_XXIII—COLECÇÃO PAULO DE KOCK_
A menina Lisa
[Illustration]
GUIMARÃES & C.ª EDITORES
R. DO MUNDO, 68—LISBOA
Imp. Lucas
Livraria editora GUIMARÃES & C.ª
68, RUA DO MUNDO, 70—LISBOA
_O LIVRO DE MARIETA_
(1.º vol. da Biblioteca Infantil)—1 vol. com 23 contos
ilustrados com 25 gravuras, br. 300 rs. Enc. 400 rs.
_AS MIL E UMA NOITES_
(Contos arabes)—2 vol. br. 600 rs. Enc. com linda capa de
percalina impressa a 4 cores e ouro 900 rs.
_CONTOS_
de D. João da Camara—1 vol. br. 600 rs.
_CONTOS_
do Dr. Candido de Figueiredo—1 vol. br. 200 rs. Enc. 300 rs.
_TRATADO DE CIVILIDADE E ETIQUETA_
pela condessa de Gencé—1 vol. br. 600 rs. Enc. 800 rs.
_GUIA MUNDANO DAS MENINAS CASADOIRAS_
da Condessa de Gencé—1 vol. br. 500 rs. Enc. 700 rs.
_IVANHOÉ_
romance de Walter Scott—4 vol. br. 800 rs.
_O VIGARIO DE WAKEFIELD_
de Goldsmith—1 vol. br. 200 rs.
_SAUDADES_
(Menina e moça) de Bernardim Ribeiro—1 vol. br. 200 rs.
_TROVAS DE CRISFAL_
de Bernardim Ribeiro—1 vol. br. 300 rs.
_VERSOS PORTUGUESES_
de Sá de Miranda—1 vol. br. 500 rs.
_PAULO E VIRGINIA_
romance de Bernardim de Saint-Pierre—1 vol. III. br. 200 rs.
PAULO DE KOCK
OBRAS COMPLETAS E ILLUSTRADAS
XXIII
A MENINA LISA
(VERSÃO PORTUGUEZA)
[Illustration]
LISBOA
EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL
_Sociedade editora_
LIVRARIA MODERNA TYPOGRAPHIA
_R. Augusta, 95_
_45, R. Ivens, 47_
1907
VOLUMES PUBLICADOS
I—A menina das tres saias—1 vol.
II—Uma vida attribulada—1 vol.
III—Taquinet o Corcunda—1 vol.
IV—O sr. Choublanc á procura da mulher.—1 vol.
V—A Lagôa d’Auteuil (1.º vol.)
VI—A Lagôa d’Auteuil (2.º vol.)
VII—A Lagôa d’Auteuil (3.º vol.)
VIII—A menina dos tres espartilhos—1 vol.
IX—O porteiro da rua du Bac—1 vol.
X—Um namorado caloiro (1.º vol.)
XI—Um namorado caloiro (2.º vol.)
XII—A noiva de Fontenay aux Roses—1 vol.
XIII—A Viuva Tapin—1 vol.
XIV—A Leiteira de Montfermeil (1.º vol.)
XV—A Leiteira de Montfermeil (2.º vol.)
XVI—A Leiteira de Montfermeil (3.º vol.)
XVII—Um rapaz mysterioso—1 vol.
XVIII—Papá-sogro—1 vol.
XIX—A menina do quinto andar (1.º vol.)
XX—A menina do quinto andar (2.º vol.)
XXI—A menina do quinto andar (3.º vol.)
XXII—A Baroneza Blaguiskoff—1 vol.
XXIII—A menina Lisa—1 vol.
NO PRELO:
XXIV—O homem dos tres calções—2 vol.
[Illustration]
PALAVREADO PARA SERVIR DE PREFACIO
De certo tempo para cá, uma nova molestia tem feito irrupção em Paris,
por outra, em toda a França; eu poderia mesmo accrescentar que se vae
extendendo tambem aos paizes estrangeiros. Socegae, querido leitor e
formosa leitora (eu acho sempre as minhas leitoras formosissimas), esta
molestia não é d’aquellas de que se morre, ou que podem desfigurar as
vossas lindas feições (folgo tambem de crer que possuis umas feições
encantadoras); é simplesmente a mania dos _autographos_, que traz quasi
sempre após si a dos _albuns_.
Quando um homem tem a fortuna—parece-me que seria melhor dizer a
desgraça!—emfim, quando um homem tem alguma celebridade, não se passa dia
algum em que não receba pedidos de autographos, ou não veja entrar-lhe
em casa um sujeito, que lhe é inteiramente desconhecido, mas que traz
debaixo do braço um objecto bastante volumoso, cuidadosamente embrulhado
em papel e mettido n’uma caixa de cartão. Este sujeito, depois de muitos
cumprimentos e d’essas phrases banaes que se dizem a toda e qualquer
pessoa de quem se deseja obter alguma coisa, desembrulha o objecto
que traz debaixo do braço, tira o papel, abre a caixa, e mostra-nos
um _album_ mais ou menos bem encadernado, mas no qual ha ainda uma
grandissim quantidade de folhas em branco; depois diz-nos com a sua voz
mais insinuante:
—Meu caro senhor, eu possuo já no meu _album_ muitos nomes celebres; mas
falta-me o seu, o seu que é indispensavel á minha felicidade! Por quem
é não me recuse o que lhe venho pedir! faça-me o obsequio de escrever
algumas linhas n’uma d’estas paginas em branco, o que quizer, a mais
pequena coisa, não exijo que seja em verso... Entretanto confesso que
os versos teem mais encanto, conservam-se melhor na memoria; se não tem
agora tempo, se deseja meditar sobre o que ha-de escrever, deixo-lhe cá
o meu _album_; voltarei d’aqui a tres ou quatro dias, quando o senhor
quizer!
Estamos já de muito mau humor por sermos incommodados por este sujeito,
que nos perturba no nosso trabalho, e que, sem nenhum titulo, nenhuma
recommendação, vem fazer-nos um pedido a que muitos amigos e pessoas
das nossas relações se não atrevem algumas vezes. Um pedinte de certo
nos enfadaria menos, porque teriamos o direito de o pôr immediatamente
na rua. Mas o homem—_album_—olha para nós como se viesse pedir-nos o
nosso voto para a academia. Nós não queremos por fórma alguma, ficando
com o _album_, receber uma nova visita d’este senhor, e por isso, mesmo
resmungando, mesmo deixando vêr o aborrecimento que isto nos causa,
abrimos o _album_ n’uma pagina em branco, pegamos na pena... O tal senhor
está cheio de jubilo; ficará talvez menos encantado quando ler o que
escrevemos; mas emfim, visto que elle não quer senão a nossa lettra e a
nossa assignatura, não póde deixar de ficar satisfeito.
Escrevemos a primeira coisa que nos vem á idéa; mas sempre se deve
procurar que seja uma tolice, o que é ás vezes mais difficil de achar do
que se julga. Dizem-me que o nosso Scribe, apoquentado tambem pela gente
de _album_, escrevia sempre esta phrase: Perdi o meu guarda-chuva!... e
isto era mais que sufficiente.
