Viriatho era sempre o primeiro que percorria o acampamento; a sua
presença era como um toque de alvorada. N'aquelle dia, que despontava
luminoso e sereno, não apparecera; como faltavam tambem os seus tres
Companheiros, facilmente imaginaram os Mil Soldurios que iria reconhecer
algum fôjo ou desfiladeiro para organisar uma emboscada contra o
exercito consideravel de Cepio. Mas o sol erguia-se; era dia claro, e a
barraca do Caudilho conservava-se fechada. Occorreu a ideia de verificar
se estaria cahido por doença; o que estava mais perto levantou resoluto
o panno da barraca, e viu o vulto de Viriatho estendido em cima da
relva, sobre póstas de sangue coalhado; e recuando com espanto:
--Está morto Viriatho! Apunhalado, apunhalado!
Aquelle brado sôou como um estalido de raio, quando, ao perto, fende o
ár ambiente; o trovão foi o rumor propagado entre os Soldurios e por
entre os Terços e Companhias, que formavam agora o pequeno exercito de
Viriatho.
--Apunhalado Viriatho! Morto Viriatho!
Para a barraca do general correram todos aterrados. Não compareceram
Ditálcon, Andaca e Minouro; eram os unicos que faltavam. Sem esforço
reconheceram que esses, a quem Viriatho considerava como os seus maiores
amigos, é que o tinham apunhalado traiçoeiramente, covardemente,
emquanto elle dormia!
Corriam lagrimas de desespero pelas faces dos velhos camaradas de
Viriatho n'esta campanha de dez annos pela independencia da terra lusitana.
A barraca foi desmantelada, e ficou patente aos olhos de todos o corpo
inanime de Viriatho estendido como se tivesse passado instantaneamente
do somno da vida para o da morte; via-se-lhe o golpe profundo do pescoço
dado por mão certeira, a que teria succumbido rapidadamente e quasi sem
agonia. Sobre o sangue derramado em cima de que jazia, e a seu lado,
estava estendida a espada, que o acompanhava sempre, espada invencivel,
á qual attribuiam poderes maravilhosos. Vendo a espada, e não se
atrevendo nenhum dos Soldurios a tomal-a na mão, diziam entre si:
--Agora comprehendemos as vozes que corriam: Viriatho não morreu em
batalha; assim lhe estava vaticinado.
--Mas o oraculo, que lhe parecia favoravel, deixára no vago a hypothese
atroz, de morrer apunhalado á traição pelos seus melhores amigos!
--Antes vencido e morto na refrega, no sacrificio voluntario da vida por
uma ideia, do que esta sorte miseranda.
E por todo o exercito, em grupos, que se formavam em tamanha desolação,
levantavam-se alaridos, prantos de terror e de magoa; bem reconheciam
que aquelle desastre era a perdição de todos, e que sem o chefe
prestigioso achavam-se á mercê do Consul romano, e para muitos annos
abafada a resistencia da Lusitania. Na angustia em que todos se viam, a
pouca distancia do exercito de Quinto Servilio Cepio, o desespero da
situação causava uma apathia, uma obnubilação para planear a defeza
urgente.
N'este momento, afastando os grupos que cercavam o corpo de Viriatho,
chegou Tantalo, um dos bravos em que mais confiava o Caudilho, e
collocando-lhe a espada entre as mãos, cruzada sobre o peito, exclamou:
--Morreu o teu corpo, mas permanece imperecivel o teu ideal. Esta Espada
transmittirá o esforço, truncado pela traição, áquelle que cedo ou tarde
servir a aspiração de uma Lusitania livre.
E voltando-se para o exercito, que parecia reanimado por estas palavras:
--O que temos a fazer agora, e primeiro que tudo, é prestar a Viriatho
as honras do funeral.
Emquanto se davam as ordens para realizarem de prompto, com a maior
solemnidade, a lugubre cerimonia, no arraial dos romanos levantavam-se
cantos de acclamação triumphal, que eccoavam de quebrada em quebrada:
--Acabou a Guerra da Lusitania. Morreu Viriatho! Morreu Viriatho.