Procedemos ao mesmo exame a que o snr. dr. Theóphilo Braga sujeitou o

_pliego-suelto_, e chegamos a egual conclusão. Algumas vezes nos

haviamos de encontrar em concordância de vistas com s. ex.^a. E porque o

nosso pensar sobre o assunto egualava o do ilustre professor, escrevemos

a pag. 119 do livro _Bernardim Ribeiro_ (O Poeta Crisfal), aludindo ao

folheto sem indicação de data nem de lugar de impressão:

[Figura]

«...mas reconhecendo-se, pelo confronto com outros folhetos, ser de

1536).

«Como muito bem observou o snr. dr. Theóphilo Braga, etc.»

Seguiu-se a transcrição do parágrafo do snr. dr. Th. Braga que atrás

reproduzimos.

Mudou o abalisado professor de opinião quanto á data do _pliego-suelto_,

querendo agora fixar-lhe o ano de 1542, como poderia fixar-lhe o de 1552

ou 1562, arbitrariamente.

Se ao menos s. ex.^a tivesse a condescendência de indicar-nos quando

seguiu os _processos inductivos da crítica moderna_! Ao fixar a data de

1536 ou quando arbitrou a de 1542?

Em folha apensa, damos uma reprodução foto-zincográfica das primeiras

páginas dos tres folhetos que levaram o snr. dr. Theóphilo Braga a fixar

a data da primeira edição conhecida das _Trovas de Crisfal_ em 1536.

Se nos perguntarem se estamos dispostos a quebrar lanças para sustentar

a antiga opinião do historiador da _Litteratura Portugueza_,

responderemos, com toda a franqueza, negativamente. O que não podemos

admitir é que se procure agora determinar-lhe _com precisão_ a data de

1542, com o simples fundamento de que n'esse ano estava em Roma o seu

suposto autor...

Alude o snr. dr. Theóphilo Braga ao facto de Camões empregar versos do

_Crisfal_.

A explicação, a nosso ver, é muito simples:

Em Faria e Sousa, o insigne fabulista, autor muito da predilecção do

snr. dr. Theóphilo, encontra-se uma afirmativa, que constitue em nosso

juizo uma das raras que merecem algum crédito, não obstante a impureza

da _fonte_.

Referindo-se a Bernardim Ribeiro, escreveu Faria e Sousa: «poeta bien

conocido y a quien llamava su Enio el divino Camões.»

Não desconhece isto o professor do Curso Superior de Letras, porque a

pag. 131 da primeira edição do seu _Bernardim Ribeiro_ reproduziu da

_Fuente de Aganipe_ o dizer de Faria.

Como demonstrámos no volume sobre o _Poeta Crisfal_, Camões glosou o

magoado solau da _Menina e moça_, de Bernardim Ribeiro.

Em uma das cartas atribuidas ao cantor dos _Lusiadas_, encontra-se uma

alusão directa ao autor das _Saudades_, indicando-lhe o nome: _Bernardim

Ribeiro_.

Se Bernardim era o seu _Enio_, naturalíssimo é que Camões se deixasse

influenciar pelo Mestre, imitando alguns dos seus versos.

A não ser que o snr dr. Theóphilo Braga queira concluir que, sendo

Bernardim o _Enio_ de Camões, Cristovam Falcão era o _Enio_ numero 2 do

mesmo poeta,--assim a modos de um _Enio_ barato, para trazer por casa.

Prossigamos...

*9*

«Na edição de Lisboa vem duas estrophes supprimidas no texto de

Ferrara e Colonia, por que continham uma _inconfidencia_. Isto leva

a explicar como Cristovam Falcão tentaria apagar a paternidade da

Ecloga fundamentando-se-lhe a imputação com o anagramma das

primeiras syllabas do nome.»

_Carta do snr. dr. Th. Braga._

Salvo erro, o snr. dr. Theóphilo Braga quer referir-se apenas a uma, e

não a duas estrofes.

