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BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA
NOITES DE INSOMNIA
OFFERECIDAS
A QUEM NÃO PÓDE DORMIR
POR
Camillo Castello Branco
PUBLICAÇÃO MENSAL
N.º 11--NOVEMBRO
LIVRARIA INTERNACIONAL
DE
ERNESTO CHARDRON
_96, Largo dos Clerigos, 98_
PORTO
EUGENIO CHARDRON
_4, Largo de S. Francisco, 4_
BRAGA
1874
PORTO
TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA
62--Rua da Cancella Velha--62
1874
BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA
NOITES DE INSOMNIA
SUMMARIO
_O ultimo carrasco, pelo exc.mo snr. visconde de Ouguella--O
desastroso fim de Damião de Goes--A menina perdida--O heroe da ilha
Terceira--O nariz--João Baptista Gomes--Auto da fé... a rir_
O ULTIMO CARRASCO
I
Para mim a sepultura é santa; são santas as fundas agonias humanas,
ainda quando associadas ao crime.
A. HERCULANO.
Si l'on demande comment, avec de pareils sentiments, j'ai pu remplir
si longtemps les horribles fonctions qui m'étaient échues en
partage, je n'ai que ceci à répondre: qu'on vacille bien jeter les
yeux sur la condition dans laquelle j'etais né... C'est le testament
de la peine de mort par le dernier bourreau.
_Mémoires des Sanson_ par H. SANSON,
ancien executeur des hautes oeuvres de la cour de Paris.
Felizmente a civilisação do seculo arrancou do nosso codigo esse
negro artigo da pena de morte, e esta conquista da illustração, que
a tenaz perseverança da philosophia alcançou gloriosa, depois d'uma
porfiada lucta, já não póde retrogradar em Portugal, e parabens me
dou a mim mesmo de não estar já ameaçado de commetter homicidios, e
de sentir gotejar sobre a minha cabeça, n'estes meus já bem cançados
dias, o sangue, que uma lei draconiana fazia espadanar no cadafalso.
_Historia_ (inedita) _de Luiz Antonio Alves dos Santos_--O NEGRO,
ultimo executor de justiça em Portugal.
A pena de morte será executada na forca pelo executor da justiça
criminal, em lugar publico, com o acompanhamento da confraria da
Misericordia, se a houver no lugar, e dos ministros da religião, que
o condemnado professar: assistirá o escrivão dos autos para n'elles
dar fé do cumprimento da sentença. Nas quarenta e oito horas
marcadas no artigo antecedente, se ministrarão ao condemnado todos
os soccorros da religião, e os mais que por elle forem requeridos.
(Art. 1203 da _Reforma judicial novissima_,
decretada em 21 de maio de 1841).
O meu quarto, o meu antro, a minha jaula tinha quinze passos de comprido
e seis de largura. Era tão limitado o recinto que nos achavamos face a
face--o carrasco e eu.
A primeira impressão que senti, ainda mal, porque se traduziu em
factos--arrependi-me depois--foi recuar e esconder as mãos nos bolsos.
Na lei, que ordenava o homicidio, é que eu não devia tocar. Era para com
o juiz, que proferia a sentença, para com o jury, que condemnava, e para
com o ministerio publico, que requeria, que eu devia guardar estas
reservas e cuidados.
Para com o executor--não.
Este era o instrumento, era o cumplice, era a força physica, era a
machina brutal, inconsciente, estupida e passiva. Era a forca, era a
guilhotina, era o patibulo, era o cadafalso, era o pelourinho, era a
gargalheira, era o potro, era o equuleo, era a cruz do supplicio--era
finalmente o verdugo, o algoz e o saião. Era o carrasco.
Para com elle, o meu instincto de repulsão era um absurdo.
Toca-se nas rodas dentadas d'uma machina qualquer--quando postas em
movimento, se o operario n'um momento de irreflexão e de imprudencia se
aproxima d'ellas--despedaçam-no, esmagam-no. A roda é um agente: obedece
impassivel ao impulso da diretriz, do motor.
E, aliás, ninguem despreza a roda, ninguem a reputa aviltante, ninguem a
insulta.
Que mais vale o carrasco, para que o legislador lhe legasse o desprezo e
a consciencia da sua infamia?
O movimento de repulsão, que actuou em mim, não fôra tão rapido que o
não observasse Luiz Negro.
Observou.
Vi rebentar uma lagrima nas palpebras avermelhadas do velho. Rolou-lhe,
depois, deslisando na concavidade das rugas, que lhe sulcavam as faces,
e foi em espiral, mansamente, gota a gota, perder-se-lhe na espessura
das barbas.
Conheci a affronta e corrigi-a sem detença. Estendi-lhe a mão. Apertou-a
o carrasco com uma alegria convulsiva. Havia não sei que traços de
gratidão desenhados n'aquella physionomia franca e aberta. Parece-me
têl-os ainda impressos na memoria, para remorso eterno da minha
consciencia.
«Posso apertar-lhe a mão com desafogo», exclamou elle, com uma voz surda
e rouca. Senti-a primeiro no coração antes de me entrar nos ouvidos.
«Felizmente, nos abysmos da minha profunda desgraça, resta-me uma
consolação...» Hesitou. Depois proseguiu: «consolação unica, que me
alumia a existencia, e mitiga os pezares que me vão n'alma: as minhas
mãos estão puras, tenho-as immaculadas da forca, não arroxearam jámais,
com a soga, a garganta dos padecentes--não derramaram nunca o sangue das
victimas que a lei sem respeito pela vida humana, e a que por escarneo
chama justiça, obriga outro nomem a derramar.
«Venho, aqui, para o conhecer. Não tenho por costume procurar presos.
Nem os busco, nem lhes fallo. Mas sei que é adversario da pena de morte;
quiz vêl-o face a fece. Era justo que o carrasco e o homem de lei
conversassem em intima convivencia. Estamos em presença um do outro:
escutar-nos-hemos reciprocamente.»
E ao passo que Luiz Negro se exprimia assim, perguntava eu a mim
mesmo--quantas mãos mais polluidas, menos nobres, menos dignas e menos
puras teria eu apertado na minha vida.
Assim como Talleyrand, se Talleyrand era--não me falhando a
memoria--asseverava, que a palavra fôra dada ao homem para mentir, tenho
para mim que os respeitaveis e acreditados luveiros da nobre cidade de
Lisboa foram nascidos e educados, para nos evitarem o contacto de mãos,
que nos podem contagiar com estes virus paludosos, que por ahi vão
medrando á sombra de magnificas protecções.
Quando o carrasco proferia as ultimas palavras, que acabo de narrar,
chegava o meu almoço, trazido por um criado, e acompanhado por outro,
que tem sido para mim como o Caleb de Ravenswood, descripto por Walter
Scott. Em seguida appareceram amigos meus, trazidos ao Limoeiro pelo
desejo de me acompanharem nas horas, em que, sendo-lhes permittida a
entrada, eu me achava mais só.
