Figueiredo: casou com D. Antonia Fernandes de Vasconcellos, filha do
bispo de Lamego, D. Fernando de Menezes, que morreu arcebispo de Lisboa,
e dotou a filha com o prazo de Velloso, doação riquissima em direitos
reaes.
Teve cinco filhos o genro do bispo. O primogenito, Duardos de
Figueiredo, era representado em 1716 por Nicolau de Tovar e
Vasconcellos, sargento-mór de batalha. O segundo, Scipião, doutorou-se
em direito canonico imperial, e foi mandado governar a ilha Terceira,
não por D. Antonio, como diz o historiador Rebello da Silva[11], mas por
D. Sebastião, como diz o proprio prior do Crato na carta latina ao papa
Gregorio XIII, em 1583. Teve um filho illegitimo, que se chamou
Constantino. O prior do Crato inscreve-o no rol dos amigos que o
seguiram no desterro. Ignoro o destino do filho de Scipião. Os outros
irmãos do governador da Terceira chamaram-se Ruy, que ficou no reino bem
aconchavado com os Philippes; D. Brites, que casou com um Ribeiro
Soares; e Sebastião, de quem darei ampla noticia, avô de mad. de
Sainctonge, ou Sainct'Onge, como se escreve modernamente.
A porção mais estafadora d'este escripto conclue aqui.
* * * * *
Quando chegou á Terceira a noticia da acclamação do prior do Crato,
Scipião proclamou-o rei, sem lhe discutir a illegitimidade.
Era portuguez D. Antonio? Era. Logo era legitimo como D. João I, o filho
de Thereza Lourenço.
Rei castelhano é que elle não queria. Morrer na defeza da sepultura não
pisada pelo sapato ferrado do hespanhol--cahir em terra ensanguentada,
mas portugueza--valia tanto como um triumpho para o faccionario do filho
da Pelicana.
A onça de Castella afrontára o leão na sua caverna. Elle surgiu fóra, e
espedaçou-a. A ilha Terceira era inexpugnavel com tal caudilho na
vanguarda de alguns bravos fanatisados pelo heroismo de seu chefe, e
talvez atemorisados pelo terror das suas cruezas com os partidarios de
Hespanha.
Philippe II, em outubro de 1581, mezes depois que D. Pedro Valdez
voltára derrotado dos Açores, tentou pela segunda vez a fidelidade de
Scipião de Figueiredo, enviando de Lisboa á ilha Terceira Gaspar Homem
com uma carta de seu proprio punho. Na brandura das insidiosas
expressões, reçumbra o aviltamento a que descia o parricida castelhano
para haver á mão o unico baluarte de D. Antonio. Calcule-se com que
rancoroso disfarce Philippe II não offereceria perdão e mercês ao
indomito governador, que apenas lhe deixára vivos cincoenta soldados, e
nem um só dos officiaes aguerridos como D. Diogo Valdez e D. Luiz de Baçan.
Dizia assim a carta de Philippe[12]:
_Doutor Scipião de Figueiredo, eu el-rei vos envio saudar. Não podendo
deixar de crêr de vós que cumprireis com a obrigação que tendes a meu
serviço, e ao bem d'essa ilha, e ao que particularmente vos toca, me
parece encommendar-vos isto mesmo que de vós confio, que fazendo-vos
assim como é de crêr, não sómente vos perdôo as culpas passadas, mas que
folgarei de vos fazer mercê quanto serviço que de vós n'isto espero,
para que se escusem os grandes damnos d'essa ilha, e dos moradores
d'ella, e seu povo; indo sobre ella o apercebimento que tenho mandado
fazer de gente, navios e munições, como tudo largamente vos dirá quem
vos esta minha carta dará.--Escripta em Lisboa a 14 de outubro de 1581._
O governador respondeu com alguma intermissão de tempo:
_Vi a carta que V. M. me mandou por Gaspar Homem, na qual me dizeis que
não podeis deixar de crêr de mim que cumprirei com a obrigação que tenho
a vosso serviço, ao bem d'esta ilha, e ao que particularmente me toca.
