_Obras de Christovam Falcão, p. 12_

Mas, felizmente para a memória do poeta bucolista, a poesia em questão

foi uma das que o benemérito Garcia de Rèsende reproduziu no Cancioneiro

Geral, publicado em 1516, quando Cristovam Falcão de Sousa... ainda

andava de coeiros, se é que já pertencia ao numero dos vivos...

Ora que distinção concederia o ilustre professor áquele dos seus

discípulos que, interrogado sobre a _côr branca_ do cavalo de Napoleão

1.^o, lhe respondesse que o sobredito imperial cavalo _branco_... era

_amarelo_?

* * * * *

Em uma das suas éclogas, o poeta-filósofo Sá de Miranda, aludindo ao

Amor, causa da desventura do seu camarada Bernardim Ribeiro, expressa-se

por esta fórma:

Amor burlando vá, muerto me deja;

Tiene de que por cierto; a su merced

Como de señor vine; armó la red,

Puso me en prision dura, ende me aqueja;

Cada ora mas se aleja

De mi, mucho cruel. Quien me desmiente?

Ah que lo saben todos! quien ganó

El precio de la lucha, ese perdió!

Enemigo señor que tal consiente!

Pois no Amor, no travesso, inconstante e cruel Cupido, o snr. dr.

Theóphilo viu nada menos que a personificação do favorito d'el-rei D.

João III, D. António de Ataíde, conde da Castanheira!

Para que os leitores não julguem que fomos nós que interpretamos mal

quaesquer palavras do arguto exegeta, reproduzimos a sua anotação:

«...*aquelle retrato do inimigo senhor que tal consente, bem se

parece com o omnipotente valido o conde da Castanheira*.»

_Sá de Miranda e a Eschola Italiana, p. 206_

* * * * *

Por um recente trabalho do nosso estimado camarada Hemetério Arantes

sobre Frei Agostinho da Cruz, já os leitores não ignoram que o professor

do curso Superior de Letras fez de *um gato bravo... uma cavalgadura*, e

do *Monte do Lobo... um lobo* carniceiro que devorou, chamando-lhe um

figo, a sobredita cuja cavalgadura!

Para fechar esta exposição, referiremos ainda mais um interessante

episódio exegético da obra do Mestre:

Em uma das poesias líricas de Luis de Camões, alude o grande poeta á

desventura que desde a infância o perseguia, como se vê dos seguintes

magoados versos:

Foi minha ama uma fera; que o destino

Não quis que mulher fosse a que tivesse

Tal nome para mi, nem haveria.

Assi criado fui porque bebesse

O veneno amoroso de menino...

de que tambem se conhece a seguinte variante:

Por ama tive [~u]a fera, que o destino

Não quis que melhor fosse a que tivesse

Para o que elle de mi fazer queria...

Em face da segunda versão, concluiu o snr. dr. Theóphilo Braga,

arguciosa e sibilinamente:

«*Esta versão tira todo o sentido figurado á antecedente, e d'aqui

se conclue, que Camões fora amamentado por uma alimaria, etc.*»

_Historia de Camões, Parte II, Livro II, p. 564_

Esta ideia verdadeiramente original de interpretar os versos de Camões,

dando-lhe por ama uma *alimária*, ou seja uma cavalgadura ou uma besta,

corre parelhas com a interpretação dada á _gineta_ de Frei Agostinho da

Cruz.

Não se póde dizer que o eminente professor faça de um argueiro um

cavaleiro, mas não ha a menor dúvida de que s. ex.^a transforma um gato

bravo e uma brava ama de leite... em cavalgaduras!

Pelo que respeita á ama de Camões, o que vale ao snr. dr. Theóphilo

Braga é o facto do nosso grande épico não poder, com facilidade,

escapulir-se do túmulo em que repousa no Panteão dos Jerónimos, _si vera

est fama_! De contrário, o _Trincafortes_ era capaz de fazer uma das

suas.

