de Teixeira Bastos, _O Rosquedo_ (scenas do Minho), _Ares do Minho_
(contos).--Critica litteraria: _A viagem por terra do sr. João
Penha_.--Verso: _Lisboa negra_, _Confidencias_, _Evangelho_, _Não!
mil vezes não!_, _Sim! mil vezes sim!_, _Sonho Garretteano_, _A
Virgem do Castello_ e _Outonaes_.--Theatro:--_Aldeia na Côrte_, de
collaboração com D. João da Camara. (3 actos--Th. D. Amelia),
_Juramento sagrado_ (1 acto, verso.--Th. D. Maria). Traduziu a
_Dama das Camelias_, de Dumas, filho; reviu e publicou as
_Saudades_ de Bernardim Ribeiro e as _Trovas de Crisfal_, do mesmo
auctor. Fundou e dirige a Bibliotheca Classica Popular. Collaborou
longo tempo na _Mala da Europa_, _Provincia_, _O Lima_, _Chronica_,
_etc._ Varias obras de Delfim Guimarães teem já 2.^a edição,
estando algumas outras exgotadas.
Desde longos tempos até este anno 1908 da era de Xpõ, como escreviam os
nossos velhotes, tudo era suppor que, ahi por alturas de mil quinhentos
e tal da mesma era do Senhor, viveu, floresceu, e ninguem mais soube
d'elle, certo _Crisfal_, poeta e namorado, que toda a gente indicava
como sendo Christovão Falcão, um Christovão Falcão que se sabe agora
escrever como um carreiro e ter mais erros de orthographia do que
cabellos tinha na cabeça... se a Historia não provar que elle era
careca. Indicava se Christovão Falcão tacteando. Para manter a suspeição
havia só o corresponder o pseudonymo _Cris fal_ ás primeiras sylabas do
nome do supposto poeta. Longo tempo a mentira prevaleceu e longo tempo
os doutos acceitaram de boamente a patranha, uns supplementando-a com
fabulações _á priori_, outros asseverando que tal era porque era e «por
ser verdade passavam a presente que assignavam».
Caminhava tudo em doce paz quando Delfim Guimarães, publicando o livro
de que nos occupamos, desfez a lenda, tombou os castellos e pôz a cousa
nos devidos termos. Mas vamos ao que importa.
«De como e porquê Delfim Guimarães achou que _Crisfal_ não passou de um
pseudonymo de Bernardim Ribeiro e de cousas varias que ao deante se
verão», é um capitulo que, n'esta critica, deve interessar o leitor,
agora que já sabe que tal _Crisfal_ nunca existiu.
Delfim Guimarães é um estudioso e um devotado. Manuseia os classicos com
a mesma curiosidade com que aguarda o ultimo livro de Anatole France ou
o novo romance de Octave Mirbeau.
Ha tempo, dirigindo uma collecção, publicou as _Saudades_ do nosso
Bernardim, auctor que, por sua natural tristura e dulçorosidade, desde
menino e moço mais o prendia e captivava. Tudo estaria bem até aqui se,
mente cogitativa e emprehendedora, não scismasse em publicar uma
Bibliotheca de Classicos animado pelo exito das _Saudades_. Uma
Bibliotheca de vulgarisação, destinada a mostrar á alma do vulgo o
escrinio das melhores joias dos nossos antepassados.
Anteriormente uma natural curiosidade o levara a estudar os poetas que
se apontavam como maiores amigos de Bernardim: Sá de Miranda e
_Crisfal_, o celebrado Christovam Falcão que hoje deve ás musas a
celebreira que por seculos desfructou,--elephante que conseguiu passar
por canario, o animal.
