suposto poeta, e alterando-lhe caprichosamente a quantia mencionada, o
snr. dr. T. Braga creava um _recurso histórico_ graças ao qual os
discípulos do professor do Curso Superior de Letras podiam aceitar que
pelas alturas do ano da graça de 1517 já existia um afamado poeta com o
nome de Cristovão Falcão, tam desventurado em seus amores que el-rei,
compadecido, lhe fizera mercê da tença, verdadeiramente principesca, de
97$000 réis! E sucedendo um _caso_ d'estes em nossos dias, ainda ha quem
ache estranho que Faria e Sousa e frei Bernardo de Brito improvisassem
(é este o termo próprio?) documentos... históricos!
Ao publicarmos o nosso trabalho sobre Bernardim Ribeiro, não salientamos
devidamente estes pouco recomendaveis processos do snr. dr. Theóphilo
Braga, poupando, com generosidade, o nome do encanecido trabalhador, em
respeito aos seus cabelos brancos.
E á nossa manifesta generosidade correspondeu o aclamado professor
apodando os nossos processos críticos de:--processos... á tôa!
Que nome conceder a esses processos do snr. dr. Theóphilo Braga?
Mas não ficaram por aqui as habilidades de que se serviu o autor da
_Historia da Litteratura Portugueza_. E chamamos-lhes _habilidades_, por
não encontrarmos á mão um termo mais anodino, mais suave, mais doce,
para definir o feito, e não por qualquer propósito agressivo.
Existem na Torre do Tombo cartas autógrafas do suposto autor do
_Crisfal_. A simples publicação d'essas cartas constituiria um golpe
decisivo na lenda que atribuia produções de Bernardim Ribeiro a
Cristovão Falcão de Sousa, por isso que taes documentos revelam que
este, alem de iletrado, não escrevia meia dúzia de linhas sem uma
enfiada de asneiras...--«_uma acumulação de tolices_», no dizer
insuspeito de uma ilustre escritora.
Que fez o snr. dr. Theóphilo Braga?
Publicou essas cartas, alterando-lhe, paternalmente, a ortografia e a
gramática, e deixando assim transparecer que o autor de taes escritos
poderia muito bem ter produzido as poesias bucólicas que lhe atribuiam.
Para que se não ajuízasse que faziamos uma afirmação gratuita ao dizer
que o snr. dr. Th. Braga publicara _emendada_ a obra... em prosa de
Cristovam Falcão, démos no volume _Bernardim Ribeiro_ (O Poeta Crisfal)
uma reprodução foto-zincográfica de uma das cartas do suposto poeta, e,
não desejando colocar n'uma situação pouco invejavel o professor do
Curso Superior de Letras, escrevemos, procurando desculpar o seu
procedimento:
«........o copista, a quem o distinto professor encarregou de
reproduzir o documento existente na Torre do Tombo, forneceu-lhe
uma reprodução _com summa deligencia emendada_, que o snr. dr.
Theóphilo, com a melhor boa fé, estampou no seu livro, e que muito
se afasta do original.»[4]
Nem na sua comunicação á Academia das Sciências de Portugal, nem no seu
artigo do jornal «O Dia», nem na carta que nos dirigiu, se referiu,
embora ao de leve, o snr. dr. T. Braga á carta de Cristovam Falcão de
Sousa... Compreende-se. O documento é tam esmagador, que o infatigavel
polígrafo foge d'ele como dizem que o diabo foge da cruz.
Mas, embora isso não agrade a s. ex.^a, vamos dar aqui a reprodução
paleográfica de outra carta de Cristovam Falcão de Sousa, devendo
elucidar os leitores que o snr. dr. Theóphilo Braga já deu publicidade a
tal documento a pag. 368/70 do seu _Bernardim Ribeiro_ (edição
refundida). Mas deu-lhe publicidade: _emendando-o_...
Como não temos a peito celebrizar o alto engenho e mais partes que
concorriam na pessoa do suposto poeta, reproduzimos a carta fielmente,
e, para desfazer algum erro de leitura ou qualquer _gralha_ que passe á
revisão, juntamos em foto-gravura o seu _fac-simile_.
