«De tudo o que diz aqui o arcediago de Barroso concluo, que não só

elle ignorou a existencia da moderna edição da _Menina e moça_,

feita em Lisboa no anno de 1785, mas tambem só conheceu de nome as

edições anteriores sem que lograsse ter presente algumas d'ellas,

pois que a tel-as visto, nenhuma novidade encontraria nas duas

éclogas que cita do tal manuscripto, onde pelo que se mostra

faltavam todas as outras já então impressas.»

Não conheceu Innocencio a edição das obras de Bernardim Ribeiro

publicada em Ferrara em 1554, porque se a houvesse conhecido logo

concluiria que o manuscrito examinado pelo arcediago de Barroso outra

cousa não era mais do que uma cópia incompleta d'essa edição.

Ignora o, porventura, o snr. dr. Theóphilo Braga?

Se o não ignora, para que veio a público com a citação incompleta da

passagem do Diccionário de Innocêncio?

Bom serviço prestou o arcediago de Barroso trasladando o período inicial

na novela na edição de 1554, conforme o manuscrito que teve entre mãos:

«Menina e moça me levaram de casa de minha may...»

*7*

«Para que chamar ineptos aos editores de Ferrara de 1554 e de

Colonia de 1559, por terem reproduzido esses textos manuscriptos

como os encontraram?»

_Do artigo «Movimento litterario»_.

Chamámos ineptos aos editores das obras de Bernardim Ribeiro, e que não

erramos em nossa apreciação demonstra-o evidentemente o próprio snr. dr.

Theóphilo Braga, quando na carta que nos escreveu, referindo-se ás

edições de Ferrara e de Colónia, diz terem sido feitas _por curiosos sem

critério litterário_.

Se esses curiosos não fossem ineptos, podia porventura o ilustre

professor negar-lhes _critério_?

As rúbricas da edição de Colónia, em 1559, são reprodução das de 1554,

como o snr. dr. Theóphilo Braga não desconhece.

Pertencem as rúbricas da edição de 1554 ao seu editor ou este não fez

mais do que reproduzi-las da primeira edição?

Sem que seja conhecida a edição principe das obras de Bernardim Ribeiro,

não é possivel aclarar este ponto, mas o que ninguem póde dizer com

autoridade é que taes rúbricas: «que dizem ser... ao que parece

aludir...» pertencessem aos manuscritos do infortunado Bernardim.

«Por terem reproduzido _esses textos_ manuscriptos como os encontraram»,

escreveu o snr. dr. Theóphilo Braga, procurando incutir que taes edições

foram feitas sobre os manuscritos pertencentes ao Conde de Vimieiro e

sobre o outro examinado pelo arcediago do Barroso!

A primeira edição das obras do poeta bucolista resultou dos manuscritos

de Bernardim Ribeiro, recolhidos após a morte do apaixonado cantor de

Joana, ou no ultimo período da sua desventurada existência, e dados á

estampa por qualquer curioso sem critério literário...

E proclamando isto, que representa a expressão do nosso sentir pessoal,

estamos convencidos de que está com a nossa opinião o snr. dr. Theóphilo

Braga, que sempre tem sustentado que as edições das obras de Bernardim

se fizeram sobre os manuscritos encontrados no seu espólio....

Mudará s. ex.^a de orientação? Até prova em contrário, não acreditamos.

*8*

«...o dr. Alfredo da Cunha deu alentos á grande descoberta...»

_Do artigo «Movimento litterário»_

«_Grande descoberta_», é como o snr. dr. Theóphilo Braga chama,

ironicamente, ao resultado dos nossos trabalhos... Pequena ou grande

descoberta, o facto é que està de pé, não conseguindo o abalisado

professor destrui-la.

Compreendemos bem que isso seja pouco agradavel a s. ex.^a, que tanto se

havia empenhado em pôr um pedregulho sobre o caso do poeta _Crisfal_,

mas nós, só pelo prazer de ser agradaveis ao ilustre escritor, é que não

vamos ressuscitar o trovador Cristovam Falcão. Deixá-lo dormir em paz,

serenamente.

Quanto a descobertas grandes, lembra-nos citar uma que _in illo tempore_

fez o snr. dr. Theóphilo Braga...

Dirigia o distinto poeta snr. Joaquim de Araujo uma publicação

camoneana, cujo título nos não ocorre.

Vae se não quando recebe uma comunicação do snr. dr. Theóphilo Braga...