A extraordinaria semelhança de _Crisfal_ a Bernardim, os mesmos
lamentos, a mesma situação amorosa, os mesmos queixumes; a ausencia
absoluta de noticias e referencias na obra de Sá de Miranda e Bernardim
ao poeta coevo e imitador, tudo isto deu a Delfim Guimarães a certeza de
que _Crisfal_ e Bernardim era o mesmo, só, e altissimo poeta. Além
d'isto nenhum documento da epocha autorisava a pôr a carapuça _Crisfal_
em cabeça de Christovam Falcão. O mesmo editor de Bernardim, edição de
1554, onde se acha incorporada a «Egloga chamada Crisfal» escreve,
referindo-se-lhe: «_que dizem ser_ de Christovam Falcam, ho que parece
alludir ho nome da mesma Egloga».
Estudado o contemporaneo Christovão Falcão, vê-se que elle era pouco
menos de bronco e não poderia ser nunca o auctor da _Egloga_. Adquirida
a certeza, que era _Crisfal_? E logo, deductivo, Delfim Guimarães achou
a chave. É _crisma falso_, pois que na Egloga se move a mesma
passionalidade de Bernardim com supositicios nomes--falsos crismas.
O livro do escriptor é ilustrado com um fac-simile de uma carta do
pretenso Christovam Falcão e acompanhado de uma arvore genealogica dos
Falcões. De uma logica cerrada e inteligente, preciosamente documentado,
é um trabalho collosal que dará echoantissimo nome ao seu auctor. E
enquanto se não perder na memoria das gerações o nome do bardo amoroso,
o triste Bernardim, o nome de Delfim Guimarães não se desacorrentará da
gloria de ter focado com intensa luz um tão curioso e deturpado caso da
litteratura portugueza.
Lá fóra esta obra faria não só a gloria mas o nome de um trabalhador. As
Academias levar-lhe-hiam o seu _fauteuil_ estofado, e os editores
disputariam a honra de lhe pagar.
Cá dá desgostos, nada mais.
O illustre publicista José Sampaio (Bruno) chegára ás mesmas conclusões.
Anselmo Braamcamp Freire vae publicar um trabalho curiosissimo sobre
Maria Brandão; José Caldas é da opinião de que se achou a verdade. Quem
resta? Carolina Michaelis, cuja opinião importa saber, e Theophilo
Braga, que discorda.
As impugnações que Delfim Guimarães fez aos livros de Theophilo estão em
aberto. E Delfim veio com este seu trabalho não só elliminar um
Christovam da litteratura e uma Maria das muitas Marias enamoradas, mas
fazer luz sobre uma poesia de Camões falsamente attribuida a Bernardim
Ribeiro, e documentar que _sómente_ Sá de Miranda foi o introductor da
Escola Italiana em Portugal. Bernardim Ribeiro foi o introductor mas das
novas eglogas vergilianas.
Raro talento, muito estudo, aturada analyse, observação profunda e um
grande serviço prestado á litteratura, eis como julgamos o livro
_Bernardim Ribeiro_. Com ares impugnativos veio o sr. Jordão A. de
Freitas no _Diario de Noticias_ carretar materiaes para o rude e
esforçado prelio a travar-se. Não crêmos que o haja. Theophilo Braga,
porém, que tem estado silencioso, dirá de sua justiça. O trabalho de
Delfim Guimarães é probo e consciencioso. Merece o applauso
incondicional de todos, e que rejubile a litteratura que ainda tem
artistas que, fructo de seu labor, lhe dão tão bellas obras.
Albino Forjaz de Sampayo.
(Do jornal _A Lucta_, de Lisboa, de 16 de dezembro de 1908).
«Bernardim Ribeiro»
por Delfim Guimarães
A obra que Delfim Guimarães acaba de publicar é o producto d'um lucido
criterio aliado a uma habil quanto meticulosa investigação. Sem ser um
erudito nem rebuscador d'archivos, Delfim Guimarães, antes de encetar
quaesquer pesquizas, teve a maravilhosa intuição--ou elle não fosse um
poeta--de que os admiraveis versos do _Crisfal_, desirmanados no
decorrer do tempo da obra litteraria de Bernardim, constituiam com o
poetico romance de _Menina e Moça_, reflexos d'um mesmo espirito,
vibrações d'um unico coração.
