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Rita Farinha (Maio 2008)
Theóphilo Braga
E
A LENDA DO CRISFAL
Obras de Delfim Guimarães
PROSA:
*Alma dorida*, com prefácio de Teixeira Bastos, 1 vol broch. 500 réis
*A Viagem por terra do snr. João Penha*, (crítica literária) 1 folh. 100 »
*O Rosquedo* (Scenas da vida de província). Esgot.^o
*Ares do Minho* (Contos) 1 vol. broch. 200 réis
*Bernardim Ribeiro*: O poeta Crisfal (Subsídios para a Historia da
literatura portuguêsa) 1 vol. broch. 800 »
EM PREPARAÇÃO:
*Luis de Camões.--Diogo Bernardes.*
VERSO:
*Lisboa Negra*, 1 fol. 200 »
*Confidencias*, 1 vol. broch. 400 »
*Evangelho*, 1 vol. 400 »
*Não! Mil vezes não!* 1 fol. 200 »
*Sim! Mil vezes sim!* 1 fol. 100 »
*Sonho Garretteano* Esgot.^o
*A Virgem do Castelo*, (2.^a edição) 1 fol. 100 reis
*Outonaes*, 1 vol. broch. 500 »
NO PRELO:
*Flores do mal* (interpretação em versos portuguêses de poesias de
Carlos Baudelaire)
TEATRO:
*Aldeia na Côrte*, drama em 3 actos, de colaboração com D. João da
Camara, representado no D. Amelia, 1 vol. broch. 500 réis
*Juramento Sagrado*, comedia n'um acto em verso, representada no D.
Maria II, 1 fol. 200 »
A PUBLICAR:
*Domingo de Páscoa*, peça de costumes minhotos.
OUTROS TRABALHOS:
*A Dama das Camelias*, de _Dumas, filho_ (tradução), 1 vol. broch. 200
réis
*Saudades*, (História de Menina e moça), de _Bernardim Ribeiro_, edição
revista (vol. 29 da Colecção Horas de Leitura) 200 »
*Trovas de Crisfal*, de _Bernardim Ribeiro_, edição revista 300 »
*Versos portuguêses*, de _Sá de Miranda_, edição revista 500 »
DELFIM GUIMARÃES
Theóphilo Braga
E
A Lenda do Crisfal
1909
Livraria Editora
GUIMARÃES & C.^a
68, Rua de S. Roque, 70
LISBOA
THEÓPHILO BRAGA
E A LENDA DO CRISFAL
I
Razão de ser d'este livro
Quando em maio de 1908 tornamos pública a conclusão a que haviamos
chegado de ser _Crisfal_ um pseudónimo do autor da _Menina e moça_, como
procurámos demonstrar no volume recentemente dado á estampa: *Bernardim
Ribeiro* (_O Poeta Crisfal_), tinhamos o convencimento pleno de que uma
tal nova, divulgada pela imprensa, seria bem acolhida por quantos se
interessam pelo estudo da nossa História literária, com excepção apenas
do snr. dr. Theóphilo Braga. O laureado professor do Curso Superior de
Letras não perdoa a quem quer que seja que ouse discordar de suas
sentenças, nem vê com bons olhos que outros, que não s. ex.^a, encarem
problemas que se prendam com a História da literatura portuguêsa.
E n'este caso do _Poeta Crisfal_, mais do que em nenhum outro, o snr.
dr. Theóphilo Braga não desejava que ninguem bulisse, pelo motivo que
teremos ocasião de apontar no decurso d'este livro.
Não contavamos com o acolhimento benévolo do infatigavel escritor. Para
fundamentar o nosso juizo, bastava-nos invocar os precedentes sabidos,
tristemente lembrados, e, muito em especial, o desforço pouco generoso
do snr. dr. Theóphilo Braga para com a memória d'esse desventurado que
se chamou Antero,--porque o poeta incomparavel dos _Sonetos_ ousara
flagelar o dogmatismo scientífico do antigo camarada universitário; o
fel que o plumitivo da *Historia da Litteratura* deixa transparecer nas
apreciações com que, baldadamente, procura amesquinhar a figura
gigantesca de Herculano,--porque o insigne historiador nacional jàmais
se associou aos turibulários do filósofo comtista (sem calemburgo);--o
desdem com que o professor de literatura apoda, soberanamente, de
_gramático_, o distinto romanista, snr. Epiphánio Dias,--por este haver
despedaçado, com a autoridade do seu nome, aquela invenção alegre dos
_cantos de ledino_, em que o snr. dr. Theóphilo continua a persistir,
apesar de tudo, com manifesta falta de sinceridade.
Mas não ignorando taes precedentes, e conhecendo que o estudo que iamos
apresentar ao público não deixaria de nos acarretar a má vontade do
autor da _História da Litteratura Portugueza_, nem por um momento
hesitamos em levar a bom termo o nosso trabalho, tendo em atenção tam
sòmente que se tratava de desfazer uma lenda, estúpida como tantas
outras lendas, que privava de parte da glória a que tinha jus o nome
aureolado de um dos maiores poetas portuguêses, o delicado e inditoso
Bernardim Ribeiro, o nosso querido Bernardim.
Derruíamos a coluna em que se firmava um espantalho, mas erguiamos a um
pedestal mais grandioso e altívolo a figura amoravel do grande
bucolista.
A literatura portuguêsa só ganhava com a descoberta. Que, se alguma
cousa perdesse, era sobeja compensação o que se conquistava para a
verdade histórica...
Mas a proclamação de uma tal verdade ia prejudicar um livro, ou livros,
do snr. dr. Theóphilo Braga... Não havia dúvida. Que importava isso?
Para reivindicar para Bernardim Ribeiro a autoria da Carta e da Écloga
de _Crisfal_, não valeria a pena sacrificar uma das muitas produções do
operoso escritor?
Bernardim Ribeiro é um dos astros fulgurantes da rútila constelação que
brilha, intensa e perduravelmente, no ceu de Portugal. Já conta alguns
séculos, e ainda hoje nos deslumbra o seu fulgor...
Após a local produzida pelo snr. dr. Alfredo da Cunha no seu _Diario de
Noticias_, dando conta dos nossos trabalhos de investigação, que punham
termo á lenda de _Crisfal_, tivemos a ventura de ver que o snr. José
Pereira Sampaio (_Bruno_) havia chegado a conclusão idêntica á nossa,
como foi registado n'um brilhante artigo de João Grave no _Diario da
Tarde_, do Porto, confirmado inteiramente por uma carta de _Bruno_,
reproduzida no jornal citado, em que o prestigioso publicista, com a
reconhecida autoridade do seu nome, que nada deve ao reclamo, afirmava
de maneira absoluta que estavamos com a verdade; que o _trovador_
Cristovam Falcão era simples produto de uma lenda, que o criptónimo
_Crisfal_ pertencia a Bernardim Ribeiro.