Parece-nos que fica suficientemente demonstrado quem é que fórça

interpretações de versos alheios a significarem aquilo que imagina...

*2*

«Como lhe nasceu no espirito a ideia de fazer esta descoberta? Pela

impressão que lhe causára a leitura dos versos de Bernardim Ribeiro

e os de Christovam Falcão--«dois poetas de temperamento semelhante,

com eguaes influencias e educações litterarias, com eguaes

episodios nos seus infortunados amores, e havendo entre ambos

versos absolutamente eguaes.»

_Do artigo «Movimento litterário»_

Pela transcrição que o snr. dr. Theóphilo Braga indica, póde alguem

acreditar que foram realmente aquelas as palavras por nós empregadas no

nosso estudo. Não foram. O ilustre professor modificou a seu bel-prazer

o que nós escrevemos, que se lê a paginas 6 do nosso livro sobre

Bernardim:

«Muito embora o temperamento dos dois poetas fosse semelhante, mesmo

muito semelhante, e eguaes as influências e educações literárias que

houvessem recebido; embora fossem eguaes os episódios dos seus

infortunados amores, é estranho que por fórma tam absolutamente

semelhante traduzissem o seu sentir, revelassem o seu temperamento

artístico, chegando a empregar versos absolutamente eguaes! etc.».

Porque não reproduziu, _fielmente_, o snr. dr. Theóphilo Braga aquilo

que escrevemos? Estranha maneira de exercer a crítica... moderna!

*3*

«D'aqui o identificar os dois poetas em um unico; como conseguil-o?

Considerou a individualidade poetica de Cristovam Falcão como uma

lenda estupida formada pelos genealogistas, e formou o nome de

_Crisfal_ indo buscar á tôa ás palavras _Crisma falsa_,

tirando-lhes as syllabas iniciaes para designarem a seu talante

Bernardim Ribeiro.»

_Do artigo «Movimento litterário»_

Afirma o snr. dr. Theóphilo Braga que consideramos a individualidade

poética de Cristovam Falcão como uma lenda estúpida formada pelos

genealogistas... Onde encontrou s. ex.^a a base em que firma a sua menos

verdadeira afirmativa?

Vamos reproduzir o que escrevemos a paginas 9/10 do nosso livro, para

desfazer a arbitrária interpretação do venerado professor.

«Cotejámos então as referências de Bernardim a Francisco de Sá com

a alusão que na écloga de _Crisfal_ haviamos interpretado como

visando esse poeta, e qual não foi a nossa alegria, a nossa viva

satisfação ao reconhecer que os versos de _Crisfal_ que alvejavam

Miranda condiziam perfeitamente com as referências das éclogas de

Bernardim ao seu grande amigo e confidente! Não condiziam apenas:

completavam, aclaravam, a nosso ver, essas alusões.

«Fez-se então uma grande luz no nosso espírito. Não se tratava de

dois poetas muito parecidos, de um creador e de um imitador.

Bernardim Ribeiro e _Crisfal_ eram um ùnico poeta. O trovador

Cristovam Falcão era o produto de uma lenda nascida da

interpretação dada pelo vulgo ao anagrama _Crisfal_.

«E, para que o nosso convencimento mais se robustecesse, lá estavam

os dizeres alusivos á ecloga de _Crisfal_ da edição de Colónia,

revelada pelo snr. dr. Th. Braga, e estudada pelo snr. Epiphánio

Dias: «_que dizem ser_ de Cristovam Falcão, _ao que parece aludir_

o nome da mesma écloga.»

«_Que dizem ser_... _ao que parece aludir_...

«Isto, a nossos olhos, era decisivo. «Os editores de 1559 das obras

de Bernardim Ribeiro, e antes de eles os de 1554, como depois

viemos a apurar, tinham registado com relação á écloga uma fábula

que devia datar da primeira edição das _Trovas de Crisfal_, etc.»