Prouvera a Deus que tivera V. M. lembrança da em que estaes aos reis de
Portugal, e principalmente ao serenissimo infante D. Luiz, que com seus
vassallos e pessoa sempre em guerras ajudou ao imperador vosso pai;
porque nem as fizereis contra o reino levantado com el-rei D. Antonio
seu filho, offendendo tanto a Deus Nosso Senhor nos estragos de honras,
vidas e fazendas, que causastes no meu, e nem os portuguezes verdadeiros
seus vassallos deixariamos de vos servir como a rei christão, e a quem
sempre amou a nação portugueza, mas como V. M. se esqueceu de tão devida
razão, e da do sangue pelo muito parentesco que tendes com os reis de
Portugal, nem a V. M. lhe cabe querer que eu o sirva, como vassallo, nem
a mim convém obedecer como subdito. Esta ilha, e moradores d'ella são de
el-rei D. Antonio a quem juraram por seu rei e natural senhor, assim
pela successão do reino lhe pertencer, e o povo d'ella o ter eleito,
como por a cidade, e camara de Lisboa isso escrever. As razões e justiça
que para isso havia não posso eu crêr que V. M. não as tenha muitas
vezes passadas pela memoria; e ainda que outras não houvera mais que a
eleição do povo que n'este reino por muitos actos tem direito de nomear
rei (faltando descendentes adquiridos) bastára entrar V. M. n'elle com
mão armada, estando em litigio, para ainda que tivereis muita justiça
perderdes todo o vosso direito; mas em Deus confio que tudo ha de tornar
ao estado, que nem V. M. por occupar o alheio perca sua alma, nem o que
está por ora usurpado deixe de vir ao poder do seu dono. Não me tenha V.
M. por atrevido, mas julgue-me por desinteressado; e prouvera a Deus que
os reis tiveram homens livres, e pouco ambiciosos em seus conselhos;
porque nem el-rei D. Antonio chegára aos termos que o pozeram tamanhas
traições, nem V. M. a perigo de perder o seu, e pôr em risco toda a
christandade. Coitado d'aquelle que ha de dar conta no final juizo das
honras, mortes, fazendas de tantos, da liberdade, e gosto da vida;
porque para quem se perdeu não haverá arrependimento que baste em
satisfação, por se lhe acabar o tempo. Se V. M. bem cuidar na hora da
morte que vos espera, e quantos males n'ella se vos hão de representar,
e as penas que, pelo que tendes em Portugal feito eternamente haveis de
ter, e justamente haveis de padecer, lembrando-vos quão perto estaes de
se vos acabar tudo, ah! como dareis uma volta tão grande ao passado
porque tudo se vos ha então de ser presente! Quanto melhor vos fôra
estar em vossos reinos pacifico, vossos vassallos quietos, amado de
todos os reis christãos, e servido de todos os seus, que com o que
tendes feito em Portugal! não sómente os christãos, mas todas as nações
infieis vos terão intrinseco odio. Cuidai quantos innocentes matastes
com o vosso exercito: cuidai nas honras das viuvas, e donzellas
roubadas, e nos gemidos que ante a divina justiça estão pedindo vingança
de vós. Lembre-vos quantas casadas ao adulterio forçadas são
apostatadas! os templos de Deus que profanaram, as religiosas que
deshonraram, a servidão em que pozestes os moradores de Portugal, e
finalmente tudo o que n'elle causastes que Deus tem tomado á sua conta,
e toma-vol-a com rigorosa justiça; como por um reino que mais que todos
do mundo nobilitou dando-lhe as suas sagradas chagas, com que nos
redimiu, por armas, que foi signal e penhor de nunca o desamparar. As
cousas que padecem os moradores d'esse affligido reino, bastavam para
vos desenganar, que os que estão fóra d'esse pesado jugo quereriam antes
morrer livres, que em paz sujeitos. Nem eu darei aos moradores d'esta
ilha outro conselho, porque não perca minha alma, nem minha honra, que
trocarei quantas vidas tivera, e pudera possuir por morrer leal a meu
rei que jurei, porque um morrer bem é viver perpetuamente; d'aqui me vem
ter mais conta com perseverar até o fim da vida n'esta lealdade, que
temer os vossos apercebimentos de gente, navios, e munições com que V.
