... Disse-lhe que era viuva, e não é verdade! sou casada, casada
realmente, e meu marido ainda está vivo!
—Ah! será possivel. Espere! espere! então vou beber mais Champagne... o
sr. Montémolly está vivo?
—Esse nome não é o de meu marido; ao separar-me d’um homem, que eu nunca
tinha amado, com o qual me era impossivel viver, apressei-me a abandonar
o nome d’elle, para tractar de esquecer que era ainda sua mulher.
—Tinha para isso todo o direito. E o que faz esse senhor? Oh! se a
contraría falar mais em seu marido, fiquemos por ahi. Por quem é, não se
embarace, fiquemos por ahi!
—Não, visto que principiei, estimo muito agora contar-lhe como este
casamento se fez, e por que se rompeu.
—Fale; o seu Champagne é delicioso; sou todo ouvidos.
—Vou confessar-lhe coisas... que não tenho dito a ninguem! mas não quero
ter nenhum segredo mais para com o senhor.
—Não me diga senão o que lhe apraz que eu saiba: eu não lhe pergunto nada!
—É justamente por isso que lhe quero dizer tudo. Eu, aos dezoito annos,
era muito bonita!
—Creio bem que sim, pois que ainda o é, e ha-de sel-o sempre...
—Cale-se! Não tinha outros parentes senão uma tia mui pouco amavel, que
ralhava commigo constantemente, mas que vigiava bastante mal. Um rapaz
viu-me á janella, e namorou-se de mim. Comprou a minha creada grave, que
o introduzia em nossa casa quando minha tia saía. Elle era um rapaz muito
bonito... em summa...
—Muito bem, o resto adivinha-se, passemos os pormenores.
—Mas o rapaz era militar, teve de partir, de se ir reunir ao exercito.
Estava-se então em guerra. Quando elle partiu, a minha falta havia tido
consequencias...
—Diabo! diabo! o negocio complica-se.
—Escrevi ao meu amante participando-lhe o meu estado; elle respondeu-me
que assim que voltasse se apressaria a reparar a minha falta, casando
commigo. Mas, pobre de mim! não devia voltar! foi morto na primeira
acção...
—Pobre rapaz! ahi fica a senhora sem saber o que ha de fazer. E a tia?
—Era-me impossivel occultar-lhe o meu estado; ella gritou muito. Mas,
como a fortuna que eu possuia me vinha de minha mãe, como eu era mais
rica de que ella, e como, se eu a deixasse, ella teria de levar uma vida
mais modesta, apaziguou-se. Fui para o campo; alugámos uma casinha nos
arredores de Montmorency; foi lá que dei á luz uma menina, que confiei a
uma mulher de Pierrefite.
—Em tudo isso não vejo seu marido...
—Espere; ha de vel-o bem depressa. De volta a Paris, ia eu frequentes
vezes a Pierrefite vêr minha filha. Isto desagradava a minha tia, que
me repetia sem cessar que eu me compromettia, que não acharia com quem
casar, se não procedesse com mais prudencia. Eu não lhe dava ouvidos
e continuava a ir vêr minha filha, que era fraquinha e delicada, mas
gosava de boa saude. Infelizmente, a mim não me acontecia o mesmo: ia-me
definhando de dia para dia, de fórma que os medicos receitaram-me uma
viagem á Italia, ou pelo menos uma longa estada em Nice. Parti com minha
tia, depois de ter bem recommendado minha filha á ama. Fiquei alguns
mezes em Nice; não me restabelecia. Aconselharam-me que fosse passar uma
temporada em Napoles. Fui para lá, mas minha tia, tendo que fazer em
Paris, deixou-me por algum tempo. Tinha-lhe recommendado muito que fosse
vêr minha filha, que se certificasse de que não lhe faltava nada.
«Quando minha tia voltou a ter commigo, disse-me que minha filha tinha
morrido, e que a camponeza a quem eu a dera a crear, muito afflicta
com essa desgraça, tinha saído de Pierrefite sem dizer em que sitio ia
habitar. Fiquei muito mortificada com a perda da minha filhinha. Tinha-me
sentido tão feliz por ter uma filha! fundava sobre ella toda a minha
felicidade futura! Minha tia fez quanto poude para me distrahir. Andámos
muito tempo a viajar; visitei a Italia toda, depois uma parte da Suissa.