Sentaram-se em torno da mesa. Luiz Negro almoçava comnosco. Fallavamos
de tudo. Ignoravam todos o mister do meu novo hospede. Viam um homem
avançado em annos, envolto n'um casaco escuro que tinha fórmas de
tunica, silencioso, calado e triste, comendo sem nos interromper a nós
que esqueciamos as grades, os ferrolhos e os guardas--e arrastados pela
nossa imaginação peninsular nem sequer pensavamos no governo.
Fui sempre um conspirador assim--em que pese esta modesta confissão
minha ao illustre e meritissimo juiz do processo.
Não direi os nomes dos meus amigos, n'este jovial almoço, com receio de
os denunciar ás iras, e aos instinctos odientos dos consules actuaes.
Receio que lhes abram assento no santo officio regenerador.
A conversação ia cortada em dialogos cheios de vida, recamados de
originalidade e opulentos na elegancia do dizer e na facilidade da
phrase. Poderia parecer uma academia litteraria, se não fosse uma enxovia.
Vivia eu, então, n'um carcere que me dizem ter sido morada de Diogo
Alves nas vesperas do seu supplicio.
As paredes, se não conservavam tradições de taes luctas legaes,
guardavam, pelo menos, os vermes, que formam o apanagio e arrhas d'estes
lugubres esponsaes com as nossas cadeias.
Ao terminarmos a nossa refeição, quando o fumo dos cigarros e charutos
começava a ennovelar-se em densas espiraes, velando-nos as faces, disse
para os meus amigos e alegres convivas, que me penitenciava alli d'um
erro grave, erro de lesa polidez, porque os tivera, por tão largo espaço
e em tão intima convivencia, com pessoa para elles desconhecida, sem os
apresentar, conforme ordenam e exigem as demoradas pragmaticas e
minuciosas etiquetas britannicas.
Ninguem o conhecia. Só eu.
Enchi-me d'animo e terminei assim:
«Meus senhores, tenho o prazer de lhes apresentar o carrasco.»
Houve um silencio profundo. Parecia que um d'estes tremendos
cataclysmos, de que só a natureza tem o segredo, se desencadeára em
torno de nós.
As minhas palavras reboaram como o choque d'uma pilha
voltaica--faltavam-lhes, apenas, as chispas eletricas.
A sensação foi grande. Não era temor, não era medo, não era susto, que
contagiára d'esta sorte todos os meus amigos. Era repulsão. Sentiam-se
todos inficionados d'este contacto. Parecia que haviam respirado os
gazes deleterios, os fluidos mephyticos d'algum charco paludoso.
E todavia diante de nós estava um homem, feito á imagem de Deus, segundo
rezam as piedosas lendas biblicas. Estava um irmão nosso, um filho da
mesma raça, nascido na mesma patria, educado na mesma religião de amor e
de perdão, e fóra a lei e os seus levitas, que o haviam convidado,
constrangido ou subornado, a exercer as cruentas e sinistras funcções
d'aquella magistratura de sangue.
Venerar e respeitar os authores das monstruosas carnificinas, que se
appellidam em phrase composta e decorosa «pena de morte» desprezando, ao
mesmo tempo, o mandante e forçado executor de uma penalidade absurda e
irreparavel, pareceu-me sempre um contrasenso abjecto, um preconceito
irrisorio, uma aberração torpe e villã. O pudor deslocado não é virtude:
ou é hypocrisia ou imbecilidade.
Achei sempre muito mais racional a doutrina de De Maistre. Divinisava
quasi o carrasco, elevava-lhe o mister á altura de sacerdocio. Bem haja
elle. Pelo menos era logico, consequente e audaz. As situações definidas
teem a severidade do raciocinio, a coragem dos dogmas que enunciam, o
supremo valor e a immensa lealdade de aceitarem francamente as
consequencias fataes e necessarias dos seus actos.
Em épocas d'uma triste cobardia moral, escólas que formulam as suas
doutrinas, sem tergiversações nem receios, merecem o respeito de todos
nós; porque qualquer que seja o absurdo dos principios existe, pelo
menos, alli, a fé viva que os escuda e defende.
Mas nas escólas dos doutrinarios ou conservadores modernos qual é o
credo ou symbolo do seu programma politico e social?
Vejamos.
Explica-o Littré por fórma tal que me tira o desejo de o dizer:
«Não é só a França--é a Europa inteira que se acha dividida em tres
escólas politicas: a escóla retrograda, a escóla revolucionaria e a
escóla estacionaria ou conservadora. Buscam todos um d'estes tres
balsões. E cada um se liga e enfileira ou ás instituições do passado ou
trabalha para a sua destruição ou busca, n'um equilibrio--physica e
moralmente impossivel--um ponto de apoio, no encontro d'estas duas
forças oppostas.»
As resultantes, n'estas absurdas combinações de forças, são as
catastrophes.
A escóla estacionaria, rigorosamente fallando, não tem doutrina sua.
Existe, medra e espreguiça-se no seio d'estas convulsões sociaes,
aceitando os principios da revolução, cujas consequencias repelle, e
dobra-se, curva-se e sujeita-se ás conclusões da escóla retrograda, ao
_ultimatum_ da sua doutrina reaccionaria--simulando, aliás, um profundo
horror pelos seus principios. Não é um systema esta evolução do seu
procedimento--é um expediente, que vive da impotencia a que por mais
d'uma vez as outras duas escólas se teem reduzido. E ha tanta verdade
n'estes confrontos, que vemos os conservadores, arrastados pelo
medo--terror panico dos espiritos timoratos e dos homens enriquecidos á
sombra das revoluções--mergulharem até ao lôdo das escólas retrogradas,
como em busca d'um local recondito e mysterioso onde possam esconder e
occultar os seus haveres. O pavor produz estas allucinações. Como se o
passado podesse encobrir o trabalho accumulado para o futuro!
Luiz Negro era um homem intelligente. Percebeu que eu queria levantal-o,
alli, deixando a responsabilidade da sua profissão áquelles que lh'a
deram, e que, em seguida, o desprezavam tambem.
Ergueu-se, olhou-nos a todos quando se achou de pé, e confesso que nos
dominou.
O patibulo, que é um lugar elevado, deve ter fascinações e delirios
deslumbrantes, como os teem os thronos, as eminentes funcções do estado,
e a cadeira gestatoria dos pontifices e santos padres. Para alguma cousa
deve servir estar mais alto do que os outros homens.
Foi n'uma montanha--rezam assim as piedosas chronicas do Nazareno--que
Satanaz quiz tentar Jesus.