Eis a carta:
[Figura: Reproducção foto-zincográfica da carta de Cristovam Falcão de
Sousa]
«Sñor. mjnha jrmã dona bracajda faleceo da ujda presemte a dez dias
deste mes pasado estando eu nesa corte [~e] serujço de v. a. onde
me foy a noua pera [~q] viese prover [~e] alg[~u]as cousas da su
alma por me ela dejxar por seu testam[~e]tejro cõ seu marido ejtor
de figuejredo. fiquou-lhe h[~u] só filho e doutro marido [~q] deste
não ouve nenh[~u] e tão Riquo [~q] me diz[~e] que foy posta a
faz[~e]da de seu pay quãdo faleceo (que eu não era no Rejno) [~e]
doze contos. fez meu pay antes [~q] eu de la partise petição a uosa
a. [~q] lhe mãdase [~e]tregar seu neto e tirar de poder de seu
padrasto. sayo lhe na petição [~q] Requerese ao Juiz dos orfãos da
uila donde ho moço está que he borba donde seu padrasto he natural
e alquajde mor pelo duque de bragança e que ele prouerja e que não
no faz[~e]do proverja [~e]tão vosa a. a qual delig[~e]cia eu tenho
fejto que Requery ao Juiz [~q] lho tjrase de poder e que fose loguo
por [~q] eu tjnha sabjdo [~q] eitor de figueiredo detremjnaua
quasar ho moço cõ sua f.^a no fim deste mes [~e] que lhe diziã que
ho moço faz quatorze anos pera ho matrimonjo ser valioso. mãdou ho
Juiz dar ujsta de meu Requerim.^{to} a eitor de figueiredo e njsto
e [~e] ele Responder pasaram ojto dias e nestes me fizerão mujtos
agrauos alomgãdo me ho tempo e me fizerão perdediça h[~u]a petjção
dagrauo na qual agrauaua pera v. a. apresemtandoa eu [~e] audiencja
onde foy lida e jsto tudo por ele ser alquajde mor e ser toda a
ujla de seus paremtes e criados e por [~q] da li não pasão os
agrauos se não pera ho ouujdor do duque onde tão b[~e] me deterjão
pera ho moço chegar ao termo dos quatorze anos detremjney dejxar a
cousa neste termo e fazelo saber a v. a. pera [~q] proueja njsto
como lhe parecer serujço de deos e seu que mjlhor proueja [~q] pois
t[~e] tal faz[~e]da que v. a. ho quase cõ qu[~e] ouuer por seu
serujço [~q] não [~q] ho orfão seia asy Roubado. no que v. a. deue
loguo prouer como pay dos orfãos [~q] he quanto mais [~q] quarega
jsto sobre cõcj[~e]cja de v. a. por h[~u] alu.^{rá} que vosa a.
pasou a ejtor de figueiredo ao t[~e]po [~q] quasou cõ mjnha Jrmã
pelo qual tjrou a titorja a meu pay de seu neto por lha dar a ele.