Devo entretanto dizer que os _albuns_ apresentam-se menos vezes em
nossa casa que os simples pedidos de autographos. Estes pedidos quasi
sempre se fazem por correspondencia. Recebemos a cada instante cartas,
não só de Paris, mas da provincia e mesmo do estrangeiro. Algumas vezes
julgâmos reconhecer a letra d’uma pessoa que estimâmos muito e de quem
ficariamos encantados de ter noticia; abrimos a carta muito depressa...
mas nada! é ainda um pedido de autographo, d’uma pessoa que nunca vimos,
que provavelmente não veremos nunca, e que acha simplicissimo talhar-nos
obra, como se devessemos estar ás suas ordens!
Ultimamente recebo uma carta d’um sujeito que me manda uns versos de
que eu sou o auctor, e que provavelmente elle tinha lido e copiado d’um
_album_. Espero que isto me servirá de lição para não tornar a cair em
escrever versos em _albuns_. Se, como Scribe, eu não tivesse escripto
senão: _Perdi o meu guarda-chuva!_ ou _perdi a minha bengala_, aposto que
o tal senhor não teria copiado isto nem m’o teria enviado, fazendo-me o
pedido de lh’o transcrever para ter estes _lindos_ versos escriptos por
mim? O homem não cessa de me repetir na sua carta que quer por força ter
alguma coisa minha.
Se lhe respondesse, o que não tenho tenção de fazer, havia de dizer-lhe:
O senhor quer ter alguma coisa minha; mas com que titulo? Recebi eu por
ventura alguma coisa sua?
Contaram-me que n’outro tempo, Lablache, famoso cantor italiano,
recebêra dos seus admiradores um tão grande numero de caixas de tabaco,
que poderia assoalhar com ellas os seus aposentos, e passear em tres
casas, pisando sempre caixas de tabaco, todas mais ou menos bonitas, das
quaes lhe haviam feito presente. Certamente, eu não cantei nunca como
Lablache! mas emfim, pela quantidade immensa de pedidos que recebo, e de
amabilidades que muitas pessoas hão por bem dirigir-me, devo pensar que
tenho tambem um numero bastante crescido de apreciadores. Pois bem! desde
que escrevo... o que faço ha muito tempo, bem sabem, nunca recebi outra
cousa senão pedidos de autographos.
Eu não peço nada, nunca pedi nada, em nenhum genero, nem pedirei nunca
graças a Deus! se tenho feito o meu caminho, tenho-o feito á minha custa,
sem intriga e sem apoio. Mas, por favor, deixem-me socegado e não me
apoquentem com os seus pedidos de autographos! Não desejo as caixas de
tabaco de Lablache, pois que nunca tomei tabaco!... o que me não impede
de admirar uma caixa bonita, quando vale a pena de ser admirada.
—Que diabo se lhe poderia então offerecer? me dizia um sujeito que sempre
me pede exemplares dos meus romances, o que é ainda mais indiscreto que
um autographo.
—Meu caro senhor, lhe disse eu, quando se tem a peito receber uma
resposta de alguem, ha um meio muito simples. Se eu residisse em
Tours, mandava-lhe ameixas passadas; em Mans, mandava-lhe um capão; em
Strasburgo, um pastel; em Reims, meia duzia de garrafas de Champagne.
Cada terra tem a sua especialidade, e o homem por força teria de
accusar-me a recepção do meu presente.
Pois o tal sujeito pareceu ficar muito espantado de eu ter achado este
meio.
Emquanto estou falando a respeito de autographos, não posso deixar de
lhes citar um sujeito que me escrevia de Nice, e que, depois de me ter
feito o seu pedido, me rogava que lhe dirigisse a minha resposta para
Nice, _posta restante_, com o nome que elle me indicava.
Se eu respondesse a este senhor, o que tive o cuidado de não fazer, havia
de dizer-lhe: «Meu caro senhor: A _posta restante_ não se emprega senão
em dois casos: em amor e em politica. O senhor não está namorado de mim,
folgo de o crer; e pelo que toca a politica, nunca me occupei de tal
coisa, nem já agora me hei-de occupar nunca. Por que razão pois, em vez
de me dar francamente o seu endereço, quer que eu lhe responda para a
_posta restante_? Tem então medo de que eu saiba quem é e onde mora? E
pede-me a minha assignatura! Realmente, o senhor não é logico!
Emquanto estou de vez para conversar com o meu caro leitor e com a minha
adorada leitora, podia confiar-lhes ainda uma d’essas apoquentações a que
algumas vezes nos é difficil escapar, desgraçadas celebridades que nós
somos. Receio porém abusar da sua paciencia, e portanto ficará para outra
occasião.
[Illustration]
[Illustration]
A MENINA LISA
I
Uma creada que sae a recados
—Adriana! Adriana! vejam lá se ella apparece! Adriana! Ah! esta rapariga
é insupportavel! Nunca vem quando se precisa d’ella! E depois, não ha com
que chamar! aqui porém deve haver uma campaínha... Adriana!...
Uma rapariga gorda, fresca, bem feita, cara vulgar, nariz mais grosso que
comprido e cabello loiro-arruivado, apparece emfim á porta d’um quarto
que podia passar por um camarim, e no qual estava uma senhora estendida,
como que desmaiada, em cima d’uma poltrona, emquanto que outra senhora,
mais nova, mas pouco bonita e cujo vestuario elegante não conseguia fazer
esquecer a sua fealdade, lhe batia na mão, sempre chamando em altos
gritos a creada grave.
—O que é minha senhora? pergunta a menina Adriana, que parece não se ter
apressado nada; a senhora está a gritar! grita como se houvesse fogo em
casa!...
—O que é, pois não vê? é a sua ama que acaba de perder os sentidos,
depois de ter dado um grito muito grande; como ella se agita... como se
põe interiçada...
—Ah! sim, eu conheço isso; a senhora está com o seu ataque de nervos, com
o seu _faniquito_; isso dá-lhe quando é contrariada, ou quando tem alguma
altercação com o sr. Casimiro.
—Deu-lhe isso ainda agora depois de ter lido uma carta que a menina acaba
de lhe trazer. Mas emfim, quando Ambrosina tem o seu ataque de nervos, a
menina faz-lhe tomar alguma coisa, penso eu, não a deixa sem soccorro?
—De certo, minha senhora, faço-lhe tomar a limonada que o medico lhe
receitou. E isso faz com que a senhora torne a si ao cabo de alguns
minutos.
—Pois bem! dê-lhe a tal limonada; ande depressa, porque ella parece
soffrer muito, esta pobre Ambrosina. Sabe onde ella tem essa limonada?
—Sei sim, minha senhora, sei, certamente que sei... Ai! Jesus! agora me
lembro...
—De que?
—Ai! valha-me Deus! sim, a senhora tinha-me dito hontem que lhe fosse
buscar outra garrafa. É verdade... agora me recordo...
—Como? pois não ha limonada em casa?
A creada grave, que tem ido abrir um armario, traz de lá uma garrafa
branca, mas que está de todo vasia, e vem mostral-a á amiga de sua ama,
dizendo:
—Aqui tem, veja, não lhe minto, não resta nem uma gota.
