terra de Portugal--que hão de sentir-se escandalisados com a arrogancia
d'alguem que, contra a opinião dogmatica e ensinamento incontestado dos
grandes Sacerdotes, se abalança a demonstrar que os bucolistas Bernardim
Ribeiro e Chrisfal (pretenso anagramma de Christovam Falcão) são uma e
mesma pessoa; isto é: que o glorioso auctor da 1.^a parte da novella
pastoral «Menina e Moça» é igualmente auctor da celebre peça poetica
conhecida pelo nome da «Egloga de Chrisfal»--n'uma palavra, que o poeta
Christovam Falcão nunca existiu e que a maioria das composições poeticas
que andam com o seu nome pertencem de juro e herdade ao principe do
bucolismo entre nós, a esse surprehendente Bernardim Ribeiro, que é, em
toda a nossa litteratura, o vaso d'eleição d'onde mais trasborda o
sentimento augusto da alma portugueza.
Mas outra raça d'espiritos não menos solidos sorrirá piedosamente (e,
n'este caso, o sorriso é uma outra fórma de nos sentirmos
escandalisados) perante a utilidade proxima ou longinqua que póde
adquirir-se d'uma descoberta d'esta ordem.
Que importa ao bem do individuo ou da collectividade de hoje, que uns
versos repassados d'uma verdade sentimental, á força de sentida quasi
incomprehensivel,--versos, demais a mais vasados n'uma trama ingenua,
bucolica, pastoril, sejam obra d'um ou d'outro recuado quinhentista ou,
mesmo, tenham sido levados á conta d'um lendario personagem que, como
poeta, nunca tivesse existido, a não ser na phantasia d'uns novelleiros
de profissão que, com o rodar do tempo, conseguiram guindar a sua
improbidade litteraria aos pinaculos d'uma certeza irrefutavel?!
Pois essa arrojada impiedade e esse improductivo bysantinismo--esse
magno escandalo--acaba de perpetral-os o meu velho amigo Delfim
Guimarães, poeta de verdade, infatigavel estudioso, paciente
investigador, acurado cultista em materia litteraria, com a publicação
do seu recente estudo «_Bernardim Ribeiro_ (_o poeta Chrisfal_)», cujo
apparecimento estas ligeiras notas intentam celebrar.
O mesmo é dizer que me não sinto com forças para, pormenorisadamente,
passo a passo, ir vincando as passagens exegeticas d'este trabalho
masculo e delicado que revela, no seu auctor, uma erudição e um methodo
que eu entendo precisos n'aquelles que se propuzerem critical-o.
Não é, pois, um artigo critico o que vou fazer; mas se uma affirmação
sincera e sentida, de valor nimiamente critico, me é permittido
accentuar desde já, eu direi: Delfim Guimarães está na verdade.
Christovam Falcão, poeta, nunca existiu. Chrisfal é um pseudonymo de
Bernardim Ribeiro.
E isto porquê?!
Porque todos os que se occupam de Falcão o dizem pessoa de
qualidade--pertencia á primeira fidalguia portugueza, diz o sr. dr. Th.
Braga--e, quanto ao valor do seu estro, tanto era que mereceu ser
confundido com Bernardim Ribeiro seu amigo e confidente, quando não seu
predecessor. Como se explica, pois, que um tão illustre personagem não
figure no Cancioneiro de Resende, onde aliás se encontram, com tão
assombrosa profusão, nomes que, nem pela clareza da estirpe nem pelo
fulgor do engenho, se impunham á consideração dos posteros?!
É crivel que o erudito, o dedicadissimo collector que se chamou Garcia
de Resende--o homem, do seu tempo, que mais larga e intensamente privou
na corte dos nossos reis--não tivesse noticia d'uma individualidade tão
fortemente accentuada e tão parecida com o então e já apreciadissimo
Bernardim?! Não me parece.
Seria qualquer despeito, qualquer d'estas pequeninas miserias que se
transmudavam em acerbos espinhos d'odio (e ao tempo e antes e depois e
sempre tão vulgares!) que levariam mesquinhamente o celebre collector do
Cancioneiro a relegar, da convivencia dos seus 351 poetas, esse illustre
Chrisfal e ao mesmo tempo (segundo o ensinamento do sr. dr. Theophilo
Braga) a recolher, como de Bernardim Ribeiro, versos de Falcão?!
Não me parece. Gil Vicente, como é sabido, apodára cruelmente Resende, e
nem por isso deixou de figurar no Cancioneiro.