M. na sua me ameaça; porque confiando em Deus que peleja por nós, para
os navios está o mar, e portos d'esta ilha apparelhados, para as
munições as fortalezas e trincheiras e muitos poços para metter n'elles
toda gente que nos vier buscar, a quem se não perdoará, pelos males que
resultam de perdões. Não me ponha V. M. culpa, por que jurei a D.
Antonio por meu rei e senhor, e de defender esta corôa; que tambem
fizera o mesmo por vós se vos tivera jurado (posto que não com tanto
gosto) porque basta ser rei portuguez: e, se a desventura me chegasse a
estado que ficasse com vida sujeito, e, por fazer o que devo, me
mandassem matar, perdendo a vida pelo senhor rei D. Antonio, então a
ganhava, e tambem não perderia a memoria de minha lealdade, nem se
perderia a fama da vossa crueza, e sem justiça. Eu não sirvo a el-rei D.
Antonio por interesse (posto que d'elle se podiam esperar maiores mercês
que de nenhum outro rei) mas sirvo com a pureza de minha obrigação de
que resulta não me moverem mercês promettidas, que foi o laço em que
cahiu Portugal; porque fóra do que devo nenhuma cousa me poderá mover a
troco de vender a honra, e lealdade que não tem preço nem ha nenhum que
eu tanto estime; lição que a muitos fidalgos esqueceu. Nosso Senhor leve
a V. M. para o seu reino e restitua o de Portugal ao seu amado rei o
snr. D. Antonio como os verdadeiros e leaes portuguezes desejamos._
_D'esta muito nobre, e sempre leal cidade de Angra, ilha Terceira de
Jesus Christo._
SCIPIÃO DE FIGUEIREDO DE VASCONCELLOS,
governador da ilha dos Açores.
* * * * *
Este lance de patriotismo não impediu que a fidelidade de Scipião fosse
suspeita a D. Antonio, por insinuações de perfidos, se é bem provada a
seguinte pagina de Rebello da Silva:
«Os detractores não descançavam, porém, e a fim de offuscarem o animo do
prior reproduziam as accusações, asseverando que Figueiredo principiava
a vacillar, pintando-o inclinado aos jesuitas, contrafeito na lealdade,
e disposto a restituir a liberdade aos presos politicos. Concluiam, por
fim, que o corregedor se entendia secretamente com os castelhanos. D.
Antonio, se não deu inteiro credito a estas vozes, tambem não cortou,
como devia, os enredos pela raiz, e chamando Cypriano de Figueiredo para
seu lado, feriu nos brios e no conceito o homem que acabava de lhe
conservar a Terceira. Desconfiado e voluvel, facil em esquecer os
serviços, mas lembrado e resentido dos aggravos, justificou mesmo na
desgraça em varios lances a nota de ingrato. Na pequena côrte de
proscriptos, que o rodeava, só Diogo Botelho, alma de todos os
conselhos, viveu exceptuado da desattenção com que feriu os portuguezes,
que tinham sacrificado patria, bens e posição para o seguir. Faltou-lhe
sempre a magnanimidade, realce do infortunio, porque tanto engrandece na
prosperidade, como serve de quilate e de timbre na desgraça aos
caracteres heroicos.
