Esta senhora tem medo do cholera; outras têem medo d’uma molestia de que
não apresentam o mais pequeno symptoma mas de que se julgam ameaçadas...
o medo não raciocina! Ninguem faz idéa de quantos freguezes elle nos
arranja...
—Ai! com a bréca! exclama um dos praticantes, eil-a ahi outra vez de
volta comnosco!...
—Quem?
—A senhora dos preservativos...
—Ora essa! nada, isso agora torna-se forte de mais. Que mais quererá ella
lavar aqui? isto começa a dar-me cuidado.
A senhora, que recende fortemente, abre a porta e pára no limiar, dizendo:
—Perdão, meus senhores, uma pergunta, se me dão licença... Se eu tomasse
tabaco?... É uma coisa que tambem deve preservar, penso eu?...
—Sim, minha senhora, de certo, tome tabaco... tome mesmo muito; não
cheirará mais nada!...
—Então faça favor de me dar uma porção de tabaco...
—Nós não vendemos tabaco, minha senhora, no _boulevard_ encontra-o logo.
—Corro a compral-o. Cheirarei primeiramente, e depois talvez me arrisque
a fumar um cigarrinho; as senhoras agora fumam, não é verdade?
—Sim, minha senhora. Oh! as senhoras fumam, fazem agora tudo o que fazem
os homens; isso não as aformoseia, mas diverte-as...
—Oh! mas eu cá, não é com o fim de me aformosear, é para affrontar os
máus ares. Vou comprar tabaco...
—Vá, minha senhora, vá! diz o joven pharmaceutico fechando-lhe a porta
nas costas; cheire, fume, masque mesmo, se isso lhe dá prazer mas, por
favor, deixe-nos socegados um instante! Tome, menina Adriana, aqui tem o
remedio para sua ama...
—Obrigada; vou de corrida levar-lh’o... faz-me tanta pena vel-a
soffrer!... Boa tarde, meus senhores...
A creada grave retira-se, e d’esta vez chega a casa sem ter tido outros
encontros. Quando passa diz á porteira:
—Aqui me tem; cá trago o remedio; pensei que não acabavam de me aviar
hoje; havia muita gente na botica...
—Pois olhe, não vale a pena apressar-se...
—Então porquê, sr.ª Bedou?
—Porque sua ama saíu de carruagem com a sua amiga, ha já bastante tempo...
—A senhora saíu! oh! isso era de esperar! vá lá uma pessoa estafar-se a
correr para dar conta do seu recado! vá lá a gente privar-se de conversar
com os seus conhecimentos! Ah! esta não me ha de esquecer...
III
Um rapaz manteúdo
O joven Casimiro Dernold occupa um lindo aposento de rapaz solteiro, n’um
terceiro andar, n’uma bella casa da rua de Paradis-Poissonniére. Tem uma
saleta, uma sala e um quarto de dormir. Tudo isto está no maior aceio,
e bem adornado; a mobilia, sem ser d’uma extrema elegancia, é de bom
gosto e ainda da moda. Emfim, tudo annuncia que quem occupa este pequeno
aposento não deve ser, como se diz vulgarmente, um semsaborão.
E entretanto aquelle que alli habita, rapaz de vinte e seis annos, bonito
de cara, bem feito de corpo, cujo porte é elegante e o trajo sempre
apurado, passeia n’este momento na sala com um ar de muito máu humor,
batendo algumas vezes nos moveis com uma chibatinha, ou amarrotando
as luvas com colera, e falando alto, o que acontece amiude ás pessoas
fortemente excitadas por um sentimento qualquer; porque parece que
desafogamos dizendo o que nos afflige, mesmo quando ninguem mais nos pode
ouvir.