É que o illustre critico interpretára com verdadeiro sentimento o genio
do infortunado poeta, levando a tal ponto a sua predilecção por elle,
que com as _Saudades_ abrira essa galeria de publicações classicas
portuguezas em edições populares vulgarisadas, cujo inicio no nosso meio
litterario a Delfim Guimarães se deve.
Toda aquella paixão do enternecido bucolista das _Saudades_, a fluidez
incomparavel d'essa linguagem que é na sua simplicidade uma mimica
d'alma e tem a harmonia d'um fio d'agua gorgolejante, tudo isso,--o
sentimento, que é a vida na obra d'arte, Delfim Guimarães foi encontrar
nas composições erradamente attribuidas a Cristovam Falcão.
Obtida a prova subjectiva de que o poeta das _Saudades_ era o trovador
do _Crisfal_--na realidade um criptogramma formado pelas primeiras
syllabas das palavras _crisma_ e _falso_--o distincto escriptor encetou
a investigação historica do que para elle fôra um presentimento e pelo
estudo feito sobre os documentos da epoca, seu confronto e
interpretação, conseguiu destruir n'uma argumentação irrefutavel e cheia
de brilho, a lenda feita tradição e cimentada pelo mais auctorisado
critico da nossa litteratura, que o trovador do _Crisfal_ nunca poderia
ter sido Cristovam Falcão.
A carta d'este moço fidalgo a D. João III, que Delfim Guimarães
transcreve na integra e que na edição de Theophilo Braga apparecera
deturpada, é inquestionavelmente a prova mais evidente--e outras não
houvesse com relação a datas--de que nunca o espirito trivial que
alinhavou aquelles periodos--se é que ali os ha--idealisaria a
enternecida ecloga do _Crisfal_, que é ainda, a alguns seculos de
distancia, n'esta epocha em que a arte possue riquissimos processos de
technica e a linguagem tanto ganhou em expressão emocional,--uma soberba
joia litteraria.
Nesta obra, tão cheia de revelações, começa o auctor por fixar em bases
positivas as _étapes_ da infortunada vida de Bernardim, desde o seu
nascimento no Alemtejo em 1482 até á sua morte no Hospital de Todos os
Santos, de Lisboa, em 1552, submerso nas trevas horriveis da loucura.
Depois com o esboço dos seus amores da adolescencia e paixão tragica que
votou a Joanna Tavares, que foi a mais intensa affeição de Bernardim e a
inspiradora do seu triste trovar, entra-se nos capitulos da exegese,
sendo todo o livro uma refutação completa das idéas correntes sobre a
problematica personagem do trovador do _Crisfal_. Nêle se visionam
muitos pontos de vista até então desconhecidos e se estabelecem novas
pistas para norteamento dos estudiosos, as quaes, certamente, muito
contribuirão para que todo o interessante enigma literario se desvele em
absoluto.
Nas suas curiosas investigações, fez Delfim Guimarães preciosos achados
que denotam uma grande subtileza nas suas faculdades de critico, como a
da poesia de Camões, erradamente atribuida a Bernardim, que se acha no
cancioneiro de Luis Franco, existente na Biblioteca Nacional de Lisboa,
tão interessantemente descoberta, e o das tres poesias constantes d'um
_pliego-suelto_ de 1656, da mesma Biblioteca, que o distincto escriptor
filia com boas razões no estro de Bernardim.
Mercê da linguagem castiça, tão saborosamente portugueza, de que o
auctor se serve, assim identificada com o thema historico versado, a
obra é por si só, e independente da maneira de vêr do auctor, o trabalho
honesto de um escritôr que é ao mesmo tempo um artista, n'essa evocação,
d'um tão forte relevo, das saudosas edades em que os poetas amavam mais
sinceramente e eram menos complicados, a arte não sendo como hoje um
_métier_ lucrativo, mas a manifestação espontanea d'um espirito no vôo
errante da inspiração.