Finalmente tinha-me restabelecido, e voltámos a residir em Paris. Aqui,
um sujeito rico, bastante amavel, ao menos fazia então todo o possivel
para o ser, veiu fazer-me a côrte; era um antigo amigo de minha tia, e
tenho motivos para crer que, desde muito tempo, ella lhe havia promettido
fazer quanto pudesse para me levar a consentir em casar com elle. Este
sujeito era muito mais velho do que eu; minha tia porém affirmava-me que
assim ainda eu seria mais feliz; que um marido joven abandonava em casa a
mulher para andar mettido com amantes, emquanto que um esposo, homem de
juizo, andava sempre com a mulher nas palminhas das mãos. Que lhe direi?
eu pensava não amar nunca mais... tinha perdido minha filha... Deixei-me
casar para estar emfim em minha casa e não viver mais com minha tia, a
quem o homem que me desposava tinha feito presente de uma linda casinha
nos arredores de Paris.
«Mas não tardei a perceber que fizera uma asneira, e que me tinha ligado
a um homem que de nenhum modo me convinha. Meu marido era ciumento,
curioso, esmiuçador, intromettendo-se em tudo; pelo lado da fortuna,
como eu possuia a minha, não tinha precisão de recorrer a elle. Isso
contrariava-o, queria saber como eu gastava o meu dinheiro; convidei-o a
que se não mettesse nos meus negocios; foi o começo das nossas questões.
Mas aquelle senhor, que tudo queria saber, tinha o atrevimento de
esquadrinhar tudo por toda a parte quando eu sahia, e creio mesmo que
possuia segundas chaves de todos os meus moveis. O que é certo, é que
um dia achou n’um cofresinho, no fundo da minha papeleira, as cartas
que me escrevia aquelle pobre Augusto quando estava no exercito, e nas
quaes falava da nossa filhinha. O meu amigo acreditará que meu marido
deu por páus e por pedras, dizendo-me que eu o enganára indignamente
deixando-o crer que era... _Joanna d’Arc!_ Respondi-lhe que ainda se
devia dar por muito feliz em eu ter consentido em ser sua mulher, mas que
eu não viveria mais com um homem que remexia nos meus moveis e tinha a
confiança de ler as cartas que eu recebêra antes de usar do seu nome.
No outro dia executei a minha ameaça; aluguei uma casa, e mandei levar
para lá tudo o que me pertencia. Meu marido quiz oppôr-se á minha saida;
mas eu mostrei-lhe um rewólver que tinha comprado, e disse-lhe: Não só o
deixo, mas prohibo-o, ouça-me bem, prohibo-o de se apresentar em minha
casa... A lei auctorisa-o a isso, bem sei, porque não estamos separados
judicialmente, o que faremos ámanhã, se quizer; mas, como pelo nosso
contracto já estamos separados de bens, creio que podemos dispensar essa
formalidade. Comtudo, repito, não tenha o atrevimento de ir nunca a minha
casa, senão... é com este rewólver que o hei de receber. Meu marido é
muito medroso... desde esse dia nunca mais ouvi falar n’elle.
—Bravo! oh! a senhora é uma mulher decidida! E juntou-se com a sua tia?
—Com minha tia! oh! nunca! não queria nada com minha tia, que foi quem
me fez aquelle odioso casamento. Ficámos mal uma com a outra; pois não
pretendia ella fazer-me voltar para meu marido! mas eu respondi-lhe n’um
tom que lhe fez vêr que eu não era já a menina submissa ás suas vontades.
Demais, ella morreu pouco tempo depois d’aquella separação; uma doença
repentina a levou á sepultura em poucos dias; havia-me escripto para que
a fosse vêr; tinha, affirmava, uma coisa importante para me communicar.
Hesitei, dizendo commigo: Vae ainda pedir-me para que volte para meu
marido. Emfim, resolvi-me a ir; mas, quando cheguei á sua quinta, já não
era tempo, tinha ella morrido! Aqui tem, meu caro Casimiro, todos os
acontecimentos da minha vida, agora já sabe porque, com grande pezar meu,
lhe não posso offerecer que case commigo.
—Oh! minha querida Ambrosina! pela parte que me toca, devo confessar-lhe
francamente que nunca pensei em tal, o casamento não me tenta,
assusta-me, bem sabe que ha quem affirme que o casamento é o tumulo do
amor.
—Oh! nem sempre... mas é certo... não me acha talvez bastante joven para
ser sua mulher?
—Eu! pois eu penso lá em similhante coisa... não, eu penso... em fazer
alguma coisa... em trabalhar...
—Trabalhar... Para quê? com que fim?
—Para ganhar dinheiro...
—Não sou eu a sua thesoureira?...
—É justamente porque eu preferiria ser o meu proprio thesoureiro.
Ia menos mal na pintura a oleo, fiz tambem alguns retratos bastante
parecidos...