—Nada! não!... isto não pode durar assim... é preciso acabarmos com isto!
exclama o rapaz, que acaba de bater com a chibatinha n’uma poltrona
fazendo sair d’ella uma nuvem de poeira, o que o detem na sua exclamação
e lhe faz dizer: Se é assim que o meu porteiro me sacode a mobilia, não
se deve cansar muito... Nada! estou cançado de ser escravo de Anbrosina,
porque sou completamente seu escravo!... Não posso dar um passo, nem ir
a parte alguma, sem que ella o saiba... Estou persuadido de que me manda
espreitar; diz que é por amor; ella ama-me, sim, concordo n’isso, devo
mesmo acredital-o... porque eu custo-lhe muito caro... Ella compra-me
tudo o que eu desejo; paga-me o alfaiate, o sapateiro, emfim, todos os
meus fornecedores... Aliás, como havia de eu pagar-lhes, eu que não
faço nada, que não ganho nada, que para nada sirvo? Oh! mas, se não
faço nada, ella é que tem a culpa! Todas as vezes que tenho querido
procurar um emprego, ella tem-se opposto a isto. Quando me quero deitar
de novo á pintura, porque eu principiava a ir menos mal na paizagem,
tinha tambem conseguido fazer alguns retratos, tinha experimentado a
mão com os amigos. Eu devia ter continuado, mas Ambrosina acha sempre
meio de me impedir de trabalhar, levando-me para o campo, obrigando-me
a acompanhal-a constantemente, a andar passeando com ella, a leval-a a
alguma festa... Emfim, imagina sempre alguma coisa, tudo para fazer
monopolio de mim, para me ter sempre na sua dependencia. Havia de
affligir-se muito se eu ganhasse dinheiro, porque então poderia passar
sem ella, escapar-me das suas garras! E eu, covarde, preguiçoso, comilão,
gostando dos prazeres, da vida regalada, deixei-me enredar por esta
mulher, por quem senti algum amor, no começo, e da qual depois não tive
força para recusar os favores. E quando a gente se acha n’este declive, é
muito difficil parar, sobretudo quando se é, como eu dizia, preguiçoso,
comilão, e amigo das suas commodidades. Ah! os rapazes deviam tomar muito
cuidado nas ligações que arranjam... essas ligações influem em todo o
resto da existencia. Tenham duas, tres, doze amantes se se acham com
forças para tanto, mas não se prendam com nenhuma... porque é essa que os
fará commetter tolices e perder o futuro. Aquelles que passam por doudos
e extravagantes, são portanto os que têem mais juizo; pelo menos não se
deixam cair no laço e conservam o seu livre arbitrio. Nada, não, ha dois
annos que sou o chichisbéo da sr.ª Montémolly, irra! já estou farto!
Casimiro dá nova chibatada n’uma das suas poltronas; levanta-se uma tal
poeirada, que o rapaz fica quasi cego, e tem de, se refugiar na outra
extremidade da sala, murmurando:
—Olhem o maroto do porteiro! não é possivel ter menos cuidado com os meus
moveis! E diz elle que passa metade do dia a arranjar-me a casa. Ah! se
Ambrosina soubesse que dou lições da desenho a uma menina do predio, como
não ficaria furiosa! É todavia uma coisa bem innocente. A menina Angelina
Proh é uma rapariga nem feia nem bonita; antes tola que espirituosa;
mas creio que isso é de familia. Mora com o pae, com a mãe e com um
irmãosinho, no mesmo patamar defronte de mim. Esta familia Proh é d’uma
extrema polidez; a mãe, que ainda tem pretenções, dizia-me a cada passo:
«—O senhor é pintor, ah! eu estimaria muito ter o meu retrato, e, se o
senhor não levasse muito caro, pedia-lhe que m’o tirasse, mas a oleo,
com tintas porque eu detesto a photographia, acho que faz a gente feia
consideravelmente.
«—Minha senhora, sinto muito, mas não me julgo ainda com forças bastantes
para tirar um retrato do nutural.
«—Oh! isso é talvez demasiada modestia! Será preciso experimentar; nós
somos visinhos, não virei senão quando o senhor tiver tempo de seu.