O que nós dissemos, pois, e isso sustentâmos, é que a individualidade

poética de Cristovam Falcão nascera da errada interpretação prestada

pelo vulgo ao anagrama _Crisfal_,--fábula que os editores de 1554 e 1559

das obras de Bernardim Ribeiro tinham registado, _sob reservas_.

Como haviamos nós de propalar terem sido os genealogistas que formaram a

lenda, se os genealogistas, depois de 1554 e 1559, é que foram buscar as

_tradições vagas_ recolhidas pelos editores de Bernardim?

Onde estão os genealogistas anteriores ás edições de Ferrara e de

Colónia que se fizessem éco da fábula do _Crisfal_?

Ah! malfadados _processos inductivos da crítica moderna_!

Diz o snr. dr. Theóphilo Braga que nós fomos buscar _á tôa_ as primeiras

sílabas das palavras _Crisma_ e _falso_ para a nosso alvedrio designarem

Bernardim Ribeiro!

Não foi _á tôa_, como inculca o nosso acerbo censor, que conseguimos

apurar a constituição do criptónimo _Crisfal_; e que não foi á tôa

sabe-o muito bem o implacavel critico, que não deixou de ler, e que até

a reproduziu, a explicação que sobre tal facto demos:

«Alcançada a convicção de que _Crisfal_ era um anagrama de

Bernardim Ribeiro, e norteados pelo conhecimento de que nas suas

produções o poeta mudava constantemente os seus nomes pastoris, com

um pequeno trabalho de raciocínio não nos foi dificil deduzir a

constituição do criptograma, que era formado pelas primeiras

sílabas das palavras _Crisma_ e _Falso_.»

E corroborando estes dizeres do prólogo do nosso livro (p. 10),

escrevemos mais adeante (p. 82/83) ao tratar da interpretação da écloga

atribuida ao suposto _Crisfal_, Cristovam:

«Bernardim deduziu o anagrama com que se denomina n'esta écloga das

palavras _Crisma_ e _Falso_, de que aproveitou as primeiras

sílabas, formando assim a palavra _Crisfal_.

«Os nomes pastoris que figuram n'esta écloga, obedecendo á ideia

que fundamentou a composição, são todos êles _crismas falsos_,

sendo dificil profundar quaes as personagens reaes que o poeta pôs

em scena, o que deu lugar a erradíssimas interpretações,

contribuindo para que tomasse vulto a lenda, que resultou do

próprio anagrama _Crisfal_, que foi tomado como deduzido dos nomes

de Cristovam Falcão.»

Não foi á tôa mas seguindo uma orientação criteriosa, que alcançámos a

verdade, que nenhuma subtileza conseguirá destruir já agora.

Outro-tanto não se póde dizer da maneira pela qual o snr. dr. Theóphilo

Braga conseguiu, por exemplo: decretar os *cantos de ledino, estampar

como documento do século XVI um apócrifo contendo versos do século

XVIII, e fazer Camões bacharel formado... em latim pela Universidade de

Coimbra*!

Se nós, invocando esses precedentes, ousassemos retorquir que _á tôa_

costumava proceder o escritor que contraditâmos, caía-nos em cima o

Carmo e a Trindade!

_Á tôa!_... É realmente forte, e não deixa de ofender.

*4*

«Mas, como se póde chamar estupida a lenda genealogica se os nomes

contidos na écloga de _Crisfal_ condizem com os seus parentes taes

como o de _Pantaleão_ Dias de Landim, seu avô, e a Joanna, que lhe

denuncia o casamento clandestino, uma prima, como o notou o snr.

Jordão de Freitas?»

_Do artigo «Movimento litterário»._

_Lenda genealógica_, chama o snr. dr. Theóphilo Braga á lenda do

_Crisfal_, como se fossem os genealogistas que a inventassem, quando s.

ex.^a muito bem sabe que estes não tiveram tal primasia... O caso está

sobejamente debatido, e por isso não vale a pena perder mais tempo com

tam ruim defunto.

Tratemos do _Pantaleão_...

Na eclóga de _Crisfal_, refere se Bernardim ao _Val de Pantaleão_...