—E não foi hontem encommendar mais?!...
—Esqueci-me, a culpa é da porteira, que me demorou para me falar do gato
quando eu saîa, o gato desappareceu-lhe ha dois dias.
—Mas não se tracta do gato da porteira, o que é preciso ê soccorrer sua
ama. Tem a receita para essa limonada?
—Tenho sim, minha senhora, porque eu tinha tenção de ir hontem á botica,
devo-a ter ainda na algibeira.
E a menina Adriana mette a mão na algibeira, tira de lá primeiramente
algumas passas de uva, e sorri-se dizendo:
—É aquelle toleirão do caixeiro da tenda que sempre me ha de metter
alguma coisa no bolso. Por mais que eu lhe diga: Deixe-me socegada,
guarde as suas passas, não quero brincadeiras...
—Mas que é da receita? não se tracta agora do que a menina diz ao
caixeiro da tenda.
—Ah! deve ser isto!...
Adriana desembrulha um papel e lê o annuncio d’uma loja nova em que se
offerecem as fazendas com oitenta por cento de abatimento; depois atira
com o papel para o lado, dizendo:
—Ora! fui lá, minha senhora, mas são uns mentirosos, não vendem nada
novo, venderam-me umas calças de panno que tinha sido virado.
—Ah! compra calças de panno para si?
—Nada, era para o irmão d’uma patricia minha.
—Mas então perdeu a receita, desgraçada!
—Não minha senhora; olhe, aqui está, aqui a tem, tinha embrulhado com
ella uns torrões de assucar que me deu o moço do botequim.
—Agora corra depressa á botica. É muito longe?
—Não minha senhora, é aqui perto, no fim da rua Meslé, uma bonita botica,
no predio novo, que dá quasi para a rua do Templo. Ah! é uma das melhores
de Paris.
—Comtanto que o remedio não leve muito tempo a fazer.
—Oh! não, minha senhora, não leva. E depois, direi que tenho muita
pressa, para me despacharem logo; aquelles senhores da botica são muito
amaveis, muito obsequiadores.
—Vae já muito depressa, não é verdade?
—Sim, minha senhora; é só pôr uma touca na cabeça, e vou immediatamente.
—Para que precisa de touca? Não pode ir assim mesmo como está?
—Oh! a senhora não quer que eu saia em cabello; diz que não é bonito.
—Mas sua ama não o saberá.
—Perdão, podia alguem encontrar-me e vir dizer-lhe que me viu na rua
sem touca! A senhora despedia-me logo: mas esteja descançada, não gasto
n’isso muito tempo.
A creada grave corre ao seu quarto, que é nas aguas-furtadas, pega
n’uma touca, põe-na na cabeça, vê-se a um espelhinho, mas não fica
satisfeita; tira a touca, procura outra no fundo d’uma caixa de papelão,
experimenta-a, torna a ver-se ao espelho; depois, passado um momento
de hesitação, tira ainda esta e torna a pôr a primeira; d’esta vez
contenta-se com ella, e desce emfim os cinco andares, para ir buscar o
remedio para sua ama, que tem muito tempo para estar demaiada.
Mas, quando vae passar por deante do cubiculo da porteira, grita-lhe esta:
—Menina Adriana! menina Adriana! ah! uma boa noticia...
—Então o que é, sr.ª Bedou?
—Achei já o meu gato; o pobre Pagnole! Achei-o. Olhe! aqui o tem.
—É verdade; e aonde é que estava?
—Ah! eu lhe vou contar o caso, é uma historia completa. Entre cá um
instantinho.
—Não posso, vou á botica buscar um remedio para a senhora, que está
incommodada, está com o seu ataque de nervos.
—Bem sabe que ella é propensa a esses ataques. Imagine que foi aquelle
maroto, aquelle patife do quinto andar, o tal que se diz litterato...
—Ah! o sr. Denegrido.
—Sim, foi aquelle malvado que, para se vingar de eu no outro dia não
lhe ter aberto a porta ás duas horas da manhã... A menina comprehende
que um homem que mora n’uma agua-furtada de cento e sessenta francos,
tenha o atrevimento de recolher para casa ás duas horas da manhã? E
demais-a-mais nunca me deu a mais pequena gratificação! Pois bem! elle
é que tinha o Pagnole fechado em casa, onde estou bem certa que nunca
lhe dava de comer; por isso este pobre martyr emmagreceu tanto n’estes
dois dias. Felizmente a creada do procurador do segundo andar ouviu-lhe
os gemidos, e veiu dizer-me: «Parece-me que o seu gato está fechado em
casa do litterato. Subi n’um pulo até ao quinto andar e reconheci a voz
do meu querido bichano. Bati, teria arrombado a porta se elle não a
abrisse. Elle gritava-me: «Não estou ainda levantado.»—«Pois levante-se,»
respondi eu.—«Não estou vestido.»—Que me importa a mim isso?! pensa que
tenho vontade de o retratar?! O homem afinal abriu a porta; o gato veiu
logo lançar-se-me nos braços. Affianço-lhe que o tal Denegrido ha de ser
despedido no fim do seu arrendamento; demais, elle não paga, não tinhamos
tenção de o conservar.
—Até logo, sr.ª Bedou.
—Quando voltar lhe direi o que o escrevinhador me disse para se desculpar
de ter fechado o Pagnole. Imagine...
—Sim, sim, quando voltar.
A menina Adriana acha-se emfim na rua. Quando passa por deante da tenda,
um dos caixeiros, que parecia estar a espreital-a, toma-lhe o passo,
dizendo-lhe:
—Aonde é que vae com tanta pressa? parece que corre n’um velocipede.
—Ora! que tolice! como se as mulheres podessem andar em velocipedes! o
que é pena, porque seria uma coisa muito commoda para nós fazermos os
nossos recados.
—As mulheres podem muito bem andar em velocipede, o caso é acostumarem-se.
—Vamos, sr. Cebolinha, deixe-me passar, não tenho tempo para conversar
agora.
—Oh! a menina commigo nunca tem tempo, mas hontem, ás dez horas da noite,
bem a vi estar de _paleio_ com o moço do botequim do _boulevard_, as
casas do _boulevard_ S. Martinho, na margem esquerda têem todas uma saida
para a rua Meslée, é commodo...
—E então? sim, bem me lembro, effectivamente, estive a falar com o
Alexandre, a senhora queria tomar um capilé de leite antes de se deitar,
porque tinha tossido um pouco, e pensava que aquella bebida lhe faria bem
á constipação, ia eu então ao café encommendar o que a senhora queria,
quando encontrei na rua o Alexandre.
—Ah! não é máu o tal capilé, acho-o porém muito assucarado...
—O quê? o que é que o senhor quer dizer com esse ar de mangação?
—Quero dizer que se a sua ama a esperava para se deitar, teve tempo para
adormecer antes de tomar a tal bebida, a menina demorou-se uma boa meia
hora na rua com o moço do botequim.
—É que elle provavelmente tinha muito que me contar.
