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Era noite velha, quando Ditálcon, Andaca e Minouro regressaram ao

acampamento de Viriatho. Demoraram-se mais tempo do que o Cabecilha

imaginára, revolvendo por vezes na mente que fortes motivos ou rasões

politicas se debatiam na barraca do general romano, para lá se deterem.

De vez em quando occorria-lhe a conjectura de que Cepio, não

reconhecendo a inviolabilidade dos seus parlamentarios, os teria mandado

passar pelas armas, ou pelo menos os guardava como prisioneiros, como

refens para lhe impôr condições de rendição. N'esta prolongada

preoccupação de espirito, e sob a pressão dos inesperados

acontecimentos, que só poderiam ser contrabalançados pela energia e pela

astucia, Viriatho cahiu em um somno profundo, como aquelle em que se

fica immerso antes de caminhar para a morte. Embora profundo, o somno

era agitado, como em homem costumado a estar álerta mesmo quando

descansava; e n'essa agitação, debatia-se Viriatho com um pezadello, um

sonho, que sem differença e por fatalidade coincidia com o que estava

prestes a acontecer. Na agitação d'aquelle somno dormido sobre a terra

recalcada poucas horas antes pelos cavallos, Viriatho sentia os passos

dos seus tres Companheiros, que se aproximavam silenciosamente da

barraca em que estava dormindo; um d'elles, Minouro, afastou o panno e

entrou escondendo de traz das costas um punhal de dois gumes. N'aquella

anciedade cataleptica, Viriatho quiz erguer-se, gritar, mas era

impossivel qualquer movimento; em seguida entrou Ditálcon, e Andaca

ficou quasi da parte de fóra, mas era ainda visto claramente. Sob o

terror do sonho que o opprimia, Viriatho viu Minouro curvar-se sobre

elle, e erguendo ao ár o braço com o punhal descarregar o golpe...

N'esse momento de extrema angustia acorda, e entre a illusão e a

realidade, sentiu um golpe vibrado fortemente no pescoço; antes que o

sangue lhe embaraçasse a voz, Viriatho, abrindo os olhos attonitos, pôde

proferir as palavras:

--O meu maior amigo? Minouro...

Os borbotões de sangue que lhe encheram internamente o peito e

respingaram pelos pannos da barraca, não deixaram que podesse mais

exprimir-se, e ficou exanime, arquejando, até ao ultimo alento, passando

assim, horrorosamente, de um sonho tremendo, em que Viriatho, pela sua

lealdade, não ousaria acreditar, para a realidade tragica e affrontosa,

que ia actuar como uma eterna calamidade sobre o futuro da Lusitania.

A morte de Viriatho fez-se com rapidez e segurança; os tres Companheiros

da Trimarkisia sahiram da barraca sem ruido, e simulando ordens

recebidas de Viriatho montaram nos seus cavallos e partiram á desfilada

para o arraial romano. Cepio estava dormindo; um Cavalleiro foi

acordal-o, e dizer-lhe:

--Morreu Viriatho!

Quinto Servilio Cepio, voltando-se sobre o lado direito para continuar o

somno, deu ordem ao Cavalleiro:

--Que esses entes abjectos esperem lá fora, até que seja dia.

Viriatho: Narrativa epo-historica · 第 61 / 81 题