Uma descoberta importante... Nada menos que um parente ignorado do

grande épico Luis de Camões.

Chamava-se o homem _Pero Camões_, segundo o ilustre professor lera,

radiante, em determinado texto...

Pois, senhores, na volta do correio, Joaquim de Araujo prevenia

generosamente o Mestre de que este errara a leitura do texto... O _Pero

Camões_ do snr. dr. Theóphilo Braga era um simples e inofensivo *pero

camoês*!

*9*

«No noticiario de outro jornal sairam affirmações absolutas,

proclamando a sensacional descoberta, com uma sinceridade

inconsciente que affasta de todo a ideia de ironia.»

_Do artigo «Movimento litterário»_

Por esta fórma pouco... _generosa_ se referiu o snr. dr. Theóphilo Braga

ás palavras de caloroso elogio com que o ilustre escritor snr. José

Pereira Sampaio, em carta publicada no «Diario da Tarde», do Porto,

valorizou com o prestígio do seu nome o fruto do nosso trabalho.

Contra a injusta apreciação do professor do Curso Superior de Letras, já

lavrámos o nosso protesto, de amigos e admiradores de _Bruno_, no artigo

que publicámos na «Lucta» e que vae transcrito no primeiro capítulo

d'este livro.

Quando mesmo, o que não sucede, o ilustre escritor portuense estivesse

em erro, era digna de todo o respeito a sua opinião, e não seria nunca o

snr. dr. Theóphilo Braga, com a sua consciente falta de sinceridade,

quem teria direito para o arguir pela maneira insólita por que o fez.

Será, porventura, o _positivismo_ inimigo inconciliavel da Justiça?

*10*

«A verdadeira descoberta pertence ao snr. Braancamp Freire

determinando a epoca em que esteve em Flandres João Brandão

Sanches, e quando elle morreu, dando nos assim a data em que

existiram os amores de sua filha unica D. Maria Brandão, a do

Crisfal, que plausivelmente se fixam em 1530. O documento de 1527

refere se a Christovam Falcão, com a tença de moço fidalgo leva a

deduzir que nascera em 1512.»

_Do artigo «Movimento litterário»_

Fixa o snr. dr. Theóphilo em 1530 os amores do suposto poeta com a sua

suposta amada Maria Brandôa.

Muito bem.

Admitindo que assim fosse, só depois de 1530 Cristovam Falcão poderia

ter produzido a _Carta_ e a _Écloga_ que lhe foram atribuidas...

Ora como podia isto ser, em face dos _processos inductivos da critica

moderna_, tam preconizados pelo snr. dr. Theóphilo Braga?

Ouçamos a lição autorizada do ilustre professor, que se lê a pag. 4 da

sua chamada edição das obras de Cristovam Falcão:

«*Se Christovam Falcão escrevesse depois de 1527, quando Sá de

Miranda propagou as fórmas da poetica italiana, teria então

adoptado o verso endecasyllabo, a fórma da OUTAVA e do TERCETO, o

SONETO, e teria perdido o conceito provençalesco dos poetas que

seguiam o INFERNO DO AMOR; Falcão desconheceu esta nova poetica.*»

Pela mesma maneira se exprimiu o snr. dr. Theóphilo Braga na sua edição

de _Bernardim Ribeiro e os Bucolistas_.

Repudia s. ex.^a o que com tanta clareza e precisão deixou estampado?

Seria caso para invocar o _era, não era, andava lavrando_...

Para o nascimento do pseudo-trovador, escolhe o snr. dr. Theóphilo

Braga, em ultima análise, a data de 1512, sem se lembrar talvez de que

por essa fórma caía em contradição consigo proprio...

Vejamos:

Na carta que nos dirigiu, escreveu o distincto escritor:

«...D. Maria Brandão, que Cristovam Falcão amou, _sendo ambos muito

crianças_...»

Ora tendo Cristovam nascido em 1512, como afirma o snr. dr. Theóphilo

Braga, e fixando-se as suas relações amorosas em 1530, como quer s.

ex.^a, tinha o mancebo quando começou a namoriscar os seus dezoito anos

seguros...

A um rapazola de 18 anos ninguem com propriedade poderá classificar de

_muito creança_, a não ser por troça,--salvo melhor opinião.

*11*

«Ha portanto a eliminar todas as relações pessoaes entre Cristovão

Falcão e Bernardim Ribeiro, como julgamos nos nossos estudos,

corrigindo a interpretação da Ecloga I e III de Bernardim.»