O snr. dr. Theóphilo Braga, interpretando erradamente uma passagem da

_Pedatura_ do genealogista Alão de Moraes, em que se mencionava o

casamento de uma parenta remota de Maria Brandôa com um João _Patalim_,

escreveu a pag. 344 do seu livro _Bernardim Ribeiro e o Bucolismo_:

«Pelo Manuscripto já citado de Alão de Moraes acha-se noticia do

aqui chamado _Val de Pantaleão_: D. Joanna, tia avó de D. Maria

Brandão, casara a primeira vez com João _Pantalião_; etc.»

No nosso estudo sobre Bernardim Ribeiro, desfizemos esse erro,

escrevendo a pag. 159:

«O ilustre professor equivocou-se na leitura do texto. Não se trata

de nenhum João _Pantalião_, como erradamente leu, mas sim de um

João _Patalim_, que é o que se lê no manuscrito de Alão de Moraes,

como verificámos por nossos próprios olhos.»

Desfeita essa interpretação, não se dá o snr. dr. Theóphilo Braga por

vencido, e vae agarrar-se a um avoengo de Maria Brandôa para justificar

a referência ao _Val de Pantaleão_...

Quanto á _Joana_, o caso não é menos interessante...

Vejamos o que, no seu _Bernardim Ribeiro e o Bucolismo_ (pag. 342),

escreveu o snr. dr. Theóphilo Braga em 1897:

«Esta Joanna, que denunciou os amores de Crisfal e Maria, era D.

Joanna Pereira, sua irmã mais velha; Maria era a mais nova, de

cinco filhos que tinha o Contador João Brandão.»

Foi esta mais uma _gaffe_ em que o snr. dr. Theóphilo incorreu, por

haver confiado demasiadamente nos créditos do genealogista Alão de

Moraes.

A pag. 162 do nosso livro sobre o _Poeta Crisfal_, desfizemos esse erro,

escrevendo:

«Maria Brandão, a lendária amada do _Crisfal_, não teve nenhuma

irman! era filha única!»

Em face da corrigenda, o distinto escritor não se sentiu com coragem

para sentencear que Joana era irman natural de Maria Brandôa, mas

procurou arranjar (iamos a escrever _á tôa_, mas não tivemos coragem)

outra Joana, e, á primeira que encontrou á mão, chamou-a em seu auxílio.

Dera-se o caso de o snr. Jordão de Freitas, distinto funcionário da

biblioteca da Ajuda, no louvavel empenho de auxiliar aqueles que

quisessem discutir a questão literária suscitada pelo nosso livro,

publicar no «Diario de Noticias» o resultado das suas pesquizas nos

arquivos, reproduzindo quanto julgou interessante para o estudo do

problema.

Fez s. ex.^a menção de uma parenta de Maria Brandôa com o nome de

Joana...

Como um naufrago, que se agarra á primeira táboa que lobriga ao alcance

da mão, o snr. dr. Theóphilo agarrou-se (no bom sentido da palavra, bem

entendido!) á sobre-dita Joana, e, radiante de contentamento,

exclamou:--«Estou salvo!»

E, julgando-se, realmente, salvo da rascada, escreveu ufano:

«...a Joanna, que lhe denuncia o casamento clandestino, uma prima,

como o notou o sr. Jordão de Freitas.»

A esse engano de alma, ledo e cego, foi arrancá-lo o snr. Jordão,

desapiedadamente na carta que, a propósito, dirigiu ao «Dia», e de que

reproduziremos a parte essencial:

«O sr. dr. Theóphilo Braga equivocou-se na sua referencia a Joanna

e ao que diz ter sido notado por mim.

.................................................................

...tive unicamente em vista assentar que Joanna Brandão não era tia

avó de Maria Brandão, como erroneamente escrevera o sr. dr.

Theophilo Braga, mas sim sua prima remota.