Do artigo do nosso camarada João Grave, e da carta do ilustre escritor
snr. José Sampaio, não faremos citações n'esta altura. Ambos os
preciosos documentos se encontram integralmente exarados no nosso livro
_Bernardim Ribeiro_. Não os desconhecem, por certo, aqueles que nos dão
a honra da leitura d'este trabalho.
Como recebeu o snr. dr. Theóphilo Braga essas comunicações do _Diario de
Noticias_, de Lisboa, e do _Diario da Tarde_, do Porto?
--Passando a José Pereira Sampaio (_Bruno_), e a nós outros, um diploma
de ignorantes!
Em 29 de maio, um amigo salientou-nos no jornal _A Epoca_ a secção que o
escritor snr. Silva Pinto tinha a seu cargo, e que n'essa data
estampava, reproduzida do _Diario da Tarde_ do Porto, a seguinte carta
do snr. dr. Theóphilo Braga:
_«Meu caro João Grave_:--Encantou-me o favor da sua carta,
communicando-me o problema litterario que preoccupa o nosso velho
amigo e luminoso critico José Sampaio sobre a apochryficidade do
auctor do «Crisfal», e que annuncia o primoroso litterato Delfim
Guimarães. É sempre boa a vindicação d'uma verdade em qualquer
campo: no campo litterario e artistico, isso tem o relevo d'uma
conquista, d'um triumpho.
Ninguem mais desejaria que fossem possiveis, isto é realidade
demonstrada, as descobertas de Sampaio (Bruno) ou de Delfim
Guimarães, sobre a identidade de Christovam Falcão em Bernardim
Ribeiro. *Isso, porém, não passa d'uma miragem, por falta de
conhecimento dos existentes recursos historicos*[1].
Diogo do Couto falla em Christovam Falcão como celebrado auctor do
«Crisfal», quando narra factos praticados por seu irmão Damião de
Sousa. Ora, Diogo do Couto, contemporaneo d'este na India,
inventava-lhe um irmão? E tendo sido impresso o «Crisfal» sem nome
d'auctor, (no _pliego-suelto_ da Bibliotheca Nacional de Lisboa)
dava-o como auctor d'essa celebrada écloga a capricho seu? O Padre
Antonio Cordeiro, na «Historia Insulana», (resumo das «Saudades da
terra», do dr. Gaspar Fructuoso, amigo de Camões) tambem faz as
mesmas referencias ao _poeta_ Christovam Falcão. E a edição de
Ferrara, de 1554, e a de Colonia, de 1559, inscrevendo o seu nome?
E Frei Bernardo de Brito, fazendo a «Silva de Lisardo», ou segunda
parte do «Crisfal», falla nas serras de Lor-vam, onde esteve D.
Maria Brandão, a namorada d'este poeta do «Crisfal».
Nada d'isto leva a admittir a hypothese. No emtanto, que tragam a
lume os seus resultados. A vantagem é de nós todos.
Com um abraço do seu, etc.
Theophilo Braga.»
Para o professor do Curso Superior de Letras, a conclusão a que, tanto
_Bruno_ como nós, haviamos chegado, não passava *d'uma miragem, por
falta de conhecimento dos existentes recursos historicos*, e esta
sentença autoritária vinha a público quando o snr. dr. Theóphilo Braga
ignorava em absoluto quaes os argumentos com que nós e o insigne
publicista nosso conterráneo procurariamos fazer vingar nossas teses.
Magoou-nos a impertinência, confessamos, e não resistimos a manifestar
publicamente a impressão em nós produzida pela prosa do snr. dr.
Theóphilo Braga, dirigindo n'esse mesmo dia a seguinte carta a João
Grave, que este distinto jornalista fez inserir no numero de 1 de junho
do _Diario da Tarde_:
«_Meu prezado camarada João Grave_:--Acabo de ler, reproduzida por
Silva Pinto na «Epoca», a carta que o snr. dr. Theóphilo Braga
dirigiu ao meu caro João Grave a propósito do trabalho que preparo,
em que me proponho demonstrar que «Crisfal» foi simplesmente um
anagrama cabalístico de Bernardim Ribeiro, pertencendo por
conseguinte a este lírico as poesias que uma lenda fez atribuir a
Cristovam Falcão.
O nosso bom amigo e erudito escritor José Pereira
Sampaio--_Bruno_--, como se viu da interessante carta que estampou
no «Diario da Tarde», como complemento ao artigo que o meu caro
João Grave publicou sobre o assunto, chegara a conclusões eguaes, e
para mim foi extremamente grato que o nome prestigioso de Bruno
viesse valorizar a minha descoberta com a grande autoridade do seu
concurso.
Ao ilustre professor, snr. dr. Theóphilo Braga, afigura-se isto uma
«_miragem, por falta de conhecimento dos existentes recursos
historicos_», que cita, desde Diogo do Couto a frei Bernardo de
Brito.
Peço-lhe, pois, meu caro João Grave, a fineza de dizer no seu
jornal que conheço perfeitamente os _recursos históricos_ a que
alude o incansavel historiador da _Litteratura Portugueza_, como
não podia deixar de conhecer pela leitura das edições do «Bernardim
Ribeiro e o Bucolismo» do snr. dr. T. Braga.
Que Bruno não ignora nenhum d'esses _recursos_, estou convicto,
que, de resto, nem o distinto escritor snr. dr. Theóphilo Braga
póde ter dúvidas a tal respeito, porque isso seria fazer ofensa ao
justificado nome literário de José Sampaio.
Para fechar, devo ainda dizer-lhe, meu bom amigo, que de modo
nenhum eu vou sustentar que não existiram vários _cavalheiros_ com
o nome de Cristovam Falcão. Se estes não tivessem existido não
tomaria vulto até aos nossos dias a lenda do «Crisfal»!
Não o enfado mais.
Creia-me, com verdadeira estima,
seu amigo, adm.^{dor} e obg.^{do}
S/C. Lisboa, 29-maio/90.
Delfim Guimarães.»
A _Bruno_ tambem não passou despercebido o _amavel_ diploma do professor
do Curso Superior de Letras, e que o ilustre escritor se sentiu
melindrado prova-o suficientemente a carta que dirigiu a João Grave, e
que, confiados na benevolência do sr. José Pereira Sampaio, vamos
trasladar das colunas do jornal _A Epoca_, que a reproduziu do _Diario
da Tarde_:
«_Meu caro João Grave_:--Novamente o venho importunar, pois entendo
que, perante a carta, aliás tão bondosa e honrosa para mim, do dr.