Fecha o livro um curioso estudo sobre a vida de Cristovam Falcão e sua
genealogia, certamente o mais completo até agora.
Felicitamos Delfim Guimarães pelo seu valioso trabalho que vem deslocar
cómodos preconceitos arreigados e abrir novos horizontes aos que se
interessam--que são todos os portuguezes--pelo estudo da litteratura
portugueza no periodo aureo d'esta nacionalidade.
(Do jornal _O Dia_, de Lisboa, de 9 de janeiro de 1909.)
«Bernardim Ribeiro»
(O Poeta Crisfal)
É esta obra que perpetuará o nome do seu auctor, se bem que Delfim
Guimarães em precedentes trabalhos litterarios tenha já adduzido sobejas
provas para que lhe possâmos reconhecer um elevado grau de
intelligencia.
Com a publicação do volume cujo titulo encima esta noticia, o serviço
prestado por Delfim Guimarães á historia da litteratura patria está
sendo louvado tão extraordinariamente a ponto do sr. Albino Forjaz de
Sampaio, primoroso chronista da _Lucta_, não ter duvida em afirmar que
no Estrangeiro tal publicação franquearia ao seu auctor as portas d'uma
Academia.
O livro apresentado é o producto d'uma ardua tarefa em que pacientes
faculdades de investigação, alliadas a uma singular vivacidade, removem
com cauteloso tino os escabrosos obstaculos que tão ingrato estudo
frequentemente depára. Por isso é que, sem receio de contradicta, nos
afoutamos a asseverar que em Portugal ninguem melhor do que Delfim
Guimarães conhece o periodo da historia litteraria a que o mesmo
assumpto directamente respeita. E nem isso pode causar surpreza ao
leitor illustrado, uma vez que a arrojada affirmativa do illustre
publicista, que é por signal a _negação_ da existencia de Christovam
Falcão, como trovador quinhentista, demandava um minucioso exame
analytico a todos os documentos litterarios de então; e nisso só a mais
escrupulosa cautella conjugada com uma aguda perspicacia, como já
deixamos dito, poderia lograr o exito desejado.
Os materiaes que Delfim Guimarães colligiu para invalidar a
personalidade litteraria de Christovam Falcão, deixa-os elle dispersos
nos varios capitulos do seu livro, os quaes sobrepostos uns aos outros,
á medida que se vai avançando na leitura, introduzem em qualquer
espirito a certeza da these que o auctor se propoz comprovar.
De envolta com os persuasivos esclarecimentos allegados em prol do seu
proposito, o auctor rectifica raciocinios errados e affirmações
insustentaveis de Theophilo Braga, se bem que o sabor acre d'essas
frequentes correcções seja attenuado ou neutralisado quasi pelas
assucaradas referencias ao passado de tão incançavel trabalhador.
Pelo volume a que estamos alludindo vê-se que a obra de Bernardim
Ribeiro chegou para fazer a reputação de dous homens, vindo o nome de
Christovam Falcão usurpar em seu proveito algumas das produções
d'aquelle mavioso lyrico, e sendo, portanto, a sua memoria um nefasto
saprophyta que do merito alheio foi vivendo durante um longo periodo de
tempo. A duplicidade desapparece agora com as aturadas canceiras de
Delfim Guimarães que assim reivindica para o grande corypheu do
bucolismo em Portugal todos os fructos do seu prodigioso talento,
corrigindo um erro em que os bibliophilos laboraram durante seculos.
D'aqui resalta--e é esse um dos evidentes intuitos do auctor do livro em
questão--o desenho da verdadeira figura de Bernardim Ribeiro, com as
proporções proprias da sua gigantesca estatura litteraria, em cima do
seu elevado pedestal de gloria, pedestal a que algumas pedras foram
subtrahidas para sobre ellas figurar o ficticio vulto trovadoresco de
Christovam Falcão.