«Tão remota, direi agora, que era neta de um irmão (Diogo Lopes

Brandão) do 4.^o avô (Gonçalo Brandão) de Maria Brandão

(Bibliotheca Real da Ajuda, 49-XII-28, pag. 259).

«Sendo assim, nem é presumivel que aquella chegasse a viver no

tempo de Maria Brandoa, quanto mais que andasse a pastorear com

ella, etc.»[9]

Veremos, depois de este insucésso, que nova Joana nos apresentará na

primeira oportunidade o distinto escritor...

Quem sabe se a Joana do _Crisfal_ não teria sido aquela encantadora

Joaninha dos olhos verdes, que tanto enfeitiçou Garrett... Mas não; em

caso contrário o autor das _Viagens_ não deixaria de mencionar essa

circunstância!

* * * * *

Na estrofe de Bernardim Ribeiro, na écloga _Crisfal_, em que a amada do

poeta se refere a ter passado para o _casal da Figueira_ do _Val de

Pantaleão_, designações que a nosso ver disfarçam, sob _falsos crismas_,

os nomes verdadeiros da casa e localidade para onde se transferiu,

talvez após o casamento, a decantada _Aonia_, encontra-se, nítida, a

alusão á ultima entrevista dos namorados:

«Quando contigo falei

aquela ultima vez,

o choro que então chorei,

que o teu chorar me fez,

nunca o esquecerei.

Foi esta a vez derradeira,

mas começo de paixão,

passando-me eu então

pera o casal da Figueira

do Val de Pantalião.»

Achamos interessante reproduzir, n'esta altura, do capítulo XXVIII da

_Menina e moça_, os periodos referentes á ultima entrevista de

_Bimnarder e Aonia_ para que os leitores, com maior facilidade, possam

orientar o seu juizo, verificando a absoluta identidade entre as duas

produções de Bernardim Ribeiro:

«...Buscando achaque de querer lá ir pera detraz das casas, levando Enis

consigo, ouve tempo pera Aonia entrar onde elle (Bimnarder) estava então

deitado, escontra a outra parte da parede, chorando, porque não vira

Aonia ao passar, que bem se podera elle erguer. E como isto perdera,

cuidava tambem que avia de perder a tornada; porque um mal nunca lhe

viera sem outro; pelo que estava no maior pranto do mundo, antre si.

«Entrada Aonia, deteve-se um pouco, e sentiu que elle chorava, e

suspirava baixo, de maneira que como, naquello, se forçava a si mesmo.

«Ella, para ver se poderia saber o porquê, que tudo desejava saber

d'elle, deteve-se ainda mais; mas elle, com pensamentos muitos, que

sobrevinham ao choro, mais o acrescentava do que o diminuia.

«Assentando-se então Aonia na borda d'aquella sua pobre cama, lhe pôs a

mão, e quisera-lhe dizer alguma cousa, mas não pôde, que lhe faleceu o

espirito.

«Virando-se Bimnarder, e vendo a, tambem lhe faleceu o seu.

«Estiveram assi ambos um grande pedaço sem se dizerem nada um ao outro:

e elle, com os olhos postos em Aonia, e Aonia postos os seus no chão,

que, em se virando Birmnarder, tomou vergonha. Levando-os assi á terra,

cobriu-se-lhe o seu fermoso rosto de uma tamalavez de côr, alem da

natural; e soía dizer meu pae (que parte d'esta historia em seu tempo se

soubera) que não parecia se não que viera aquella côr como por ajudar

ainda Aonia escontra Bimnarder, tam formosa a ella, formosa, fizera.

«Mas, estando assi nisto elles ambos, e não estando elles ambos ali,

chegou Enis muito rijo á porta, dizendo que se queriam já ir, e que a

mandavam chamar.

«Assi, foi forçado levantar-se Aonia, e ir se, e Bimnarder ver tudo, e

ficar.