Theophilo Braga, hontem inserta no seu jornal, me cumpre consignar
em publico, ainda uma vez, que após o apparecimento do livro de
Delfim Guimarães, defendendo a propozição de que Christovam Falcão
não é mais do que Bernardim Ribeiro, eu publicarei o meu, já por V.
na sua folha duas vezes amavelmente annunciado, e onde, entre
outros, sustentarei egualmente o mesmo ponto, pensando que
refutarei ahi cabalmente as asserções, na sua carta de hontem no
«Diario da Tarde», pelo nosso doutissimo confrade e illustre
publicista produzidas, mostrando então, com todo o respeito devido
a tão indefesso e insigne trabalhador, que a minha hypothese (e de
Delfim Guimarães) não é tal uma miragem e que, pelo contrario, o
ensino corrente no assumpto é que é inteiramente phantastico e
chimerico.
A V., prezado collega, reitero os protestos do meu agradecimento.
Todo seu
Porto, 27 de Maio de 1908.
José Pereira Sampaio (Bruno).»
O snr. dr. Theóphilo Braga achou que era prudente não voltar á estacada,
e assim deixou passar em julgado a nossa carta e aquela em que o snr.
José Sampaio, por uma fórma categórica, visando directamente as lições
ministradas pelo professor de literatura, declarava que o ensino
corrente sobre Cristovam Falcão era _inteiramente phantastico e
chimerico_.
Na elaboração do livro: *Bernardim Ribeiro* (_O Poeta Crisfal_)
obedecemos ao propósito de não converter o nosso trabalho n'uma
diatribe, e procuramos suavizar quanto possivel a situação em que eramos
forçados a colocar o snr. dr. Theóphilo Braga, em obediência á verdade,
e não porque nos animasse qualquer desejo de ser desagradaveis ao
infatigavel vulgarizador. E, procedendo assim, entendiamos cumprir um
dever, que tinha sobeja justificação nos cabelos brancos do professor do
Curso Superior de Letras, cuja primeira edição do seu _Bernardim
Ribeiro_ coincidiu com o ano do nosso nascimento. Não esquecemos nunca
que fomos educados no respeito devido á velhice.
No trabalho da revisão das provas do nosso estudo, em que fomos
auxiliados pela prestante amizade de Henrique Marques, mais de uma vez
modificámos referências feitas ao professor que contraditavamos, e
sempre da melhor vontade substituiamos um adjectivo, suavizavamos a
saliência de um erro do Mestre, desde que o nosso amigo Henrique
Marques, com o seu apreciavel critério, nos fazia notar que uma palavra,
uma frase nossa, poderia ser tomada como um desprimor para com o snr.
dr. Theóphilo Braga.
Queriamos fazer vingar uma obra de justiça; não era nosso intento
agravar quem quer que fosse.
E que não fomos descortêses, nem violentos, nem injustos, para com o
professor que contraditavamos, prova-o o testemunho insuspeito do
eminente publicista snr. José Caldas, que nos honrou com uma carta
penhorantíssima, de que reproduziremos neste lugar algumas linhas:
«*A delicadeza das suas referencias, com relação aos auctôres cujas
conclusões não acceita ou impugna, é verdadeiramente modelar.*»
Se houvessemos sido menos cortêses para com o snr. dr. Theóphilo Braga,
s. ex.^a não se julgaria, com certeza, no dever de agradecer-nos a
oferta do exemplar do nosso trabalho que entendemos enviar lhe. E o
professor do Curso Superior de Letras escreveu-nos a agradecer o livro,
embora na sua carta transpareça o despeito que lhe produziu o nosso
estudo sobre Bernardim Ribeiro, em que desvendamos vários erros contidos
em volumes da _Historia da Litteratura Portugueza_.
Registâmos aqui essa carta do snr. dr. Theóphilo Braga, que não deixa de
constituir um documento interessante para aqueles que seguirem com
atenção a marcha dos acontecimentos provocados pela pendência literária
em que estamos envolvidos.
É, textualmente, como segue:
«Lisboa, 25 de Novembro de 1908
_...sr. Delfim Guimarães
e meu presadissimo amigo_
Muito me penhora a honrosa offerta do seu recente trabalho, em que
apresenta o seu processo para a identificação do poeta Bernardim
Ribeiro com o Crisfal ou Christovam Falcão. A ninguem interessaria
tanto o conhecimento d'este problema, como a mim, que esbocei uma
biographia de Christovam Falcão com elementos historicos
(documentos authenticos) comprovando dados genealogicos. Tive de
ler immediatamente o seu livro, para vêr que materiaes traria para
o aperfeiçoamento do meu trabalho. Mesmo no prologo fez-me V. a
justiça de que eu aproveitaria tudo quanto se prestasse a futuras
emendas. Desde as noticias genealogicas trazidas por Braancamp
Freire sobre D. Maria Brandão, que Christovam Falcão amou, sendo
ambos muito creanças, via-me forçado a tomar o nascimento d'elle no
fim do primeiro quartel do seculo XVI. Isto me impossibilitava de
continuar a admittir as relações pessoaes de Christovam Falcão com
Bernardim Ribeiro já velho e dementado em confidencias de amor com
um rapaz no viço da mocidade; e por tanto as Eclogas em que elle
figurava interpretativamente tinham de ser lidas a outra luz. V.,
acabando de fazer a destrinça entre o Poeta e seu primo mais
antigo, deu-me elementos para uma melhor interpretação das Eclogas
de Bernardim, (eliminadas as relações com Christovam Falcão), e
mostrando como realmente as poesias d'aquelle, como mestre,
influiram no mais moço, que como novel chega a fazer centões e
intercalações de versos de Bernardim Ribeiro. Ha uma affirmativa
historica, de Diogo do Couto, na sua _Decada VIII_, que, fallando
de Damião de Sousa Falcão, accrescenta como reforço historico:
«irmão de *Christovam Falcão*, aquelle que fez aquellas cantigas
nomeadas do Crisfal...» E tambem no seculo XVI Fructuoso (resumido
pelo P.^e Antonio Cordeiro na Historia insulana) diz de Christovam
Falcão: «parente do Barão velho e do famoso poeta Christovam
Falcão, que fez a celebre Ecloga Crisfal das primeiras syllabas do
seu nome...» Tambem nas edições de Ferrara e Colonia, feitas por
curiosos sem criterio litterario se repete a attribuição «_que
dizem ser_ de Christovam Falcam, ho que parece alludir o nome da
mesma Ecloga». Não se podem refutar por negativa estes testemunhos