O carrasco, no meio de nós, fitando-nos a todos--com um olhar
profundamente triste, que era o resumo d'uma existencia
horrivel--possante, herculeo e espadaúdo como um gladiador dos circos da
Roma pagã--era mais do que um homem: era um phantasma.
A alegria esvahiu-se. Era tão profundo e completo o silencio, que o
zumbido d'um insecto qualquer ter-nos-hia parecido uma convulsão medonha
no globo que habitamos.
Já a mim mesmo me reprehendia eu d'esta apresentação inopportuna.
Luiz Negro mediu-nos a todos com um olhar profundo e scintillante. Havia
o que quer que era de feroz e sinistro nos primeiros lampejos d'aquella
vista penetrante. Depois amorteceu-se. Em seguida as lagrimas
rebentaram-lhe por entre as palpebras, a ferocidade diluiu-se-lhe
n'aquelle imperceptivel chôro, e momentos mais tarde havia um olhar de
mansidão e de ternura a expandir-se, com uma meiguice extraordinaria,
por sobre nós.
Desapparecera o carrasco. Estava o homem.
«Metto-vos mêdo? Faz-vos pavor a minha presença? Não ha razão nem motivo
para tanto. De mim sei dizer e posso assegurar que estou livre de odios
e de ruins paixões contra quem quer que seja. Tenho no meu coração um
thesouro inesgotavel de perdões--ainda mesmo para aquelles que me
acarretaram os infortunios da minha vida.»
Continuava o silencio.
Luiz Negro proseguiu:
«Sou christão. Aprendi, portanto, a perdoar nas lições do Divino Mestre.
Elle--que levantou a dignidade do homem com o seu proprio martyrio.
«Quebrou as algemas da escravidão do mundo antigo para implantar, na
terra, a liberdade, a igualdade e a fraternidade--trindade augusta
d'esta religião d'amor.
«Ao visconde hei de eu contar largamente a minha vida. Hei de dar-lhe a
narração escripta do triste fado da minha existencia. Quem, como eu, só
espera do sepulchro--da valla, direi melhor--o silencio e o repouso, não
pretende nem quer illudir ninguem.
«Retiro-me. Sinto-me aqui de mais. Apavora a minha presença com o
sinistro nome que me deram.»
Devo dizel-o: estenderam-se-lhe todas as mãos. Nem uma só houve, que se
esquivasse a este signal de pura cordialidade com que os homens se
buscam e apreciam.
Ao cerrar da porta, ouvi que me dizia: «Até ámanhã.»
Este «ámanhã» seria a sua historia.
Ao passo que o carrasco descia os setenta e sete degraus, que conduziam
á minha jaula, fiquei eu isolado e silencioso no meio dos meus amigos.
Perguntava a mim mesmo o que tinha ganho a sociedade, nas suas cruezas e
ferocidades, ainda depois da inquisição.
Havia ao menos--alli--a logica brutal das feras, havia os instinctos
felinos d'aquelle tribunal catholico. E nós a recebel-os e a
apertar-lhes a mão--aos successores, e filhos dilectos d'estas infamias!
E nem sentimos as chispas de fogo, as gotas de sangue, os gemidos de
tantas victimas!
Muito podia e muito póde a reacção!
Diga-o Pelletan.
A inquisição não tinha só jurisdicção sobre a vida humana: não lhe
escapava a propria morte. Assim como a hyena na ferocidade dos
instinctos levantava, cavando, a terra dos cemiterios, assim ella, a
inquisição, desenterrava os ossos dos suspeitos posthumos, escavava, nas
vallas, a podridão dos cadaveres dos impios, fabricava, com esqueletos,
heresiarchas e herejes, interrogava gravemente os espectros,
queimava-lhes os detrictos, e as cinzas arremeçava-lh'as ao vento.
Fica entendido, que os bens--pelo confisco--não os entregava aos herdeiros.
E com todo este apparato affectava ares e modos de suprema beatitude.
Havia cheiro de santidade em todo o seu procedimento.
Começava por si. Chamava-se a santa fé. Era a prisão a santa casa, o seu
tribunal o santo officio, a sua policia a santa irmandade, o sambenito a
sua libré, e para mostrar que em tudo seguia a phrase evangelica,
proferia palavras d'uma mansidão ineffavel. Quando estorcia e quebrava
os membros da victima, do paciente pela tortura, chamava a este hediondo
facto: interrogar com bondade--_benigniter_. Ao condemnar á fogueira,
acrescentava logo com doçura evangelical, que applicava a pena mais
suave: _poena clementissima_. Ao inscrever a sentença de morte, no seu
registro funerario, designava o compendio d'estes horriveis morticinios,
pelo nome de livro de vida: _liber vitae_. Se entregava o padecente ao
carrasco, em vocabulo tão amoravel que parecia absolvição, dizia que o
relaxava: _relaxare_; e, quando, finalmente, o condemnado ia a caminho
do supplicio escrevia, com letras d'ouro, na sua seraphica bandeira, a
palavra _misericordia_!
A inquisição era dôce, suave e meiga na fórma, como o são todas as
medonhas infamias e todas as fundas hipocrisias.
Conta-se do crocodilo, que imita, nos juncaes, os gemidos infantis da
criança que se afoga, para arrastar os corações generosos a acudir-lhes
e devoral-os.
No baixo imperio, quando as sociedades se estorciam, nas mais baixas e
degradantes vasas de cynismo, de hediondez e d'abjecção, a polidez das
fórmas era inimitavel e soberanamente cortez. Custava a conter na
memoria as classificações, tão adjectivadas, dos mais ignobeis e
crapulosos misteres palacianos. Rezavam as chronicas, estatuiam
diariamente os rescriptos dos principes, determinavam os decretos
imperiaes as designações de illustrissimos e eminentissimos
senhores--applicadas e votadas estas grandezas--se grandezas ha, n'esta
torpe nomenclatura--á escoria dos eunuchos e dos devassos das aulas regias.
Todos estes vocabulos iam envoltos na podridão e na torpeza da mais vil
malvadez, e no lôdo aviltante, e vasa immunda e mephytica dos escravos,
levantados, sem crenças e sem fé.
Vieram depois os barbaros.
Vieram bem.
Sahirão agora do quarto estado?
Talvez.
A raça latina carece d'uma nova transformação.
D'onde virá?
Aviltada, corroida, podre e corrupta em França, na Italia e em Portugal,
olha a medo para a Hespanha. Estremece de susto e pavor ao encarar os
delirios d'um povo que parece barbaro, e que faz esforços sobrehumanos,
para se regenerar e tomar assento nas ágapes das civilisações, modernas.
Poderá concluir e completar esta transformação?
Não posso nem quero crêr na aniquilação dos povos da familia latina.
Nós somos a expressão mais perfeita da raça indo-europêa.