«Mas Aonia, que bem via os olhos de Bimnarder como ficavam, tomou uma

manga de sua camisa, e, rompendo-a, pera remedio de suas lagrimas lh'a

deu, significando, na maneira só de como lha deu, o pera que lh'a dava;

que parece que a dor grande que sentia não lh'o deixou dizer por

palavras; mas, em lh'a dando, pôs os olhos nos seus, dizendo-lhe só

assi:

--«Pesa-me, pois a minha ventura ou desaventura, não quis que eu vos

deixasse de magoar com o que eu não quisera.»--

«E estas palavras lhe disse já fora da porta.

«E com ellas, e com o que sentiu ao dizer d'ellas, duas e duas, lhe

começaram as lagrimas a correr dos seus fermosos olhos, e, pelas suas

faces fermosas abaixo, lhe iam fazendo carreiras por onde iam, que

Bimnarder a tanto pranto convidou quanta era a rezão d'elle, pois perdia

a vista.

«Foi tanto o choro, que não lhe abastavam os seus olhos ás suas

lagrimas...»

*5*

«Os manuscriptos conhecidos de Bernardim Ribeiro andavam ligados

com os de Christovam Falcão, como se vê pela descripção do n.^o 180

da Livraria do Conde de Vimieiro: Obras em prosa e verso de Sá de

Miranda, Bernardim Ribeiro e Christovam Falcão;»

_Do artigo «Movimento litterário»._

É com verdadeiro pesar que vemos o encanecido trabalhador recorrer a

processos como o que ressalta da afirmação que deixamos transcrita, só

pela caturrice de não querer confessar que errou...

O leitor desprevenido ficou julgando, certamente, por honra da firma que

subscrevia o artigo _Movimento litterario_, que na livraria do Conde de

Vimieiro tinham existido _os manuscritos conhecidos de Bernardim

Ribeiro_, que _andavam ligados com os de Christovam Falcão_...

Pois, se tal ficou julgando, enganou-se redondamente.

O snr. dr. Theóphilo Braga adulterou a verdade dos factos, procurando

talvez iludir-se a si proprio, pois não podemos admitir que s. ex.^a

imaginasse, por tal processo, mistificar alguem. É até possivel,

muitissimo provavel mesmo, que o ilustre escritor não pesasse

devidamente as palavras de que se serviu, e que assim incorresse, na

melhor boa fé, n'uma indesculpavel inexactidão.

Vejamos onde o snr. dr. Theóphilo Braga foi fazer a descoberta preciosa

dos _manuscritos conhecidos de Bernardim Ribeiro_...

Ao n.^o 180 do catalogo da Livraria do Conde de Vimieiro, como consta do

tomo V da _Colleçam dos documentos, e memorias da Academia Real da

Historia Portugueza_.

O distinto professor não indicou a _fonte_, certamente por lapso, mas

nós conseguimos descobri-la sem carecer do auxílio de _dunguinha_.

Ouçamos agora a conferência do Conde da Ericeira, D. Francisco Xavier de

Menezes, em relação ao codice N.^o 180:

«Tem o volume que examinei 287 folhas, as quaes nos primeiros

numeros eram 330, porem as que lhe faltão, parecem mudadas para

outras Collecções, e sendo a letra, e papel de duzentos annos de

antiguidade, pois a folhas 122 se acabão as noticias com a morte

del Rei D. Manoel, que foi a 13 de Dezembro de 1521; se conserva

este manuscripto inteiro, e em bom estado.......................

(Traz a divisão do livro em 5 partes e segue:

«A segunda divisão deste livro consiste em algumas Memorias de

successos raros de Europa, como são uma carta del Rei Ludovico de

Hungria para o Emperador na ultima batalha que deu ao Turco, uma

Relação dos infelizes principios de Luthero, e outros. Seguem-se

cartas de homens celebres d'aquelle tempo pelo seu engenho, e

graça, que entre as alusões jocoserias descobrem memorias

particulares: deste genero são sete de Antonio Ribeiro Chiado, duas

de Lourenço de Caceres, e outros. As obras em prosa, e verso de

Francisco de Sá de Miranda, as de Bernardim Ribeiro, Christovão

Falcão, André Soares, Francisco de Moraes, Gil Vicente, Duarte de

Oliveira, o Barão D. Diogo Lobo, e outros Poetas antigos, servem de

verificar as varias lições das impressas, e de restituir as

manuscriptas.»[10]

Como se vê, por uma fórma irrefragavel, não se tratava dos manuscritos

conhecidos de Bernardim Ribeiro, como não se tratava egualmente de

manuscritos de Cristovam Falcão...