Estes simples e, quero crel-o, contestaveis argumentos levavam-me de ha
muito, a duvidar da existencia poetica de Christovam Falcão, só muito
mais tarde posta em fóco, entre outros, por Faria e Sousa, cujos
_escrupulos_ de caracter são por demais conhecidos.
Mas a simples argumentação sobre cancioneiros nem sempre é de colher,
como um facto recente me leva a constatar.
Ha dois annos (outomno de 1906) appareceu nas livrarias a seguinte
publicação: _Odysséa dos Tysicos--Album de Musicas para piano e canto,
original de Raul Pereira, sobre versos de poetas portugueses?_ É obra
musical do sr. Raul Pereira que, á falta d'outra indicação, entendo
dever tambem consideral-o como collector das varias poesias que o album
encerra.
A primeira d'estas poesias, posta em musica apparece sob um retrato com
esta epigraphe: _Guilherme Braga (1845-1874)_, e tem este titulo «_A
Jesus Crucificado_», e é como segue:
A Vós, correndo vou, braços sagrados
N'essa cruz sacrosanta descobertos
Que para receber-me estaes abertos
E, por não castigar-me, estaes cravados.
A Vós, olhos divinos eclypsados
De tanto sangue e lagrimas cobertos:
Que para perdoar-me estaes despertos
E por não devassar-me estaes fechados.
A Vós, pregados pés, por não fugir-me;
A Vós, cabeça baixa, por chamar-me;
A Vós, sangue vertido para ungir-me;
A Vós, lado patente, quero unir-me,
A Vós, cravos preciosos, quero atar-me,
Para ficar unido, atado e firme.
Devo confessar que ao ler este soneto nasceram-me duvidas--muito vagas,
é certo--sobre a sua authenticidade quanto ao nome que o firmava. E como
não o encontrasse entre as poesias colligidas nas _Heras e Violetas_,
assentei, á falta de melhor solução, que se tratava de uma poesia solta,
religiosamente recolhida por pessoa intima ou admiradora convicta do
insigne e mallogrado poeta portuense.
N'isto estava, quando o acaso d'uma busca litteraria me levou a folhear,
na Bibliotheca Publica, _O Ramalhete_, «jornal de Instrucção e Recreio»
(2.^a série, n.^o 165, 4.^o anno) e a encontrar, a paginas 112 do vol.
IV, o mesmissimo soneto, sem descrepancia d'uma unica palavra, sob esta
assás curiosa rubrica:
«_No momento derradeiro da vida humana, qual o estado de moribundo, nada
excita amor e conforto como a doce inspiração de abraçar um crucifixo,
unico remedio d'alma. Por este motivo fez o dr. Manuel da Nobrega o
seguinte soneto: «A Jesus Crucificado»_».
Portanto, teremos nós: os vindouros, que não leram o _Ramalhete_, a
attribuir a Guilherme Braga (que, segundo o sr. Raul Pereira, nasceu em
1845, embora Innocencio nos diga 1843) uns versos do dr. Manuel da
Nobrega, que vieram á estampa em 1841.
Veiu isto a proposito da confiança absoluta a depositar nos
cancioneiros. Verdade seja que entre Garcia de Resende e o sr. Raul
Pereira (que eu não tenho a honra de conhecer), o unico elo que os
prende deve ser, se não laboro em erro, o laço musical...
Outras razões, porém, antes do trabalho de Delfim Guimarães, me levavam
a pender para o arrocho da não existencia poetica de Christovam Falcão.
É certo que a Renascença produzira uma eclosão genial em todos os ramos
da vida sentimental, artistica e scientifica do occidente europeu, e que
nós tivemos largo quinhão nas benemerencias d'esse glorioso Sol--e tão
grande que ainda hoje d'elle vivemos. Mas é igualmente certo que, por
grande que fosse, e foi, a prodigalidade do estro que nos coube, não era
natural que dois vultos geniaes, a um tempo, surgissem tão parecidos,
tão irmãos na concepção sentimental, na realisação artistica e
até--suprema coincidencia--nos azares da vida amorosa! Delfim Guimarães
embrenha-se em trabalhos de genealogia e de exegese litteraria,
pacientemente cuidados, para nos infiltrar o convencimento que eu, sem
razões de peso e sem auctoridade para as formular, de ha muito _sentia_
da existencia d'um só poeta na obra de Bernardim e na obra de Chrisfal.