_Do artigo «Movimento litterário»_

Não só corrigimos a interpretação das eclogas I e III de Bernardim

Ribeiro como todas as outras do desventurado poeta... Mas o snr. dr.

Theóphilo Braga entende em seu alto critério que só ha a corrigir as

duas que citou, e essa correcção reserva-se s. ex. fazê-la, certamente.

Aguardemos a futura refundição do livro sobre os bucolistas, para

ajuizarmos da fertilidade inventiva do ilustre professor,--_de fantasia

fertil em combinações_, no dizer autorizado da senhora D. Carolina

Michaëlis.

*12*

«Os logares comuns a Cristovam Falcão e Bernardim Ribeiro provam a

distancia da edade que levou o mais novo a imitar aquelle que já

era admirado, cujos versos, Camões, na sua carta de Africa

intercalava na sua prosa.»

_Do artigo «Movimento litterário»_

Como comentário único, permitir nos-emos endereçar algumas perguntas ao

snr. dr. Theóphilo Braga:

Estando Bernardim Ribeiro louco no ano de 1532, como o próprio snr. dr.

Theóphilo tem sustentado, como explica o ilustre professor que no

espólio do poeta bucolista fossem encontradas as composições atribuidas

ao falso Crisfal?

Na edição refundida do seu livro sobre os bucolistas, em 1897, o snr.

dr. Theóphilo Braga explicou o facto da seguinte maneira:

«...*os dois poetas communicavam entre si os seus versos, sendo por este

modo que se salvaram as poesias do auctor do Crisfal.*»

Ora não podendo o abalisado professor continuar persistindo em que

Bernardim Ribeiro teve por amigo e confidente Cristovam Falcão de Sousa,

como poderá s. ex.^a explicar que entre os manuscritos legados por

Bernardim se encontrassem as composições do... _último eco do alaúde_?

Para prevenir qualquer subtiliza de argumentação, é conveniente não

esquecer s. ex.^a que na écloga _Crisfal_ se encontram lugares comuns a

todas as éclogas de Bernardim Ribeiro e á própria novela _Menina e

moça_.

E não esquecer egualmente que, após a publicação do nosso estudo sobre o

_Poeta Crisfal_, já o snr. dr. Theóphilo Braga foi obrigado a reconhecer

que: não podia continuar a admittir _as relações pessoaes de Cristovam

Falcão com Bernardim Ribeiro já velho e dementado em confidencias de

amor com um rapaz no viço da mocidade_.

Bernardim nasceu em _1482_, é bom não olvidar tambem.

Cristovam Falcão de Sousa nasceu em... _1512_, conforme a ultima versão

apresentada pelo articulista do _Movimento litterário_.

Os amores de Falcão e Maria Brandôa foram fixados pelo snr. dr.

Theóphilo Braga, em ultima análise, no ano de _1530_.

Ora na _Carta de Crisfal_, fala o poeta na prisão de amor que está

sofrendo _ha cinco anos_... Logo, ou não ha lógica, uma das composições

do suposto trovador foi elaborada pelo ano da graça de _1535_, quando

Bernardim havia já três anos que fôra ferido pela desgraça que o levou

ao hospital de Todos os Santos, onde veio a acabar seus desventurados

dias em _1552_.

Consignado o que fica exposto, aguardemos a resposta ás perguntas atrás

formuladas, e, para fechar o capítulo, façamos nossos os seguintes

versos de Bernardim:

Baste o que tenho dito

pera aver, por galardão,

tres regras de vossa mão,

pera resposta das quaes

......... fique o mais

que aqui escrever devera,

se o escrever podera.

VI

Uma patranha genealógica

Seguindo a lição de vários genealogistas, démos curso, no nosso estudo

sobre Bernardim Ribeiro, á atoarda que fazia Cristovam Falcão de Sousa

descendente de certo John Falconet, cavalheiro inglês que viera para o

nosso país na comitiva da desposada d'el-rei D. João I, Filipa de

Lencastre. Antes de nós, os snrs. Epiphánio Dias e dr. Theóphilo Braga

haviam incorrido no mesmo erro.

Publicado o nosso trabalho, honrou-nos o erudito escritor sr. Anselmo

Braamcamp Freire com o seguinte esclarecimento, que registamos com

prazer:

«...Julgo-me obrigado a advertil-o que publiquei um documento no

_Archivo histórico_, suficiente para destruir a petarola inventada

pelos genealogistas dos Falcões descenderem do tal Falconet.