ao qual agora ajnda se pega, como se não fose cerada a cousa por
morte de mjnha Jrmã. e o [~q] me parece [~q] se deue fazer he pasar
v. a. logo alu.^{rá} por esta quarta [~q] pode serujr de petjção,
[~q] polo qual mãde a h[~u] dos quoReiadores destremoz elvas ou por
talegre [~q] qualquer deles va a borba e tjre ho moço de poder de
seu padrasto e [~e]tregue sua p.^a a meu pay seu auô ou a meu jrmão
barnabé de sousa [~q] t[~e] faz[~e]da p.^a ho mjlhor mãter [~q]
biue [~e] portalegre onde ho moço t[~e] parte de sua faz[~e]da e
lhe he já dado por tutor desta fazemda e despois do moço tjrado
prouer v. a. [~e] qu[~e] seia seu tutor e seja ouujdo ejtor de
figuejredo das Rezomis [~q] diz ter pera [~q] ho moço quase cõ sua
f.^a mas jsto deuela ser amte v. a. [~q] qua não sey quãto se
gardara Justiça e ho aluará pode v. a. mãdar dar a demjão de sousa
meu irmão [~q] la amda [~q] ele ho fará vir cõ mujta delig[~e]cia
[~q] eu fiquo qua esperamdo p.^a ho Requerer e apresemtar. e
l[~e]bro mais a uosa a. [~q] mãde ao mesmo coReiador que
[~e]t[~e]da nas partjlhas e jmb[~e]tajro [~q] doutra manejra será
Roubado ho orfão e asi [~q] o t[~e]po aquaba p.^a fim deste mes e
eu s.^{or} neste trabalho nõ pretendo mais [~q] fazer ho [~q] deuo
e tenho dejxado os Requerjm.^{tos} que trago cõ v. a. [~e] mão de
fernão daluarez peço a v. a. que nõ perqua por ausente de ser
despachado. a qu[~e] deos a ujda e Real estado acrec[~e]te. de
portalegre sete de novembro. as Reajs mãos de v. a. bejjo. xpouão
falcão de sousa.»[5]
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Ao leitor deixamos a faculdade de comentar a carta _primorosa_ do
sarrafaçal engenho que durante alguns séculos gosou da fama de poeta
insigne, em prejuizo do nome aureolado de Bernardim Ribeiro.
III
Anotações á carta que nos dirigiu o snr. dr. Theóphilo Braga
*1*
«A ninguem interessaria tanto o conhecimento d'este problema, como
a mim, que esbocei uma biographia de Christovam Falcão com
elementos historicos (documentos authenticos) comprovando dados
genealogicos.»
_Carta do snr. dr. Th. Braga._
Não ha a menor dúvida quanto á primeira parte d'esta afirmação.
Com efeito, o snr. dr. Theóphilo Braga esboçou uma biografia de
Cristovam Falcão, e ninguem ousará contestar-lhe o mérito de haver sido
o Plutarco do suposto trovador.
Esboçando-lhe a biografia, o abalisado professor de literatura serviu-se
de documentos autênticos... mas utilizando alguns que não diziam
respeito ao pseudo-poeta, e sim a um outro Cristovam; e interpretando,
modificando e adulterando outros documentos ao sabor do seu paladar, ao
capricho da sua fantasia.
No capitulo XIX do nosso estudo sobre Bernardim Ribeiro destrinçamos os
documentos históricos que o snr. dr. Theóphilo Braga propositadamente
confundiu, e restabelecemos o texto de uma das cartas de Cristovam
Falcão de Sousa que o habil professor _emendara_, com o zelo de Plutarco
cioso do bom nome do seu heroe... lendário.
No segundo capítulo d'este livro, ficou tambem fielmente reproduzida
outra carta de Cristovam Falcão, que o infatigavel historiador havia
_corrigido_, como se se tratasse de um tema de algum discípulo seu.
Mesmo quando se entrega a trabalhos de reconstituição histórica, o snr.
dr. Theóphilo Braga não se esquece de que é professor de literatura
portuguêsa!
Depois de isto, como ousa o snr. dr. Theóphilo Braga invocar os
documentos autênticos de que tam mau uso fez?
*2*
«Tive de ler immediatamente o seu livro, para ver que materiaes
traria para o aperfeiçoamento do meu trabalho.»
_Carta do snr. dr. Th. Braga._
Tem graça, e não ofende!
Se leu imediatamente o nosso livro, não foi para ver que novos subsídios
forneciamos para o estudo da história da literatura portuguêsa, mas sim
para conhecer quaes os materiaes que lhe facultariamos para o
aperfeiçoamento do seu trabalho...
Cabe n'esta altura, a talho de foice, deixar consignada certa passagem
de uma palestra que o snr. dr. Theóphilo Braga teve com um dos seus mais
inteligentes discípulos a propósito da publicação do nosso livro sobre
Bernardim Ribeiro:
«V. compreende... Eu sou como um mestre de obras... na construção de um
edificio. Ha vários pedreiros... Vão-me chegando ás mãos diversas
pedras... Aproveito aquelas que se me afiguram de feição, geitosas,
convenientes para a minha obra, e as outras ponho as de parte, deito-as
fóra.»