—Fazer retratos! lembra-se d’isso! para ter modelos, olhar muito para
mulheres, estudar-lhes o sorriso, os olhares! Não quero que faça
retratos, ouve? prohibo-lh’o expressamente.
—E a paizagem? oh! a paizagem é uma coisa bem innocente!
—Com os pintores não ha nada innocente; para a paizagem, é mister ir ao
campo procurar pontos de vista, ou carneiros e pastoras que os guardam.
—E são lindas as pastoras dos arredores de Paris! e graciosas! como as
mulheres que alugam cadeiras.
—Deixe-me em socego com a sua pintura.
—Prefere que eu escreva para o theatro? Ah! deve ser uma grande
felicidade ver a gente representar as suas peças, ouvir-se applaudir...
—Fazer comedias! que horror! um auctor passa a vida nos theatros, nos
bastidores, com as actrizes, faz a côrte a todas, e, promettendo-lhes
papeis, faz com que lhe dêem attenção; o senhor não saíria mais dos
bastidores, passaria alli a sua vida. Ah! peço-lhe por tudo quanto ha,
não pense em fazer peças de theatro.
—Pois bem! então, se eu escrevesse um romance? Ah! isto não exige
passeios nem sahidas; escreve a gente com todo o socego no seu gabinete.
Eu tenho ás vezes idéas bastante originaes, talvez faça um romance
divertido, um romance de costumes...
—Um romance! um romance! tenho ouvido dizer cem vezes que, para fazer
um romance, era preciso ter visto muito, que era preciso ter corrido,
ter estado nos sitios que se pretende descrever, sobretudo para fazer
um romance de costumes; ah! se o senhor faz um romance extraordinario,
inverosimil, então pode inventar...
—Não, eu prefiro o ordinario ao extraordinario.
—Então meu amigo, bem vê que não podia trabalhar socegadamente no seu
gabinete; teria de andar, de ir algumas vezes a sitios muito arriscados,
a esses bailes onde se dançam todas as danças possiveis; sob pretexto
de ver como se trabalha n’um _atelier_, iria a casa das floristas, das
modistas, das costureiras, isso não acabaria; seria para estudar os
costumes das diversas classes da sociedade. Deus sabe quanto se vê quando
se quer estudar os costumes! Não, siga o meu conselho, não faça romance
nenhum! Demais, não creio que seja essa a sua vocação.
—Ah! se eu podesse descobrir ou inventar alguma coisa boa, util, alguma
coisa que me cobrisse de gloria e fizesse a minha fortuna.
—Tem todo o direito de procurar isso...
—Que pena que a batata seja conhecida! talvez eu a tivesse descoberto!...
—Sim, mas a batata é perfeitamente conhecida, não quebre pois a cabeça a
procurar invental-a.
—Repito, quero occupar-me n’alguma coisa.
—Pois bem! se o quer absolutamente, eu lhe procurarei um emprego.
—A senhora? E então onde?
—N’uma secretaria; vae-se para a repartição não muito cedo, sae-se de lá
não muito tarde; á noite está-se livre, isto não dá muito trabalho.
—Ah! isso havia de agradar-me muito! Mas como espera a senhora
arranjar-me esse emprego?
—Eu verei, falarei aos meus conhecimentos; parece-me que o caso não é
urgente. Espere, Florentina tem um primo, que é chefe d’uma repartição;
farei com que ella fale ao primo. Aquella pobre Florentina! como a gente
é ingrata! quando se ama muito alguem, quando não se pensa senão n’essa
pessoa, esquecem-se todas as outras! Mas o senhor faz-me andar a cabeça á
roda, tira-me o juizo!...
—Que mais temos então?
—Temos que hontem á noite, quando recebi a sua carta, acabava Florentina
de entrar; vinha offerecer-me o seu camarote na Opera; mas depois de
haver lido o seu negregado bilhete em que o senhor me annunciava que não
iria lá, tive um ataque de nervos terrivel; aquella pobre Florentina
dispensou-me todos os cuidados, mas não sabia o que me havia de dar,
mandou a minha creada buscar o remedio que costumo tomar quando tenho
d’aquelles ataques; mas a creada não voltava, eu tornei a mim, e sem
esperar pelo remedio, disse a Florentina: «Anda commigo, quero ir a
casa d’elle; mandei vir uma carruagem, e Florentina teve a complacencia
de me acompanhar até á sua porta, queria mesmo ficar á minha espera,
sacrificando por mim a Opera e o prazer que esperava ter lá; mas eu não
quiz consentir, mandei-a embora. Então! ha de convir que é uma verdadeira
amiga, e que tenho muita razão em ter por ella uma affeição sincera...