Assim como, em 1789, a nobreza devassa, leviana e egoista preparou o
engrandecimento da burguezia, assim, tambem, os gravissimos e repetidos
echos d'esta classe estão apressando e dando vida ao futuro
indestructivel do quarto estado--á regeneração da nossa raça pelo povo.
Seria longo estudar, aqui, as numerosas causas da decadencia e da fatal
destruição, que vão gangrenando, sem elixir reparador, a nobreza, o
clero e a classe media.
Um dia o povo escreverá a historia de todas estas podridões.
* * * * *
Os meus amigos sahiram pouco depois do carrasco.
Esperei ancioso pelo dia seguinte.
Na solidão da cadeia, entregue por tão longas horas da tarde e da noite
ao silencio e á reclusão, ignorando a sorte que me esperava, e os planos
que forjaram os meus inimigos, buscava todas as distracções, que o acaso
ou a sorte me depararam, para sahir do torpôr moral e da tristeza
profunda que me ia n'alma.
As horas corriam tão lentas e vagarosas, que me aconteceu, por vezes,
esperar, com prazer, os momentos em que os guardas vinham, no silencio
da noite, correr-me os ferros da minha janella, para se confirmarem e
terem a certeza de que eu não tentava fugir. Sorria-me sempre a este
acto nocturno e solemne da minha vida de prisioneiro d'estado.
VISCONDE DE OUGUELLA.
O DESASTROSO FIM DE DAMIÃO DE GOES
Não era boa pessoa. Tinha talento, fazia chronicas de reis, escrevia em
variados assumptos; mas era mordacissimo, deslinguado, e desluzia as
gerações dos seus inimigos com a injustiça propria da sua malquerença.
D. Antonio de Athayde, conde da Castanheira, e valido de D. João III,
foi um dos fidalgos mais aggravados.
Uma satyra appareceu na côrte por aquelle tempo, precisamente no anno
1554. Um homem vestido de frade a entregou pessoalmente ao rei.
Diogo de Paiva de Andrade (_Memorias ineditas_) refere assim o caso:
_Um frade capucho, ou, como tambem se disse, pessoa que vestiu aquelle
habito, procurou com grande empenho fallar a D. João III, que estava no
paço da Ribeira, em occasião que se recolhia a dormir a sesta; e, pelo
esforço que fazia em se lhe dar recado, se deu parte a el-rei; o qual
mandou entrar o frade. Este se queixou extraordinariamente de um regulo
que havia na sua terra, pedindo a sua alteza desaggravasse o opprimido
povo; e, acabando de fallar, se retirou, entregando-lhe um papel. Abriu
el-rei o papel; e, vendo que era uma satyra contra o conde da
Castanheira, D. Antonio de Athayde, ordenou logo fossem em busca do
frade; e, por maiores diligencias que se fizeram, não foi possivel
encontral-o. Este papel guardou el-rei na sua guarda-roupa, d'onde o
pôde haver Damião de Goes que, copiando-o, o deixou junto a um
nobiliario, que tinha escripto das familias d'este reino, e d'aqui teve
origem, sem fundamento, a seita puritana; porque, depois de descompôr o
conde na figura e nos costumes, o infamou na familia, nas seguintes
quadras:_
_Mestre João sacerdote,
de Barcellos natural,
houve de uma moura tal
um filho de boa sorte._
_Pero Esteves se chamou;
honradamente vivia;
por amores se casou
com uma formosa judia._
_D'este (pois nada se esconde)
nasceu Maria Pinheira,
mãi da mãi d'aquelle conde
que é conde da Castanheira._
Em outro lanço das _Memorias_, Diogo de Paiva, reportando-se novamente a
este caso que estrondeou n'aquella época, acrescenta:
_Damião de Goes, bem conhecido n'este reino por seus escriptos, foi
grande inimigo de D. Antonio de Athayde, 1.º conde da Castanheira, e
valido de D. João III; porque apparecendo em palacio a celebre satyra
contra o mesmo conde, que deu causa á murmuração de Maria Pinheira,
Damião de Goes a ajuntou a um nobiliario que tinha escripto;--sabendo-o
o conde, o esperou na rua Nova de Lisboa uma noite, e lhe deu com um
pau. Augmentou-se de parte a parte a inimizade; e, achando-se D. Antonio
de Athayde na casa da India uma manhã, como vedor da fazenda, e Damião
de Goes como feitor de Flandres, que havia occupado, ahi se travaram de
razões, e o conde lhe deu com umas luvas na cara._
A satyra, que D. João III releu muitissimas vezes, e outras tantas
fechou no contador dos seus papeis particularissimos, devia de ser
acerba para o vingativo conde, e mortalmente funesta para Damião de Goes.
O leitor, sem duvida, deseja vêl-a, porque, se a não viu manuscripta,
com certeza a não encontrou ainda impressa. As tres quadras trasladadas
por Diogo de Paiva são as unicas apenas conhecidas dos leitores de
genealogias; mas o mordaz poema comprehende sessenta e quatro quadras.
Por não empecer á curiosidade, dou primeiro o traslado da satyra; hão de
vêr depois outras cousas importantissimas no caso.
TROVAS
QUE SE MANDARAM DAR A EL-REI D. JOÃO III POR UM FRADE DE SANTO ANTONIO,
DOUS ANNOS ANTES DA SUA MORTE, E AS TINHA NA SUA GAVETA, E AS LIA
ALGUMAS VEZES, E AS MANDOU QUEIMAR POR MANOEL DE S. THIAGO NO DIA QUE
VEIO DA MISERICORDIA, TRES DIAS ANTES DO SEU FALLECIMENTO QUE FOI A 22
DE JUNHO DO ANNO DE CHRISTO DE 1557.
1
Deus sabe que esconder
a minha tenção não posso;
e, por seu serviço e vosso,
digo quanto aqui disser.
2
Se sobre isto o dessirvo,
com a clemencia que sóhe,
como a vassallo e captivo,
que o ama, me perdoe.
3
Um poeta dos latinos
a um seu amigo escrevia:
«Já agora a terra cria
homens maus e pequeninos.!»
4
Como que, com a idade
tudo cança e nos esquece,
afóra só a maldade,
que esta sempre prevalece.
5
Homens bons de muito ser
n'esta terra haver sohia;
ainda os ha; mais haveria,
se os deixassem viver.
6
Os que mettem pelos portos
mercadorias defezas,
com que os mortos são mortos
e os vivos são suas prezas,
7
Esses no reino metteram
mentiras e judiarias,
baixezas e hypocrisias
que toda esta terra encheram.
8
E tanto quê, mór valia
tem já isto em Portugal
que droga, cravo e tincal,
nobreza e cavallaria.
9
Mas de um, que tudo pende[1],
vos direi, senhor, um pouco,
em que me tenhaes por louco;
que Deus calar me defende.