«Abrindo os ouvidos ás queixas contra Figueiredo, e preferindo para o
substituir no governo da ilha a Miguel da Silva, nomeado conde de
Torres-Vedras, o pretensor, punido pela má escolha, praticou uma acção
injusta, e commetteu um grande erro. As honras vãs, de que assim mesmo
se não mostrou prodigo com Cypriano de Figueiredo, na idéa de lhe adoçar
o que havia de cruel e de iniquo n'este golpe, não apagaram de certo no
peito do honrado cavalleiro a nodoa de se vêr immolado á calumnia.
Offendido na lealdade, e quasi injuriado publicamente pelo triumpho
concedido aos adversarios, Figueiredo calou a affronta, e veio encerrar
junto do principe, no desterro, a carreira, que abrira, abraçando uma
causa vencida, e rejeitando as promessas de Philippe II, insinuadas pelo
principe de Eboly[13].»
Descreio que D. Antonio escutasse as intrigas, e afrouxasse na confiança
do seu validissimo amigo. Na carta latina que escreveu a Gregorio XIII,
em 1583, avalia d'esta maneira o defensor da Terceira: «_... entre
outros, está o egregio doutor em direito canonico imperial, integerrimo
governador, em nome de el-rei D. Sebastião nas ilhas Terceiras; do qual,
incorrupto a promessas e lisonjas para que entregasse as praças que lhe
haviam sido confiadas, confiscou-lhe os bens como costuma, apossou-se
d'elles; e, sem embargo este constantissimo fidalgo manteve o povo em
sua fé e promessa e deveres, foi quem primeiro, n'estes nossos tempos,
domou os castelhanos com gloriosa victoria, e grangeou nome de capitão e
fidelissimo governador e tal soldado se mostrou aos inimigos que muito é
reluzam n'elle a um tempo esplendor de letras e grandeza militar_.
Acresce que Scipião de Figueiredo é, juntamente com Diogo Botelho,
testamenteiro de D. Antonio, e mais que todos os seus amigos,
recommendado á gratidão de seus filhos. O testemunho de Sebastião de
Figueiredo, irmão do valente defensor da Terceira, insurge-se tambem
contra a calumnia, nas memorias que sua neta, mad. de Sainctonge
publicou: _Dom Antoine qui croioit qu'il ne donneroit pas peu d'affaire
a Philippe, s'il conservait ses Isles, ne pouvait se lasser de louer le
courage de Scipion; il avait une si forte passion de le voir, qu'il eut
l'imprudence de lui écrire de le venir trouver, pour se rejuir avec lui
de sa victoire, et de laisser le soin de son gouvernement à Manuel da
Silva qu'il lui envoyoit qui etoit une personne de confiance. Voila ce
qui fit croire à ceux qui ne jugent des choses que par les aparances que
Dom Antoine se défioit de lui..._[14].
Se é aceitavel o testemunho dos contemporaneos, alliviemos a memoria do
prior do Crato d'esse imputado crime de ingratidão ao homem que deixou,
na carta a Philippe, o mais energico testemunho de patriotismo,
n'aquella vergonhosa conjunctura em que tantissimos fidalgos chatinaram
a consciencia.