de homens de letras do seculo XVI, e que se reflectiram nos
genealogistas. A Ecloga do Crisfal não podia ser publicada pelo seu
auctor, nem pelo seu consentimento porque era uma _inconfidencia_
de antigas relações amorosas com uma senhora que estava casada. A
edição sem data, de Lisboa, só podia ser feita por 1542, quando
Christovam Falcão estava em Roma; e quando Camões foi para Ceuta em
1547 na carta que d'ali escreveu emprega muitos versos do
_Crisfal_, que então, andava no gosto. Na edição de Lisboa vem duas
estrophes supprimidas no texto de Ferrara e Colonia, por que
continham uma _inconfidencia_. Isto leva a explicar como Christovam
Falcão tentaria apagar a paternidade da Ecloga fundamentando-se-lhe
a imputação com o anagramma das primeiras syllabas do nome. Os
logares communs a Bernardim Ribeiro e Christovam Falcão provam mais
a favor da imitação de um discipulo, do que á fusão dos dois
poetas, repetindo-se o mestre na decadencia. Emfim ha dois schemas
de paixão amorosa que se não confundem: o de Joanna e Fauno, Aonia
e Bimnarder, e o de Maria e Crisfal. São duas almas, sentindo em
situações differentes. Através de todo o hypercriticismo o livro
sobre Bernardim Ribeiro revela um trabalhador fervoroso, que me
veio revelar a existencia de um exemplar da edição de Ferrara, no
Porto, e que aqui descobriu o texto precioso da Ecloga _Alexo_
assignada por Sá de Miranda. Felicitando-o pelo seu importante
estudo, sou
admirador obr.^{mo} e amigo
Theophilo Braga»
Começa a carta do snr. dr. Theóphilo Braga por um _rebuçado de ovos_: o
tratamento de «prezadissimo amigo», que não tinha qualquer
justificação... Isto é, tinha uma justificação única, qual era a de nos
adoçar a bôca, para engulirmos sem relutância aquela amargosa pílula com
que fecha a epístola de s. ex.^a, quando, com generosa magnanimidade,
confessa que o nosso livro _revelou um trabalhador fervoroso_, que ao
professor do Curso Superior de Letras foi _revelar a existencia de um
exemplar da edição de Ferrara, no Porto_, e que em Lisboa _descobriu o
texto precioso da ecloga_ *Alexo* _assignada por Sá de Miranda_.
E, graças a estas _revelações-revelativas_, a que não ligavamos
importância de maior, o historiador da *Litteratura Portugueza*
felicitava-nos pelo nosso _importante estudo_, que, volvidas algumas
semanas, havia de classificar de fruto de _processos á tôa_!
Na devida altura, comentaremos largamente a carta substanciosa do snr.
dr. Theóphilo Braga.
Por agora, continuemos na catalogação das peças d'este processo, para
que os leitores julguem da justiça que nos cabe, e avaliem da
sinceridade, da correcção, e dos processos do professor intangivel.
No jornal _O Mundo_, de 3 de dezembro de 1908, na local consagrada á
sessão da Academia das Sciencias de Portugal realizada no dia 2, vimos
que o snr. dr. Theóphilo Braga fizera uma comunicação, que outra cousa
não era senão um desmentido formal e gratuito ás conclusões do nosso
livro,--mas sem a mais leve citação ao nosso obscuro nome, sem a menor
referência ao nosso desluzido trabalho, embora aproveitando-lhe os
subsídios. Comprehende-se: o ilustre académico não desejava contribuir
de modo nenhum para o reclamo que a imprensa estava dispensando ao
volume sobre o _Poeta Crisfal_.
Transcrevemos do _Mundo_ o periodo referente a tal comunicação...
scientífica:
«...finalmente, trata de Bernardim Ribeiro e Christovam Falcão,
mostrando como a vida amorosa d'este oscilla entre 1525 e 1526,
sendo n'aquella data moço fidalgo, tendo pelo menos 12 annos, ao
passo que aquelle era já edoso; evidencia como na Ecloga
transparecem diversas situações da vida de Christovam Falcão, e
termina por invocar as opiniões de Diogo Couto, Gaspar Fructuoso e
outros que comprovam a existencia das duas individualidades que
apesar de similhantes n'algumas situações da vida, não podem jàmais
confundir-se».
Ante este procedimento do nosso _prezadissimo amigo_, não pudemos ficar
silenciosos, e, como um desforço legítimo, inadiavel, apelamos para o
snr. dr. Brito Camacho, pedindo-lhe se dignasse publicar nas colunas da
_Lucta_ a seguinte carta, que o ilustre jornalista fez inserir no numero
de 4 de dezembro do seu diário:
_«Ex.^{mo} Snr. Dr. Brito Camacho,
meu prezado amigo:_
Pelos extratos, publicados em alguns jornaes de hoje, do que se
passou na sessão de hontem da Academia de Sciencias de Portugal, vi
que o snr. dr. Theóphilo Braga disse o que quer que fosse,
procurando refutar o meu recente trabalho sobre Bernardim Ribeiro,
e insistindo na lenda do _poeta_ Cristovam Falcão de Sousa.
Não me admira que o original autor da «Historia da Litteratura
Portugueza» persista n'um erro crasso, só para não se confessar
vencido, porque já o caso engraçadíssimo dos _cantos de ledino_ era
precedente bastante para se ajuizar que o afamado professor do
Curso Superior de Letras prefere manter um absurdo a ter de
reconhecer publicamente que errou. Está no seu direito, e ninguem
lh'o contesta.
Parecia-me, porem, que, publicado o meu estudo sobre Bernardim
Ribeiro, em que não torci a meu bel-prazer a verdade, nem
falsifiquei documentos, o snr. dr. Theóphilo Braga tinha o dever
moral de, pela imprensa ou em livro, dizer da sua justiça, antes de
ir para o seio de uma agremiação, a que eu não pertenço, impor um
desmentido formal e dogmatico, ao mesmo tempo que gratuito, ao meu
trabalho.
E tanto mais estranhavel se me afigura o procedimento do snr. dr.
Braga, contestando á porta fechada a minha tese, quanto é certo que
s. ex.^a não desconhece que o insigne publicista snr. José Pereira
Sampaio (Bruno) prepara um livro sobre o mesmo assunto do meu.
Se o afamado professor do Curso Superior de Letras está de boa fé,
quem lhe assegura que os argumentos de Bruno não conseguirão
convencê-lo, já que os meus, conforme de resto eu esperava, tal não
conseguiram?
É tempo de pôr de parte o _magister dixit_, porque, felizmente, os
processos crìticos dos Farias e Bernardos de Brito são coisas que
passaram á _historia_, e que não se ressuscitam já facilmente.