10
Pois dá brado sem cessar--
diz Izaias--e canta;
como trombeta, levanta
tua voz sem descançar.
11
E elle, que tudo é, tudo
nos salva pela tenção!
Vêr eu tanta perdição
me faz fallar, sendo mudo.
12
E eu, com esta ousadia,
o direi, porém com febre,
que em sua physionomia
vereis melhor que tem lebre.
13
Convenho no que se diz:
Dês que o mundo se criou,
aquelle a quem Deus bem quiz
no rosto lh'o amostrou.
14
Após isto, no cabello,
na sombra tão infernal;
de estopa de ruim pello
nunca se fez bom sayal.
15
As sobrancelhas hirsutas
maiores que abebedouro,
no meio da testa justas,
signal é de mau agouro.
16
Olheiras por meio rosto,
olhos tristes, embaciados,
risinhos falsos, sem gosto,
pensamentos esfaimados.
17
Esfaimados de cobiça,
de soberba e de inveja,
de quantos males atiça
quem todo o mundo deseja.
18
Esfaimado de suspeitas,
enganos e falsidades,
e palavras contrafeitas
onde nunca entrou verdade.
19
Esfaimado por lançar
o reino e terra a perder,
o preço, a honra, e o ser
dos que são para estimar.
20
Esfaimado e esfaimado
por acabar de roubar
honra, fazenda e estado
de quem isto lhe foi dar.
21
Ente do seu parecer,
nas obras do tanta perda,
parentesco deve ter
co' ladrão da mão esquerda.
22
É um sem fundo, adverso
da direita e do envez,
em ser ruim e perverso
da cabeça até aos pés.
23
Do qual ousei affirmar,
a um seu (ninguem se espante)
pardelhos e calcanhar
são mores que por diante.
24
São de ladrão calcanhares,
dizem todos a uma voz,
faz com ratos nos altares
mais lavoura que na foz.
25
Té quando, pois, durará,
Senhor, tão cruel engano,
sortido em tanto damno,
trinta e tres annos ha!
26
Ponhamos em termos isto,
vejamos quem tem razão,
seja juiz Jesus Christo
em quem não ha suspeição.
27
Vossa alteza que achou
n'este homem feito empelado,
que assim se apoderou
de si e do seu estado?
28
Entregues á sua vontade
d'onde dependem as leis,
tudo podem dar os reis,
salvo sua liberdade.
29
Este, tudo tem de vós,
com que se fez soberano,
ingrato, cruel tyranno,
a Deus, a vós e a nós.
30
Este, a mais sobre todos,
este credes desde a...[2]
este tem comvosco os modos
de D. Alvaro de Luna.
31
Senhor, que engano é este?
como não fugis d'este homem
de que tantos outros morrem
por ser o seu mal de peste?
32
Que só dous, tres dias, dura
qualquer outro em vossa graça,
logo de vós a rechaça
sua levação[3] sem cura.
33
Não podem ser todos maus;
elle só é virtuoso,
sendo, á fé, falso raposo
todo cheio de _desvaus_(?).
34
Faz quanto se lhe antoja;
e diz, quando adoece:
«Quem me visita, me enoja,
Quem o não faz me aborrece.»
35
Olhai lá pelo virote!
Amaes-lhe os cabellinhos?
Criai-lhe bem os filhinhos,
governai por este norte.
36
Em qualquer outra pessoa
passára isto por graça;
que quem não tem cousa sua,
ponha os seus bofes na praça.
37
Malditos sejam os pais
que geraram tão má cousa,
de que todos dão mil ais,
e nenhum fallar não ousa!
38
Por terem reconhecido
ser de vós apoderado,
como Deus é adorado,
como o diabo é temido.
39
Dai ao demo este diabo,
dai este diabo ao demo!
Não é bom, não vol-o gabo,
de governalho e de remo.
40
Não se lhe sabe virtude,
não viu leão nem pelejou,
nem mortos resuscitou,
dos vivos tolhe a saude.
41
Pois que milagres são estes,
que siso, que discrição,
pois que assim lhe concedestes
o da vossa jurisdicção?
42
Se elle fôra sisudo
e discreto em seus modos,
não governára elle tudo,
e mais com dolo de todos.
43
É da gloriosa lei,
que a todos nós ensina,
imigo, e de Deus e Rei
ante quem todos malsina.
44
Se vos tem amor ou não,
não é texto de Hipocrás;
as obras vol-o dirão,
não cureis dos seus _salás_[4]
45
que são figuras, e basta,
villãs reverenciaduras
com que vos caçou e arrasta
por nossas desaventuras.
46
Que o criado verdadeiro
que tem verdadeiro amor,
mais que o seu, e primeiro,
sente o mal de seu senhor.
47
Nos conselhos, vossa alteza
em elle sómente crê;
sendo tudo na grandeza
da perdição que se vê.
48
Por seu conselho casou
a princeza em Castella[5];
vêde como Deus livrou
este vosso reino d'ella.
49
Por seu conselho deixastes
quatro lugares aos mouros[6];
verdade é que poupastes
com isso grandes thesouros.
50
Mas por seu procurador
poz Deus boas contraditas,
que não fizessem mesquitas
nos templos do Salvador.
51
Ao duque poz suspeição;
que sempre em tudo procede
por ser parente d'Abrahão
e tambem de Mafamede.
52
Que como homem antigo
parece que lhe sabia
a sua genealogia,
que é esta que aqui digo:
53
Mestre João sacerdote,
de Barcellos natural,
houve de uma moura tal
um filho de boa sorte.
54
Pero Esteves se chamou,
honradamente vivia,
por amores se casou
com uma formosa judia.
55
D'este (pois nada se esconde)
nasceu Maria Pinheira,
mãi da mãi d'aquelle conde,
e sua avó verdadeira[7].
56
Vêde se era bem provada
esta sua suspeição;
mas não aproveita já nada
onde sobeja a affeição.
57
E com juiz tão suspeito,
mal inclinado, teimoso,
desalmado, cubiçoso,
todos perdem seu direito.
58
Farto trabalho receio
lhe faz tal sentença dar:
christão e sisudo meio
para o meu aproveitar.
59
Antepor a Deus fazenda
receio, e maior trabalho;
nunca já será atalho
mas rodeio sem emenda.
60
Veja isto vossa alteza
nas cousas que tal causaram,
pois que todas se dobraram
e muito mais a pobreza
61
E como, para poupar
gastos, se faz a tal obra,
Ai! da nação que sossobra,
e dobra-se o individar.
62
Em os taes conselhos vãos
verá o mais a que veio;
nascerão mil de um receio
de mouros aos bons christãos.
63
O trabalho era d'além
em meritoria guerra;
agora, a além e áquem,
em todo o mar e na terra.
64
Vós, senhor, não tenhaes
pouca culpa n'este feito;
peço-vos tudo gemaes
sempre dentro em vosso peito.