Tratava-se de uma miscelánea manuscrita, em prosa e verso, que continha

produções de vários poetas, e, entre essas, as que se atribuiam ao

suposto _Crisfal_. A simples citação do nome de Cr. Falcão logo após o

de Bernardim não bastará para se ajuizar que no manuscrito havia cópia

das poesias que nas obras de B. Ribeiro vinham atribuidas, sob reservas,

ao suposto trovador?

Se nós, para documentarmos o nosso livro _Bernardim Ribeiro_, tivessemos

recorrido a expedientes semelhantes, como não seriamos julgados pelo

snr. dr. Theóphilo!

*6*

«tambem o Arcediago do Barreiro, dr. Jeronymo José Rodrigues

examinou no Porto um manuscripto analogo ao das edições de 1559, em

que vinham a _Menina e Moça_, duas eclogas de Bernardim Ribeiro--«e

até se acham no fim algumas poesias de Christovam Falcão, do que se

faz menção no mesmo logar de Nicoláo Antonio.» (Innocencio, _Dicc.

Bibliog._)»

_Do artigo «Movimento litterario»._

O arcediago do Barreiro, invocado pelo snr. dr. Theóphilo Braga, era o

arcediago do Barroso, cujos apontamentos manuscritos foram explorados

por Innocencio.

Vejamos o que o benemérito bibliófilo escreveu a pag. 379 do seu

_Diccionario Bibliographico portuguez_:

«Nos apontamentos manuscriptos do arcediago de Barroso Jeronymo

José Rodrigues, de que já outras vezes me aproveitei n'este volume,

encontro ácerca do auctor da _Menina e moça_ o trecho que se segue:

«As obras de Bernaldim Ribeiro (que assim se acha escripto o seu

nome no manuscripto que lemos, e assim diz Nicolau Antonio na

_Bibl. Hispanica_, que vulgarmente era chamado) por sua muita

raridade são difficeis de encontrar, e duvidamos que se hajam

impresso todas. A _Bibl. Lus._ faz só menção da Menina e moça, ou

_Saudades de Bernardim Ribeiro_. Além das impressões que alli cita,

que são tres, faz Nicolau Antonio menção de uma, impressa em Lisboa

em 1559, em 8.^o, que em tudo tem muita semilhança com o

manuscripto, que tivemos alguns tempos em nossa mão, e que vamos

aqui extractar. O titulo em nada desmente do que traz a _Bibl.

Hisp._, e até se acham no fim algumas poesias de Christovam Falcão,

de que se faz menção n'este mesmo logar de Nicolau Antonio.--O

titulo que se lê no manuscripto é: _Historia da Menina e moça, por

Bernaldim Ribeiro_. Principia: «_Menina e moça me levaram de casa

de minha may para muito longe_», e acaba: «_Com demasiada ira disse

contra a Donzela que ho aly trouxera estas palavras_». Consta de

historia em prosa, e inclue em alguns lugares poesias de gosto são

e pura linguagem, etc. E além da historia, acham-se no manuscripto

duas eclogas de que o abbade Barbosa talvez não teve noticia. Na

primeira são interlocutores Persio e Fauno; principia: «_Nas selvas

junto do mar_», e consta de trinta e quatro estancias de dez versos

cada uma.--Na segunda são interlocutores Jano e Franco, principia:

«Dizem que havia um pastor», e acaba: «Tambem tempo é tormento.»

Theóphilo Braga e a lenda do Crisfal · 第 4 / 8 段