«Tempo de meu! tenho-o sempre, quando porém Ambrosina me dá liccença
para o ter!... Depois o papá Proh, que é, creio eu, um antigo professor
de grego e de latim, propoz-me o dar algumas lições de desenho á filha e
ao filho, quando elle não fizer travessuras. Já se vê, aceitei. Vinte e
cinco francos por mez não são grande coisa, mas eu não poderia dizer com
que sentimento de alegria, de felicidade, recebo este dinheiro, que é
adquirido pelo meu trabalho. Sinto-me deveras orgulhoso! Ah! estes vinte
e cinco francos dão-me cem vezes mais prazer que o cartucho de moedas de
ouro que Ambrosina me mette no bolso; tanto mais que ao depois é preciso
que eu lhe dê uma conta exacta do emprego que fiz d’esse ouro...
«Hoje devia ir buscal-a ás oito horas para a levar a um café-concerto.
Ella havia de escolher o que mais a tentasse. Mas como isso me não
tentava nada a mim, e como desde muito tempo ardo em desejos de ir
ao Mabille ver as damas que dansam com tanto _chic_, escrevi-lhe um
bilhetinho dizendo que o meu amigo Miflaud tinha uma pendencia de
honra para ámanhã pela manhã, que elle contava commigo para ser um
dos padrinhos, e que era absolutamente preciso que eu lhe fosse falar
esta noite, para me entender com elle e com o outro padrinho sobre as
condições do duello e sobre o motivo da pendencia. Engulirá ella esta
peta?... Hum! não é muito provavel; o importante é que Miflaud, que
deve ir commigo ao Mabille, não me faça esperar muito tempo. Logo que
eu me apanhe fóra de casa, tanto peor! se Ambrosina aqui mandar, não me
encontrarão.
«Vejamos as horas que são: já oito horas! e este tolo de Miflaud devia
cá estar ás sete e meia. Felizmente, mandei a minha carta a Ambrosina
muito tarde; de certo não a recebeu antes das oito horas. Quem a ha
de aturar ámanhã! Mas, em ella vendo que me zango devéras, oh! então,
acalma-se logo; ella no fundo não é má, mas muito ciosa de mais!
infinitamente ciosa; uma verdadeira andaluza. Graças a Deus não traz faca
na liga. Ah! lá tocam a campainha, é Miflaud, finalmente...»
Casimiro corre a abrir a porta, mas, em vez do rapaz por quem esperava,
acha-se com um menino de seis annos, que lhe diz:
—Sr. Casimiro, venho da parte da mamã saber se o senhor está em casa?
—Bem vê que estou, Affonsinho, e o que me quer a sua mamã, a sr.ª Proh?
—Acaba a costureira de lhe trazer um vestido novo muito bonito, de riscas
verdes e encarnadas. A mamã vestiu-o, e queria que o senhor a visse com
elle, para lhe dizer se a quer retratar assim.
—Mas meu menino, eu não vou agora fazer o retrato da sua mamã; terei
muito tempo para ver o seu vestido.
—Sim, porém ella disse-me: Vae pedir ao nosso vizinho que entre cá um
minuto; quero que elle me veja assim vestida...
—É que estou á espera d’uma pessoa. Ah! mas posso deixar a porta aberta.
Ande lá adeante de mim, Affonsinho! Seu papá não está em casa?
—Não, senhor, saiu agora mesmo dizendo á mamã que ella parecia uma girafa
com o seu vestido de riscas.
—Oh! com a breca! mas a sr.ª Proh não havia de ficar muito contente!
—Por isso respondeu ao papá: «Tu então não precisas estar vestido para
pareceres um chimpanzé.» Sr. Casimiro, o que é um chimpanzé, com que o
papá se parece?
—Meu caro amigo, é... ora... um chimpanzé é um homem dos bosques, um
bonito homem dos bosques, emfim é um quadrumano.
—É o que é um quadrumano?
—É um homem que tem os pés com forma de mãos.