E á estrofe que reza:

Muitos pastores buscaram

mas um pastor por ser-te amigo,

e outro por ser-te enemigo,

um e outro se escusaram.

E dão-lhe logo comigo

gados que farão mil queijos;

mas como se despediam

é já mostrar que temiam

que o sabor dos teus beijos

na minha boca achariam!

Falava-se em _beijos_... Era uma _inconfidência_, e gravíssima, e por

isso a estrofe foi suprimida nas edições de Ferrara e de Colónia! Está

claro, e tam claro que, no dizer do snr. dr. Th. Braga, «_isto leva a

explicar como Cristovam Falcão tentaria apagar a paternidade da

Ecloga_...»

Ora admitindo por um momento que Cristovam Falcão houvesse sido poeta, e

tivesse a lembrança de escrever uma écloga abundante em

_inconfidências_, pespegava-lhe, sem mais nem menos, com um anagrama

deduzido das primeiras sílabas do seu nome, para que toda a gente logo o

apontasse a dedo como _inconfidente_?

De mais a mais, como quer o snr. dr. Th. Braga na sua exegese, se o

suposto poeta empregasse os nomes verdadeiros de todas as personagens

que a écloga alvejava, isso constituiria um _apagamento_ de paternidade

muito pouco apagado...

Todo o mistério, o discreto veu da fantasia, a cobrir a realidade dos

episódios que a écloga do _Crisfal_ menciona, equivaleria á ingenuidade

infantil d'aquela antiga adivinha: «Branco é, galinha o põe»!

Ponha se o snr. dr. Th. Braga no lugar do pseudo-trovador, imagíne que

resolvia arquitectar uma écloga cheia de _inconfidências_, e diga-nos,

com franqueza, se, desejando apagar a paternidade de um tal feito,

assinaria a sua produção com o anagrama _Theobra_?

Logo os seus discípulos concluiriam, triunfalmente: «Cá temos mais um

poema do Mestre!» E fosse lá s. ex.^a convencê-los de que não era tal o

autor da _inconfidência_!

*10*

«Os logares communs a Bernardim Ribeiro e Cristovam Falcão provam

mais a favor da imitação de um discipulo, do que á fusão dos dois

poetas, repetindo-se o mestre na decadencia.»

_Carta do snr. dr. Th. Braga._

Com o respeito devido ao professor de literatura, de modo nenhum podemos

aceitar a sentença de s. ex.^a

A _subtileza_ do snr. dr. Theóphilo Braga, proclamando que os lugares

comuns a Bernardim Ribeiro e Cristovam Falcão provam mais a favor da

imitação de um discípulo do que á fusão dos dois poetas, é da natureza

do conhecido artifício pelo qual se póde sustentar que cinco vintens não

são um tostão, ou vice-versa!

Admitindo que Cristovam Falcão tivesse sido um imitador de Bernardim,

como quer o abalisado professor, explica-se porventura que levasse tam

longe a sua improbidade literária, que roubasse por inteiro versos e

cantigas ao seu mestre, com a maior desfaçatez? Pois o autor da _Carta_

e da _Eclóga de Crisfal_, a ser um imitador, não teria o bom senso

suficiente para reconhecer que, roubando versos de Bernardim, não

alcançaria renome de poeta, mas o apodo de salteador literário?

Um imitador, por mais inexperiente e tacanho, não se aproveita dos

textos que imita de maneira a que lhe possam apontar os versos

_palmados_. Ou não será isto o que a lógica permite conjecturar?

Como ignoramos _os processos inductivos da critica moderna_, é possivel

que estejamos em erro, e que da mesma ignorância resulte não alcançarmos

o sentido das palavras do snr. dr. Theóphilo Braga quando afirma que o

mestre (Bernardim Ribeiro) se repetiu na decadência.

Que repetições? e que decadência?

*11*

«Emfim ha dois schemas de paixão amorosa que se não confundem: o de

Joana e Fauno, Aonia e Bimnarder, e o de Maria e Crisfal. São duas

almas, sentindo em situações differentes.»