* * * * *
Scipião de Figueiredo assistiu, em 1595, ao trespasse do quasi mendigo
D. Antonio. Pobremente viviam todos os amigos que o rodeavam. A pensão
que Henrique IV lhe esmolava deprehende-se qual seria da mobilia do
prior do Crato, inventariada por sua morte[15]. Essa mesquinha
pensão continuou-a o rei em beneficio dos filhos e amigos de D. Antonio,
consoante a carta, enviada de Lião, a Scipião de Figueiredo:
_Seigneur Scipion de Figueredo, j'ay porté le regret que je devois de la
mort de mon feu cousin le roi de Portugal, pour la perte que j'ay faite
d'un bon amy, et je seray toûjours aussi prompt á faire paraitre á
l'endroit de ses serviteurs, la bonne volonté que je lui portois; comme
j'ay de déplaisir et de compassion de vôtre infortune; j'ay apris par
vos lettres, quil vous a fait executeur de son testament, avec le sieur
de Diogo Botheillo, il ne pouvoit faire un meilleur choix, car je
m'asseure que vous vous acquiterez fidellement de ses dernieres volontez._
_J'écris á ceux de mon conseil des finances, de payer ce qui étoit du de
la pension du dit roy, jusqu'à la fin de la presente année, dans lequel
tems étant sur les lieux, je réglerai et ordenneray ce que je pourray
faire à l'avenir pour mon cousin Dom Christolphe son flls, et auray à
plaisir de gratifier tous ceux de sa famille en ce qui me sera possible,
et vous en particulier, aux occasions qui se presenteront, priant Dieu,
seigneur Scipion de Figueredo, qu'il vous ait en sa sainte et digne garde._
_Ecrit á Lion, le vingt de septembre, mil cinq cent quatre vingt quinze._
Transpira d'esta carta a bonissima alma de Henrique IV a favor de um
principe que tragava as penurias a que não foi estranho o filho de
Joanna d'Albret. Aquelle tempo ainda elle não era marido de Maria de
Medicis, que lhe permittiu contar com o almoço seguro e um gibão sem
remendos. Quem diria que tão nobre e querida alma se iria a Deus, quando
o corpo se estorcia debaixo do punhal de Ravaillac! Menos infeliz e
menos amado, morrêra tranquillamente o proscripto Antonio, graças a
Henrique III que o defendeu do sicario duque de Mercoeur, bisavô da
rainha portugueza Maria Francisca Isabel de Saboya[16].
Scipião despendeu com D. Antonio e seus filhos os bens que adquirira na
governação da ilha Terceira.
Falla-se de um brilhante que o prior do Crato empenhára por quarenta mil
libras, na mão de mr. du Harley Sancy, um dos mais pecuniosos fidalgos
de Paris, de quem depois houve mais sessenta mil libras, por trespasse
completo da joia (proximamente 18:000$000--o producto total do
brilhante). A pedra preciosa era do neto d'el-rei D. Manoel ou de
Scipião? Mad. de Sainctonge refere a passagem de modo que nos persuade
ser do amigo de D. Antonio: _Scipion Vasconcelles de Figueredo avoit
déjà vendu pour lui_ (D. Antonio) _tout ce qu'il avoit apporté de son
gouvernement, et avoit engagé un diamant d'un prix inestimable pour
quarente mille livres, à Monsieur de Sensy qui étoit si honnête-homme
qu'il lui donna encore vingt-mille écus voyant qu'il n'etoit pas en état
de le retirer_. Parece dizer que o proprietario do diamante era Scipião
de Figueiredo[17]. Esta pedra, considerada quanto aos quilates, o oitavo
diamante conhecido, foi depois empenhada por du Sancy, em Metz. Um
hebreu d'aquella cidade emprestou dinheiro para pagar aos suissos de
Henrique III, revolucionados por falta de pagamento. O proprio du Sancy
cahiu em apuros, por 1605, e vendeu a pedra a Sully que a comprou por
150:000 escudos em nome do rei. Não sei que mãos percorreu o diamante.
Em 1870 foi vendido em Calcutta, por ordem da princeza Demidoff,
originaria da Russia, e aparentada com a familia Bonaparte[18].
* * * * *
Em 1586, tinha Scipião comsigo em Paris um irmão de vinte e cinco annos,
lá conhecido por D. Gomes de Vasconcellos, que por alli se andava
estadeando a sua pobreza e inutilidade. Pediu Scipião a Catharina de
Medicis que lhe empregasse o irmão no exercito do marechal de Brissac. A
rainha-mãi escreveu a favor de _Sebastião de Gomes_ a affectuosa carta
que sua neta publica a pag. 162 da _Histoire secrete_, etc.