A apparição da sr.ª Proh vem pôr termo ás perguntas do filho. Esta
senhora vem até á porta da escada ao encontro do seu vizinho. Celeste
Proh é uma mulher de quarenta e sete annos, loura, deslavada, com olhos
azues muito desmaiados, e sem rasto de sobrancelhas; é obrigada a
fazel-as com um pincel, que ella molha n’uma composição, cuja côr nem
sempre é a que se esperava, o que faz com que esta senhora tenha por cima
dos olhos um arco, ora preto, ora côr de castanha, ora avermelhado; ella
porém acha que isso lhe dá mais graça á physionomia; tem-se por muito
bonita e julga parecer mais nova que sua filha, que tem dezeseis annos.
Repete muito amiude na conversação que não comprehende seu marido, que
nunca mostrou empenho em possuir o retrato de sua mulher, com o qual elle
deveria ter adornado todos os seus aposentos.
A sr.ª Proh tem effectivamente um vestido novo de riscas largas d’um
encarnado muito vivo e d’um verde claro, o que lhe dá quasi o ar d’uma
mouta florida e attrahe a vista a cincoenta passos. Avança sorrindo para
o vizinho.
—Mil perdões, sr. Casimiro, fui indiscreta, mandei-lhe lá o Fonfonso; é
que eu queria saber a sua opinião a respeito d’este vestido; como o acha?
—Acho-o muito bonito, é original e faz sobre-tudo muito effeito; emfim,
vê-se de longe.
—Eu gosto d’isto, gosto do que dá nas vistas. Acha que me fica bem?
—Admiravelmente! assenta-lhe que nem uma luva!
—Gosto muito do vestido bem justo ao corpo. Demais, creia que não me
tolhe por modo algum os movimentos. Então está dito, ha-de retratar-me
com este vestido, não é verdade?
—Então sempre quer que lhe tire o retrato?
—De certo que sim.
—Mas eu já lhe disse que me não julgo com forças de tirar um retrato do
natural.
—Mas o senhor pintou o retrato da gata do porteiro, já lh’o vi lá em
baixo no cubiculo.
—Aquillo foi um ensaio, para me distrahir.
—Pois bem! fará tambem o meu para se distrahir. O sr. Casimiro é
demasiadamente modesto, desconfia muito do seu talento; a gata do
porteiro parece que está viva, e todavia ella não esteve muito tempo em
posição deante do senhor?
—Não esteve tempo nenhum, pintei-a de memoria.
—Eu estarei o tempo que o senhor quizer. O meu Proh queria fazer-me
photographar, mas eu não quiz; detesto a photographia, desfeia e
envelhece a gente, mas não custa caro, e por isso toda a gente se serve
d’ella. Falem-me da pintura! isso é que tem vida, expressão, côr...
—Sou inteiramente do seu parecer, minha senhora.
—Entre e descance um pouco...
—Muito obrigado, mas espero uma pessoa, e é preciso que eu esteja em casa.
—Então como este vestido lhe agrada, poderá retratar-me com elle?
—Estou prompto a retratal-a com o trajo de que a senhora mais goste,
mesmo de Diana caçadora, se quizer.
—Oh! mas é uma bella idéa essa. Diana caçadora! oh! isso é que seria de
bom gosto...
—Boa tarde, minha senhora, e fico ás suas ordens.
—Mas, vizinho, onde poderei encontrar o trajo d’essa deusa da caça?
—Casimiro não responde mais á vizinha, porque fechou já a porta, dizendo
comsigo:
—Esta sr.ª Proh é massadora! Se não fosse o interesse que tenho em lhe
dar lições aos filhos, já a teria mandado para o diabo com o seu retrato!
E este Miflaud sem apparecer! São quasi oito horas e meia, estou capaz
de me ir embora sem elle. Mas ir sósinho ao Mabille não é nada divertido!