_Carta do snr. dr. Th. Braga._

Ha dois schemas de paixão amorosa que se não confundem, diz o snr. dr.

Theóphilo Braga na carta que, pacientemente, estamos anotando.

É verdadeira esta afirmativa?

--Não, não é verdadeira, e o professor do Curso Superior de Letras sabe

muito bem que o não é.

Em 1897, ao publicar a sua edição refundida do livro _Bernardim

Ribeiro_, confrontando versos de Bernardim com os atribuidos a Cristovam

Falcão, escreveu o professor de literatura.

«Vê-se que á medida que *a situação dos amores de Bernardim Ribeiro

seguia o mesmo desfecho dos amores de Cristovam Falcão*, os dois poetas

communicavam entre si os seus versos, sendo por este modo que se

salvaram as poesias do auctor do _Crisfal_.»[6]

Ha dois schemas de paixão amorosa que se não confundem, diz s. ex.^a,

procurando agarrar-se a uma boia salvadora...

Mas tanto a paixão é uma só que o snr. dr. Theóphilo Braga, na écloga em

que Bernardim se personifica sob o nome bucólico de _Persio_, viu n'essa

personagem *Cristovam Falcão*! E estamos em crer que o ilustre professor

não irá agora sentencear que a écloga primeira de Bernardim tambem foi

elaborada pelo suposto trovador...

Pois se o snr. dr. Theóphilo Braga até concluiu que tanto Bernardim como

Cristovão Falcão sofreram as agruras do _carcere privado_!

Como póde suceder que o distinto escritor já se não recorde do que

escreveu a pag. 76/78 da sua edição refundida do livro «Bernardim

Ribeiro», arquivemos aqui algumas das suas passagens:

«...Não ignorava Bernardim que o namorado de Maria tambem estivera

em carcere privado:

_Vi-me já preso_; contente

A meu mal queria bem.

«Na Carta, que escreveu _estando preso_, e mandou áquella com quem

estava casado a furto, diz Christovam Falcão:

Mal cuja dor se não crê

de _prisão_ e de ausencia!

.............................

Bem se enxerga nos meus danos

_que estou preso ha cinco annos_,

afóra os que heide estar...

«Retratando o cuidado de Persio, diz Bernardim Ribeiro:

Logo então começou

_Seu gado a emagrecer,

Nunca mais d'elle curou_,

Foi-se-lhe todo a perder

Com o cuidado que cobrou.

«Em Christovam Falcão lê-se:

Crisfal não era entam

dos bens do mundo abastado,

tanto como de cuidado,

que por curar da paixão

_não curava do seu gado_.

«E continuando o parallelismo, por onde se vê que os dois poetas

eram mutuos confidentes, e se influenciaram, temos mais estes

traços com que Bernardim Ribeiro retrata o _Crisfal_:

Sentava-me em um penedo

Que no meio d'agua estava;

Então alli só e quedo

A minha frauta tocava.

«E no _Crisfal_, quasi pela mesma maneira:

Alli sobre uma ribeira

de mui alta penedia,

d'onde a agua d'alto caía,

dizendo d'esta maneira

estava a noite e o dia...

«Bastam estas comparações para se reconhecer a communhão artistica

entre os dois namorados poetas.»

Depois de haver escrito o que acaba de ler-se, como se compreende que o

snr. dr. Theóphilo Braga venha proclamar, com a maior sem-cerimónia, que

ha _dois schemas de paixão amorosa que se não confundem_!

Quanto a _Fauno_, nome pastoril que, em uma das éclogas, Bernardim dá ao

seu amigo, confidente e colega Francisco de Sá de Miranda, quer o snr.

dr. Theóphilo Braga que seja a personificação do próprio B.

Ribeiro,--talvez para não confessar que nós acertamos na interpretação

apresentada no _Poeta Crisfal_.