É, pois, para mim um livro de consolação. Por um lado, simplifica, no
meu espirito, um caso que se achava enredado nas malhas autoritarias,
embora convencionaes, de nomes respeitados; por outro, entorna, no meu
coração, o intimo, o ineffavel jubilo de ver alguem da minha estima e do
meu tempo elevar-se tanto, pelo trabalho intelligente e probo, n'uma
manifestação eloquente de força moral e espirito combativo de que tanto
carecemos.
E esta probidade litteraria não é coisa de pouca monta ou que alguem
possa dispensar-se de a encarar com o mais profundo respeito, porque me
hei de lembrar d'aquelle supremo prefacio do _Disciple_ de Paul Bourget,
quando elle se dirige á mocidade da sua terra: _Dentro de vinte annos
tereis em vossas mãos a fortuna d'esta velha patria, nossa mãe commum.
Vós sereis a propria patria. Que tereis recolhido nas nossas obras?
Pensando n'isto, não ha homem de lettras, por mais modesto que seja, que
não deva tremer de responsabilidade_...
Hemeterio Arantes.
(Do _Diario Illustrado_, de 2 de dezembro de 1908).
«Bernardim Ribeiro»
(O Poeta Crisfal)
_Subsidios para a historia da litteratura portugueza_, por Delfim
Guimarães. 1 vol. de 278 pag. Livraria editora Guimarães & C.^a
1908 Lisboa, typ. Libanio da Silva.
A velha sentença portugueza--_o seu a seu dono_ viria muito a propósito,
noticiando o apparecimento d'este livro, com que se pretende, e consegue
a nosso ver, reivindicar para o nome do grande poeta quinhentista a
autoria e a glória de differentes producções que inconscientemente
andavam attribuidas a outros. E se não fosse a bella coragem do sr.
Delfim Guimarães, nosso antigo e presado amigo, que sendo poeta muito
primoroso é tambem investigador ordenado e pacientissimo, o deploravel
engano continuar-se-ia por muito tempo, ou, peor ainda, não se
desvaneceria jámais talvez.
Entre outras, a lenda de que existira um Christovam Falcão, pretenso
poeta de tão alto valor como Bernardim Ribeiro, e, assim, auctor tambem
de maviosos versos, principiara a correr mundo em 1554, dois annos
depois de fallecido este, e teria origem, parece, em certa nota posta
n'uma edição pouco criteriosa feita n'aquelle anno, de differentes
poesias, esparsas umas, outras logo colligidas após a morte de
Bernardim, edição onde veem de mistura com a _Historia de Menina e
Moça_, diversos motes, cantigas e églogas e entre estas, (diz a tal
nota) «_h[~u]a muy nomeada e agradavel... chamada Crisfal, que dizem ser
de Christovão Falcam, ho que parece alludir o nome da mesma egloga_...»
D'isto, e de outras investigações pacientemente realizadas pelo sr.
Guimarães resulta a presumpção de provir a dita lenda principalmente
d'aquellas vagas referencias e a allusão que o editor julgou encontrar
em o nome de Crisfal do facto de serem as duas syllabas de que elle se
compõe eguaes ás primeiras dos dois nomes *Cris*tóvam e *Fal*cão. Mas
isto, que não constitue prova e não passa de mera hypothese, teria de
cahir redondamente, quando se verificasse que esse Falcão era homem de
poucas lettras e, portanto, incapaz de produzir trabalho de tanta valia
como é a _Égloga de Crisfal_.
E assim succederia talvez se o sr. dr. Theophilo Braga não houvesse, em
má hora, pretendido transformar a hypothese em lei, apresentando como
definitivamente adquirida para Falcão a paternidade d'aquella e de
outras poesias de altissimo valor litterario.
Não seguiremos o sr. Delfim Guimarães na critica acerba, se bem que
correctissima, com que se refere a este erro do sr. dr. Theophilo Braga
e ainda a muitos outros. Este operoso escriptor dirá de certo da sua
justiça, não deixando, d'esta vez, mal parada a sua fama de erudito. E,
sendo como é, sempre consciencioso nos seus trabalhos de historiador
litterario, virá certamente á estacada, para explicar a razão do seu
engano.
Muitos outros descobrimentos são indicados n'esta valorosa
reivindicação, não se mostrando possiveis mais duvidas a respeito da não
existencia de Christovam Falcão, poeta, e parecendo ao contrario
definitivamente provado que o nome de Crisfal fôra um dos muitos
pseudónymos e anagrammas adoptados por Bernardim Ribeiro nas suas obras.