Passam ainda cinco minutos quando finalmente tocam a campainha com
violencia; o rapaz corre a abrir a porta, mas é a sr.ª Montémolly, que
entra com um ar decidido, furibundo, toda esbaforida e a escorrer em
suor, porque subiu a escada a toda a pressa. Os leitores já sabem pela
menina Adriana que sua ama, que quer passar por ter trinta e quatro
annos, deve andar perto dos trinta e oito. Para completar o retrato,
accrescentaremos que é uma mulher alta e bonita, que tem uma certa graça
nas maneiras, uma certa perfeição nas fórmas, e que veste muito bem. É
uma mulher trigueira, cujos olhos bem rasgados nem sempre são meigos,
e cuja bocca, um pouco mettida para dentro, é muitas vezes desdenhosa
e altiva; mas, quando ella quer ser amavel, é uma bonita mulher, um
verdadeiro typo andaluz; para ser uma perfeita hespanhola, não lhe falta
senão o pente muito alto debaixo do véu preto e umas castanholas nas mãos.
Esta senhora entra sem se demorar um instante, sem mesmo dizer uma
palavra áquelle que lhe abre a porta; atravessa immediatamente a saleta
de entrada, a sala, vae passar revista ao quarto da cama, esquadrinha
todos os cantos á casa para vêr se está por alli alguem escondido; só
depois de ter acabado esta inspecção é que volta á sala, e atira comsigo
para cima d’uma poltrona exclamando:
—Ah! não era a mim que o senhor esperava, não é verdade?
—De certo! responde Casimiro sentando-se com o ar d’uma pessoa que
acaba de levar com uma telha na cabeça; e é devéras um acaso o ter-me
encontrado aqui. Já teria sahido para ir a casa de Miflaud, se elle me
não tivesse escripto novamente dizendo-me que viria elle mesmo cá, que
antes queria isso, porque em sua casa, como mora com a mãe, receava que
ella suspeitasse do duello e então...
—Sr. Casimiro, quando faz tenção de acabar com essas mentirolas? Pensa
porventura que acredito todas essas patranhas que me conta, e mesmo
muito mal.
—Mas, minha senhora, não ha aqui patranha nenhuma. Que espanto é que um
meu amigo tenha uma pendencia de honra? é uma coisa que acontece todos os
dias. Elle pede-me que seja seu padrinho, e isto não se recusa...
—Em primeiro logar, ha muito tempo que o senhor me não falava no seu
amigo Miflaud; parece-me que tinha deixado de andar com elle.
—Deixado... porque, estando sempre com a senhora, não posso andar com
elle, mas não estavamos desavindos.
—O senhor devia passar o serão commigo.
—Isso nada tem de notavel, porque os passo todos!
—Então com quem queria passal-os? O senhor escreve-me: «Não espere por
mim esta noite.» Como é amavel!...
—Visto que era para obsequiar Miflaud. Mas tanto peor para elle; não
estou para o esperar mais tempo. Venha, vamos passear.
—Ah! agora tem pressa de sair, está com medo não chegue essa pessoa. Isto
esconde uma perfidia; não é Miflaud que o senhor espera!
—É sim, é elle. Mas, visto que a senhora se deu ao incommodo de cá vir,
que o leve o diabo. Vamos, Ambrosina, estou ás suas ordens. Hein? isto é
que é ser amavel! Vamos embora...
—Oh! que pressa que tem de sair! isto não é natural, o senhor está-me a
atraiçoar!
Cazimiro levanta-se encolerizado, e põe-se a passear pelo quarto dizendo:
—Isto é demais! o demonio leve as mulheres com o seu genio infernal! Quer
a gente sair sem ellas, gritam; quer estar com ellas, gritam do mesmo
modo! Emfim, faça-se o que se fizer, gritam sempre! Ah! não estou para
aturar mais scenas d’estas! Adeus, minha senhora, faça o que quizer, eu
cá vou-me embora!
E já o rapaz tem dado alguns passos para a porta; mas Ambrosina corre
para elle com a rapidez d’uma corça, segura-o, enlaça-o nos braços, olha
para elle amorosamente, e diz-lhe com ternura:
—Aonde vaes, ingrato? queres abandonar-me? bem sabes porém que não posso
viver sem ti, que és a minha felicidade, a minha alma, a minha vida!
Reputas um crime o eu ter vindo aqui? não era muito natural que eu me
quizesse certificar de que não recebias aqui outra mulher, ou de que não
ias ter com ella a alguma parte?...