Temos certa curiosidade em saber se na futura refundição do livro sobre

os poetas bucolistas o seu autor transferirá para Sá de Miranda o crisma

de _Persio_, na impossibilidade de continuar a ver na mesma figura os

traços de Cristovam Falcão...

De uns versos de Francisco de Sá, imitando uma canção de Petrarca, já o

ilustre professor concluiu que o amigo de Bernardim sofrera a prisão,

por motivo de amores... É meio caminho andado para que, na fantasia de

s. ex.^a, o douto Sá de Miranda vá tomar o pouso do derreado Falcão.

A ver vamos... como dizia o cego, e cada vez via menos!

*12*

«Através de todo o hypercriticismo, o livro sobre Bernardim revela

um trabalhador fervoroso, etc.»

_Carta do snr. dr. Th. Braga._

Duas palavras apenas:

A nosso juizo, aquele _através_ está a substituir, amavelmente, o

advérbio _apesar_... É o que julgamos depreender da sequência da frase.

No nosso modesto e desvalioso estudo, o snr. dr. Theóphilo Braga apenas

viu _hipercriticismo_, o que de modo nenhum póde agradar ao historiador

da _Litteratura Portugueza_, que só emprega os modernos processos da

crítica scientífica,--graças aos quaes... se vê obrigado a refundir

amiude os seus trabalhos!

Continuaremos, impenitentes, a cultivar o _hipercriticismo_, deixando ao

snr. dr. Theóphilo Braga o uso exclusivo dos seus processos, que não nos

seduzem, com toda a franqueza o dizemos.

IV

A comunicação do presidente da Academia das Sciencias de Portugal

No seio da sociedade scientífica e litéraria, de que é ilustre

presidente, proclamou o snr. dr. Theóphilo Braga, á porta fechada, isto

é, em reunião privativa dos sócios d'aquela Academia, que a vida amorosa

de Cristovam Falcão «_oscila entre 1525 e 1526, sendo n'aquella data

moço fidalgo, tendo pelo menos 12 annos_».

Cristovam Falcão de Sousa era moço fidalgo em 1527, como se demonstra

indubitavelmente pelo registo exarado n'um livro que existe no arquivo

da Torre do Tombo, registo que reproduzimos com fidelidade a paginas

168/9 do nosso estudo sobre Bernardim Ribeiro.

Na sua erudita comunicação á Academia das Sciencias de Portugal, afirmou

o snr. dr. Theóphilo Braga que o suposto autor do _Crisfal_ tinha _pelo

menos 12 anos á data de 1525_...

Não indicou o douto académico o documento ou _recurso histórico_, em que

se estribava para sentencear, sem admitir réplica, que o pseudo-trovador

tinha _pelo menos 12 anos á data de 1525_, mas é possivel que s. ex.^a

esteja munido de concludentes provas para demonstrar a justeza da sua

afirmativa, se alguem se lembrar de contestar-lhe tam peremptória

opinião.

Se o ilustre professor não possue a tal respeito documentos bastantes,

póde dar-se o caso de alguem vir àmanhan, quando mais não seja para

fazer pirraça a s. ex.^a, declarar que Cristovam Falcão de Sousa, á data

de 1525, não era ainda nascido, ou, quando muito, teria doze mêses, e

não 12 anos...

Mas é possivel que o snr. dr. Theóphilo Braga tenha conseguido descobrir

qualquer documento em que apoie a sua sentença. É até muito possivel!

O importante, por agora, é verificar que o laureado académico fixou o

ano do nascimento do pseudo-poeta em 1513, poucos mêses mais, poucos

mêses menos, se a lógica não é uma cantata para adormecer meninos.

Ora, sendo assim, vê-se que alguma cousa se ganhou com a publicação do

nosso livro sobre o _Poeta Crisfal_, onde a paginas 176 escrevemos:

«*Quanto a Cristovam Falcão de Sousa, moço fidalgo em 1527, por muito

que se queira afastar a data do seu nascimento, não poderá esta ser

fixada em ano anterior a 1510. Fixando-se o seu nascimento entre os anos

de 1510 a 1515, é natural que se fique muito próximo da verdade.*»

O snr. dr. Theóphilo Braga, em face do nosso estudo, escolheu o ano de

1513, cifra que se encontra compreendida _entre 1510 a 1515_, salvo

erro.