Catorze anos antes deste chegar a Portugal já existiam Falcões,

proprietarios em Evora, e vassalos de D. Fernando (_Arch. hist._

III, 407.) É uma minucia que não influe em nada no seu têma; mas,

repito, entendo dever meu avisál-o».

Não será este, certamente, o único erro em que teremos incorrido no

nosso trabalho, e de que nos penitenciâmos sem a menor relutância.

Errar é próprio dos homens, como afirma o conhecido aforismo latino; o

que é condenavel é persistir no erro.

Não temos a estulta vaidade de haver produzido um trabalho sem defeitos,

e de bom grado aceitaremos as correcções que nos ministrarem, e com que

o nosso critério se conforme. Somos incapazes de persistir n'um erro por

simples capricho de amor-próprio, indesculpavel em assuntos de natureza

_histórica_.

Bem presentes conservâmos as palavras sensatíssimas do professor

bracarense Pereira Caldas: «Em _história_, ha sempre que discutir,

sempre que examinar, sempre que emendar, sempre que aditar.»

VII

O criptónimo «Fileno»

No numero do jornal _O Dia_, de 15 de dezembro de 1908, consagrou-nos o

conceituado filólogo, snr. A. R. Gonçalves Viana, uma das suas

interessantes _Palestras filológicas_.

É aquela que vamos registar, e que em seguida comentaremos:

«Delfim Guimarães, no seu livro recentemente publicado, e que faz

honra á erudição portuguesa, com o titulo *Bernardim Ribeiro*, e o

sub titulo *O poeta Crisfal*, aventa a idea de que o criptónimo

_Fileno_ seja o disfarce do adjectivo _felino_, latim _felinus_,

procedente do substantivo _felis_, «gato», por alusão ao apelido

_Gato_, do marido de Joana Tavares, sua apaixonada.

«Não se pode aceitar esta origem do dito nome, porque tal adjectivo

não existia em português ao tempo do poeta. É êle modernissimo na

lingua, pois nem Bluteau o incluiu no seu *Vocabulario portuguez e

latino*, nem mesmo no próprio *Diccionario portuguez* de Morais e

Silva figura tal adjectivo atè á 3.^a edição, feita no anno de

1823, «correcta e acrescentada.» Vê-se pois que a introdução do

vocabulo _felino_ é não só posterior, e muito, ao século XV, mas

até aos começos do XIX, e que o poeta o desconhecia portanto.

«Assim, pois, o nome Fileno, masculino, foi talvez fabricado

conforme o femenino Filene, que os gregos usaram, e cujo radical

será o de _Filipe_, por exemplo.»

Em primeiro lugar agradecemos ao snr. Gonçalves Viana o cumprimento

amabilissimo com que nos penhorou, que muito bem sabemos representar uma

gentileza, que não um acto de justiça. A benevolência usada para

comnosco por s. ex.^a motivou um remoque do snr. dr. Theóphilo Braga, do

que resulta tornar se ainda maior a nossa dívida de reconhecimento para

com o sábio poliglota, o que temos a peito deixar registado nas páginas

d'este trabalho.

Consignado isto, digamos o que se nos oferece sobre a _palestra_

motivada pelo nosso livro:

Coube ao snr. visconde de Sanches de Baena a interpretação do nome

_Fileno_ como criptónimo de _Felino_, em alusão a *Pero Gato*, que o

referido titular apresenta como marido de Joana (_Aonia_).

Nós não acreditamos na existência do Pero Gato do snr. Sanches de Baena,

como com inteira franqueza deixamos exarado nas páginas do nosso

trabalho; mas não nos repugnou admitir que o criptónimo invocado

alvejasse a alusão a um animal felino. E assim escrevemos a pag. 87 do

nosso estudo sobre Bernardim:

«O anagrama _Fileno_ oculta, provavelmente, um individuo que tinha por

nome, apelido ou alcunha o nome de um animal _felino_. Seria Pantaleão?

Seria Gato? Estamos em crer que o assunto ainda poderá ser resolvido,

como outros muitos pontos por aclarar respeitantes á vida de Bernardim.»

E na mesma página, a propósito do nome de _Lor_, ou _Lor-Vão_, referido

nalgumas edições da écloga de _Crisfal_, escrevemos nós:

«Desde que se apure, *com segurança*, quem fosse o marido de Joana etc.»

