obrigação d'esse cardeal inquisidor geral, que na vespera do auto da fé,
em que sahiu José Anastacio com os outros seus companheiros, veio a
nossa casa e recommendou a meu pai, que ao outro dia, _para boa doutrina
e exemplo_, mandasse seu filho assistir a esse acto de religião: «_venha
o rapaz_ (disse o tonto); _venha cedo; que almoçará commigo, e depois
tambem lhe darei de jantar_.» Assim m'o encommendou o meu velho, quando
n'esse dia me recolhi a casa, e não tive eu mais remedio senão
apresentar-me ao outro dia na casa triste, aonde cheguei a tempo de vêr
levantar-se da cama o alarve do inquisidor, que enceroulou os seus
calções largos, e esfregando os olhos, bocejando, e fazendo cruzes na
bocca, me levou para a mesa do almoço, que nos foi servido de café com
leite e as torradas competentes. D'ahi abalamos para a capella da
inquisição, aonde foi a minha boa fortuna o ficar assentado junto a um
frade de S. Domingos, homem com menos de meia idade, mas de juizo
inteiro, segundo o mostrou no discreto e gracioso motejo, que fez de
quanto se passou n'aquella santa e religiosa feira da ladra. Tivemos
missa inteira, e depois tivemos sermão, que bem fôra o ter sido partido
por todos os dias do anno, por o muito que nos enfadou com um sem numero
de sandices o prégador. Quando as este vasava do sagrado almofariz, não
escapavam ellas ao meu visinho, que para mim se voltava, dizendo
admirado: «_arre! e como é eloquente o prégador!_» E tambem, quando ao
lêr da sentença, os réos, segundo o chavão e formulario do santo
officio, foram alcunhados de deistas, atheistas, herejes, scismaticos,
etc., o bom do meu visinho, pondo os olhos no céo com grande compunção,
dizia: «_Jesus Maria! Que gente tão ruim!... Atheistas e deistas ao
mesmo tempo!... E ainda com mais o trambolho de herejes e
scismaticos!... Valha-nos Deus com tantos peccados!_» Todavia, a
gravidade e recolhimento discreto desamparou a esse bom frade, assim
como a maior parte da companhia, quando se leu a sentença, havendo por
intervallos uma assuada geral de gargalhadas, rompida por os fidalgos,
que assistiam de familiares. Quem não havia rir? Entre os cargos, que se
faziam aos réos, entrava o de que nos dias d'abstinencia deitavam postas
de vacca em baldes d'agua, d'onde tiravam a carne com um gancho, e a
chamavam _pescada_, que mandavam guisar para o jantar! Entre os mais
graves capitulos era o que se fazia ao réo João Manoel d'Abreu, o qual,
perguntado--qual tinha por mais violento, o fogo do inferno ou o do
purgatorio? Respondeu: _O do purgatorio._ E instado por a razão de o
julgar assim, tornou a responder: _porque o do purgatorio, além de
queimar as almas, tem a força de aguentar as panellas de tantos mil
frades e clerigos, que d'ahi vivem._ Sonora gargalhada, que retumbou por
toda a capella, com grande escandalo dos padres tristes.
José Anastacio, com todos os mais penitenciados, tinham velas de cêra
amarella nas mãos[22]; estavam todos com o semblante carregado
e melancolico, senão o major de artilheria de Valença, que se estava
sorrindo; e, acontecendo pôr os olhos nos d'um conhecido seu, logo lhe
fez uma cortezia com o brandão de cêra, por o modo, que o faria com a
espada, se estivesse mandando uma parada. Emfim, acabou-se a farça;
sahiram d'ahi os penitenciados para os lugares de suas reclusões, e nós
para o abundante jantar, que nos deu o cardeal. Quando assentados á
mesa, voltou-se elle para mim, e começou a me admoestar por esta
maneira: _Então, snr. V... viu vm.ce a piedade e misericordia da santa
inquisição? Veja como deu castigo brando a tamanhas culpas! Porém, isso
foi por a primeira vez; que se tornarem a delinquir, não hão de ficar
assim._ A isto respondi eu--que me parecia deviam os penitenciados ser
mais d'uma vez perdoados; porque, perguntando Pedro a seu divino Mestre,
quantas vezes se havia perdoar ao peccador; se deveria ser até sete
vezes, Christo lhe respondera: _não só sete vezes, mas sete vezes
setenta; pelo que_ (continuei eu) _multiplique v. exc.ª sete por
setenta, ou 70 por 7, e achará a conta de 490 vezes, que se deve perdoar
ao peccador, e d'ahi se a inquisição quizer seguir a doutrina da
Escriptura, ainda aos que foram agora penitenciados se deve 489 vezes o
perdão_. A este tempo estava um dominicano, frei José da Rocha, grande
valido do cardeal, por traz d'elle, fazendo-me signaes para que não
continuasse o discurso; e para esse frade, como para arbitro e
qualificador, se voltou o cardeal: _hui! oh frei José! Aquillo que diz
este rapaz vem lá na Escriptura?_ Depois d'algum empacho, respondeu o
frade: _Isso lá vem por algum modo, como v. exc.ª sabe melhor do que eu;
mas, para que é agora acarretar a Escriptura para o jantar? O que se
agora ha mister é refeição corporal, e não espiritual._ Ficou com a
decisão um pouco turvado o cardeal, mas logo, dando maior pinote, poz
termo á questão dizendo: _Pois se isso vem lá na Escriptura, nós cá é
outra cousa._ E como isto disse, foi entrando pela sopa.»
[22] A côr amarella é de reprovação, e a usavam os inquisidores nas
velas e sambenitos dos penitenciados, talvez por ser d'essa côr a
tunica, que sempre em todas as pinturas se dá a Judas traidor, assim
como n'ellas a S. João sempre se deu a tunica verde. D'ahi vem
talvez a côr das fitas e capellos na faculdade de medicina, a qual
era antigamente a menos nobre das faculdades em a nossa
universidade, e por isso seguida, por a mór parte dos que o povo
infamava com o titulo de _christãos-novos_. Todavia, já nós
conhecemos época, em que a côr amarella andou mais em moda, que a de
purpura, e foi em França, legisladora de modas e vestidos; pois
quando ahi nasceu por 1811 ou 1812 um filho a Bonaparte, foi tão
geral em todos a alegria, que para solemnisar tão feliz
acontecimento, todas as senhoras trajavam de côr do excremento do
menino. Oh francezes!...
FIM DO 11.º NUMERO