Nós, porém, com inteira franqueza o dizemos, temos ainda suas dúvidas, e

após recentes pesquizas, em que vamos prosseguindo, inclinamo-nos a

ajuizar que o pseudo-_ultimo eco do alaúde_ ainda não era nascido no ano

de 1516...

Mas, para aclarar este ponto de capital importância, aguardemos a nova

versão que o snr. dr. Theóphilo Braga tem na forja sobre os poetas

bucolistas.

Além de ter modificado a sua antiga doutrina sobre a epoca em que

floresceu o falso _Crisfal_, na sua comunicação ao grémio literário a

cujos destinos preside, o snr. dr. Theóphilo determinou que a vida

amorosa do homenzinho oscilara *entre 1525 e 1526*,--isto é no período

ingénuo e viçoso dos doze para os treze anos, quando a suposta mulher

amada pelo Xpouão contaria, na melhor das hipóteses, as suas fagueiras e

menineiras dez primaveras...

Mas, decorrido menos de um mês sobre a comunicação... scientífica, o

egrégio conferente emendou este seu parecer, como se verá quando

analisarmos o artigo epigrafado _Movimento litterario_.

Segundo o extrato publicado no jornal «O Mundo», que condizia com os de

outras gazetas, o snr. dr. Theóphilo Braga «_evidenciou que na ecloga

«Crisfal» transpareciam diversas situações da vida de Cristovam

Falcão_.»

Infelizmente, os jornaes não nos forneceram qualquer pormenor

elucidativo sobre a referida _evidenciação_, pelo que ficamos, com

verdadeiro pesar, privados de reconhecer a maneira engenhosa pela qual o

distincto professor de literatura conseguiu demonstrar, _urbi et orbi_,

que na magoada écloga de Bernardim Ribeiro transpareciam _diversas

situações da vida de Cristovam Falcão_.

É possivel, porém, que na próxima futura refundição do seu livro sobre

os bucolistas, o snr. dr. Theóphilo Braga inclua um largo capítulo em

que trate o assunto com o devido desenvolvimento, completando o extrato

que os jornaes fizeram da sua apreciavel comunicação, com o que

preencherá uma sensivel lacuna. Oxalá assim suceda.

Terminou o conferente a sua palestra por invocar, mais uma vez, Diogo do

Couto e Gaspar Frutuoso; e mais uma vez afirmou que as duas

individualidades (Bernardim Ribeiro e Cristovam Falcão de Sousa) _não

podem jàmais confundir-se_.

Perfeitamente de acordo, n'esta parte, com o venerado professor!

Cristovam Falcão, o iletrado autor das _Quartas_, não póde jàmais

confundir-se com Bernardim Ribeiro, o mavioso autor da _Carta_ e da

_Ecloga de Crisfal_...

Pelo que, implicitamente, fica demonstrado que nós não temos dúvida em

adoptar uma ou outra das conclusões do presidente da Academia das

Sciencias de Portugal, apesar de todo o nosso hipercriticismo, como está

vendo o nosso _prezadíssimo amigo_!

V

O artigo «Movimento litterário»

Como os leitores viram, pela reprodução que fizemos no primeiro capítulo

d'este trabalho, no artigo que publicamos nas colunas do diário «A

Lucta», sob a epigrafe: «_Os processos... scientificos do snr. dr.

Theóphilo Braga_», salientámos várias inexactidões contidas no capcioso

desarrazoado que o professor do Curso Superior de Letras estampou no

jornal «O Dia», a pretexto de dar notícia do movimento literário

português no ano de 1908.