E a um distinto confrade nas letras, ainda por motivo da publicação do
nosso livro, o professor do Curso Superior de Letras teve ensejo de
referir-se á nossa obscura pessoa, fazendo o favor de nos reconhecer
talento, mas... _que os estudos de investigação histórica eram umas
teclas muito dificeis, muito complicadas_...
O apreciado _mestre de obras_ (segundo a frase de s. ex.^a) escusava de
ter lido o nosso trabalho. O sub-título do livro, _O Poeta Crisfal_,
demonstrava suficientemente ao snr. dr. Theóphilo Braga que nenhuma
pedra de feição poderiamos proporcionar-lhe para o _aperfeiçoamento_ da
sua obra, porque o nosso livro lhe atirava a terra com os alicerces em
que se firmava o edificio... ou monumento erguido ao falso _Crisfal_.
Foi um castelo de cartas que um sopro deitou ao chão...
Oh! os estudos de investigação histórica são realmente... umas teclas
muito complicadas!
*3*
«Mesmo no prologo fez-me V. a justiça de que eu aproveitaria tudo
quanto se prestasse a futuras emendas.»
_Carta do snr. dr. Th. Braga._
Não escrevemos tal no prólogo do nosso livro que o snr. dr. Theóphilo
Braga aproveitaria d'ele _tudo quanto se prestasse a futuras emendas_.
O que nós escrevemos a pag. 24 do nosso estudo sobre Bernardim é o
período que segue:
«Embora, em resultado da nossa descoberta, o snr. dr. Theóphilo Braga
tenha de refundir mais uma vez os seus trabalhos sobre Bernardim Ribeiro
e Sá de Miranda, estamos plenamente convencidos de que ninguem estimará
mais do que o incansavel professor do Curso Superior de Letras a luz
derramada sobre a figura do grande poeta bucolista, amigo de Francisco
de Sá.»
Nas linhas transcritas, o que havia da nossa parte era um cumprimento de
cortesia,--uma gentileza, uma amabilidade, própria de quem, não tendo
qualquer agravo do snr. dr. Theóphilo Braga, procurava colocar s. ex.^a
em bom terreno, oferecendo lhe, por assim dizer, uma ponte, uma táboa de
salvação, pela qual, sem quebra de linha, o escritor consagrado pudesse
atravessar, reconhecendo, ou fingindo reconhecer, o mau terreno que
estava pisando, e abraçando honestamente a verdade evidenciada.
Era um cumprimento, repetimos; não um acto de justiça, que a ele não
tinha jus o infátigo escritor. E da mesma natureza, no decurso do nosso
trabalho, outras demonstrações de cortesia ficaram assinaladas,
prestando homenagem á vida laboriosa do escritor encanecido cujos erros
combatiamos.
Mas como as amabilidades se agradecem, e os actos de justiça não são
credores de qualquer agradecimento, aprouve ao snr. dr. Th. Braga ver
nas nossas palavras um acto de justiça.
Não lhe queremos mal por isso, pode crer o venerado professor.
Cada qual segue os impulsos do seu temperamento.
*4*
«Desde as noticias genealogicas trazidas por Braancamp Freire sobre
D. Maria Brandão, que Cristovam Falcão amou, sendo ambos muito
crianças, via-me forçado a tomar o nascimento d'elle no fim do
primeiro quartel do seculo XVI.»
_Carta do snr. dr. Th. Braga._
Quando chegámos a esta altura da preciosa carta do snr. dr. Theóphilo
Braga ficamos verdadeiramente surpreendidos, para não dizer
boquiabertos!