Tambem graças ao indefesso trabalho do sr. Delfim Guimarães ficará
pertencendo irrevogavelmente ao poeta de _Menina e moça_ não sómente a
celebre égloga, mas ainda outras poesias attribuidas a diversos e que
veem apontadas ou reproduzidas n'este volume.
Em compensação, porém, algumas até agora emprestadas ao bucólico poeta,
lidima gloria das lettras portuguezas, terão de passar para outros, com
o que, seja dito de passagem, a exceptuarmos o solau[11]--_Pensando-vos
estou filha_, que o sr. dr. Theophilo Braga deu, tambem levianamente,
como de Bernardim, sendo aliás de Camões, nada virá a perder o nome de
Bernardim Ribeiro--antes pelo contrario!
N'este trabalho notavel do sr. Guimarães, obra de paciente investigação
e bem disciplinado criterio, faz-se referencia a muitos outros factos
interessantes, que nos abstêmos de contar, porque do livro apenas
pretendemos dar rapida noticia; mas todos os elogios serão poucos a quem
com coragem estréme veio inteirar a gloria de Bernardim Ribeiro que,
desventuroso poeta, de uma parte d'ella havia sido espoliado.
Muito agradecemos a captivante offerta de um exemplar de _Bernardim
Ribeiro_, com que fomos brindados pelo auctor.
(Da _Mala da Europa_, de Lisboa, n.^o 669, de 6 de dezembro de 1908).
Ainda Chrisfal
Longe estava de ver tão depressa e amplamente confirmada a minha
asserção de que o trabalho de Delfim Guimarães «_Bernardim Ribeiro (o
Poeta Crisfal)_» era, para mim, um «livro de consolação», quando o
_Diario de Noticias_ de 3 do corrente, sob a epigraphe «_Academia de
Sciencias de Portugal_» me trouxe esse verdadeiro manjar (para lhe não
chamar capitoso petisco...) espiritual á minha insaciavel fome de
aprender.
É como segue a passagem, que me interessa da local jornalistica em
questão:
«_Em seguida_ (o sr. dr. Theophilo Braga) _realisa uma communicação
sobre Bernardim Ribeiro e Christovam Falcão mostrando como a vida
amorosa d'este oscilla entre 1525 e 1565, senão n'aquella data moço
fidalgo, e tendo pelo menos 12 annos, ao passo que aquelle era já idoso;
evidencia como na Égloga transparecem diversas situações da vida de
Christovam Falcão, e termina por invocar as opiniões de Diogo Couto,
Gaspar Fructuoso e outros que comprovam a existencia das duas
individualidades que apesar de similhantes n'algumas situações da vida,
não podem jámais confundir-se_».
Eu imagino estar vendo estas palavras cahir do labio venerando, sobre a
douta assembleia, como outras tantas perolas que, depois de serem ali
devidamente apreciadas, resvalaram cá p'ra fóra, para o monturo anonymo,
offerecidas em repasto magnifico aos cerdos iconoclastas.
Bacorejemos, pois, as preciosas gemmas...
Diz o Mestre que a _vida amorosa_ de Christovam Falcão oscilla entre
1525 e 1565, sem ficarmos sabendo se a sua _vida poetica_ tambem oscilla
dentro do mesmo periodo, isto é: se a actividade _amorosa_ e a
actividade _poetica_ de Chrisfal se confundem, caminham a par-e-passo ou
se, pelo contrario, é o amoroso que precede o vate, se este antecede o
namorado.
Eu, por mim, se alguma coisa entendo n'esta complicada psycologia, estou
em dizer que, em geral, as duas actividades se confundem, são
isochronas, e, segundo este criterio, Falcão só poetou com exito desde
1525.
Não póde elle, pois, ter figurado no Cancioneiro de Resende, que tem a
data de 1516, como o sr. dr. Theophilo Braga pretendia até ha uma duzia
d'annos atraz--opinião que depois modificou no seu trabalho, sobre
Bernardim Ribeiro, que veio á estampa em 1897.
Mas o Mestre, em 1897, deixou de lhe dar entrada no Cancioneiro pela
subtil razão de que Chrisfal não poetára nos Serões da côrte por
pertencer ao _ramo pobre_ dos Falcões. Lembrança exegetica que nos leva
a concluir que todos os poetas do Cancioneiro poetaram nos ditos serões
e demais a mais com a escarcella bem provida d'aureos recursos--embora
muitas e muitas poesias d'aquella grandiosa collecção resvalem da
casuistica amorosa, que é a caracteristica da poetica palaciana, para a
lucta dos interesses em que se revela a necessidade do vil metal.