Em Portugal abundam os devotados enthusiastas de Camões e Camillo,
apparecendo agora um ardente propugnador d'outro nome tambem illustre, a
legitima-lo como uma das maiores glorias litterarias de que se pode
ufanar um povo. Esse nome é Bernardim Ribeiro e entrelaçado n'elle
apparecerá d'oravante o de Delfim Guimarães, que acaba de restituir a
obra do immortal bucolista á sua primitiva integridade.
Antonio Ferreira
(Do _Commercio do Lima_, de Ponte do Lima, de 9 de Janeiro de 1909).
«Bernardim Ribeiro»
Com este titulo e o sub-titulo de _O Poeta Crisfal_, tambem o distincto
escriptor a cujo nome, já tão merecidamente aureolado, fica feita
referencia na rubrica anterior, publicou recentemente um interessante
volume, apodado por esse proprio auctor de _subsidios para a historia da
litteratura portugueza_, e que não é nem mais nem menos do que a
demonstração a nosso vêr evidentissima, digam os _mestres_ pilhados em
deturpação o que quizerem, de que Bernardim Ribeiro e _Crisfal_ são uma
e a mesma pessoa, não sendo _Crisfal_ pseudonimo de Christovão Falcão,
mas sim um composto das primeiras sylabas das palavras _Crisma falso_,
de que Bernardim Ribeiro fez uso. Percorrendo se, com olhos de ver, e
com vontade de acertar com a demonstração explanada por Delfim
Guimarães, todas as 200 e tantas paginas do volume em questão,
adquire-se o convencimento de que ficaram por terra, uma a uma, «as
pedras basilares com que o nome consagrado do sr. dr. Theóphilo Braga
ergueu o monumento, aparentemente solido, que offertou ás lettras
patrias, fazendo quase real, palpavel, uma miragem secular»--que dava
_Crisfal_ como sendo Christovão Falcão, quando este não pertence senão
ao dominio da lenda, sendo uma perfeita mystificação a sua pretendida
existencia de litterato.
O trabalho de verdadeiro erudito, que representa o livro de Delfim
Guimarães, assignala de um modo inconfundivel o seu alto valor de
estudioso, de investigador benemerito e de operoso trabalhador das
nossas lettras. Felicitando-o cordealmente por esta nova prova das suas
excepcionaes qualidades, cumprimos apenas um dever.
A. B.
(Do _Jornal das Colonias_, de Lisboa, de 13 janeiro de 1909).
«Bernardim Ribeiro»
Temos retardado a noticia do apparecimento d'este livro notavel do
illustre poeta e prosador, sr. Delfim Guimarães, porque quizemos
consagrar á sua leitura algumas horas socegadas, afim de poder estudar
convenientemente o problema litterario que em suas paginas se debate.
Esta obra é o resultado de longas e aturadas investigações e de um
estudo conscienciosissimo, não só da obra de Bernardim Ribeiro, mas
ainda da obra de todos os poetas, apontados como seus amigos e
companheiros.
Cotejando os versos do iniciador do lirismo portuguez com os que se
attribuem a Cristovão Falcão, o sr. Delfim Guimarães facilmente
reconheceu que, embora pudésse admittir-se que a educação litteraria dos
dois poetas tivesse sido a mesma, não era possivel que as suas
tendencias esteticas fossem por tal maneira similhantes, que os seus
versos chegassem a confundir-se. Um d'elles teria sido seguramente o
imitador do outro.
Continuando nas suas indagações, e apreciando demoradamente a obra
supposta contemporanea de Cristovão Falcão, notou ainda o sr. Delfim
Guimarães que era frequente Sá de Miranda referir-se a Bernardim Ribeiro
nas suas obras poeticas, havendo tambem allusões repetidas, nos versos
d'este poeta, ao seu amigo e confidente. Ao auctor do _Crisfal_ não
notou a mais leve referencia.