O não se ter ainda apurado quem fosse o feliz rival de Bernardim, não se

nos afigura motivo para pôr de parte, por em quanto, a interpretação

enunciada pelo snr. visconde de Sanches de Baena quanto a Fileno, aceite

pelo snr. dr. Theóphilo Braga, e a que nós tambem demos curso, embora

sob reservas.

O facto dos antigos dicionários não fazerem menção do vocábulo _felino_

não constitue razão para que se abandone essa hipótese, que póde não ser

exacta, mas que é sem dúvida racional. Como o snr. Gonçalves Viana muito

bem sabe, desde que no latim existiam os vocabulos _felis_, _felinus_,

com o significado de _gato_, ou _respeitante a gato_, nada mais natural

do que um escritor ter introduzido, lógicamente, o termo português

_felino_. E ninguem poderá contestar que Bernardim Ribeiro tivesse

envergadura sobeja para crear essa palavra. Bacharel formado em direito,

e poeta bucolista não ignorava certamente o vocábulo latino.

A ser exacta a maneira de ver do snr. Gonçalves Viana sobre semelhante

assunto, como poderiam justificar-se tambem os numerosos neologismos com

que Luis de Camões enriqueceu a lingoa portuguêsa?

Hoje mesmo, após recentes trabalhos de dicionaristas distintos, quantos

vocábulos portuguêses não falta ainda registar?!

A hipótese, porém, que o ilustre filólogo apresenta merece ser ponderada

devidamente, sendo até possivel que s. ex.^a tenha resolvido o problema

quanto ao nome do marido de Joana Tavares, que poderia muito bem ter

sido _Filipe_.

N'um _pliego-suelto_ castelhano do século XVI, de que existe um exemplar

na secção dos _Reservados_ da Biblioteca Nacional de Lisboa, ha um

dialogo em verso entre as personagens: _Alethio_ e _Fileno_.--Aleixo e

Filipe? Talvez!

Em fim, parafraseando o que já escrevemos: Quando se apure _com

segurança_ quem foi o marido da mulher amada por Bernardim Ribeiro,

estarà implicitamente resolvido este problema.

VIII

In terminis

Não estamos sós no combate que tivemos a satisfação de iniciar em prol

da obra de Bernardim Ribeiro.

Ao nosso lado contamos a individualidade cheia de prestígio do snr. José

Pereira Sampaio, que em breve defenderá em livro tese idêntica á nossa,

demonstrando que o Poeta Crisfal é o bucólico Bernardim.

Se de estímulo carecessemos para prosseguir confiadamente na tarefa que

nos impusemos, seria incentivo bastante o contarmos já entre aqueles que

se confessam convencidos pelo nosso trabalho, alem de muitos outros

espìritos esclarecidos, os nomes preeminentes dos srs. Anselmo Braamcamp

Freire, José Caldas e dr. Sylvio Romero.

Não conseguiremos nós fazer vingar em nossos dias, por uma fórma

absoluta, a obra de justiça a que metemos hombros? Não será dada essa

satisfação ao ilustre escritor snr. José Sampaio?

--Que importa? As sementes estão lançadas, o solo não é ingrato... As

sementes hão de vingar; a verdade triunfará, alastrando, impondo-se...

Por fim, só nos resta endereçar, muito comovidamente, um aperto de mão,

agradecido e sincero, a quantos--bons amigos, camaradas e simples

conhecidos--nos teem bafejado com palavras de elogio e incitamento por

motivo da publicação do livro que deu origem a este novo trabalho.

_Amadora, 16 de março de 1909_.

APRECIAÇÕES DA IMPRENSA

AO LIVRO

"Bernardim Ribeiro

(O POETA CRISFAL)"

«Bernardim Ribeiro»

(O Poeta Crisfal)

Delfim Guimarães é um poeta e um contista que há muitos annos firmou

brilhantemente o seu nome. Alma delicada de poeta, é, ao mesmo tempo, um

prosador elegante e correcto que conhece a sua lingua e sabe maneja-la.

Afastado de todas as egreginhas literarias, isento de todos os

snobismos, sem perder tempo nos cenaculos dos cafés, Delfim Guimarães

tem-se destacado e destaca se entre os da sua geração, sem dever nada ao

reclamo.

Admirador entusiastico, apaixonado, de Bernardim Ribeiro, Delfim

Guimarães apurou um facto da mais alta importancia para a historia

literaria do seu paiz:--que Christovão Falcão e Bernardim Ribeiro são

uma mesma entidade.

É essa demonstração, consciente, documentada, que o nosso amigo vem de

fazer neste livro--_Bernardim Ribeiro (o Poeta Crisfal)_--que é digno de

ser lido por quantos querem conhecer a historia das letras patrias.