O author da satyra era o proprio Damião de Goes, que ajuntára a copia ao
seu nobiliario; e o portador d'ella a D. João III fôra um familiar do
conde da Portella, inimigo do conde da Castanheira. Assim m'o assevera o
padre D. Manoel Caetano de Sousa, aquelle doutissimo theatino, cujas 289
obras em varias linguas catalogou o conde da Ericeira, no livro
intitulado _Bibliotheca Sousana_[8].
Entre os manuscriptos que tenho do insigne academico está a satyra
copiada com mais razoavel orthographia da que Damião de Goes interpozera
na genealogia do conde da Castanheira.
_Formosa_, lhe chama elle. A mim me não quiz parecer cousa para mediana
admiração. A escóla de Sá de Miranda não póde gabar-se de mui notavel
alumno no engenho de Damião de Goes; todavia, mais como documento
historico, e pouquissimo como modelo de poesia, a considero dignissima
da publicidade.
O esclarecido possuidor da satyra invectiva contra Damião de Goes
alcunhando-o de detrahidor de alheios creditos. Eis a textual
exprobração do clerigo:
_Tudo isto continha aquella formosa satyra de que se não sabem mais que
as coplas 53, 54 e 55, as quaes malicia e inveja encommendaram mais á
memoria por encerrarem em si falta que se transfunde na posteridade
quando não é tão falsamente imposta como n'este caso. Cheias andam as
Memorias dos genealogicos de argumentos que convencem de falta aquella
impostura; aos quaes eu só acrescento que não quero maior prova de sua
falsidade do que vêr aquellas coplas, entre tantas tão maledicas, que
dizem de um só homem, e tão grande como aquelle conde foi, tantos
defeitos que não cabem em tantos homens vis e facinorosos; e vêr que nas
coplas 9, 10 e 11, quer o author com pouco respeito ás divinas
escripturas attribuir a impulsos do Espirito Divino os que só são
effeitos do espirito maligno que sem duvida levaria comsigo ao inferno o
author das coplas, se elle antes de morrer se não desdissesse como se
affirma que desdisse. E Deus que é summamente justo quer que aquelle
mesmo conde, cuja descendencia, n'esta satyra, se emprehendeu infamar,
tivesse uma mui esclarecida descendencia, cheia de varões insignes em
santidade, letras, armas, dignidades ecclesiasticas e seculares as
maiores que se podem conseguir em Portugal, como sabem os que tem menos
que mediana noticia das familias d'este reino, na qual sempre os mais
sisudos tiveram estas coplas por falsidade_[9].
Damião de Goes, em favores ou desfavores genealogicos, não era
extremamente consciencioso. Quando recolheu das suas illustradas
viagens, procurou Antonio Carneiro, secretario de estado d'el-rei D.
João III, e entregou-lhe um papel em que demonstrava que a sua familia
d'elle secretario descendia do duque de _Mouton_, de França, que
aportuguezado dizia «Carneiro». O ministro sorriu-se de zombaria á
destampada lisonja, lançou o papel, sem o abrir, ao brazido de uma
chaminé, e disse a Damião de Goes:--«Contento-me com que os meus
descendentes contem como progenitora a honra com que procuro viver sendo
util ao rei e á patria.»
Antonio Carneiro bem sabia que não procedia dos _Moutons_. Era natural
do Porto, e de familia honrada. Foi a Lisboa por dependencia que tinha
de Pedro Fernandes de Alcaçova, escrivão da fazenda d'el-rei D. João II.
Pedro Fernandes tanto se lhe affeiçoou que, além do prompto despacho, o
convidou a ficar na côrte, empregando-o no expediente do seu officio.
Como Antonio Carneiro fosse o encarregado de levar a despacho real o
sacco dos papeis, n'estas idas ao paço, deu trela ao coração, e
requestou D. Brites de Alcaçova, filha do seu protector, e dama da
rainha. Casou-se com ella a furto; mas, publicado o delicto, foram ambos
degredados para a ilha do Principe. Decorridos annos, as reiteradas
supplicas da desterrada commiseraram o coração do pai. Veio Antonio
Carneiro para o reino com sua mulher, e logo se habilitou para
secretario do despacho universal de D. Manoel, revelando-se politico
sagacissimo. Semelhantes honras lhe concedeu D. João III, e com ellas o
senhorio da ilha do Principe, onde havia gemido degredado e pobre.
Morreu aos 86 annos de idade, deixando larga descendencia.
Se leram _Damião de Goes, e a Inquirição de Portugal_, estudo
biographico de Lopes de Mendonça, ou sequer a summariada noticia que
escreveu o snr. Innocencio Francisco da Silva, sabem que o adversario do
conde da Castanheira, denunciado pelo padre Simão Rodrigues, foi preso
como lutherano nos carceres da inquisição, d'onde o mandaram
penitenciar-se em reclusão austera no mosteiro da Batalha.
Concluido o prazo da expiação, quando já orçava pelos setenta annos,
transferiu-se a sua casa.
Um dia--diz o snr. Innocencio, atido ao testemunho de memorias
contemporaneas--o velho chronista d'el-rei D. Manoel foi encontrado
morto, _quer de accidente apopletico, quer assassinado por domesticos ou
estranhos_.
D. Manoel Caetano de Sousa refere que a maledicencia heraldica de Damião
de Goes não despontára com a velhice, antes se afiára mais na pedra do
rancor aos que elle suspeitava seus inimigos. O segundo conde da
Castanheira, desforrando-se dos velhos e renovados ultrajes a Maria
Pinheira, mandou criados seus moêrem com saccos de arêa o ancião no
pateo de sua mesma casa; e de modo se houveram, que Damião de Goes
apenas teve forças que o arrastassem á cama, onde se desprendeu da vida,
e mormente da lingua que tantos trabalhos lhe custára.
Esta relação do theatino Sousa encontrei eu confirmada em um Nobiliario
de Pinheiros, que pertence ao meu joven e illustrado amigo Vicente
Pinheiro de Mello e Almada, filho do primeiro visconde de Pindella, e
tambem descendente de D. Maria Pinheira.
Concluo rogando aos barões do meu conhecimento que me não façam moêr com
saccos de arêa, se eu alguma vez lhes lembrar a tripeça dos avós. Eu
lhes asseguro que, em suppostos casos, levo mais em vista nobilital-os
que envilecêl-os pelo honrado trabalho de seus avoengos. Ainda assim,
não está no meu animo--diga-se verdade--comparar ss. exc.as aos condes
da Castanheira, nem confrontar-me a mim com Damião de Goes. Todos nós
somos mais ou menos sapateiros nos baronatos e nas sciencias.
[1] Principia a desancar o valído.
[2] Palavra inintelligivel.
[3] Tumor.