—Bem vê que não escondo aqui mulher alguma; o que me havia de ser
difficil! a senhora esquadrinhou todos os cantos á casa.
—Não, mas estás talvez á espera d’ella!
—Outra vez! ah! a senhora é terrivel!
—Não! não! não tenho razão, meu amigo, sou injusta, não o serei mais...
—Bom! ainda bem! vamos passear.
Casimiro está com pressa de sair, porque receia agora que a chegada
do seu amigo Miflaud ponha a descoberto as suas mentiras. Mas, sempre
promettendo não tornar a ser ciosa, Ambrosina, que continua a ter
suspeitas, acha meios para não sair tão depressa: é o seu chapéu que
não está bem posto, depois é a cuia que não está muito segura, e é
preciso que ella arranje tudo isto; o seu amante está sobre brazas; já
pôz o chapéu na cabeça, tem a bengala na mão, e a sua amante tem sempre
alfinetes a pregar em alguma parte. Succede alfim o que elle receava,
batem á porta.
O rapaz não dá mais que um pulo da sala á porta de entrada, afim de
tratar de prevenir o seu amigo; mas, por mais prompto que tenha sido,
Ambrosina chega lá ao mesmo tempo que elle, depois de ter atirado ao chão
os alfinetes que estava a pregar.
É effectivamente Miflaud, joven corrector de commercio, da edade de
Casimiro, que não é bonito, mas que tem uma cara bastante original, que
gosta de _grisettes_, de dança, de vinho branco e de camarões; não foi
muito favorecido pela natureza emquanto ao espirito, mas está sempre
prompto para se divertir, para rir, emfim para brincar, comtanto que não
seja encarregado de inventar as brincadeiras.
—Boa noite, Miflaud, vens por causa do teu duello... pois que te bates
ámanhã, e eu devo servir-te de padrinho. Mas sinto muito, meu amigo;
procura outro... Tenho que fazer ámanhã.
Tudo isto foi dito por Casimiro d’um só jacto, sem tomara respiração.
Um outro que não fosse Miflaud, um d’estes farçantes como ha tantos,
teria comprehendido a situação, sobretudo vendo os signaes que o seu
amigo tratava de lhe fazer; mas Miflaud não era esperto, e emquanto que
a sr.ª Montémolly o mira com anciedade, elle toma um ar muito espantado
respondendo:
—Eu! bato-me em duello! Essa é muito boa! Mas não percebo nada, isso é
uma brincadeira!
—Vamos Miflaud, não vale a pena occultal-o... esta senhora tudo sabe, eu
contei-lhe tudo; não se dirá nada a tua mãe. Boa noite... vamos sair...
—Mas eu estimaria bem saber o que tu queres dizer com o teu duello...
—Este senhor fez todavia tudo quanto é possivel para que o senhor
comprehendesse! diz Ambrozina lançando sobre Casimiro um olhar
fulminante; elle quiz immediatamente pôl-o ao facto de tudo, para que
o senhor não desmentisse as patranhas que elle me contou... mas perdeu
o tempo e o trabalho; não me deixo enganar tão facilmente! Vamos, sr.
Miflaud, não esteja a quebrar a cabeça, não se cance a querer adivinhar
o que significam os signaes que o seu amigo lhe faz... O senhor não tem
nenhum duello, não se bate ámanhã, e estimo muito que assim seja.
—Muito obrigado pela sua bondade, minha senhora; é certo que não tenho
nenhuma tenção de me bater ámanhã, nem mesmo depois de ámanhã...
—E vinha buscar este senhor para ir com elle... a algum baile de tasca,
sem duvida?
—Oh! minha senhora!... ora essa!... um baile de tasca!... eu vinha...
nós deviamos ir... Casimiro, dize lá onde é que estavamos para ir...