—Se é d’aquella maneira que elle faz o seu serviço, não tarda que o
despeçam.
—Bem se importa elle com isso! não tem vontade nenhuma de ficar onde
está; vae tomar um café e estabelecer-se por sua conta.
—Oh! então o caso é differente. E a menina é que vae para o balcão?
—Ora! quem sabe! tem-se visto coisas mais de espantar.
—O Alexandre vae tomar um botequim por sua conta! Ah! ah! ah! essa é
forte de mais, pode-se juntar com o capilé.
—Sr. Cebollinha, o senhor é muito maldoso, diz mal de toda a gente,
desacredita todo o bairro. É uma coisa muito trivial, todos os dias se
estão a estabelecer os moços de botequim por sua conta, isso vê-se a cada
passo!...
—Sim, mas os que fazem isso são aquelles que têem feito economias, que
têem forrado alguma coisa do seu ordenado, e não os gastadores, os
extravagantes como o seu Alexandre.
—Porque é que diz: o seu Alexandre? Elle é tanto meu como de qualquer
outra! o rapaz deve-lhe alguma coisa, para o senhor estar assim a dizer
mal d’elle?
—É verdade que sim; deve-me ainda uma libra de mel que lhe vendi para
adoçar as suas tisanas, quando esteve doente, e, como o patrão me tinha
prohibido de lhe dar fiado, sou eu que terei de pagar.
—Ora! elle lhe pagará o seu mel. Olhe, lá o chamam, ande, volte para a
loja.
—A menina volta?
—Nunca! o senhor tem muito má lingua.
A creada continúa o seu caminho; mas cem passos mais adeante encontra-se
com outra creada quasi da mesma edade e que está vestida com muita
garridice.
—Ah! és tu Rosa!
—Boas noites, Adriana. Aonde vaes com tanta pressa?
—Vou á botica buscar uma limonada para minha ama, que está com o seu
ataque de nervos.
—Ainda estás em casa da tal sr.ª Montémolly?
—Ainda.
—Gostas de lá estar?
—Hum! não muito, não se diverte a gente quasi nada; mas tambem não se
está aperreada, pode-se saír e voltar tarde; é o que a casa tem de bom.
—E tua ama é senhora capaz?
—Ora! não sei bem... ella dá-se por viuva.
—D’um general sem duvida? todas ellas são viuvas de um general; é uma das
suas manias...
—Não, a minha diz que o marido era banqueiro. O que é certo, é que elle
deixou-lhe fortuna: ella tem pelo menos quinze mil francos de renda,
talvez mais alguma coisa; nós não fazemos dividas, pagamos tudo a
dinheiro de contado. Oh! temos bom governo.
—Que edade tem a tua sr.ª Montémolly?
—Ella diz que tem trinta e quatro annos, mas eu dou-lhe trinta e oito,
tambem mais não; foi muito bonita, e está ainda bem conservada.
—E tem muitos adoradores?
—Não! infelizmente! porque se assim fosse, havia de divertir-se a gente
muito mais, e seriam maiores os lucros.
—O quê! pois tua ama renunciou aos amores, ainda em edade de agradar!
—Não! é que não percebes; minha ama não renunciou ao amor, muito pelo
contraio, ella ama, oh! ama apaixonadamente um rapaz, um bello moço, o
Casimiro Dernold, que vem quasi todos os dias fazer-lhe companhia, que é
musico, que é pintor tambem... emfim, que faz tudo quanto quer, mas que,
segundo eu creio, não quer fazer outra coisa senão divertir-se! A senhora
está doida pelo tal Casimiro, não pensa senão n’elle, não sonha n’outra
coisa, não se importa com mais ninguem. É por isso que não dá attenção
a todos os que procuram fazer-lhe a côrte. É verdadeiramente fiel ao
amante, a ponto de adoecer, de sentir as mais vivas inquietações, se
elle não chega á hora do costume. Ah! minha querida Rosa! que asneira é
amar um homem assim; e como a gente é muito feliz em não se prender! Não
pensas como eu?
—Já se vê que sim! eu dou attenção a todos quantos me falam; por isso não
tenho um instante de meu. Quando não converso com este, é porque estou
conversando com aquelle! Ah! ah! é muito mais divertido! E que edade pode
ter esse Casimiro, amante de tua ama?
—Vinte seis a vinte sete annos, talvez.
—E tua ama tem trinta e oito! elle deve-lhe fazer muita falcatrua!...
—Não sei, em todo o caso, a senhora vigia-o muito, é ciumenta como uma
panthera! fal-o seguir; é mister que elle lhe dê conta do que faz cada
dia, hora por hora.
—Pobre rapaz! olhem que vida! Eu antes queria estar nas galés!...
—Por isso elle algumas vezes respinga, grita, manda bugiar a senhora. Oh!
então, são scenas terriveis! A senhora chora, ou pega n’um punhalzinho
que traz escondido no seio, e diz que se vae matar...
—Bom! eu conheço essa giria! não tenhas medo de que se mate!...
—Olha, ha um mez, quando ella soube que o seu Casimiro tinha estado no
Mabille, quiz cravar o punhal no peito; mas, ao que parece, dirigiu mal o
golpe, porque não se feriu senão na orelha, que verteu algum sangue!
—Ah! ah! ah! ella quer-se apunhalar pela orelha. É uma grande farcista a
tua ama. E esse Casimiro é rico tambem?
—Rico! elle! pelo contrario, não tem nada de seu. Então não percebeste a
situação, e porque é que elle é escravo da senhora?
—Ah! sim, percebo agora; é ella quem o sustenta.
—Exactamente; tem-no seguro pela fome. Se o rapaz tivesse dinheiro, estou
bem certa de que ella o não prenderia muito tempo.
—Olha, Adriana, não sei se tu és como eu, mas para mim os homens que não
têem nada de seu, não prestam!...
—Eu não faço caso nenhum d’elles! Ora! um homem viver á custa d’uma
mulher... é andar o mundo ás avessas! Por ventura o homem não foi feito
para ganhar dinheiro e a mulher para o gastar.
—Pois, minha rica, ha ainda muitas mulheres bastante tolas que se deixam
depennar pelos derriços. Olha, ahi tens a Bochechuda, tu conheces a
Bochechuda?...
—Quem? A Luizita?
—Sim, mas todos lhe chamam a Bochechuda, porque parece ter sempre
as faces inchadas. Emfim, ha já algum tempo, a Bochechuda travou
conhecimento no baile Pilodo com um bonito rapaz, que lhe diz que é da
mesma terra. Dansa com ella todas as dansas mais finas, mesmo as que ella
não sabia. Depois convida-a para um jantar no campo no domingo seguinte;
ella aceita; vae jantar com o seu novo conhecimento, que bebe como uma
esponja; depois, quando chega a occasião de pagar a conta, aquelle
senhor declara á Bochechuda que não recebeu da terra um dinheiro com
que contava, e pede-lhe que lhe empreste com que pagar a despeza. Ella
tinha felizmente levado o _porte-monnaie_. Empresta vinte francos ao
tal sujeitinho, que paga e não lhe dá o troco. O jantar tinha custado
apenas nove francos e dez soldos. Volta com ella a pé, não lhe offerece
mais nada e larga-a muito cedo, com o pretexto de que tem um trabalho de
escripturação a fazer para um tendeiro a quem serve de guarda-livros.