Muito especialmente me obsequeia o meu bom amigo dando publicidade
na nossa _Lucta_ a esta minha carta, que representa o legítimo
desabafo de um trabalhador que se preza de ser honesto, e que como
tal tem jus a ser considerado.
Mais uma vez agradecido o que se confessa, por estima e dever,
De V. Ex.^a
amigo, admirador e obrigado
S/C, Lisboa, 3-12-908.
Delfim Guimarães.»
Com o espírito de rectidão que todos, amigos e adversários, são
concordes em reconhecer ao snr. dr. Brito Camacho, o brilhante
jornalista deu acolhimento benévolo á nossa carta, acrescentando-lhe as
seguintes linhas de saudação ao professor do Curso Superior de Letras:
«O nosso ilustre correligionario dr. Theóphilo Braga tem as
columnas d'este jornal ás suas ordens para dizer da sua justiça,
como quizer. Trata-se d'uma questão de facto em historia literária,
e não d'uma birra entre dois homens. Muito prazer teremos em que
seja o nosso jornal o campo em que se dirima o pleito.»
Não correspondeu o snr. dr. Theophilo Braga á gentileza do director da
_Lucta_; e até para comnosco estamos persuadidos de que, desde o momento
em que s. ex.^a viu a nossa carta irreverente no jornal de que Brito
Camacho é a alma, o pontífice da _Litteratura Portugueza_ excomungou o
intemerato jornalista. Que o dr. Camacho nos perdôe a excomunhão que,
involuntariamente, lhe acarretamos!
Guardou silêncio o snr. dr. Theóphilo Braga durante semanas, mas não
esteve inactivo, ao contrário do que muitos poderiam supor. Com todo o
engenho e arte, s. ex.^a consagrou-se ao fabrico de uma peça, que não
podemos classificar de literária, porque é a negação de todos os
processos literários dignos de este nome, mas a que poderá caber a
designação de produto de arte... culinária. Como _pastelão_, faria honra
a um cozinheiro, mas cremos bem que o snr. dr. Theóphilo Braga deseja
passar á posteridade como um discípulo fervoroso de Augusto Comte, e não
como aprendiz ilustre da _sciência_ de Vatel.
A redacção do jornal _O Dia_, seguindo a praxe dos anos anteriores,
honrou o snr. dr. Theóphilo Braga pedindo lhe um artigo sobre o
movimento literário português em 1908, para o numero de 31 de dezembro
d'esse ano. Como nunca, recebeu o snr. dr. Theóphilo Braga jubilosamente
o amavel convite. Tinha ensejo para impingir... o _pastelão_. Era o
momento oportuno para respostar á nossa carta publicada na _Lucta_, sem
nos dar a honra de deixar sair dos bicos da pena aprimorada a confissão
de que havia lido o nosso protesto. Podiamos, porventura, esperar outro
procedimento por parte do snr. dr. Theóphilo Braga? Não, evidentemente.
Pois não haviamos nós,--cúmulo das audácias!--ousado protestar contra a
comunicação do presidente da Academia de Sciencias de Portugal?!
Reproduzimos do _Dia_ de 31 de dezembro do ano findo a parte do artigo
do snr. Theóphilo Braga que diz respeito á questão literária suscitada
pelo nosso livro:
«...No recente fasciculo (do Archivo historico português) ficou
publicada uma interessantissima monographia sobre a antiga Feitoria
de Flandres, um dos mais necessarios capitulos da nossa historia
financeira e administrativa; o sr. Braancamp Freire intitula-o
_Maria Brandoa a do Crisfal_, por que o pae d'esta dama, que
inspirou o amor e a Ecloga de Christovão Falcão, foi o pae d'ella,
João Brandão Sanches, segundo encontrara no nobiliario de Diogo
Gomes de Figueiredo.
Em dois nobiliarios da bibliotheca da Ajuda tambem se acha esta
mesma inscrição: _Maria Brandoa a do Crisfal_; e nos livros dos
linhagistas Manso de Lima e Rangel de Macedo, da Bibliotheca
Nacional, vem o mesmo schema genealogico, vendo-se toda a
parentella da inspiradora de Crisfal no titulo dos Brandões
Sanches, confundidos por vezes com os Brandões do Porto, com os de
Coimbra e com os de Elvas. O sr. Anselmo Braancamp Freire, escreve
em uma nota: «Sei que se trata de provar, que a Ecloga de Crisfal
não foi escripta por Christovam Falcão, mas por Bernardim Ribeiro,
e que por tanto a heroina não é Maria Brandão, mas sim a mesma do
romance _Menina e Moça_ d'aquelle auctor.» E accrescenta que o sr.
Delfim Guimarães empenhado na interessante averiguação o
consultara, communicando-lhe as bases em que fundava a sua
argumentação, as quaes não conseguiram demovel-o da rotina.
Quasi ao mesmo tempo, o sr. Delfim Guimarães publicava o seu livro
_Bernardim Ribeiro_--_o Poeta Crisfal_, em que resume o já sabido
da biographia do auctor da _Menina e Moça_, forçando interpretações
de versos a significarem os factos que imagina. Como lhe nasceu no
espirito a ideia de fazer esta descoberta? Pela impressão que lhe
causára a leitura dos versos de Bernardim Ribeiro e os de
Christovam Falcão,--«dois poetas de temperamento semelhante, com
eguaes influencias e educações litterarias, com eguaes episodios
nos seus infortunados amores, e havendo entre ambos versos
absolutamente eguaes.» D'aqui o identificar os dois poetas em um
unico; como conseguil-o? Considerou a individualidade poetica de
Christovão Falcão como uma lenda estupida formada pelos
genealogistas, e formou o nome de _Crisfal_ indo buscar á tôa as
palavras _Crisma falsa_, tirando-lhes as syllabas iniciaes para
designarem a seu talante Bernardim Ribeiro. «Fez-se então uma
grande luz no nosso espirito. Não se tratava de dois poetas muito
parecidos, de um creador e de um imitador. Bernardim Ribeiro e
Crisfal eram um e mesmo poeta. O trovador Christovam Falcão era o
producto de uma lenda nascida da interpretação dada pelo vulgo
(![2]) ao anagrama _Crisfal_.» (Op. cit., p. 10). «Alcançada a
convicção de que _Crisfal_ era um anagramma de Bernardim Ribeiro, e
norteados pelo conhecimento de que nas suas producções o poeta
mudava constantemente os seus nomes pastoris, com pequeno trabalho
de raciocinio não nos foi difficil deduzir a constituição do
cryptogramma, que era formado pelas primeiras syllabas das palavras
_Crisma_ e _Falso_.»