Mas agora que o insigne Professor colloca a vida amorosa de Falcão entre
1525 e 1565, pergunto eu: permanece este argumento para a sua exclusão
do Cancioneiro ou teremos de assentar que Chrisfal n'elle não figurou
pela simples razão de, em 1516, andar ainda com coeiros?
Naturalmente teremos de optar por esta ultima versão e, portanto, pôr de
banda a sua amisade e apregoadas confidencias com o auctor das
_Saudades_.
Fica de vez assente, pois, que Christovam Falcão não foi poeta do Seculo
XV.
Proponho-me agora provar, _currente calamo_ (como não pode deixar de ser
tratando-se d'alguem que se não familiarisou com _os processos
inductivos da critica moderna_... ) que Christovam Falcão tambem não foi
poeta do Seculo XVI, como agora pretende o sr. dr. Theophilo Braga.
E isto porquê?!
Porque eu posso duvidar (ainda que me apodem de irreverente pedantismo)
das, por vezes, arrojadas conclusões chronologicas do insigne Professor.
Mais anno menos anno, mais seculo menos seculo são, para os grandes
Generalisadores, coisas d'uma importancia mediocre. Outro tanto me não
succede, quando a generalisação visa um assumpto basilar na essencia, no
modo de ser do facto scientifico.
E é este o caso. Cristovam Falcão foi poeta entre 1525 e 1565?!
Ouçamos o sr. dr. Theophilo Braga:
«Se Cristovam Falcão escrevesse depois de 1527, quando Sá de Miranda
propagou as formas da poetica italiana, teria então adoptado o verso
endecasyllabo, e a fórma da _outava_, do _terceto_, e trocaria pelo
_soneto_ o conceite provençalesco dos que ainda seguiam o typo do
Inferno de Amor (_Bern. Rib. e os Bucolistas_, pag. 141)».
Na edição refundida do seu Bernardim Ribeiro, publicada em 1897, esta
affirmação cathegorica permanece igual ou identica, como, aliás, não
podia deixar de ser.
Demos de barato que se possa ter opinião diversa da do insigne lente do
Curso Superior de Lettras, o que ninguem póde é contrariar a _realidade
historica_, porque, como é sabido, contra factos não ha argumentos.
E esta _realidade_ diz-nos que, depois de Sá de Miranda, não houve um
uníco poeta que não tivesse experimentado as formas petrarchinas e o
verso heroico.
Houve um dr. Antonio Ferreira que nunca em sua vida fez um verso de
_medida velha_; houve muitos, e entre elles o proprio iniciador da
poetica italiana, que não desdenharam a redondilha e os velhos
agrupamentos metricos. De quem poetasse _exclusivamente_ pelos antigos
processos... não consta.
Logo, a não ser que rasguemos a _logica_ do Mestre e a _verdade_ da
Historia, Christovam Falcão não encontra cadeira onde se sente, nem na
vasta saleta da poesia palaciana, nem no refulgente salão do Seculo de
Quinhentos!
* * * * *
Uma passagem do meu ultimo artigo teve o condão d'excitar duas
communicaçôes que amavelmente me foram endereçadas.
A primeira, d'um amigo, que me escreve: «Sobre o soneto attribuido a
Guilherme Braga, devo dizer-lhe que o auctor do mesmo não é o dr. Manuel
da Nobrega, mas sim outro poeta.»
Claramente, corri logo a casa d'este amigo que me aconselhou uma
intervista com o insigne bibliophilo e bibliographo sr. Annibal
Fernandes Thomaz, o que, para mim, foi d'um prazer espiritual, como, de
ha muito, me não era dado gosar.
Annibal Fernandes Thomaz é pessoa familiar a todos que n'este paiz se
occupam de livros e--coisa rara!--a todos sorri, a todos mette no
coração e em todos tem um admirador dos seus vastissimos conhecimentos
e, o que é mais, um amigo devotado das suas grandes qualidades.
Disse-lhe ao que ia; mas, como da nossa conferencia resulta uma resposta
á segunda communicação que recebi, é bem que n'este momento aqui fique
exarada essa communicação.