A Bochechuda, que não gosta de ir para casa cedo n’um domingo, põe
uma touca nova e vae ao baile Pilodo com uma vizinha. Quem é que ella
encontra lá? o seu parasita, o seu novo conhecimento, que fazia a côrte a
uma mulher e lhe pagava ponche com o troco da moeda de vinte francos que
ella lhe tinha emprestado...
—Ah! a peça é bem pregada! e o que fez a Luizita?
—É tão tola que se foi embora chorando. Mas o mais curioso da historia,
é que, no domingo seguinte, o tal sujeitinho tornou-lhe a pregar a mesma
peça. Jantam n’uma casa de pasto, e na occasião de pagar a despeza o
patife diz que não tem dinheiro.
—Ah! isso é forte demais! e ella pagou outra vez?
—Pagou, mas pelas suas proprias mãos, e guardou o troco. Desde esse dia,
nunca mais tornou a vêr o seu parasita.
—Pobre Luizita! mas eu não a devo lastimar, que ella é muito presumida. E
tu, Rosa, ainda estás em casa dos mesmos patrões?
—Dos Dupont? oh! não, graças a Deus! deixei-os! não era gente fina,
aquillo não me convinha! A senhora ia á praça, ella é que me comprava
tudo: O patrão descia elle mesmo á adega; sabia a conta das garrafas. Não
se podia fazer nada com aquella gente! eram uns piolhosos, minha rica!
Fechavam o assucar e os licores; aquillo não me podia convir. Eu tinha
acceitado aquella casa emquanto me não apparecia outra; eu bem sabia que
não ficaria lá muito tempo.
—E hoje estás melhor?
—Ah! minha rica, tenho um bello commodo! estou em casa d’um homem só, um
patrão rico, generoso, nada apoquentador, negoceia por gosto, sómente
para se entreter. Temos uma bella casa aqui perto, na rua Béranger, seis
casas n’um segundo andar. Fiz com que o senhor tomasse um criado para
esfregar; elle não o tinha, mas percebeu que eu não podia fazer tudo.
—Tens boa soldada!
—Seiscentos francos, sem contar as gratificações, os presentes!...
—Teu amo dá-te presentes! sempre és muito feliz!
—É verdade, ainda ultimamente me deu um rico lenço de seda da India!
—Que edade tem o teu patrão?
—E’ um homem que anda pelos seus sessenta annos, mas não parece, está
ainda muito bem conservado!...
—Ah! entendo... estás em casa d’elle para todo o serviço. Ah! ah! esses
commodos é que são bons!...
—Ah! tu pensas tolices... pois enganas-te, affianço-te que não é isso...
—Ora adeus! então por que te dá elle presentes?...
—Ah! não digo que elle ás vezes não goste de brincar um pouco, de rir, de
me deitar os braços á roda da cintura, mas a coisa não chega nunca aonde
tu imaginas.
—Deves perceber que isso para mim é-me indifferente; estás no teu direito
de fazeres o que quizeres, assim como o teu patrão, visto que não tem
mulher a quem dar satisfações. Elle é viuvo ou solteiro?
—Olha! não sei, que ainda lhe não pergunteí isso... mas preciso sabel-o...
—Ai! Jesus! minha ama que está á espera do remedio... e eu aqui a dar á
lingua contigo.
—Ninguem pode levar a mal que a gente converse o seu boccado; nós não nos
encontramos todos os dias!
—Pois sim, mas agora vou de corrida á botica. Adeus! Rosa!
—Até outra vez, Adriana.
II
Na botica
Quando a menina Adriana entra emfim na botica, que é quasi á esquina da
rua Meslée e da rua do Templo, havia lá tanta gente, que os praticantes
não sabiam a quem haviam de attender primeiro. Demais d’isso, é
muito raro achar uma botica deserta; a concorrencia abunda n’estes
laboratorios, onde todos esperamos encontrar remedio ou pelo menos
allivio para os nossos soffrimentos ou para os das pessoas que nos são
caras. Se isto prova que a profissão é boa, prova tambem que o nosso
physico tem amiudadas vezes necessidade de reparo, e que estamos longe de
ser perfeitos; é, pelo menos, aquillo de que estamos convencidos ha muito
tempo.
Entre os freguezes da botica torna-se saliente uma mulher gorda, que
segura pela mão uma criança de quatro a cinco annos, que está de tal modo
embrulhada em casacos, aventaes e chales, que é difficil adivinhar se é
rapaz ou rapariga; a mãe dirige-se a um dos praticantes:
—Olhe, senhor, o meu pequeno anda ha tres dias com uma tosse, que me
parte o coração ouvil-o tossir: são uns ataques como tinha o pae, que
padecia d’um catarrho que o não deixava pregar olho toda a noite, e
que o levou á cova o anno passado, com uma indigestão que apanhou em
consequencia d’um banho de vapor, porque...
—Mas, minha senhora, agora não se tracta de seu marido, visto que morreu;
tracta-se do seu pequeno, que está constipado; creio que é por causa
d’elle que a senhora cá vem?
—De certo; olhe, aqui o tem, é uma joia.
—É o seu menino?
—Sim, senhor.
—Parecia uma menina.
—Por causa do seu ar malicioso? ah! sim, que elle é muito malicioso; mas
veja como está vermelho.
—Não admira! a senhora tral-o tão embrulhado, que o pequeno deve por
força sentir muito calor.
—Mas, como elle anda com tosse...
—Não é uma razão para o suffocar.
—O que é então preciso fazer-lhe tomar?
—Uma tisana de flor de malva com mel, e pode tambem dar-lhe um pouco de
leite.
—De vacca?
—Já se vê.
—Tinham-me dito que lhe fizesse tomar leite de burra.
—Não é preciso, o menino é ainda muito novo, e não tem cara de quem
padece do peito.
—Veja se tem febre.
O praticante quer pegar na mão do pequeno, mas este foge com ella
rompendo em altos gritos.
—Então, Dodoro! porque é que não queres que este senhor te pegue na mão?
dá-lhe já a mão depressa, patife.
—Não quero! não quero!
—É travesso como um macaco. Faze lá uma careta a este senhor.
—Não quero!
—Então, é ou não velhaco?
—Não lhe tem respeito nenhum.
—Elle é ainda tão pequeno, e depois aprendeu a responder assim com o pae.
Isto faz-me lembrar tanto o meu homem! Faça favor de me dar a flor de
malva e o mel.
—Sim, senhora, vou avial-a immediatamente.
—E não lhe parece que seria melhor dar-lhe leite de burra?
—Não, senhora; torno-lhe a dizer que o seu menino não precisa d’isso. Mas
emfim, se a senhora quer dar-lh’o por força, mal não lhe pode elle fazer.
—Não acha? O senhor não tem cá uma burra?
—Oh! não, senhora, nós não temos leite de burra!