Poucos mais vestigios restam de Scipião de Figueiredo até 1601. N'este
anno Maria de Medicis recommenda-o encarecidamente ao gran-duque de
Toscana, por carta escripta de Lion, em 10 de janeiro. Ahi lhe expõe que
o seu protegido vai a Italia _pour aucunes siennes affaires_. Não é
possivel rastrear os negocios particulares de Scipião em Italia. O
pretendente era já morto desde 26 de agosto de 1595. Póde ser que o
testamenteiro de D. Antonio ainda conspirasse a favor dos filhos.
Não sei se se demorou muito em Italia. Sabe-se que, na volta, foi morar
nos arrabaldes de Paris em uma aldeia chamada _Les Fontaines_, perto de
Lagny, d'onde ia a miudo visitar o filho de seu defunto amo, D.
Christovam de Portugal, que vivia em Paris bastante descuidado dos seus
interesses e honra[19]. Poucos annos viveu em _Les Fontaines_
soccorrendo os portuguezes expatriados com a pensão que lhe dava o rei.
Ahi morreu, depois de 1606, e foi sepultado no proximo mosteiro dos
Agostinhos. O rei continuou a dar a pensão aos commensaes de Scipião,
reservando em beneficio de D. Gomes seiscentas libras annuaes, uns
110$000 reis pouco mais ou menos.
Ora este D. Gomes tem sua historia, longa e arrastada, porque morreu em
idade de noventa e sete annos, reinando já em Portugal D. João IV.
Se o leitor póde esforçar a sua paciencia, e dar-me relevante prova de
que os estudos serios, grossos e profundos lhe são agradaveis, leia até
ao fim o que eu lhe vou contar, muito pela rama, do irmão do heroe da
Terceira.
* * * * *
D. Gomes, soldado valoroso e aventureiro, que expunha a vida na
perspectiva da morte ou da fortuna, sahiu de uma das suas batalhas com
uma perna quebrada e o rosto desfigurado por um gilvaz que lhe
esbrucinára parte do nariz.
Quando se levantou curado das feridas, e se viu no espelho,
trespassou-se-lhe a alma de tamanha paixão que esteve nos colmilhos da
morte. _Il pensa mourir de chagrin de se voir si different de ce qu'il
avoit été_--diz sua neta mad. de Sainctonge.
A fealdade pungia-o tanto quanto elle era caroavel de damas, galanteador
bemquisto, e famoso no bom successo das suas empresas amorosas.
Como allivio de seus males, alistou-se de novo na milicia de Luiz XIII.
Affrontou a morte com desesperado menospreço de si mesmo, e vingou
apenas ajuntar novas cicatrizes á gloria das outras, que o não
resguardaram da pobreza nos tristes dias de nonagenario.
Voltando a Paris, foi acolhido por D. Christovão, filho do defunto prior
do Crato, que o estimava em extremo.
Quando orçava pelos sessenta annos, Sebastião Gomes de Figueiredo, que
tinha a maior no coração o que lhe minguava no nariz--orgão importante
da cara humana, segundo a opinião do diccionarista Couto
Guerreiro--apaixonou-se por uma menina parisiense, formosa, illustre e
pobre, com a sobrecarga de espirituosa.
E casaram--o que foi mau; e tiveram tres filhos--que foi peor.
Dous morreram; a mãi tambem morreu aos dezoito annos de casada,
deixando-lhe uma galante menina de quartorze annos, conhecida na boa
sociedade por mademoiselle de Vasconcellos.
D. Gomes era pobre, e o futuro da filha torturava-lhe o coração
paternal. A estas penas acresceu a da morte do seu amigo D. Christovão,
em 1638, em cuja parcimoniosa mesa elle tinha certo o talher.
Porém, n'esta noite da desgraça alvorejou uma aurora de esperança.
Em 1640 foi acclamado rei portuguez. Sebastião Gomes, com bom
fundamento, imaginou-se chamado á patria e reintegrado nos bens que
Philippe II lhe confiscára.