E depois d'este processo que, na opinião do sr. Gonçalves
Vianna--honra a erudição portugueza,--ataca as fontes genealogicas
d'onde Diogo do Couto e Gaspar Fructuoso acceitaram «como ouro de
lei o peschesbeque de uma lenda estupida tecida pelo vulgo
ignorante, e posta a correr mundo graças á inepcia dos editores dos
escriptos legados por esse grande e infortunado poeta que foi
Bernardim Ribeiro!» (Ib. p. 11.) E mais adiante, volta a repetir:
«A uma lenda estupida deveu esse rebento inglorio de John Falconet
a celebridade que durante seculos usufruiu, em prejuizo do renome
litterario do verdadeiro _Crisfal_, o doce, o inimitavel e
inegualado Bernardim Ribeiro, etc.» (p. 185.) Mas, como se póde
chamar estupida a lenda genealogica se os nomes contidos na Ecloga
de _Crisfal_ condizem com os seus parentes taes como o de
_Pantaleão_ Dias de Landim seu avô, e a Joanna, que lhe denuncia o
casamento clandestino, uma prima, como o notou o sr. Jordão de
Freitas?
Os manuscriptos conhecidos de Bernardim Ribeiro andavam ligados com
os de Christovam Falcão, como se vê pela descripção do n.^o 180 da
Livraria do Conde de Vimieiro: Obras em prosa e verso de Sá de
Miranda, Bernardim Ribeiro e Christovam Falcão; tambem o Arcediago
do Barreiro, dr. Jeronymo José Rodrigues, examinou no Porto um
manuscripto analogo ao das edições de 1559, em que vinham a _Menina
e Moça_, duas eclogas de Bernardim Ribeiro--«e até se acham no fim
algumas poesias de Christovão Falcão, do que se faz menção no mesmo
logar de Nicoláo Antonio.» (Innocencio, _Dic. Bibliog._)
Para que chamar ineptos aos editores de Ferrara de 1554 e de
Colonia de 1559, por terem reproduzido esses textos manuscriptos
como os encontraram? Quando o sr. Delfim Guimarães trabalhava para
destruir uma miragem de seculos, foi communicar ao sr. dr. Alfredo
da Cunha «a descoberta que tinha feito e que, sem falsa modestia,
reputava de alta importancia para a historia das lettras
portuguezas.» Era uma Noticia litteraria de sensação, o dr. Alfredo
da Cunha deu alentos á grande descoberta de que a figura do poeta
Christovam Falcão «pertence exclusivamente ao dominio da lenda, por
isso que tal poeta só existiu na imaginação d'aquelles que viram
n'um anagrama cabalistico de Bernardim Ribeiro a encarnação de
outra individualidade.»
No noticiario de outro jornal sairam affirmações absolutas,
proclamando a sensacional descoberta, com uma sinceridade
inconsciente que affasta de todo a ideia de ironia. A verdadeira
descoberta pertence ao sr. Braancamp Freire determinando a epoca em
que esteve em Flandres João Brandão Sanches, e quando elle morreu,
dando nos assim a data em que existiram os amores de sua filha
unica D. Maria Brandão, a do Crisfal, que plausivelmente se fixam
em 1530. O documento de 1527 referindo-se a Christovam Falcão, com
a tença de môço fidalgo, leva a deduzir que nascera em 1512. Ha
portanto a eliminar todas as relações pessoaes entre Christovam
Falcão e Bernardim Ribeiro, como julgamos nos nossos estudos,
corrigindo a interpretação da Ecloga I e III de Bernardim. Os
logares communs a Christovam Falcão e Bernardim Ribeiro provam a
distancia da edade que levou o mais novo a imitar aquelle que já
era admirado, cujos versos, Camões, na sua Carta de Africa,
intercalava na sua prosa.»
Esta produção peregrina do snr. Dr. Theóphilo Braga veio publicada no
jornal _O Dia_ com a assinatura do professor do Curso Superior de Letras
em _fac-simile_, e ainda bem, para que não se pudesse ajuizar tratar-se
de uma brincadeira de mau gosto de quem quer que fosse.
Quando lemos um tal documento, a primeira impressão que se apoderou de
nós foi a de revolta; mas logo um outro sentimento veio substituir
esta--um sentimento muito fundo de tristeza, de sincera mágoa...
E, sem prazer, pudemos constatar que a impressão que o snr. Dr.
Theóphilo Braga deixára nos leitores inteligentes do seu tendencioso
_Movimento Litterario_ era egual á nossa,--uma sincera mágoa.
Mas no artigo do eminente professor eramos tam directamente alvejados, e
o nosso trabalho depreciado com tal rancor e má fé, que não podiamos
ficar silenciosos.
No jornal a _Lucta_, do dia 3 de Janeiro d'este ano, como protesto,
publicamos o artigo que vamos reproduzir:
*Os processos... scientíficos do snr. dr. Theóphilo Braga*
Não se dignou o sr. dr. Theóphilo Braga aceitar o oferecimento que o
distinto jornalista que dirige _A Lucta_ lhe fez em 4 de dezembro
ultimo: pondo á disposição de s. ex.^a as colunas deste diário, para que
o professor do Curso Superior de Letras dissesse da sua justiça em face
da carta que tive ensejo de dirigir ao meu bom amigo snr. dr. Brito
Camacho, estampada n'este jornal, motivada pelo procedimento estranhavel
seguido para comigo pelo snr. dr. Theóphilo Braga.
Passaram-se dias, passaram-se semanas, e, quando todos julgavam que o
professor do Curso Superior de Letras adoptara de Conrado o prudente
silêncio, eis que o sr. dr. Theóphilo Braga, a pretexto de pôr os
leitores do _Dia_ ao corrente do movimento literário no ano findo, com
ares dogmáticos e desdenhosos, enche perto d'uma coluna d'aquele jornal
com um aranzel cheio de lugares comuns, procurando refutar as conclusões
do meu recente estudo sobre Bernardim Ribeiro.
Não me surpreendeu o rancor que transparece no artigo do snr. dr.
Theóphilo Braga. Imagino quanto deve ser doloroso para o professor do
Curso Superior de Letras o ter de refundir mais uma vez dois dos volumes
da sua chamada edição integral da _Historia da Litteratura Portugueza_:
«Sá de Miranda» e «Bernardim Ribeiro». Isto, junto ao conhecimento que
possuo da maneira de ser do snr. dr. Theóphilo Braga, é para mim
explicação bastante do seu ressentimento, que a prosa do infatigavel
«carreador de materiaes» não consegue disfarçar.
A todos os pontos tocados no aranzel do snr. dr. Theóphilo Braga, darei
resposta em livro, e d'essa tarefa procurarei desempenhar-me em curto
praso, com a largueza e documentação que o assunto requer, o que não é
compativel com o espaço que a trabalhos d'esta espécie pode dispensar um
jornal da índole da _Lucta_.