Lemos e tornamos a ler o período transcrito, pesamos detida e
pacientemente cada uma das palavras que o constituem, e, ao cabo,
alcançamos o convencimento de que uma tal afirmação constituia uma
habilidade, um processo, uma engenhoca,--deixem chamar-lhe assim, embora
o termo destôe, por menos académico,--a que o professor de literatura
recorria para não confessar ter sido o nosso trabalho que o obrigava a
aceitar o nascimento do suposto poeta no fim do primeiro quartel do
seculo XVI.
Fôra pelas noticias genealogicas trazidas pelo snr. Braamcamp Freire
sobre D. Maria Brandão que o snr. dr. Theóphilo Braga, conforme nos
escrevia, se vira forçado a não insistir no nascimento do pseudo Crisfal
no ano de 1497, se não antes!
Mas como podia isto ser, se o trabalho do ilustre escritor invocado pelo
snr. dr. Theóphilo ainda não fôra dado á estampa?
Teria o professor do Curso Superior de Letras recebido qualquer
comunicação sobre o assunto por parte do snr. Anselmo Braamcamp
Freire?--Não, não tinha recebido, como o demonstram eloquentemente os
seguintes períodos de uma carta que em 5 de dezembro de 1908 nos
dirigiu, em resposta a uma nossa, o primoroso director do _Archivo
Historico_:
«Vamos agora á sua pergunta de hoje originada pela carta do dr.
Teofilo Braga. Elle não conhece nada do meu trabalho sobre a Maria
Brandoa, e faça-me a justiça de crer que, não lho tendo mostrado a
si, não o mostraria a mais ninguem. Não lho mostrei a si, porque
nas 150 paginas já impressas, de que em breve lhe mandarei um
exemplar, nada digo a respeito de Maria Brandoa: trato dos Brandões
do _Cancioneiro_ e da Feitoria de Flandres.»
Depois da transcrição d'estas linhas, eloquentes e insuspeitas, do snr.
Braamcamp Freire, tornam-se desnecessários de nossa parte quaesquer
comentários á afirmação sem base do snr. dr. Theóphilo Braga.
Passemos adeante sobre este caso triste!
*5*
«Isto nos impossibilitava de continuar a admittir as relações
pessoaes de Cristovam Falcão com Bernardim Ribeiro já velho e
dementado em confidencias de amor com um rapaz no viço da mocidade;
e por tanto as Eclogas em que elle figurava interpretativamente
tinham de ser lidas a outra luz. V. acabando de fazer a destrinça
entre o Poeta e seu primo mais antigo, deu-me elementos para uma
melhor interpretação das Eclogas de Bernardim, (eliminadas as
relações com Cristovam Falcão), e mostrando como realmente as
poesias d'aquelle, como mestre, influiram no mais moço, que como
novel chega a fazer centões e intercalações de versos de Bernardim
Ribeiro.»
_Carta do snr. dr. Th. Braga._
Pelo exposto, entende o snr. dr. Theóphilo Braga que nós lhe demos
elementos para uma melhor interpretação das éclogas de Bernardim, o que
importa implicitamente a afirmação de que não soubemos interpretá-las,
ou que erramos a exegese com que julgavamos ter corrigido as lições
ministradas pelo ilustre professor.
Aguardemos, pacientemente, que o snr. dr. Theóphilo Braga refunda mais
uma vez o seu livro sobre Bernardim Ribeiro, para então apreciarmos as
novas interpretações que o imaginoso historiador se propõe apresentar
das éclogas de Bernardim, e ficarmos tambem conhecendo quaes os _centões
e intercalações_ de versos de Ribeiro que o novel Falcão introduziu nas
suas produções... em prosa, únicas que obrou. Obrou, no sentido de:
produziu, claro está.
*6*
«Ha uma affirmativa histórica, de Diogo do Couto, na sua _Decada
VIII_, que fallando de Damião de Sousa Falcão, accrescenta como
reforço historico: «irmão de *Cristovam Falcão*, aquelle que fez
aquellas cantigas nomeadas de Crisfal...» E tambem no seculo XVI
Fructuoso (resumido pelo P.^e Antonio Cordeiro na Historia
insulana) diz de Cristovam Falcão: «parente do Barão velho e do
famoso poeta Cristovam Falcão, que fez a celebre Ecloga Crisfal das
primeiras syllabas do seu nome...» Tambem nas edições de Ferrara e
Colonia, feitas por curiosos sem criterio litterario, se repete a
attribuição «_que dizem ser_ de Cristovam Falcão, ho que parece
alludir o nome da mesma Ecloga». Não se podem refutar por negativa
estes testemunhos de homens de letras do seculo XVI, e que se
reflectiram nos genealogistas.»