Assim que chegou a Paris D. Francisco de Mello, primeiro embaixador de
D. João IV, Gomes de Vasconcellos apresentou-se-lhe. O embaixador
abraçou o ancião, dizendo que não esperava encontrar n'este mundo um
irmão do heroico Scipião de Figueiredo, cujo nome ainda soava em
Portugal gloriosamente. Perguntou-lhe o velho se seria licito esperar
que el-rei de Portugal lhe permittisse voltar á patria e apossar-se dos
seus bens. Respondeu D. Francisco de Mello que era illicito duvidar da
justiça e probidade d'el-rei. Grandes jubilos no seio d'aquella pobre
familia!
Escreveu o embaixador para o reino aos seus amigos mais conjuntos do
monarcha. Todos, á uma, lhe responderam que o rei faria justiça.
Pactuaram logo sahirem juntos para Portugal; mas como D. Francisco
tivesse um filho enfermo, demorou-se; e, quando o filho convalescia,
teve de seguir o rei de França a Compiegne, e deixou o filho entregue
aos cuidados de Gomes de Vasconcellos.
O rapaz tinha vinte e dous annos, era até certo ponto aparvalhado, fôra
educado portuguezmente, não tinha a minima pratica de sala, e não sabia
palavra da lingua franceza.
Com o fim de o recrear nos desalentos da convalecença, Gomes de
Figueiredo levou-lhe a casa a filha, que era bella, e mais algumas
amigas de mademoiselle Vasconcellos--moças garridas, buliçosas,
desenxovalhadas, francezas desde as plumas até ao talão--cousas
gentilmente satanicas que se pareciam tanto com as damas de Lisboa como
elle com os estouvados de Paris.
Assim que lhe entraram ao quarto, o rapaz, que as não percebia,
contemplou-as com a mais sincera cara de tolo, não obstante ser
prevenido da visita. _Il ne laissa pas de paroître déconcerté_--diz mad.
de Sainctonge, a filha da gentil Vasconcellos--_elles en attribuerent la
cause au peu d'habitude qu'il a voit de voir des femmes_.
Mas habituou-se logo; o amor ensinou-lhe tudo, sem excepção do francez.
Por essa occasião lhe disse o velho:
--Este modo de viver francez deve ser estranho a um moço de paiz onde os
homens não tem a menor convivencia com as senhoras.
--Gosto d'estes costumes! exclamou o rapaz.
De quem elle já gostava muito era da menina Vasconcellos; mas a paixão
que o apanhou de salto não impediu que elle se mostrasse portuguez de
lei, mandando pôr na mesa bocêtas de dôce nacional para regalar as
meninas, e por signal que o avantajaram ás confeiteiras francezas:
_bassins de confitures séches beaucoup plus belles que celles qu'on fait
en France_--diz a citada historiadora.
O convalecente deu logo alta, e transfigurou-se.
Bailes, merendas, passeios campestres, lyrismo, conjugação dos verbos
regulares e irregulares de parçaria com as pequenas, revelações,
confidencias, leituras de novellas, etc. Em resumo, D. Francisco de
Mello, quando voltou a Paris, não conhecia o filho, de gordo, de
folgazão, de peraltice, e até d'uns vislumbres de poeta pelo ar
provençal com que fallava das graças das francezas, e particularmente de
mademoiselle Vasconcellos.
Amavam-se e projectavam voltar juntos e casados a Portugal. Assim o
tinham decidido em sorrisos de mutua e louca felicidade n'um baile em
que o moço, toda a noite, valsára com a noiva. _Mais il ne prevoioit pas
que la France seroit son tombeau_, escreve a snr.ª de Sainctonge. Ao
sahir d'esse baile, aconchegando do seio o ramilhete da adorada menina,
constipou-se, e morreu de uma pleuresia seis dias depois.
Sobre este infortunio outro maior.