Por hoje, e certo da amabilidade com que me distingue o meu prezado
amigo snr. dr. Brito Camacho, desejo apenas salientar, muito ao de leve,
algumas inexactidões flagrantes do artigo _Movimento litterario_, do
snr. dr. Theóphilo Braga, que bem demonstram a _correcção_ dos
processos... scientíficos do professor do Curso Superior de Letras.
Referindo-se ao ultimo tomo do _Archivo Historico_, a revista dirigida
pela superior competência do snr. Braamcamp Freire, em que este escritor
encetou a publicação da sua monografia sobre Maria Brandão, diz o snr.
dr. Th. Braga que a monografia «ficou publicada», procurando assim dar a
entender que o estudo do snr. Braamcamp Freire está ultimado, quando é
facto que ainda lhe falta o capítulo em especial referente a Maria
Brandão, destinado por certo a ser o mais curioso, pela luz que ha de
fazer jorrar sobre a figura da suposta amada do poeta _Crisfal_.
Mas ao snr. dr. Theóphilo Braga conveio torcer a verdade, para que com
maior presteza os leitores ingénuos acreditassem nos seguintes períodos
ardilosamente engendrados:
«O sr. Anselmo Braancamp Freire escreve em nota: «Sei que se trata
de provar que a Ecloga de Crisfal não foi escripta por Christovam
Falcão, mas por Bernardim Ribeiro, e que por tanto a heroina não é
Maria Brandão, mas sim a mesma do romance _Menina e Moça_ d'aquelle
auctor». E accrescenta, que o sr. Delfim Guimarães, empenhado na
interessante averiguação, o consultara, communicando lhe as bases em
que fundava a sua argumentação, as quaes não conseguiram demovel-o
da rotina.»
Ao contrário da afirmação do snr. dr. Theóphilo, o snr. Braamcamp Freire
não declara tal que eu o consultara sobre a averiguação que fiz, como
não escreveu na nota citada pelo snr. dr. Theóphilo Braga aquilo que s.
ex.^a gratuitamente lhe atribue.
Reproduzo textualmente o período que o snr. dr. Theóphilo Braga
interpretou a seu bel-prazer, para melhor juizo dos que me lêem:
«O sr. Delfim de Brito Guimarães, que anda empenhado na interessante
averiguação, teve a bondade de me comunicar as principaes bases que
servirão de alicerce á sua argumentação: entretanto, emquanto não
apparecerem os considerandos e a sentença sobre a prova nelles feita
não transitar sem apelação em julgado, não me compete intervir no
pleito e continuarei com a rotina.»
Como se vê, o snr. Braamcamp Freire não escreveu que eu lhe comunicara
as _bases_ em que fundava a minha argumentação, mas sim unicamente _as
principaes bases_, e o consciencioso investigador não declarava que taes
bases _não conseguiram demovê-lo da rotina_, mas sim que «em quanto não
aparecessem os considerandos e a sentença sobre a prova nelles feita não
transitasse sem apelação em julgado, _não lhe competia intervir no
pleito e continuava com a rotina_».
Para que torceu, a seu talante o snr. dr. Theóphilo Braga a nota cheia
de correcção do ilustre escritor?--Para se servir, como de um escudo
protector e cómodo, do nome prestigioso de Braamcamp Freire, procurando,
com tal engenho e arte, fazer acreditar aos papalvos desprevenidos que
tinha a apoiar o seu desmentido formal ás conclusões do meu trabalho a
individualidade, a todos os títulos eminente, do ilustre director do
_Archivo Historico_.
Ora a nota invocada pelo snr. dr. Theóphilo Braga encontra-se logo na
2.^a pagina do estudo do snr. Braamcamp, e foi produzida quando o
erudito escritor traçou os primeiros períodos do seu trabalho,
conhecendo apenas as «bases principaes» com que elaborei o meu livro
_Bernardim Ribeiro (O Poeta Crisfal)_.
Depois da leitura do meu modesto estudo, o snr. Braamcamp Freire teve a
gentileza de me comunicar que os meus argumentos haviam logrado
convencê-lo. E por tal fórma o convenceram que o ilustre escritor logo
abandonou a rotina, não carecendo para isso que a sentença sobre a prova
feita transitasse em julgado--muito embora isto pese ao snr. dr.
Theóphilo Braga, que até viu com desgosto que o abalisado professor snr.
Gonçalves Viana, achasse que o meu livro _Bernardim Ribeiro_ fazia honra
á erudição portuguêsa.
Mais, o snr. Braamcamp Freire não só me felicitou calorosamente pelo
éxito do meu trabalho, que representava a justa reparação devida a um
dos maiores poetas da nossa terra, como teve a bondade de enviar-me a
prova tipográfica de uma passagem do seu estudo, então no prélo, em que
o conceituado escritor confessava publicamente que Maria Brandoa, a
lendária amada do Crisfal, passara á historia...
Foi fazer companhia aos _cantos de ledino_...
Tal passagem se encontra a pag. 402 do ultimo tomo do «Archivo
Historico», mas o snr. dr. Theóphilo Braga seguindo os processos...
scientíficos que o enaltecem, ocultou-a propositadamente,
intencionalmente, aos leitores do seu artigo estampado no _Dia_.
É como segue:
«...do catalogo porém limitar-me-ei agora a extrair os nomes dos
oficiaes da feitoria, reservando-me para aproveitar d'elle, n'outro
capitulo, um dado importante para a biographia de *Maria Brandôa,
já, coitadita! quando este estudo aparecer a publico, apiada de
heroina da ecloga Crisfal*.»
Ás afirmações, em apoio da minha tese, feitas em maio de 1908 no _Diario
da Tarde_, do Porto, pelo insigne publicista snr. José Pereira Sampaio
(_Bruno_), refere-se tambem o snr. dr. Theóphilo Braga da seguinte
maneira:
«No noticiario de outro jornal sairam afirmações absolutas,
proclamando a sensacional descoberta, com uma sinceridade
inconsciente que afasta de todo a idéa de ironia».
O snr dr. Theóphilo Braga, referindo-se, com desdem, á _sinceridade
inconsciente_ de Bruno, não nos magôa sómente a nós, que votamos uma
grande estima ao ilustre escritor portuense: ofende as Letras
Portuguêsas, que teem no snr. José Sampaio uma das suas mais legítimas
glórias.
Tristes processos está seguindo o snr. dr. Theóphilo Braga!