—Que pena! pois ao pé de mim mora uma vizinha que tem uma cabra; o senhor
não acha que o leite de cabra lhe faria o mesmo effeito?
—Todos os leites que quizer; o leite não faz nunca mal. Aqui tem a flor
de malva e o mel.
—Muito agradecida; isto é para beber quente?
—Tanto quanto seja possivel; sempre é melhor tomal-o quente do que frio...
—Dodoro, atira lá um beijo a este senhor...
Em vez de atirar um beijo, e rapazinho faz uma careta, deitando a lingua
de fóra, e resmunga:
—Não quero! não quero!
A mãe pega n’lle e retira-se, exclamando:
—Ah! é exactamente como o pae!...
Uma senhora, de meia edade, com certa garridice no trajo e nas maneiras,
dirige-se a outro praticante, requebrando-se toda e fazendo boquinha de
sorriso, para deixar vêr uma dentadura completamente postiça, mas que
ella suppõe que imita a natural de modo a illudir os mais espertos, e
diz-lhe:
—Acontece-me um desastre bem desagradavel, e venho pedir-lhe que me tire
isto quanto antes...
—O que é que precisa tirar, minha senhora? Se é algum dente, nós não
somos dentistas...
—Não, senhor, não se trata de dentes; por esse lado não preciso nada,
graças a Deus! e o senhor bem o deve vêr... mas olhe aqui para cima da
minha bocca; o que é que vê?
—Vejo o seu nariz, minha senhora, e de ordinario é n’esse sitio que elle
se encontra.
—Sim, senhor, está o meu nariz, que tem uma forma bastante engraçada,
posso dizel-o sem desvanecimento; mas sobre o nariz... aqui... á
esquerda, não vê nada?
—Ah! sim, vejo uma borbulha... já bastante pronunciada e que está mesmo
muito vermelha.
—Está vermelha e pronunciada!... ah! senhor! o que quer isso dizer!...
—Quer dizer que ainda não está madura.
—Madura! como madura? o senhor acha que isto deve amadurecer?
—Naturalmente, minha senhora: não é mais que uma borbulhita, por
emquanto, mas assim mesmo tem de seguir o seu curso... amadurecer, crear
cabeça, rebentar e sarar...
—Amadurecer, crear cabeça!.. pois eu havia de ter uma borbulha com cabeça
no nariz! ah! que horror!... não quero tal coisa!... eu, que nunca tive
a mais pequena beliscadura em parte alguma... entende, senhor? em parte
alguma... porque me viria nascer uma borbulha no nariz?... qual pode ser
a causa d’isto?
—Ignoro totalmente, minha senhora; mas uma borbulha nasce sem se saber
porquê; isso pode acontecer a toda a gente!...
—Oh! não, senhor, quando se é d’um aceio minucioso, isto não deve
acontecer... Eu não fui metter o nariz em sitios insalubres, pode
acreditar-me!
—Estou persuadido d’isso, minha senhora!
—Lavo-me vinte vezes por dia! esfrego-me com _cold-cream_, com vinagre de
Bully, com agua de Portugal, com essencia de jasmim...
—São coisas de mais, minha senhora, é preciso não abusar dos cosmeticos,
isso produz ás vezes um effeito muito diverso d’aquelle que se espera...
—Emfim, o senhor vae-me dar alguma coisa para fazer desapparecer isto que
me nasceu aqui, logo no nariz... é preciso que se não veja nem o signal...
—Minha senhora, isso ha de ser muito difficil... seria mesmo perigoso;
com o nariz não se deve brincar... Já consultou o seu medico?
—Um medico para uma borbulhita... ora essa. Em primeiro logar, eu não
posso vêr os medicos, detesto-os, querem sempre purgar-me! E eu não me
quero purgar, não quero!
—Faz mal, minha senhora, porque se se tivesse purgado, é provavel que
essa borbulha não lhe nascesse no nariz.
—Com que é preciso untar esta borbulha para que desappareça
immediatamente? Deve haver algum remedio.
—Minha senhora, advirto-a de que será perigoso; se faz recolher essa
borbulha, hão de rebentar-lhe muitas outras n’outros sitios!
—N’outros sitios não me importa, comtanto que não seja na cara.
—A senhora quer?
—Sim, senhor, vou ámanhã a uma _soirée_... quero ir sem borbulha.
—Então aqui tem ceroto de chumbo, minha senhora, para fazer seccar a sua
borbulhinha...
—Oh! muito obrigada, vou untar bem todo o nariz!...
—Só a borbulha, minha senhora... mas previno-a de que lhe hão-de nascer
outras...
—Muito bem... farei recolher todas.
A senhora pega no seu boiãosinho de ceroto, paga e vae-se embora, muito
contente por ter com que curar ou pelo menos dissimular a sua borbulha.
É substituída por um sujeito moço, bem abafado, mas que tem máu parecer,
e se approxima do praticante com um ar acanhado. Os estudantes de
pharmacia sabem muito d’isto; adivinham logo por que razão este senhor os
quer consultor e vão ao seu encontro. Effectivamente, elle fala-lhes ao
ouvido; e então fazem-n’o passar para uma salinha que fica por traz da
botica. Alli, o homem explica o seu caso, sempre a meia voz. Dão-lhe uma
caixa de pilulas, umas poucas de raízes de morangueiro para fazer tisana,
uma garrafa com um xarope já preparado, e o homem leva tudo isto, dando
um profundo suspiro.
Os praticantes da pharmacia olham uns para os outros sorrindo, e um
d’elles murmura:
—Ita dis placitum, voluptatem ut moeror
Comes consequatur!...
—Os deuses! responde outro, quer dizer, foi só _Mercurio_ que assim o
quiz! É o Deus do commercio; terá lá dito comsigo: Isto ha-de-me fazer
vender muito.
—Meus senhores! vamos! tomem cuidado nas suas palavras! diz o rapaz que
está sentado á carteira.
—Oh! não ha perigo, as senhoras não sabem latim!
Chega um velho gordo, bufando, e atira comsigo para cima d’uma cadeira,
dizendo:
—Ah! senhores, que dôr! Irra! que dôr!
—O que foi isso? deu alguma queda?
—Não, oh! não dei queda nenhuma; não me faltava mais nada!... É uma dôr
que me apanha desde o quadril até ao joelho, do lado direito...
—E essa dôr deu-lhe agora quando ia andando?
—Deu-me agora? Ha tres semanas que padeço d’ella. Não lhe tenho feito
nada, porque dizia sempre commigo! Isto ha-de passar! mas, qual historia!
não me passa. Por isso é que me resolvi a vir...
—Teria feito melhor em vir mais cedo.
—Ah! é que eu não gosto de tomar remedios de botica! Receitem-me tuberas,
lagosta, Champagne, então bem! applicarei a receita immediatamente.
—Tem talvez abusado de tudo isso, e ahi está o motivo por que tem agora
dores. Consultou já algum medico?
—Tenho consultado dez, doze, vinte. Cada vez que me acho n’um sitio onda
ha um medico, tracto logo de o consultar.