Trata-se d'um bilhete-postal anonymo, e, se quebro a minha velha praxe e
o bom-conselho de todos de lançar para os papeis inuteis esta ordem de
documentos, é porque se trata d'um assumpto litterario e o meu
correspondente, por qualquer razão se não querer fazer conhecido, o que
muito me contraria. Diz assim:
«O soneto que v. reproduziu no _Diario Illustrado_ tem mais de dois
seculos. Bastava o estylo para o denunciar seiscentista; mas a prova
positiva está em a Nova Floresta, terceiro tomo, tit. V, apopht. LIV.
Permitta-se a um obscuro padre dizer mais. Com essa ancianidade de taes
versos toma nova força o contra argumento de v. sobre o silencio dos
cancioneiros a respeito de Crisfal. Na margem do soneto pag. 207, da
edição da _Nova Floresta_ de 1759 (4.^a impressão que tenho á vista) lê
se o nome do autor assim: _Do Doutor Manuel da Nobrega_. Quem fez um tal
soneto, tão seriamente engenhoso, apesar do gongorismo, e tão bem
metrificado, havia de ter mais poesias: e sendo _doutor_, não era um
desconhecido. Que temos d'elle na _Fenix Renascida_? Quem o conhece?
Alguns annos ha, o soneto reproduzido anónimo em muitos livros devotos,
foi publicado em o _Novo Mensageiro do Coração de Jesus_ (revista
piedosa mas de muita litteratura) com a indicação, que a minha memoria
aproveitou agora, da _Nova Floresta_, e com uma nota que dizia ser o
nome do Dr. M. Nobrega desconhecido dos bibliographos.»
Vamos agora, rapidamente, ao resultado das pesquizas com Fernandes
Thomaz.
O soneto _A vós, correndo vou, braços sagrados_ encontra-se a fechar uma
dedicatoria a «Jesus Christo Senhor Nosso Crucificado» d'um curiosissimo
livro de 1734 intitulado «_Anacephaleosis medico theologica, moral e
politica_, etc., etc.», obra d'um tal Bernardo Pereyra, medico do
partido da villa do Sardoal.
O meu primeiro correspondente, que conhecia o livro, attribuiu
facilmente a Pereira a autoria do soneto, por não reparar nas palavras
que precedem a sua reproducção, e que dizem:
«...e finalmente como se consegue a gloria que é a melhor conclusão que
se tira depois de sahir da Universidade do mundo para as Escollas do
Céo; mas será bem, meu amoroso Jesus, _que antes de tudo diga com hum
devoto_ que hoje para renacer do estado da culpa ao da graça, que de vós
espero, para seguir o caminho por onde não vá precipitado, mas antes com
a vossa direcção fortalecido!
«_A vós correndo vou, braços sagrados_, etc., etc.»
Mas (e vae isto em resposta ao anonymo correspondente) tanto Barbosa, na
sua _Bibliotheca_, como Innocencio, no _Diccionario_, citam Manuel da
Nobrega, como auctor do _Epicedio inconsolavel á morte do Ser. Principe
de Portugal D. Theodosio que falleceu em 15 de maio de 1653_ e como
collaborador nas _Memorias funebres de D. Maria de Athayde_ fallecida em
22 de agosto de 1649.
É livro muito interessante estas «_Memorias funebres sentidas pelos
engenhos portugueses na morte da Senhora D. Maria de Athayde_». N'ellas
se encontram poesias em portuguez, francez, hespanhol, italiano, latim,
assignadas pelos nomes dos poetas mais illustres do tempo e, para não
citar outros, bastará lembrar os de Soror Violante do Céo e D. Francisco
Manuel de Mello.
Ao que parece tratava-se d'uma extremada formosura _doublée_ (como hoje
se diz) d'uma alma de eleição. _O Doutor Manuel de Nobrega_ concorre a
este florilegio poetico com um soneto e uma egloga. O soneto:
_Aquelle bello Sol, que amanhecia_, não desmerece, antes tem grandes
ares de familia com o que tem sido causa d'esta palestra... algo pesada.
Não quero, porém, terminal-a sem exarar o meu parecer de que o Soneto,
embora _culterano_, tem tão pouco de _gongorico_ que Guilherme Braga, ou
qualquer outro grande poeta de hoje, não desdenharia assignal-o, se essa
fosse _a sua corda_.
Hemeterio Arantes.
(Do _Diario Illustrado_, de Lisboa, de 9 de dezembro de 1908).
«Bernardim Ribeiro»
(O Poeta Crisfal)
Subsidios para a Historia da literatura portuguesa, por Delfim
Guimarães. 1908--Liv. ed. Guimarães & C.^a Lisboa--8.^o, 274 pag.