Delfim Guimarães
O snr. dr. Brito Camacho, dando hospitalidade nas colunas da _Lucta_ ao
nosso artigo, nòvamente pôs o seu jornal á disposição do snr. dr.
Theóphilo Braga, para que s. ex.^a, querendo, dissesse de sua justiça. O
professor do Curso Superior de Letras não aceitou o oferecimento que
pela segunda vez lhe era feito.
E, em verdade, que havia o autor do artigo _Movimento Litterário_ de
dizer em contestação do libelo documentado que tinhamos produzido?
Nenhuma justiça lhe assistia, e por consequência não ousou reclamar.
Recolheu-se ao silêncio,--áquele prudentíssimo silêncio que se seguiu á
publicação do notavel trabalho do Dr. Sílvio Romero sobre a _Patria
Portuguêsa_.
No artigo que publicamos na _Lucta_, de 3 de janeiro do ano em curso,
tomámos o compromisso de tratar em livro todos os pontos tocados pelo
snr. dr. Theóphilo Braga no seu aranzel do _Dia_, com a largueza e
documentação que o assunto exige, em homenagem á memória de Bernardim
Ribeiro; pelo dever moral que nos impusemos de contribuir, quanto em
nossas mingoadas forças caiba, para que justiça seja feita, embora
tardia, a um dos mais belos temperamentos poéticos da nossa terra.
Uma lenda é fácil de forjar, e com facilidade toma corpo e lança raizes,
obcecando muitas vezes os mais esclarecidos espíritos.
A nossa Historia Literária está cheia de lendas e embustes, graças aos
Farias e Sousa e Bernardos de Brito. Mas a Verdade, superior a todas as
lendas, e a todas as reputações de historiadores burlões e de críticos
trapaceiros, acaba sempre por triunfar, embora isso leve anos, embora
decorram séculos.
Na defeza da causa que prosseguimos, que é nobre e justa, não nos animam
quaesquer intuitos de evidenciação, não nos move qualquer mesquinho
sentimento de despeito; lutamos pela verdade, procuramos contribuir com
o nosso esforço de modestos obreiros das letras para desfazer um erro
que a ignorância engendrou, que a rotina não-te-ralesca impôs como um
dogma, e que a vaidade irritada e irritante do snr. dr. Theóphilo Braga
persiste em sustentar, a torto, que não a direito, impondo-o
autocraticamente a quantos vêem no professor do Curso Superior de Letras
o pontífice máximo, ditador inviolavel e sagrado da Republica... das
letras portuguêsas.
II
O snr. dr. Theóphilo Braga, descobrindo a verdade, e procurando
enterrá-la
Ao preparar os materiaes para a refundição de seu livro sobre Bernardim
Ribeiro, o snr. dr. Theóphilo Braga teve ensejo de reconhecer que a
figura do _trovador_ Cristovam Falcão era mero produto de uma lenda, mas
não teve a coragem precisa para vir a público declarar que tinha errado
ao dar á estampa o seu primeiro volume sobre os poetas bucolistas, em
que, seguindo a rotina, dera existência real ao suposto poeta, que já
havia classificado de *ultimo eco do alaúde provençal, modificado pelo
gosto hespanhol de Padron e Stuniga*.[3]
E não querendo confessar que errara, como se semelhante facto
constituisse desdoiro ou apoucasse de qualquer fórma seus méritos, o
autor do livro _Bernardim Ribeiro e o Bucolismo_ procurou, por um
processo que não nos atrevemos a chamar genial, enterrar a verdade,
sepultando-a sob um pedregulho enorme, para que ali dormisse um sono de
séculos, tantos séculos pelo menos como a lenda contava, para que,
assim, ninguem pudesse aludir ao erro em que se deixara enredar o
professor do Curso Superior de Letras.
Como o snr. dr. Theóphilo Braga procedeu, vão os leitores conhecer, e
depois ficarão habilitados a julgar da sinceridade com que o infatigavel
escritor impugna o nosso livro sobre o poeta _Crisfal_.
A pag. 356/7 do seu livro _Bernardim Ribeiro e o Bucolismo_, na parte
respeitante a Cristovam Falcão, escreveu o snr. dr. Theóphilo Braga:
*«O primeiro documento historico que encontramos acerca do poeta,
de um modo irrefragavel, é datado de 1517; é uma graça régia
motivada talvez pela sympathia que suscitava a sua desgraçada
paixão, ou apparentemente pelos serviços de seu pae. Em um alvará
ao Almoxarife de Coimbra foi passada ordem para que dê o rendimento
d'este anno de 1517 a Christovam Falcão: 97:000 réis. Recebeu-os o
seu procurador Mestre Jorge.»*
Como se vê da transcrição feita, o autor declarava que o documento
invocado referia-se ao suposto poeta *de um modo irrefragavel*, isto é:
«*irrecusavelmente, incontestavelmente*.» Esse documento dizia respeito,
segundo inculcava o snr. dr. Theóphilo Braga, a _uma graça régia_, mercê
de _97$000 réis_, concedida ao suposto bardo _talvez pela sympathia que
suscitava a sua desgraçada paixão, ou apparentemente pelos serviços de
seu pae_.
Ora fazendo taes afirmativas, autoritária e catedraticamente, o snr. dr.
Theóphilo Braga abusava da boa fé dos seus leitores, por isso que s.
ex.^a muito bem conhecia que estava deturpando a verdade, a seu
bel-prazer, que nada d'aquilo que apregoava como autêntico era
verdadeiro.
Nem o alvará de 1517 dizia respeito ao suposto poeta, nem semelhante
alvará mencionava a verba de 97$000 réis.
Tratava-se de uma tença de 97$734 reis (resultante de dois padrões) que
pertencia a Cristovam Falcão, senhor da vila de Pereira, e não ao
suposto poeta Cristovam Falcão de Sousa.
Ignorava, porventura, o snr. dr. Theóphilo Braga a existência dos dois
padrões constituitivos da referida tença?--Não ignorava. E a prova de
que os não desconhecia está nas citações que s. ex.^a faz a paginas
331/2 do seu mencionado livro, atribuindo-os a quem eles diziam
respeito, isto é a Cristovam Falcão, senhor da vila de Pereira, que nada
tinha que ver com o suposto poeta, como o snr. dr. Theóphilo Braga, de
resto, muito bem estabelecia.
Mas a existência de uma tença de 97$000 reis, pelas alturas de 1517, a
favor de Cristovão Falcão de Sousa, comprovaria de certo modo a data em
que o snr. dr. Theóphilo Braga fixou habilidosamente o nascimento do
_ultimo eco do alaúde_, e permitia ao fantasioso escritor justificar tam
rasgada mercê régia atribuindo-a á _sympathia que suscitava a sua
desgraçada paixão_.