Não insistiremos sobre os pontos já visados, embora prestassem o flanco

a mais largas considerações, mas nem o tempo nos é sobejo nem tam pouco

desejamos abusar da benevolência dos que nos lêem, prolongando

demasiadamente este comentário desenfastiado e despretencioso ás

refutações embrogliadoras e falhas de sinceridade do snr. dr. Theóphilo

Braga.

Sem a publicação do artigo _Movimento litterário_, aguardariamos

pacientemente a futura refundição do livro consagrado ao estudo dos

poetas bucolistas pelo egrégio professor, e só em face das novas

exegeses fantasiadas pelo snr. dr. Theóphilo Braga viriamos a público

dizer o que se nos oferecesse, defendendo, o melhor que soubessemos e

pudessemos, as conclusões que apresentámos no nosso trabalho sobre o

_Poeta Crisfal_.

Não o quis assim o distinto escritor açoreano. Seja feita a sua vontade!

*1*

«...o snr. Delfim Guimarães publicava o seu livro _Bernardim

Ribeiro--O Poeta Crisfal_, em que resume o já sabido da biographia

do auctor da Menina e Moça, forçando interpretações de versos a

significarem os factos que imagina.»

_Do artigo «Movimento Litterario_.»

Na opinião soberana do consagrado professor, no nosso livro sobre

Bernardim Ribeiro resumimos o _já sabido_ da biografia do autor da

_Menina e moça_, e forçámos interpretações de versos a significar os

factos que imaginámos!

Tem carradas de razão o implacavel crítico quando proclama, desdenhoso,

que nós resumimos o que já era sabido da biografia do grande poeta

bucolista.

Resumimos quanto pudemos, exageradamente talvez, o que _já era sabido_

da biografia de Bernardim Ribeiro, mas muito de propósito assim

procedemos, para que ninguem, em face do nosso trabalho, pudesse dizer

com justiça que fôra nosso intento fazer substituir no mercado o livro

do snr. dr. Theóphilo Braga pelo nosso.

É certo que nos poderiamos ter conduzido pela mesma fórma adoptada pelo

consciencioso escritor ao _resumir_ no seu _Garrett_ o trabalho

desenvolvido de Gomes de Amorim, mas não quisemos seguir semelhante

conduta, muito embora pudessemos invocar, como modêlo, o exemplo que nos

fornecia o historiador da *Litteratura Portugueza*.

Não quisemos enveredar por esse caminho, e não estamos arrependidos,

apesar do remoque com que fomos alvejados. Cada qual segue os processos

que muito bem entende, mais em harmonia com o seu temperamento ou

educação.

Resumimos o já sabido da biografia de Bernardim, é um facto; mas tivemos

o cuidado de não aproveitar aquela descoberta mais que problemática que

localizou a _Quinta dos Lobos_ na _Quinta da Piedade_, em Sintra, e nem

por um momento nos passou pela cabeça perfilhar as palavras do snr. dr.

Theóphilo Braga quando vê «*a persistencia do elemento mauresco, na

paixão exaltada do poeta e no calor surprehendente da sua

linguagem*».[7]

Não seguimos tam pouco na esteira do eminente exegeta quando s. ex.^a

pinta, ao sabor da sua fantasia rocamboliana, Bernardim Ribeiro:

«*moreno, fino e enchuto de carnes, com a perdição no olhar e a

fatalidade invencivel no amor*.»[8]

Resumimos o já sabido da biografia de Bernardim, alto e bom som o

declaramos; mas alguns erros tivemos ocasião de apontar ao biógrafo

ilustre do autor da _Menina e moça_, para que os corrija, querendo, nas

futuras edições, pelo que nenhum agradecimento nos deve, seja dito.

Que teria perdido o renome universal do Mestre em se mostrar, não

diremos mais benevolente, mas mais justo? Oh! o positivismo!...

Mas assevera o snr. dr. Theóphilo Braga que nós *forçamos interpretações

de versos a significarem os factos que imaginamos*!

Onde viu s. ex.^a essas interpretações forçadas?