_Carta do snr. dr. Th. Braga._
A habilidade, ou antes o processo habilidoso, ou, melhor, a tendenciosa
redacção d'estes períodos não consegue iludir ninguem... Julgou talvez o
snr. dr. Theóphilo Braga que nos desnortearia com esta subtileza de
processos... críticos. Tal não conseguiu, como terá de reconhecer no
foro íntimo da sua consciência.
Vamos por partes:
Foram os editores de Ferrara e Colónia que propagaram pela imprensa a
lenda de que a paternidade da carta e ecloga de Crisfal era atribuida a
Cristovam Falcão, e, fazendo-o, limitaram-se, com honestidade, a
escrever: «que dizem ser... ao que parece aludir o nome da mesma
ecloga». Ao contrário do que o snr. dr. Theóphilo Braga procura fazer
incutir, tendenciosamente, os editores citados não repetiram uma
atribuição de homens de letras do seculo XVI...
Os homens de letras do seculo XVI é que repetiram, fazendo-a certa, a
atribuição feita com reservas pelos editores das obras de Bernardim
Ribeiro em 1554 e 1559. Aceitaram por boa, sem se darem ao trabalho de a
verificar, uma simples atoarda.
Quem eram os editores de 1554 e 1559 das obras de Bernardim Ribeiro?
Di-lo, judiciosamente, o snr. dr. Theóphilo Braga na carta que vamos
analisando:
Eram «*curiosos sem critério literário*».
Será a estes obscuros obreiros do século XVI que o laureado professor
quer guindar á categoria de homens de letras com foros de autoridades?
Não, os editores de 1554 e 1559 foram realmente creaturas sem o menor
critério literário, e por isso deram alentos á lenda forjada pelo vulgo;
mas não resta a menor dúvida de que eram pessoas de bem, porque
consignaram uma _tradição vaga_, sem se atreverem a registá-la como um
facto positivo, indiscutivel, incontroverso. A cobrir a sua
responsabilidade de editores conscienciosos, lá estamparam: «que dizem
ser... ao que parece aludir.» Outros fossem eles, que asseverassem que
as duas produções, carta e écloga, pertenciam a Cristovam Falcão
incontestavelmente, irrefragavelmente!
Ignorava, porventura, o snr. dr. Theóphilo Braga que os editores da obra
de Bernardim Ribeiro, ao produzirem as rúbricas respeitantes ao suposto
autor do Crisfal, mencionavam apenas uma atoarda, uma vaga tradição?
Não; o venerado professor não ignorava isso. Testemunha-o o que s. ex.^a
escreveu a paginas 21 da sua chamada edição crítica das obras de...
Cristovam Falcão:
*«As rubricas do editor de Colonia, encerram as tradições vagas, que,
passados nove annos, ainda corriam ácerca d'aquelle infeliz namorado.»*
Para que veio pois o snr. dr. Theóphilo Braga asseverar que _tambem nas
edições de Ferrara e de Colonia se repete a atribuição_?
Mais diz o apreciavel escritor que «não se podem refutar por negativa»
as atribuições que Diogo do Couto e Frutuoso fizeram, repetindo _como
certo_ o que os editores das obras de Bernardim registaram _sob
reservas_.
Não se podem refutar por negativa, não; mas podem refutar-se cabalmente,
pondo em confronto da obra poética atribuida a Cristovam Falcão a obra
em prosa que ninguem ousará disputar ao suposto trovador.