[4] Zumbaias.
[5] D. Isabel. Casou com o imperador Carlos V, em 1525.
[6] Safi e Azamor foram abandonadas á mourisma em 1524. Em seguida,
perdemos Arzilla.
[7] _Que é conde da Castanheira_, variante de Diogo de Paiva.
[8] D. Manoel Caetano de Sousa nasceu em 1658, e falleceu em 1734.
[9] A casa da Castanheira passou ao segundo marquez de Cascaes por
herança de sua prima D. Anna d'Athayde, ultima condessa da
Castanheira, fallecida no meiado do seculo XVII. Na casa de Cascaes
succedeu a de Niza. E em ambas succederam o defunto snr. José Maria
Eugenio e outros que medraram quando a casca do mundo antigo se poz
do envez, e as heras absorveram a seiva dos troncos.
A MENINA PERDIDA
Em novembro de 1873 chegou a Braga uma senhora, que as suas criadas
negras e o seu escudeiro inglez chamavam baroneza.
Vi-a no _Hotel dos dous amigos_. Figurava trinta annos, ou pouco mais.
Feições fortes, duras; mas bonitas d'esta belleza rija das camponezas da
Maia. Garbosa sem delicadeza nem a flexura da casta flebil e fina.
Mulher a valer. Era o ideal de um morgado de Cabeceiras de Basto, que
vestisse o seu ideal com os musculos e feitios da mulher menos
corpulenta que a femea do elephante.
Entendi-me com o escudeiro inglez, ácerca de sua ama.
Viera do Brazil em agosto d'aquelle anno. Era viuva do barão de...
Ipiranga--supponha-se que era de Ipiranga; mas não era. Quanto mais
verdadeiros são os contos, mais forçosa e urbana é a mentira.
--É portugueza ou brazileira?--perguntei ao inglez.
--É portugueza.
--Que faz em Braga esta senhora? veio vêr o Bom-Jesus do Monte?
--Não, senhor. Anda a procurar a mãi; disse-m'o a sua criada grave.
--A procurar a mãi em Braga?! Como foi isso? Perdeu-se aqui a mãi, ou...
--Não sei como foi--volveu o escudeiro.
N'este comenos, entrou no hotel um meu amigo, que foi conduzido á sala,
onde a baroneza tocava piano melancolicamente. Deteve-se algum tempo.
Esperei-o, e perguntei-lhe que romance era aquella mulher.
--Um romance, com toda a certeza.
--É certo que esta baroneza procura a mãi?
--É, e encontrou-a.
--Então...--acudi eu tão incommodado com a escuridade d'aquelle caso
como se me faltassem ao respeito, não m'o communicando previamente e em
quatro palavras.--Então como é isso? A mãi quem é? onde estava a mãi?
como se perdeu a mãi? como se encontrou a mãi?...
--Se a tua impaciencia consente, conversaremos de espaço--objectou o meu
amigo;--mas peço á tua sofrega curiosidade que se contenha até á noite.
Vou d'aqui ao recolhimento da Tamanca procurar um velha chamada Anna de
Jesus, que é mãi d'esta baroneza. Já sabes quem é a mãi, onde está a
mãi, como se encontrou a mãi. Depois te direi como se perdeu...
--A dita mãi? Pois até logo. Confio em ti.
* * * * *
Reduz-se a poucas linhas tudo que o sujeito me disse. A baroneza nascera
em uma aldeia, visinha do Porto, á beira-mar, chamada Nevogilde. Seu pai
era official-calafate; sua mãi era filha de um agricultor remediado. Os
paes amaram-se, e propagaram _extra-matrimonium_, como diz o snr.
professor e historiador Viale, quando dá noticia dos filhos bastardos
dos reis. O artista safou-se para o Brazil. A menina ficou com sua mãi,
que a teve comsigo até aos quatro annos, vestindo-a e alimentando-a com
aceio e abundancia, em quanto lhe durou o producto de uns grossos
cordões de ouro, que herdára d'uma parenta. Seus paes expulsaram-na de
casa, e obrigaram-na a esconder-se com o escandalo da filha em outra
aldeia proxima de Leça.
Quando se lhe exhauriram os recursos, Anna de Jesus foi servir para o
Porto, deixando Amelia aos cuidados de uma gente pobre, a quem entregava
mensalmente os seus salarios; porém, como não bastassem á alimentação da
filha, resolveu entregal-a aos parentes do pai, que eram proprietarios
em Mathosinhos.
Isto dizia a baroneza que lh'o referira o marido; mas não sabia contar
como a levaram de Leça para o Pará, quando tinha seis annos. Lembrava-se
de ter sido apertada nos braços de um homem, que fôra a bordo, e lhe
chamára filha; que esse homem a levára para um collegio allemão, d'onde
nunca mais sahira, senão aos dezoito annos para casar com um negociante
rico, pardo e velho, que, ao depois, se fez barão.
Acrescentava que via seu pai no dia 1 de cada mez e que nunca lhe
perguntára por sua mãi. E, por lh'o referir o marido, soubera que seu
pai a não levava a casa, porque era marido de uma riquissima mulata,
velha e doente, de quem esperava herdar tudo, a não intervir entre elles
algum caso que irritasse o genio ferocissimo da esposa. Mais dizia a
baroneza que a mulata acabou os seus dias antes de acabar a paciencia do
marido, e o instituira herdeiro; mas, como lhe tinha empeçonhado o
sangue, pouco lhe sobrevivera o viuvo. D'onde resultou ficar Amelia
opulenta herdeira, sob a tutela do paraense que a fez sua mulher.
Concluiu, finalmente, a baroneza, mostrando ao meu amigo de Braga dous
numeros do _Periodico dos Pobres_, do Porto, de agosto de 1845, os quaes
ella encontrára nas gavetas de seu pai, e d'onde inferira o pouco que
sabia do seu nascimento, e se lhe afervorára o filial desejo de procurar
sua mãi, e afortunar-lhe os ultimos annos, se ella, por ventura de
ambas, existisse.
Mostrou-me o meu amigo os dous numeros do _Periodico dos Pobres_, que
diziam assim:
«MENINA PERDIDA.--No dia 31 de julho pelas 8 horas da noite appareceu
batendo a uma porta na rua de Sant'Anna, freguesia de Mathosinhos, uma
linda menina, de idade de 4 annos, branca, bem nutrida, cabello louro
liso, com uma trança de perto de um palmo, olhos grandes azues, vestido
curto de cassa riscada de vermelho, guarnecido de trancelim; calça de
paninho branco com dous entremeios de renda; saia de paninho, e outra de
baeta de algodão; collete de atacador de linho; chapéo de papelão
coberto de sêda verde; sapatos de duraque cinzento acoturnados com
botões ao lado, meia comprida de linha, ligas de fitas de nastro cosidas
nas meias;--diz chamar-se _Amelia_, e que a mãi se chamava _Anninhas_, a
qual vivia com um _snr. Antonio_. Esta criança foi vista ás 6 horas da
tarde na estrada de Mathosinhos na companhia d'uma mulher de mantilha e
vestida de preto, e um individuo de pouca idade vestido de calça e
jaqueta azul e boné.