—Sim, sim, não digo o contrario, ella é-lhe muito affeiçoada, mas tambem
é horrivelmente feia!...
—Ah! ahi está o que são os homens!... Que importa que seja feia, se
possue todas as qualidades do coração! Mas os senhores não apreciam senão
a belleza!
—E as senhoras não descobrem todas as qualidades do coração n’uma mulher,
senão quando ella não é bonita. Oh! em o sendo, acham-lhe logo todos os
defeitos, mas não falam nunca das suas boas qualidades.
—Oh! cale-se! porque é que diz isso?
—É que as suas amigas intimas são todas feias como os peccados mortaes.
—Queria talvez que eu, para lhe ser agradavel, chamasse a minha casa
algumas bellezas raras, afim de que o senhor lhes fizesse a côrte mesmo á
minha vista!
—Não, eu não lhe peço bellezas raras; a senhora é que prefere as
fealdades raras! Oh! mas faça o que entender! a final de contas, isso
é-me completamente indifferente.
Ambrosina reprime a grande custo um movimento de impaciencia, depois toca
a campainha a chamar a creada grave, que apparece immediatamente.
—Adriana, o café está prompto?
—Está sim, minha senhora.
—Então sirva-o.
—E que venha bem quente, quasi a ferver, diz Casimiro. Ouve, menina? se o
posso tomar, não o tomo.
Adriana sae a rir; Ambrosina exclama:
—Não gosto que se graceje com os creados; isso torna-os familiares.
—Porventura gracejei com a sua creada?
—Sem duvida; faz trocadilhos a respeito do café...
—Minha querida amiga, com a senhora nunca a gente sabe como ha de falar a
uma mulher; em tudo vê maldade, espero que não pense que arrasto a aza á
sua creada...
—Não digo isso; mas o senhor não póde dizer que ella seja muito feia...
—Oh! tambem não me fará crer que é bonita! Um nariz acachapado, cabello
ruivo, é um bom _derriço_ para algum policia.
—É uma excellente rapariga, é-me muito affeiçoada; quando estou doente
anda sempre n’uma roda viva a tractar de mim...
Adriana traz o café; emquanto ella dispõe as chicaras, diz a ama:
—Adriana, eu estive hontem muito doente, não é verdade?
—Oh! sim, minha senhora! eu estava bem afflicta. A sr.ª Florentina
disse-me que lhe fosse buscar o remedio á botica, corri n’um pulo;
mas havia lá tanta gente, tive que esperar muito tempo; por mais que
eu pedisse que me despachassem dizendo: «É para minha ama, a senhora
está muito doente» aquelles senhores da botica estão tão habituados a
trabalhar para doentes, que não se apressam nunca...
—Minha pobre Adriana; olha, pega n’aquella touca da manhã que alli está
em cima da poltrona, dout’a...
—Ah! como a senhora é boa!...
—Gosto de recompensar quem me serve com zelo. Anda, podes sahir!
A creada pega na touquinha que a ama lhe dá de presente, e retira-se aos
saltinhos.
Casimiro toma o café, bebe um calice do divino licor dos benedictinos de
Fécamp, um outro de _rhum_, e levanta-se dizendo:
—Creio que isto é que se pode chamar ter almoçado.
—Janta commigo?
—Oh! minha querida amiga, são quasi tres horas; quando se almoçou assim,
não se pensa em jantar, não terei vontade de comer.
—Mas sabe que tem que me levar esta noite á Opera-Comica?
—Sim, sim, está ajustado...
—Não vá fazer como hontem?
—Não tenha receio; vou tomar um pouco de ar e jogar talvez uma partida de
bilhar no café da Porta-São-Martinho...
—Vá, meu extravagante, dê-me um beijo.
—Até logo.
V
O lindo Rouflard
Saíndo de casa da sr.ª Montémolly, Casimiro vae passear algum tempo no
_boulevard_; sente o desejo de tomar ar, o que é sempre optimo para a
digestão, depois d’um jantar abundante. Casimiro accende um charuto, essa
necessidade facticia dos ociosos.
De repente, mexendo n’uma das algibeiras do lado, sente debaixo dos
dedos alguma coisa que tem a fórma d’um cartucho de dinheiro. Era
effectivamente um d’estes lindos estojos de marroquim, forrados de
cobre, e feitos de proposito para guardar ouro. O nosso rapaz tira o
cartucho da algibeira, desvia-se para um lado e conta o dinheiro que ha
no estojo; acha vinte e cinco luizes. Torna a fechar o estojo, e mette-o
outra vez na algibeira, dizendo de si para si: