Portugal. Este sujeito, que não degenerava dos vicios do avô e do pai,
ainda, dous annos antes (1639) escrevêra uma carta a João Caramuel,
defensor dos direitos de Castella ao throno portuguez, confessando a
legitimidade de Philippe III, e offerecendo o seu braço na defeza da
usurpação. A carta corria impressa, já em Portugal era conhecida, e o
leitor póde vêl-a nas primeiras paginas do in-folio intitulado
_Philippus Prudens_.
Pois não obstante este villanissimo testemunho da sua indignidade, ousou
D. Luiz apresentar-se ao embaixador portuguez, encarregando-o de
perguntar a D. João IV se poderia voltar á patria, e á posse dos bens de
seus avós.
D. Francisco de Mello fez a pergunta a D. João IV que respondeu
d'est'arte: «Perguntas d'essa natureza não se fazem.»
Mas, como D. João IV soubesse que Sebastião Gomes de Vasconcellos vivia
amigavelmente com o neto de D. Antonio, recusou tambem recebel-o em
Portugal; e, quanto á restituição dos bens, disse que não podia tiral-os
ás pessoas a quem Philippe II os dera, porque se considerava obrigado a
premiar os filhos d'essas pessoas, dos quaes fôra bem servido na sua
acclamação.
A resposta era infame porque não era sincera; e, ao mesmo tempo,
injuriava os que haviam trahido a patria, recebendo como paga os bens
dos Vasconcellos, e injuriava os filhos d'esses traidores que tambem
atraiçoaram a casa de Hespanha que lhes enriquecera os avós e os paes.
Sebastião Gomes supportou corajosamente este golpe, que ainda não devia
ser o ultimo. Um dos seus amigos mais valedores era um residente que D.
João IV mandára a França: Manoel Fernandes Villa-Real. Aproveitemos a
descripção de mad. Sainctonge qual ella ouvira de sua filha: _C'etoit un
homme d'un agreable commerce; il n'avoit rien dans l'humeur de ceux de
sa nation; son esprit étoit d'un caractere à le faire beaucoup d'amis;
aussi tous les gens de qualité et de bon goût se faisoient un plaisir de
le voir; on étoit charmé de son air ouvert et de ses manieres aisées;
tous ses dehors etoient d'un parfaitement honnête homme et on ne pouvoit
le connoitre sans l'estimer_[20].
Manoel Fernandes de Villa Real tinha casado em Rouen com a filha de um
portuguez opulento, israelita, escapulido ao santo officio. O residente
de D. João IV não era--diga-se verdade--mais sincero christão que seu
sogro.
Em compensação era intelligentissimo. Tinha escripto, em defeza dos
direitos de seu rei, o _Anti-Caramuel_, que o leitor conhece. Era poeta.
Fazia versos francezes, que o leitor encontra em uma collecção de
elegias á _Memoria da snr.ª D. Maria de Athayde_. Como illustrado,
ria-se dos sermões bordalengos do padre Francisco de Santo Agostinho de
Macedo, prégados nos pulpitos de Paris, com descredito nacional.
Censurava as baixezas que o mesmo ex-frade praticava, agenciando
dinheiros com torpes pretextos. Era um homem de bem, quanto póde sêl-o
um incircumciso, como o leitor e eu.
Quem o denunciára de judaisante para Portugal fôra o padre Macedo,
attribuindo-lhe simultaneamente a redacção de uns papeis enviados ao
cardeal Richelieu, e adversos a D. João IV.
De repente, é chamado Manoel Fernandes á presença do rei de Portugal.
Contristou-se na hypothese de que ia ser substituido, depois de tão
briosamente haver procedido no serviço d'el-rei. Os sustos de Sebastião
Gomes anteviram mais negro desenlace. Aconselhou-o o ancião que não
viesse a Portugal, pois era casado e rico em França, e tinha inimigos
conjurados a perdêl-o.
Não o demoveram o amigo, a esposa e os filhos.
Partiu, quando Sebastião Gomes dizia á filha: «Elle se arrependerá; mas
tarde.» Figueiredo sabia que o seu amigo era christão-novo; mas esta
denominação terrivel tanto lhe confragia a alma que nem á filha a
denunciou.
D'ahi a pouco tempo, o novo residente, que voltou a Paris, levou a
triste nova de que Manoel Fernandes Villa-Real estava nos carceres da
inquisição processado como judeu, e não muito depois soube que o seu
amigo fôra condemnado á morte de garrote, e queimado no dia 10 de
outubro de 1652[21].
Alquebrado pela decrepidez, Sebastião Gomes ainda achou um amigo no
residente que substituira Manoel Fernandes.
Era aquelle Duarte Ribeiro de Macedo cujas cartas impressas o meu leitor
illustrado conta em o numero dos seus mestres de bem escrever. Nos
braços d'elle, e de sua filha--esposa de um cavalheiro illustre, pai da
escriptora de Sainctonge--expirou o irmão do heroe da Terceira, aos
noventa e sete annos de idade.
Que recordações revoluteariam n'aquella alma! Que synopse de immensas
angustias! Como veria elle desdobrarem-se noventa annos de recordações,
desde a infancia de D. Sebastião, através da catastrophe de Alcacer, dos
heroismos dos Açores, dos sessenta annos de esforços vãos contra a
pobreza amparado pela honra do nome portuguez, e por fim... morrer alli,
ás sopas de estranhos, porque D. João IV lhe dissera:
«Morre de fome, que eu não vou tirar os teus bens aos filhos dos que
venderam a patria!»
[10] Assim subscreve a approvação do testamento de D. Antonio, e
assigna uma carta a Philippe II que ao diante se lerá.
[11] _Historia de Portugal..._ t. II, pag. 602. D. Antonio nomeou
Scipião de Figueiredo conde de S. Sebastião--accessorio que nenhum
escriptor menciona, senão Caramuel (_Philippus Prudens_, pag. 302),
que tratou com singular benevolencia os partidarios de D. Antonio,
por entender que nenhum contrapeso faziam na balança em que Philippe
III, em 1689, no ultimo anno do seu reinado, mandava pesar os seus
direitos.
[12] A carta e resposta de Scipião de Figueiredo possuimol-as na
collecção de _Ineditos_ de D. Manoel Caetano de Sousa. Nos
historiadores apenas encontramos noticia perfunctoria de haver sido
tentado o suborno do governador pelo principe de Eboly.
Estas cartas foram impressas em uma apologia de D. Antonio, escripta
por Scipião de Figueiredo contra D. João de Castro. Na duvida em que
estão os bibliophilos sobre a authoridade d'essa apologia decide
João Caramuel no seu _Philippus Prudens_, etc. pag. 171 e 172, na
lista dos authores que escreveram a favor de D. Antonio: _Cyprianus
de Fuigueredo... sed Scipio... publicavit Epistolam, quã notas facit
Philippo II, caussas quibus movebatur ut individuus comes non
desereret ipsum Antonium, cui ab annis pluribus in honor e maximo
servievat. Édidit etiam Apologiam pro Antonio contra D. Joannem de
Castro, olim ex Antonianis, etc._
O titulo do livro que o cisterciense Caramuel denomina «apologia» é
_Reposta que os tres estados do reino de Portugal, a saber Nobreza,
Clero e Povo, mandaram a D. João de Castro, sobre um discurso que
lhes dirigiu sobre a vida e apparecimento d'el-rei D. Sebastião_ (s.
l.), 1603, 8.º Diz o snr. Innocencio que entre pag. 75-80 está a
carta que este dirigiu a Philippe II. Não sei se alli se encontra a
carta que Philippe lhe enviou por Gaspar Homem. Este livro é um dos
rarissimos da livraria portugueza.
[13] _Historia de Portugal_, l. c.
[14] _Histoire secrete de Dom Antoine roy de Portugal_, pag. 101.
[15] Veja tom. II das _Provas da Historia genealogica da real casa
portugueza_, pag. 537 e seg.
[16] Veja a _Lettre du roy Henry III au duc de Mercueur_ (sic) a
pag. 120 da _Histoire secrete de Dom Antoine_, por mad. de
Sainctonge.
[17] Diversifica da primeira importancia da pedra a outra menor que
lhe dá a escriptora franceza. Mr. Edouard Fournier extrahiu a
noticia das _Memoires de l'Estoile_ por Lenglet Dufresnoy. Veja _Un
prétendant portugais au XVIme siecle_, par Edouard Fournier. Paris,
1852.
[18] Parece que D. Antonio já em Londres, no anno de 1582, empenhára
ou vendera um brilhante de mais quilates. No _Museu Britannico,
Bibliot. Cottoniana_, fol. 295. Nero, B. I. ha um diamante que o S.
F. F. de la Figanière descreve assim:
«Carta, em inglez, do proprio punho de lord Burghley, dirigida á
rainha Isabel, na qual, em conformidade das ordens que lhe haviam
sido transmittidas pelo conde de Leicester, dá a sua opinião sobre o
destino que deveria ter o grande diamante de D. Antonio (prior do
Crato), o qual estava em poder do mesmo conde, como penhor pelo
dinheiro emprestado a D. Antonio por certos negociantes inglezes,
que instavam muito pelos seus creditos, julgando lord Burghley, que,
em attenção ao seu grande valor, seria conveniente que a rainha
embolsasse os ditos negociantes, ficando com o diamante como penhor
da quantia emprestada, etc. Esta carta tem apenas indicado o anno de
1582. Consta de uma pagina. Lord Burghley pede desculpa da carta que
envia á rainha por soffrer muito da perna, e haver-se-lhe exigido
resposta immediata. Com effeito parece antes um borrão do que uma
carta que se dirigia a uma soberana.»
A venda do outro diamante em Paris é posterior alguns annos.
[19] Em um dos proximos numeros darei noticia laboriosamente
averiguada dos descendentes de D. Antonio.
[20] _Obra cit._, pag. 234 e seg.
[21] A pag. 182 e seg. do romance intitulado _Olho de vidro_ vem
integralmente publicada a sentença da inquisição. Nos _Manuscriptos
addicionaes_ do Museu Britannico, n.º 15:170, fl. 243 v. ha um
soneto de Manoel Fernandes Villa-Real escripto no carcere do santo
officio. (Figanière, _Catalogo_, pag. 284).
O NARIZ
Na poesia moderna tem adquirido bastante importancia o nariz.
E, posto que a época vá muito de idealismo, repara-se mais nas ventas
que nas faculdades moraes dos personagens epicos.
É certo que o nariz tem servido para formar maximas e aphorismos no
regimen social, na sciencia chamada _ethica_--sciencia de que ninguem
falla desde que a educação da mocidade passou a _tisica_ com apparencias
de _hydropica_.
Tudo esdruxulo.
Do nariz inferiram os observadores certos signaes de qualidades do
espirito, e formaram anexins e regras que ainda vigoram, e já vem dos
gregos, os quaes tambem tiveram nariz--(_nira_), por anagramma _nari_.
Em portuguez, ha muito proloquio sobre nariz e ventas.
Camões, querendo indicar a alegria na rubidez de um nariz a reçumar bom
sangue agitado pelo jubilo, cantou em termos altos:
Tem vermelho o sangue do nariz.
«Ter cabellos na venta».
«Dar com as ventas n'um sedeiro».
«Não ver um palmo adiante do nariz».
Conhecem tudo isto.
«Nariz de cêra»--a musa dos tribunos, a inspiração dos prégadores, a
rhetorica dos romancistas.
«Senhor do seu nariz». Nem sempre. Ás vezes os poetas fazem-nol-o
propriedade sua.
«Nariz de palmo e meio»--imagem que exprime a embaçadella--ou, á
franceza--o desapontamento. Exemplo: o leitor, no fim d'este bonito
trabalho.
«Chegar-lhe a mostarda ao nariz», etc.
O cão tambem collabora nasalmente n'estas analogias: «É sebo em nariz de
cão».
* * * * *
Em cima, disse eu que o nariz tem adquirido bastante importancia na
poesia moderna.
Justifica-me um brilhante livro, que está no coronal das modernas
publicações.
É _A morte de D. João_, do snr. Guerra Junqueiro, uma verdadeira flôr
entre os espinheiros da nossa charneca litteraria.
D. João VIII, em sonho, os phantasmas das mulheres que desgraçára. Algumas
_... que foram lirios juvenis,
Já carcomidas pelas larvas frias,
Caminhavam sem olhos, sem nariz._
Reduzido a miseravel histrião e cornaca de ursos e dromedarios, D. João
_Possuia um nariz vermelho, incendiado._
Não era de certo o nariz vermelho, acceso pelo jubilo, de que falla o
Camões.
Mais abaixo, o mesmo D. João, no deplorativo dizer do snr. Guerra
Junqueiro,
_Cheirava muito a alho
E tinha no nariz verrugas biliosas._
Elle mesmo, o escalavrado amante de Imperia, exclama:
_Tornou-se-me o nariz esqualido purpureo
Por causa das paixões e do ultra-romantismo._
Faz pena o diabo do homem!
E, para fecho de desgraça, quando está nas ultimas,
_O seu nariz purpureo
É uma esponja de carne a distillar mercurio._
Por onde se vê que a poesia moderna tira grande partido do nariz, já
cortando-o, já alongando-o, umas vezes enverrugando-o, outras vezes
esponjando mercurio d'elle, consoante lhe convém.
Não é completamente novo isto.
Em Portugal houve sempre esta mania de fazer litteratura nas ventas das
pessoas dotadas d'esse orgão com saliencias extraordinarias.
No fim do seculo XVII, galhardeavam grandemente os poetas n'esse genero.
Eu, entre os meus papeis, tenho um poema consagrado a um nariz, em que
não havia verrugas nem azougue; mas sim uma grandeza magestosa e limpa.
Veja o leitor se acha graça a isto:
A UM NARIZ GRANDE
Tratava de encarecer-vos;
porém logo (ó caso estranho!)
vos achei, nariz, tamanho,
que não pude comprehender-vos.
Que sois nariz tão fatal,
em ser comprido, e ser grosso,
que n'um reconcavo vosso
se escondeu um arraial.
Alguem vos chama infinito;
mas eu, que em razão me fundo,
as quatro partes do mundo
sei que são vosso districto.
Pareceis cá baluarte
dos chinas, bem que o venceis,
e com Deus vos pareceis,
porque estaes em toda a parte.
E um velho da Saxonia
diz vos viu mui grande espaço
servir, nariz, de compasso
da torre de Babylonia.
Mas affirma quem se humana
mais nas vossas maravilhas,
que tendes as trinta milhas
da ponte do Guadiana.
Que sejaes, senhor nariz
tão comprido e tão fatal,
que já cá de Portugal
cheiraes na Arabia Feliz.
Que sois o farol do Egypto
que toma de mar a mar,
se se póde comparar
finito com infinito.
E jurou certo moderno
(não diga elle algum desmancho)
que podeis servir de gancho
que tire as almas do inferno.
E que, se nos horisontes,
nariz, vós nascereis d'antes,
escusaram os gigantes
de pôr montes sobre montes.
Bem podeis, senhor nariz,
estar onde mais quizerdes;
mas, se ao sol vos pozerdes,
fareis logo ser sol-criz.
A vós, nariz, o gran monte
do Parnaso se assemelha;
pareceis arco da velha
que toma todo o horisonte.
E dizem quatro juizes,
segundo a sentença diz,
que tiram de vós, nariz,
a massa dos mais narizes.
Inda que estar queiraes só,
vos verão, em que vos pez,
que tamanho Deus vos fez
como a escada de Jacob.
E assenta certo moderno,
no que acerta, quanto a mim,
que sois sem principio e fim,
e que sois, nariz, eterno.
Ao arraial do Maluco
daes n'uma venta estalagem;
e podereis dar passagem
de Lisboa a Pernambuco.
Para que el-rei se desvela?
Se el-rei quer estar seguro,
ponha-vos, nariz, por muro
entre este reino, e Castella.
A vós só, nariz, se deu
pena eterna, e gosto eterno;
que tendes posto no inferno
um pedaço, outro no céo.
Ha no mundo narigote,
ha nariz, e narigão,
houve nariz de Sansão,
e nariz de D. Quixote.
Sois nariz archi-potente,
porque só vós assombraes
do Occidente, onde estaes,
os narizes do Oriente.
D'onde, nariz, presumi
chamar-vos gran narigão;
porque sei que ha ahi gran Cão,
que ha gran turco, e gran Sophi.
Se não se póde alcançar
nunca a medida do mundo,
nem nunca ao mar se achou fundo,
vós, nariz, sois mundo e mar.
Parece, quando espirraes,
(cousa para o mundo nova!)
Eolo que sahe da cova
com todos os ventos mais.
Eras bom n'uma fronteira;
que d'essas ventas o vento
é pelouro mais violento,
que de bombarda, e roqueira.
Outros, encontrando a fé,
dizem atrevidamente
que em vós se salvou mais gente
que na arca de Noé.
E em fim sois, porque conclua,
nariz tão mal ensinado,
que vos viram cavalgado
então nos cornos da lua.
Do sol dizem que enfiava;
da lua, que então gemia;
e do céo, que estremecia
co'o peso que sustentava.
Sois mór que a serra da Estrella;
porque eu vi por uma venta
vossa, na maior tormenta,
passar um navio á vela.
Esse rosto deshumano
onde pôr-vos o céo quiz,
chama-se cento-nariz,
como o outro centimano.
E de quem n'elle vos pôz
saber me dera gran gosto,
se andaes vós, nariz, no rosto,
ou se o rosto anda em vós.
Bem que o rosto é cousa rara
de maneira que só diz
tal cara com tal nariz
e tal nariz com tal cara.
Da limpeza foreis centro,
se vós deixareis entrar
cem mil homens, a limpar
as furnas, que lá vão dentro.
Mas ser sujo não me espanto;
pois jámais vos assoastes,
nariz, porque não achastes,
linho que abrangesse a tanto.
Para a India uma nau ia,
eis que um peixe se levanta
no mar, de grandeza tanta,
que a nau á vela cobria.
Eram tudo paroxismos
na nau, tudo estremecer,
quando lhe mandam fazer
por um padre os exorcismos.
Mandou-lhe n'este comenos
o bom padre, que a nau deixe,
e o que criam que era peixe,
era o demo, quando menos.
Entrou-me no pensamento
mandar-vos exorcismar,
sómente por alcançar
se sois nariz, se portento.
Que nariz não pareceis;
e, pelo rosto em que estaes,
a nariz assemelhaes,
e no rosto não cabeis.
Salvo, nariz, se sois tal,
e de tão má condição,
que ides comer ao Japão,
e purgaes em Portugal.
_Etc. etc._
Posto isto, em quanto o leitor boceja nos preliminares de um agradavel
somno, apresso-me a dizer-lhe que não está no meu animo detrahir nem
menoscabar a seita poetica, a hoste da Idéa Nova em que o snr. Guerra é
o alferes da bandeira. Gosto do nariz de D. João; e, quanto ás verrugas
biliosas e á distillação de _licôr de Van-Swieten_, prefiro estes
narizes pôdres das pessoas afflictas aos narizes de cêra dos litteratos.
JOÃO BAPTISTA GOMES
Conhecem perfeitamente o famoso author da _Nova Castro_.
Seria opprobrio desconhecerem o poeta portuense, honrado na Allemanha ha
trinta annos, desde que Alexandre Wittich traduziu a tragedia de Ignez.
João Baptista Gomes, filho de outro de igual nome e appellido, foi
guarda-livros no Porto. Casou com uma formosa menina, D. Anna Benedicta
Gomes. Morreu na flôr da idade em 20 de dezembro de 1803. Nos braços da
sua viuva--que contava vinte e quatro annos--deixou uma menina, D.
Thereza Benedicta que veio a ser esposa do dr. José Machado de Abreu,
que morreu barão de S. Thiago de Lordello.
A viuva do poeta felleceu em 1844, aos sessenta e seis annos de idade. A
bisneta do author da _Nova Castro_, D. Maria Ismenia de Abreu, ainda
vive, casada com o snr. Guilherme Francisco de Almeida e Silva, coronel
de cavallaria. O dr. José Machado de Abreu, reitor da universidade e
barão de S. Thiago de Lordello, contrahiu segundas nupcias. A exc.ma
baroneza, que enviuvou na flôr dos annos, casou com o snr. conselheiro
Adriano de Abreu Cardoso Machado, tão notavelmente respeitado nas boas
letras, como na politica militante, á qual não chamo tambem _boa_, para
me forrar a contendas com os que militam na politica diversa.
João Baptista Gomes, ainda em fevereiro do anno em que morreu, levado de
generosa inspiração, escreveu um _Elogio aos cidadãos do Porto_,
concorrentes a um beneficio destinado a suavisar a desgraça dos presos.
Foi o Elogio recitado no real theatro do Principe na noite de 16 de
fevereiro de 1803. Esta poesia inedita não é talvez a unica reliquia
desconhecida d'aquella forte, dado que inculta intelligencia, da qual
Garrett escreveu: _Atalhou-o a morte em tão illustre carreira, e deixou
orphão o theatro portuguez, que de tamanho talento esperava reforma e
abastança._ Por ventura, no espolio de sua viuva, se encontrariam as
paginas soltas da historia dos seus reciprocos amores, e, talvez, as
fatidicas tristezas da morte que empeceu ao desabotoar das vergonteas
d'aquella poderosa phantasia. Como quer que seja, desde que João
Baptista Gomes se extinguiu, raras vezes as honras posthumas lhe
enverdeceram a gloria na lembrança dos vivos, nem alguem se lembrou de
lhe estremar os ossos sepultados na igreja de S. Francisco.
No _Elogio_ aos portuenses, ha versos de profundo sentimento, de elevado
conceito, e dos mais condimentados com as especies arcadicas d'aquelle
tempo.
Queiram-lhe bem os portuenses ao seu poeta, e inscrevam mais este nome
no numero dos que, depois de cantarem duas ou tres primaveras, quebraram
a lyra na pedra do sepulcro. Que mysterio haverá n'esta ceifa da morte,
n'este golfão que tantos cerebros grandes e ardentes dissolve na leiva
dos cemiterios?--Coelho Lousada, Evaristo Basto, Soares de Passos,
Arnaldo Gama, Ernesto Pinto de Almeida, Guilherme Gomes Coelho, e ainda
hontem o maximo entre os melhores, Guilherme Braga!...
* * * * *
João Baptista Gomes, dez mezes antes de se arrancar não sei se ás
alegrias, se ás amarguras da existencia, pedia esmola para os
encarcerados, e deixava aos seus portuenses talvez os derradeiros sons
da sua harpa.
Dizia assim:
Louvores á virtude aos céos aprazem:
Nas aras da verdade puro incenso
Respeitosa tribute a humanidade
A quem da humanidade os males pungem,
A quem aos males da indigencia acode;
Com piedosa mão, mão generosa,
Da macilenta face ao desgraçado
O pranto enxuga, que a penuria arranca.
Sensiveis cidadãos, porção mimosa,
D'alta prole de Luso esmalte, e gloria,
Meus hymnos relevai, que aos vates cumpre
Honrar a quem dá honra á especie humana:
Beneficas acções, que almas transportam,
Por desafogo d'alma applausos pedem.