A Delfim Guimarães, os nossos parabens pelo seu valioso trabalho.

(Do jornal _O Mundo_, de 16 de Novembro de 1909)

«Bernardim Ribeiro»

por Delfim Guimarães

É um livro de incontestavel valor, este que o sr. Delfim Guimarães acaba

de publicar, editado pela Livraria Guimarães & C.^a, da rua de S. Roque.

Fructo de um aturado e consciencioso estudo, n'elle se demonstra que

Bernardim Ribeiro e _Crisfal_ representam um unico poeta, e que

_Crisfal_ é apenas um criptogramma formado pelas primeiras syllabas das

palavras _Crisma_ e _Falso_, não passando, portanto, de uma lenda a

existencia do poeta Christovão Falcão. Como se vê, o assumpto d'este

livro do laborioso e intelligente escriptor é de molde a interessar

vivamente todos quantos se dedicam ao estudo da nossa litteratura

patria.

(Do jornal _O Seculo_, de 16 de Novembro de 1909).

«Bernardim Ribeiro»

(O Poeta Crisfal)

_Subsidios para a história da literatura portuguesa_, por Delfim

Guimarães.--Lisboa, 1908. Livraria Editora Guimarães & C.^a, 274

pág. 800 réis.

É o livro sensacional da semana que hoje finda. É o desabar de uma lenda

secular. A ineptidão de uns editores quinhentistas insinuara a crença de

que as trovas de _Crisfal_ eram de _Cristovam Falcão_, cujo nome era

representado pelo anagrama, formado da primeira silaba do nome e a

primeira do apelido.

A lenda criou raizes; e, não obstante as hesitações e dúvidas de alguns

criticos, ninguém, até hoje, contestara abertamente em publico a

personalidade poética de Cristovam Falcão.

Mas Delfim Guimarães, estudando Bernardim Ribeiro, editorando-lhe as

_Saudades_, e confrontando os trabalhos dos bucolistas do século XVI,

chegou á convicção de que, tendo havido algumas personalidades com o

nome de Cristovam Falcão, este nome não pertencia a nenhum poéta, e as

trovas de Crisfal eram obra de Bernardim Ribeiro.

Documentando e justificando a sua convicção, acaba êle de dar á estampa

o substancioso volume que hoje noticiamos.

No prefácio da obra, expõi o autor, com a devida lealdade, as

circunstâncias e o processo que o levaram á absoluta rejeição da

referida lenda, e congratula-se justamente por ter agora a noticia de

que o ponderado publicista Pereira de Sampaio (Bruno), tinha já

adquirido convicção análoga, que esperava justificar em livro.

Metodizando as provas e a documentação de que o poeta _Crisfal_ não é

outro, senão Bernardim Ribeiro, Delfim Guimarães faz minuciosamente a

biografia crítica do poeta, estuda e analisa a primeira edição das obras

de Bernardim, dá nos a história e a genealogia do suposto poeta Falcão;

e, depois, de nos dar a exegese de numerosos factos e documentos, cerra

o seu volume com a reproducção da _Carta_ e da _Écloga_ de _Crisfal_, e

de _três_ poesias mais de Bernardim Ribeiro, até agora ignoradas.

Claro é que, de um livro de tal significado e alcance, mal se podem

formular juizos e sentenças em meia dúzia de linhas do nosso registo

bibliográfico; e temos de nos restringir a dar da obra ideia sumária,

chamando para ela a atenção, e naturalmente o apreço, de quantos se

interessam pelos mais momentosos problemas da nossa história literária.

Mas remorder-nos-ia a consciência, se cerrássemos já a presente noticia,

sem significar a Delfim Guimarães a satisfação que nos deu o seu

melindroso e arrojado trabalho, e o encanto com que repassamos os olhos

pelo ingénuo e delicioso bucolismo dos avoengos da poesía nacional.

Formoso livro e serviço memorável.

Dr. Candido de Figueiredo

(Do _Diario de Noticias_, de Lisboa, de 28 de novembro de 1908).

O poeta Chrisfal

_Delfim Guimarães_: Bernardim Ribeiro (o Poeta Crisfal)--Subsidios

para a historia da literatura portuguêsa--1908--Livraria Editora

Guimarães & C.^a--68, R. de S. Roque, 70--Lisboa.

Theóphilo Braga e a lenda do Crisfal · 第 5 / 8 段