—O que lhe disseram elles que era?
—Um diz que é rheumatismo; outro que é uma dôr sciatica; este diz que
é gotta; aquelle, que é só cançaço. Todos elles me têem receitado umas
fricções.
—De quê?
—De balsamo de Opodeldoch, de balsamo Tranquillo, de balsamo de
Fioravanti! e ainda muitos outros balsamos... Eu, como tenho excellente
_rhum_, verdadeiro _rhum_ da Jamaica, tive a lembrança de dar umas
fricções com elle...
—Não era mau.
—Não é verdade? Ora, como não tenho criado, pedi ao meu porteiro que me
viesse dar as fricções; elle promptificou-se da melhor vontade. Dei-lhe o
_rhum_, e deitei-me sobre o lado que me não dóe. O porteiro esfregava-me
com toda a força... fazia-me arder a pelle como todos os diabos! O homem
descançava muito a miudo. Tenho uma vez a lembrança de me voltar, e dou
com elle a beber-me o _rhum_ mesmo pela botija; o maroto esfregava-me
em secco! Nunca mais quiz que elle me desse as fricções. Os senhores
podem-me arranjar uma mulher para me fazer este serviço, antes quero uma
mulher que um homem...
—Podemos inculcar-lhe uma mulher que deita bichas e ventosas, e tambem dá
fricções quando é necessario.
—É moça?
—Cincoenta a sessenta annos.
—Preferia-a de vinte e cinco a trinta.
—Que importa, comtanto que ella lhe dê bem as fricções. Uma mulher nova
poderia causar-lhe distracções, e é isso que é preciso evitar.
—Ah! o senhor acha que as distracções são contrarias á minha dôr?...
—Certamente. Tambem seria bom deitar umas ventosas e alguns causticos
volantes.
—Oh! emquanto estiver n’este estado não ponho difficuldades a coisa
nenhuma, farei uso de tudo para me curar mais depressa. Aqui tem a minha
morada, mande-me lá ámanhã a tal mulher com as bichas, as ventosas e os
causticos.
—Mas não vá applicar tudo isso ao mesmo tempo.
—Com certeza que vou; a coisa assim vae mais depressa! Olhe, eu nunca
faço remedios! mas quando me resolvo a isso, então não quero privar-me de
nada. Dê cá sempre um balsamo qualquer, tractarei de me untar e esfregar
eu mesmo emquanto a tal mulher não apparece.
Emquanto estão aviando este senhor, entra muito afflicta uma mulher de
lencinho na cabeça, e dirige-se logo ao rapaz que está sentado á carteira:
—Ah! meu caro sr. Narciso! que má sorte que me persegue desde certo
tempo para cá! Mal a minha pequena está restabelecida do catarrhal e
o meu rapaz do sarampo, e ahi me cae o meu homem doente, sem poder
trabalhar! é o remate da desgraça!
—Mas o que é que o seu marido tem?
—Ora! uma molestia exquisita... mas parece que é perigosa. Faça ideia,
tem um anthraz!
—Um anthraz! que me diz?!
—Foi o que disse o medico, que é um sabio, e que disse logo: Não tem que
vêr! é um anthraz! Aqui está o que tem o meu André, nasceu-lhe um anthraz
nas costas! Aquillo foi um golpe de ar, não é verdade?
—Não, mas é uma coisa muito má; a senhora deve trazer uma receita.
—Sim, senhor, oh! de certo o medico escreveu tudo isto... Levará muito
tempo a fazer?
—Não, faça favor de se sentar e de esperar cinco minutos; vou já
despachal-a.
—Então espero.
Entra na botica, com ar assustado, uma senhora já velha, trazendo um
cãosinho atrelado, e exclama:
—Meus senhores, é verdade estar já em Paris, ter já feito muitos
estragos? ataca com muita força?
—Perdão, minha senhora, mas de quem é que falla?
—Do cholera, senhor, disseram-me que já estava em Paris, que tinha
apparecido no arrabalde de Santo Antonio.
—É a primeira vez que ouço falar de similhante coisa, minha senhora.
—Devéras, não tem ouvido falar em tal?
—Não, minha senhora.
—O que confirmava os meus receios, foi que ao passar por deante de uns
urinoes, reparei que os estavam alimpando com chloreto.
—Isso faz-se muito amiude, é para destruir o mau cheiro...
—Acha que é só para esse fim? Devo tambem dizer-lhe que tenho uma amiga a
quem acaba de morrer o marido muito repentinamente.
—Uma apoplexia, talvez.
—Oh! não, senhor, elle não era sanguineo; mas voltou uma noite para
casa com uma lagosta e um salsichão de Lyão, era o seu petisco favorito
acompanhado de muita cerveja. Comeu menos mal; mas no outro dia pela
manhã estava morto e da côr do salsichão.
—Teve uma indigestão, minha senhora.
—Mas elle já muitas vezes tinha comido tanto como d’essa vez e não
morrêra.
—Essas coisa não acontecem nunca duas vezes, minha senhora.
—Ahi está tambem o pequeno da minha porteira, um rapazito sadio e córado,
pois está ha tres dias com uma dor de barriga e com uma dysenteria.
—Isso é muito commum nas creanças.
—Emfim, acabo de encontrar um sujeito que jantou em minha casa ha quinze
dias, e estava então de perfeita saude. Achei-o muito amarello, com
os olhos encovados, mudado a ponto que não me pude conter que lhe não
dissesse: «Ai! Jesus! que cara que o senhor tem!» então está doente? E
elle responde-me: Não sei o que tenho, sinto dores por todo o corpo. É
assim que principia o cholera?
—Não, minha senhora, esse sujeito tem provavelmente uma grande
constipação, é o que é.
—Oh! não importa, asseguro-lhe que anda no ar alguma coisa que não é
natural. Eu esta manhã tinha quasi frio quando me levantei, e agora estou
com muito calor!
—É que andou muito depressa.
—Não, senhor; o Zozor obriga-me a parar a cada instante; o pobre
animalsinho tambem não está no seu estado normal... Faça favor de me dar
uma pouca de camphora, sei que é um preservativo contra as más emanações.
—Vou dar-lh’a immediatamente.
—Metterei um pedaço no meu espartilho: isso não me pode fazer mal.
—Pelo contrario, minha senhora.
—Ha de dar-me tambem um pouco de chloro; é outro preservativo.
—Liquido ou solido, minha senhora?
—Não comprehendo.
—Minha senhora, solido é em pó; liquido é em garrafa, uma agua preparada.
—Ah! eu não conhecia o solido. Dê-me dos dois, farei uso de ambos;
lavar-me-hei com um, e trarei commigo o outro. Ah! tem arruda?
—Tenho, sim, minha senhora.
—É tambem um preservativo.
—Afugenta os insectos.
—Oh! e preserva tambem do mau ar, dê-me uma pouca; hei de trazel-a sempre
no espartilho.
—Fará a senhora muito bem.
—A alfazema tambem tem propriedades reconhecidas?
—Tem, sim, minha senhora, é aromatica.
—Dê-me tambem uma porção de alfazema, que é para trazer nas algibeiras.