«Estes individuos haviam convidado uma mulher para levar a criança ao
collo até Mathosinhos; como elles fossem ficando muito para traz, dando
a entender desejarem livrar-se da criança, a mulher desconfiou d'alguma
cilada, e os obrigou a tomarem conta da criança. Convidaram então um
rapaz a quem prometteram 50 reis, o qual a levou ao collo, até que,
vendo-se de repente abandonado dos ditos individuos, a deixou no lugar
indicado e fugiu. A criança diz que a sua casa é perto do rio; que
continuadamente via barcos; que ia aos banhos com a mãi; que fugia para
a ponte do rio; e que o snr. Antonio ralhava; que brincava com outra
menina que morava no andar de baixo, chamada Julia, a qual tinha bonecos
para brincar, etc. Suppõe-se que tinha sido furtada a seus paes, ou por
elles abandonada, e por isso se publica este facto para conhecimento de
quem pertencer; a criança está em poder do actual administrador do
concelho de Bouças em Mathosinhos.»
Até aqui o numero de 3 de agosto. Segue o numero de 6:
«No dia immediato áquelle em que a menina foi encontrada, achou-se atraz
da parede n'um campo uma trouxa de roupa de criança, e uma carta; foi
tudo apresentado ao administrador do concelho, que pelo seu conteúdo
descobriu a historia d'aquelle acontecimento, os nomes dos paes e
parentes, etc. Era remettida pela mãi aos parentes do pai, por este se
achar ausente no Brazil, e pela falta de meios que ella tem para se
sustentar, acrescendo achar-se enferma. Parece que os parentes a não
quizeram receber, e que o rapaz que a conduzia, voltando ao lugar da
estrada de Mathosinhos d'onde havia deixado os individuos que lh'a
haviam entregado, não os encontrou, e, temendo comprometter-se, a lançou
n'um campo com a trouxa e fugiu.
«O administrador do concelho obrigou a familia do pai, residente em
Leça, a tomar conta d'ella, o que teve lugar no dia 3 do corrente á
noite, em quanto se não descobre onde pára a mãi para se verificar até
que ponto sejam verdadeiros os factos de que se faz menção n'aquella
carta. Varias pessoas teem querido tomar conta da menina; porém isto não
tem podido ter lugar em vista do que fica exposto, e porque os parentes
do pai estão em circumstancias de podêl-a sustentar.
«Consta ultimamente que a mãi fôra para Braga, chama-se _Anna de Jesus
Lima_, tem sido criada de servir em algumas casas d'esta cidade.»
Na margem do jornal, onde está escripto: «diz chamar-se _Amelia_, e que
a mãi se chamava _Anninhas_, a qual vivia com um snr. _Antonio_»--o pai
da baroneza, sublinhando o nome appellativo _Antonio_, escrevera umas
palavras que estavam cancelladas e inintelligiveis. O mesmo succedia
mais abaixo, no ponto em que se diz: «que fugia para a ponte do rio, e
que o snr. _Antonio_ ralhava.» Parece que este «Antonio», commentado á
margem, explicava o silencio do marido da mulata a respeito da mãi de
Amelia. Eu não sei nada positivo a tal respeito, nem formei ainda
opinião com que possa alumiar a vereda de ulteriores pesquizas.
* * * * *
O que sei é que no recolhimento da Tamanca existia, desde 1855, Anna de
Jesus, como criada de uma velha fidalga que para alli entrára em 1834,
obrigada pela moral que a condemnára a expiar na clausura uns amores de
gran vilta para seus avós. Sei mais que Anna de Jesus sahiu do convento
sem verdadeiramente saber a razão porque sahia, pois lhe disseram que ia
tratar com os seus parentes a restituição da legitima que lhe haviam
extorquido. Que foi recebida no quarto da baroneza para quem olhou com
respeitoso assombro vendo-a coberta de velludo e pelliças de varios
feitios. E que, ao vêr-se abraçada por aquella senhora, rodeada de
pretas, e lhe ouvira pronunciar a palavra _mãi_, perdera os sentidos, e
os recobrára, dizendo extravagancias. Finalmente, como a felicidade não
faz endoudecer ninguem--para se não parecer com a desgraça--Anna de
Jesus, remoçada, alegre até ás lagrimas, e a cuidar sempre que a sua
vida era um sonho, foi para o Pará com sua filha, tão angelica, tão
santa que lhe perdoou o desamparal-a do seu amor de mãi, por onde lhe
adveio o acaso mais amparador da riqueza, que somma 1:000 contos, 500 da
mulata do pai, e 500 do marido mulato.
E mais nada.
O HEROE DA ILHA TERCEIRA
Cypriano, Ciprião ou Scipião. O leitor conhece o valente governador da
ilha Terceira, o portuguez intransigente com Castella, o partidario
inflexivel de D. Antonio, prior do Crato, que reinou uma hora em
Santarem, outra hora em Setubal, a derradeira hora entre a plebe de
Lisboa. Onde elle reinou deveras foi no coração e na consciencia dos
seus raros amigos.
Os historiadores portuguezes chamam _Cypriano_ ao heroe dos Açores; os
francezes chamam-lhe _Scipião_, nobilitando-o, por analogia do nome e
dos feitos, com o general romano. Nas Provas da Historia genealogica da
casa real leio _Ciprião_. Elle mesmo a si se chamava _Scipião_, para não
desfazer no glorioso nome que Henrique IV lhe dava, e Philippe II
tambem, como ironia ou como lisonja[10].
Procedia de estirpe illustre, não tanto como diz uma neta de seu irmão
Sebastião Gomes de Figueiredo. Esta neta é mad. Gillot de Sainctonge,
que, em 1696, publicou a _Histoire secrete de Dom Antoine Roy de
Portugal, tirée des memoires de Dom Gomes Vasconcellos de Figueiredo_.
Engrandece a poetiza franceza a prosapia de sua mãi com a costumada
ignorancia dos francezes quando entendem comnosco. Diz que _Jean, fils
de Pierre, le Justicier, roy de Portugal, épousa Marie fille de Martin
Alfonse Tello, & d'Aldonze de Vasconcellos soeur de la reine Eleonor,
femme de Ferdinand_.
Que mixtiforio ahi vai!
Se Aldonsa (ou Dulce) de Vasconcellos podesse ser irmã de Leonor Telles,
nem assim Scipião de Figueiredo procederia, por _Vasconcellos_, d'essa
linhagem.