Na sinuosa habitação do crime,
Nas pavorosas, lobregas masmorras,
Onde fome, e nudez (oh dôr!) outrora,
As miserandas victimas ralavam;
Onde o estridor horrisono dos ferros,
D'imprecações, de pragas, de blasphemias
Era, não sem razão, acompanhado;
Alli onde animados esqueletos
Bradavam pelo jus, que á vida tinham,
Em quanto justo oraculo de Themis
Castigo aos crimes seus não arbitrava;
E os descarnados braços, d'entre os ferros
Famintos estendendo as mãos escassas,
Com lamentosa voz, parco alimento,
Quasi desfallecendo em vão pediam;
Alli, onde impio throno a morte alçára,
Tem agora seu throno a humanidade.
Amavel, divinal beneficencia,
Dos céos emanação, innata ao homem,
Lei filha da razão, que a natureza
Indelevel gravou no peito humano!
Só tu fazes heroes, só tu distingues
Os entes racionaes das brutas feras.
Cobraste, ó natureza, os teus direitos,
Desaffrontada estás. Exulta, ó patria!
Na estancia destinada ao crime, á infamia,
Inconcusso padrão teus beneficios
Fabricado já tem á gloria tua.
Os carceres contempla, e goza o fructo
Das acções, que praticas generosa,
Em louvores trocadas as blasphemias;
Co'a justiça abraçada a humanidade;
Abundancia frugal alenta os tristes,
Que inerte esquecimento abandonára
Nas garras da penuria, e dos flagicios:
Como se não bastasse aos desgraçados
Do crime o peso, o peso dos remorsos,
Da justa punição a idéa horrivel!
Quem ha que delinquente ser não possa?
E ha de auxilio negar-se aos delinquentes?
Os culpados não deixam de ser homens:
E á compaixão dos homens tem direito,
Compaixão, não esteril, prestadia.
A bem da humanidade taes dictames
Leu em seu coração heroe prestante;
De honrosa instituição motor ditoso,
Com seu sopro accendeu piedoso incendio
Em corações dispostos á piedade:
Liberaes á porfia generosos,
Sobeja caridade exercem todos.
Oh dadiva do céo! alma sublime,
Que recto, imparcial punindo os crimes
Pranteias compassivo os criminosos,
E ao culpado infeliz auxilio prestas,
Aligeiras seu mal, a mão lhe estendes,
Que invergavel d'Astrea a vara empunha,
Illustre... Mas que faço? o teu preceito,
Tua nobre modestia me prohibe
Teu nome proferir porém debalde:
Mesmo entre ferros o profere o afflicto,
Que de lisonja vil não é suspeito;
Perenne gratidão aos astros manda
O nome teu, que impresso em nossos peitos,
Transmittido será de paes a filhos!...
Mais quizera dizer, dissera pouco
Por muito, e muito, que dizer podesse:
Custa ao vate conter d'alma os transportes:
Mas silencio m'impões, silencio guardo.
AUTO DA FÉ... A RIR
O meu benevolente mestre e amigo, o snr. Innocencio Francisco da Silva,
alludindo ao que se escreveu no n.º 10 das _Noites de insomnia_, a
respeito do infeliz e talentoso José Anastacio da Cunha, diz-me o
seguinte: _A proposito, occorreu-me offerecer-lhe o papel junto, copia
de outro que possuo ha bons quarenta annos. É uma noticia assás
circumstanciada e divertida do auto da fé, em que sahiram penitenciados
o mallogrado professor da universidade e seus companheiros. Se acaso v.
entender que a narrativa agradará a alguns leitores das NOITES, póde
dar-lhe ahi as honras da publicidade, etc._
Segue o curioso papel que, a meu vêr, é a photographia das cousas e das
pessoas d'aquelle tempo, avultando á primeira luz do painel o cardeal da
Cunha, inquisidor geral:
Noticia presencial do auto da fé a que presidiu o cardeal da Cunha em
11 de outubro de 1778.