N'aquelle bello poema havia allusões que alvejavam claramente Sá de
Miranda, e foi do estudo attento d'essas allusões, que perfeitamente
condiziam com as referencias das éclogas de Bernardim Ribeiro ao seu
amigo, que resultou chegar aquelle illustre escriptor a conclusões
inteiramente satisfatorias.
A analise de varios documentos de caracter historico e juridico produziu
no espirito do sr. Delfim Guimarães a convicção de que a personalidade
litteraria de Cristovão Falcão não existiu, sendo a obra que se lhe
attribue toda do autor das _Saudades_.
Houve, é certo, um Cristovão Falcão de Sousa, que foi moço fidalgo em
1527 e capitão da fortaleza de Arguim em 1545, mas este personagem, na
opinião de Delfim Guimarães, era incapaz de escrever a mais
insignificante das quadras de Bernardim Ribeiro.
Como se vê, é realmente muito notavel este livro, que os eruditos e
todos os que se interessam pelo movimento litterario portuguez,
certamente deverão apreciar pela intensa luz que projecta sobre um dos
principaes capitulos da historia da poesia nacional.
(Do jornal _O Primeiro de Janeiro_, do Porto, de 20 de janeiro de 1909).
«Bernardim Ribeiro»
por Delfim Guimarães
Não pode um povo viver sem ideal e esse ideal ha de ser como a flôr que
firma as raizes no terreno proprio das suas tradições. O futuro ha de
ser explicado pelo passado em que potencialmente está contido.
Assim, comprehende-se quanta importancia tem para a vida intellectual e
artistica d'um povo o conhecimento de tudo quanto se refere á evolução
litteraria dos generos e ás condições mesologicas em que os seus grandes
prosadores e poetas produziram monumentos de dura.
É por isso que lá fóra se não considera trabalho inutil todo aquelle que
consiste em escavar no passado, com paciencia e com intelligencia, para
d'elle desenterrar uma ideia, uma verdade, a correcção d'uma data, a
explicação de um texto obscuro.
É sobre este trabalho á primeira vista inglorio que philosophos e
historiadores edificam as largas syntheses, cuja necessidade é
redundancia encarecer para a comprehensão da psychologia d'um povo.
Entre nós, modernamente, nada ou quasi nada se tem feito n'esse sentido.
Os nossos manuaes de litteratura repetem cegamente o que estava dito e
feito, antes da descoberta dos modernos processos de critica e
interpretação do passado.
Apenas o sr. Theophilo Braga com louvavel tenacidade se tem consagrado á
especialidade, nem sempre sendo feliz, não só pela sua tendencia a tudo
systhematisar, forçando os factos para os encaixar nas suas concepções
aprioristicas, mas tambem pela vastidão do assumpto que é impossivel ser
abrangido pelo trabalho de um homem só, principalmente quando não teve
quem lhe preparasse o terreno.
Estas considerações accodem-nos a proposito do livro de Delfim
Guimarães--BERNARDIM RIBEIRO--que representa incontestavelmente o
acontecimento mais importante em historia litteraria do nosso tempo.
O facto, que é já do dominio publico, é este: Christovão Falcão, que
passava por auctor da ecloga «Crisfal», uma das joias da nossa
litteratura, foi na realidade um mediocre fidalgo, incapaz de produzir
aquella obra prima. O auctor d'esta foi, effectivamente, Bernardim
Ribeiro, o meigo poeta das «Saudades» que serviu de modelo e estimulo a
Luiz de Camões.
O livro de Delfim Guimarães, que é um modelo de investigação paciente e
de critica leal não deixa duvidas a tal respeito. Seria descabido aqui
repetir os argumentos que por ora ninguem desfez em que o auctor
fundamenta a sua sensacional descoberta.