Casimiro encolhe os hombros, e atira comsigo para uma cadeira exclamando:
—Oh! não te embaraces... pois que com esta senhora não ha meio de dar um
passo, de ir a um divertimento sem sua licença... Pois bem! é verdade,
iamos, ou pelo menos deviamos ir ao Mabille passar uma hora. Isto não é
crime! mas a senhora é tão ridicula, tão ciosa, que em tudo vê maldade! e
obriga-me a mentir para evitar as scenas de ciume; mas com a senhora não
se evitam nunca!
—Ao Mabille! quer ir ao Mabille! que horror! um logar de perdição! Bem se
sabe o que os homens vão lá procurar!...
—Mas, minha senhora, engana-se, diz Miflaud; o Mabille é um jardim
frequentado pela boa sociedade, pelos estrangeiros mais distinctos, por
lindas mulheres...
—Por _cocottes_! diga o termo.
—Mas lá não ha só _cocottes_; e ao menos as que lá vão, apresentam-se
vestidas no rigor da moda, e algumas que dançam com uma graça, uma
desenvoltura. Asseguro-lhe que é muito curioso vêr aquillo.
—Oh! desconfio bem que não é só para vêr que os senhores lá vão...
—Mas, como Casimiro parece estar agora occupado com a senhora, penso que
não iremos, e portanto vou...
—Nada! nada! vamos lá, eu quero ir por força! exclama Casimiro
levantando-se arrebatadamente. Não se ha de dizer que nunca faço o que me
dá na vontade. Vem, Miflaud, vamos tomar uma carruagem.
—Ah! querem por força ir ao Mabille, diz Ambrosina correndo a buscar o
chale; pois bem! vou tambem com os senhores. Penso que o sr. Miflaud não
se recusará a dar-me o braço...
—De certo que não, minha senhora, terei até muita honra n’isso.
—Ah! lá me esqueciam as luvas...
Emquanto a sr.ª Montémolly vae ao fundo da sala buscar as luvas, diz
Miflaud em voz baixa a Casimiro:
—Com ella não será a coisa tão divertida!
—Tu é que tens a culpa, imbecil! responde Casimiro; se tivesses entendido
os meus signaes, ella teria acreditado no duello, e deixava-me sair
comtigo.
—Mas... se eu não sou forte em mimica!
Ambrosina volta calçando as luvas e parte com os dois rapazes. Casimiro
faz quanto pode para occultar o seu mau humor; a sua amante olha para
elle, com ar meio ironico e meio de ameaça.
IV
Um almoço em intimidade
No dia seguinte, depois do meio dia, Casimiro está em casa da amante,
sentado a uma mesa sobre a qual se acha servido um magnifico almoço,
defronte da sr.ª Montémolly, com quem elle fez as pazes n’essa mesma
noite do baile Mabille, que se passou sem nova scena de ciumes. Miflaud,
como não podia deixar de entregar-se á sua paixão pela dansa, teve de
largar o braço de Ambrosina, a qual, naturalmente, tomou o de Casimiro;
mas este, que não tinha a menor propensão para o _cancan_, ainda o mais
burguez, contentou-se em ver Miflaud fazer prodigios de destreza e de
audacia, executando a _tulipa tempestuosa_ e outras dansas em voga nas
quadrilhas excentricas; depois, enternecido emfim pelos suspiros que dá
Ambrosina apertando-lhe o braço, pelos olhares ardentes que succederam
aos que ella a principio lhe lançava, por estas palavras: «Então já me
não amas?» que são pronunciadas com uma voz quasi supplicante, elle
responde meigamente á pressão do braço, olha para ella sorrindo, e está
feita a paz. Não é talvez uma paz bem solida, bem duravel, mas emfim é
uma reconciliação.
A sr.ª Montémolly está com um lindo trajo caseiro de manhã, que dá muito
realce aos seus contornos bem pronunciados; na cabeça não tem mais
enfeites que os seus lindos cabellos, muito negros e espessos, que ella
propria sabe arranjar de maneira que harmonisem com a sua physionomia,
talento que nem sempre possuem os artistas cabelleireiros, que nos
penteiam a seu modo, sem se importarem que o penteado fique bem ou mal á
nossa cara.