Que mais me poderá o senhor dar que seja contra os maus ares? Ah!
_patchouli_... tem _patchouli_?
—Não, minha senhora, isso vende-se nas perfumarias; mas olhe que o
_patchouli_ cheira muito bem mas não combate o mau ar, e, se abusar
d’elle, pode alguma vez atacar-lhe o systema nervoso.
—Ah! eu não quero nada que ataque o meu systema; a mais pequena coisa me
irrita os nervos!
—Então, minha senhora, leve antes valeriana, é uma raiz com que se faz
uma infusão como o chá. Comtudo, devo prevenil-a de que não é agradavel
de beber, e que tem muito mau cheiro, mas é muito saudavel.
—Oh! dê-me cá d’essa raiz, bebel-a-hei e tral-a-hei sempre commigo.
O praticante dá a esta senhora tudo quanto ella lhe pede; ella enche as
algibeiras e o seio de camphora, arruda, chloro, alfazema, valeriana, e
leva uma garrafa de agua chloretada. Vae deixando por onde passa uma
mistura de cheiros cuja reunião nada tem de agradavel.
—Se esta senhora não tem á noite uma forte enxaqueca, será um grande
milagre! diz um dos rapazes.
—Não falando em todos os gatos que vão correr e saltar atraz d’ella,
attrahidos pelo cheiro da valeriana, que os faz quasi endoudecer. Se não
gosta de gatos, vae ver-se muito apoquentada.
Entra na botica um pedreiro mostrando o braço esquerdo todo ferido; ia
sendo esmagado por uma trave que quasi lhe caíu em cima, mas apenas
apanhou um forte raspão no antebraço. Curam-n’o, ligam-lhe a ferida,
dão-lhe um frasco de agua-ardente camphorada, para elle embeber o
apparelho, e, quando quer pagar, despedem-n’o dizendo:
—Nós não acceitamos nada aos doentes pobres! Vá-se tractar, e, se tiver
precisão de mais alguma coisa, não receie vir pedil-o que não lhe custará
nada.
Hão-de convir que, quando a gente vê os pharmaceuticos mostrarem-se tão
solicitos em soccorrer os desgraçados, não deve ter mais a confiança de
os tractar por _boticarios_.
No emtanto têem entrado na pharmacia muitas creadas de servir; falam
todas ao mesmo tempo, e dizem:
—Vá! despache-me, que estou com pressa.
—Oh senhor, eu tenho tosse: dê-me rebuçados de althéa! são muito bons!
Aqui está um remedio que me agrada.
—A mim dóe-me a garganta...
—Tome gargarejos de agua de cevada com mel rosado...
—Minha ama quer pomada para os beiços, não ha pomada que lhe chegue; eu
não uso d’isso, e tenho a bocca mais fresca do que ella.
—Eu fiz um gallo na testa, e dóe-me muito.
—Deu alguma pancada?
—Foi n’uma porta. Eu estava muito quieta, de repente abriram-n’a... eu
não esperava...
—Provavelmente estava a escutar?
—Effectivamente escutava; tinha chegado o magnetizador?
—O que é isso de magnetizador?
—É um sujeito que anda ensinando a senhora a ser somnanbula lucida, para
fazer experiencias em sociedade.
—Ah! sua ama quer ser somnanbula?
—É verdade, metteu-se-lhe aquillo na cabeça; por mais que o marido lhe
diga: «Olha que vaes adoecer!» a senhora não desiste. E, quando chega o
magnetizador, mandam-me embora.
—E o marido?
—Meu amo? oh! esse está na repartição; sae de casa ás nove horas, e só
volta ás cinco, é coisa eabida.
—Percebo. Onde é que deu a pancada?
—Aqui, na testa... apalpe...
—Ah! sim, cá sinto.
—Meu amo disse-me que não precisava fazer-lhe nada, que os gallos na
testa não são perigosos. Elle deve entender d’isto...
—Tome sempre cosimento de vulneraria, será mais prudente.
—Então arranje-me isso n’um instante.
Abre-se a porta, e sente-se um cheiro fortissimo; é a velha dos
preservativos que volta, dizendo:
—Senhor, esqueci-me de levar agua de melissa dos Carmelitas; é uma coisa
indispensavel quando a gente se sente incommodada; podem-se tambem
esfregar as fontes com ella; é um preservativo... faça favor de me dar um
frasco.
—Aqui está, minha senhora.
—Esta é da verdadeira, não é assim? o senhor não quererá enganar-me! É
dos verdadeiros Carmelitas, da verdadeira rua Taranne?
—Minha senhora, eu não conheço duas em Paris:
—Muito agradecida.
A velha mette o frasco na algibeira e retira-se.
A menina Adriana entra emfim na pharmacia, exclamando:
—Ah! cá estou finalmente! ainda bem! pensei que não chegaria nunca...
—Tem alguem doente em casa, menina Adriana?
—Tenho; é minha ama que está com o seu ataque nervoso, com a sua crise,
e com um grande tremor. Tome, aqui tem a receita, avie-me depressa... eu
vim a correr quanto pude, agora não me demore muito tempo...
—Sente-se, que vou já despachal-a.
—Ah! agradeço-lhe muito a sua bondade! é que me faz muita pena vêr
soffrer a pobre de minha ama.
Começa o praticante a aviar a receita da sr.ª Montémolly, quando se
abre de novo a porta, e invade a pharmacia uma mistura de cheiros
activissimos; é a senhora que tem medo do cholera, que torna a entrar e
vae importunar o rapaz que está ao balcão, exclamando:
—Ah! senhor! não pode fazer idéa de como cheira mal a rua Meslée!...
—Sinto muito, mas que quer que lhe faça?
—Anda alguma coisa no ar, oh! certamente, o ar está máu n’este momento!...
—É talvez uma trovoada que se prepara!...
—Oh! o que se prepara é outra coisa. Quer ter a bondade de me desrolhar o
meu frasco de agua de Melissa? Se me dá licença, vou esfregar o nariz e
as fontes, e então poderei affrontar com menos susto os miasmas da rua.
—Faça o que quizer, minha senhora, aqui tem o seu frasco aberto; quer uma
chicara?
—Bastará a ponta do meu lenço, vou embebel-a muito bem...
Effectivamente, esta senhora deita agua de Melissa no lenço, depois
esfrega as fontes, lava o nariz, introduz tanto quanto pode o lenço
molhado nas ventas, esfrega tambem a testa, deita agua de Melissa na
palma da mão, depois aspira-a a ponto de espirrar oito vezes a fio. Emfim
acabada esta ceremonia, torna a rolhar o frasco, mette-o na algibeira,
vae-se, dizendo:
—D’esta vez, creio que estou bem preservada do máu ar!...
—Oh! sim, minha senhora, está bem preservada, exclama o aprendiz de
boticario. Folgo de crer que tambem nós o estamos agora das suas visitas.
Que fregueza!...
—Mas é ella que empesta a gente, diz Adriana; o que foi então que o
senhor deu áquella senhora?
—Tudo o que ella quiz!...
—Qual é a doença d’ella?