Tendo-as visto, por que motivo não veio indicá-las em público, para

exautoração do nosso _hipercriticismo_, para maior glória do seu

laureado nome, para mais intenso fulgor da nossa História literária?

Forçâmos interpretações de versos!

Se o professor de literatura estivesse de boa fé, e entendesse realmente

que nós haviamos errado a interpretação de versos de Bernardim, que lhe

competia fazer, que lhe cumpria fazer?

--Indicar-nos onde haviamos errado, fazendo-nos ver que estavamos em

erro; e quando s. ex.^a nos convencesse da razão das suas corrigendas,

ou reprimendas, acredite o snr. dr. Theóphilo Braga que havia de ver-nos

confessar, com honestidade, sem o menor rebuço, que tinhamos errado, e

não fugiriamos a apregoar que o ilustre censor nos aplicara umas

palmatoadas merecidas.

Mas quando mesmo (o que não está demonstrado) tivessemos incorrido em

erros ao interpretar versos de Bernardim, tinha, porventura, o snr. dr.

Theóphilo Braga a precisa autoridade para os apontar por aquela fórma

agressiva, com semelhante crueza?

--Não tinha. S. ex.^a não póde arguir quem quer que seja de _forçar

interpretações_, porque ninguem como o professor do Curso Superior de

Letras é useiro em amoldar interpretações de versos ao sabor da sua

imaginação.

Para que ninguem nos incrimine de injustos para com o snr. dr. Theóphilo

Braga, vamos demonstrar com exemplos colhidos em obras do Mestre algumas

_interpretações_ bizarras, que oferecemos ao critério dos que nos lêem:

N'uma das éclogas de Bernardim Ribeiro, o poeta bucolista, referindo-se

a uma visita que lhe fez o seu amigo Sá de Miranda, escreveu a narrar o

facto:

.......................

e neste mêo chegou

um pastor seu conhecido,

e que dormia cuidou.

Franco de Sandovir era

o seu nome, e buscava

[~u]a frauta que perdera,

que elle mais que a si amava.

Este era aquelle pastor

a quem Celia muito amou,

ninfa do maior primor

que em Mondego se banhou,

e que cantava melhor.

Veja-se como o snr. dr. Theóphilo Braga anotou estes versos:

«*Deve entender-se que foi o pastor, que se banhou no Mondego, e

não Celia, como pode inferir-se*.»

_Sá de Miranda e a Eschola Italiana, p. 49_

* * * * *

Na écloga em que Bernardim adoptou o criptónimo _Crisfal_, descreve o

poeta a aparição da mulher amada, que vê em sonho

vestida de *arenoso*,

ou seja de amarelo, a côr simbólica do pesar ou desespero, o que

qualquer bronco namorado de aldeia sertaneja não ignora.

Pois o snr. dr. Theóphilo, querendo fazer da mulher amada por _Crisfal_

uma freira cisterciense, interpretou a passagem aludida pela seguinte

maneira:

«*Crisfal viu a sua Maria vestida de côr de arenoso, ou do habito

amarellado da Ordem cisterciense*...»

_Obras de Christovam Falcão, p. 11_

Ora o hábito da Ordem de Cister não era amarelado, mas branco!

Não obstante, seguindo o mesmo critério, o distinto professor tambem

quis reivindicar para o suposto poeta Falcão a paternidade de uma poesia

de Bernardim Ribeiro consagrada a _uma senhora que se vestiu de

amarelo_...

Té aqui me pude enganar,

mas agora que podeis

trazer a *côr do pesar*

pera mim só a trazeis...

que o snr. dr. Theóphilo Braga comentou pelo seguinte processo

_inductivo_:

«*Ora o amarello só podia ser côr de pezar no caso de representar a

cúgula cisterciense; e em vista dos factos sabidos, só estava no

caso de escrever esta cantiga Christovam Falcão, e não Bernardim

Ribeiro pelo que se sabe da sua vida*.»

Theóphilo Braga e a lenda do Crisfal · 第 3 / 8 段