Limitamo-nos simplesmente a consignar que se Delfim Guimarães revelou
uma extraordinaria sagacidade estabelecendo «a priori» a identidade de
Bernardim Ribeiro e do auctor de «Crisfal», a fórma cheia de probidade
por que procurou «a posteriori» justificar a sua opinião honra não
sómente as suas faculdades de investigador, mas tambem o seu caracter.
Quer nos parecer que, depois d'este precioso livro, a ninguem é licito
alimentar duvidas a tal respeito. E se se perde para o quadro dos nossos
poetas um nome, fica enriquecido e aureolado com gloria nova, mas que
lhe pertencia o doce e encantador namorado da «Menina e Moça».
A Delfim Guimarães os nossos parabens e, com elles, os nossos
agradecimentos.
(Do _Jornal de Noticias_, do Porto, de 8 de fevereiro de 1909).
Divagações
I
Só agora,--ainda que me não creiam--, só agora acaba de morrer, neste
anno da graça de 1909, um dos grandes bucolicos da época de ouro dos
escriptores quinhentistas!
Esse macrobio das letras, Mathusalem portuguez, de nome e de nação, era,
sem mais nem menos, Chistovam Falcão de Sousa, que, embora quatro vezes
secular, me parece, indefinidamente vivo continuaria se não o tivessem
acaso assassinado...
Companheiro, amigo e confidente de Bernardim Ribeiro, houvera entre os
dois, segundo Theophilo Braga, a infeliz conformidade de uma sorte
infeliz; pois, ao passo que aquelle se desperdiçava por amores, tambem
este por amores se perdia...
As celebradas «Trovas de Chrisfal» collocavam a figura de Maria Brandão,
«com a casta graciosidade de uma virgem de Cimabue, dentro de paisagens
que pareciam ter os traços do pincel de Giotto»; e toda a tradição
popular, já assignalada pelo chronista Diogo do Couto, era unanime em
considerar esse nome de «Chrisfal» como formado das duas primeiras
syllabas do prenome e appellido de Christovam Falcão. De outra parte, o
poema das «Saudades», ou a «Menina e moça», de Bernardim Ribeiro,
lembrava a desventurada paixão do poeta pelo typo feminil de Joanna
Tavares, que elle disfarçava com o pseudonymo pastoril de «Aonia».
Tão notavel se afigurava a individualidade literaria de «Chrisfal» que,
para a illustre romanista D. Carolina Michaëlis, elle teria sido o
creador do genero bucolico em Portugal, e Bernardim apenas o seu
immediato imitador; mas, tambem, a semelhança entre elles era tal que,
conforme a judiciosa observação do professor Simões Dias, «as obras de
um podiam passar como feitas pelo outro.»
E assim se devia entender e ensinar nas escolas, até que um novo
escriptor lusitano, o sr. Delfim Guimarães, nos apparecesse com um
trabalho recente e valioso, onde a toda luz demonstra, com grande
escandalo dos mestres, que Christovam Falcão é, sem menos nem mais, o
mesmo Bernardim Ribeiro, que adoptara nas «Trovas» o chris (ma) fal (so)
de Chrisfal». E a «Maria» de taes versos tambem constituia, a seu turno,
mais um cryptonymo de amor...
Por certo que existiu Christovam Falcão, e existiu naquelles mesmos
annos, mas o sr. Delfim Guimarães prova que semelhante personagem era um
ignorantaço de marca.
--Arranque-se-lhe, por conseguinte, e para sempre, o rutilante diadema
de poeta com que lhe cingiram a cabeça romantica... Puramente emprestada
era a luz que o sobredourava na historia,--luz que lhe não provinha do
merito, senão antes da phantasia dos criticos.
Em todo o caso, e emquanto houver a memoria dos homens, viverá o seu
«renome», attribuido apenas á felicidade do «nome»...