E a admitir alguem, de reconhecida inteligência e critério, que o autor
das cartas em prosa podia ser o poeta da Carta e da Ecloga de _Crisfal_,
o mesmo equivaleria a aceitar como razoavel que Rosalino Candido pudesse
firmar as obras do snr. dr. Theóphilo Braga, e que, consequentemente, o
laureado professor de literatura fosse capaz de produzir a obra
gigantesca de Victor Hugo.
É realmente desolador, para a fabula consagrada, que a Torre do Tombo
conserve os autógrafos de Cristovam Falcão de Sousa!
*7*
«A ecloga de Crisfal não podia ser publicada pelo seu autor, nem
pelo seu consentimento porque era uma _inconfidencia_ de antigas
relações amorosas com uma senhora que estava casada.»
_Carta do snr. dr. Th. Braga._
Esta bizarra revelação do snr. dr. Theóphilo Braga constitue,
naturalmente, uma desenfastiada brincadeira de s. ex.^a.
Pois qual é a obra _lírica_ onde se não encontrem _inconfidências_
semelhantes ás da ecloga de Crisfal?
O snr. dr. Theóphilo Braga, que aos catorze anos já se entregava a
devaneios poéticos, não deixou certamente de dar publicidade a versos em
que foi decantada alguma dama unida pelos laços matrimoniaes... E
estamos convencidos de que ninguem chamou _inconfidências_ aos suspiros
poeticos do trovador açoreano. As inconfidências não servem de tema ás
locubrações dos vates; onde existe arte, no bom sentido da palavra, não
ha inconfidências, embora n'este ponto estejamos em absoluta
discordância com a doutrina exposta pelo professor do Curso Superior de
Letras.
Em toda a obra, prosa ou verso, de Bernardim Ribeiro, vive, palpita, a
história ingénua da sua vida, o trama dos seus mal-aventurados amores
por uma dama que trocou a afeição do poeta pela de um outro zagal. Foi
um inconfidente o magoado Bernardim?--Não, foi um artista, foi um poeta
apaixonado, alma de eleição que da sua dor fez um poema, como diria
Goethe. E que adoravel e sentido poema nos legou o grande poeta
bucolista!
Mas não vale a pena insistir mais n'este ponto. A afirmativa do snr. dr.
Theóphilo Braga constitue, naturalmente, um gracejo inofensivo de s.
ex.^a.
*8*
«A edição sem data, de Lisboa, só podia ser feita por 1542, quando
Cristovam Falcão estava em Roma; e quando Camões foi para Ceuta em
1547 na Carta que d'ali escreveu emprega muitos versos do
_Crisfal_, que então andava no gosto.»
_Carta do snr. dr. Th. Braga._
Reproduzamos aqui o que o autor da _Historia da Litteratura Portugueza_
escreveu a paginas 394/5 do seu volume _Bernardim Ribeiro_ (edição
refundida):
«N'esta folha volante não vem a _Carta_, nem as _Cantigas_ e
_Esparsas_ incluidas na edição de Colonia. Parece mais uma
vulgarisação popular, talvez uma das muitas que tornaram a Ecloga
_muy nomeada_, e de que a reprodução de 1571, feita em Lisboa
(existiu na Livraria de Joaquim Pereira da Costa) seria o typo que
serviu para a reprodução de 1619, em que apparecem elementos só
conhecidos pela edição de 1559.
«A folha volante _sem data_ diverge do texto de Colonia
profundamente; basta observar as variantes entre as lições das
estrophes 51 e 52. Attribuimos a impressão das _Trovas de Crisfal_,
a 1536, quando appareceram tambem em folha volante as _Trovas de
Dois Pastores_ (Ecloga III) de Bernardim Ribeiro.
«A vinheta do Pastor com capuz e cajado no _Crisfal_ é a mesma que
serve nas _Trovas de dois Pastores_; o typo gothico corpo 12 do
titulo do folheto de 1536 é o empregado no texto do _Crisfal_.
Tambem a vinheta da Dama, que vem no titulo, appareceu empregada em
outra folha volante de 1536, intitulada _Tragedia de los amores de
Eneas y de la reina Dido_.»